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Poderia se repetir?Despertai! — 2005 | 22 de dezembro
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Poderia se repetir?
QUANDO olhamos para trás, a época talvez pareça cheia de glamour. No Ocidente, por exemplo, viam-se nas ruas carruagens, cavalheiros de cartola e senhoras com saias longas e rodadas. Mas era também uma época aterrorizante em que a morte marchava através do mundo. A causa?
Não era a guerra, embora ela estivesse assolando. Estamos falando de outro flagelo, que foi considerado o mais destrutivo de toda a história humana já registrada — a gripe espanhola, ou influenza, de 1918-19.
As vítimas morriam em massa pois não havia cura nem tratamento eficaz. A vida de milhões de jovens saudáveis era inesperadamente ceifada na fase mais produtiva de suas vidas. Os cadáveres acumulavam-se mais rápido do que podiam ser enterrados. Em alguns lugares, cidades e povoados inteiros foram dizimados.
Isso ocorreu há cerca de 85 anos. Sabemos o que causou aquela doença? Será que um desastre assim poderia se repetir? Se isso acontecer, teremos como nos proteger?
Há ainda outro aspecto interessante sobre esse assunto. Você sabia que a Bíblia muito tempo atrás já dizia algo sobre as epidemias que temos visto em nossa época? (Lucas 21:11; Revelação [Apocalipse] 6:8) Será que a gripe espanhola fez parte do cumprimento de profecias bíblicas? Respostas a essas e outras perguntas serão consideradas nos artigos seguintes.
[Foto na página 3]
Preparativos para o enterro de vítimas da gripe espanhola, Filadélfia, EUA
[Crédito]
Biblioteca do Instituto de Médicos da Filadélfia
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A pior epidemia da históriaDespertai! — 2005 | 22 de dezembro
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A pior epidemia da história
A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL ainda não tinha acabado em outubro de 1918. Embora as hostilidades estivessem chegando ao fim, a imprensa continuava sob censura. Por isso, foi a Espanha, que não estava participando da guerra, que noticiou que civis em muitos lugares estavam adoecendo e morrendo em números alarmantes. Essas circunstâncias deram origem ao nome pelo qual a doença seria para sempre conhecida — gripe espanhola.
A pandemia começou em março de 1918.a Muitos pesquisadores localizam sua origem no Estado do Kansas, EUA. De lá, ela aparentemente alcançou a França por meio de soldados americanos recém-chegados. Após um súbito aumento nas mortes causadas pela gripe, também chamada influenza, em julho de 1918 parecia que o pior já tinha passado. Mal sabiam os médicos que a pandemia estava apenas juntando forças para se tornar ainda mais letal.
O mundo exultou com o fim da Primeira Guerra Mundial, em 11 de novembro de 1918. Ironicamente, quase ao mesmo tempo, a pestilência irrompeu no mundo todo. Era um monstro que agora aparecia nas manchetes internacionais. Poucos que viviam na época escaparam ilesos, e todos ficaram aterrorizados. Uma respeitada autoridade sobre o assunto observou: “A expectativa de vida nos Estados Unidos diminuiu em mais de dez anos em 1918.” O que diferenciou essa doença de outras?
Uma doença sem comparação
Uma das diferenças mais alarmantes foi a rapidez com que a gripe atacou. Com que rapidez? No recente livro The Great Influenza (A Grande Influenza), o autor John Barry cita um registro sobre isso: “No Rio de Janeiro, o estudante de medicina Ciro Viera da Cunha estava esperando o bonde quando um homem, num tom de voz normal, lhe pediu informações e, logo depois, caiu morto. Na Cidade do Cabo, África do Sul, quando Charles Lewis tomou o bonde de volta para casa, que ficava a 5 quilômetros, o cobrador caiu morto. Durante esse curto trajeto, seis pessoas que estavam no bonde morreram, incluindo o condutor.” Todos morreram por causa da gripe.
Também havia o terror — medo do desconhecido. A ciência não sabia explicar a causa da doença ou exatamente como se espalhava. Foram tomadas medidas de saúde pública: portos ficaram de quarentena, cinemas, igrejas e outros locais onde as pessoas se reuniam foram fechados. Por exemplo, em San Francisco, Califórnia, EUA, as autoridades ordenaram que a população usasse máscaras de proteção. Quem fosse apanhado em público sem a máscara era multado e até preso. Mas parecia que nada dava certo. Essas providências foram simplesmente insuficientes e tardias.
O fato de a gripe atacar indiscriminadamente também causava medo. Por motivos ainda não explicados, a pandemia de 1919, em vez de atacar principalmente os idosos, atacou e matou jovens saudáveis. A maioria dos que morreram da gripe espanhola tinha entre 20 e 40 anos.
Além disso, a doença era, de fato, uma epidemia global. Chegou até às ilhas tropicais. Em 7 de novembro de 1918, a gripe foi levada a Samoa Ocidental (atualmente conhecida como Samoa) por navio e, em dois meses, cerca de 20% da população de 38.302 pessoas tinha morrido. Todos os grandes países do mundo foram dramaticamente afetados!
Também havia a enormidade do flagelo. Por exemplo, a doença chegou rápido e com muita força na Filadélfia, Pensilvânia, nos EUA. Em meados de outubro de 1918, não havia caixões suficientes. “Certo fabricante disse que teria vendido 5 mil caixões em duas horas, se os tivesse disponíveis. Às vezes o necrotério tinha dez vezes mais corpos do que caixões”, diz o historiador Alfred Crosby.
Num tempo relativamente curto, a gripe tinha matado mais gente do que qualquer outra pandemia na história humana. Uma estimativa do número de mortos em todo o mundo era de 21 milhões, mas alguns especialistas acham que esse número é pequeno. Certos epidemiologistas sugerem atualmente que um número mais provável seja 50 milhões de mortos ou talvez 100 milhões! Barry, já mencionado, observa: “A influenza matou mais pessoas em um ano do que a Peste Negra da Idade Média em um século; matou mais pessoas em 24 semanas do que a Aids em 24 anos.”
O impressionante é que, em cerca de um ano, mais americanos morreram de gripe espanhola do que nas duas guerras mundiais juntas. A escritora Gina Kolata explica: “Se uma epidemia desse tipo atacasse hoje, matando a população americana na mesma proporção, 1,5 milhão de pessoas morreriam. Isso é mais do que a soma do número de pessoas que morrem por causa de doenças cardíacas, câncer, derrame, doença pulmonar crônica, Aids e mal de Alzheimer num ano.”
Resumindo, a gripe espanhola foi a pior pandemia da história da humanidade. O que a ciência fez para ajudar?
A ciência não pôde fazer nada
Por volta do início da Primeira Guerra Mundial, a ciência médica aparentemente tinha feito grandes avanços no combate a doenças. Mesmo durante a guerra, os médicos se orgulharam do sucesso na redução dos efeitos de doenças infecciosas. Na época, a revista The Ladies Home Journal declarou que os americanos não precisavam mais usar a sala como velório. A revista sugeriu que esses locais fossem usados mais pelos vivos do que pelos mortos. Mas então veio a gripe espanhola, e a medicina mostrou-se quase que totalmente impotente.
Crosby escreve: “Todos os médicos de 1918 compartilharam o maior fracasso da medicina no século 20, ou em todos os tempos, se avaliarmos o número de mortes.” Para não pôr toda a culpa na medicina, Barry observa: “Na época, os cientistas entendiam muito bem a dimensão da ameaça da gripe, sabiam curar pneumonias bacterianas secundárias e deram conselhos sobre saúde pública que salvariam dezenas de milhares de americanos. Mas os políticos ignoraram os conselhos.”
E agora, cerca de 85 anos depois, o que se sabe sobre essa pandemia? O que a causou? Poderá acontecer de novo? Se acontecesse, seria possível combatê-la com sucesso? Talvez se surpreenda com algumas respostas.
[Nota(s) de rodapé]
a Epidemia é um surto de determinada doença em certa localidade; pode ser numa comunidade, cidade ou até num país inteiro. Pandemia é uma epidemia global.
[Destaque na página 6]
A maioria dos que morreram da gripe espanhola tinha entre 20 e 40 anos
[Foto na página 4]
Uma turma de alunos em 1919; Canon City, Colorado, EUA
[Crédito]
Cortesia, Colorado Historical Society, 10026787
[Foto nas páginas 4, 5]
Policial
[Crédito]
Foto da Topical Press Agency/Getty Images
[Foto na página 5]
Jogadores de beisebol com máscaras de proteção
[Crédito]
© Underwood & Underwood/CORBIS
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O que sabemos hoje sobre a gripeDespertai! — 2005 | 22 de dezembro
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O que sabemos hoje sobre a gripe
EM 1997, um cientista e mais quatro ajudantes esquimós desenterraram o corpo duma jovem da camada de terra congelada no povoado de Brevig, na península Seward, Alasca. Ela estava lá desde 1918, quando caiu vítima da gripe.
Por que examiná-la depois de morta? O cientista esperava que o agente causador da gripe ainda estivesse em seus pulmões e que, por meio de técnicas genéticas avançadas, pudesse ser isolado e identificado. Por que esse conhecimento pode ser útil? Para responder, precisamos entender um pouco mais sobre como os vírus funcionam e o que os torna tão perigosos.
Um vírus capaz de matar
Atualmente sabemos que a gripe, ou influenza, é causada por um vírus que pode espalhar-se por meio de secreções respiratórias expelidas por tosse, espirro ou ao conversar.a O vírus está presente no mundo inteiro, até mesmo nos trópicos, onde pode manifestar-se em qualquer época do ano. No Hemisfério Norte, o período de maior ocorrência da gripe é de novembro a março; e no Hemisfério Sul, de abril a setembro.
O vírus influenza tipo A, o tipo mais perigoso, é pequeno em comparação com outros vírus. Geralmente é esférico, com algumas saliências na superfície. Quando o vírus infecta uma célula humana, se reproduz tão rápido que, em cerca de dez horas, entre 100 mil e 1 milhão de novas “cópias” do vírus rompem a célula e saem.
A característica assustadora desse organismo simples é sua alta velocidade de mutação. Como o vírus se reproduz muito rápido (muito mais rápido do que o HIV), suas “cópias” não são exatas. Algumas são diferentes a ponto de não serem detectadas pelo sistema imunológico. É por isso que enfrentamos diferentes vírus gripais todo ano, cada um com um novo conjunto de antígenos que desafiam nossa imunidade. Se os antígenos mudarem o suficiente, nosso sistema imunológico terá poucas defesas contra o vírus e há o risco duma pandemia.
Além disso, os vírus da gripe também infectam animais, e é aí que está o problema para os humanos. Acredita-se que o porco possa ser hospedeiro de vírus que infectam galinhas e patos, mas também, de vírus que infectam os humanos.
Assim, se um porco ficar infectado com os dois tipos de vírus ao mesmo tempo, um que infecta animais e outro que infecta humanos, os genes dos dois vírus podem se misturar, resultando numa cepa, ou variação, totalmente nova de influenza, à qual os humanos não têm imunidade. Alguns acham que comunidades rurais onde aves, suínos e pessoas vivem em proximidade — como é bem comum na Ásia, por exemplo — são prováveis fontes de novas cepas de vírus da gripe.
Por que se tornou tão mortal?
A dúvida é o que poderia ter tornado o vírus de 1918-19 um causador de pneumonia mortal em pessoas jovens. Apesar de não ter restado nenhum vírus daquela época vivo, já há muito tempo os cientistas achavam que, se encontrassem um espécime congelado do vírus, poderiam isolar seu RNA intacto e descobrir o que o tornou tão mortal. Eles realmente tiveram sucesso até certo ponto.
Graças ao espécime congelado obtido no Alasca, descrito no início deste artigo, uma equipe de cientistas conseguiu identificar e seqüenciar a maior parte dos genes do vírus de 1918-19. No entanto, os cientistas ainda não descobriram o que fez com que ele fosse tão mortal. Aparentemente, aquela cepa tinha parentesco com um vírus que infecta porcos e aves.
Poderá acontecer de novo?
Segundo muitos especialistas, a questão não é se um vírus violento vai retornar mas sim, quando e como isso vai acontecer. De fato, alguns estimam que um surto relativamente grande de influenza aconteça a cada 11 anos, e um surto severo, a cada 30 anos aproximadamente. De acordo com essas estimativas, o prazo para o surgimento duma nova pandemia já se esgotou.
A revista médica Vaccine noticiou em 2003: “Já se passaram 35 anos desde a última pandemia de influenza, e o período mais longo já registrado com precisão entre duas pandemias é de 39 anos.” O artigo acrescenta: “O vírus causador da pandemia pode surgir na China ou num país vizinho e incluir antígenos e características de virulência provenientes de vírus que atacam animais.”
A revista previu acerca do vírus: “Ele vai se espalhar rapidamente pelo mundo todo. Acontecerão várias ondas de infecção. A morbidade será abrangente em todas as idades e haverá interrupção de atividades sociais e econômicas em todos os países. A enorme mortalidade será evidente na maioria das faixas etárias, para não dizer em todas. É improvável que os sistemas de saúde consigam lidar adequadamente com a demanda por assistência médica, mesmo nos países mais desenvolvidos em sentido econômico.”
Até que ponto esse quadro é alarmante? John Barry, autor do livro The Great Influenza (A Grande Influenza), fornece a seguinte descrição: “Um terrorista com uma arma nuclear em mãos é o pesadelo de todo líder político; uma nova pandemia de influenza também deveria ser.”
Quais os tratamentos disponíveis?
Talvez queira saber: ‘Há tratamentos eficazes atualmente?’ A resposta a essa pergunta traz boas e más notícias. Os antibióticos podem diminuir a mortalidade causada por pneumonias bacterianas secundárias, e certas medicações podem ser eficazes contra alguns tipos de gripe. Há vacinas que podem ser úteis no combate ao vírus da gripe se ele for identificado corretamente e se a vacina for produzida a tempo. Essas são as boas notícias. As más?
A história das vacinações contra gripe — desde o controverso e infeliz episódio da gripe suína, em 1976, à falta de vacinas em 2004 — não tem sido muito boa. Embora a medicina tenha avançado muito desde a Primeira Guerra Mundial, os médicos ainda não conhecem nenhuma cura para um vírus poderoso.
Assim, surge a inquietante pergunta: O que aconteceu em 1918-19 poderia se repetir? Veja o que o Instituto Nacional de Pesquisas Médicas, de Londres, diz: “Em certos aspectos, as condições do mundo ainda são como eram em 1918: enorme volume de viagens internacionais por causa do desenvolvimento dos meios de transporte; várias zonas de guerra com os inerentes problemas de desnutrição e higiene precária; crescimento da população mundial, que chegou a 6,5 bilhões, com uma proporção maior vivendo em cidades, muitas delas com infra-estrutura decadente para eliminação de lixo.”
Um respeitado especialista americano conclui: “Em termos simples, a cada ano que passa, estamos mais perto da próxima pandemia.” Mas, será que isso significa que o futuro é obscuro, até mesmo sem esperança? Não!
[Nota(s) de rodapé]
a O livro Viruses, Plagues, and History (Vírus, Pestes e História) diz: “Os italianos adotaram o termo influenza por volta do ano 1500 para doenças atribuídas à ‘influência’ das estrelas.”
[Foto na página 8]
Novas cepas do vírus da gripe podem surgir em comunidades rurais
[Crédito]
BAY ISMOYO/AFP/Getty Images
[Foto nas páginas 8, 9]
Vírus influenza tipo A
[Crédito]
© Science Source/ Photo Researchers, Inc
[Foto na página 9]
Cientistas examinaram espécimes do vírus de 1918-19
[Crédito]
© TOUHIG SION/CORBIS SYGMA
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