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Derrame!Despertai! — 1998 | 8 de fevereiro
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Derrame!
O DERRAME (acidente vascular cerebral) é uma das causas mais comuns de morte e debilidade crônica no mundo industrializado ocidental. Acontece repentinamente. Você pode estar se sentindo muito bem num dado momento e, no momento seguinte, ter a sensação de ter sido atingido por um raio. Um derrame grave pode mudar abrupta e dramaticamente a sua vida. Ele estropia e deforma cruelmente a vítima (que pode perder a fala), desorganiza as suas emoções, altera a sua personalidade e a sua capacidade de percepção e lança-a numa luta aparentemente infindável para recuperar a vida normal para si mesma e sua família.
Veja o caso de Helena Silva.a Na quarta-feira, ela era uma mulher sadia e ativa, de 64 anos. Na quinta-feira, ao fazer compras com seu marido, de repente perdeu a fala e ficou com o rosto torto. Seu corpo enfraqueceu, e ela cambaleava como se estivesse embriagada. Estava sofrendo um derrame grave.
O derrame deixou Helena incapacitada para fazer até mesmo as coisas mais banais, como banhar-se ou vestir-se. Sem poder escrever, tricotar ou costurar, ela sofria crises de choro incontroláveis e fadiga total. Com tudo isso, porém, as suas faculdades de raciocínio não foram afetadas. No entanto, ela sentia-se constrangida ao imaginar que outros talvez a encarassem como debilóide. Mais tarde, ela explicou: “Poucos imaginam quanto o golpe dessa mudança repentina afeta emocional e psicologicamente a pessoa. Eu quase me sentia como se isso fosse o fim da minha existência como pessoa.”
Qual é a causa do derrame? Sofrem todas as vítimas os mesmos efeitos? Como os sobreviventes enfrentam essa doença? Como enfrentam os familiares dos sobreviventes essa situação? Que apoio podemos todos nós dar? Despertai! examina essas questões e dá aos seus leitores uma visão de como é a vida dos sobreviventes de derrame e seus familares, solidários na luta.
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As causas do derrameDespertai! — 1998 | 8 de fevereiro
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As causas do derrame
“O CÉREBRO é o órgão mais delicado do corpo”, diz o neurologista Dr. Vladimir Hachinski, da Universidade de Ontário Ocidental, em London, Canadá. Com apenas 2% do peso do corpo, o cérebro abriga mais de dez bilhões de células nervosas (neurônios), que se comunicam permanentemente para produzir cada um de nossos pensamentos, movimentos e sensações. Como fonte de energia, o cérebro recebe um suprimento constante de oxigênio e glicose por meio de um complexo sistema de artérias.
Mas, se uma pequena área do cérebro ficar sem oxigênio, mesmo por alguns segundos, delicadas funções neuroniais serão prejudicadas. Se durar mais do que alguns minutos, resultarão danos cerebrais, à medida que células cerebrais começarem a morrer, junto com as funções que elas controlam. Essa condição chama-se isquemia, a falta de oxigênio causada principalmente por bloqueio arterial. O tecido cerebral sofre outros danos à medida em que a privação de oxigênio dispara uma cascata mortífera de reações químicas. O resultado é um acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico. Há também o AVC hemorrágico, que decorre da ruptura de vasos sanguíneos, que inundam o cérebro de sangue e cortam os caminhos de conexão. Isso interrompe os fluxos químicos e elétricos para os músculos e lesiona o tecido cerebral.
Seus efeitos
Não há dois derrames iguais, e seus efeitos são praticamente ilimitados. Embora ninguém sofra todas as conseqüências possíveis de um derrame, os efeitos vão de brandos e quase imperceptíveis a graves e dolorosamente óbvios. A área do cérebro em que o derrame ocorre determina que funções do corpo serão prejudicadas.
Um mal comum é a fraqueza ou a paralisia dos braços e das pernas. Isso geralmente limita-se a um lado do corpo, o lado oposto ao lado do cérebro em que o derrame acontece. Assim, os danos no lado direito do cérebro resultam em paralisia no lado esquerdo do corpo, e os danos no lado esquerdo do cérebro em paralisia no lado direito do corpo. Alguns talvez retenham as funções dos braços e das pernas, mas verificam que seus músculos tremem tanto que parece que seus membros se movimentam cada qual na sua própria direção. A vítima parece um patinador novato tentando equilibrar-se. O Dr. David Levine, do Centro Médico da Universidade de Nova York, diz: “Eles perderam o tipo de sensação que lhes diz se seu membro está ou não se movimentando e em que posição se encontra.”
Mais de 15% dos sobreviventes sofrem conseqüências, como episódios de movimentos sem controle e, em geral, períodos de coma. Comum também são dores, bem como alterações nas sensações. Um sobrevivente de derrame, que sente constante dormência nas mãos e nos pés, diz: “Há noites em que algo ‘toca’ minhas pernas e eu acordo com a sensação de estar recebendo choques elétricos.”
As seqüelas de um derrame podem incluir visão dupla e problemas de deglutição. Se os centros sensores da boca e da garganta estiverem lesados, as vítimas talvez sofram de outras perdas de dignidade, como babar-se. Qualquer um dos cinco sentidos pode ser afetado, causando distúrbios na visão, na audição, no olfato, no paladar e no tato.
Problemas de comunicação
Imagine ser seguido numa rua mal iluminada por duas enormes figuras estranhas. Olhando para trás de relance, você as vê correndo em sua direção. Você tenta gritar por socorro, mas não sai voz nenhuma! Pode imaginar a extrema frustração que sentiria nessa situação? É isso o que muitas vítimas de derrame sentem quando subitamente perdem a capacidade de falar.
Ser incapaz de comunicar pensamentos, sentimentos, esperanças e temores — ficar simbolicamente isolado dos amigos e da família — é uma das piores conseqüências do derrame. Um sobrevivente contou: “Toda vez que eu tentava dizer algo, não saía nada. Fui obrigado a ficar calado e não conseguia decifrar comandos verbais ou escritos. As palavras soavam . . . como se as pessoas falassem uma língua estrangeira. Eu não conseguia compreender nem usar a linguagem.”
Carlos, porém, entendia tudo o que lhe falavam. Mas, quanto a responder, ele escreveu: “Eu formulava as palavras que queria dizer, mas elas saíam desordenadas e truncadas. Aí eu me sentia encurralado dentro de mim mesmo.” Em seu livro Stroke: An Owner’s Manual (Derrame: Manual do ‘Proprietário’), Arthur Josephs explica: “Mais de cem músculos diferentes são controlados e coordenados durante a fala, e cada um desses músculos é controlado por uma média de mais de cem unidades motoras. . . . Estonteantes 140.000 eventos neuromusculares [são] necessários para cada segundo de fala. É de admirar que um dano numa parte do cérebro que controla esses músculos resulte em linguagem truncada?”
O derrame produz muitos fenômenos de linguagem intrigantes. Por exemplo, uma pessoa incapacitada de falar talvez consiga cantar. Outra talvez enuncie palavras por impulso, mas não sob comando, ou, por outro lado, fale sem parar. Outras repetem sempre as mesmas palavras ou frases, ou usam mal as palavras, dizendo “sim” quando querem dizer “não”, e vice-versa. Algumas sabem que palavras querem usar, mas o cérebro não aciona a boca, os lábios e a língua para proferi-las. Ou talvez as pronunciem indistintamente, devido à fraqueza muscular. Alguns pontuam as palavras em tons explosivos.
Outro dano do derrame pode ser uma lesão na área do cérebro que comanda o estado emocional. O resultado pode ser uma linguagem que soe insípida. Ou pode haver dificuldade em compreender o estado emocional de outros. Dificuldades de comunicação como essas e as mencionadas acima podem criar uma barreira entre os familiares, como marido e esposa. Jorge explica: “Visto que o derrame afeta as expressões faciais e os gestos — realmente a personalidade inteira — nós subitamente não mais nos dávamos bem como antes. Minha esposa parecia uma pessoa totalmente diferente, que eu tinha de conhecer de novo.”
Alterações emocionais e de personalidade
Mudanças de humor impróprias, acessos de choro e de riso, ira extrema, estranhos sentimentos de suspeita e tristeza esmagadora são apenas parte dos desnorteadores distúrbios emocionais e de personalidade que os sobreviventes de derrame e seus familiares talvez tenham de encarar.
Gilbert, vítima de derrame, relata: “Às vezes, fico emotivo, rindo ou chorando por qualquer coisinha. Vez por outra, quando rio, alguém pergunta: ‘De que é que você está rindo?’, e eu realmente não sei dizer.” Isso, além da falta de equilíbrio e um leve manquejar, levou Gilbert a dizer: “Sinto como se estivesse no corpo de outra pessoa, como se eu fosse outro indivíduo, não o mesmo que era antes do derrame.”
Convivendo com alterações da mente e do corpo, poucos, se é que alguém, conseguem escapar da sensação de convulsão emocional. Hiroyuki, cujo derrame causou-lhe impedimento de fala e paralisia parcial, comenta: “Mesmo com o tempo, eu simplesmente não melhorava. Sabendo que não poderia mais trabalhar como antes, me desesperei. Passei a acusar coisas e pessoas, e minhas emoções pareciam querer explodir. Eu não me comportava como homem.”
Medo e ansiedade são comuns a vítimas de derrame. Helena observa: “Sinto insegurança quando sofro pressão na cabeça, que poderia ser um sinal de futuro derrame. Fico realmente com medo, se me permito pensar negativamente.” Ron explica a sua ansiedade: “Tirar conclusões certas é quase impossível, às vezes. Tentar resolver dois ou três probleminhas ao mesmo tempo me frustra. Esqueço as coisas tão depressa que, às vezes, não me lembro de uma decisão que tomei minutos antes. Assim, cometo erros incríveis, o que constrange a mim e a outros. Como estarei daqui a alguns anos? Serei incapaz de conversar lucidamente ou dirigir automóvel? Serei uma carga para minha esposa?”
A família também é vítima
Pode-se ver, portanto, que não são apenas as vítimas de derrame que precisam atracar-se com as suas conseqüências devastadoras. Os membros de sua família também precisam. Há casos em que têm de enfrentar o choque terrível de ver um indivíduo outrora articulado e capaz de repente deteriorar-se diante de seus olhos, reduzido à condição semelhante à de uma criancinha dependente. Pode haver estremecimento de relações, à medida que os familiares talvez tenham de assumir papéis que lhes são estranhos.
Haruko descreve os efeitos trágicos disso: “Meu marido perdeu a memória sobre quase tudo que é importante. Subitamente, tivemos de livrar-nos da empresa que ele dirigia e perdemos a nossa casa e os nossos bens. Minha maior aflição foi não poder mais ter uma conversa normal com ele, nem poder recorrer aos seus conselhos. Confundindo o dia com a noite, ele muitas vezes tira fraldas protetoras necessárias à noite. Embora soubéssemos que viria o tempo em que ele ficaria reduzido a esse estado, ainda é duro aceitarmos essa realidade. A nossa situação ficou totalmente invertida, pois agora eu e minha filha é que somos as guardiães de meu marido.”
“Cuidar de alguém que teve um derrame — por mais que você o ame — pode ser esmagador, às vezes”, observa Elaine F. Shimberg em Strokes: What Families Should Know (O Que as Famílias Devem Saber a Respeito de Derrames). “A pressão e a responsabilidade não se atenuam.” O alto nível de atendimento dispensado por alguns familiares ao doente pode prejudicar a saúde, as emoções e a espiritualidade de quem dá esse atendimento. Maria explica que o derrame de sua mãe teve um impacto terrível na sua vida: “Eu a visito todos os dias e procuro edificá-la espiritualmente, lendo e orando junto com ela, depois cobrindo-a de amor, abraços e beijos. Chego em casa emocionalmente esgotada — alguns dias a ponto de vomitar.”
O difícil para alguns cuidadores é a mudança de comportamento do doente. O neuropsicólogo Dr. Ronald Calvanio disse a Despertai!: “Ao lidarmos com uma doença que afeta altas funções corticais — isto é, como a pessoa pensa, como conduz a sua vida, suas reações emocionais — estamos lidando com a própria essência da pessoa. Assim, em certos sentidos, os resultantes danos psicológicos realmente mudam dramaticamente o universo da família.” Yoshiko relata: “Parece que meu marido mudou totalmente depois da doença, enfurecendo-se por qualquer coisinha. Fico arrasada quando isso acontece.”
Muitas vezes, as mudanças de personalidade não são percebidas pelos de fora da família. Assim, alguns cuidadores sentem-se isolados e carregam o fardo sozinhos. Midori explica: “Os derrames causaram distúrbios mentais e emocionais em meu marido. Embora ele necessite muito de encorajamento, não fala com ninguém sobre isso e sofre sozinho. Assim, sobra para mim lidar com as emoções dele. Vigiar seu estado de espírito todos os dias deixa-me apreensiva e, às vezes, até com medo.”
De que maneira muitos sobreviventes e seus familiares enfrentam as mudanças na vida causadas por um derrame? Como pode cada um de nós ajudar as vítimas dos efeitos debilitantes de um derrame? O nosso próximo artigo explica isso.
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As causas do derrameDespertai! — 1998 | 8 de fevereiro
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SINAIS DE AVISO
• Fraqueza repentina, dormência, ou paralisia da face, do braço ou da perna, especialmente num lado do corpo.
• Repentina visão anuviada ou turva, especialmente num olho; um episódio de visão dupla.
• Dificuldade em falar ou entender até mesmo as sentenças mais simples.
• Tontura ou perda de equilíbrio ou de coordenação, especialmente se combinada com outro sintoma.
Sintomas menos comuns
• Repentina, inexplicável e intensa dor de cabeça — muitas vezes descrita como “a pior dor de cabeça que já tive”.
• Repentina náusea e febre — diferente de uma doença virótica pela velocidade de ataque (minutos ou horas, em vez de dias).
• Breve perda de consciência ou um período de diminuído estado alerta (desmaio, confusão, convulsões, coma).
Não ignore os sintomas
Para o Dr. David Levine, se os sintomas se manifestarem, o paciente “deverá procurar o mais rápido possível o setor de emergência de um hospital. Há evidência de que se um derrame for tratado nas primeiras horas os danos podem ser minimizados”.
Às vezes, os sintomas manifestam-se num espaço de tempo bem curto e desaparecem em seguida. Esses episódios são conhecidos como ataques isquêmicos transitórios. Não os ignore, pois podem indicar graves riscos de derrame, e um derrame pleno pode acontecer em seguida. O médico pode tratar as causas e ajudar a reduzir os riscos de um futuro derrame.
Adaptado de diretrizes fornecidas pela Associação Nacional de Derrame, Englewood, Colorado, EUA.
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A luta contra os seus efeitosDespertai! — 1998 | 8 de fevereiro
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A luta contra os seus efeitos
DEITADO num leito de hospital com um braço e uma perna paralisados, Gilbert perguntou ao médico: “Será que vou recuperar as funções do meu braço e da minha perna?” Ele ouviu a resposta desafiadora: “Quanto maior o seu esforço, tanto maior e mais rápida será a sua recuperação.” Gilbert respondeu: “Vamos começar!” A fisioterapia conjugada com uma atitude positiva levaram-no, aos 65 anos, da cadeira de rodas ao andador, do andador à bengala e, finalmente, de volta ao trabalho.
“A maioria dos programas de reabilitação pós-derrame segue o conceito de que, se uma área do cérebro sofrer dano, outros centros [no cérebro] poderão assumir o papel do tecido lesionado. Um dos objetivos da terapia é explorar o potencial desses centros não afetados, bem como prover o estímulo que permita ao cérebro reorganizar-se e adaptar-se”, dizem os pesquisadores Weiner, Lee e Bell. Mas a recuperação depende também de outros fatores, como a área atingida e a gravidade do derrame, a saúde geral da pessoa, a qualidade do tratamento médico e o apoio de terceiros.
Apoio da família e de amigos
Érica fez exercícios de reabilitação por três anos, reaprendeu a andar e desenvolveu o uso da mão direita para compensar a esquerda incapacitada. Ela diz o que a ajudou: “O mais importante foi a lealdade de meu marido e de meus amigos. Saber que me amavam dava-me força, e o incentivo deles para que eu não desistisse me motivava.”
Os familiares tornam-se parceiros na recuperação do ente querido. Devem observar como se faz e indagar a equipe médica a respeito de terapias que talvez tenham de ser continuadas em casa, para não perder os ganhos já adquiridos. A paciência, bondade, compreensão e afeto dos familiares e dos amigos provêem um clima emocional seguro para reaprender a falar, a ler e outras funções do cotidiano.
Sem ser exigente demais nem complacente, João empenhou-se a fundo para ajudar sua esposa, Helena, com exercícios e terapias. Ele comenta os empenhos da família: “Não permitíamos que Helena mergulhasse na autopiedade. Às vezes, impúnhamos tarefas árduas, mas sempre monitorando suas limitações e ajudando-a. Ela é mais sensível agora, de modo que evito causar-lhe tensão.”
À medida que Helena reaprendia a falar, assistida por um fonoaudiólogo, João a ajudava. “Fazer coisas juntos era encorajador; líamos a Bíblia em voz alta um para o outro, e isso a ajudou a melhorar a sua fala. Também, aos poucos, retomamos o nosso ministério, pois somos Testemunhas de Jeová. Assim, Helena podia partilhar com outros a nossa esperança para o futuro. Isso em si era uma terapia para ela.” Em três anos, ela melhorou muito.
Que nunca se subestime a força e o encorajamento de amigos, que podem influir tremendamente na recuperação da vítima de um derrame. Segundo a revista médica Stroke, maiores “níveis de apoio social [ajuda de amigos] prenunciavam índices de recuperação mais rápida e uma melhora geral de desempenho mais acentuada, mesmo entre pacientes com derrames mais graves”.
Bernie apreciou muito o apoio de amigos. Ele nos lembra: “As visitas de amigos e de irmãos na fé são essenciais para vencer a luta. Uma palavra compreensiva e a solidariedade levantam o ânimo. Embora não seja necessário discorrer sobre a incapacidade da pessoa, reconhecer qualquer melhora é muito animador.” O que pode cada um de nós fazer para ajudar os que lutam contra as seqüelas de um derrame? “Leve flores”, sugere Bernie, “ou partilhe um pensamento bíblico, ou uma experiência relacionada. Isso me ajudou muito”.
Melva, uma sobrevivente de derrame idosa, achou proveitoso um irmão ou irmã espiritual orar junto com ela. Gilbert também recomenda isso, explicando: “Orar junto com uma pessoa indica seu interesse genuíno por ela.” Peter, cujo derrame prejudicou-lhe a visão, aprecia quando os outros reconhecem as suas limitações e tiram tempo para ler para ele.
Providenciar o transporte da pessoa para um centro de reabilitação é outro gesto de amor. Também é preciso certificar-se de que a casa da vítima seja segura. Cair é um perigo constante, quando há problemas de equilíbrio. Gilbert, por exemplo, apreciou a bondosa ajuda de amigos que, entre outras coisas, instalaram uma barra de apoio no boxe do chuveiro.
Saiba como ajudar
Variações de humor e forte tendência para chorar podem ser embaraçosas para a vítima de derrame e desconcertantes para os observadores que talvez não saibam como reagir. Contudo, sabendo ajudar, os amigos poderão resgatar a vítima de derrame do isolamento que, de outra forma, se instalaria. Em geral, as crises de choro diminuem com o tempo. Mas, quando as lágrimas vêm, fique calmo e junto à pessoa, dizendo o que você gostaria de ouvir caso os papéis fossem invertidos.
Acima de tudo, cultive amor piedoso por aqueles cujas debilitações possam ter mudado a personalidade que você conhecia. Eles sabem como você se sente, e isso, por sua vez, afeta a reação deles para com você. Érica comenta: “Talvez eu nunca mais seja a mesma pessoa. Mas ninguém deve esperar isso de uma vítima de derrame. Parentes e amigos devem aprender a amar a pessoa como ela é agora. Se sondarem bem a sua personalidade, verão que as mais atraentes qualidades do passado ainda estão presentes nela.”
A auto-estima afunda muito quando a pessoa não consegue falar ou fazer-se entender. Os amigos podem reafirmar o valor da pessoa com distúrbios de fala esforçando-se em falar com ela. Takashi declara: “O que penso e sinto no coração não mudou. Mas as pessoas tendem a me evitar, pois não podem conversar comigo normalmente. Para mim é difícil puxar uma conversa, mas, quando alguém faz isso comigo, é um tremendo encorajamento e fico muito, muito feliz!”
Alistamos a seguir algumas diretrizes úteis sobre como apoiar e encorajar os que sofrem de distúrbios na fala.
A maioria dos derrames não afeta o intelecto. A maioria dos sobreviventes de derrame conserva a lucidez, embora a sua fala possa ser difícil de entender. Jamais fale com eles com ares de superioridade, nem como se estivesse falando com um bebê. Trate-os com dignidade.
Ouça com paciência. Eles talvez precisem de tempo para reorganizar uma idéia ou terminar uma palavra ou uma sentença. Lembre-se, o ouvinte prestimoso não é impaciente.
Não finja entender. Admita bondosamente: “Lamento. Não estou conseguindo entender. Vamos tentar de novo mais tarde.”
Fale devagar e claro, num tom de voz normal.
Use sentenças curtas e palavras fáceis.
Faça perguntas que peçam um “sim” ou um “não”, e incentive a resposta. Mas, lembre-se: eles talvez não compreendam as suas palavras.
Mantenha silencioso o ambiente.
Conte com a amorosa ajuda de Jeová
Embora seja importante saber a causa do derrame, pois isso ajuda a tomar providências e a reduzir os riscos de outros derrames, é vital também controlar o medo acompanhante. Helena relata: “Encontro consolo especial nas palavras de Deus em Isaías 41:10: ‘Não tenhas medo, pois estou contigo. Não olhes em volta, pois eu sou teu Deus. Vou fortificar-te. Vou realmente ajudar-te. Vou deveras segurar-te firmemente com a minha direita de justiça.’ Jeová tornou-se muito real para mim, por isso não tenho medo.”
A Bíblia também ajuda Armando a combater o desespero: “Ela me dá um tremendo apoio, sempre me reanimando e me revigorando.” O problema de Hiroyuki era como beneficiar-se das Escrituras, pois achava difícil concentrar-se. Ele diz: “Eu encontro consolo ouvindo gravações da Bíblia em fitas cassete.”
O apóstolo Paulo declarou: “Quando estou fraco, então é que sou poderoso.” (2 Coríntios 12:10) O espírito de Jeová ajudava Paulo a realizar o que não lhe seria possível realizar na sua própria força. As vítimas de derrame também podem contar com a força espiritual de Jeová. “Quando temos boa saúde e realizamos as coisas nas nossas próprias forças, talvez não demos a Jeová muitas oportunidades de ele nos ajudar. Mas a minha deficiência fortalece minha relação com Ele de um modo muito especial”, diz Érica.
Apoio para quem cuida do doente
Os que cuidam do doente precisam de apoio no seu papel crucial. Onde encontrá-lo? Um lugar é na própria família. Todos na família devem ajudar. Yoshiko fala do apoio emocional de seus filhos: “Eles escutavam meus problemas como se fossem deles.” Os familiares devem procurar aprender ao máximo como cuidar de uma vítima de derrame e como reagir às mudanças de personalidade do ente querido.
Quem mais pode ajudar? Davi e sua família recorreram à família espiritual na congregação das Testemunhas de Jeová, para ajudar a cuidar de Vitor. “Eles atenderam às nossas necessidades. Revezando-se, às vezes pernoitam na nossa casa para cuidar de Vitor durante a noite.”
Toda pessoa que cuida de um doente precisa sentir o caloroso amor e apoio de sua família espiritual. Mas alguns acham difícil pedir ajuda. Haruko explica: “Muitos me dizem: ‘Se precisar de ajuda, não deixe de me avisar.’ Mas, sabendo como todos são ocupados, fico sem jeito de pedir ajuda. Ficaria muito grata se a ajuda fosse oferecida em termos específicos: ‘Posso ajudar a limpar a sua casa. Que dia é melhor para você?’ ‘Gostaria de fazer as compras para você; posso passar aí na sua casa agora?’”
A esposa de Kenji teve um derrame, mas ele pôde cuidar das necessidades dela. Descobriu que, por meio da oração, podia lançar as suas cargas sobre Jeová. Por fim, sua esposa perdeu a capacidade de falar e, com isso, Kenji perdeu a sua companheira de diálogo. Mas ele lê a Bíblia todos os dias. “Isso me faz lembrar de como Jeová cuida ternamente dos esmagados no espírito, o que evita que eu me deprima e sinta solidão”, diz ele.
O espírito de Jeová pode ajudar-nos quando o peso das nossas emoções quase nos esmaga. Yoshiko, que sofre com as mudanças de personalidade e acessos de ira pós-derrame de seu marido, relata: “Às vezes, sinto vontade de gritar o mais alto que puder. Mas daí oro a Jeová e seu espírito me acalma.” Por apreço pela lealdade de Jeová para com ela, Yoshiko não deixa que nada interfira na sua vida cristã. Freqüenta as reuniões cristãs, participa no ministério e faz estudo pessoal da Bíblia. “Fazendo a minha parte”, diz ela, “sei que Jeová jamais me abandonará”.
Quando as ansiedades atacam, Jeová está sempre presente para acudir. Midori, cujo marido teve derrame, consola-se de saber que, figurativamente, Jeová coloca no Seu “odre” todas as lágrimas que ela derrama. (Salmo 56:8) Ela lembra-se das palavras de Jesus: “Nunca estejais ansiosos quanto ao dia seguinte.” “Decidi ser paciente até vir o novo mundo”, diz ela. — Mateus 6:31-34.
Como lidar com as limitações graves
É verdade que alguns colhem bons resultados no processo de reabilitação, mas outros recuperam bem pouco de suas capacidades pré-derrame. O que pode ajudar estes últimos a enfrentar o desafio de aceitar as suas limitações, por mais graves e duradouras que sejam?
Bernie, que perdeu muito de sua mobilidade por causa de um derrame, responde: “A alegria da minha esperança de vida eterna numa futura Terra paradísica e orar ao meu Pai celestial, Jeová, ajuda-me a aceitar com serenidade as minhas limitações.”
Essa mesma esperança ajuda Érica e seu marido, Jorge, a aceitar as suas limitações e, ainda assim, apreciar a vida. Jorge explica: “Temos a promessa de Deus de cura total algum dia. Assim, não nos concentramos na invalidez. Naturalmente, ainda fazemos todo o possível pela saúde de Érica. Mas dá para aprender a conviver com a coordenação imperfeita dos músculos e concentrar-se em coisas mais positivas.” — Isaías 33:24; 35:5, 6; Revelação (Apocalipse) 21:4.
Em casos de recuperação muito limitada, o apoio da família e de amigos é ainda mais fundamental. Eles podem ajudar a vítima a suportar a situação até que chegue o dia de Deus acabar com todos os males de saúde.
Saber do grandioso futuro que aguarda as vítimas de derrame e seus familiares, quando a saúde será plenamente restabelecida, dá a eles a força para enfrentar a vida um dia por vez. Podem assim esperar pacientemente o alívio de todo o sofrimento no iminente novo mundo de Deus. (Jeremias 29:11; 2 Pedro 3:13) No ínterim, todos os que buscam a Jeová podem ter a certeza de que, mesmo agora, ele os ajudará e apoiará na luta contra os efeitos debilitantes de um derrame. — Salmo 33:22; 55:22.
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