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‘Deus, por que permitiu isso?’A Sentinela — 2003 | 1.° de janeiro
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‘Deus, por que permitiu isso?’
RICARDO ainda se lembra de estar sentado com a esposa, Maria, na sala de espera do médico.a Nenhum deles tinha coragem de ler o resultado dos exames médicos que Maria havia acabado de fazer. Daí, Ricardo abriu o envelope, e ambos examinaram rapidamente a linguagem médica do exame. Notaram a palavra “câncer”, e começaram a chorar ao se darem conta do pleno sentido desta palavra.
“O médico foi muito gentil”, lembra-se Ricardo, “mas ele obviamente se dava conta da gravidade da situação, porque nos dizia que tínhamos de confiar em Deus”.
Antes de iniciar a radioterapia, o médico de Maria notou movimentos involuntários no pé direito dela. Exames adicionais revelaram que o câncer se tinha espalhado para o cérebro. Depois de apenas uma semana, a radioterapia foi suspensa. Maria entrou em coma e faleceu dois meses depois. “Fiquei feliz de que o sofrimento dela tinha acabado”, explica Ricardo, “mas senti tanta falta dela, a ponto de querer que a minha vida também acabasse. Muitas vezes eu clamava a Deus: ‘Por que permitiu que isso acontecesse?’”
Quando ocorre uma tragédia, surgem muitas perguntas
Assim como Ricardo, inúmeros outros no mundo inteiro se vêem obrigados a enfrentar a realidade do sofrimento. Muitas vezes são os inocentes que sofrem. Pense no terrível pesar causado pelos implacáveis conflitos armados que afligem a humanidade. Ou na dor das numerosas vítimas de estupro, abuso sexual, violência doméstica e outros males causados pelo homem. A História mostra que não há limites à injustiça e à dor que o ser humano é capaz de causar ao seu semelhante. (Eclesiastes 4:1-3) Há também a angústia das vítimas de desastres naturais ou de males emocionais, mentais e físicos. Não é de admirar que muitos perguntem: “Por que Deus permite tais sofrimentos?”
Mesmo para os que têm convicções religiosas, nunca é fácil lidar com o sofrimento. Você talvez se pergunte também que motivo um Deus amoroso, todo-poderoso, pode ter para permitir o sofrimento humano. Para a nossa paz mental e o nosso relacionamento com Deus é vital que encontremos uma resposta satisfatória e veraz a essa pergunta intrigante. A Bíblia dá a resposta. Queira considerar no próximo artigo o que ela tem a dizer.
[Nota(s) de rodapé]
a Os nomes foram mudados.
[Fotos na página 3]
O médico nos dizia que tínhamos de confiar em Deus
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Consolo para quem sofreA Sentinela — 2003 | 1.° de janeiro
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Consolo para quem sofre
NO DECORRER dos séculos, a questão de por que Deus permite o sofrimento tem intrigado muitos filósofos e teólogos. Alguns afirmaram que, por Deus ser todo-poderoso, ele deve ser o responsável pelo sofrimento. O escritor de The Clementine Homilies (Homilias Clementinas), uma obra apócrifa do segundo século, afirmou que Deus governa o mundo com ambas as mãos. Com a sua “esquerda”, o Diabo, ele causa sofrimento e aflição, e com a sua “direita”, Jesus, ele salva e abençoa.
Outros, incapazes de admitir que Deus permita o sofrimento, mesmo não o causando, preferiram negar que o sofrimento existe. “O mal é apenas uma ilusão e não tem base real”, escreveu Mary Baker Eddy. “Se se compreendesse que o pecado, a doença e a morte nada são, eles desapareceriam.” — Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras.
Em resultado dos acontecimentos trágicos da História, especialmente a partir da Primeira Guerra Mundial até os nossos dias, muitos chegaram à conclusão de que Deus simplesmente é incapaz de impedir o sofrimento. “Ao meu ver, depois do Holocausto, não é mais tão fácil dizer que Deus é onipotente”, escreveu o erudito judeu David Wolf Silverman. “Para compreendermos Deus de alguma forma”, acrescentou ele, “a Sua bondade precisa ser compatível com a existência do mal, e isso só pode significar que Ele não é todo-poderoso”.
No entanto, as afirmações de que Deus de algum modo é cúmplice do sofrimento, que ele é incapaz de impedi-lo ou que o sofrimento é fruto da nossa imaginação dão pouco consolo aos que sofrem. E o que é mais importante é que tais crenças de forma alguma condizem com o Deus justo, dinâmico e compassivo, revelado nas páginas da Bíblia. (Jó 34:10, 12; Jeremias 32:17; 1 João 4:8) Então, o que a Bíblia diz sobre o motivo de se ter permitido o sofrimento?
Como começou o sofrimento?
Deus não criou os humanos para sofrerem. Ao contrário, deu ao primeiro casal humano, Adão e Eva, mente e corpo perfeitos, preparou um agradável jardim para ser o lar deles, e deu-lhes um serviço significativo e satisfatório. (Gênesis 1:27, 28, 31; 2:8) Todavia, a sua felicidade dependia de reconhecerem a autoridade de Deus e o direito de ele decidir o que é bom e o que é mau. Essa prerrogativa divina foi representada por uma árvore chamada de “árvore do conhecimento do que é bom e do que é mau”. (Gênesis 2:17) Adão e Eva demonstrariam sujeição a Deus por obedecerem à sua ordem de não comer o fruto daquela árvore.a
Tragicamente, Adão e Eva deixaram de obedecer a Deus. Uma criatura espiritual rebelde, mais tarde identificada como Satanás, o Diabo, convenceu Eva de que não era nos seus melhores interesses obedecer a Deus. Alegou que Deus, na realidade, a estava privando de algo muito desejável: da independência, do direito de escolher por si mesma o que era bom e o que era mau. Satanás afirmou que, se ela comesse da árvore, ‘forçosamente se abririam os seus olhos e forçosamente seria como Deus, sabendo o que é bom e o que é mau’. (Gênesis 3:1-6; Revelação [Apocalipse] 12:9) Seduzida pela perspectiva de independência, Eva comeu do fruto proibido e Adão logo fez o mesmo.
Naquele mesmo dia, Adão e Eva começaram a sentir os resultados da sua rebelião. Por rejeitarem o governo divino, perderam a proteção e as bênçãos que a sujeição a Deus lhes proporcionava. Deus os expulsou do Paraíso e disse a Adão: “Maldito é o solo por tua causa. Em dor comerás dos seus produtos todos os dias da tua vida. No suor do teu rosto comerás pão, até que voltes ao solo.” (Gênesis 3:17, 19) Adão e Eva ficaram sujeitos a doenças, dor, envelhecimento e morte. O sofrimento tornou-se parte da experiência humana. — Gênesis 5:29.
A resolução da questão
Alguém talvez pergunte: ‘Deus não poderia simplesmente ter desconsiderado o pecado de Adão e Eva?’ Não, porque isso teria minado ainda mais o respeito pela sua autoridade, talvez incentivando rebeliões adicionais e causando ainda maior sofrimento. (Eclesiastes 8:11) Além disso, por fazer vista grossa à desobediência Deus se teria tornado cúmplice da transgressão. O escritor bíblico Moisés nos lembra: “As obras de Deus são perfeitas, pois todos os seus caminhos são justiça. Deus de fidelidade e sem injustiça; justo e reto é ele.” (Deuteronômio 32:4, nota, NM com Referências.) Para ser fiel a si mesmo, Deus tinha de deixar que Adão e Eva sofressem as conseqüências da sua desobediência.
Por que Deus não destruiu imediatamente o primeiro casal humano, junto com Satanás, o instigador invisível da rebelião deles? Ele tinha o poder para fazer isso. Adão e Eva não teriam tido descendentes sujeitos ao legado do sofrimento e da morte. Mas tal demonstração do poder divino não teria provado a legitimidade da autoridade de Deus sobre as suas criaturas inteligentes. Além disso, se Adão e Eva tivessem morrido sem ter filhos, isso teria significado o fracasso do propósito de Deus, de encher a Terra com descendentes perfeitos. (Gênesis 1:28) E “Deus não é como os homens . . . Ele diz que faz e faz mesmo”. — Números 23:19, Bíblia na Linguagem de Hoje.
Jeová Deus, na sua sabedoria perfeita, decidiu permitir que a rebelião continuasse por um tempo limitado. Os rebeldes teriam uma ampla oportunidade para sentir os efeitos de serem independentes de Deus. A História demonstraria além de qualquer dúvida que a humanidade precisa da orientação divina e que o governo de Deus é superior ao governo do homem e de Satanás. Ao mesmo tempo, Deus tomou medidas para garantir o cumprimento do seu propósito original para com a Terra. Prometeu que surgiria um “descendente” que ‘machucaria a cabeça de Satanás’, eliminando de uma vez para sempre a sua rebelião e os efeitos prejudiciais dela. — Gênesis 3:15, nota.
Jesus Cristo foi este Descendente prometido. Lemos em 1 João 3:8 que “foi manifestado o Filho de Deus . . . para desfazer as obras do Diabo”. Ele fez isso por sacrificar a sua vida humana perfeita e resgatar os filhos de Adão do pecado e da morte herdados. (João 1:29; 1 Timóteo 2:5, 6) Os que realmente têm fé no sacrifício de Jesus têm a promessa de um alívio permanente do sofrimento. (João 3:16; Revelação 7:17) Quando isso acontecerá?
O fim do sofrimento
A rejeição da autoridade de Deus tem causado indizíveis sofrimentos. Por isso, é apropriado que Deus expresse sua autoridade de forma especial para acabar com o sofrimento humano e cumprir seu propósito original para com a Terra. Jesus mencionou esta provisão divina quando ensinou seus seguidores a orar: “Nosso Pai nos céus, . . . venha o teu reino. Realize-se a tua vontade, como no céu, assim também na terra.” — Mateus 6:9, 10.
O tempo que Deus concedeu aos humanos para exercerem seu próprio governo está prestes a acabar. Em cumprimento da profecia bíblica, seu Reino foi estabelecido nos céus em 1914, tendo a Jesus Cristo como Rei.b Dentro em breve, esmagará e acabará com todos os governos humanos. — Daniel 2:44.
Durante o seu breve ministério terrestre, Jesus deu um vislumbre das bênçãos que o restabelecimento do governo divino daria à humanidade. Os Evangelhos dão evidência de que Jesus teve compaixão dos membros pobres e discriminados da sociedade humana. Curou doentes, alimentou famintos e ressuscitou mortos. Até mesmo as forças da natureza obedeceram à voz dele. (Mateus 11:5; Marcos 4:37-39; Lucas 9:11-16) Imagine o que Jesus realizará quando usar o efeito purificador do seu sacrifício de resgate em benefício de toda a humanidade obediente! A Bíblia promete que, por meio do governo de Cristo, Deus “enxugará dos . . olhos [da humanidade] toda lágrima, e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem clamor, nem dor”. — Revelação 21:4.
Consolo para quem sofre
Como é animador saber que o nosso Deus amoroso e todo-poderoso, Jeová, se importa conosco e que em breve trará alívio à humanidade! O paciente muito doente costuma aceitar de bom grado um tratamento que promete curá-lo, mesmo que seja doloroso. Do mesmo modo, não importa as dificuldades temporárias que soframos, somos consolados por saber que a maneira de Deus resolver os assuntos trará bênçãos eternas.
Ricardo, mencionado no artigo precedente, aprendeu a derivar consolo das promessas da Bíblia. “Após o falecimento da minha esposa, eu tinha o forte desejo de me isolar”, lembra-se ele, “mas logo me dei conta de que isso não traria minha esposa de volta e apenas pioraria meu estado emocional”. Em vez disso, Ricardo apegou-se à sua rotina de assistir às reuniões cristãs e compartilhar a mensagem da Bíblia com outros. “Ao sentir o apoio amoroso de Jeová e notar como ele respondia às minhas orações em assuntos aparentemente pequenos, acheguei-me mais a ele”, diz Ricardo. “Perceber o amor de Deus foi o que me ajudou a suportar o que certamente considero a pior prova pela qual já passei.” Ele admite: “Ainda sinto muita falta da minha esposa, mas acredito agora firmemente que nada do que Jeová permite que aconteça pode prejudicar-nos para sempre.”
Será que você, assim como Ricardo e milhões de outros, anseia o tempo em que “não haverá recordação” dos atuais sofrimentos da humanidade, ‘nem lhe subirão ao coração’? (Isaías 65:17) Pode ter certeza de que as bênçãos do Reino de Deus estarão ao seu alcance, se você seguir o conselho bíblico: “Buscai a Jeová enquanto pode ser achado. Chamai-o enquanto mostra estar perto.” — Isaías 55:6.
Para ajudá-lo nisso, dê prioridade na sua vida à leitura e ao cuidadoso estudo da Palavra de Deus. Procure conhecer a Deus e aquele a quem ele enviou, Jesus Cristo. Esforce-se a viver em harmonia com as normas de Deus e mostre assim que está disposto a se sujeitar à soberania dele. Isso lhe dará mais felicidade agora, apesar das provas com que se possa confrontar. E no futuro, fará com que usufrua a vida num mundo livre de sofrimento. — João 17:3.
[Nota(s) de rodapé]
a Na sua nota referente a Gênesis 2:17, A Bíblia de Jerusalém explica que o “conhecimento do bem e do mal” é “a faculdade de decidir . . . o que é bem e o que é mal, e de agir conseqüentemente: [a] reivindicação de autonomia moral pela qual o homem nega seu estado de criatura”. Acrescenta: “O primeiro pecado foi um atentado à soberania de Deus.”
b Para uma consideração pormenorizada da profecia bíblica relacionada com 1914, veja os capítulos 10 e 11 do livro Conhecimento Que Conduz à Vida Eterna, publicado pelas Testemunhas de Jeová.
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