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Em busca da água que sustenta a vidaDespertai! — 2001 | 22 de junho
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HÁ MAIS de 2.000 anos, no deserto da Arábia, uma cidade próspera de 30.000 habitantes atingiu uma posição de destaque. Apesar do clima inclemente da região, cuja precipitação média é de apenas 150 milímetros por ano, os cidadãos de Petra aprenderam a viver com pouca água. A cidade cresceu e prosperou.
Os habitantes de Petra, os nabateus, não tinham bombas de água elétricas nem construíram represas enormes. Mas sabiam coletar e conservar a água de que dispunham. Uma enorme rede de pequenos reservatórios, diques, canais e cisternas permitia que eles canalizassem a água cuidadosamente coletada para ser usada na cidade e nos seus pequenos terrenos. Não desperdiçavam uma gota sequer. Seus poços e cisternas foram tão bem construídos que até hoje são usados pelos beduínos.
“A hidrologia é a beleza oculta de Petra”, diz um hidrólogo, maravilhado. “Eles [os nabateus] eram gênios.” Em anos recentes, especialistas de Israel procuraram aproveitar a habilidade dos nabateus, que também tinham plantações no deserto do Neguev, onde a precipitação raramente passa dos 100 milímetros por ano. Agrônomos examinaram os restos de milhares de pequenas propriedades rurais daquele povo, cujos donos habilmente canalizavam as chuvas do inverno para seus pequenos campos em terraços.
As lições aprendidas dos nabateus já estão ajudando os agricultores em países assolados pela seca na região do Sahel, na África. Mas métodos modernos de conservação de água também são eficientes. Em Lanzarote, uma das ilhas Canárias, localizada ao largo da costa da África, os agricultores aprenderam a cultivar uvas e figos em lugares onde quase não chove. Eles plantam as videiras ou figueiras no fundo de cavidades redondas e depois cobrem o solo com uma camada de cinza vulcânica para evitar a evaporação. O orvalho que escorre até as raízes é o suficiente para garantir uma boa colheita.
Soluções simples
Casos similares de adaptação a climas áridos são encontrados em todo o mundo, por exemplo, entre o povo bishnoi, que vive no deserto de Thar, na Índia; entre as mulheres turkanas, no Quênia; e entre os índios navajos no Arizona, EUA. Suas técnicas para coletar a água da chuva, aprendidas ao longo de séculos, revelaram-se muito mais confiáveis para atender às necessidades agrícolas do que métodos de alta tecnologia.
O século 20 foi a era da construção de represas. Rios enormes foram domados e desenvolveram-se sistemas de irrigação faraônicos. Um cientista calcula que 60% dos rios e riachos do mundo foram controlados de uma forma ou de outra. Embora esses projetos tenham trazido alguns benefícios, os ecologistas falam do dano ao meio ambiente, sem mencionar o efeito sobre milhões de pessoas que perderam seus lares.
Além disso, apesar das boas intenções, poucas vezes esses planos beneficiam os agricultores que precisam desesperadamente de água. Comentando projetos de irrigação na Índia, o ex-primeiro-ministro Rajiv Gandhi disse: “Gastamos rios de dinheiro durante 16 anos. O povo não recebeu nada em troca: nem irrigação, nem água, nem aumento da produção, nem ajuda para o seu cotidiano.”
As soluções simples, por outro lado, se mostraram mais úteis e menos danosas para o meio ambiente. Os seis milhões de pequenos açudes e represas que foram construídos por comunidades locais na China tiveram muito êxito. Em Israel, teve-se a idéia engenhosa de reutilizar no saneamento e depois na irrigação a água usada para lavar.
Outra solução prática é a irrigação por gotejamento, que conserva o solo e usa apenas 5% da água necessária nos métodos tradicionais. O uso sensato da água também inclui escolher plantas próprias de clima seco, como sorgo e painço, em vez de plantas que precisam de muita irrigação, como cana-de-açúcar e milho.
Com um pouco de esforço, os usuários domésticos e a indústria também podem reduzir o consumo de água. Por exemplo, pode-se fabricar um quilo de papel com cerca de um litro de água, se a água usada na fábrica for reciclada — uma economia de mais de 99%. A Cidade do México substituiu os vasos sanitários convencionais por outros que só usam um terço da água. A cidade patrocinou também uma campanha educativa que visa reduzir significativamente o consumo de água.
O que é preciso para ter êxito
Para solucionar a crise da água — e a maioria dos problemas ambientais —, é preciso uma mudança de atitude. As pessoas têm de aprender a cooperar, em vez de ser egoístas; a fazer sacrifícios razoáveis quando necessário e estar decididas a cuidar da Terra para seus futuros habitantes. Nesse respeito, Sandra Postel, no livro Last Oasis—Facing Water Scarcity (O Último Oásis: Como Enfrentar a Escassez de Água), explica: “Precisamos de uma ética da água, um guia de conduta correta em face das decisões complexas que temos de tomar em relação a sistemas naturais que não conseguimos entender plenamente.”
É claro que essa “ética da água” não pode ser adotada apenas localmente. Os países e os vizinhos têm de cooperar, visto que rios não respeitam fronteiras nacionais. “As preocupações sobre a quantidade e a qualidade da água — que ao longo da História foram tratadas em separado — devem ser agora encaradas como uma questão global”, diz Ismail Serageldin, no seu relatório Beating the Water Crisis (Como Vencer a Crise da Água).
Mas conseguir que as nações tratem de assuntos globais não é tarefa fácil, conforme admite o secretário-geral da ONU, Kofi Annan. “No atual mundo globalizado”, diz ele, “os mecanismos existentes para ação em âmbito global estão num estágio pouco mais do que embrionário. Já está na hora de darmos um sentido mais concreto à idéia de ‘comunidade internacional’”.
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Em busca da água que sustenta a vidaDespertai! — 2001 | 22 de junho
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[Fotos na página 10]
Acima: os antigos habitantes de Petra sabiam conservar a água
Abaixo: um canal de água nabateu em Petra
[Crédito]
Garo Nalbandian
[Foto na página 10]
Os agricultores em uma das ilhas Canárias aprenderam a cultivar plantas em lugares onde quase não chove
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