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Mulheres — são respeitadas hoje em dia?Despertai! — 1992 | 8 de julho
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Mulheres — são respeitadas hoje em dia?
‘POR QUE essa pergunta?’, alguns homens surpresos talvez perguntem. Porém, quando examinamos o tratamento dado às mulheres no curso da História, e atualmente em todo o mundo, umas poucas perguntas simples nos dão a chave da resposta.
Nas relações humanas, quem principalmente têm sido as vítimas e quem os opressores? Quem principalmente tem sido espancado no casamento? O homem ou a mulher? Quem tem sido violentado em tempos de paz e de guerra? Quem têm sido as principais vítimas do abuso sexual de crianças? Meninos ou meninas? A quem muitas vezes se tem imputado uma cidadania de segunda classe em decretos feitos por homens? A quem se tem negado o direito ao voto? Quem tem tido limitadas oportunidades de educação? O homem ou a mulher?
As perguntas poderiam continuar indefinidamente, mas os fatos falam por si. Em seu livro Que Você Seja Mãe de Cem Filhos Homens (em inglês), Elisabeth Bumiller escreve, com base em suas experiências na Índia: “A indiana ‘típica’, que representa uns 75 por cento dos quatrocentos milhões de mulheres e crianças do sexo feminino na Índia, vive numa aldeia. . . . Não sabe ler nem escrever, embora gostasse de saber, e raramente viajou mais de 30 quilômetros de seu local de nascimento.” Essa desigualdade na educação é um problema não só na Índia, mas em todo o mundo.
No Japão, como em muitos outros países, ainda existe uma disparidade. Segundo The Asahi Yearbook (Anuário Asahi), de 1991, o número de estudantes homens nos cursos universitários de quatro anos é de 1.460.000, ao passo que o de mulheres é 600.000. Sem dúvida, mulheres em todo o mundo podem atestar que suas oportunidades no campo da educação são menores. ‘Educação é para os rapazes’, é a atitude com que se deparam.
Em seu livro recente Contra-Reação — A Guerra Não-Declarada Contra as Mulheres Americanas (em inglês), Susan Faludi faz algumas perguntas pertinentes sobre a situação das mulheres nos Estados Unidos. “Se as mulheres americanas desfrutam de tanta igualdade, por que constituem elas dois terços dos adultos pobres? . . . Por que, com probabilidade muito maior do que os homens, elas ainda vivem em moradias precárias e não recebem seguro de saúde, e com probabilidade duas vezes maior não recebem pensão?”
Por maioria esmagadora, são as mulheres que mais têm sofrido. Elas têm suportado o grosso das indignidades, insultos, importunação sexual e desrespeito às mãos de homens. Tais maus-tratos de modo algum se limitam aos chamados países em desenvolvimento. A Comissão de Justiça do Senado dos EUA recentemente preparou um relatório sobre a violência contra as mulheres. Este revelou certos fatos chocantes. “A cada 6 minutos, uma mulher é estuprada; a cada 15 segundos, uma mulher é espancada. . . . Mulher alguma é imune a crime violento neste país. Das mulheres americanas vivas hoje, três de cada quatro serão vítimas de pelo menos um crime violento.” Num ano, de três a quatro milhões de mulheres sofreram abusos da parte de seus maridos. Foi esta situação deplorável que levou à aprovação do Estatuto da Violência Contra as Mulheres, de 1990. — Relatório do Senado, The Violence Against Women Act of 1990.
Examinemos algumas das situações em que as mulheres, em todo o mundo, têm sofrido falta de respeito da parte de homens. Daí, nos dois últimos artigos desta série veremos como homens e mulheres, em todas as rodas da vida, podem demonstrar respeito mútuo.
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Mulheres — são respeitadas em casa?Despertai! — 1992 | 8 de julho
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Mulheres — são respeitadas em casa?
“Uma após outra, as mulheres sofreram uma morte horrível. . . . E, embora a maneira de sua morte variasse, as circunstâncias básicas não: a Polícia de Quebec [Canadá] diz que todas essas mulheres foram mortas por um anterior ou atual marido ou namorado. Ao todo, 21 mulheres em Quebec foram mortas este ano [1990], vítimas de um surto de violência conjugal.” — Revista Maclean’s, 22 de outubro de 1990.
A VIOLÊNCIA doméstica, que alguns chamam de “o lado negro da vida familiar”, colhe uma safra de famílias rompidas e produz filhos que vêm a ter um conceito distorcido sobre o que são relações conjugais. Os filhos ficam divididos na sua lealdade aos pais, enquanto tentam entender por que o pai bate na mãe. (Menos comum, é a pergunta: por que mamãe é tão cruel com papai?) Os frutos da violência doméstica não raro incluem filhos que, por sua vez, se tornam espancadores de esposa. A marca paternal os deixa com graves problemas psicológicos e de personalidade.
A publicação As Mulheres do Mundo — 1970-1990, da ONU (em inglês), diz: “Os ataques de homens contra mulheres em suas casas são presumivelmente os crimes menos notificados — em parte porque tal violência é vista como mal social, não como crime.”
Quão grave é o abuso contra a esposa nos Estados Unidos? O relatório do Senado, mencionado no artigo anterior, diz: “A expressão ‘violência doméstica’ talvez soe suave, mas o comportamento que ela descreve nada tem de brando. As estatísticas fornecem um quadro arrepiante de quão sério — deveras letal — pode ser o abuso contra a esposa. De 2.000 a 4.000 mulheres morrem anualmente de abusos. . . . Diferente de outros crimes, o abuso contra a esposa é violência ‘crônica’. Trata-se de intimidação constante e repetidos danos físicos.”
A revista World Health diz: “A violência contra as mulheres ocorre em todos os países e em todas as classes sociais e econômicas. Em muitas culturas, bater na esposa é considerado um direito do marido. Muitíssimas vezes, os rotineiros espancamentos e violação de mulheres e moças são considerados ‘assuntos privados’ que não dizem respeito a terceiros — sejam estes autoridades constituídas ou pessoal da área de saúde.” Esta violência no lar pode facilmente se alastrar para o âmbito da escola.
Exemplo disso foi o que aconteceu num internato misto, no Quênia, em julho de 1991. Segundo o jornal The New York Times, “71 alunas adolescentes foram violentadas por alunos e 19 outras morreram numa noite de violência no dormitório que, segundo divulgado, . . . prosseguiu sem ser reprimida pela Polícia ou pelos professores locais”. Como explicar tal turbilhão de violência sexual? “Esta tragédia pôs em evidência o abominável chauvinismo masculino que domina a vida social queniana”, escreveu Hilary Ng’Weno, redator-chefe da The Weekly Review, a revista mais lida do Quênia. “A situação de nossas mulheres e moças é lamentável. . . . Criamos nossos rapazes dum modo que vêm a ter pouco ou nenhum respeito pelas moças.”
Este é mundialmente o ponto crucial do problema — os meninos não raro são criados dum modo que vêm a encarar as moças e as mulheres como criaturas inferiores, exploráveis. As mulheres são tidas como vulneráveis e facilmente domináveis. Daí, para o desrespeito às mulheres e o flagrante chauvinismo masculino é um passo curto, como é também um passo curto para o estupro entre conhecidos ou em encontro. E sobre estupro, não se desperceba que “um ataque pode ser desfechado em instantes, mas sentido por toda a vida”. — Relatório do Senado.
Muitos homens, embora não sejam necessariamente violentos contra as mulheres em sentido físico, podem ser descritos como misóginos subliminais, ou seja, odiadores de mulheres. Em vez de violência física, recorrem a abusos ou agressões psicológicas. Em seu livro Homens Que Odeiam as Mulheres & as Mulheres Que os Amam (em inglês), a Dra. Susan Forward diz: “Segundo suas companheiras os descreveram, [esses homens] não raro eram fascinantes e até mesmo amorosos, mas capazes de subitamente mudar para um comportamento cruel, crítico e insultante. Seu comportamento abrangia uma ampla gama, de intimidações e ameaças óbvias a ataques mais sutis, encobertos, que assumiam a forma de constantes rebaixamentos ou crítica erosiva. Independentemente do estilo, os resultados eram os mesmos. O homem ganhava controle tiranizando a mulher. Esses homens recusaram-se também a assumir qualquer responsabilidade pelo que seus ataques causaram aos sentimentos de suas companheiras.”
Yasuko,a uma japonesa franzina, casada há 15 anos, falou a Despertai! sobre a sua família: “Meu pai regularmente espancava e maltratava minha mãe. Ele a chutava e socava, puxava-a pelos cabelos, e até mesmo atirava-lhe pedras. E sabe por quê? Porque ela ousava desafiar a infidelidade dele com outra mulher. Como sabe, na cultura japonesa, tem sido considerado bem normal que certos homens tenham amante. Minha mãe estava à frente de seu tempo e recusava-se a aceitar isso. Depois de 16 anos de casamento e quatro filhos, ela se divorciou. Ficou sem ajuda de custeio para os filhos, da parte de meu pai.”
Todavia, mesmo nos casos em que o espancamento da esposa foi notificado às autoridades, muitas vezes isto não impediu que um homem vingativo assassinasse sua esposa. Em muitas situações, em países como os Estados Unidos, a lei tem sido inadequada para proteger uma ameaçada e aterrorizada esposa. “Um estudo mostrou que em mais da metade de todos os assassinatos de esposa cometidos pelo marido, a Polícia havia sido chamada à casa cinco vezes no ano prévio para investigar uma queixa de violência doméstica.” (Relatório do Senado) Em alguns casos extremos, para poupar-se de abusos adicionais, a esposa matou o marido.
A violência doméstica, na qual a mulher em geral é a vítima, manifesta-se de muitas formas. Na Índia, o divulgado número das chamadas mortes por causa do dote (maridos que matam a esposa por insatisfação com o dote que a família da esposa paga) aumentou de 2.209, em 1988, para 4.835, em 1990. Mas estes números não podem ser considerados completos ou exatos, pois muitas mortes de esposa são dissimuladas em acidentes domésticos — em geral por queima deliberada com querosene usado para cozinhar. Há também os suicídios de esposas que não mais suportam a desgraça doméstica.
Quando a Escolha É Filhos ou Filhas
As mulheres sofrem discriminação desde o nascimento, e até mesmo antes. Como assim? Despertai! entrevistou Madhu, de Bombaim, Índia, que declarou: “Quando nasce um menino numa família indiana, isto gera grande alegria. Os problemas da mãe estão resolvidos. Os pais têm agora um filho varão para cuidar deles na velhice. Sua ‘seguridade social’ está garantida. Mas se ela der à luz uma menina, isto será considerado como falha de sua parte. É como se ela tivesse trazido ao mundo apenas mais uma carga. Os pais terão de providenciar um custoso dote para que a filha se case. E se a mãe continuar a produzir meninas, será considerada um fracasso.”b
A revista Indian Express disse a respeito de meninas na Índia: “A sua sobrevivência não é considerada realmente importante para a sobrevivência da família.” A mesma fonte cita um levantamento feito em Bombaim que “revelou que de 8.000 fetos abortados após testes para determinar o sexo, 7.999 eram meninas”.
Elisabeth Bumiller escreve: “A condição de algumas indianas é tão desventurada que, se a sua aflição recebesse a atenção que recebem as minorias étnicas e raciais em outras partes do mundo, a causa delas seria esposada por grupos de direitos humanos.” — Que Você Seja Mãe de Cem Filhos Homens (em inglês).
“O Trabalho da Mulher Nunca Acaba”
“O trabalho da mulher nunca acaba”, pode parecer um simples chavão. Mas ele diz uma verdade que muitos homens despercebem. A mulher com crianças não tem a regalia de um horário fixo de trabalho, das oito às cinco, como no caso de muitos homens. Se o bebê chora de noite, quem provavelmente atende? Quem limpa a casa, lava e passa a roupa? Quem prepara e serve as refeições quando o marido volta do trabalho? Quem lava a louça e limpa a cozinha depois das refeições e daí prepara as crianças para dormir? E em muitos países, além de tudo isso, de quem se espera que busque água para a família, e até mesmo trabalhe na roça com um bebê nas costas? Em geral, é a mãe. Seu horário de trabalho não é apenas 8 ou 9 horas por dia; não raro é 12 a 14 horas, ou mais. Contudo, não lhe pagam horas extras — e são muito raras as expressões de agradecimento!
Segundo a revista World Health, na Etiópia, muitas “mulheres têm de trabalhar 16 a 18 horas por dia, [e] sua renda é tão baixa que não podem sustentar a si e a sua família. . . . A fome é um fenômeno diário; na maioria dos casos, elas [as recolhedoras e carregadoras de lenha para combustível] tomam apenas uma refeição incompleta por dia e, em geral, saem de casa sem o desjejum”.
Siu, natural de Hong Kong, casada há 20 anos, disse: “No contexto chinês, os homens tendem a rebaixar as mulheres, encarando-as como auxiliares domésticas e procriadoras, ou, então, no outro extremo, como ídolos, brinquedos, ou objetos sexuais. Mas o que nós, mulheres, realmente queremos é ser tratadas como criaturas inteligentes. Queremos que os homens nos escutem quando falamos, e não ajam simplesmente como se fôssemos palermas!”
Não surpreende que o livro Men and Women (Homens e Mulheres) diga: “Em toda a parte, mesmo onde as mulheres são tidas em alta estima, as atividades dos homens são mais valorizadas do que as das mulheres. Pouco importa como a sociedade distribui papéis e tarefas entre os sexos; os que pertencem aos homens inevitavelmente valem mais aos olhos da inteira comunidade.”
A verdade é que o papel da mulher no lar em geral não é valorizado. Assim, o prefácio do livro As Mulheres do Mundo — 1970-1990 (em inglês) declara: “As condições de vida das mulheres — e suas contribuições à família, à economia e ao lar — em geral passam despercebidas. Muitas estatísticas têm sido definidas em termos que representam as condições e as contribuições dos homens, não das mulheres, ou que simplesmente ignoram o sexo. . . . Grande parte do trabalho feito por mulheres ainda não é considerado como tendo algum valor econômico — e não é nem mesmo medido.”
Em 1934, o escritor norte-americano Gerald W. Johnson emitiu certas opiniões sobre as mulheres no local de trabalho: “A mulher muitas vezes ganha o trabalho de um homem mas raramente o salário de um homem. A razão é que não existe uma forma imaginável de labor diário que não possa ser feito melhor por um homem do que por qualquer mulher. Os maiores modistas e chapeleiros são homens. . . . Os maiores cozinheiros invariavelmente são homens. . . . É um fato concreto que qualquer empregador está disposto a pagar mais a um homem do que a uma mulher, pelo mesmo trabalho, porque ele tem razões para crer que o homem o fará melhor.” Este comentário, embora talvez irônico, refletia os preconceitos da época, ainda presentes em muitas mentes masculinas.
Falta de Respeito — Um Problema Mundial
Toda cultura desenvolveu suas atitudes, preconceitos e predisposições para com o papel das mulheres na sociedade. Mas resta perguntar: Mostram essas atitudes o devido respeito à dignidade das mulheres? Ou será que refletem o domínio masculino ao longo dos séculos em função da em geral superior força física do homem? Se as mulheres são tratadas como escravas, ou como objetos exploráveis, onde fica o respeito pela sua dignidade? Em maior ou menor grau, a maioria das culturas têm subvertido o papel da mulher e minado a sua auto-estima.
Um exemplo dentre muitos ao redor do mundo vem da África: “As mulheres iorubas [da Nigéria] precisam fingir ser ignorantes e aquiescentes na presença do marido, e, ao servirem as refeições, são obrigadas a se ajoelharem aos pés do marido.” (Homens e Mulheres) Noutras partes do mundo, essa subserviência talvez se manifeste de outras formas — a esposa ter de caminhar a certa distância atrás do marido, andar a pé ao passo que ele monta um cavalo ou um mulo, carregar fardos ao passo que o marido não carrega nenhum, comer em separado, e assim por diante.
Em seu livro The Japanese, Edwin Reischauer, nascido e criado no Japão, escreveu: “Atitudes de chauvinismo masculino são gritantemente evidentes no Japão. . . . Um duplo padrão moral, que deixa o homem livre e a mulher restrita, ainda é comum. . . . Das mulheres casadas, além do mais, espera-se que sejam muito mais fiéis do que os homens.”
Como em muitos países, a importunação sexual é também um problema no Japão, especialmente nos superlotados trens de metrô nas horas de maior movimento. Yasuko, de Hino, um subúrbio de Tóquio, disse a Despertai!: “Quando mais jovem, eu sempre ia de trem a Tóquio. Era muito embaraçoso, pois alguns homens aproveitavam a situação para beliscar e apalpar sempre que podiam. O que é que nós, mulheres, podíamos fazer a respeito? Tínhamos de agüentar. Mas era vergonhoso. Nas horas de maior movimento, de manhã, havia um vagão só para mulheres, de modo que pelo menos algumas podiam fugir dessas indignidades.”
Sue, que morava no Japão, tinha seu próprio jeito de livrar-se dessas libertinagens. Ela dizia em voz alta: “Fuzakenai de kudasai”, que significa: “Pare de se engraçar!” Diz ela: “Isto resultava em imediata atenção e ação. Ninguém queria passar vergonha na frente dos outros. Subitamente não havia mais nenhum deles tocando em mim!”
O desrespeito às mulheres no círculo doméstico é evidentemente um problema mundial. Mas que dizer do papel das mulheres no local de trabalho? Granjeiam elas maior respeito e reconhecimento ali?
[Nota(s) de rodapé]
a As entrevistadas pediram para ficar no anonimato. Usam-se nomes substitutos nestes artigos.
b Os maridos quase sempre presumem que a esposa é culpada por ter filhas. As leis da genética nem entram nas suas cogitações. (Veja o quadro nesta página.)
[Quadro na página 6]
Como se Determina o Sexo da Criança?
“O sexo duma criança por nascer é decidido no momento da concepção, e o fator decisivo é o espermatozóide do pai. Todo óvulo que a mulher produz é feminino no sentido que contém um cromossomo sexual X, ou feminino. No homem, apenas metade dos espermatozóides contém um cromossomo X, ao passo que metade contém um Y, que é o cromossomo sexual masculino.” Assim, se forem juntados dois cromossomos X, o resultado será uma menina; se um masculino Y se juntar a um feminino X, o bebê será um menino. Portanto, se a mulher terá meninos ou meninas é decidido pelo fator do cromossomo no espermatozóide masculino. (ABC’s of the Human Body [ABC do Corpo Humano], uma publicação da Reader’s Digest) É ilógico o homem culpar a esposa por produzir apenas meninas. A ninguém se deve culpar. É simplesmente a loteria da procriação.
[Quadro/Foto na página 8]
Tragédia de Vastas Proporções
Em seu livro Feminismo sem Ilusões (em inglês), Elizabeth Fox-Genovese escreveu: “Há boa razão para crer que muitos homens . . . sofrem crescente tentação de usar [sua] força naquela única situação que ainda lhes dá claramente uma vantagem — sua relação pessoal com as mulheres. Se minha suspeita estiver certa, estaremos contemplando uma tragédia de vastas proporções.” E esta tragédia de vastas proporções atinge os milhões de mulheres que sofrem diariamente às mãos de um marido, pai, ou qualquer outro homem tirano — um homem que “fracassa nos testes de eqüidade e justiça”.
“Em trinta Estados [dos Estados Unidos], geralmente ainda é legal o marido violentar a esposa; e apenas dez Estados têm leis que autorizam a prisão por violência doméstica . . . Mulheres sem outra opção senão fugir descobrem que esta tampouco é uma boa alternativa. . . . Um terço do 1 milhão de mulheres espancadas que anualmente buscam abrigo de emergência não encontram nenhum.” — Prefácio de Contra-Reação — A Não Declarada Guerra Contra as Mulheres Americanas, de Susan Faludi (em inglês).
[Foto]
Para milhões, a violência doméstica é o lado negro da vida familiar.
[Foto na página 7]
Centenas de milhões vivem em casas sem água encanada, esgoto e eletricidade — se é que têm casa.
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Mulheres — são respeitadas no local de trabalho?Despertai! — 1992 | 8 de julho
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Mulheres — são respeitadas no local de trabalho?
“Solteiros ou casados, a maioria dos homens encarava as mulheres como ‘caça permitida’.” — Jenny, ex-secretária de advocacia.
“A importunação sexual e o abuso de mulheres nos hospitais é notável.” — Sarah, enfermeira formada.
“Eu recebia muitas propostas no trabalho, isto é, propostas imorais.” — Jean, enfermeira formada.
REPRESENTAM tais casos uma situação excepcional, ou são generalizados? Despertai! entrevistou muitas mulheres que trabalharam fora. Eram elas respeitadas e tratadas com dignidade pelos colegas masculinos? Eis alguns comentários:
Sarah, enfermeira de Nova Jérsei, EUA, com nove anos de experiência em hospitais militares americanos: “Lembro-me de quando eu trabalhava em San Antonio, no Texas, e surgiu uma vaga no Setor de Hemodiálise. Perguntei a um grupo de médicos o que eu devia fazer para ganhar a vaga. Um deles respondeu com um sorriso malicioso: ‘Vá para a cama com o médico-chefe.’ Eu só respondi: ‘Nestes termos eu não quero a vaga.’ Mas é assim que muitas vezes as promoções e vagas são decididas. A mulher tem de ceder ao lascivo homem que está no comando.
“Noutra ocasião, eu estava numa unidade de tratamento intensivo, colocando cateteres intravenosos num paciente, e um médico passou e me beliscou nas nádegas. Fiquei furiosa e saí para uma outra sala. Ele me seguiu e disse algo vulgar. Eu lhe dei um murro e ele foi parar dentro de uma lata de lixo! Voltei diretamente ao meu paciente. Nem é preciso dizer, aquele homem nunca mais me molestou!”
Miriam, uma mulher casada, procedente do Egito, que trabalhava como secretária no Cairo, explicou a situação das mulheres que trabalham num ambiente egípcio muçulmano. “As mulheres se vestem com mais modéstia do que na sociedade ocidental. Não observei nenhuma importunação sexual física no meu local de trabalho. Mas existe importunação sexual no metrô do Cairo, a tal ponto que agora o primeiro vagão é só para mulheres.”
Jean, uma reservada, porém decidida mulher com 20 anos de experiência como enfermeira, disse: “Eu seguia a estrita diretriz de jamais namorar alguém no emprego. Mas havia importunação tanto da parte de médicos como de atendentes. Todos achavam que tinham a vantagem psicológica. Se nós, enfermeiras, não ‘cooperássemos’ com eles nos seus desejos sexuais, os atendentes não estariam ao dispor quando precisássemos de ajuda para colocar um paciente na cama, ou coisas assim.”
Jenny trabalhou como secretária de advocacia por sete anos. Ela conta o que viu ao trabalhar com advogados. “Solteiros ou casados, a maioria dos homens encarava as mulheres como ‘caça permitida’. A atitude deles era: ‘Como advogados, nós merecemos, e as mulheres são um de nossos privilégios.’” E as evidências parecem indicar que outros profissionais pensam da mesma maneira. Mas o que pode a mulher fazer para reduzir o assédio?
Darlene, uma mulher negra americana que trabalhou como secretária e como recepcionista de restaurante, disse: “As coisas podem sair mal se você não estabelece limites de conduta. Se um homem vem com gracejos e você corresponde, as coisas podem facilmente se descontrolar. Várias vezes tive de expressar claramente a minha posição. Tenho usado expressões como: ‘Gostaria que não falasse comigo nestes termos.’ Noutra ocasião, eu disse: ‘Como mulher casada, considero ofensivo o que você me disse, e acho que meu marido não iria gostar disso.’
“O ponto é, se você quiser ser respeitada, tem de granjear o respeito. E não vejo como uma mulher pode granjear respeito se tenta competir com os homens no que eu chamo de conversa a portas fechadas — piadas picantes e insinuações sexuais. Se você anuviar o limite entre linguagem aceitável e não-aceitável, algum sujeito tentará cruzá-lo.”
O Tipo Fanfarrão
Connie, enfermeira com 14 anos de experiência, fala sobre outro tipo de importunação que pode aflorar em muitos lugares. “Eu estava trabalhando com um médico numa rotineira troca de ataduras. Eu seguia todos os procedimentos normais que aprendera. Sei tudo sobre técnicas de esterilização, e coisas assim. Mas para esse médico nada estava certo. Ele esbravejava e criticava tudo o que eu fazia. Este tipo de coisa, rebaixar as mulheres, é muito comum. Alguns homens têm um problema de ego, e parece que têm necessidade de impor a sua autoridade às mulheres que trabalham com eles.”
Sarah, já citada, acrescentou a sua experiência neste respeito. “Certa vez, ao trabalhar na preparação de uma cirurgia, verifiquei os sinais vitais do paciente. O registro de seu ECG [eletrocardiograma] estava tão irregular que eu sabia que ele não podia ser operado. Cometi o erro de trazer isso à atenção do cirurgião. Ele ficou furioso, e respondeu: ‘Enfermeiras têm de prestar atenção aos penicos, e não aos ECGs.’ De modo que simplesmente comuniquei isso ao anestesiologista-chefe e ele disse que, nessas circunstâncias, sua equipe não cooperaria com o cirurgião. Daí, surpreendentemente, o cirurgião comunicou à esposa do paciente que a culpada de o marido dela ainda não ter sido operado era eu! Neste clima a mulher não pode se sair bem. Por que não? Porque sem querer ameaçou o orgulho de um homem.”
É óbvio que as mulheres não raro estão sujeitas à importunação e à conduta degradante no local de trabalho.
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