-
O crescimento da população mundial — uma questão vitalDespertai! — 1991 | 8 de novembro
-
-
O crescimento da população mundial — uma questão vital
“O BEBÊ Cinco Bilhões.” Foi assim que o governo da China chamou Wang He, uma menina que nasceu num hospital de Beijing à meia-noite de 11 de julho de 1987. Ninguém sabe se aquele bebezinho realmente elevou o total da população mundial para 5.000.000.000 naquele instante. Todavia, ela nasceu no exato momento indicado pelas Nações Unidas como o instante em que a população do mundo atingiria tal cifra. O governo chinês simplesmente se apropriou do evento para dramatizar a questão do crescimento populacional que a China e o mundo confrontam.
As estatísticas indicam que o total de pessoas na Terra está aumentando a uma taxa que alarma alguns peritos. Na presente taxa de crescimento, a população da Terra dobrará em cerca de 40 anos apenas. Nesse ritmo, dizem-nos os peritos, a quantidade necessária de alimentos para sustentar a população mundial logo superará a produção deles, e o resultado será a inanição mundial. Ademais, uma vez que as reservas de recursos naturais do mundo são esgotáveis, elas, com a expansão da população, se esgotarão muito antes, e isto somente poderá significar o desastre em toda a Terra. Se a falta de alimentos e de recursos não significar nossa perdição, dizem os peritos, os danos que estamos causando ao meio ambiente certamente significarão. Estamos literalmente nos sufocando pelo que fazemos ao ar, à água e ao solo, e um maior número de habitantes somente acelerará esse passo. Tudo isso soa como um desastre em plena formação.
O que, porém, pode ser feito? Há muitas escolas de pensamento sobre o assunto. Alguns acham que, a menos que se tomem medidas drásticas para reduzir o crescimento populacional, o bem-estar de todos os humanos estará ameaçado. Outros acreditam que, assim como aconteceu no passado, serão descobertos novos meios de se lidar com os problemas relacionados com os alimentos, os recursos, a poluição e o que mais estiver envolvido. Ainda outros acham que a população total com o tempo se equilibrará, de modo que não há necessidade de ficar agitado demais com isso. De fato, há fortes opiniões e conceitos quase que sobre cada aspecto do assunto. É evidente que o crescimento da população mundial é uma questão controversial e vital.
O que é digno de nota, contudo, é que as pessoas que vivem em países que ainda são relativamente espaçosos e prósperos são em geral as que se expressam de modo mui claro e vigoroso sobre a vindoura catástrofe. Elas estão soando o alarme, porque sentem que seu padrão de vida ou seu bem-estar futuro está ameaçado. Mas que dizer dos que vivem em países mais pobres, subdesenvolvidos e superpopulosos? O que pensam da questão demográfica? Como é a vida nos recantos congestionados do mundo?
Despertai! o conduz a alguns dos lugares mais apinhados do mundo a fim de lhe fornecer um relance, em primeira mão, de como é a vida sob a pressão da explosão populacional, e para ajudá-lo a entender algumas das questões envolvidas.
-
-
Um dia de minha vida na superlotada Hong kongDespertai! — 1991 | 8 de novembro
-
-
Um dia de minha vida na superlotada Hong kong
Hong Kong é um dos lugares mais densamente povoados do mundo. Com 5,8 milhões de pessoas ocupando apenas seus 1.070 quilômetros quadrados de área terrestre, tem 5.592 pessoas por quilômetro quadrado. Uma vez que apenas 10 por cento da área terrestre está ocupada, isso representa, em média, cerca de 54.000 pessoas por quilômetro quadrado ocupado! Todavia, o povo local parece ter-se adaptado admiravelmente à vida corrida de uma cidade apinhada de gente, com pouco espaço para moradias, trânsito barulhento e poluição.
ACORDEI com a campainha do despertador às 7:30 horas, pulei do sofá-cama e me vesti rapidamente. Compartilho um pequeno apartamento com meus pais e três irmãs mais moças, sendo que todos trabalhamos fora. Assim, há sempre uma fila para o banheiro, e nosso tempo é limitado. Depois de um rápido desjejum, pego minha bicicleta para ir até a estação ferroviária. Aí começa a provação diária. Eu me torno um dentre a ampla multidão de pessoas que se dirigem para o trabalho na movimentada Hong Kong.
Meu trem me faz passar velozmente por conjuntos habitacionais apinhados e por arranha-céus densamente povoados. Daí, pego um ônibus para cruzar a baía. Atravessamos um túnel, um veículo encostado no outro. Que alívio é sair do outro lado, na ilha de Hong Kong, onde se localiza o escritório em que trabalho, no distrito financeiro central! A viagem inteira pode durar de uma hora a uma hora e meia, dependendo do trânsito. Finalmente chego lá, às 9:30 horas. Mas não há tempo para eu me sentar e descontrair — o telefone começa a tocar. Meu primeiro cliente do dia. E essa é a rotina do meu dia — um telefonema após outro, o fone mal ficando no gancho. Daí, breve intervalo para o almoço.
Agora o problema é achar lugar em um dos numerosos restaurantes da localidade. Parece que todos estão tentando almoçar ao mesmo tempo e no mesmo lugar, e, não raro, na mesma mesa! Mais uma vez, compartilho a mesa com pessoas completamente estranhas. Assim é a vida na apinhada Hong Kong. Daí, depois de minha rápida, porém nutritiva refeição chinesa, volto para o escritório.
Meu dia de trabalho devia supostamente terminar às 17:30 horas, mas isso raramente é possível. Realmente, quando enfim consigo respirar um pouco e olho para o relógio, já são 18:15 horas. Em certos dias, é somente bem depois das dezenove horas que consigo ir embora. Daí, há a viagem de volta para casa.
Primeiro o ônibus, daí o trem. Por fim, o trem chega à minha estação e procuro minha bicicleta. Ao pedalar de volta para casa, lembro-me de como cresceu nossa cidadezinha, transformando-se numa cidade movimentada e de crescimento acelerado. As casas térreas do povoado foram substituídas por prédios altos, de 20 a 30 pavimentos. Grandes e amplas rodovias tragaram extensos pedaços de terra, e enormes viadutos agitam-se com o fluxo constante do trânsito ruidoso. Desapareceu para sempre o antigo modo de vida tranqüilo.
A casa é um tanto apertada — menos de 28 metros quadrados — para nós seis, e eu não tenho meu próprio quarto. É por isso que durmo num sofá na sala de estar. Pelo menos meus pais têm seu próprio quarto, e minhas três irmãs dormem em beliches num pequenino quarto. Para nós, a privacidade é um luxo.
Embora pequena, nossa casa é bem melhor do que a que tínhamos antes, quando todos nós dormíamos no mesmo quarto, num conjunto habitacional do Governo. Mas quão boa era aquela casa, quando comparada com o quinhão de milhares de pessoas que moram no distrito de Mong Kok e que alugam “apartamentos-gaiolas”, três deles empilhados, um em cima do outro, e que medem 1,80 metro de comprimento por 80 centímetros de largura e 80 centímetros de altura. Elas só dispõem de espaço para um colchão e alguns itens pessoais. Nenhuma mobília.
Às 21 horas, todos já estão em casa, e nos sentamos para o jantar. Depois de comer, alguém liga a TV. Isso acaba com minhas esperanças de poder ler e estudar sossegado. Espero até que todos se tenham deitado, às 23 horas, e então a sala é toda minha, e gozo de certa paz e de tranqüilidade para poder concentrar-me. Por volta da meia-noite, também estou pronto para dormir.
Eu comecei a trabalhar quando terminei meus estudos, há cerca de 12 anos. Gostaria de me casar, algum dia, mas tenho de trabalhar tanto para me sustentar que não tenho tempo nem sequer para chegar a conhecer uma garota suficientemente bem. E achar um local para morar é mais difícil do que escalar os céus, como nós dizemos. Embora tenhamos aprendido a enfrentar a situação, este tipo de vida urbana agitada não me parece natural. Todavia, reconheço que estou em situação muito melhor do que milhões, talvez bilhões, de pessoas em outras partes do mundo que vivem sem ter lares decentes, eletricidade, água encanada, ou saneamento adequado. Por certo, precisamos de um sistema melhor, de um mundo melhor, de uma vida melhor. — Conforme narrado por Kin Keung.
-
-
‘Os filhos são preciosos, mas os filhos homens são essenciais’Despertai! — 1991 | 8 de novembro
-
-
‘Os filhos são preciosos, mas os filhos homens são essenciais’
Na Índia, com uma população de mais de 850 milhões de habitantes e uma taxa de natalidade de 31 para cada 1.000, nascem cerca de 26 milhões de bebês por ano, o que equivale à população do Canadá. Não é surpreendente que um dos mais urgentes projetos do Governo seja o de controlar a rápida expansão de sua população. Quão bem-sucedido isto tem sido? Quais são alguns dos obstáculos que tal projeto enfrenta?
“ANTES dos 20, Não! Depois dos 30, Definitivamente Não! Somente Dois Filhos — Ótimo!”, é o conselho dado em um dos pôsteres coloridos que perfilam a sede do departamento de planejamento familiar em Bombaim, na Índia. Outro apresenta uma mãe atormentada, cercada de cinco filhos. Ele avisa: “Não Se Arrependa Depois!” A mensagem soa alto e claro: Bastam dois filhos para cada família. Mas não é fácil fazer com que as pessoas aceitem e ajam de acordo com a recomendação do Governo, de cada família ter apenas dois filhos.
“Os hindus consideram que a felicidade dum homem é proporcional ao número de filhos. Entre eles, deveras, os filhos são considerados a bênção da casa. Não importa quão numerosa possa ser a família, ele jamais deixa de fazer orações para que ela aumente”, diz o livro Hindu Manners, Customs and Ceremonies (Maneiras, Costumes e Cerimônias dos Hindus). Dum ponto de vista religioso, contudo, é o filho homem que é de maior valor para o patriarca da família. “Não existe infortúnio igual ao de não deixar um filho ou um neto para realizar os últimos deveres relacionados com o enterro”, prossegue a explicar o livro. “Tal falta é considerada como capaz de impedir todo acesso à Morada da Felicidade Celestial depois da morte.”
Filhos homens são também necessários para realizar os ritos da adoração dos ancestrais, ou sraddha. “Pelo menos um filho homem era quase essencial”, escreve A. L. Basham, em The Wonder That Was India (A Maravilha Que Era a Índia). “O intenso sentimento familiar da Índia hinduísta sublinhava o desejo de ter filhos homens, sem os quais desapareceria a linhagem.”
Além das crenças religiosas, um fator cultural que influencia o desejo de ter filhos homens é o tradicional arranjo familiar extensivo, ou ampliado, da Índia, em que os filhos homens que casam continuam a morar com os pais. “As filhas se casam e vão morar na casa dos sogros, mas os filhos homens permanecem na casa dos pais; e os pais esperam que os filhos homens cuidem deles na velhice”, explica a Dra. Lalita S. Chopra, da Divisão de Saúde e Bem-Estar Familiar da Câmara Municipal de Bombaim. “Esta é a segurança deles. Os pais se sentem seguros quando têm dois filhos homens. Logicamente, então, se um casal alcançou o sugerido limite de dois filhos, e ambos são mulheres, existe boa probabilidade de que eles continuem tentando ter um filho homem.”
Embora, em teoria, todos os filhos sejam encarados como mandados por Deus, as realidades do dia-a-dia dizem o oposto. “É evidente a negligência em proporcionar cuidados médicos para as meninas”, informa a revista Indian Express. “A sobrevivência delas não é considerada realmente importante para a sobrevivência da família.” A reportagem cita uma pesquisa de opinião feita em Bombaim, a qual revela que, dentre 8.000 fetos abortados depois de testes de verificação de sexo, 7.999 eram do sexo feminino.
Uma Luta Árdua
“Numa família, é o homem que geralmente decide quantos filhos ter, e quão grande deve ser a família”, explica numa entrevista o Dr. S. S. Sabnis, diretor executivo do setor de saúde da Câmara Municipal de Bombaim. Mesmo que a mulher prefira espacejar os filhos, ou limitar o tamanho da família, ela se sente pressionada pelo marido, que talvez seja contra isso. “É por isso que estamos mandando equipes compostas de homens e mulheres para cada casa nas favelas, na esperança de que o assistente social possa falar com o pai de família e incentivá-lo a limitar o tamanho da família, ajudando-o a ver que assim ele pode cuidar melhor dos filhos, em número menor.” Mas, como vimos, os obstáculos são muitos.
“Entre os mais pobres, a taxa de mortalidade infantil é elevada devido às péssimas condições de moradia”, diz o Dr. Sabnis. “Assim, existe definitivamente o desejo de ter muitos filhos, sabendo que alguns deles morrerão.” Mas pouco se faz para cuidar dos filhos. Eles perambulam por aí, sem receber cuidados, mendigando ou, talvez, catando alimentos na lata de lixo. E os pais? “Eles não sabem onde estão os filhos”, lamenta o Dr. Sabnis.
Alguns anúncios na Índia muitas vezes apresentam um casal feliz, de aparência próspera, gozando a vida com seus dois filhos, usualmente um menino e uma menina, que estão evidentemente sendo bem cuidados. É neste segmento da sociedade — a classe média — que o conceito de ter dois filhos goza, em geral, de boa aceitação. Mas, está muito distante da mentalidade dos pobres, que raciocinam: ‘Se nossos pais ou avós tiveram 10 ou 12 filhos, por que nós também não podemos ter? Por que nos deveríamos limitar a dois?’ É aqui, entre a maioria empobrecida da Índia, que a guerra a favor do controle demográfico enfrenta uma luta árdua. “A população atualmente é jovem e está na idade de ter filhos”, reflete a Dra. Chopra. “Parece ser uma batalha perdida. Temos uma tremenda tarefa diante de nós.”
-
-
Eu cresci numa cidade africanaDespertai! — 1991 | 8 de novembro
-
-
Eu cresci numa cidade africana
As taxas de crescimento populacional nos países africanos da região ao sul do Saara acham-se entre as mais elevadas do mundo. Ali, cada mulher, em média, dá à luz mais de seis crianças. A pobreza, o meio ambiente em deterioração e a escassez de recursos somente aumentam as dificuldades. Eis um relato em primeira mão de como é a vida naquela parte do mundo.
FOI aqui que eu cresci, numa grande cidade da África Ocidental. Havia sete crianças em nossa família, mas duas delas morreram cedo. Nossa casa alugada se compunha de quarto e sala. Mamãe e papai dormiam no quarto, e nós, os filhos, dormíamos em esteiras no chão da sala, meninos de um lado e meninas do outro.
Como a maioria das pessoas na vizinhança, não tínhamos muito dinheiro e nem sempre tínhamos tudo o que necessitávamos. Às vezes não havia sequer suficiente alimento. De manhã, muitas vezes não tínhamos nada para comer, exceto arroz requentado que sobrara do dia anterior. Houve ocasiões em que até mesmo isso era escasso. Diferente de alguns que raciocinam que o marido, como o provedor da casa, devia ter a porção maior, a esposa vindo logo a seguir, e os filhos ficando com o que sobrasse, nossos pais ficavam sem comer e davam a nós, seus filhos, a pequena porção de alimentos que havia. Eu apreciava muito o sacrifício deles.
Ir à Escola
Há pessoas, na África, que acreditam que apenas os meninos devem ir à escola. Acham não ser necessário que as meninas cursem uma escola, porque elas se casam e os maridos cuidam delas. Meus pais não tinham tal conceito. Nós cinco fomos mandados à escola. Mas isso significava um aperto financeiro para nossos pais. Coisas tais como lápis e papel não eram um grande problema, mas os livros eram caros, e o mesmo se dava com os uniformes escolares de uso obrigatório.
Quando comecei a ir à escola, eu não tinha sapatos. Não foi senão no segundo ano do curso secundário, quando tinha 14 anos, que meus pais puderam comprar sapatos para mim. Veja bem, isto não significa que eu não tinha nenhum sapato. O único par que eu possuía era para ir à igreja, e não me permitiam calçá-lo para ir à escola ou a outros lugares. Eu tinha de andar descalço. Às vezes papai conseguia comprar passes de ônibus, mas, quando não conseguia, eu tinha de ir e voltar a pé da escola. Ela distava uns três quilômetros.
Dia de Lavar Roupa e de Buscar Água
Nós lavávamos a roupa num riacho. Eu me lembro de ir ali com mamãe, que carregava um balde, uma pedra de sabão e as roupas. No riacho, ela enchia o balde de água, colocava as roupas dentro dele e as esfregava com sabão. Daí, ela batia as roupas em pedras lisas e as enxaguava no riacho. Depois disso, ela as espalhava sobre outras pedras, para secar, uma vez que ficavam pesadas demais para serem levadas molhadas para casa. Eu era bem jovem nesse tempo, de modo que minha atribuição era tomar conta das roupas que secavam, para que ninguém as roubasse. Mamãe fazia a maior parte do trabalho.
Poucas pessoas tinham água encanada em casa, de modo que uma de minhas tarefas era ir com um balde buscar água numa bica coletiva. O problema era que, na época da seca, muitas das bicas eram trancadas para economizar água. Certa ocasião, passamos um dia inteiro sem ter água alguma para beber. Nem uma gota sequer! Às vezes, eu tinha de andar muitos quilômetros para buscar apenas um balde de água. Carregar água na cabeça por distâncias tão longas desgastou meus cabelos onde o balde pousava. Eu já apresentava uma careca aos dez anos! Fico contente de dizer que meus cabelos voltaram a crescer.
Filhos Como Garantia Para o Futuro
Ao rememorar o passado, eu diria que nosso quinhão na vida era mediano, talvez até mesmo acima da média para a nossa parte da África. Eu sei de uma porção de famílias cujo padrão de vida era muito pior do que o nosso. Muitos de meus amigos na escola tinham de ir vender coisas no mercado antes e depois das aulas, para levar algum dinheiro para sua família. Outros não podiam dar-se ao luxo de comer algo de manhã, antes de irem para a escola, e saíam de casa com fome e ficavam na escola o dia todo sem comer. Posso lembrar-me de várias vezes em que um desses meninos vinha suplicar-me um pedaço, enquanto eu comia meu pão na escola. Assim, eu partia um pedaço do pão, partilhando-o com ele.
Apesar de tais sofrimentos e dificuldades, a maioria das pessoas ainda gostam de ter famílias grandes. “Um filho só não é um filho”, muitos dizem aqui. “Dois filhos são como um, quatro filhos são como dois.” Isso se dá porque a taxa de mortalidade infantil se acha entre as mais elevadas do mundo. Os pais sabem que, embora alguns de seus filhos morram, outros viverão, crescerão, conseguirão empregos e trarão algum dinheiro para casa. Daí, estes estarão em condições de cuidar dos pais, ao envelhecerem. Num país em que não existem benefícios da seguridade social, isso significa muito. — Conforme narrado por Donald Vincent.
-
-
A população mundial — Que dizer do futuro?Despertai! — 1991 | 8 de novembro
-
-
A população mundial — Que dizer do futuro?
MORADIAS deterioradas, condições insalubres, escassez de alimentos e água limpa, doenças, desnutrição — estas, e inúmeras outras dificuldades, são uma realidade do dia-a-dia de grande parte da população mundial. Todavia, como vimos, a maioria das pessoas que vivem em tais condições consegue, de algum jeito, enfrentá-las e continuar vivendo.
Que dizer, porém, do futuro? Será que as pessoas terão de suportar indefinidamente estas duras realidades da vida? Para complicar a situação, que dizer do quadro desalentador e sombrio que os cientistas ambientalistas e outros predizem em resultado do contínuo crescimento demográfico? Eles dizem que nós estamos conspurcando nosso próprio ninho, por poluirmos o ar, a água e o solo de que dependemos. Eles também apontam o efeito estufa — a emissão de gases, tais como o gás carbônico, o metano, os clorofluorcarbonos (agentes de refrigeração e de espuma) que resultarão no aquecimento da atmosfera e em mudanças no padrão do clima global, com funestas conseqüências. Será que isso por fim extinguirá a civilização como a conhecemos? Examinemos mais de perto alguns destes fatores-chave.
Há Gente Demais?
Primeiro de tudo, será que a população mundial continuará expandindo-se indefinidamente? Existe algum indício de até que ponto ela chegará? Naturalmente, é um fato que a população do mundo está crescendo, apesar dos esforços de planejamento familiar. O crescimento anual atualmente é de cerca de 90 milhões (o equivalente a outro México a cada ano). Parece que não existe nenhuma perspectiva imediata de parar isso. Olhando adiante, contudo, a maioria dos demógrafos concorda que a população por fim se estabilizará. A questão na mente deles é em que nível, e quando.
Segundo projeções do Fundo Populacional da ONU, a população do mundo poderá atingir 14 bilhões antes de estabilizar-se. Outros, contudo, estimam que ela variará entre 10 e 11 bilhões. Seja qual for o caso, as perguntas cruciais são: Haverá gente demais? Pode a Terra comportar de duas a três vezes a população atual?
Dum ponto de vista estatístico, 14 bilhões de pessoas em todo o mundo dariam uma média de 104 pessoas por quilômetro quadrado. Como vimos, a densidade populacional de Hong Kong é de 5.592 habitantes por quilômetro quadrado. Atualmente, a densidade populacional dos Países-Baixos é de 430, ao passo que a do Japão é de 327, e estes são países que gozam de um padrão de vida acima da média. É evidente que, mesmo que a população do mundo cresça na dimensão predita, o problema não é o número de pessoas.
Haverá Bastante Alimento?
Que dizer, então, dos estoques de alimentos? Pode a Terra produzir o suficiente para alimentar 10 bilhões, ou 14 bilhões de pessoas? Obviamente, a atual produção mundial de alimentos não é suficiente para tal população. De fato, amiúde ouvimos falar de fomes, de desnutrição e de morte por inanição. Significa isto que não estamos produzindo suficientes alimentos para sustentar a presente população, quanto mais duas ou três vezes mais do que isso?
Trata-se de uma pergunta difícil de responder, porque depende do que entendemos por “suficiente”. Ao passo que centenas de milhões de pessoas nas nações mais pobres do mundo não conseguem o alimento suficiente para manter sequer uma dieta mínima e saudável, as pessoas nas nações ricas e industrializadas estão sofrendo as conseqüências de uma dieta demasiadamente rica — derrames, certos tipos de câncer, doenças do coração, e assim por diante. Como isto influi no quadro alimentar? De acordo com certo cálculo, são necessários uns cinco quilos de cereais para produzir um quilo de bife. Em resultado, a quarta parte dos habitantes do mundo, que são os que comem carne, consome quase a metade da produção de cereais do mundo.
No que se refere à soma total de alimentos produzidos, observe o que o livro Bread for the World (Pão Para o Mundo) diz: “Se a atual produção mundial de alimentos fosse distribuída igualmente entre todas as pessoas do mundo, com o mínimo de desperdício, todos teriam o suficiente. Talvez apenas o suficiente, porém o suficiente.” Essa declaração foi feita em 1975, há mais de 15 anos. Qual é a situação atual? Segundo o Instituto dos Recursos Mundiais, “nas últimas duas décadas, a produção mundial, total, de alimentos se expandiu, ultrapassando a demanda. Em resultado, nos anos recentes, diminuíram, em termos reais, os preços dos principais alimentos básicos nos mercados internacionais”. Outros estudos mostram que os preços dos alimentos básicos, tais como arroz, milho, soja e outros cereais, caíram para a metade ou mais, nesse período.
O significado de tudo isso é que o problema dos alimentos reside, não tanto na quantidade produzida, mas no nível e nos hábitos de consumo. A nova tecnologia genética encontrou meios de produzir variedades de arroz, de trigo e de outros cereais que podem dobrar a atual produção. No entanto, grande parte da tecnologia nesta área acha-se concentrada em cultivos comerciais, tais como o fumo e tomates, para satisfazer os ricos, em vez de encher o estômago dos pobres.
Que Dizer do Meio Ambiente?
Cada vez mais, os que se mantêm atentos ao assunto estão discernindo que o crescimento populacional é apenas um dos fatores que representa uma ameaça para o bem-estar futuro da humanidade. Por exemplo, em seu livro The Population Explosion (A Explosão Populacional), Paul e Anne Ehrlich propõem que o impacto da atividade humana sobre o nosso meio ambiente pode ser expresso por meio desta equação simples: impacto = população × nível de afluência × efeito das tecnologias prevalecentes sobre o meio ambiente.
Por este padrão, os autores argumentam que países como os Estados Unidos têm uma população excessiva, não porque têm muita gente, mas porque seu nível de afluência depende de uma alta taxa de consumo de recursos naturais e de tecnologias que demandam alto tributo do meio ambiente.
Outros estudos parecem comprovar isto. O jornal The New York Times cita o economista Daniel Hamermesh como dizendo que ‘as emissões do efeito estufa estão mais intimamente relacionadas com o nível de atividade econômica do que com o número de emitentes. O americano mediano gera 19 vezes mais dióxido de carbono do que o indiano mediano. E, é inteiramente possível que, digamos, um Brasil economicamente vibrante, com lento crescimento populacional, queime suas florestas tropicais mais rapidamente do que um Brasil empobrecido, com rápido crescimento populacional.
Frisando basicamente o mesmo ponto, Alan Durning, do Worldwatch Institute, comenta: “O bilhão de pessoas mais ricas do mundo criaram uma forma de civilização tão consumista e esbanjadora que o planeta corre perigo. O estilo de vida deste escalão superior — os que dirigem carros, os comedores de filé, os bebedores de refrigerantes e os consumidores de itens descartáveis — constitui uma ameaça ecológica de gravidade sem par, excetuando-se, talvez, o crescimento populacional.” Ele aponta que esta “quinta parte mais opulenta” da humanidade produz quase nove décimos dos clorofluorcarbonos e mais da metade de todos os gases que produzem o efeito estufa, que ameaçam o meio ambiente.
A Verdadeira Questão
Pelo que foi considerado acima, torna-se evidente que culpar apenas o crescimento demográfico pelas dificuldades que confrontam a humanidade hoje em dia é desperceber o verdadeiro ponto. A questão que nos confronta não é a de que estamos ficando sem espaço vital ou de que a Terra é incapaz de produzir alimento suficiente para uma dieta saudável para todos, ou de que todos os recursos naturais estarão esgotados dentro em breve. Estes são meros sintomas. A verdadeira questão é que cada vez mais pessoas aspiram a um nível sempre mais elevado de consumo material, sem considerar as conseqüências de suas ações. Este desejo insaciável de ter mais coisas está colhendo um tributo tão pesado de nosso meio ambiente que está superando em muito a capacidade de sustentação da Terra. Em outras palavras, o problema básico reside, não tanto no número de pessoas, como na natureza da humanidade.
O escritor Alan Durning expressa-se do seguinte modo: “Numa biosfera frágil, o derradeiro destino da humanidade talvez dependa de se cultivamos um senso mais profundo de auto-restrição, alicerçado numa difundida ética de limitarmos o consumo e descobrirmos o enriquecimento não-material.” O ponto é bem frisado, mas poder-se-ia formular a pergunta: É provável que as pessoas em toda a parte cultivem voluntariamente a auto-restrição, limitem o consumo e busquem o enriquecimento não-material? Dificilmente. A julgar pelo estilo de vida indulgente e hedonista tão prevalecente hoje em dia, é bem provável que ocorra o inverso. A maioria das pessoas hoje parecem viver de acordo com o lema: “Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos.” — 1 Coríntios 15:32.
Mesmo que um número suficiente de pessoas se conscientizasse dos fatos e começasse a mudar seu modo de vida, ainda assim não conseguiríamos inverter as coisas a curto prazo. Observe os muitos grupos de ativistas ambientalistas e de estilos alternativos de vida que surgiram no decorrer dos anos. Alguns deles talvez tenham tido êxito em ganhar as manchetes, mas será que exerceram algum impacto real nos modos de agir das chamadas correntes principais da sociedade? Dificilmente. Qual é o problema? É que o inteiro sistema — comercial, cultural e político — está voltado para a promoção do conceito da obsolescência inata e do consumismo de itens descartáveis. Neste contexto, não pode haver mudança sem uma reconstrução cabal, do alicerce para cima. E isso exigiria uma reeducação maciça.
É Possível um Futuro Brilhante?
A situação pode ser assemelhada à de uma família que mora numa casa mobiliada e plenamente equipada, provida por um benfeitor. Para fazê-los sentir-se inteiramente em casa, eles têm permissão de usar todas as instalações da casa para a inteira satisfação. O que aconteceria se a família começasse a estragar os móveis, arrancar o piso, quebrar as janelas, entupir o encanamento, sobrecarregar os circuitos elétricos, em suma, a ameaçar devastar por completo a casa? Será que o proprietário apenas ficaria observando isso passivamente e não faria nada? Não é provável. Ele, sem dúvida, tomaria providências para remover os inquilinos vândalos e então restaurar a propriedade a condições apropriadas. Ninguém diria que tal medida era injustificada.
Que dizer, então, sobre a família humana? Não somos nós como que inquilinos que moram numa casa bem mobiliada e equipada de modo excelente, fornecida pelo Criador, Jeová Deus? Somos, sim, pois o salmista expressou-se: “A Jeová pertence a terra e o que a enche, o solo produtivo e os que moram nele.” (Salmo 24:1; 50:12) Deus não só nos supriu de todas as necessidades que tornam a vida possível — luz, ar, água e alimento — mas ele também proveu-as em abundância e variedade para tornar deleitosa a vida. Todavia, como inquilinos, como é que a humanidade se tem comportado? Infelizmente, não muito bem. Estamos literalmente destroçando esta linda casa em que vivemos. O que o dono dela, Jeová Deus, fará a respeito?
Deus ‘arruinará os que arruínam a terra’ — isso é o que ele fará! (Revelação [Apocalipse] 11:18) E como fará isso? A Bíblia responde: “E nos dias daqueles reis o Deus do céu estabelecerá um reino que jamais será arruinado. E o próprio reino não passará a qualquer outro povo. Esmiuçará e porá termo a todos estes reinos, e ele mesmo ficará estabelecido por tempos indefinidos.” — Daniel 2:44.
O que podemos esperar sob o domínio do Reino de Deus, que durará indefinidamente? Nas palavras do profeta Isaías, temos um vislumbre do que está para vir:
“E hão de construir casas e as ocuparão; e hão de plantar vinhedos e comer os seus frutos. Não construirão e outro terá morada; não plantarão e outro comerá. Porque os dias do meu povo serão como os dias da árvore; e meus escolhidos usufruirão plenamente o trabalho das suas próprias mãos. Não labutarão em vão, nem darão à luz para perturbação; porque são a descendência composta dos abençoados por Jeová, e seus descendentes com eles.” — Isaías 65:21-23.
Que brilhante futuro se reserva para a humanidade! Nesse novo mundo, criado por Deus, a humanidade não mais será afligida por problemas de moradia, de alimentos, de água, de saúde e de negligência criminosa. Por fim, a humanidade obediente, sob a orientação de Deus, poderá encher a Terra e subjugá-la, sem nenhuma ameaça de superpopulação. — Gênesis 1:28.
[Diagrama na página 10]
A atmosfera da Terra retém o calor do sol. Mas o calor que é gerado — transportado pela radiação infra-vermelha — não consegue escapar facilmente devido aos gases do efeito estufa, aumentando assim o calor da superfície da Terra.
Gases do efeito estufa.
Radiação que escapa.
Radiação infra-vermelha retida.
[Fotos na página 12]
São necessários uns cinco quilos de cereais para produzir um quilo de bife. Assim, a quarta parte dos habitantes do mundo, que são os que comem carne, consome quase a metade da produção de cereais do mundo.
[Quadro na página 13]
Por Que os Alimentos com Freqüência São Caros?
Embora o custo real dos alimentos tenha decrescido, a experiência comum é que os preços dos alimentos estão subindo. Por quê? Uma razão simples é a urbanização. Para alimentar multidões de pessoas que moram nas sempre crescentes cidades, os alimentos precisam ser transportados por grandes distâncias. Nos Estados Unidos, por exemplo, “o típico bocado de alimento percorre 2.100 quilômetros desde o campo até o prato de refeição”, diz um estudo do Worldwatch Institute. O consumidor tem de pagar, não só os alimentos, mas também a industrialização, a embalagem e o transporte.
-