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Os problemas da distinção de classe socialA Sentinela — 2002 | 1.° de janeiro
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Os problemas da distinção de classe social
“A IGUALDADE TALVEZ SEJA UM DIREITO, MAS NENHUM PODER NA TERRA PODE TRANSFORMÁ-LA EM REALIDADE.”
Assim disse Honoré de Balzac, romancista francês do século 19. Concorda com ele? Muitos acham instintivamente que a distinção de classe é errada. No entanto, mesmo neste século 21, a sociedade humana ainda está dividida em muitas classes sociais.
CALVIN COOLIDGE, presidente dos Estados Unidos de 1923 a 1929, preocupou-se com o problema da distinção de classe e falou da “derradeira extinção de todas as classes privilegiadas”. No entanto, uns 40 anos depois da presidência de Coolidge, a Comissão Kerner, constituída para estudar as relações entre as raças, expressou temores de que os Estados Unidos inevitavelmente se tornariam duas sociedades: “uma negra, outra branca — separadas e desiguais”. Alguns afirmam que esta predição já se tornou realidade e que “as divisões econômicas e raciais estão aumentando” naquele país.
Por que é tão difícil transformar em realidade a idéia da igualdade entre os homens? Um grande fator é a natureza humana. O ex-congressista dos Estados Unidos, William Randolph Hearst, disse certa vez: “Todos os humanos são criados iguais pelo menos em um sentido: o seu desejo de serem desiguais.” O que queria dizer com isso? Pode ser que o dramaturgo francês Henry Becque, do século 19, o tenha expressado de forma mais clara: “O que dificulta tanto a igualdade é que nós apenas a queremos ter com os nossos superiores.” Em outras palavras, as pessoas só querem igualdade com quem está acima delas na escala social; mas poucos estariam dispostos a limitar os seus privilégios e suas vantagens por conceder igualdade aos que eles consideram inferiores.
No passado, as pessoas nasciam como plebeus, ou como parte duma aristocracia ou até mesmo como membros da realeza. Ainda é assim em uns poucos lugares. Todavia, na maioria dos países, hoje em dia, é o dinheiro — ou a falta dele — que determina quem é da classe baixa, média ou alta. No entanto, há outros determinadores de classe, tais como a raça, a escolaridade e a alfabetização. E há lugares em que o sexo da pessoa é um dos motivos principais de discriminação, sendo as mulheres encaradas como classe inferior.
Há vislumbres de esperança?
A legislação dos direitos humanos tem ajudado a romper algumas barreiras de classe. Nos Estados Unidos adotaram-se leis contra a segregação. O apartheid (a segregação racial) foi declarado ilegal na África do Sul. A escravidão, embora ainda existente, é ilegal em grande parte do mundo. Tribunais têm decidido a favor das reivindicações de certos povos indígenas pelas suas terras, e leis contra a discriminação deram alento a algumas classes desfavorecidas.
Indica isso o fim da distinção de classe? Não exatamente. Embora algumas formas de distinção de classe tenham diminuído, começaram a surgir novas divisões. O livro Class Warfare in the Information Age (Luta Entre Classes na Era da Informação) diz: “As classes genéricas de capitalistas e de trabalhadores parecem hoje ser impróprias, mas apenas porque essas classes grandes se fragmentaram em grupos menores de pessoas iradas.”
Será que as classes sociais sempre vão existir? Conforme mostrará o artigo que segue, a situação não é sem esperança.
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É mesmo possível uma sociedade sem classes sociais?A Sentinela — 2002 | 1.° de janeiro
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É mesmo possível uma sociedade sem classes sociais?
JOHN ADAMS, que se tornou o segundo presidente dos Estados Unidos, foi co-signatário da histórica Declaração de Independência, que inclui as seguintes palavras nobres: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens foram criados iguais.” No entanto, John Adams evidentemente duvidava que as pessoas realmente fossem iguais, porque escreveu: “A Desigualdade de Mente e de Corpo foi determinada pelo Deus Todo-Poderoso na Constituição da Natureza Humana de tal maneira que nenhuma arte nem política jamais reduzirá todos ao mesmo nível.” Em contraste com isso, o historiador britânico H. G. Wells conseguiu imaginar uma sociedade igualitária, baseada em três coisas: uma religião mundial comum, pura e incorrupta, uma educação universal e a ausência de forças armadas.
Até agora, a História não produziu a sociedade igualitária visionada por Wells. Os humanos estão longe de serem iguais, e a distinção de classe ainda é um fator predominante da sociedade. Será que as classes trouxeram benefícios para a sociedade como um todo? Não. Os sistemas de classes sociais dividem as pessoas, o que resulta em inveja, ódio, angústia e muito derramamento de sangue. A antiga mentalidade da supremacia branca, na África, na Austrália e na América do Norte, causou grande sofrimento aos que não eram brancos — inclusive o genocídio de todos os aborígines na Terra de Van Diemen (agora Tasmânia). Na Europa, a classificação dos judeus como inferiores foi o prelúdio do Holocausto. A grande riqueza da aristocracia e a insatisfação entre as classes baixa e média foram fatores que levaram à Revolução Francesa do século 18 e à Revolução Bolchevique na Rússia no século 20.
Um sábio do passado escreveu: “Homem tem dominado homem para seu prejuízo.” (Eclesiastes 8:9) Suas palavras são verazes, quer os que dominam sejam pessoas, quer classes sociais. Quando um grupo de pessoas se eleva acima de outro, o resultado inevitável é sofrimento.
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