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Os prós e os contras da globalizaçãoDespertai! — 2002 | 22 de maio
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Os prós e os contras da globalização
“A globalização é o grande evento econômico de nossa era. . . . Ela abre oportunidades inéditas a bilhões de pessoas no mundo.” — MARTIN WOLF, COLUNISTA FINANCEIRO.
“Nós, o povo da Terra, somos uma grande família. Entramos numa era que apresenta novos desafios e novos problemas globais, como catástrofes ambientais, esgotamento de recursos, conflitos sangrentos e pobreza.” — EDUARD SHEVARDNADZE, PRESIDENTE DA GEÓRGIA.
EM DEZEMBRO de 1999, a conferência da Organização Mundial do Comércio realizada em Seattle, EUA, foi interrompida por uma manifestação. Para restabelecer a ordem, a polícia usou gás lacrimogêneo, balas de borracha e spray de pimenta. Centenas de manifestantes foram presos.
O que provocou a “batalha de Seattle”? Uma longa lista de protestos envolvendo estabilidade no emprego, meio ambiente e injustiça social. Mas em síntese, o que os manifestantes temiam era a globalização — e seus efeitos sobre as pessoas e o planeta.
Seus temores não diminuíram. Desde 1999, manifestações antiglobalização aumentaram em tamanho e força. Em alguns casos, os líderes mundiais procuram agora realizar seus fóruns em locais isolados, de difícil acesso aos manifestantes.
É claro que nem todos encaram a globalização como ameaça. Ao passo que alguns a condenam como a causa de todos os males do mundo, outros a aclamam como a solução para grande parte dos problemas do mundo. É verdade que esse debate pode parecer irrelevante para a maioria da humanidade que tem uma noção muito vaga do que é a globalização. Mas não importa qual o seu ponto de vista sobre o assunto, você já está sendo afetado pela globalização, e provavelmente o será muito mais no futuro.
O que é globalização?
“Globalização” é o termo que vem sendo usado para definir a crescente interdependência de povos e países. Esse processo se acelerou dramaticamente na última década, em especial por causa dos grandes avanços tecnológicos. (Veja o quadro na página 5.) Nesse período ruíram as barreiras da Guerra Fria entre os dois blocos de nações. Houve também um estímulo ao comércio internacional, os grandes mercados financeiros do mundo foram integrados e viajar se tornou mais barato e mais fácil.
A crescente integração mundial produziu uma série de conseqüências econômicas, políticas, culturais e ambientais. Infelizmente, algumas delas foram negativas. A publicação Relatório de Desenvolvimento Humano 1999 comentou: ‘A redução do espaço e do tempo e o desaparecimento de fronteiras ligam a vida das pessoas mais profundamente, mais intensamente e mais diretamente que no passado. Isso abre muitas oportunidades e possibilidades, tanto para o bem como para o mal.’ Assim como inúmeras outras realizações humanas, a globalização tem o seu lado positivo e o seu lado negativo.
Esperança de um mundo mais próspero
Amartya Sen, prêmio Nobel em economia, diz que a globalização “deu uma grande contribuição científica e cultural ao mundo, além de beneficiar a muitos em sentido econômico”. O Relatório de Desenvolvimento Humano 1999 também diz que a globalização “oferece um enorme potencial para erradicar a pobreza no século XXI”. A razão de tanto otimismo é o aumento dramático na prosperidade que veio em seu rastro. A renda da família mediana no mundo é três vezes maior hoje do que há 50 anos.a
Há analistas que vêem outra vantagem na integração econômica: acham que ela fará com que os países relutem mais em travar guerras. Thomas L. Friedman, no livro The Lexus and the Olive Tree (O Lexus [linha de carros de luxo] e a Oliveira), garante que a globalização “aumenta os incentivos para não se travarem guerras, tornando-as mais onerosas em muito mais aspectos do que em qualquer época anterior na história moderna”.
A maior interação entre as pessoas também tende a aumentar a solidariedade global. Algumas organizações de direitos humanos têm sido bem-sucedidas em utilizar os recursos da Internet para promover suas causas. Só para citar um exemplo, o tratado internacional de proibição de minas terrestres, de 1997, foi conseguido em parte devido ao uso do correio eletrônico a fim de mobilizar diversos grupos de apoio do mundo todo. Essa mobilização da opinião pública foi aclamada como “nova maneira de conduzir a diplomacia internacional, em que governos e cidadãos comuns se unem para enfrentar uma crise humanitária global”.
Apesar dos resultados positivos, muitos temem que os efeitos negativos da globalização possam ser maiores do que os seus benefícios.
Temores de um mundo mais dividido
Provavelmente a preocupação maior com relação à globalização é que ela aumentou o fosso entre os ricos e os pobres. Embora a riqueza global sem dúvida tenha aumentado, ela se acha concentrada nas mãos de menor número de pessoas e países. O patrimônio líquido das 200 pessoas mais ricas da Terra é maior do que a renda conjunta de 40% da população do planeta, ou seja, cerca de 2,4 bilhões de pessoas. E ao passo que os salários continuam a aumentar em países ricos, 80 países pobres tiveram uma diminuição na renda média nos últimos dez anos.
Outra preocupação básica envolve o meio ambiente. A globalização econômica tem sido estimulada pelo mercado mundial que está muito mais interessado em lucro do que na preservação ambiental. Agus Purnomo, diretor do Fundo Mundial para a Natureza na Indonésia, explica o dilema: “Estamos numa corrida constante com o desenvolvimento. . . . Temo que dentro de uma década todos nós teremos consciência da necessidade de preservar o meio ambiente, mas talvez seja tarde demais.”
As pessoas também estão muito inseguras com relação ao emprego. Tanto o número de empregos como os salários encolheram, ao passo que a fusão de grandes corporações e a acirrada competitividade estimulam o enxugamento corporativo. Contratar e demitir trabalhadores conforme as tendências do mercado é vantajoso para uma empresa interessada em aumentar os lucros, mas seu impacto é desastroso na vida das pessoas.
A globalização do mercado financeiro introduziu outro fator desestabilizante. Investidores internacionais talvez injetem grandes somas em países em desenvolvimento, mas logo voltam atrás quando as perspectivas financeiras não são boas. Esse fator pode desencadear a crise econômica em um país após outro. A crise monetária no Leste Asiático em 1998 fez com que mais de 13 milhões perdessem o emprego. Na Indonésia, mesmo os que mantiveram o emprego tiveram o salário reduzido pela metade.
É compreensível que a globalização seja encarada com otimismo por alguns e com pessimismo por outros. E você, tem motivos para temer a globalização? Ou espera que ela lhe traga uma vida mais próspera? A globalização nos dá razão para encarar o futuro com otimismo? O artigo seguinte responderá a essas perguntas.
[Nota(s) de rodapé]
a Porém as médias, principalmente as médias mundiais, podem ser enganosas. Em muitos lugares, não houve nenhum aumento na renda familiar nos últimos 50 anos, ao passo que os salários de outros multiplicaram várias vezes.
[Destaque na página 3]
O patrimônio líquido das 200 pessoas mais ricas da Terra é maior do que a renda conjunta de 40% da população mundial
[Quadro/Fotos na página 5]
A TECNOLOGIA POR TRÁS DA GLOBALIZAÇÃO
A tecnologia revolucionou a indústria da comunicação na última década. O acesso a pessoas e a informações — praticamente em qualquer parte do mundo — tornou-se mais rápido, mais barato e mais fácil.
TELEVISÃO: a maioria das pessoas no mundo hoje tem acesso à TV, mesmo as que não possuem televisão. Em 1995, havia 235 aparelhos de TV para cada 1.000 pessoas no mundo, quase que o dobro em relação a 1980. Uma pequena antena parabólica permite que pessoas que vivem nas partes mais remotas do globo recebam transmissões do mundo todo. “Hoje em dia, nenhum país pode ficar completamente isolado da mídia mundial”, diz Francis Fukuyama, professor de economia política.
INTERNET: uns 300 mil novos usuários se conectam à Internet toda semana. Em 1999, calculava-se que o número de usuários em 2001 seria de 700 mil. “O resultado é que”, explica o escritor Thomas L. Friedman, “nunca antes na História mundial tantas pessoas puderam aprender tanto sobre a vida, os produtos e as idéias de outras pessoas e povos”.
TELEFONE: cabos de fibra ótica e transmissões por satélites diminuíram muito o custo dos telefonemas. O custo de uma chamada internacional de três minutos, de Nova York a Londres, caiu de 245 dólares em 1930 para 35 centavos de dólar em 1999. O uso das ondas de rádio fez com que o telefone celular ficasse tão comum como o computador. Até o fim do ano 2002, calcula-se que haverá cerca de um bilhão de usuários de telefone celular, que poderá ser usado para acessar a Internet.
MICROCHIP: todos os recursos acima mencionados, que são melhorados constantemente, dependem de microchips. Nos últimos 30 anos, o poder de processamento dos microchips tem duplicado a cada ano e meio. Nunca tantas informações foram armazenadas em tão pouco espaço.
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Globalização é a solução?Despertai! — 2002 | 22 de maio
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Globalização é a solução?
“A comunidade global em que vivemos hoje (como a maioria das demais comunidades) está longe de ser ideal: ela tem muitas falhas. Não há justiça social e as oportunidades são desiguais. Milhões de pessoas são tão carentes a ponto de se sentirem excluídos da comunidade.” — “OUR GLOBAL NEIGHBOURHOOD (NOSSA COMUNIDADE GLOBAL)”.
FATIMA, residente de uma grande cidade africana, se considera feliz. Pelo menos ela tem uma geladeira. Mas a casa onde mora com a família é um barraco feito de sucata, junto a três túmulos de mármore. Como meio milhão de outros, ela mora num enorme cemitério. E até mesmo o cemitério está ficando apinhado. “Tem muita gente se mudando para cá”, reclama, “principalmente aqui onde ficam os túmulos”.
A uns 15 quilômetros da casa de Fatima há um recém-construído condomínio fechado com restaurantes finos e um enorme campo de golfe. O custo de uma partida de golfe é maior do que a renda mensal per capita nesse país africano. A pobreza sempre fez parte do cenário da cidade, mas campos de golfe — um símbolo da elite — são uma novidade que incomoda. Na nossa comunidade global, o luxo e a miséria convivem lado a lado, mas não sem atritos.
O uádi Hadramaute, que corta a região árida do Iêmen (no Oriente Médio), é uma antiga rota serpenteante de caravanas, pontilhada de cidades antigas. À primeira vista, tem-se a impressão de que o tempo parou nesse vale remoto. Mas as aparências enganam. Em Saywūn, uma cidade próxima, o museu convocou o serviço de uma profissional de formação universitária para criar um site na Internet alistando o acervo. Embora ela seja uma moça da localidade, estudou em Ohio, EUA. Hoje em dia, tanto pessoas como idéias circulam o mundo com uma facilidade não vista em nenhum outro período da História.
A milhares de quilômetros a oeste, no Saara, um comboio de três caminhões se dirige lentamente para o sul, numa estrada isolada. Mashala, um dos motoristas, explica que está transportando aparelhos de TV, videocassetes e antenas parabólicas. Ele mesmo se mantém em dia com os acontecimentos mundiais assistindo a noticiários de emissoras americanas. Na minha cidade “todo mundo tem antena parabólica”, diz. São pouquíssimos os lugares no planeta que não são alcançados pela mídia mundial.
O fluxo constante de pessoas, idéias, notícias, capital e tecnologia criou uma aldeia global que pode proporcionar muitos benefícios. A globalização ajuda a difundir a cultura local no Iêmen e permite que Mashala ganhe até 3 mil dólares por uma viagem de três semanas. Mas o dinheiro fica nas mãos de poucos. Fatima e seus vizinhos vêem algumas pessoas se beneficiar com a globalização enquanto eles continuam atolados na pobreza.
Embora a comunidade global esteja longe de ser ideal, o processo da integração global provavelmente é irreversível. Será que as pessoas vão desligar a TV, jogar fora o celular, sucatear o computador e deixar de viajar a outros países? As nações vão se isolar completamente do restante do mundo, tanto em sentido político como econômico? É muito improvável. Ninguém quer rejeitar os benefícios da globalização. Mas como contornar os problemas que ela acarreta? Esses causam crescente preocupação e afetam a todos. Vejamos brevemente alguns dos efeitos negativos da globalização.
O fosso da desigualdade
A distribuição da riqueza no mundo nunca foi eqüitativa, mas a globalização da economia aumentou muito a desigualdade entre ricos e pobres. É verdade que alguns países em desenvolvimento se beneficiaram da integração na economia global. Segundo especialistas, nos últimos dez anos o número dos que vivem abaixo da linha de pobreza na Índia diminuiu, de 39% para 26%, e houve uma melhora similar na Ásia como um todo. Certo estudo mostrou que em 1998 apenas 15% da população do Leste Asiático vivia com um dólar por dia, em comparação com 27% dez anos antes. Mas o quadro global não é tão animador.
Na África subsaariana e em outras regiões menos desenvolvidas, a renda na verdade diminuiu nos últimos 30 anos. “A comunidade internacional . . . permite que quase 3 bilhões de pessoas — praticamente a metade da humanidade — subsista com apenas 2 dólares ou menos por dia, isso num mundo que nunca foi mais rico”, diz Kofi Annan, secretário-geral das Nações Unidas. Uma das principais causas desse enorme abismo social é o interesse financeiro. “No mundo todo, os mercados financeiros excluem os muito pobres”, explica Larry Summers, um ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos. “Os principais bancos não são estabelecidos em comunidades pobres — porque não há retorno financeiro.”
O grande abismo de renda entre os ricos e os pobres marginaliza pessoas e até mesmo países. Não faz muito tempo, a fortuna do homem mais rico dos Estados Unidos era maior do que a receita líquida conjunta de mais de 100 milhões de americanos. A globalização também favoreceu o crescimento de multinacionais ricas que praticamente monopolizaram o mercado mundial para determinados produtos. Em 1998, por exemplo, apenas dez companhias controlavam 86% da indústria de telecomunicações que movimenta 262 bilhões de dólares. O poder econômico dessas multinacionais não raro é maior do que o de muitos governos e, como salienta a Anistia Internacional, “os direitos humanos e os direitos dos trabalhadores não são prioridade na sua agenda”.
Organizações de direitos humanos têm razão de estar preocupadas com a concentração da riqueza do mundo nas mãos de uns poucos privilegiados. Gostaria de viver numa comunidade em que os 20% mais ricos ganham 74 vezes mais do que os mais pobres? E graças à TV, os 20% mais pobres da humanidade sabem muito bem como vivem os seus vizinhos ricos, embora não tenham perspectiva de melhorar de vida. Essa crassa injustiça na comunidade global obviamente gera tumultos e frustração.
Globalização da cultura
Outro motivo de preocupação são os choques culturais e a disseminação de valores materialistas. O intercâmbio de idéias é um aspecto importante da globalização, sendo a Internet o ícone desse fenômeno. Lamentavelmente, a Internet não é usada apenas para divulgar informações, cultura e comércio benéficos. Alguns sites promovem a pornografia, o racismo e a jogatina. Há até os que dão instruções específicas sobre a construção de bombas caseiras. Como bem expresso por Thomas L. Friedman, “na Internet, o perigo mora a apenas alguns cliques de distância. Você pode entrar por acaso num bar neonazista virtual ou na biblioteca de um pornógrafo . . . sem que haja ninguém para impedi-lo ou para supervisioná-lo”.
A televisão e os filmes também exercem uma enorme influência sobre o modo de pensar das pessoas. Hollywood, a maior fábrica de sonhos do mundo, é quem dita as mensagens passadas pelo cinema mundial. Os valores promovidos por essa gigantesca indústria do entretenimento com freqüência envolvem materialismo, violência ou imoralidade. Podem ser totalmente incompatíveis com a cultura de muitos países. Porém governos, educadores e pais invariavelmente acham impossível coibir essa tendência.
“Amamos a cultura americana”, explicou um morador de Havana, Cuba, a um turista americano. “Conhecemos todos os astros e estrelas de Hollywood.” A cultura americana também promove lanches rápidos e refrigerantes. Um empresário da Malásia disse: “As pessoas daqui gostam de qualquer coisa do Ocidente — especialmente dos Estados Unidos. . . . Querem comer e copiar tudo o que vem de lá.” O reitor de uma universidade de Havana reconheceu com tristeza: “Cuba não é mais uma ilha. Hoje em dia não existem mais ilhas. O mundo todo é uma coisa só.”
A invasiva cultura ocidental influi também na esperança e nos desejos das pessoas. ‘Antes, as pessoas queriam possuir os mesmos bens de consumo que o vizinho ao lado. Agora, elas querem copiar o estilo de vida dos ricos e famosos que aparecem nos filmes e na televisão’, disse o Relatório de Desenvolvimento Humano 1998. É claro que a vasta maioria da humanidade nunca atingirá esse estilo de vida.
A globalização é a solução?
Como muitos empreendimentos da humanidade, a globalização tem o seu lado útil e o seu lado prejudicial. Ela trouxe vantagens econômicas para alguns e introduziu uma era de comunicações globais. Mas favorece os ricos e os poderosos ao passo que exclui os pobres e os carentes. E tanto criminosos como os vírus causadores de doenças têm-se aproveitado das vantagens da globalização com mais eficiência do que os governos. — Veja os quadros nas páginas 8 e 9.
Em grande medida, a globalização aumentou os problemas que já existiam em nossa sociedade imperfeita. Em vez de oferecer uma solução para as dificuldades do mundo, ela se tornou parte do problema. As desigualdades sociais aumentaram, gerando maiores frustrações. Governos ao redor do mundo procuram colher os benefícios da globalização e ao mesmo tempo proteger seus cidadãos dos excessos. Conseguirão isso? Será que a solução seria a globalização com enfoque humanitário? O artigo seguinte analisará essas questões.
[Quadros/Fotos nas páginas 8, 9]
A GLOBALIZAÇÃO DO CRIME E DO TERRORISMO
Infelizmente, os instrumentos que promovem o comércio podem facilmente ser convertidos em instrumentos para o crime. ‘Assim como as empresas multinacionais lideraram a corrida para globalizar a economia mundial, “as multinacionais do crime” — organizações criminosas — não perderam tempo em explorá-la’, explica o Relatório de Desenvolvimento Humano 1999. Como o crime organizado se beneficiou com a globalização?
Os cartéis do narcotráfico encontraram infinitas oportunidades de lavar o dinheiro de seus lucros bilionários. A eliminação de controles alfandegários e o crescente fluxo de pessoas também facilitaram o transporte de drogas ilegais de um país ou continente para outro. Vale notar que na década de 90 a produção de cocaína dobrou e a produção de ópio triplicou. Grupos da máfia internacional também desenvolveram um negócio lucrativo com a prostituição. Todo ano, eles exportam cerca de 500.000 mulheres e meninas para a Europa Ocidental visando essa finalidade — a maioria delas contra a vontade.
Grupos criminosos, assim como as corporações multinacionais, consolidaram seu poder nos anos recentes. Muitos deles operam no mundo todo e estima-se que o seu faturamento conjunto seja de 1,5 trilhão de dólares por ano — mais do que o produto nacional bruto da França.a
A Internet também tem sido um instrumento ideal para experts em informática inescrupulosos. Em 1995 um hacker roubou informações no valor estimado em 1 milhão de dólares, além de 20.000 números de cartões de crédito. “Roubar utilizando os novos recursos disponibilizados pela tecnologia é menos arriscado e mais vantajoso”, explicou o banqueiro espanhol José Antonio Soler.
Os terroristas também se aproveitam dos instrumentos da globalização. Graças à cobertura mundial da mídia, o seqüestro de alguns turistas ocidentais num lugar remoto do planeta pode servir para dar publicidade instantânea a qualquer reivindicação política.
“TURISTAS” INDESEJADOS
Doenças, assim como pessoas, podem viajar pelo mundo, e algumas delas são muito perigosas. “No rastro do espantoso aumento no fluxo mundial de pessoas, de bens e de idéias veio a globalização de doenças”, explica o epidemiologista Jonathan M. Mann. “O mundo se tornou muito mais vulnerável ao surgimento e, pior ainda, à disseminação de doenças infecciosas novas e antigas, em âmbito global.”
O exemplo mais dramático dessa nova vulnerabilidade global é a pandemia da Aids, que hoje mata cerca de três milhões de pessoas por ano. Em alguns países da África, os que trabalham na área da saúde temem que a doença por fim mate dois terços dos rapazes e moças da região. “No decorrer de milênios de epidemias, guerras e fomes, nunca na História houve uma taxa de mortes tão grande entre jovens adultos”, diz o Programa das Nações Unidas para a Aids/HIV.
Os micróbios e os vírus não são os únicos “turistas” globais indesejados. Animais, plantas e insetos escaparam do seu habitat e invadiram outros continentes. Uma espécie de cobra venenosa da Austrália pelo visto chegou às ilhas do Pacífico escondida em aviões. Ela praticamente já dizimou os pássaros florestais de Guam. O aguapé da América do Sul se espalhou a 50 países tropicais onde está obstruindo canais e destruindo lagos com peixes. “Esses ‘imigrantes clandestinos’ estão custando à economia global possivelmente centenas de bilhões de dólares por ano, além de disseminar doenças e causar destruição ecológica maciça”, diz o jornal International Herald Tribune.
[Nota(s) de rodapé]
a O “produto nacional bruto” é o valor atual de mercado de todos os bens e serviços que um país produz em um ano.
[Fotos]
CONTRABANDO DE DINHEIRO
Encontrado num carregamento de ursinhos de pelúcia
CONTRABANDO DE COCAÍNA
Carregamento no valor de 4 milhões de dólares, encontrado num veículo apreendido numa fronteira
BIOTERRORISMO
Soldados procuram antraz no Capitólio, Washington, DC
ATENTADOS A BOMBA
Explosão de um carro-bomba em Israel
DISSEMINAÇÃO GLOBAL DA AIDS
A epidemia da Aids se alastrou de tal forma na África do Sul que alguns hospitais públicos simplesmente não aceitam mais pacientes
ESPÉCIES INVASORAS
As cobras-arborícolas-marrons quase exterminaram os pássaros florestais de Guam
AGUAPÉ
Esta planta provoca a obstrução de canais e leitos de rios em uns 50 países
[Créditos]
Contrabando de dinheiro e cocaína: James R. Tourtellotte e Todd Reeves/U.S. Customs Service; bioterrorismo: foto da AP/Kenneth Lambert; ônibus em chamas: foto da AP/HO/Israeli Defense Forces; criança: foto da AP/Themba Hadebe; cobra: foto de T. H. Fritts, USGS; aguapé: Staff CDFA, California Dept. of Food & Agriculture, Integrated Pest Control Branch
[Fotos na página 7]
A globalização econômica aumentou o fosso entre os ricos e os pobres
[Crédito]
FOTO DA ONU 148048/J. P. Laffont - SYGMA
[Fotos na página 10]
A Internet está sendo usada para promover o terrorismo
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A globalização que o beneficiaráDespertai! — 2002 | 22 de maio
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A globalização que o beneficiará
“Para que a globalização seja realmente benéfica, precisa beneficiar os pobres tanto quanto os ricos. Ela precisa assegurar direitos, não apenas riquezas. Precisa trazer justiça e eqüidade social e não apenas prosperidade econômica e melhora nas comunicações.” — KOFI ANNAN, SECRETÁRIO-GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS.
CONFORME muito bem salientado por Kofi Annan, a globalização, para ser realmente benéfica, deve melhorar a vida de todo habitante da comunidade global. Mas o que temos visto em anos recentes está muito longe desse ideal. Os direitos humanos e a eqüidade social ficaram muito aquém do progresso tecnológico e material.
O principal problema da globalização é que ela é movida pelo lucro. Isso raramente leva em conta os pobres e os desprivilegiados ou as necessidades em longo prazo do planeta. “Uma economia global não regulamentada, dominada por corporações que apenas visam o lucro, é inerentemente instável . . . e em última análise empobrece a humanidade”, diz o Dr. David C. Korten.
Serão os governos do mundo capazes de regular a economia global de tal modo que traga justiça social? Isso parece pouco provável. Até agora, os governos não têm conseguido resolver nenhum problema global — seja o crime global, aquecimento global ou pobreza global. “É preciso uma ação coletiva para proteger os interesses globais”, explica Annan, “mas no mundo globalizado de hoje, os mecanismos disponíveis para uma ação global são muito rudimentares”.
Porém não basta apenas tratar de problemas globais. A Comissão sobre Governança Globala argumenta que o mundo também precisa de valores éticos. ‘Sem uma ética global’, diz o relatório da comissão, ‘as fricções e as tensões de viver numa comunidade global se multiplicarão; sem uma liderança, mesmo as instituições e as estratégias mais bem elaboradas falharão’.
Que tipo de ética global recomendaram? ‘As pessoas devem tratar outros como gostariam de ser tratadas’, declarou o relatório. Jesus Cristo, o maior líder que o mundo já conheceu, ensinou esse mesmíssimo padrão de conduta há quase dois mil anos. (Mateus 7:12) Esse princípio atemporal se aplica muito bem atualmente. Uma globalização que se pautasse por tal princípio sem dúvida beneficiaria a todos. É realista esperar que isso aconteça?
Solução global de uma fonte diferente
A Bíblia prediz que no futuro próximo um governo global unirá a humanidade com base no altruísmo, não em capital ou tecnologia. Será bem-sucedida, porque tem o poder e os mecanismos para tomar ação global em benefício de toda a humanidade. O próprio Jesus Cristo deu destaque a esse governo global ao ensinar seus seguidores a orar ‘pela vinda do Reino de Deus e para que a vontade de Deus fosse feita na Terra’. — Mateus 6:10.
O Reino de Deus, o governo celestial nas mãos de Jesus Cristo, exemplificará uma nova ética global, que o próprio Jesus ensinou quando estava na Terra. Suas diretrizes serão o amor a Deus e ao próximo. (Mateus 22:37-39) Muitas profecias na Bíblia mostram o que esse governo fará. Sobre o seu Governante, Jesus Cristo, a Bíblia promete: “Com justiça julgará os necessitados e defenderá os direitos dos pobres.” (Isaías 11:4, Bíblia na Linguagem de Hoje) Os ricos e os poderosos não explorarão os desprivilegiados. Jesus “terá dó daquele de condição humilde e do pobre . . . Resgatará sua alma da opressão e da violência”. — Salmo 72:13, 14.
Os problemas ambientais serão solucionados prontamente. Em vez da alastrante desertificação, “o deserto se alegrará, e crescerão flores nas terras secas”. (Isaías 35:1, BLH) Em lugar de fome, “virá a haver bastante cereal na terra”. — Salmo 72:16.
O Reino de Deus une pessoas de todas as formações. “Pô-los-ei em união, como o rebanho no redil”, promete Deus. ‘Darei aos povos a transformação para uma língua pura, a fim de que todos eles me sirvam ombro a ombro.’ (Miquéias 2:12; Sofonias 3:9) Essa “língua pura”, que inclui um conjunto universal de valores morais e religiosos, já está unindo as pessoas hoje em dia.
Graças às facilidades de viagem no mundo todo, as Testemunhas de Jeová realizam grandes congressos internacionais com regularidade, o que fortalece o vínculo de união entre diferentes grupos raciais, nacionais e culturais. Esses congressos são uma prova viva da união que envolve mentes e corações, não tecnologia e comércio. (Veja o quadro acompanhante.) Certa teóloga espanhola que assistiu a um desses congressos escreveu: “Saí de lá edificada, não somente pelos esclarecedores discursos bíblicos, mas também pela união que existe entre esse povo, sua elevada moral e comportamento impecável.”
As Testemunhas de Jeová também usam outras ferramentas da globalização para facilitar a divulgação das boas novas sobre o Reino de Deus. A revista Despertai!, por exemplo, é traduzida em mais de 80 idiomas por muitos tradutores ao redor do mundo que utilizam a informática e o correio eletrônico. Esses instrumentos ajudam as Testemunhas de Jeová a fazer com que o seu programa de educação bíblica seja realmente global. Torna-se claro que os instrumentos de globalização podem ser usados tanto de modo construtivo como de modo destrutivo.
O mesmo se dá com a globalização em si. Ao passo que a globalização humana tem gerado problemas, o governo global estabelecido por Deus fornecerá soluções. Temos todos os motivos para confiar nessa administração celestial. “Estou criando um novo céu e uma nova terra”, promete Deus. “O passado será esquecido, e ninguém se lembrará mais dele. Alegrem-se, fiquem felizes para sempre com aquilo que eu vou criar.” (Isaías 65:17, 18. BLH) A “nova terra” estabelecida por Deus trará reais benefícios para pessoas em todo o globo.
[Nota(s) de rodapé]
a Essa comissão, composta de 28 destacados líderes mundiais, preparou um relatório extensivo em 1995, intitulado “Nossa Comunidade Global”, em que definiram propostas para melhorar a governança mundial.
[Quadro na página 12]
CONECTADOS, PORÉM DIVIDIDOS
A tecnologia pode ter encurtado distâncias, porém existem divisões que permanecem intransponíveis. A televisão, o telefone celular e a Internet são úteis para conectar as pessoas, mas não para uni-las. A integração econômica e o fim da rivalidade entre as superpotências reduziram o número de guerras entre Estados, porém conflitos civis brutais continuam a matar e a mutilar centenas de milhares de pessoas todo ano.
Por que isso acontece? Porque o ódio entre grupos rivais étnicos, raciais e religiosos — a causa subjacente de guerras civis — continua a fervilhar. E o comércio global e os grupos criminosos tornam disponível uma enorme quantidade de armamentos baratos para manter bem supridas as facções em guerra. A verdadeira união jamais será conseguida pelo avanço eletrônico. E a justiça social não virá pela alta num mercado de ações.
Em alguns aspectos, a globalização econômica pode na verdade contribuir para a desunião. Quando uma alta nas ações traz no seu rastro a recessão econômica, as pessoas que de repente ficam pobres se tornam vulneráveis à propaganda de extremistas políticos que aproveitam a crise para promover suas causas. Qual é então a solução? “A governança nacional e mundial têm de ser reinventadas — com o desenvolvimento humano e a eqüidade no centro”, admite o Relatório de Desenvolvimento Humano 1999. É exatamente isso que o Reino de Deus vai fazer.
[Fotos na página 13]
O programa educacional bíblico das Testemunhas de Jeová tem unido pessoas de todas as formações
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