Alasca
A GELADEIRA DE SEWARD, é como foi chamado o Alaska em 1867 quando os Estados Unidos o compraram da Rússia. Guilherme H. Seward, Secretário de Estado dos EUA, fez a transação, e os opositores denominaram-na também loucura de Seward. Essas expressões desabonadas se originaram da crença errônea de que a neve e o frio nunca abandonam este remoto canto da terra, e que fica envolto em total escuridão por seis meses seguidos. Embora uma terra de extremos, o Alaska oferece suficientes atrações para induzir os residentes a considerar esta parte sua da terra um paraíso.
É verdade que o gelo e a neve constituem grande parte da paisagem no inverno que dura sete meses, quando a temperatura pode abaixar a 62 graus centígrados abaixo de zero. Mas o calor do verão em Fairbanks já chegou a atingir em certas ocasiões 38 graus centígrados. Quando o sol do verão brilha durante 20 horas por dia, infunde nos habitantes maior vigor e entusiasmo para realizarem suas tarefas diárias. Abrangendo mais de 1.525.000 quilômetros quadrados e estendendo-se por quatro fusos horários, o Alasca é o maior estado dos Estados Unidos, tendo mais que o dobro do tamanho do Texas. Apesar de sustentar ser o maior estado, tendo quase um quinto do tamanho do resto desta nação, é o menos habitado, com uma população de apenas cerca de 425.000 pessoas. Numerosas montanhas e geleiras encerram dentro de seus picos de gelo grande parte da água potável do mundo, e há dois milhões dentre os muitíssimos lagos do Alasca que têm mais de oito hectares. A cordilheira de Santo Elias jacta-se da maior geleira deste hemisfério, a geleira Malaspina, de 80 quilômetros de largura.
Há quem descreva essa terra como tendo “cinco faces”. A tundra sem árvores, com constantes ventos, distingue o grupo das ilhas Aleútes. O Cabo de Panela do sudeste é uma densa floresta pluvial de enormes espruces (Picea sitchensis), e é famosa pela sua pesca industrial. A região centro-sul do Alasca, incluindo Anchorage, o vale de Matanuska e a península de Kenai, abriga a maior parte da população do estado e goza de clima temperado. Na redondeza de Palmer e no vale de Matanuska há uma viçosa gleba de terra cultivada, boa para a produção de carne bovina, leite, aves domésticas e algumas hortaliças. Não são incomuns repolhos de mais de 30 quilos e nabos de mais de 14 quilos.
Fairbanks, o “Centro Aurífero do Norte”, tem temperatura que vai a extremos — a mais quente no verão e uma das mais frias no inverno. É o fim da linha da esponjosa tundra ártica. E, finalmente, as regiões litorâneas do norte e do oeste estão pontilhadas de povoados de esquimós e de índios; aqui o verão provê apenas um pouco de calor, aliviando do extremo frio do inverno.
No número das maravilhas deste paraíso setentrional, há 13 vulcões ativos, bem como o majestoso monte McKinley, que se eleva a 6.194 metros nas nuvens, sendo o mais alto pico da América do Norte. A zona rural tem abundante fauna e é rica em minérios, madeira e petróleo. É, pois, de admirar que os primitivos ilhéus das Aleútes o chamassem de Alyeska, que significa “terra grande”?
É irônico que esta terra de grande riqueza natural, a “Geladeira de Seward”, fosse comprada da Rússia em 1867 por apenas US$ 7.200.000,00, cerca de cinco centavos de dólar por hectare! Os russos haviam procurado enriquecer-se com a pele de animais. Em 1897-98, os garimpeiros afluíram aqui à procura de ouro ao longo da picada do Klondike. Mais tarde, pescadores mercantes percorreram os 53.000 quilômetros de contorno litorâneo, onde as marés se fazem sentir, à procura de riquezas do mar. Hoje os trabalhadores nos campos petrolíferos fazem perfurações para extrair do subsolo o precioso ouro negro (o petróleo). Mas o Alasca se jacta de riquezas ainda mais valiosas do que todas estas.
CHEGA A UMA OPULENTA TERRA A VERDADEIRA RIQUEZA
Jesus Cristo, depois de ser ressuscitado, disse a seus discípulos que estes seriam testemunhas dele “até à parte mais distante da terra”. (Atos 1:8) Empoleirado no topo do globo, o Alasca se qualifica certamente como uma ‘parte distante da terra’. Assim como o Alasca não abriu mão facilmente de seus recursos naturais, tampouco aceitou sem resistência o tesouro das boas novas. Foi necessária a determinação de vigorosos servos de Jeová, respaldados pelo Seu espírito santo, para penetrar nesta região inóspita e agreste.
As primeiras sementes da verdade foram lançadas ao longo da costa em 1910 pelo capitão Beams, o comandante de um baleeiro. Pouco se sabe sobre os pormenores de sua atividade, a não ser que ele falou sobre a verdade e deixou publicações nos vários portos em que fez escalas.
Em fins da década de 1920, Frank Day, uma Testemunha ungida, procedente de Seattle, no estado de Washington, EUA, deu início a esforços mais concentrados. Todo verão, por mais de 12 anos, atravessava o território, pregando e colocando publicações. Para se sustentar, vendia óculos ao viajar de um povoado para outro, mantendo, contudo, em primeiro lugar a pregação. Visto que trabalhava sozinho, contava grandemente com a direção de Jeová.
A irmã Winnie Pearson, da cidade de Fairbanks, no interior, lembra-se de ter-se mudado em 1930 para uma casa onde encontrou exemplares dos Estudos das Escrituras (em inglês), que o irmão Day colocara. Este irmão deixou um rastro de bom trabalho que se estendia de Ketchikan até Nome, uma distância de cerca de 1.900 quilômetros. Uma consecução nada pequena quando se lembra de que teve de cobrir seu território mancando, devido à sua perna artificial!
Em agosto de 1941, o irmão Day escreveu ao escritório da Sociedade em Brooklyn, recomendando a formação de uma congregação em Anchorage. Sugeriu que o irmão Karl Liebau tomasse a liderança. No lugar onde a petição perguntava quantos mais pregariam junto com o irmão Liebau, estava escrito o número “um”. Esse “um” era o irmão O. P. Rees. Assim, a primeira congregação da maior cidade do Alasca era composta de dois servos devotados.
Naquele tempo não havia estrada que ligasse a cidade portuária de Seward com Anchorage. O irmão Liebau decidiu que as casas da companhia da estrada de ferro ao longo da ferrovia que ligava as duas cidades precisavam ser visitadas com a pregação. Portanto, empreendeu isso, indo a pé! Ele dava testemunho a um homem ou a dois em cada casa da companhia, pernoitava e continuava sua caminhada ao longo dos trilhos até a próxima. Caminhou assim a distância inteira de mais de 160 quilômetros, pregando em caminho. O irmão Liebau continuou fiel até sua morte em 1969.
Os esforços de penetrar mais no ermo do Alasca nem sempre tiveram sucesso imediato. Winnie Pearson relembra quando o irmão Day passou por Fairbanks durante sua última viagem para o Alasca em 1942. Tendo carregado uma canoa de alimentos, publicações e seu grande fonógrafo de madeira com sua corneta protuberante, deixou a terra firme numa viagem extenuante ao longo do rio Yukon. Em pouco tempo, porém, apareceu na porta da irmã Pearson com publicações ensopadas e o fonógrafo todo molhado. Seu barco havia virado! Com isso, terminaram suas viagens ao Alasca.
AJUDA PROCEDENTE DO CANADÁ
Durante aqueles anos diversos irmãos canadenses que trabalhavam sob a direção da filial da Sociedade em Toronto ofereceram-se voluntariamente para ajudar no campo do Alasca. Fazendo uso de um barco de pesca, obtido pela Sociedade para a pregação das boas novas, começaram a trabalhar nas cidades costeiras de Juneau, Skagway, Hoonah e Sitka. Essa tripulação de quatro pessoas, que incluía o irmão Frank Franske, decidiu ir mais para o norte. Enfrentaram mares agitados, e, depois de 26 horas de se debaterem no mau tempo, foram forçados a retornar a Ketchikan. Seu desapontamento por terem de voltar foi atenuado quando descobriram a irmã Anna Hoguewood que havia iniciado o serviço do Reino em 1911. Ela permaneceu leal até sua morte em 1949, em Ketchikan, aos 76 anos.
Esses corajosos irmãos tiveram momentos maravilhosos, distribuindo publicações, conforme disseram, “por tonelada”. Sentiram-se atraídos pelos habitantes do Alasca, descritos pelo irmão Franske como sendo do “tipo de pessoas despachadas; pescadores, madeireiros, caçadores de peles e mineiros; todos tendo natureza hospitaleira e generosa, junto com um bem necessário senso de humor”.
Assim como os primitivos garimpeiros descobriram que tinham de joeirar muito cascalho para encontrar as pepitas amarelas de ouro, também esses primeiros “prospectores” cristãos descobriram que havia necessidade de muito esforço para encontrar algumas pessoas semelhantes a ovelhas. Em 1938, havia cinco publicadores que relatavam serviço do Reino no Alasca. Aumentaram para sete em 1942, mas em 1943 e 1944 caiu o número deles para dois ou três. Muita semente, porém, havia sido plantada com o uso de literatura bíblica, mas, precisava-se obviamente de algo mais no Alasca,
COMO BÁLSAMO DE GILEADE
Assim como o bálsamo, altamente valorizado, era usado ‘nos tempos bíblicos para causar cura e restabelecimento, da mesma forma a organização de Jeová enviou oito homens e mulheres como dádivas para prover a cura espiritual no território do Alasca. (Compare com Jeremias 46:11.) Aquela pequena população de cerca de 100.000 habitantes não ‘foi negligenciada, visto que pioneiros treinados em Gileade foram enviados ali em 1944 para promoverem os interesses do Reino.
Harold e Claudia Hoffman, Ralph Bachman e Chester Sieradski foram enviados para Juneau, a capital. John Errichetti e Gordon Rogers empreenderam seu serviço em Ketchikan, uma das diversas cidades das ilhas ao longo da costa do Cabo de Panela do Alasca. As maiores comunidades pouco exploradas de Anchorage e Fairbanks seriam cuidadas por James E. Odham e Hermon Woodard. Mais tarde, os irmãos Errichetti e Woodard se tornariam companheiros no serviço. Esse par, chamado com carinho “os rapazes” pelos irmãos do Alasca, desempenharia grande papel no crescimento futuro no Alasca.
Depois, em 1945, chegou outro formado em Gileade, Charles Gauntt, para servir em Juneau. Em 1948, casou-se com a irmã Ada Anderson, também formada em Gileade, e eles continuaram a servir no Alasca até outubro de 1954. Os dois filhos dos Gauntt, Charles e Tom, estão agora no serviço de tempo-integral: Charles, no Chile, e Tom, no Betel de Brooklyn, Em 1946, mais quatro missionários foram acrescentados ao grupo enviado da Escola Bíblica de Gileade, da Torre de Vigia.
BOAS-VINDAS NÃO MUITO CALOROSAS
Qual seria sua reação se se lhe pedisse que fosse pregar no Alasca? Sem dúvida, sentiria alegria e apreensão ao mesmo tempo. Contudo, oito vigorosos pioneiros se ofereceram voluntariamente a ir a essa designação incomum. A maioria dos missionários formados na Escola de Gileade teve de enfrentar o calor e a umidade de partes da América Central e do Sul e da África. Mas essa designação traria desafios de outra espécie. Iriam rumo ao norte! Não esperavam boas-vindas calorosas de um clima hostil. Depositariam sua confiança em Jeová, a fim de fazer face aos rigores de sua nova designação?
Quando os dois missionários chegaram a Anchorage, alugaram uma moradia de uma só peça por 35 dólares por mês. Era um cubículo. As instalações sanitárias ficavam fora, virando a esquina. Uma torneira de água com um balde ali perto era o único encanamento de água disponível. Esse era o lar missionário deles e o ponto focal para trabalharem no território. Desta base atingiriam Talkeetna, Palmer e Seward, um território agreste de uns 320 quilômetros de comprimento!
Em Fairbanks, uma cabana montada sobre patins servia de lar missionário para eles. Com pouca ou nenhuma insulação nas paredes, não era um alojamento ideal. Era comum os irmãos esticar o braço para pegar uma peça de vestimenta do guarda-roupa e encontrá-la congelada na parede. Não era mistério, porém, visto que o termômetro registrava 45 graus centígrados abaixo de zero do lado de fora!
TESTEMUNHO “NOTURNO” EM PLENO DIA
Os missionários esperavam que fosse frio no Alasca. Mas o que não haviam previsto plenamente, e que era difícil de aceitar, era que não havia muita luz do sol no inverno. O irmão Woodard relembra aquele primeiro ano: “Passamos um longo inverno em Anchorage. Tínhamos cerca de três horas de luz do sol, e, para muitos dias, o melhor termo seria ‘penumbra’.”
Em Fairbanks o problema era maior, pois os dias ali são ainda mais curtos durante o período do inverno. Quando o sol sai quase na metade da manhã e se põe depois de apenas algumas horas, isso pode ser duro para o recém-chegado ao Alasca. As condições de nevoeiro formado por cristais de gelo no inverno contribuem para a obscuridade ou penumbra que reduz a visibilidade nas estradas a apenas alguns metros. Essas condições melancólicas do inverno contribuem amiúde para uma luta psicológica. Em Fairbanks, seria de esperar que por volta das 11 horas da manhã a rotina da pregação de casa em casa já tivesse começado há bastante tempo. Mas, em dezembro, mal clareia o dia nesse horário. Amiúde, as pessoas dormem até levantar o sol, de modo que não era incomum fazer o morador sair da cama para atender à porta. Os missionários tiveram de se empenhar em testemunho “noturno” em pleno dia, a fim de pregar as boas novas. Para evitarem tirar os moradores da cama, os irmãos decidiram visitar as casas onde havia luz acesa. Isso ajudou até certo ponto, mas era de surpreender quantos moradores ainda assim eles tiravam da cama, porque as pessoas simplesmente não haviam apagado a luz na noite anterior. Destemidos, os missionários se adaptaram à situação.
RUMO AO NORTE NO INVERNO
Descobriram logo que o inverno era realmente a melhor época para contatar pessoas. Naqueles anos não havia lubrificantes nem combustíveis de boa qualidade para veículos, de modo que os residentes simplesmente guardavam seus automóveis durante o inverno, pois só congelariam se fossem utilizados. Isso foi vantajoso para os irmãos, visto que mantinha a maioria das pessoas dentro de casa durante o inverno. Uma vez realizadas as tarefas básicas, havia poucos lugares para ir, e os moradores usualmente acolhiam quaisquer visitantes que tivessem suficiente bravura para sair e fazer visitas. Que desafio era isso numa temperatura de 51 graus centígrados abaixo de zero!
Com isso em mente, os missionários acharam que a melhor estratégia para dar testemunho era irem para o norte no inverno e para o sul no verão. É o contrário daquilo que os veranistas fazem no hemisfério setentrional. Mas era muitíssimo prático no que diz respeito à difusão da mensagem do Reino no Alasca. Nossos irmãos puderam dirigir mais estudos bíblicos com as pessoas, visto que o trabalho secular naquela época ficava quase paralisado durante os meses de inverno. No seu território de verão, no sudeste do Alasca, chegar a povoados distantes por canoa também representava um desafio.
NEUROSE POR CONFINAMENTO EM CASA
Outro problema freqüentemente encontrado num clima frio é a neurose por confinamento em casa. Os longos períodos de obscuridade e de extremo frio podem forçar a pessoa a permanecer dentro de casa quase todo o tempo. Isso afeta a disposição, fazendo a pessoa sentir-se nervosa e irritadiça. A mínima contrariedade ou perturbação é aumentada, e as paredes podem parecer estar caindo sobre a pessoa. Foram estabelecidas clínicas por médicos que se especializam no tratamento dos que sofrem desse mal. Nossos irmãos, porém, adaptaram-se logo à sua designação. Os servos dispostos de Jeová descobriram a melhor terapia para a neurose por confinamento em casa — a atividade satisfatória de ajudar as pessoas a aprender sobre a esperança que se encontra na Palavra de Deus. Sair de casa para ir confortar os outros é o melhor remédio.
UMA RECÉM-CASADA VEM PARA O ALASCA
Em 1947, o irmão James Odham empreendeu serviço secular para se preparar para o casamento. Tomou providências para que sua esposa Stella viesse para Anchorage. Visto que não havia encanamento no seu bem primitivo “chalé de lua-de-mel”, o ex-lar missionário, tomar banho constituía um problema. Os Odhams decidiram comprar uma banheira portátil, revestida de borracha, encomendada pelo correio. Esquentaram água no fogão, e usufruíram o luxo de um banho dentro de sua pequena casa, mas bem quentinha. Mas, daí, como jogar fora uma banheira cheia de água? Estava 40 graus centígrados abaixo de zero do lado de fora! Visto que não havia cano de esgoto dentro da moradia, decidiram arrastar a banheira até a porta e simplesmente despejar seu conteúdo lá fora. Uma surpresa os aguardava. Logo que a água saiu da banheira, transformou-se imediatamente em gelo junto à soleira da porta! Esse gelo de patinação permaneceu junto à porta pelo resto do inverno, e, quando vinham visitantes, o irmão Odham os acautelava: “Cuidado aí com a água de banho de minha esposa!” Um senso de humor certamente era útil naquele tempo.
CINCO MIL MILÍMETROS DE PRECIPITAÇÃO PLUVIAL!
Lutar com a neve e temperaturas abaixo de zero era uma coisa. Mas os recém-chegados, que estavam ansiosos de difundir as boas novas na região sudeste do estado teriam também outra surpresa. Nunca haviam imaginado quão difícil pode vir a ser enfrentar uma simples chuva quando esta continua dia após dia sem cessar.
Em 1944, o irmão Errichetti, antes de chegar ao Alasca, encontrara em Seattle, Washington, o fiel irmão Day. Com um sorriso de quem sabe das coisas, o experiente veterano do Alasca deu ao irmão Errichetti uma capa de borracha, advertindo: “Vai precisar disso em Ketchikan!” O irmão Errichetti entendeu o pleno sentido dessas palavras ao chegar a Ketchikan. É difícil explicar quão fortes podem ser as tempestades, tempestades estas em que os ventos levam a chuva em sentido horizontal dia após dia, semana após semana.
O irmão Vernor Davis e a esposa foram designados para Ketchikan em 1946. Quando chegaram naquele ensolarado dia 13 de junho, sorriram ao ver o sol. Mas não levou muito tempo para o dilúvio apagar aquele sorriso. Eles contam como tiveram de fazer face às intempéries:
“Num mês de março não houve um período de 20 minutos sequer, durante o mês, em que não chovesse. Por que não usar guarda-chuva? Segundo o costume local, os homens não se preocupam com guarda-chuvas. A pessoa simplesmente tem de ser à prova de água. Usávamos capa de chuva, naturalmente, e nos degraus das portas tínhamos de cuidar para não inclinar a cabeça para frente, senão a água ajuntada sobre nossos chapéus se despejaria dentro das nossas pastas de livros. Amiúde carregávamos nossas pastas de livros viradas para baixo. Daí, quando estávamos fora da chuva, nós as virávamos para cima.”
A precipitação pluvial chegou a atingir, no primeiro ano em que os missionários estavam em Ketchikan, 5.230 milímetros. Isso é mais de 5 metros! Excedeu a média anual de 3.810 milímetros, ou 3,8 metros. Era necessário voltar para casa diversas vezes ao dia para trocar a roupa por roupa seca a fim de continuar com a obra de pregação. Essa perseverança pode talvez fazer-nos pensar duas vezes antes de diminuirmos nosso serviço de campo por causa de algumas gotas de chuva.
OUTRO ESFORÇO POR BARCO
Com o passar dos anos, a pregação por barco proveu oportunidades aos irmãos de alcançar pessoas em muitas comunidades isoladas do litoral. Isso representava perigos no mar e requeria constante vigilância e pilotagem proficiente.
No outono de 1948, Ava (Nick) Nickles, um pescador de Ketchikan que se interessava pela verdade, ofereceu transportar os irmãos Errichetti e Woodard aos povoados ainda não atingidos com a esperança do Reino. No seu barco de pesca, de 12,8 metros, Irene D., chegaram a muitos portos. Certa vez, quando tentavam atravessar uma extensão de água de uns 40 quilômetros de largura, o motor parou. O vento soprava forte e o mar estava muito agitado. Ao investigarem, descobriram que as tampas da bateria se haviam soltado com as sacudidas, o ácido se derramara sobre a capa do distribuidor e causara curto-circuito no motor. Depois, a mola de arranque quebrara. O irmão Errichetti recorda vividamente aquela noite:
“Começamos a ser levados pela corrente em meio ao mar tempestuoso e a ser fortemente sacudidos. Perdemos o rumo. Todos ficamos com enjôo, o barco sendo arrastado para onde quer que o vento ou as ondas nos levassem. Começamos a derivar por volta das quatro da tarde, e, até que um guarda-costas nos encontrou com seu holofote, havíamos derivado 26 quilômetros mar adentro! Nossas orações ascenderam a Jeová e ele as ouviu.” Mas esses perigos no mar não impediram os irmãos de continuar a pregar sem cessar.
Hoje, o irmão Nickles, aos 93 anos, está aposentado da pesca, mas não parou de pescar homens. Ele continua a pregar de casa em casa semanalmente, conforme possível, e serve na qualidade de servo ministerial junto à congregação Ketchikan.
ENCONTRARAM CORAÇÕES DE OURO
Pode-se imaginar a alegria desses primitivos “prospectores” de Jeová ao fazerem um “achado”. Essas pessoas de coração humilde eram como tesouros de ouro. Ao tomarem sua posição a favor do Reino Messiânico de Jeová, tornaram-se realmente preciosos aos olhos de Deus e dos homens.
Na ilha Anete existe o pequeno povoado de Metlakatla. Vive ali uma pequena população de apenas algumas centenas de membros da tribo dos índios tsimshians. Uma dessas índias era Minnie Booth. Era uma pessoa bondosa, afetuosa, afável e de grande valor. Com a ajuda de Jeová, corajosamente se livrou da influência da pressão tribal. Por muitos anos, permaneceu como única testemunha de Jeová no seu povoado. A irmã Booth não hesitava em apresentar a verdade a toda pessoa que encontrava. Felizmente, Louis Fawcett, um conhecido da família Booth, aceitou a verdade com sinceridade, e continua a servir de modo fiel até hoje. Entretanto, na época em que a irmã Booth faleceu em 1971, não havia ninguém de sua família que tivesse aceitado a verdade.
Mas Jeová continuou a abençoar o trabalho dela mesmo após sua morte, e anos mais tarde a semente da verdade germinou no coração de sua neta, que levou de novo a verdade aos membros de sua família no povoado. Hoje, há uma congregação de 15 a 20 Testemunhas felizes em Metlakatla, o núcleo do grupo sendo composto de alguns membros da tribo dos tsimshians. Resultados como este mostram como Jeová abençoou a atividade inicial de servos fiéis. Imagine a alegria da irmã Booth na ressurreição terrestre, quando for acolhida pela sua prole que por fim se beneficiou de suas labutas de amor!
A PRIMEIRA ASSEMBLÉIA NO ALASCA
Quando se faziam os preparativos em 1948 para a primeira assembléia no Alasca, um marco na história do trabalho dos missionários, a pessoa que mais se emocionou foi provavelmente Bea Buchanon, de Juneau. Foi também um dia especial na vida da irmã Buchanon, pois ela se achava entre os primeiros que aceitaram a verdade em Juneau e estava na expectativa do batismo em água. A irmã Buchanon relembra: “Éramos cinco a ser batizados num pequeno lago bem defronte da geleira Mendenhall.” Seria difícil ela esquecer o momento em que foi submersa nas águas gélidas. Os irmãos Nathan Knorr e Lyman Swingle estavam presentes nessa ocasião alegre, e a irmã Rose Hamilton relembra: “O irmão Knorr tirou o paletó e cuidou de algumas criancinhas enquanto as mães estavam sendo batizadas. Não pude deixar de pensar sobre quão diferente era isso dos líderes religiosos da cristandade que eu conhecera.” Com uma assistência total de 63, incluindo alguns visitantes de outros estados, os irmãos viram o começo de uma nova era — assembléias dentro do território do Alasca.
Antes disso, qualquer pessoa que desejasse assistir a uma assembléia tinha de tomar providências para viajar, indo a um dos 48 estados mais abaixo ou ao Canadá. Doravante as assembléias seriam usufruídas no próprio território. Mas havia ainda outros obstáculos, em razão de grandes distâncias, terreno acidentado, falta de estradas e comunidades em ilhas distantes, tudo isso exigindo muito tempo e muita despesa. Quando uma família de quatro membros ia às assembléias no Alasca sem gastar muito tempo de viagem, o pai tinha de gastar pelo menos US$ 500 para cada assembléia só em viagem. (Hoje a despesa é ainda maior.) Por outro lado, se decidisse ir por via marítima ou pelo sistema de barcas, o custo seria um tanto menos, mas levaria vários dias a mais para viajar. O chefe de família teria então despesa adicional em razão dos dias extras perdidos em seu serviço secular. As assistências nas assembléias mostram que os irmãos as apreciam e estão dispostos a fazer sacrifícios. No decorrer dos anos; o número dos que se reúnem em assembléias tem sido muito maior do que o número de publicadores associados com as congregações.
O TERRITÓRIO DO YUKON
O Território do Yukon, no Canadá, está atualmente sob a supervisão da filial do Alasca. Este vasto trecho de terra setentrional abrange uma área de mais de 518.000 quilômetros quadrados, cerca de um terço do tamanho do Alasca. Sua população de menos de 25.000 é composta em grande parte de anglicanos e de católicos romanos. Os aspectos geográficos de Yukon são similares aos do interior do Alasca, onde há montanhas com picos cobertos de neve e abundante fauna. O despertamento espiritual dessa terra vizinha e a atividade no Alasca ocorreram paralelamente.
Em 1897-98, a bem dizer o mundo inteiro despertou com a descoberta de ouro ao longo do rio Yukon. No apogeu da febre do ouro em Klondike naquele tempo dezenas de milhões de pessoas afluíram para o Território do Yukon. Alguns dos garimpeiros levaram consigo publicações bíblicas da Sociedade. Certo advogado que fora ao norte durante aquele período disse aos irmãos que recebera literatura de presente de um excelente homem e amigo pessoal seu, J. F. Rutherford.
Exceto um ou dois casos isolados de testemunho informal, o território permaneceu a bem dizer intato até 1951, ano em que a filial de Toronto enviou pioneiros para o Yukon. O irmão Allan Crich e seu companheiro Joseph Hawryluk percorreram penosamente todo o comprimento e a largura deste vasto ermo. O irmão Crich relembra os dias em regiões isoladas quando sua alimentação consistia apenas em peixe seco e ameixas secas.
O irmão Sid Drebitt recorda o primeiro ano da congregação Whitehorse, quando ele foi batizado num pequeno lago natural, em pleno ar livre, e a temperatura era de 29 graus centígrados abaixo de zero. Mas, ele acrescenta, com um sorriso, que não sentiu frio e foi muito agradável, pois o lago era alimentado por uma nascente térmica perto de Whitehorse. Foi um evento memorável, sendo o primeiro batismo no Território do Yukon. A mãe do irmão Drebitt, outrora assídua freqüentadora de igreja, e seu pai, um ex-orador comunista, bem como sua irmã, aceitaram todos a verdade e simbolizaram sua dedicação a Jeová.
Os comentários do irmão Drebitt revelam algumas das pressões que os irmãos tiveram de enfrentar: “Enquanto eu fazia serviço de pregação nas ruas, turbas passavam de carro e me insultavam, dizendo palavrões e atirando coisas em mim. Alguns ameaçavam bater-me se eu não me retirasse, mas fiquei firme e permaneci fiel, sentindo-me tão forte como nunca antes.”
Que dizer dos efeitos de estarem os irmãos isolados? O irmão Drebitt continua. “Naquela época, víamos o superintendente de circuito apenas uma vez por ano. Não havia muitas linhas de ônibus nem qualquer outro meio de transporte, e o serviço aéreo era reservado na maior parte para os militares. De modo que tínhamos de estudar bastante e continuar com a obra sozinhos, já que a congregação mais próxima ficava a 1.477 quilômetros. Às vezes, nossa correspondência levava meses para chegar.” A solidão resultante de tal isolamento requeria íntimo relacionamento com Jeová.
SERVIR ONDE A NECESSIDADE É MAIOR
O Alasca estava para receber atenção pessoal por meio de outra providência da organização de Jeová. Servir onde a necessidade é maior tornou-se um modo de servir para pioneiros, bem como para os que não podiam empreender o serviço de tempo integral. Em 1959, diversas famílias e pessoas aceitaram o convite de fixar residência no Alasca. Uma vez aberto o caminho para o progresso espiritual, esses devotados louvadores de Jeová proveriam a necessária estabilidade e treinamento contínuo aos irmãos recém-batizados. Até o dia de hoje diversas dessas famílias continuam a fortalecer os irmãos e fizeram do Alasca seu lar.
ESTABELECIDA UMA FILIAL
No início da década de 1960 começou a diminuir o papel desempenhado pelos missionários no Alasca e no Yukon. Grupos fortes de irmãos e irmãs de mentalidade espiritual haviam sido organizados. Em 1961, “o escravo fiel e discreto” reconheceu a necessidade de ajuntar esses grupos distantes. A filial em Anchorage realizaria isso. Tomaram-se providências quando o irmão Milton Henschel visitou, e, em setembro de 1961, Andrew K. Wagner chegou para assumir seus novos deveres como superintendente de filial. O Território do Yukon, no Canadá, seria supervisionado pela filial do Alasca, que providenciaria assembléias de circuito com caráter internacional, visto que irmãos e irmãs de dois países se reuniriam. O irmão Tom Didur, superintendente de circuito no Canadá, havia servido em todo o norte de Alberta, na Colúmbia Britânica, no Yukon e no norte do Alasca por vários anos. Sob a recém-formada filial, sua designação se centralizava no Alasca e no Yukon.
Os benefícios imediatos de uma filial no Alasca são relatados pelo irmão Wagner no seu relatório à Sociedade. “Grande parte do aumento este ano [1962] resultou devido a melhor pastoreio que se tornou possível por causa de supervisão mais de perto da obra que a filial local pode prover. Há também evidência de maior madureza da parte de muitos que se sentiam fracos por causa do isolamento.” Um superintendente observou: “Até esse tempo, sentíamo-nos um tanto como órfãos, devido a estarmos muito distantes das demais congregações e da sede.”
Quando o irmão Woodard deixou o Alasca em 1963, apenas um dos missionários originais permanecia ali. Em 1964, o irmão Knorr escreveu ao irmão Errichetti e o convidou para o Betel de Brooklyn, onde ele continua a trabalhar até hoje. O irmão Errichetti, um homem que permaneceu fiel à sua designação, disse: “O Alasca foi minha designação por 20 anos, e gostei muitíssimo. Eu e o irmão Woodard tivemos momentos difíceis, mas Jeová, nosso Deus de amor, sempre nos livrou.” Quão verazes são essas palavras! Esses dois irmãos demonstraram especialmente notável expediente durante todos os anos em que serviram no Alasca. Dificilmente havia algo que não soubessem sobre como tirar partido das condições dessa terra, e eram servos ideais para o território indomado e inóspito daquela época. Ganharam o respeito das pessoas e fizeram muito para encorajar os irmãos, que imitavam seu zelo na atividade do Reino, não obstante as dificuldades. Os dois mostraram certamente, mediante seu serviço zeloso, que estes últimos dias não são tempos para se levar vida folgada.
CONSTRUÇÃO DE SALÕES DO REINO
A estabilidade das congregações formadas pelos missionários se manifestou então nos novos Salões do Reino que começaram a surgir em todo o Alasca. Depois de um galpão de cabras em Fairbanks, uma barraca de teto de metal ondulado em Whitehorse e uma cabana em Kodiak, surgiram os convidativos locais de reuniões totalmente novos. Esses Salões do Reino são prova de que o povo de Jeová veio para ficar! Os irmãos com habilidade de serviços de construção estiveram especialmente ocupados durante esses anos de construção de Salões do Reino. O irmão R. C. Daily, um dos “garimpeiros” que chegaram naquele ano (1959) para servir onde a necessidade era maior, supervisionou no mínimo oito desses projetos. Esse período alcançou o ponto culminante com a construção de belíssimas dependências da filial em Anchorage, incluindo escritório, apartamento e um Salão do Reino com capacidade para 250 pessoas. Hoje há 13 Salões do Reino no território da filial do Alasca.
O TREMOR DO ALASCA
Durante aqueles anos nossos irmãos trabalharam diligentemente para apresentar ao povo no território provas de que vivemos nos últimos dias. Amiúde os moradores manifestavam cepticismo e dúvidas. De repente, as palavras de Jesus a respeito de “terremotos num lugar após outro” foram compreendidas com vívido realismo aqui no norte do país. (Marcos 13:8) Em 27 de março de 1964, o Alasca tremeu como nunca antes! Um terremoto, que alguns cientistas mediram como sendo de 8,6 na escala de Richter, sacudiu a terra com uma força que nunca antes se registrara na América do Norte. Deslocou mais terra do que qualquer outro terremoto que se conhecia. Grandes partes de Anchorage, Seward, Córdova, Valdez e Kodiak foram destruídas, e 115 pessoas morreram no Alasca. Embora o Salão do Reino em Kodiak fosse transportado para dentro do mar, as propriedades dos irmãos sofreram poucos danos. Depois desses eventos, os residentes não tiveram muita dificuldade de entender a parte do sinal de Jesus, que descrevia os terremotos.
MUDANÇA DO PESSOAL
Foi naquele mesmo ano do terremoto que os irmãos ficaram entristecidos com a notícia da morte do irmão Wagner. Sua maneira bondosa e fraterna foi substituída em 1965 pelo vigor e zelo do irmão James A. Miller. Os Millers continuaram no serviço de tempo integral até 1969, quando começaram a criar uma família. A Sociedade designou então o irmão P. Gerald Ronco para a filial, onde ele continua a servir na qualidade de coordenador da Comissão de Filial, com o apoio de mais dois membros da Comissão de Filial, Ralph Ring e Paul Thiessen.
O irmão e a irmã Ronco desempenharam um papel excelente na expansão da obra do Reino no Alasca. Vêm servindo ali já por uns 14 anos e têm sido muito eficientes em ajudar novas pessoas. Os dois juntos ajudaram 33 pessoas a aceitar a verdade. Sua vida está realmente concentrada em pessoas no serviço de Jeová, e interessam-se grandemente em cada uma delas. Uma qualidade notável do irmão Ronco é que está sempre à disposição de qualquer pessoa que tenha problema. Ele tem gasto centenas de horas para ouvir problemas individuais e congregacionais de qualquer pessoa que o tenha procurado. Possui uma personalidade muito calorosa, alegre e atraente, o que faz com que os outros sintam que podem procurá-lo no tocante às suas necessidades.
VIAJANTES NOS CIRCUITOS
A ajuda constante dos superintendentes viajantes serviu muito para edificar os irmãos e prover treinamento. De 1963 a 1979, o irmão Robert L. Hartman visitou regularmente as congregações no Alasca e no Território do Yukon. O irmão Hartman conta: “Quando iniciei o serviço de circuito em fevereiro de 1963, havia no Alasca e no Yukon 428 publicadores espalhados em dez congregações. Era um desafio interessante chegar às congregações e aos isolados fazendo uso de diversos tipos de transporte. Eu usava automóvel, avião a jato comercial, pequeno avião de sertão, lanchas e barcos de pesca para visitar nossos queridos irmãos e irmãs que necessitavam ser edificados pelo superintendente de circuito.”
Ele conta sobre a irmã Alma Laughlin e seu filho adolescente, que eram as únicas Testemunhas na dura cidade madeireira e de pesca de Wrangell. Visitá-los exigia dispendiosa viagem de táxi aéreo do sertão ou longas horas de travessia por barca, além de ter de pernoitar numa velha pensão. Ele acompanhava a irmã Laughlin e seu filho na pregação de casa em casa, em revisitas e estudos bíblicos, tudo isso a pé e amiúde debaixo de chuvas torrenciais. Mas, como no caso das congregações maiores, os dois precisavam das visitas. Ele relembra uma dessas visitas que fez, tomando táxi aéreo em Sitka para Wrangell:
“Em viagem, a meio caminho, com montanhas escabrosas e ilhas de cada lado e as águas salgadas do estreito de Inside abaixo de nós, vimo-nos subitamente confrontados com uma forte tempestade. O piloto fez uma rápida meia-volta e tomou rumo de volta ao nosso ponto de partida, os fortes ventos e a chuva nos perseguindo. Essa meia-volta foi tão abrupta que nós parecíamos personagens de história em quadrinhos perseguidos por um ‘monstro’, a tempestade. Mas no Alasca os pilotos dos táxis aéreos do sertão não desistem facilmente. Ele fez um grande círculo para o oeste em volta de várias ilhas, à procura de uma passagem onde a tempestade não fosse tão violenta.
“Ao seguirmos essa rota em circuito, a tempestade nos forçava para baixo, cada vez mais perto da superfície da água embaixo. Mas o piloto passou adiante, deslizando à superfície das águas apenas 60 metros acima. Quando abriu a janela lateral para ver quão perto da costa montanhosa estávamos, a apenas alguns metros de distância, não pude deixar de me perguntar se chegaríamos a Wrangell sãos e salvos. Não demorou muito e pude ver com dificuldade através da névoa à frente três silhuetas indistintas que esperavam junto a um automóvel no litoral. A irmã Laughlin havia alugado o único táxi da cidade para vir até o local rural de pouso do avião. Durante o resto da semana caminhamos debaixo da chuva no nosso serviço de campo, mas pelo menos estávamos seguros em solo firme.”
O irmão Hartman continua: “Todos naquele pequeno povoado estavam acostumados a ver a irmã Laughlin fazer suas caminhadas no seu trabalho de ensino bíblico. Ela permaneceu fiel, morando nesse povoado isolado durante diversos anos até que seu marido finalmente os mudou para mais perto de uma congregação. Poder servir tais irmãos e irmãs fiéis por mais de 16 anos no Alasca foi para mim um privilégio indescritível. Embora eu viajasse bem mais de 400.000 quilômetros, muitas vezes em tempestades e em temperaturas baixas de até 51 graus centígrados abaixo de zero, para alcançar os irmãos no circuito, compartilhar a fé e a integridade como as da irmã Laughlin é uma das maiores bênçãos que uma pessoa pode desfrutar. E que prazer foi ver o número de publicadores das boas novas chegar a mais de 1.240 em 23 congregações na época em que deixei o Alasca em 1979!” Hoje o irmão Hartman continua a trabalhar como superintendente viajante sob a supervisão da filial dos Estados Unidos.
ATINGIDO UM TERRITÓRIO DISTANTE
É uma satisfação relatar que 80 por cento do território do Yukon e do Alasca recebe testemunho regularmente. Visto que mais da metade da população que está sob a supervisão da filial reside em Anchorage e Fairbanks, e o resto num pequeno número de outras cidades, as 26 congregações agora formadas têm mantido o nome de Jeová diante do povo. Inverno ou verão, a pregação continua no mesmo passo. Quando a temperatura chega a ser menos de 45 graus centígrados abaixo de zero, os irmãos na maioria escrevem cartas ou dirigem estudos bíblicos e fazem revisitas.
Os irmãos no Alasca não perderam de vista os 20 por cento da população que vive nos povoados distantes, e interessam-se em cuidar de que essas pessoas sejam contatadas com a esperança do Reino. Isto é muito difícil e dispendioso, visto que não há rede de estradas que os ligue com as cidades maiores. Em 1970, a filial dividiu o território não-designado entre as congregações, pedindo-lhes que fizessem arranjos locais para alcançar as regiões distantes. Em setembro de 1970, duas irmãs diligentes, atendendo essa solicitação, decidiram fazer a sua parte para alcançar os habitantes isolados no interior do Alasca. Uma dessas irmãs já havia sido pioneira no povoado de Betel, dos esquimós. Confiando no limitado conhecimento que ela tinha da língua dos esquimós, partiram numa barcaça comercial rio Kuskokwim acima. A caminho, trocavam publicações por peixe fresco ou seco. De início, decidiram dormir fora numa tenda, mas o frio as obrigou a procurar abrigo dentro de casa.
Com tal esforço zeloso, conseguiram dar testemunho em mais de 15 povoados. Isso requereu que avançassem rio acima por barcaça por mais de 800 quilômetros. Colocaram muitas publicações e deram ótimo testemunho durante essa viagem de mais de 1.600 quilômetros.
Em 1973, uma dessas irmãs e seu marido levaram consigo seus sacos de dormir e sua tenda para passar três semanas apresentando a mensagem do Reino a mais pessoas dentre a população dos esquimós. Foram recebidos calorosamente por muitos residentes ali que repartiram com eles peixe seco, sopa de cabeça de peixe e caldo de pato. Colocaram mais de 500 revistas e obtiveram bem mais de 100 assinaturas. Esse zelo é exemplar, mas onde obteve esta irmã tal motivação? A família dela havia aprendido a verdade com aqueles primeiros missionários.
Outro avanço nos povoados distantes foi feito por avião. Os irmãos sabiam que a melhor época para encontrar as pessoas no sertão é no inverno, quando o período de pesca está quase no fim. Entretanto, as nevascas tornam perigosas as viagens de avião. Um de tais pilotos explica:
“A região perto de Nome e ao longo do mar de Béring é conhecida pelas grandes massas de gelo e pelos whiteouts [condições em que céu e terra se confundem devido à brancura]. O whiteout é temido, porque acontece com pouco aviso, começando amiúde com um pouco de céu nublado e daí, a neve. Mas logo tudo fica branco. O piloto precisa forçar a vista, perscrutando a neve. Talvez fique desnorteado, não sabendo se está subindo ou descendo. Daí, entontece e pode com facilidade chocar-se diretamente contra uma montanha ou contra o solo. Mais pilotos são perdidos nessa região do que em qualquer outra parte do Alasca.” Não obstante estes perigos, os irmãos, num período de mais de dois anos, cobriram cerca de 844.000 quilômetros quadrados, visitando mais de 200 povoados.
Com o fim de ajudar nas despesas das 11 Testemunhas que foram para o território do sertão com três aviões, os irmãos locais doaram mais de US$ 14.000! Que espírito generoso em apoio à pregação das boas novas e em procurar alcançar todos os que desejam servir a Jeová!
Num outro projeto para alcançar todo o Alasca com a obra de fazer discípulos, a filial tomou providências para enviar pelo correio exemplares de Despertai! e da Sentinela. Num só ano a filial dos Estados Unidos enviou pelo correio para a filial do Alasca quase 18.000 revistas destinadas aos povoados. Todo povoado tem sido alcançado com a mensagem do Reino, quer pelo correio, quer por visitas pessoais.
Em princípios de 1983, a filial do Alasca recomeçou um extensivo projeto de pregação nos povoados isolados do sertão. Com mais de dez aviões particulares disponíveis, fizeram-se planos para alcançar 63 povoados com as boas novas. Que excelente oportunidade para mais de 23.000 pessoas entre a população dos esquimós, dos índios e dos aleútes aprenderem a respeito da esperança da vida eterna sob o Reino de Deus! Visto que o território do Alasca abrange cerca de 1.525.000 quilômetros quadrados de terra, sendo que grande parte é inacessível por estradas, a pregação no sertão não é uma tarefa pequena. Por exemplo, durante o mês de maio de 1983, os irmãos foram de avião a 17 povoados, viajando mais de 7.720 quilômetros!
Contudo, com o passar dos anos, os irmãos notaram que foram muitíssimo produtivos em fazer discípulos, concentrando suas atividades nas cidades e vilas densamente povoadas. Os recém-chegados que participam na obra de pregação aqui não precisam mais enfrentar primitivas condições de vida que tiveram de suportar os que vieram primeiro. Em vez disso, podem agora desfrutar os benefícios da vida moderna, ao passo que realizam a sua obra de pregação.
UMA “GRANDE MULTIDÃO” DE TODAS AS NAÇÕES, TRIBOS E POVOS
Sentimo-nos extremamente felizes de ver que pelo menos um pequeno número de índios e esquimós aceitaram a verdade. Em harmonia com Revelação 7:9, estes vêm de todas as nações, tribos, povos e línguas —também no Alasca e no Yukon. A população nativa é cortês e pacífica. São pessoas que não têm uma personalidade complicada, e geralmente se contentam com as necessidades básicas da vida. Aqui, como em outras partes da terra, as igrejas da cristandade produziram milhares de cristãos oportunistas. O clero permite que os esquimós e os índios, ao mesmo tempo em que aceitam o chamado cristianismo, se apeguem a superstições e a costumes que não estão em harmonia com a Palavra de Deus. Quanto à maioria dos extremamente religiosos, a doutrina de “uma vez salvo, salvo para sempre” tornou-os cheios de si. Grande número de outros residentes simplesmente se tornou vítima do excesso de bebidas alcoólicas e do abuso de drogas, e diz não ter nenhum interesse em religião. Mas, que prazer é ver várias tribos representadas entre nossos irmãos e nossas irmãs, e ver seu genuíno apreço e zelo pela verdade! Que evidência do espírito de Jeová quando tais pessoas conseguem livrar-se de seus costumes tribais!
Não só nossos irmãos colocaram muitas publicações, mas o exemplo do verdadeiro cristianismo dado pelas Testemunhas de Jeová tem contribuído muito para ajudar outros a vir para a organização de Deus. Relembramos o trabalho daqueles primeiros pioneiros que colocavam publicações “por tonelada”, e compreendemos como os simbólicos “cavalos” mencionados em Revelação 9:16-19 penetraram em todos os cantos deste vasto território. Nos últimos dez anos, mais de dois milhões e meio de exemplares da Sentinela e Despertai! foram distribuídos aqui, e foram obtidas mais de 14.000 assinaturas!
Desde o estabelecimento da filial do Alasca em 1961, o número dos louvadores aumentou mais de quatro vezes, atingindo um auge de 1.574 em abril de 1983. Estes são cuidados por 26 congregações que estão divididas em dois circuitos. Os 134 pioneiros regulares e auxiliares, em fevereiro de 1983, representavam 9 por cento do total do auge de publicadores. Com uma proporção de um publicador para cada 292 habitantes, um grande grito de louvor a Jeová está sendo dado. Nossa assistência à Comemoração em 1983 chegou a 4.033!
Há pessoas que continuam a migrar para o norte, para o Alasca, a fim de concretizar seus sonhos de uma vida melhor. Muitos ficam decepcionados quando a “terra grande” não é o que esperavam. Outros, no entanto, encontraram riqueza aqui! Descobriram o paraíso espiritual feito por Jeová, em que se encontra Seu povo. Nos últimos dez anos, 1.017 pessoas dedicaram-se a Jeová aqui no território que está sob a supervisão da filial do Alasca. Muitos retornaram à sua terra nos 48 estados mais abaixo, sentindo-se felizes de partilhar sua recém-encontrada riqueza de bênçãos espirituais com seus familiares e amigos.
Semelhantes a outros que viajaram para o norte em busca de tesouros, os que pertencem ao povo de Jeová buscam tesouros, mas não o ouro amarelo ou negro que se acha debaixo da superfície do solo. Descobriram que a verdadeira riqueza são vidas humanas. O profeta Ageu mostra que Jeová considera as pessoas que aceitam a verdadeira adoração como “as coisas desejáveis de todas as nações”. Os irmãos nesta parte distante da terra agradecem a Jeová o privilégio de cuidar desse valioso tesouro de todas as nações, e oram para que muitos mais da terra do Alasca e do Yukon venham encher a Sua casa de glória. — Ageu 2:7.
[Foto na página 152]
O irmão Knorr visita em 1948 missionários que serviam no Alasca: (da esquerda para a direita) Mary Tetzlaff, Abe Tetzlaff, Hermon Woodard, Charles Gauntt, Ralph Bachman, James Odham, John Errichetti, Nathan Knorr, Stella Odham, Ada Gauntt, Lorraine Davis, Vernor Davis, Claudia Hoffman, Harold Hoffman.
[Foto na página 154]
Hermon Woodard e John Errichetti em Ketchikan; eram chamados com carinho “os rapazes”.
[Foto na página 159]
Ava (Nick) Nickles, pescador aposentado, de Ketchikan, continua a pescar homens aos 93 anos.
[Foto na página 160]
Primeiro batismo no Alasca — feito em 1948, defronte da geleira Mendenhall.
[Foto na página 162]
O primeiro superintendente de filial do Alasca, Andrew K. Wagner, e sua esposa Vera.
[Foto na página 167]
Dependências da filial em Anchorage, incluindo escritório, residência e Salão do Reino com capacidade para 250 pessoas.
[Foto na página 168]
Gerald Ronco, atual coordenador da Comissão de Filial e sua esposa Lucy.
[Foto na página 169]
Robert L. Hartman serviu os irmãos no Alasca por mais de 16 anos na qualidade de superintendente de circuito, viajando extensivamente por todos os meios de transporte e em toda espécie de clima.
[Foto na página 170]
Preparando-se para ir de avião trabalhar em território no sertão.
[Mapa na página 149]
(Para o texto formatado, veja a publicação)
Alasca
Nome
Rio Yukon
Rio Kuskokwim
Betel
Fairbanks
Mte. McKinley
Talkeetna
Palmer
Anchorage
Valdez
Córdova
PENÍNSULA DE KENAI
Seward
GELEIRA MALASPINA
Mts. Sto Elias
Skagway
GELEIRA MENDENHALL
Juneau
Hoonah
Sitka
Wrangell
Ketchikan
Metlakatla
ILHA ANETE
ILHA KODIAK
Kodiak
MAR DE BÉRING
ILHAS ALEÚTES
Território do Yukon
Whitehorse