O bairro que deslizou
EM SETE de agosto de 1979, o Star de Auckland, Nova Zelândia, trouxe a manchete: “O BAIRRO QUE ESTÁ SUMINDO . . .”
“No início de maio um cano de água se rompeu na tranqüila área residencial de Abbotsford, perto de Dunedin”, explicou o jornal. Isso, prosseguiu a reportagem, foi “o sinal do início do deslizamento de Abbotsford, que expulsou de suas casas 200 pessoas”.
Abbotsford é um subúrbio em expansão, que se estende colina acima, limitando-se com a área rural. No início de junho algumas das belas casas novas começaram a rachar. A terra literalmente se abriu e passou a deslizar, por fim criando um abismo. Atendendo a fortes apelos das famílias evacuadas, permitiu-se breves incursões a seus lares para salvar pertences. O estado de algumas casas foi considerado perigoso demais pelas autoridades, de modo que foram demolidas. Mas isso não era nada em comparação com a destruição que se seguiria.
Um Desastre Maior
Na quarta-feira, 8 de agosto, uma família a oeste do deslizamento estava reunida na sala de estar. Um ruído vindo do cercado dos fundos, como de algo se despedaçando, os atraiu para fora. Tudo estava quieto, com exceção de um estranho “zunido” nos fios elétricos nos postes. Em seguida, uma casa mais adiante “andou de marcha à ré como um carro”!
Uma família que morava três casas adiante planejava evacuar na sexta-feira, 10 de agosto. Ouvindo ruídos incomuns, o marido mirava o quintal dos fundos, através da escuridão. Incrédulo, viu o perfil sombreado de arbustos conhecidos sumirem de vista, afundando no chão.
A família abandonou a casa e foi para a de um vizinho. Enquanto reunidos decidindo o que fazer, um poste de luz inclinou-se quase até o chão e os fios estalavam em meio a uma chave de faíscas. A casa que acabavam de abandonar inclinou-se suavemente e rapidamente afundou na beirada de uma fenda larga.
No centro de informações da colina, o operador de plantão desligou o sistema de rádio naquela noite por volta das 21 horas. Ao descer pelas ruas desertas, ouviu o ruído de vidros se estilhaçando e de outros sons de demolição. Correu em direção de onde vinha o ruído e viu abrir-se uma brecha na rua à sua frente. O outro lado deslizava “como pasta de dente”. Os fios elétricos sibilavam e estalavam, deixando todo Abbotsford às escuras.
Ouvindo gritos de pessoas no outro lado da fenda, usou seu rádio-comunicador para chamar a sede da Defesa Civil e pedir ajuda. À luz de lanterna, atônito, viu a brecha se alargar. O deslocamento foi tão rápido que quando os bombeiros chegaram à brecha já tinha uns 20 metros de largura — larga demais para se poder alcançar as pessoas do outro lado.
Do outro lado da brecha, uma família se preparava para evacuar. À luz dos faróis do carro, viram a estrada abrir-se diante deles. Saíram apavorados do carro e correram ao local de onde vinham outras vozes. Logo centenas de agentes do serviço público estavam no local, com holofotes. Um helicóptero pairava no ar, pronto para resgatar 17 pessoas ilhadas na terra que deslizara. Mas, na parte baixa do deslizamento os bombeiros acharam um meio de conduzi-las para fora com segurança.
Cena Espantosa
A luz do dia revelou uma cena espantosa. Um grande setor do bairro de Abbotsford escorregou ladeira abaixo, ainda conservando duas ruas margeadas de casas, calçadas, cercas, caixas de correio e veículos estacionados. Um caminho de concreto pendia na beirada do abismo. Um automóvel e uma camioneta jaziam juntos amassados, semi-enterrados na lama. Um jardim permanecia no alto, impassível e ordeiro no meio do deslizamento gigante, mas a casa a que pertencia havia sumido.
Estranhamente, uma pequena e solitária construção de vidro permaneceu em meio a casas quebradas e retorcidas, sem nem mesmo uma rachadura numa única parte de vidro. Mais acima na colina, enfileirada através da fenda, jazia uma linha de casas tombadas, sem os tijolos das paredes, expondo suas armações, conferindo-lhes uma esquisita aparência de estilo Tudor.
Alívio e Avaliação dos Prejuízos
Alimento, cobertores, dinheiro e ofertas de alojamento chegaram à sede da Defesa Civil de todas as partes da Nova Zelândia. Caminhões e seus motoristas estacionaram dois dias no local, colocando-se à disposição caso sua ajuda fosse necessária.
Os prejuízos financeiros foram tremendos, calculados em milhões de dólares. Cerca de 70 casas foram destruídas ou tiveram de ser demolidas. Outras estavam severamente danificadas. Mas, surpreendentemente, em meio a toda destruição, nenhuma pessoa morreu. E o único ferimento confirmado foi o de um operário, que pisou num prego.
Após se recuperarem do choque, muitas vítimas ficaram irritadas. Descobriu-se que deslizamentos de terra menos graves haviam ocorrido na área em 1870, 1925, 1939 e 1968. Conhecimento prévio disso talvez tivesse influído nos planos de construção de muitos. Esse desastre no bairro-colina talvez induza outros a reavaliarem a segurança do local onde moram. — Contribuído.