Ajuda ao Entendimento da Bíblia
[Matéria condensada do Aid to Bible Understanding, Edição de 1971.]
ANIMAIS, SIMBÓLICOS. [Continuação]
Babilônia caiu diante do reino medo-persa, com sua sede nas colinas a E das planícies da Mesopotâmia. O Império Medo-Persa era bem diferente do Império Babilônico semítico, sendo a primeira potência jafética (ou ariana) a obter a posição dominante no Oriente Médio. Os judeus, embora conseguissem permissão de retornar à Judá, continuaram como povo submetido sob o jugo medo-persa. (Nee. 9:36, 37) Este império mostrava ainda maior apetite territorial do que o babilônico, estendendo seu domínio da “Índia até a Etiópia”. — Ester 1:1.
A conquista relâmpago das forças gregas, lideradas por Alexandre Magno, pôs fim ao domínio medo-persa. Em questão de pouquíssimos anos, ele construiu um império que abrangia partes da Europa, da Ásia e da África. Esta era a primeira potência baseada na Europa a deter tal posição. Após a morte de Alexandre, seus generais pelejaram para obterem o controle do império, quatro deles eventualmente obtendo a regência de diferentes seções. A Palestina foi disputada pelos reinos selêucida e ptolemaico, que eram rivais.
O Império Grego foi finalmente tomado por completo por Roma. O Império Romano ultrapassou a todos os impérios precedentes, não só na extensão de seu domínio (abrangendo toda a área mediterrânea e, com o tempo, atingindo as Ilhas Britânicas), mas também na eficiência de sua máquina militar e na firmeza da aplicação da lei romana às províncias de seu vasto império. Roma, naturalmente, foi o instrumento político usado para a execução do Messias, Cristo Jesus, bem como para perseguir a primitiva congregação cristã. O império se estendeu por cerca de mil anos depois disso, sob diferentes formas, mas, por fim, fragmentou-se em várias nações, a Grã-Bretanha obtendo finalmente a posição dominante.
Em A Short History of the World (Breve História do Mundo), o historiador H. G. Wells tece as seguintes observações interessantes sobre o caráter distinto do Império Romano: “Ora, esta nova potência romana que ascendeu para dominar o mundo ocidental, no segundo e no primeiro séculos A.C., foi, em vários aspectos, diferente de todos os grandes impérios que havia até então no mundo civilizado. Não foi no princípio uma monarquia, e não foi a criação de qualquer grande conquistador. . . . foi o primeiro império republicano que não foi extinto e que passou para novos desenvolvimentos. . . . sua população era menos predominantemente camítica e semítica do que a de qualquer império precedente. . . . Tratava-se dum novo padrão na história, tratava-se duma república ariana em expansão. . . . Estava sempre em mudança. Nunca atingiu qualquer rigidez. Em certo sentido, a experiência [administrativa] fracassou. Em certo sentido, a experiência ainda está por terminar, e a Europa e a América ainda trabalham hoje para solucionar os problemas da estadística mundial que primeiro confrontaram o povo romano.” — Capítulo 33, “O Desenvolvimento do Império Romano”, pp. 149-151.
O carneiro e o bode
Na visão que Daniel obteve dois anos depois (Dan. 8:1), as potências representadas pelos dois animais simbólicos envolvidos acham-se claramente citadas. O reino da Medo-Pérsia é aqui representado como um carneiro que tinha dois chifres, o chifre maior surgindo depois. A história mostra que os medos foram inicialmente os mais fortes, e os persas, depois disso, obtiveram a ascendência, embora ambos os povos continuassem unidos numa potência dupla. Um bode, movimentando-se mui rápido através da terra, simbolizava a potência mundial da Grécia. (Dan. 8:3-8, 20, 21) A visão profética mostra que o “grande chifre” situado entre os olhos, representando o primeiro rei, foi quebrado “assim que se tornou forte”, resultando em quatro reinos, embora de força inferior. (Dan. 8:5, 8, 21, 22) Já comentamos a conquista surpreendentemente rápida do Império Medo-Persa por parte de Alexandre, bem como a divisão de seu reino entre quatro de seus generais.
É digno de menção, aqui, que a mesma nação pode ser representada por diferentes símbolos de animais, em diferentes profecias. Assim, Babilônia (bem como a Assíria) é representada por leões, em Jeremias 50:16, ao passo que, em Ezequiel 17:3-17, tanto a Babilônia como o Egito são representados por grandes águias. Ezequiel, em outra parte, assemelha o Faraó do Egito a um “grande monstro marinho” que jaz nos canais do Nilo. (Eze. 29:3) Por isso, o fato de que a Medo-Pérsia e a Grécia são representadas por certos simbolismos no capítulo 8 de Daniel não elimina a possibilidade de serem representadas por outros simbolismos na visão anterior (Dan. capítulo 7), nem em profecias subseqüentes.
A fera de sete cabeças que ascende do mar
Na visão tida pelo apóstolo João e registrada em Revelação, capítulo 13, uma fera (ou animal selvático) de sete cabeças e dez chifres ascende do mar, sendo semelhante a um leopardo, todavia, possui pés dum urso e boca dum leão. Trata-se, assim, duma forma composta de vários dos símbolos apresentados na visão de Daniel sobre os quatro animais. O dragão, identificado em Revelação 12:9 como Satanás, o Diabo, lhe dá sua autoridade e seu poder. (Rev. 13:1, 2) As sete cabeças (que têm dez chifres) desta fera a diferenciam dos animais de uma só cabeça da visão de Daniel. Sete (e dez) são comumente reconhecidos como símbolos bíblicos de inteireza. Isto é corroborado pela extensão do domínio desta fera, pois ela exerce autoridade, não sobre uma nação ou grupo de nações, mas “sobre toda tribo, e povo, e língua, e nação”. (Rev. 13:7, 8; compare com 16:13, 14.) Observando tais fatores, comenta The Interpreter’s Dictionary of the Bible (Dicionário Bíblico do Intérprete): “A primeira destas bestas [do Apocalipse, capítulo 13] combina em si mesma as características conjuntas das quatro bestas da visão de Daniel . . . Assim sendo, esta primeira besta representa as forças combinadas de toda a regência política oposta a Deus pelo mundo.” — Vol. 1, p. 369.
Fera de dois chifres que ascende da terra
Daí, João viu uma fera de dois chifres, como os do carneiro inofensivo, todavia, que falava como um dragão, exercendo a plena autoridade da primeira fera, que acabamos de descrever. Manda que se faça uma imagem da fera de sete cabeças, que rege mundialmente, obrigando todas as pessoas a aceitar sua “marca”. — Rev. 13:11-17.
Pode-se recordar que o carneiro de dois chifres de Daniel, capítulo 7, representava uma potência dupla, a Medo-Pérsia. Naturalmente, essa potência já havia desaparecido há muito nos dias do apóstolo João, e sua visão era de coisas ainda futuras. (Rev. 1:1) Outras potências duplas existiram, desde os dias de João, mas, entre estas, a histórica associação da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos é especialmente notável e tem longa duração.
A outra característica notável da fera de dois chifres, o falar ela como um dragão, faz lembrar a “boca falando coisas grandiosas” do notável chifre do quarto animal de Daniel 7 (vs. 7:8, 20-26); ao passo que o ‘desencaminhar’ os habitantes da terra compara-se ao engano praticado pelo ‘rei feroz’ descrito em Daniel 8:23-25. — Rev. 13:11, 14.
A fera cor de escarlate
Em Revelação 17, o apóstolo registra sua visão duma fera cor de escarlate, com sete cabeças e dez chifres, montada pela mulher simbólica, “Babilônia, a Grande”. Esta fera se assemelha, assim, ou é a imagem, da primeira fera de Revelação 13, mas, é diferente dela, devido à sua cor escarlate e ao fato de que não se vêem coroas em seus dez chifres. Contemplando João a fera, diz-se-lhe que cinco dos sete reis representados pelas sete cabeças já tinham caído, ao passo que um existia naquela época, e o sétimo ainda estava para surgir. A própria fera cor de escarlate é um oitavo rei, mas procede ou é produto dos sete anteriores. Os “dez reis” representados pelos dez chifres existem e exercem autoridade em ligação com a fera cor de escarlate, por curto tempo. Guerreando contra o Cordeiro, Jesus Cristo, e os que estão com ele, eles sofrem derrota. — Rev. 17:3-5, 9-14.
As “cabeças” ou “reis” parecem representar potências mundiais, como no livro de Daniel. É digno de nota que a Bíblia deveras mencione cinco potências mundiais nas Escrituras Hebraicas, a saber, o Egito, a Assíria, a Babilônia, a Medo-Pérsia, e a Grécia, ao passo que as Escrituras Gregas citam uma sexta, Roma, que regia nos dias de João. Ao passo que isto deixaria sem ser citado nominalmente o sétimo “rei”, o fato de que ainda não tinha surgido quando João registrou a Revelação (Apocalipse) explicaria tal anonimidade. O oitavo rei, a simbólica fera cor de escarlate, de algum modo se une com estas sete cabeças, ao passo que, ao mesmo tempo, procede delas.
TEMPOS DESIGNADOS DAS NAÇÕES. Depois de considerar a destruição que sobreviria à cidade de Jerusalém, Jesus fez então a declaração: “E Jerusalém será pisada pelas nações, até se cumprirem os tempos designados das nações [“tempos dos gentios”, Al, rev. e corr.].” (Luc. 21:24) O período indicado pela expressão ‘tempos das nações [Gr., kairoí ethnón]’ provocou considerável discussão quanto ao seu significado e suas implicações.
SIGNIFICADO DE “TEMPOS”
A palavra “tempos”, neste caso, provém da palavra grega kairós (plural, kairoí), que, de acordo com An Expository Dictionary of New Testament Words (Dicionário Expositivo de Palavras do Novo Testamento, de W. E. Vine, 1962, Vol. IV, p. 138), “significava um período fixo ou definido, uma época, às vezes um tempo oportuno ou adequado”. Em vista do significado da palavra “tempos” (kairoí), conforme usada no texto bíblico, pode-se apropriadamente esperar que a expressão “os tempos designados das nações” se refira, não a algo vago ou indefinido, mas, ao invés, a um “período fixo ou definido”, um “tempo exato ou crítico”, um tempo que tem um começo definido e um fim definido.
AS “NAÇÕES” E “JERUSALÉM”
O significado da declaração de Jesus se acha, necessariamente, interligado à sua referência a ‘Jerusalém ser pisada’, o que ele declarou continuaria até o término dos “tempos designados das nações”. O termo “nações” ou “gentios” traduz a palavra grega éthne, que significa “povos” ou “nações”, e era usado pelos escritores bíblicos para referir-se especificamente às nações não-judias.
Jerusalém era a capital da nação de Israel, cujos reis da linhagem de Davi, segundo se dizia, ‘sentavam-se no trono de Jeová’ (1 Crô. 29:23), e, como tais, representavam a sede do governo divinamente constituído, ou reino típico de Deus, que operava mediante a casa de Davi. Tendo o seu monte Sião, era ‘a cidade do grandioso Rei’. (Sal. 48:1, 2) Por isso, Jerusalém veio a representar o reino da dinastia do Rei Davi, assim como Washington, Londres, Paris e Moscou representam os poderes regentes das nações hodiernas, e são assim mencionados nos comunicados noticiosos.
Começo do ‘pisar’
O ‘pisar’ sobre aquele reino da dinastia dos regentes davídicos não começou com a devastação da cidade de Jerusalém pelos romanos, em 70 E.C. Começou séculos antes, com a derrubada daquela dinastia pelos babilônios, em 607 A.E.C., quando Nabucodonosor destruiu Jerusalém e levou cativo o destronado Rei Zedequias, e a terra foi deixada desolada. (2 Reis 25:1-26; veja CRONOLOGIA.) Isto concordava com as palavras proféticas dirigidas a Zedequias, em Ezequiel 21:25-27, a saber: “Remove o turbante e retira a coroa. Esta não será a mesma. . . . Uma ruína, uma ruína, uma ruína a farei. Também, quanto a esta, certamente não virá a ser de ninguém, até que venha aquele que tem o direito legal, e a ele é que terei de dá-lo.” Aquele que tem o “direito legal” à coroa davídica, perdida por Zedequias, é demonstrado nas Escrituras Gregas Cristãs como sendo Cristo Jesus, a respeito de quem o anjo, ao anunciar seu futuro nascimento, disse: “Jeová Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e ele reinará sobre a casa de Jacó para sempre, e não haverá fim do seu reino.” — Luc. 1:32, 33.
Com a queda de Jerusalém em 607 A.E.C., as potências gentias exerceram o domínio sobre toda a terra. A dinastia e a regência davídicas sofreram interrupção e, assim, Jerusalém, ou aquilo que ela representava, continuaria a ser ‘pisada’, enquanto o reino de Deus, como funcionando através da casa de Davi, fosse mantido em rebaixada condição inoperante sob as potências gentias. Compare com Ezequiel 17:12-21; também a descrição da queda da Medo-Pérsia, em Daniel 8:7, 20.
RELAÇÃO COM AS PROFECIAS DE DANIEL
Pelo menos duas vezes, nesta profecia a respeito do tempo do fim Jesus se referiu ao conteúdo do livro do profeta Daniel. (Confronte Mateus 24:15, 21 com Daniel 11:31; 12:1.) No livro de Daniel, encontramos um quadro pintado sobre o domínio da terra pelas potências gentias durante seus “tempos designados”. O segundo capítulo de Daniel contém a visão profética (recebida pelo Rei Nabucodonosor) da grande imagem que Daniel, por inspiração, mostrou representar a marcha das potências mundiais gentias, terminando com a destruição delas por parte do reino estabelecido pelo “Deus do céu”, reino este que então rege toda a terra. (Dan. 2:31-45) É digno de nota que a imagem começa com o Império Babilônico, a primeira potência mundial a ‘pisar Jerusalém’, por derrubar a dinastia davídica e deixar vago o “trono de Jeová” em Jerusalém. Isto também confirma o início dos “tempos designados das nações”, no ano da destruição de Jerusalém, 607 A.E.C.
[Continua]