Anuário das Testemunhas de Jeová
Zimbabwe (Continuação)
[Seriado com base no Yearbook de 1985]
Deslocados Outra Vez
É triste dizer que esta trégua foi apenas temporária. O governo zambiano, sob o pretexto de mudar estes irmãos para outro lugar, realmente enviou-os de volta a Malaui. Ali as perseguições reiniciaram-se novamente. Portanto, uma vez mais, os irmãos fugiram de sua terra natal, desta vez para Mlangeni, em Moçambique, a oeste de Malaui.
Logo havia 12 campos de refugiados em Moçambique, com um auge de cerca de 34.000 neles. Mais tarde, em 1975, o governo moçambicano repatriou à força nossos irmãos da área de Mlangeni para Malaui. De lá, a maioria fugiu de novo na direção leste, para Moçambique, onde se encontram atualmente muitos deles.
Neste ponto acreditamos que estaria muito interessado nas experiências relatadas por Cyril e Ina Long. Eles moravam em Blantyre, Malaui, quando irrompeu novamente a perseguição em 1972. Eles narraram:
“Certa família atravessava uma ponte sobre águas torrenciais quando foram abordados e perguntados a respeito de suas carteiras de filiação ao partido político. Quando os pais explicaram por que não tinham nenhuma, os filhos deles foram atirados por sobre o parapeito da ponte nas furiosas águas embaixo. Um dos filhos era um bebezinho de seis meses. Felizmente, os filhos mais velhos sabiam nadar e salvaram o bebê. Estando a mão de Jeová sobre eles, todos escaparam da morte.
“Outro irmão foi espancado até ficar inconsciente e daí derramaram gasolina nele todo. Atearam-lhe fogo e ele foi queimado vivo. Lamentavelmente, sua esposa, que estava grávida, e seus seis filhos, foram obrigados a observar toda essa crueldade.”
Ajuda Fornecida aos Perseguidos
O irmão Long discerniu que se devia fazer algo para ajudar os irmãos que estavam sendo pilhados e espancados. De modo que se fizeram arranjos para um ponto de encontro secreto, onde os irmãos e as irmãs fugitivos podiam ser apanhados e transportados para a fronteira. Na primeira viagem transportaram-se cerca de 30 pessoas em dois furgões Volkswagen. Diversos vieram com suas bicicletas, mas deram-se conta de que não podiam levá-las, de modo que simplesmente as atiraram no mato à beira da estrada, sabendo que nunca mais as veriam de novo.
“Por toda a estrada”, conta Ina, “havia barreiras, e cada vez os irmãos e as irmãs deitavam-se no assoalho do furgão, cobrindo-se com os cobertores. Cyril, sendo branco e o único à vista, recebeu o aceno que lhe permitia prosseguir viagem sem vistoria. Chegaram às três horas da manhã, em segurança, no campo de refugiados em Moçambique.
“Alguns dias depois um superintendente de circuito nos visitou com o relato de que havia necessidade urgente de remédios e cobertores, visto que o acampamento de Zâmbia tinha cerca de 12.000 pessoas morando ao ar livre. Era inverno e muitos sofriam de resfriado, diarréia, garganta inflamada, e assim por diante. Ademais, muitos apresentavam cortes, ferimentos e queimaduras graves, resultantes de maus-tratos. O que se poderia fazer para ajudá-los?
“Após fervorosa oração a Jeová, decidimos visitar um farmacêutico e pedir-lhe permissão para comprar suprimentos médicos. Esta era uma coisa perigosa a fazer, porque ele podia facilmente nos denunciar às autoridades. Contudo, o visitamos e expusemo-lhe a situação.
“Aconteceu que este farmacêutico estava furioso porque o governo o havia obrigado a despedir um de seus empregados de maior confiança, que era Testemunha de Jeová. Assim, em vez de denunciar-nos, ficou muito feliz de ser de ajuda.” Imagine a surpresa e a alegria de Cyril e Ina Long, ao voltarem no dia seguinte para apanhar a encomenda e receberem duas caixas enormes de suprimentos médicos como presente para os irmãos no campo de refugiados! Quando tentaram pagar tais suprimentos, o farmacêutico lhes disse: “É o mínimo que posso fazer por essas pessoas leais, que estão sendo tratadas tão vergonhosamente.”
Pouco tempo depois, Cyril Long e outro irmão fizeram uma viagem noturna ao acampamento, desta vez com um carregamento de cobertores. O irmão Long disse: “Nossos olhos encheram-se de lágrimas diante do que vimos: Uma família inteira de seis pessoas comprimidas debaixo de um só cobertor, cada um tentando aquecer-se com o calor do corpo do outro; uma irmã espancada tão rudemente e tão queimada com toros em brasa que não podia deitar-se. Tiveram de fazê-la sustentar-se sobre feixes de capim.”
Para encerrar este relato, queremos contar-lhe mais uma experiência que realmente comoveu a irmã Long. Visto que o governo congelou todas as contas bancárias dos irmãos, ninguém podia sacar fundos para pagar o transporte público para sua fuga. Ela disse: “Dois irmãos chegaram-se a nós e disseram: ‘Pudemos retirar nossas economias antes de serem congeladas. Compramos passagens de ônibus para nossa família e sobrou este dinheiro. Poderia fazer a gentileza de entregá-lo a outros que necessitem dele?’ Apesar de esses irmãos terem perdido seus empregos, o amor fraternal deles os movia a partilhar com outros o que lhes restava, sabendo que Jeová faria provisões!”
Sem dúvida, ao passo que Cyril e Ina Long rememoram essa ocasião, sua própria fé no cuidado amoroso de Jeová fica cada vez mais forte.
Uma Viagem a Moçambique
Foi em 1975, quando ainda existiam os campos de refugiados em Moçambique, a oeste de Malaui, que surgiu um problema similar ao da primitiva congregação cristã. (Atos 6:1-6) Tinha que ver com a distribuição dos bens assistenciais. Decidiu-se que a melhor forma de resolver isso seria mediante a visita pessoal dum irmão da filial. Portanto, em fevereiro de 1975, Keith Eaton, membro da Comissão de Filial, partiu para esses campos. Chegar lá não era fácil. A viagem tinha de ser feita por um trajeto indireto, por avião. Ele foi de Salisbury até Beira, na costa leste de Moçambique, onde passou a noite, visitando alguns irmãos ali. Daí foi a Tete, às margens do rio Zambezi, e seguiu para Vila Coutinho (atual Ulongue), onde havia seis campos de refugiados na época.
Uma das coisas que lhe dificultou atingir este destino foi que Moçambique estava convulsionado pela mudança do sistema de governo de minoria portuguesa para um governo de maioria negra. Portanto, cruzar a fronteira não era fácil, especialmente para quem não conhecia a região.
Mas, com a ajuda de irmãos que se encontraram com ele no aeroporto de Vila Coutinho, o irmão Eaton pôde visitar os campos. Ali ele considerou os problemas dos irmãos, escutando os relatos de partir o coração sobre a situação deles e oferecendo sugestões úteis. Não há dúvida de que este contato pessoal com um representante da Sociedade contribuiu muito para encorajar os irmãos.
[Continua na próxima edição.]