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Como o mundo ficou viciadoDespertai! — 1986 | 8 de abril
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Como o mundo ficou viciado
O SENADOR americano fuma dois maços de cigarros por dia. “Sei que isso vai encurtar minha vida . . . É provável que me mate”, disse ele a colegas, num debate sobre subsídios governamentais aos plantadores de fumo. “Lamento o dia em que fiquei viciado a este troço terrível.”
O senador não é o único a se lamentar. Por alguns cálculos, 90 por cento dos fumantes de seu país já tentaram deixar de fumar ou desejam parar. E, somente em 1983, dois milhões de fumantes nipônicos realmente conseguiram. Afirma uma autoridade: “Quase todos os fumantes inveterados parecem lamentar que começaram a fumar, e avisam os filhos para não seguirem seu exemplo.”
Mas como foi que todos estes fumantes arrependidos ficaram tão profundamente envolvidos? De algum modo, como se expressa o pesquisador Robert Sobel a respeito deste mundo, “para qualquer bem ou mal que isso nos possa trazer, estamos desposados, como civilização, àqueles tubinhos de papel que contêm pequenas quantidades de erva granulada”. Um dos seis gigantes da indústria de cigarros possui um quarto de milhão de empregados. Todo ano, suas vendas, em 78 países, em seis continentes, atingem US$ 10 bilhões [uns Cr$ 150 trilhões]. Como é que tal hábito amplamente indesejado conseguiu criar a procura que exige a enorme indústria que sustenta tal hábito?
Na realidade, a história do cigarro pode ser uma das maiores surpresas ocorridas nos últimos cem anos. O que provocou a incrível demanda deste chamado século dos cigarros foram duas guerras travadas no século 19. Uma indústria recém-nascida, a da publicidade, atiçou as chamas. E uma nova variedade surpreendente de fumo — amarelo-clara, mais branda e quimicamente diferente — incentivou os fumantes a tragar. Essa notável mudança nos hábitos de fumar, a inalação oral ou tragar, garantiu que a maioria dos fumantes ficasse viciada pelo resto da vida.
As Guerras Que Acirraram a Demanda
O fumo continuou sendo um luxo extravagante até 1856, quando os cigarros encontraram seu primeiro mercado maciço. Isso se deu quando os soldados da Grã-Bretanha e da França voltaram da guerra da Criméia com “cigarrilhas de papel”, e com o hábito que adquiriram lá. A moda dos cigarros varreu a Europa, criando inesperada demanda de cigarros turcos, ou de suas imitações inglesas.
A “moda da Criméia” estabeleceu os cigarros, em tempo de guerra, como um substituto barato do cachimbo ou do charuto. Mas a moda passou. Ademais, como Robert Sobel indica, “no início da década de 1860, parecia não haver nenhum jeito de os homens americanos da classe média — o mercado primário do tabaco — se acostumarem aos cigarros”. A fumaça destes cigarros primitivos não era tão sedutora como a do cigarro moderno. Como a fumaça de charutos, era ligeiramente alcalina, e os fumantes a retinham na boca. Não havia nenhum modo confortável de tragar, como fazem os fumantes hoje em dia. Chegara então o tempo para a próxima surpresa.
A Guerra Civil Americana (1861-65) introduziu um tabaco mais viciador, fazendo isso por meio do que Jerome E. Brooks, perito em fumo, chama de “força explosiva”. Mais uma vez, a guerra levou o cigarro barato aos soldados — primeiro aos confederados, daí aos da União. Mas, desta feita, não se tratava de moda passageira.
Estes cigarros empregavam o fumo americano, e havia neles algo diferente. Os produtores americanos tinham adotado novas variedades de fumo que cresciam bem em seu solo com deficiência de nitrogênio. Também descobriram, por um acidente casual numa fazenda da Carolina do Norte, um processo de cura que transformava a folha em amarelo-claro, ficando branda e adocicada. Em 1860, o Departamento de Censo dos EUA o chamou de “um dos acontecimentos mais anormais da agricultura que o mundo já presenciou”. Depois de fumar alguns cigarros deste tabaco novo, os novos tabagistas sentiam um impulso incontrolável de acender mais um cigarro.
Viciados!
Embora não entendido na época, este mercado pequeno, porém de crescimento incessante, tornara-se fisicamente dependente, viciado, duma substância altamente viciadora. “Fumar ao acaso mais de dois ou três cigarros durante a adolescência”, quase que invariavelmente leva “à dependência de fumar regularmente”, afirma o pesquisador de drogas viciadoras, Dr. Michael A. H. Russell. “Diferente do adolescente que injeta heroína em si mesmo uma ou duas vezes por semana de início, o fumante adolescente experimenta cerca de duzentas sucessivas ‘altas’ com a nicotina quando acaba seu primeiro maço de cigarros.”
Sim, tragar era o segredo. A nicotina, pelo visto, penetra e irrita as mucosas apenas sob condições alcalinas. Uma vez que a fumaça dos cigarros é ligeiramente ácida, é a única fumaça suficientemente branda de tabaco capaz de ser inalada rotineiramente pela boca e garganta. Mas, nos pulmões, o ácido se neutraliza, e a nicotina penetra livremente na corrente sanguínea. Em apenas sete segundos, o sangue rico em nicotina atinge o cérebro, de modo que cada tragada traz uma satisfação nicotínica quase que instantânea. Os jovens que fumam mais de um cigarro, informa certo estudo realizado pelo governo britânico, só têm 15 por cento de probabilidade de continuarem sendo não-fumantes.
Assim, na mesma década da Guerra da Criméia, a indústria de cigarros tinha gerado um novo hábito forte. Em questão de 20 anos, os mercadores de fumo tiveram a brilhante idéia de utilizar cativantes anúncios e testemunhos nos jornais, para atrair novos clientes. Uma máquina patenteada em 1880 produzia cigarros em massa e mantinha baixo o preço deles, enquanto que fotos de heróis dos esportes e moças sorridentes vendiam a imagem dos cigarros ao público masculino. Mas o que os fazia voltar e pedir mais? A dependência da nicotina! Como se expressou William Bennet, M.D., escritor especializado em assuntos de saúde: “A mecanização, a publicidade e as técnicas de marketing astutas, deram sua contribuição, mas [sem nicotina] jamais teriam conseguido vender tanto repolho seco.”
Em 1900, o cigarro moderno, já internacional, estava pronto para apertar seus controles sobre a sociedade mundial.
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A folha sagrada que se tornou modaDespertai! — 1986 | 8 de abril
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A folha sagrada que se tornou moda
Durante três séculos, o fumo era remédio para os europeus. Os médicos receitavam tal erva para males que iam da halitose aos calos. Tudo começou em 1492, quando Colombo e sua tripulação, os primeiros europeus a depararem o fumo, encontraram ilhéus das Índias Ocidentais fumando charutos rudimentares em cerimônias tribais.
Muito antes de Colombo, quase todos os povos primitivos das Américas consideravam sagrado o fumo. Originalmente, fumar era um direito e uma prerrogativa dos curandeiros e dos sacerdotes. Empregavam seu efeito narcótico para provocar visões durante solenes ritos tribais. “O fumo estava intimamente associado a seus deuses”, informa o historiador W. F. Axton, “não só em suas celebrações religiosas, mas também em seus processos de cura ou de sarar doenças, todos os quais estavam, de uma forma ou de outra, ligados com sua religião”. Mas se o emprego medicinal do fumo foi o que primeiramente cativou os exploradores espanhóis e portugueses, logo se seguiu sua utilização para o prazer.
“I‘ll have another cigarette/And curse Sir Walter Raleigh” (Fumarei outro cigarro, e maldirei Sir Walter Raleigh), cantavam os “Beatles” John Lennon e Paul McCartney. Sir Walter, chamado de “o mais famoso propagandista entre os ingleses do cachimbo recreativo”, produzia o fumo em sua propriedade na Irlanda. Fez o máximo que pôde para popularizar tal hábito entre a requintada sociedade. À frente de seu tempo, traz à mente o industrial fumageiro e o publicitário do ‘século do cigarro’.
Mas foi a Guerra dos Trinta Anos, na Europa, e não o charme de Sir Walter, que tornaram o século 17 a “Grande Era do Cachimbo”, afirma Jerome E. Brooks. “Mormente por meio da guerra”, sustenta ele, “o hábito de fumar espalhou-se pelo Continente”, e na Ásia e na África. Um evento similar iria iniciar a era do cigarro.
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O hábito dá cabo da oposiçãoDespertai! — 1986 | 8 de abril
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O hábito dá cabo da oposição
COMO o fumante relutante que não deixa de fumar, o mercado de cigarros, por vezes, reduziu seu consumo, com medo de que fumar pudesse ser prejudicial e viciador, apenas para voltar com mais empenho do que nunca. Que mecanismos suprimem tais temores? A publicidade e a guerra! Estes têm sido “os dois métodos mais importantes em disseminar o consumo de cigarros”, segundo o historiador Robert Sobel.
O consumo de cigarros subiu vertiginosamente quando ‘nação se levantou contra nação’ na I Guerra Mundial. (Mateus 24:7) O que fez com que a produção, nos EUA, passasse de 18 bilhões de cigarros, em 1914, para 47 bilhões em 1918? Uma cruzada a favor de cigarros gratuitos para os soldados! Seu efeito narcótico era julgado útil em combater a solidão do fronte.
“Enfie todos os seus problemas na velha mochila/Enquanto tem um lúcifer [fósforo] para acender seu cigarro”, instava a canção inglesa do tempo de guerra. [Em versão livre.] Enquanto as agências governamentais e grupos patrióticos privados forneciam cigarros gratuitos para os combatentes, nem mesmo os antitabagistas ousavam criticar isso.
Apertando os Controles
Os fumantes recém-convertidos tornaram-se bons clientes depois da guerra. Apenas em 1925, os americanos consumiram uma média de cerca de 700 cigarros por pessoa. O consumo per capita da Grécia do após-guerra era uma vez e meia o dos Estados Unidos. Os cigarros americanos tornaram-se populares em muitos países, mas outros, tais como a Índia, a China, o Japão, a Itália e a Polônia, dependiam da produção fumageira local para suprir a demanda interna.
A fim de aumentar seus controles sobre o mercado americano, os publicitários visaram as senhoras. “A publicidade do fumo em fins da década de 20 foi caracterizada como ‘ficando louca’”, informa Jerome E. Brooks. Mas a publicidade fez com que os americanos continuassem comprando cigarros durante a depressão econômica de 1929, e depois dela. Enormes orçamentos (cerca de US$ 75 milhões em 1931) promoveram o cigarro como útil para se continuar esbelto, como alternativa para as balas. Filmes que glorificavam estrelas fumantes, tais como Marlene Dietrich, ajudaram a criar uma imagem de sofisticação. Assim é que, em 1939, à véspera de nova guerra mundial, as mulheres americanas juntaram-se aos homens em consumir 180 bilhões de cigarros.
Outra guerra! Os soldados de novo obtinham cigarros grátis, até em suas rações de campanha. “Lucky Strike Green Foi à Guerra!”, dizia um anúncio muito difundido, aproveitando-se do espírito patriótico do tempo de guerra. Calculando-se o consumo de cigarros, nos Estados Unidos, em 400 bilhões anuais no fim da II Guerra Mundial, quem poderia questionar o papel do fumo no mundo?
Deveras, quem poderia questionar a importância dos cigarros na Europa do após-guerra, onde, em certo ponto, os pacotes de cigarros substituíam a moeda no mercado negro? Os soldados americanos aquartelados na Europa compravam cigarros subsidiados por até cinco centavos de dólar o maço [uns Cr$ 750, taxas atuais], e pagavam tudo com eles desde sapatos novos até namoradas. As vendas militares de cigarros, isentas de impostos, subiram de 5.400 per capita, em 1945, para 21.250, em apenas dois anos.
Durante décadas, quaisquer aspectos objetáveis de fumar foram com êxito preservados de debates públicos — não sendo refutados, mas simplesmente sobrepujados pelo incessante aumento dum hábito popular. Em particular, contudo, persistiam as questões: É prejudicial o fumar? É algo limpo ou contaminador?
Em 1952, aflorou de forma súbita a latente questão da saúde. Médicos ingleses publicaram novo estudo que indicava que as vítimas de câncer tendiam a ser grandes fumantes. A revista Reader’s Digest deu prosseguimento a essa história e seguiu-se ampla publicidade. Em 1953, uma campanha contra os cigarros parecia estar destinada ao êxito. Será que o mundo largaria esse hábito?
A Colossal Indústria Fumageira
Em público, a indústria fumageira insistia que o caso contra os cigarros carecia de provas, eram simples dados estatísticos. Mas, de súbito — e ironicamente — revelou sua própria arma secreta, o cigarro de baixo teor de alcatrão. O novo produto dava uma imagem de segurança e de saúde aos amedrontados fumantes que não queriam deixar de fumar, ao passo que a publicidade novamente provou sua capacidade de vender uma imagem.
Na realidade, as marcas de baixo teor de alcatrão eram mais tranqüilizadoras para a consciência do fumante do que para sua saúde. Os cientistas mais tarde comprovariam que muitos fumantes compensavam o baixo teor por inalar mais profundamente e por reter a fumaça nos pulmões mais tempo, até obterem tanta nicotina quanto antes. Mas, passar-se-ia ainda outro quarto de século até que pesquisadores pudessem demonstrá-lo. No ínterim, a indústria dos cigarros emergiu como uma das mais lucrativas do mundo, agora atingindo vendas anuais superiores a US$ 40 bilhões.
Economicamente, essa indústria hoje em dia é mais forte do que nunca. Os clientes continuam comprando. O consumo anual cresce 1 por cento ao ano, nos países industrializados, e em mais de 3 por cento nos países em desenvolvimento do Terceiro Mundo. No Paquistão e no Brasil,a o crescimento é, respectivamente, de seis a oito vezes mais rápido do que na maioria dos países ocidentais. Um quinto da renda individual na Tailândia vai para a compra de cigarros.
Ainda assim, para muitos indivíduos refletivos, a forte influência do caso de amor do mundo pelos cigarros, que já dura 100 anos, não é, de forma alguma, o fim da história. Poderia haver algo mais do que parece à primeira vista, neste fenomenal aumento do consumo de cigarros, especialmente desde 1914, e sua quase cega aceitação por parte de tanta gente? Que dizer daquelas questões raramente consideradas, tais como a ética desse hábito? Será que fumar é moralmente neutro, ou é censurável? Nosso próximo artigo apresenta alguns pontos perspicazes.
[Nota(s) de rodapé]
a Informes indicavam um consumo, em 1985, em torno de 143 bilhões de cigarros, um aumento de 14 por cento em comparação com 1984, segundo o jornal Folha de S.Paulo, de 29 de dezembro último.
[Destaque na página 7]
A publicidade e a guerra — são os dois métodos mais importantes em disseminar o consumo de cigarros.
[Foto na página 7]
Título do anúncio: Observe nosso cigarro . . . É Chesterfield, suave e delicioso.
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Encare os fatos: o fumo hoje em diaDespertai! — 1986 | 8 de abril
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Encare os fatos: o fumo hoje em dia
SURPRESO de que tenha surgido a demanda de cigarros, um dos editores do Boletim de Saúde da Faculdade de Medicina de Harvard questiona: “Por que será que um vício desvanecente, sujeito [na década de 1870] a boa dose de opróbrio em meados da era vitoriana, subitamente se restabeleceu?” Sim, como certo anúncio recente (nos EUA) se jacta perante as fumantes: “Você percorreu um longo caminho, garota.” Os historiadores atribuem ao vício, à publicidade e às guerras ter o fumo granjeado aceitação pública. “Depois do vício, a publicidade é o mais poderoso aliado da indústria em sua batalha para ganhar o coração e a mente do fumante”, informa recente pesquisador. Isso é verdade, mas será que há algo mais envolvido nessa história?
A História por trás da História
Para os estudiosos da Bíblia, o significado da era do cigarro não pode ser posto de lado, sem mais nem menos. Por que não? Porque essa era — especialmente desde 1914 — cumpre profecias. Primeiro, em 1914, ‘nação se levantou contra nação’ numa guerra mundial. Daí, como Jesus Cristo predisse mais, a sociedade humana foi perturbada por ‘crescente aumento do que é contra a lei’. À medida que a guerra deixou as pessoas desiludidas e abalou seus valores vitorianos, isso abriu caminho para esta aceitação sem precedentes do cigarro. — Mateus 24:7, 12.
Em 1914, o mundo entrou numa era de ansiedade, e a indústria de cigarros prosperou. Muitos fumantes contraíram o hábito para combater as tensões do que a Bíblia chama de “tempos críticos, difíceis de manejar”. Os atrativos da publicidade e a dependência da nicotina ajudaram a tornar a auto-indulgência uma nova disposição da sociedade. A Bíblia predisse com exatidão que as pessoas nos últimos dias seriam “mais amantes de prazeres do que amantes de Deus”. — 2 Timóteo 3:1-5.
Tudo isto nos devia ajudar a sentir a urgência de nossos tempos. Em vez de ‘não fazer caso’, como Jesus disse que se dera com alguns humanos numa época anterior de crise, podemos aprender nossa lição da História. A Bíblia nos incentiva a ter esperança no Reino de Deus, e não em campanhas fúteis para reformar o mundo — nem em sonhos vãos de que as nações, algum dia, largarão seus maus hábitos. — Mateus 24:14, 39.
Pode o Mundo Livrar-se Desse Hábito?
As perspectivas não parecem promissoras de que o mundo se livre do hábito de fumar. Em 1962, o Colégio Real de Médicos da Inglaterra soou seu primeiro aviso contra o fumo, mas, em 1981, os ingleses compravam 110 bilhões de cigarros. O Médico-Chefe do Serviço de Saúde dos Estados Unidos deu seus primeiros avisos sobre os riscos para a saúde em 1964. Mas, no ano seguinte, viu-se um recorde de vendas. Em 1980, os americanos compravam anualmente 135 bilhões de cigarros a mais do que em 1964, apesar do aviso sobre a saúde, dado pelo médico-chefe, impresso em cada maço! A realidade é que o mundo agora compra quatro trilhões de cigarros por ano.
Quer fume, quer não, o dinheiro envolvido no comércio de cigarros, nestes dias, deveria esclarecer-lhe que, com toda a probabilidade, nem os governos, nem os políticos, irão acabar com o comércio fumageiro. Nos Estados Unidos, por exemplo, embora 350.000 pessoas morram todo ano por fumar cigarros, o fumo representa US$ 21 bilhões em impostos. Também fornece empregos, diretos ou indiretos, a 2 milhões de pessoas. E as empresas de fumo são grandes gastadoras. Em todo o mundo, elas gastam US$ 2 bilhões por ano em publicidade — eclipsando os combinados US$ 7 milhões que a Sociedade Americana do Câncer e a Associação Americana de Tisiologia gastam na educação contra o tabagismo.
Ou considere duas agências das Nações Unidas e a embaraçosa divisão quanto às suas diretrizes sobre o fumo: A OMS (Organização Mundial de Saúde) anunciou recentemente que cessar a “epidemia de fumo” nas nações do Terceiro Mundo “poderia contribuir mais para melhorar a saúde e prolongar a vida . . . do que qualquer ação, de per si, no inteiro campo da medicina preventiva”. Contudo, a FAO (Organização para a Alimentação e a Agricultura) sustenta que “o cultivo do fumo gera uma oferta de empregos rurais em larga escala” no Terceiro Mundo. A FAO descreve o fumo como “fonte importantíssima e facilmente utilizável de impostos”, fornecendo “fortes incentivos” para que os lavradores “cultivem o fumo” e para que os governos “incentivem seu cultivo e industrialização”.
Encare os Fatos
Sim, o fenômeno dos cigarros, especialmente desde 1914, exige que se encarem duros fatos. Alguns dizem: ‘Se sente prazer nisso, faça-o.’ Mas os fatos que vinculam o fumo com doenças pulmonares e cardíacas rejeitam tal visão míope. Na Inglaterra, diz-se que fumar cigarros mata oito vezes mais gente do que os acidentes de carro. Em todo o mundo, esse hábito “eliminou mais pessoas do que todas as guerras deste século”, diz um informe publicado na revista Manchester Guardian Weekly.
Que dizer do vício? A dura realidade é que a nicotina gera um estado de dependência de tóxico. E muitas pessoas refletivas acham que não podem ignorar os danos morais e espirituais associados ao fumo.
Objeções Morais
Os cristãos acham as objeções morais e bíblicas ao consumo do fumo de ainda maior peso do que os avisos médicos ou sobre a saúde. O consumo do tabaco se originou com o animismo, com o espiritismo, e com a adoração de deuses forjados pelo homem — tudo isso sendo condenado pela Bíblia como práticas degradantes que levam a pessoa a afastar-se do Criador. (Veja destaque: “A Folha Sagrada Que Se Tornou Moda”, página 4.) (Romanos 1:23-25) Fumar é impuro, perigoso e contrário às normas cristãs. (2 Coríntios 7:1) O que é mais importante, o vício situa esse hábito no âmbito do “droguismo” — termo condenatório utilizado na Bíblia para práticas espiritualmente prejudiciais e supersticiosas. — Veja a nota de rodapé da Tradução do Novo Mundo, edição chamada de Bíblia com Referências, em inglês, sobre Revelação 21:8; 22:15: “‘Os que praticam o espiritismo.’ Ou, ‘feiticeiros’. Lit.: ‘droguistas’. Gr.: far·ma·.koís.”
Assim, há sérias implicações morais num hábito que agrada os sentidos da pessoa, às custas da sua saúde, que polui o ar que seu próximo tem de respirar, e influencia os jovens impressionáveis a passarem a fazer a mesma coisa. Depois de pensarem um pouco e de uma reavaliação talvez dolorosa, muitos fumantes decidem que têm de largar esse hábito — para seu próprio bem e o de seus entes queridos.
Inversão do Processo
Para romper o hábito de fumar, tem de enfrentar a pressão de seu próprio corpo e de tudo que o cerca. Como fumante, seu corpo é dependente da nicotina. Sente a mesma ânsia que um século de fumantes anela, desde que a fumaça dos cigarros tornou-se tragável. Outdoors e revistas ostentam esse hábito diante de seus olhos da mente, sempre o associando com o prazer, a liberdade, a aventura, a beleza e o luxo. Seus colegas fumantes tendem a considerá-lo algo normal, seguro, inocente, agradável, de classe e sofisticado. Tornou-se receptivo à idéia de fumar.
Em suma, para livrar-se de tal hábito, terá de pessoalmente inverter o processo que tomou conta do mundo. Sugestões práticas, tais como as fornecidas nesta página, podem ajudá-lo a resistir à tendência do mundo, mas o primeiro passo é crucial: Saiba por que deseja largar o hábito. “A decisão tem de ser feita bem no íntimo”, afirma o Dr. C. F. Tate, na revista American Medical News. “Uma vez feita tal decisão, já se venceu a maior parte da batalha.”
E que dizer do mundo que parece incapaz e indisposto a fazer as mudanças que o leitor pode fazer pessoalmente? Não, não é provável que a sociedade humana ponha fim, por seus próprios esforços, às práticas autodestrutivas, tais como seu caso amoroso com o cigarro. Mas esteja certo de que Deus promete “arruinar os que arruínam a terra”. (Revelação 11:18) E o meio de Deus para fazer isso — seu governo celeste do Reino — é sua sólida esperança de um dia ver a saúde espiritual, moral e física ser restaurada em toda a parte da Terra. — Isaías 33:24.
[Gráfico/Foto na página 9]
(Para o texto formatado, veja a publicação)
O orçamento publicitário anual dos cigarros, de US$ 2 bilhões eclipsa o orçamento de US$ 7 milhões para a educação contra o fumo.
Educação Contra o Fumo
US$ 7 Milhões
Anúncios de Cigarros
US$ 2 Bilhões
(cada quadradinho equivale a um milhão de dólares)
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Como largar o hábitoDespertai! — 1986 | 8 de abril
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Como largar o hábito
NÃO tente ir largando aos poucos: Isso só prolonga a agonia da abstinência.
NÃO desperdice dinheiro em custosos remédios contra o fumo: “Sem exceção, as ajudas que existem atualmente no mercado oferecem muito pouco no sentido de real auxílio para o fumante”, noticia a revista New Scientist. E a revista World Health afirma: “O principal elemento do êxito . . . sempre será a força de vontade do fumante. O resto é apenas enfeite.”
ASSUMA sua responsabilidade, mas também aceite ajuda: São de inestimável valor os amigos que já deixaram de fumar e que lhe possam oferecer apoio. Ore. O desejo sincero de agradar a Deus e fazer Sua vontade opera maravilhas. — Filipenses 2:4; 4:6, 13.
RECONHEÇA deveras os benefícios de não fumar: Reduz o risco de morte (por doenças do coração, apoplexia, bronquite, enfisema ou câncer); dá bom exemplo; poupa dinheiro; livra a pessoa da sujeira, do cheiro, das inconveniências, e da escravidão ao hábito.
COMPREENDA deveras as dores da síndrome de abstinência: Em questão de 12 horas depois de seu último cigarro, seu coração e seus pulmões começam a regenerar-se. Seus níveis de monóxido de carbono e de nicotina caem rapidamente. Mas, à medida que seu corpo sara, isso dói. Talvez se sinta irritável e com pavio curto, mas não precisa dum cigarro para acalmar os nervos. Este desconforto temporário é o início de uma vida mais saudável.
COMPREENDA mesmo o desafio: Preveja que haverá problemas. Evite a autocompaixão e a transigência. Mas, não tenha dúvida, poderá largar o hábito.
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