A discórdia abala concórdia
ONDAS de choque ainda sacodem o Seminário de Concórdia em S. Luís, Missúri. Por vários meses, a maior faculdade teológica luterana dos EUA se contorce sob os efeitos de revolta maciça. Para alguns, isto talvez constitua surpresa, mesmo numa época em que, virtualmente, todas as principais organizações religiosas estão sofrendo. Por quê?
Porque o seminário de Concórdia (significando “harmonia”), de 135 anos, parecia tão seguro. É apoiado pelo Sínodo de Missúri da Igreja Luterana, de três milhões de membros, conhecido por sua forte posição “conservadora” em questões religiosas.
O que aconteceu?
A Discórdia Abaladora
Em janeiro de 1974, John H. Tietjen, chefe do seminário, foi suspenso pela Junta de Controle da faculdade. A Junta citou como motivos: Conduta incorreta oficial na realização dos deveres do cargo, inclusive insubordinação ao presidente do Sínodo, J. A. O. Preus, e advogar falsa doutrina. Em reação à demissão, a maioria do corpo docente instituiu um boicote às aulas. Em questão de dias, 43 membros do corpo docente, ou todos, menos cinco, foram demitidos por se recusarem a voltar às suas turmas.
Um mês após a suspensão de Tietjen, mais de 450 estudantes dum total aproximado de 600, votaram acompanhar os membros expulsos do corpo docente num ‘seminário no exílio’, que veio a ser chamado Seminex. A ação estudantil foi voluntária. Acharam que permanecer em Concórdia subentenderia concordância com a demissão dos professores, medidas que deploraram como “anticristãs” e “imorais”.
O novo seminário funcionou na vizinha Escola de Teologia da Universidade de S. Luís, controlada pelos jesuítas, bem como no Seminário Teológico Éden, dirigido pela bem liberal Igreja Unida de Cristo. Seu programa era financiado pela ELIM, Luteranos Evangélicos em Missão, e dependia de contribuições. Em meados de março, cerca de um mês depois de as aulas serem reiniciadas nas novas instalações, a ELIM noticiou em sua publicação Missouri in Perspective, que recebera donativos e votos que se aproximavam de Cr$ 6 milhões.
Apenas alguns estudantes permaneceram em Concórdia. Os primeiros três meses da primavera só encontraram cerca de noventa estudantes e dezenove professores regulares e convidados na escola. Até mesmo muitos deles aparentemente teriam preferido juntar-se ao grupo separatista, mas a pressão parental ou receios financeiros e a incerteza quanto a suas carreiras os moveu a ficar. Vários estudantes abandonaram por completo seus estudos para o ministério.
Esta discórdia surgiu como uma mudança e tanto. Durante os anos 60, quando era moda os universitários se rebelarem contra as instituições, Concórdia ficou imóvel. Com efeito, uma piada no seu campus diz que, durante aquele período, a faculdade era um “foco de contentamento”.
No entanto, aqueles dias contentes sumiram para sempre. Por quê? O que agitou o fogo que resultou em tamanha discórdia?
Principal Causa da Discórdia
Bem, a raiz do problema são as diferenças doutrinais. Cada lado — o conservador e o moderado — tem argumentos extensos em apoio a seus conceitos. Em suma, o que dizem?
Os conservadores insistem que “cada palavra das Escrituras” deve ser considerada como inspirada diretamente por Deus. Crêem que quando a Bíblia afirma que grande peixe engoliu Jonas, foi realmente isso que ocorreu. Afirmam aceitar literalmente o relato sobre a criação, o Jardim do Éden e a queda no pecado, narrada em Gênesis, capítulos um a três.
Os moderados, no entanto, afirmam que “aceitam sem reservas a Bíblia como a inspirada e escrita palavra de Deus”. Mas, usam o que chamam de ‘método histórico-crítico’ para tentar interpretar a Bíblia. Segundo este sistema, o evangelho ou boas novas que Jesus pregou, como o entendem os moderados, deve ser o padrão pelo qual qualquer parte das Escrituras deve ser avaliada. Às vezes isso é chamado pelos conservadores de “reducionismo do Evangelho”.
Interessante é que os moderados tentam fazer com que a diferença entre sua posição e a dos conservadores pareça ser tão pequena quanto possível. Por quê? Porque muitos, no Sínodo de Missúri, preferem tradicionalmente o conceito conservador. Se os moderados parecessem patentemente, em qualquer sentido, duvidar da Bíblia, poderiam alienar-se de considerável parte da igreja.
Os moderados, portanto, não raro são prudentes e cautelosos em suas explicações das Escrituras. Poder-se-ia ilustrar isto. Se um conservador perguntasse a um moderado: “Crê que Jonas realmente viveu e que um grande peixe realmente o engoliu?”, como responderia o moderado? Bem, o professor moderado, Richard R. Caemmerer, afirma: “Acho que nunca pensei em Jonas como não sendo um personagem histórico, nem me senti tentado a mistificar a história como sendo milagrosa demais. O principal milagre sobre isso, achei, já nos meus anos de pastor, foi sua habilidade de lembrar-se das adoráveis palavras com que orou a Deus ‘dentro do ventre do peixe’ (2:1 e versículos seguintes.).”
O conservador, ouvindo ou lendo tal resposta, fica pensando: “Em que crê realmente o professor? Acha que realmente existiu um Jonas e que um grande peixe realmente o engoliu ou não?” A resposta não é suficientemente explícita para o conservador.
“E o que dizer do relato de Gênesis sobre a criação”?, pergunta o conservador. “Deve ser tomado literalmente?”
O professor moderado responde: “Como Martinho Lutero, fui modesto quanto a qual poderá ser interpretação final de Gên[esis] 1; e ainda preciso encontrar alguém que pense que Gên[esis] 3 era outra coisa senão um drama do primeiro conflito do homem com Satanás — e não menciona Satanás.”
Isto de novo, para o conservador, é muito vago e se afasta sutilmente da crença na Bíblia. Apesar das afirmações dos moderados, há realmente ampla diferença no modo em que os dois grupos encaram a Bíblia.
“Política na Igreja” Também Provoca Discórdia
A discórdia tampouco se limita a diferenças doutrinais. Há também a questão da autoridade eclesiástica, a “política na igreja”. Existe conflito entre aqueles que têm poder na igreja e os que gostariam de tê-lo.
O presidente do Sínodo, Preus, pelo que parece, tem fortes conceitos quanto ao modo que ele acha que o Sínodo de Missúri deveria funcionar. O Dr. Sam Roth, um de seus críticos, afirma que Preus “empenha-se numa campanha para suscitar suspeita e desconfiança”. O Dr. John Damm, diretor de projetos do projeto-unido da educação teológica, assevera que o chefe do sínodo “simplesmente tem usado cada grama do poder nas pontas de seus dedos para esmagar a quem ouse não concordar com [seu] ponto de vista”.
Em mais de quatro anos de controle do sínodo, afirmam, Preus apenas duas vezes lhes perguntou que queixas tinham. E, em uma destas ocasiões, diz-se que exigiu que quaisquer perguntas fossem propostas de antemão, assim impedindo o diálogo. No entanto, os conservadores afirmam que numerosas aberturas foram feitas na direção de Tietjen e seus seguidores, sem nenhuma resposta. Os moderados, contendem, simplesmente não desejam submeter-se à autoridade eclesiástica devidamente constituída.
Harmonia Futura em Concórdia?
Nenhum dos grupos está seguro do que o futuro trará. Alguns receiam que os moderados rompam e formem uma igreja separada no devido tempo. Diz-se que Preus declarou que levaria uma década para resolver o assunto
Sem dúvida, a posição dos moderados os deixa diante de alguns intrigantes dilemas bíblicos. Estes problemas são resumidos em forma de pergunta por um estudante de 18 anos na Faculdade Concórdia, em Milwaukee: “Quando as pessoas afirmam que a história de Jonas e a baleia, e outras histórias bíblicas, são mitos, onde é que param? Prosseguem, dizendo que a Ressurreição (de Cristo) também é mito?” E, poder-se-ia acrescentar, uma vez se abram as comportas em questões doutrinais, ó que impedirá os teólogos moderados de dizerem mais tarde que os padrões morais da Bíblia também estão sujeitos a sua ‘crítica histórica’?
Do outro lado do quadro, alguns conservadores, que assumem a posição de que são “guardiães” das Escrituras e do ensino luterano, enfrentam perguntas igualmente embaraçosas. Por exemplo, de onde vieram os moderados a quem tão fortemente condenam? Vieram de fora da igreja? Não. Foram gerados e nutridos bem lá dentro da igreja. Ademais, será simples minoria do seminário que está envolvida neste movimento moderado, podendo-se chamá-lo de elementos dissidentes marginais que quase todas as organizações tem de enfrentar? Não, mais uma vez. Lembre-se, cerca de 80 por cento do corpo docente e discente abandonaram Concórdia — isso dificilmente seria apenas a margem!
Ademais, os que saíram para formar o Seminex não eram todos rapazes, recém-saídos do seminário. Os conservadores gostam de dar a entender que os efeitos dos métodos ‘históricos-críticos’ que minam são relativamente novos. O pastor P. G. Kiehl, do Sínodo de Missúri, de Bellafontaine, Missúri, afirma que nos últimos quinze ou vinte anos “havia homens [de Concórdia] que foram estudar em diferentes seminários, faculdades teológicas . . . e [ficaram] tão impressionados com os métodos usados nas outras faculdades . . . e evidentemente voltaram e infiltraram seus ensinos . . . no currículo do seminário”. Esta prática, sem dúvida, contribuiu para discórdia em Concórdia. Mas, nem todas as idéias que os conservadores têm por erradas foram importadas, nem são novas. Considere o Professor Caemmerer, cujos conceitos moderados foram adrede citados; já é membro da Igreja por quarenta e seis anos e está com a faculdade por trinta e quatro anos.
Todos estes fatores se conjugam para mostrar que é a inteira igreja, e não só uma facção, que se acha grandemente atingida pelas idéias dos que os conservadores imaginam como sendo moderados. A gravidade do problema é indicada pelo fato de que os conservadores admitem que não conseguem substitutos para os professores que deixaram a faculdade. Um até chega a admitir que “vai levar uma geração” para encontrar outros homens de tais consecuções escolásticas. Não indica isto que o inteiro sínodo acha-se, em realidade, saturado do mesmo conceito liberal, e não com fortes conservadores, baseados na Bíblia?
Em realidade, isto não deve surpreender aqueles conservadores que estão a par da teologia luterana. Por que dizemos isto? Porque o próprio Martinho Lutero empregou uma forma de “crítica histórica” em seu estudo da Bíblia. Christian Century lembra aos conservadores:
“Lutero não só deu origem a este enfoque, mas o aplicou: testemunhe sua crítica à teologia da Epístola de Tiago, suas suspeitas sobre a Epístola aos Hebreus, e seus avisos sobre o uso de Revelação (Apocalipse). Onde havia [o que Lutero considerava] um conflito entre algum trecho bíblico e a mensagem do evangelho, Lutero declarava inválido o trecho. Ele era tudo, menos um literalista neste respeito.”
Se o homem cujo próprio nome o Sínodo de Missúri leva, Martinho Lutero, empregou uma forma de “reducionismo do Evangelho”, não se deve esperar que os ramos dessa idéia básica se insinuassem um tanto na igreja inteira? Obviamente. Isto concorda com o que Jesus disse em seu Sermão do Monte: “A árvore boa não pode dar fruto imprestável, nem pode a árvore podre produzir fruto excelente.” (Mat. 7:18) Compreensivelmente, o modo de pensar moderado atingiu muito mais a Igreja Luterana do que os conservadores talvez queiram admitir prontamente.
Isto atemoriza alguns conservadores. Suponhamos que os moderados assumissem o controle da igreja?
Assumirão o Poder os Moderados?
Se assumissem, o que fariam os conservadores? Muitos luteranos do Sínodo de Missúri, por certo, gostam de imaginar que tal coisa simplesmente não poderia acontecer. Talvez não. Mas, os luteranos alertas sabem que é deveras uma possibilidade.
Sabem que comparativamente apenas um punhado de representantes de circuito votaram nos congressos do sínodo sobre assuntos de regulamentos e autoridade da igreja. O resultado de seus votos influi em milhares de luteranos comuns. Todavia, sua votação pode ser influenciada por fatores diferentes da Bíblia ou doutrinas. Que fatores, por exemplo?
Bem, os pastores, é preciso lembrar, devido à sua posição na igreja, exercem grande dose de influência na escolha dos representantes votantes dos circuitos. Que influência o modo como tais pessoas consideram importantes assuntos da igreja? Afirma o Pastor Tom Baker: “Na área de S. Luís, de 125 pastores, temos 70 a 80, ou 90 deles, que são pessoas inclinadas para o Seminex, talvez não especialmente em sentido teológico, mas apenas porque metade destes professores de seminário são [seus] parentes.”
Assim, não se acha inteiramente fora de cogitações que os moderados possam, finalmente, assumir o controle do sínodo. Afirma Baker: “Bastam apenas que alguns circuitos sejam controlados ou tenham menos votos.” Se isso acontecesse, o que fariam os conservadores? Não teriam então duas opções diante deles?
Uma escolha é mencionada por Baker: “Para manter sua consciência numa determinada igreja como esta, a pessoa teria, naturalmente, de concordar com a resolução do sínodo.” Mas, não chamem os conservadores aos moderados de “duvidadores da Bíblia”? Como poderia qualquer um deles, em “sã consciência” acompanhar os moderados? E qual é a outra escolha?
Poderiam fazer a mesma coisa que acusam atualmente os moderados de fazer! Sim, poderiam rebelar-se contra a ‘autoridade da igreja’, possivelmente deixá-la e formar nova igreja, composta duma minoria dos membros.
Os luteranos sinceros, que lêem a Bíblia, do sínodo, não estão cegos diante de toda a confusão doutrinal. Ademais, observam a política da igreja e os fortes choques de personalidades. Mas francamente, os luteranos do Sínodo de Missúri precisam também entender o que está acontecendo, olhar além da superfície, por assim dizer. Teriam então que a situação em Concórdia mostra que sua inteira igreja se acha envolvida por graves problemas.
Os luteranos fervorosos do Sínodo de Missúri sabem que Deus tem provido uma organização em alguma parte que realmente crê na veracidade da Bíblia. As Escrituras lhes asseguram positivamente disso. (Efé. 4:11-16) Mas, vendo a situação em seu próprio sínodo tornar-se cada dia mais grave, muitos deles perguntam: “Devo eu me voltar para outra parte, em busca dessa organização aprovada por Deus?”