O dólar em dificuldades no ultramar
“AUMENTA aparentemente a avaliação de quão perto de um desastre econômico as nações capitalistas já chegaram.”
Esta conclusão se deriva de um grupo dos mais notáveis economistas do mundo ocidental que se reuniram na Itália. A notícia, publicada pelo Times de Nova Iorque, acrescentava que “algo se acha seriamente errado no sistema financeiro internacional”.
Por que existe tão sombria perspectiva para as finanças do mundo ocidental? A causa principal é o dólar dos EUA. Acha-se em grandes dificuldades no ultramar. “O dólar dos EUA, contrário à crença popular, nunca esteve tão doente como agora”, disse U.S. News & World Report.
Já houve época em que o dólar estadunidense era grandemente prezado. As pessoas e os governos de outros países sentiam-se felizes de possuir grandes reservas dele. Este não é mais o caso.
Gastos Superiores à Renda
Por que surgiu tal situação? Para ilustrar: suponhamos que tivesse um emprego que lhe pagasse Cr$ 1.000,00 por semana. Diria que estava muito bem financeiramente? A maioria das pessoas por certo diria que sim.
No entanto, o que dizer se gastasse Cr$ 1.100,00 toda semana do ano? O que dizer se gastasse Cr$ 1.200,00 toda semana do ano seguinte? O que dizer se continuasse a gastar mais do que sua renda, ano após ano? A simples matemática lhe diria que, depois de esgotar quaisquer economias que possuísse, estaria contraindo grandes dívidas.
Depois de certo tempo, os bancos e as firmas creditícias compreenderiam que vivia além de seus recursos, constituindo um caso arriscado. Veriam que caminhava para a falência e deixariam de lhe emprestar dinheiro.
Assim, não importa a renda que a pessoa tenha, certamente ela não estará bem de vida se continuar a gastar mais do que recebe. Essa não é a vereda à prosperidade. É a vereda para a falência. Para evitar a falência, a menos que já seja tarde demais, a pessoa tem de mudar seu modo de vida. Tem de acostumar-se a harmonizar seus gastos com sua renda.
Não importa se ganha Cr$ 500,00 por semana, Cr$ 1.000,00 por semana ou Cr$ 1.000.000,00 por semana. O que é crucial é quanto gasta. Se continuar a gastar mais do que recebe, por fim meter-se-á em dificuldades.
Embora a questão das finanças internacionais seja muito mais complexa, basicamente foi isto que aconteceu aos EUA. Têm gasto mais dinheiro nos países estrangeiros do que recebem ali. Por isso, em suas transações internacionais, os EUA estão indo atualmente à falência.
Para avaliar melhor por que isto se dá, seria de ajuda entender que sistema muitas das nações fora do bloco comunista estabeleceram para cobrir suas contas internacionais.
Sistema Financeiro Ocidental
Dentro de cada país, a moeda local é usada quando se compra ou se vende. Por exemplo, o cidadão francês vai à loja e compra certos itens. Paga-os em francos franceses. Sabe o que sua moeda pode comprar em determinado momento.
Mas, o que dizer se aquele cidadão francês desejasse comprar um automóvel estadunidense? Quantos francos teria de pagar para os dólares que custa o automóvel? Tem de haver algum sistema internacional que permita que os governos, os comerciantes e as pessoas saibam quanto vale seu dinheiro em relação com as moedas dos outros países.
Os governos poderiam simplesmente permitir que o valor de sua moeda subisse e descesse nas transações internacionais, dependendo da lei da oferta e procura, isto é, quanto a sua moeda é avaliada pelos outros países. Mas, isto resultaria numa flutuação constante nos valores relativos da moeda. Às vezes, a flutuação seria enorme.
Tal sistema tornaria difícil efetuar-se o comércio mundial. Os comerciantes desejam saber quanto lhes custam comprar ou vender itens no exterior por um período de tempo. Precisam saber quanto da moeda de outro país a sua própria moeda comprará. Desta forma, podem determinar quanto cobrar pelos seus produtos.
Assim, uma taxa de câmbio estável é muitíssimo desejável para o comércio mundial. E tal sistema foi estabelecido pelos membros do Fundo Monetário Internacional. Este Fundo se compõe de mais de 100 nações fora do bloco comunista, e foi estabelecido numa conferência em Bretton Woods, em New Hampshire, EUA, em 1944. Fazia arranjo para a cooperação entre as nações quanto aos problemas financeiros internacionais. Os membros também concordaram em não permitir que suas moedas flutuassem mais de 1 por cento acima ou abaixo dos valores estabelecidos.
O Dólar ‘Tão Bom Quanto o Ouro’
Os membros do Fundo concordaram quanto ao princípio de que o valor da moeda de cada nação se basearia em sua paridade ao dólar dos EUA. O dólar, por causa do vigor financeiro e industrial dos EUA, era a mais forte moeda daquele tempo.
Concordou-se também que o dólar seria aceito como forma de reservas em qualquer destes países. E, o que apoiaria o dólar de papel? Ouro. Qualquer nação que possuísse dólares poderia devolvê-los aos EUA e obter ouro em troca ao preço estabelecido de 35 dólares a onça.
O ouro sempre tem tido seu valor intrínseco. Diferente do papel-moeda, o ouro sempre se acha em demanda para uso na indústria, em joalheria, na arte e de outras formas. Assim, se uma nação do Fundo começasse a acumular dólares demais, poderia devolvê-los aos EUA, e obter ouro em troca. Sim, o dólar era ‘tão bom quanto o ouro’.
Por causa deste sistema, quando o comerciante estadunidense comprava uma máquina alemã, sabia de antemão quanto valia o dólar em marcos alemães. E, o alemão sabia que podia reter o dólar, gastá-lo na compra dum produto estadunidense, trocá-lo por outra moeda, ou devolvê-lo e obter ouro. Tudo isto facilitava o comércio mundial.
Por que, porém, as nações têm de comerciar e passar por tudo isto? Porque diferentes países produzem itens de modo mais econômico do que outros. Podem usar tais coisas a fim de obter bens que não produzem de forma alguma ou não podem produzir com eficiência.
Por exemplo, o Japão vende muitos itens, tais como automóveis, televisões e rádios, a outras nações. Usa parte do dinheiro que recebe destas vendas para comprar petróleo no Oriente Médio. Por que petróleo? Porque o Japão não produz nenhum petróleo, por assim dizer. Sem petróleo, sua indústria pararia por completo. Assim, vende o que produz bem e usa o dinheiro para comprar o que não produz bem.
Crescem os Problemas
O sistema concordado em 1944 funciona enquanto as nações gastam cerca da mesma importância que recebem. É como a pessoa que recebe Cr$ 1.000,00 por semana. Talvez gaste um pouco mais esta semana, mas um pouco menos na semana seguinte. Por um período de tempo, não terá problemas se equilibrar suas contas, gastando mais ou menos o que recebe.
Contudo, quando habitualmente gasta mais do que ganha, então caminha para dificuldades. Quando a nação faz o mesmo no comércio mundial, também caminha para dificuldades.
Em 1950, devido aos gastos dos EUA nos outros países, os estrangeiros possuíam cerca de 8,6 bilhões de dólares dos EUA. Mas, isso não era problema. Os EUA possuíam cerca de 22,8 bilhões de dólares em ouro para sustentá-los, enorme reserva. A qualquer hora que os outros países desejassem, podiam devolver seus dólares e obter ouro. Sim, em 1950, o dólar ainda era ‘tão bom quanto o ouro’.
No entanto, dez anos depois, em 1960, aquela reserva de ouro havia desaparecido! As reservas estrangeiras em dólar totalizavam mais do que o ouro possuído pelos EUA. E por volta de 1970, a situação piorara muito mais. Segundo certo cálculo, os estrangeiros detinham mais de 43 bilhões de dólares, mas os EUA possuíam apenas um pouco mais de 11 bilhões em ouro. Deviam aos estrangeiros cerca de quatro vezes mais do que podiam pagar!
Nem a situação está melhorando. Com efeito, 1970 presenciou o maior desequilíbrio já existente. Apenas naquele ano, os EUA incorreram num déficit surpreendente de 10 bilhões de dólares em todas as suas transações no ultramar. E, apenas nos primeiros três meses de 1971, o déficit totalizava atordoante 5,5 bilhões de dólares!
O que aconteceria agora se as outras nações exigissem ouro em troca de todos os seus dólares? Responde Newsweek: “Os EUA mui certamente fechariam as portas, lançando o sistema monetário internacional . . . num período de confusão. E é neste ponto que o país das maravilhas das finanças internacionais afeta a vida diária: o resultado de tal caos poderia ser uma depressão mundial semelhante à depressão da década de 1930.”
[Gráfico na página 5]
(Para o texto formatado, veja a publicação)
50 50
40 40
30 30
20 20
10 10
(Algarismos representam bilhões de dólares)
ACÚMULO DE DÓLARES NO ESTRANGEIRO
RESERVAS DE OURO DOS EUA
1950 1955 1960 1965 1970