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São os negros amaldiçoados por Deus?Despertai! — 1978 | 22 de março
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Qual É o Conceito da Bíblia
São os negros amaldiçoados por Deus?
MUITOS líderes religiosos respondem que “Sim”. Os clérigos Robert Jamieson, A. R. Fausset e David Brown, em seu comentário bíblico, asseveram: “Maldito seja Canaã [Gênesis 9:25] — esta maldição se tem cumprido na . . . escravização dos africanos, os descendentes de Cão.” — Comentary, Critical and Explanatory, on the Whole Bible (Comentário, Crítico e Explicativo, de Toda a Bíblia).
Afirma-se que não só a escravização dos negros cumpria tal maldição bíblica, mas que sua cor preta também. Assim, muitos brancos foram levados a presumir que os negros são inferiores, e que Deus propôs que fossem servos dos brancos. Muitos negros ficaram amargurados pelo tratamento recebido, em resultado desta interpretação religiosa. Uma delas observa:
“Era o verão de 1951 quando eu, menina curiosa de 7 anos, sentei nos degraus da Primeira Igreja Batista em ‘Sheepshead Bay’, Brooklyn, e chorei. Tentara diligentemente esfregar a negritude de minha pele até ela sair, porque minhas coleguinhas brancas tinham comentado que era repulsiva. Esfregá-la com detergente Ajax apenas deixou uma mancha vermelha, inchada, que doía, quase tanto quanto meu coração infantil, quando comecei a ponderar por que um Deus de amor me tinha feito negra, a menos que não me amasse.
“Tinha ouvido dizer que isso era devido a uma maldição imposta por Deus à nossa raça. Mas, não conseguia entender ou compreender o que havíamos feito a Deus para merecer tal castigo. E acho, refletindo, que no fundo do coração eu sempre nutri um ressentimento particular contra Deus por me fazer negra e me colocar num mundo branco.
“Nos distúrbios esmagadores das zombarias e epítetos raciais de minhas coleguinhas, tais como: ‘Se é branca, é linda criança; se é morena, só nos dá pena; se negra é, aqui não ponha o pé’, surgiu uma condição marcada, em que comecei a ferver de raiva, especialmente diante de meninas brancas da minha idade.”
Que dizer dessa maldição bíblica? São negras as pessoas por causa duma maldição imposta por Deus a algum ancestral delas? E sofreram os negros séculos de escravidão em cumprimento desta maldição? Ensina realmente a Bíblia tais coisas? Vejamos. O relato bíblico em pauta reza:
“E [Noé] bebeu do vinho, e embebedou-se; e descobriu-se no meio de sua tenda. E viu Cão, o pai de Canaã, a nudez do seu pai, e fê-lo saber a ambos os seus irmãos fora. . . . E despertou Noé do seu vinho, e soube o que seu filho menor lhe fizera. E disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos. E disse: Bendito seja o Senhor Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo. Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo.” — Gên. 9:21-27, Tradução Almeida.
Tem-se afirmado que esta maldição bíblica marca os negros para a servidão perpétua. Com efeito, em 1838, o realizador duma cruzada anti-escravista, Theodore Weld, escreveu num tratado popular: A “profecia de Noé [supracitada] é o vade-mécum [companheiro constante] dos senhores de escravos, e eles jamais se aventuram a sair sem ele”. — The Bible Against Slavery (A Bíblia Contra a Escravidão), página 66.
Mas, primeiro de tudo, queira notar que nada se diz neste relato bíblico sobre alguém ser amaldiçoado com a negritude de pele. E, observe, também, que foi Canaã, e não seu pai Cã, que foi amaldiçoado. Canaã não tinha pele negra, nem seus descendentes, que se fixaram na terra que se tornou conhecida como Palestina. (Gên. 10:15-19) Os cananeus, com o tempo, foram subjugados pelos israelitas, descendentes de Sem, e, mais tarde, pela Medo-Pérsia, Grécia e Roma, descendentes de Jafé. Tal subjugação dos cananeus cumpriu a maldição profética sobre seu ancestral, Canaã. A maldição, assim, nada teve que ver com a raça negra.
De onde, então, proveio a raça negra? Dos outros filhos de Cã, Cus e, provavelmente, também de Pute, cujos descendentes se fixaram na África. Mas, como vimos, a Bíblia não diz absolutamente nada sobre os descendentes negros de tais homens serem amaldiçoados! Todavia, presumiu-se incorretamente que assim o foram. Quando é que os comentaristas eclesiásticos começaram a aplicar a maldição a Cã?
Um eclesiástico de uns 1.500 anos atrás, Ambrosiaster, aplicou-a assim, dizendo: “Devido à sua tolice, Cã, que tolamente zombou da nudez de seu pai, foi declarado escravo.” E John F. Maxwell observa em seu recente livro Slavery and the Catholic Church (A Escravidão e a Igreja Católica): “Este exemplo desastroso de exegese [explicação] fundamentalista continuou a ser usado por 1.400 anos e levou ao conceito amplamente expendido de que os negros africanos foram amaldiçoados por Deus.”
Até mesmo há uns cem anos atrás a Igreja Católica detinha o conceito de que os negros foram amaldiçoados por Deus. Maxwell explica que este conceito “aparentemente sobreviveu até 1873, quando o Papa Pio IX associou uma indulgência à oração em favor dos ‘desgraçados etíopes da África Central, para que o Deus Todo-poderoso remova inteiramente a maldição de Cã de seus corações’”.
Todavia, mesmo antes do começo da cristandade há mais de 1.500 anos atrás, sim, possivelmente mesmo antes de Jesus Cristo viver na terra, os rabinos judeus ensinavam uma estória sobre a origem da pele negra. Afirma a Encyclopœdia Judaica: “O descendente de Cã (Cus) tem pele negra como castigo por Cã ter tido relações sexuais na arca.”
“Estórias” similares foram inventadas nos tempos modernos. Os defensores da escravidão, tais como John Fletcher, de Luisiana, EUA, por exemplo, ensinavam que o pecado que motivou a maldição de Noé fora o casamento inter-racial. Afirmava que Caim fora assolado com a pele negra por matar seu irmão, Abel, e que Cã pecara por se casar com alguém da raça de Caim. É digno de nota, também, que Nathan Lord, presidente da Faculdade Dartmouth, no último século, atribuiu também a maldição de Noé sobre Canaã, parcialmente, ao “casamento misto proibido [de Cã] com a raça previamente iníqua e amaldiçoada de Caim”.
Mas, tais ensinos não têm nenhuma base na Bíblia. E houve gente, nos séculos passados, que mostravam que a maldição proferida por Noé estava sendo aplicada erroneamente aos negros. À guisa de exemplo, em junho de 1700, o Juiz Samuel Sewall, de Boston, EUA, explicou: “Pois Canaã é a pessoa amaldiçoada três vezes, sem se mencionar Cã. . . . Ao passo que os da raça negra [em inglês, Blackmores] não descendem de Canaã, mas de Cus.”
Também, em 1762, certo John Woolman publicou um tratado em que argumentava que a aplicação desta maldição bíblica, de forma a justificar a escravização de pessoas e privá-las de seus direitos naturais, “é uma suposição embrutecida demais para ser admitida pela mente de qualquer pessoa que sinceramente deseje ser governada por sólidos princípios”.
Imensos danos resultaram da aplicação errônea, por parte de eclesiásticos, desta maldição bíblica! A escravização dos negros africanos, e os maus tratos que lhes impuseram, desde os dias da escravidão, não podem de forma alguma ser justificados pela Bíblia. A verdade é: Os negros não são, e jamais foram, amaldiçoados por Deus!
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Ajuda ao Entendimento da BíbliaDespertai! — 1978 | 22 de março
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Ajuda ao Entendimento da Bíblia
[A matéria que segue foi selecionada de Aid to Bible Understanding, Edição de 1971.]
SAMUEL, LIVROS DE. Dois livros das Escrituras Hebraicas que, pelo que parece, não estavam divididos no cânon hebraico original. Isto é indicado por uma nota na Massorá, mostrando que as palavras de Primeiro Samuel, capítulo 28 (um dos capítulos finais de Primeiro Samuel), localizavam-se no meio do livro.
ESCRITORES E TEMPO ABRANGIDOS
A antiga tradição judaica credita a Samuel a autoria da primeira parte do livro, e a Natã e Gade a parte restante. Que estes três profetas deveras escreveram é confirmado em 1 Crônicas 29:29. O próprio livro relata: “Samuel falou então ao povo sobre a prerrogativa legítima do reinado, e escreveu-a num livro e depositou-o perante Jeová.” (1 Sam. 10:25) No entanto, à base de 1 Samuel 27:6, onde há uma referência aos “reis de Judá”, numerosos peritos situam a compilação final dos livros de Samuel em algum tempo depois de vir à existência o reino de dez tribos de Israel. Se a expressão “reis de Judá” denotar apenas os reis judeus do reino de duas tribos, isto mostraria que os escritos de Samuel, Natã e Gade foram colocados em forma final por outra pessoa. Por outro lado, se “reis de Judá” significar simplesmente reis da tribo de Judá, tais palavras poderiam ter sido registradas por Natã, visto que viveu sob a regência de dois reis judeus, Davi e Salomão. — 1 Reis 1:32-34; 2 Crô. 9:29.
Terem Ana e certo “homem de Deus”, cujo nome não é mencionado, usado as expressões “rei” e/ou “ungido” anos antes de um rei estar realmente reinando sobre Israel não apóia o argumento de que alguns destes trechos datam de um período posterior ao indicado no livro. (1 Sam. 2:10, 35) A idéia de um rei futuro não era, de jeito nenhum, estranha aos hebreus. A promessa de Deus com respeito a Sara, a ancestral dos israelitas, era de que “reis de povos” viriam dela. (Gên. 17:16) Também, a profecia do leito de morte de Jacó (Gên. 49:10), e as palavras proféticas de Balaão (Num. 24:17) e a lei mosaica (Deu. 17:14-18) apontavam para o tempo em que os israelitas teriam um rei.
A narrativa histórica contida nos dois livros de Samuel começa com o juizado do Sumo Sacerdote, Eli, e termina com os eventos do reinado de Davi. Portanto, abrange um período de cerca de 140 anos (c. 1180-c. 1040 A. E. C.) Visto que a morte de Davi não é mencionada no registro, tal relato (possivelmente com a exceção das adições editoriais) talvez tenha sido terminado por volta de 1040 A. E. C.
AUTENTICIDADE
A autenticidade do relato contido nos livros de Samuel é bem reconhecida. O próprio Cristo Jesus, ao refutar a objeção suscitada pelos fariseus, citou o incidente registrado em 1 Samuel 21:3-6 sobre Davi receber os pães da proposição ou apresentação de Aimeleque, o sacerdote. (Mat. 12:1-4) Na sinagoga de Antioquia, na Pisídia, o apóstolo Paulo citou 1 Samuel 13:14, ao recapitular brevemente os eventos da história de Israel. (Atos 13:20-22) Este apóstolo, em sua carta aos Romanos, usou palavras do salmo de Davi, trecho este que se encontra tanto em 2 Samuel 22:50 como no Salmo 18:49, para provar que o ministério de Cristo aos judeus comprovava as promessas de Deus e fornecia base para que os não-judeus “glorificassem a Deus pela sua misericórdia”. (Rom. 15:8, 9) As palavras de Jeová a Davi, em 2 Samuel 7:14, são citadas e aplicadas a Cristo Jesus em Hebreus 1:5, mostrando assim que Davi servia qual tipo profético do Messias.
Notável, também, é a candura do registro. Expõe os erros da casa sacerdotal de Eli (1 Sam. 2:12-17, 22-25), a corrução dos filhos de Samuel (1 Sam. 8:1-3), e os pecados e as dificuldades familiares do Rei Davi. — 2 Sam. 11:2-15; 13:1-22; 15:13, 14; 24:10.
Outra evidência da autenticidade do relato é o cumprimento das profecias. Estas se relacionam à solicitação de um rei por parte de Israel (Deu. 17:14; 1 Sam. 8:5), à rejeição da casa de Eli por Jeová (1 Sam. 2:31; 3:12-14; 1 Reis 2:27) e à continuação da realeza na linhagem de Davi. — 2 Sam. 7:16; Jer. 33:17; Eze. 21:25-27; Mat. 1:1; Luc. 1:32, 33.
O registro se harmoniza inteiramente com o restante das Escrituras. Isto é especialmente observável quando se examinam os salmos, muitos dos quais são iluminados pelo que está abrangido nos livros de Samuel. O envio de mensageiros por parte do Rei Saul, para vigiar a casa de Davi, a fim de matá-lo, fornece o fundo para o Salmo 59. (1 Sam. 19:11) As experiências de Davi em Gate, onde fingiu-se de insano mental para escapar da morte, são aludidas nos Salmos 34 e 56. (1 Sam. 21:10-15, evidentemente o nome Abimeleque que aparece no cabeçalho do Salmo 34 deve ser considerado como um título do Rei Aquis.) O Salmo 142 talvez reflita os pensamentos de Davi enquanto se escondia de Saul na caverna de Adulão (1 Sam. 22:1), ou na caverna do ermo de En-Gedi. (1 Sam. 24:1, 3) Talvez este também seja o caso do Salmo 57. No entanto, uma comparação de Salmo 57:6 com 1 Samuel 24:2-4 parece favorecer a caverna do ermo de En-Gedi, pois ali Saul, por assim dizer, caiu no buraco que havia cavado para Davi. O Salmo 52 refere-se a Doegue informar a Saul sobre os tratos de Davi com Aimeleque. (1 Sam. 22:9, 10) A ação dos zifitas, em revelar ao Rei Saul a localização de Davi supriu a base do Salmo 54. (1 Sam. 23:19) O Salmo 63 se relaciona às experiências de Davi no deserto de Judá. (1 Sam. 22:5; 23:14, 15, 26) O segundo salmo parece aludir às tentativas dos filisteus de desalojar a Davi qual rei, depois que ele capturou a fortaleza de Sião. (2 Sam. 5:17-25) As dificuldades com os edomitas durante a guerra com Hadadezer é o fundo do Salmo 60. (2 Sam. 8:3, 13, 14) O Salmo 51 é uma oração de Davi, suplicando perdão para seu pecado com Bate-Seba. (2 Sam. 11:2-15; 12:1-14) A fuga de Davi diante de Absalão fornece a base para o terceiro salmo. (2 Sam. 15:12-17, 30) Possivelmente, o Salmo 7 obtém seu fundo histórico na maldição de Simei sobre Davi. (2 Sam. 16:5-8) O Salmo 30 talvez aluda a eventos em relação a Davi erguer um altar na eira de Araúna.
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