Paquistão e Afeganistão
A população do PAQUISTÃO, de 130 milhões de habitantes — dos quais 88 por cento professam a religião do Islão — constitui o maior estado muçulmano do mundo. É o único país do mundo com mais de mil e seiscentos quilômetros de território estrangeiro separando suas duas partes, o Paquistão Ocidental e o Paquistão Oriental (Bangladesh). Limitando-se com o Irã e Afeganistão a oeste, com a China ao norte, e o Mar da Arábia ao sul, o Paquistão Ocidental tem a Índia como seu vizinho a leste. O Paquistão Oriental, na maior parte, é cercado por território indiano.
Como foi que ocorreu esta divisão incomum? Antes de 1947, os mais de 930.000 quilômetros quadrados do Paquistão eram todos parte da Índia predominantemente hindu. Por muitos anos, a minoria muçulmana se empenhara de ter um governo independente, baseado nos princípios do Islão. Sua oportunidade chegou no tempo em que a Índia obteve a independência da Grã-Bretanha em 1947. Em agosto daquele ano, veio à existência a nova nação do Paquistão — composta de duas áreas de grande concentração islâmica que não eram contínuas, mas, antes, estavam amplamente separadas uma da outra.
O urdu é a língua principal da parte Ocidental ao passo que o bengali é falado na parte Oriental. O Paquistão, em sua maior parte, é um país agrícola. A porcentagem comparativamente pequena da população alfabetizada se encontra principalmente nas cidades e nos pequenos povoados. É a esta classe de pessoas que a maior parte da pregação da “boa-nova” do Reino tem sido dirigida nos anos recentes.
Embora o Paquistão tenha tido seu início político em 1947, os proclamadores do reino de Jeová já estavam ativos nesse território mesmo antes de 1926, quando foi aberta a filial da Sociedade Torre de Vigia (dos EUA) na Índia. Algumas publicações da Sociedade abriram caminho até a província setentrional de Punjab, e sua capital, Lahore. Isto se deu por causa da atividade zelosa de um anglo-indiano, Frank Barrett, telegrafista que trabalhava no departamento de telégrafos da Índia, e que continuou ativo no serviço do Senhor até sua morte, e passou muitas horas pregando no que é agora o Paquistão Ocidental.
O irmão Barrett tinha um colega de trabalho em Lahore que mostrara muito interesse na mensagem do Reino, um senhor chamado Harvey. A fim de visitar este senhor, o recém-designado servo da filial da Índia, F. E. Skinner, viajou a Lahore. Naquele tempo, havia senso geral de urgência entre as Testemunhas, de modo que se fizeram planos para cobrir tanto território quanto possível num tempo curto. Solicitou-se aos assinantes de A Sentinela que distribuíssem as publicações. Daí a visita do irmão Skinner a Labore para entrar em contato com Harvey.
A uns mil, cento e vinte quilômetros a oeste, em Quetta, na província de Baluchistan, havia outro senhor com quem se deveria entrar em contato nessa mesma viagem — Walter Harding. O irmão Skinner verificou que já era vigoroso expositor das coisas que ele aprendia mediante o estudo de A Sentinela. Como guarda da ferrovia, amiúde se aproximava de passageiros da segunda ou da primeira classe e perguntava se gostariam de ter algo para ler, assim partilhando eficazmente na disseminação da mensagem do Reino. Não foi senão depois da morte do irmão Harding em 1933 que sua esposa e sua família tomaram sua posição a favor da adoração verdadeira. Os membros desta família, com efeito, achavam-se entre os primeiros publicadores da congregação em Karachi, cidade para a qual haviam mudado de Quetta.
Depois desta visita frutífera, e tendo a família Harding o enchido de frutas literais, das quais Quetta é famosa, o irmão Skinner partiu de trem em sua viagem de volta de 2.400 quilômetros para Bombaim, via Karachi. Esta cidade portuária é muito úmida e cansativa; no entanto, o irmão Skinner passou ali uma semana produtiva na distribuição do livro Libertação, principalmente entre os cristãos nominais. Assim, deu-se início à publicação da “boa-nova”, no que mais tarde se tornaria a primeira capital do Paquistão.
A obra de pregação não se limitava às grandes cidades naqueles primeiros anos. O irmão Skinner começou a fazer visitas anuais regulares aos pequenos povoados e vilas de Punjab. Aqui a maioria da população nominal cristã pode ser encontrada. Foi para visitá-la nos meses de inverno setentrional de dezembro e janeiro de cada ano que o irmão Skinner veio com S. M. Shad, seu intérprete, um professor recém-interessado de Punjab.
O irmão Skinner achava tais visitas anuais uma experiência emocionante. Encontrava-se com Shad em Lahore e então viajavam de trem, a cavalo ou num veículo puxado a cavalo por trilhas poeirentos entre os povoados, pousando com o povo local em suas pequenas casas de barro, junto com galinhas, vacas e cabras. Quão estimulante achava conversar com os camponeses simples que acabavam de chegar do trabalho árduo nos canaviais, ao se agacharem no chão de barro ou se sentarem em suas esteiras de cordas, folheando as páginas das Escrituras à medida que verdades novas lhes eram explicadas!
PUBLICADORES VÊM PARA FICAR
Em agosto de 1929, dois irmãos que teriam considerável parte na expansão da obra de pregação sob a filial da Índia chegaram a Bombaim — Claude Goodman e Ron Tippen. Tais irmãos se apresentaram voluntariamente para servir na Índia na recente assembléia internacional na Inglaterra, onde ouviram um irmão que estava em casa, vindo de seu emprego secular na Índia, contar sua experiência. Conversaram com o irmão Rutherford, então presidente da Sociedade, e então foram iniciados ali mesmo os arranjos para enviá-los à Índia. Partiram confiantes no espírito de Mateus 6:33, visto que cada um só tinha dez dólares (uns Cr$ 65,00) e uma passagem só de ida para a Índia. Ao chegarem, logo usaram todo o seu dinheiro em roupa tropical e num acolchoado de dormir tão essencial para se viajar na Índia. Duas semanas depois, partiam numa viagem de dois dias pelo mar até Karachi.
Passaram a cobrir todas as áreas em que o inglês pudesse ser conhecido, pois não possuíam publicações na língua local. No entanto, visto que a Índia se achava então sob domínio inglês, a língua oficial era o inglês e eles logo conseguiram distribuir as muitas caixas de publicações que haviam trazido. A obra de revisita era apenas incidental, pois, naquele tempo, a idéia era cobrir o território e colocar tantas publicações quantas fosse possível. Depois de ficarem na cidade cerca de uma semana, vivendo no local mais barato que conseguiram, tiveram uma experiência que ajudou-os na fé, bem como em sua situação financeira. O irmão Tippen testemunhou à proprietária do maior e mais custoso hotel na cidade. Ela aceitou publicações e perguntou onde ele pousava. O resultado foi que ela os convidou a serem seus hospedes no hotel enquanto estivessem em Karachi. Assim puderam reunir fundos de que eles tanto necessitariam nos meses adiante.
Seu próximo passo foi ir para Hyderabad, na província de Sind, a uns cento e sessenta quilômetros de distância de trem. Isto era segundo achavam, realmente ser pioneiros, sob as condições indianas. Os bens indianos tinham quatro classes, e tais irmãos, para desperto dos europeus, viajavam usualmente na classe mais balsa, onde se apertavam num compartimento apinhado de bancos de madeira entre os camponeses. Uma semana foi gasta em Hyderabad, e desta vez se acomodaram num bangalô “dak” (posto do correio). Estes podem ser encontrados por todo o país, e, a um pequeno custo, pode-se ocupar um quarto com mesa rude, duas cadeiras e duas camas de tábua de madeira sobre as quais pode-se estender o acolchoado de dormir.
De Hyderabad, o irmão Tippen foi para Quetta, e o irmão Goodman para Ambala, esperando, no devido tempo, juntar suas forças em Lahore. A filial recebera muitas cartas de povoados ao redor de Lahore e parecia haver muito interesse nesses chamados povoados cristãos, de modo que os irmãos foram para essa área. Entre os povoados, o meio de transporte era principalmente o camelo, que, segundo o irmão Goodman, depois de alguns quilômetros e as nádegas doloridas, não era uma experiência tão encantadora assim. Lembra-se de que, em certa ocasião, quando ambos montaram o mesmo camelo, o animal abaixou-se para mordiscar. O irmão Goodman puxou a corda única, com o que o camelo começou a abaixar, ficando sobre seus quatro joelhos. Daí, ele puxou a corda de todo outro modo em que conseguiu pensar, mas o camelo permaneceu mastigando contente. Apenas quando o irmão Tippen se lembrou de ter ouvido o guia assobiar e o imitou é que o animal se ergueu e passou a andar. Dali em diante, o irmão Goodman diz que tratou com máximo respeito a corda.
Por fim, encontraram o escritor de todas aquelas cartas enviadas à filial, um clérigo independente! Visto que não sabiam falar punjabi e não tinham publicações em tal língua, o único meio de alcançarem os aldeões era usar este senhor qual intérprete. Grandes multidões vieram ouvi-los proferir um discurso, mas, depois disso, a única pergunta que as pessoas faziam era: “Vão estabelecer sua missão em nossa aldeia e construir para nós uma escola ou um hospital?” Mais tarde verificaram que o clérigo havia instilado tal esperança nos aldeões, ao passo que ele, no ínterim, vivia as custas daquela gente simples e bondosa.
Esta idéia de que a finalidade da missão cristã era fazer o povo aceitar o Cristianismo por meio de benefícios materiais ainda é firme crença da maioria dos cristãos nominais. As condições de guerra, não muitos anos depois disto, provaram de forma desapontadora que muitos supostamente interessados estavam mais interessados em qualquer apoio financeiro que pudessem receber da Sociedade. Até mesmo o irmão Shad, que tinha sido tão prestimoso quando o irmão Skinner visitou tais áreas, voltou a ensinar numa escola sectária e se tornou apóstata.
Dois outros irmãos da Inglaterra, Randall Hopley e Clarence Taylor, chegaram em Karachi em 1932 a fim de ajudar a reunir as genuínas “ovelhas” do Senhor. Uma das cidades visitadas pelo irmão Hopley foi Dacca, que se tornaria depois a capital do Paquistão Oriental ( Bangladesh ). No entanto, as perspectivas naquele tempo não eram muito encorajadoras. No ínterim, o núcleo de uma congregação havia sido formado em Karachi. Com o irrompimento da Segunda Guerra Mundial, em 1939, a obra se limitou mais ou menos a Karachi e a duas ou três das outras cidades principais. Em Lahore, em 1942, um pioneiro especial, persa, foi preso e colocado sob custódia debaixo dos Regulamentos de Defesa da Índia. Ficou detido por três meses, porém, mais tarde, foi solto sem saber jamais qual teria sido sua violação. Em 1943, os governantes ingleses da Índia proscreveram a importação e a impressão das publicações da Sociedade. Isto resultou em grande dose de fustigamento para os pioneiros. Felizmente, contudo, essa proscrição terminou em fins de 1944.
ENFRENTANDO DIFICULDADES
Um evento que devia influir notavelmente na atividade de pregação aqui não foi a Segunda Guerra Mundial, mas o fato de que, em 15 de agosto de 1947, a Índia alcançou a independência, e entrou em vigor a divisão do país no que é agora a Índia e o Paquistão. Paquistão, em urdu, significa “terra santa”, e isto era o que muitos muçulmanos da Índia esperavam que seria, quando, separada dos hindus e sikhs da Índia, pusessem em vigor os princípios do Islão. A separação real resultou em uma das mais sanguinárias insurreições da história, à medida que os hindus fugiam para a Índia e os muçulmanos fugiam para o Paquistão. O Punjab foi o que mais sofreu, visto que a divisão o partiu em dois, ficando Lahore apenas a uns 27 quilômetros da nova fronteira do Paquistão e Amritsar a quase a mesma distância, em território indiano. Trens de refugiados chegavam em ambas as cidades, com todos os seus passageiros brutalmente assassinados. Aqueles que conseguiam escapar contavam suas horrorosas experiências, e, assim as represálias começaram em todos estes dois países. Calcula-se que oito milhões de refugiados, com mais ainda que viriam, haviam cruzado as fronteiras em ambas as direções já em início de dezembro de 1947, e milhares mais haviam perdido a vida.
Menos de vinte dos proclamadores da “boa-nova” na Índia se encontraram da noite para o dia em um novo país. Em Karachi havia uma congregação de doze pessoas, e havia uma outra congregação em Quetta, onde dois pioneiros ajudavam. Uma pioneira de per si servia as zonas rurais de Punjab. certamente era o tempo do início da obra do Reino no Paquistão!
A população de Karachi aumentou subitamente de 450.000 para mais de 1.126.000 em 1951, à medida que os refugiados da Índia continuavam a chegar. Colônias sem condições sanitárias, repletas de doenças, espalharam-se por toda a cidade, as casas sendo construídas de esteiras de folhas de tamareiras. Os menos afortunados simplesmente tinham de dormir nas ruas. A congregação usufruiu um aumento, em especial depois da chegada dos primeiros dois graduados da Escola de Gileade que vieram para o Paquistão — Harry Forrest e Henry Finch. Verificaram, como os outros irmãos, que os estudos bíblicos não eram tão fáceis de iniciar e que a obra de casa em casa também apresentava seus problemas. Numa população principalmente muçulmana, isto era de se esperar. Para o muçulmano, o Alcorão é a autoridade suprema, e ele acha que a Bíblia, embora inspirada, foi modificada. Por isso, o estudo da Bíblia talvez não lhe seja tão interesse sente, e mesmo que tenha algum interesse nisso, talvez tenha receio de parentes ou vizinhos fanáticos. Esta última dificuldade tem sido vencida por alguns por virem receber seus estudos no Salão do Reino.
Daí, há o costume islâmico do “purdah” para as mulheres, que exige que usem véu em público. Isto torna difícil para os irmãos o ministério de casa em casa, visto que as mulheres, na maioria, não virão à porta quando um homem esta ali. Daí, também, o dono da casa talvez seja muito ortodoxo e não aceitará brandamente a idéia de outros homens tentarem ver suas mulheres. Assim, aqueles primeiros missionários em Karachi passaram bastante tempo visitando os escritórios e as lojas comerciais a fim de alcançar o povo com a mensagem do Reino. As irmãs na congregação trabalhavam juntas, ou com um irmão, visto que era considerado de mau gosto a mulher respeitável visitar sozinha as casas. Com o passar dos anos, este problema foi vencido até certo ponto, as missionárias dando o exemplo, com bons resultados. Os irmãos, contudo, ainda têm esse problema em muitos lugares, e acham mais prático levar uma irmã junto com eles no ministério de campo. Ainda é comum se ver um irmão esperar pacientemente fora da casa, enquanto a irmã dá testemunho lá dentro.
Apesar destas dificuldades, a pequena congregação de Karachi cresceu vagarosamente, como fazia a organização através do país. Em 1950, houve um aumento de 22 por cento, o número total de publicadores atingindo trinta e sete. Ainda mais ajuda estava a caminho.
Devido às dificuldades que se desenvolveram entre os dois países, tornou-se virtualmente impossível que a filial da Índia supervisionasse a obra no Paquistão. Nem dinheiro nem publicações podiam ir de um país para o outro. Assim, em 1951, fez-se do Paquistão uma filial separada, e o irmão Goodman, que ainda servia fielmente, foi designado o primeiro servo de filial. Quando recebeu esta designação, estava prestes a formar-se da décima quinta turma da Escola Bíblica de Gileade nos EUA. Três colegas foram designados junto com ele, entre eles G. K. Young. Três meses depois, outros dois graduados chegaram em Karachi, inclusive o próprio irmão do irmão Young.
Em 1951, ainda não havia lares missionários no país. Os irmãos Finch e Forrest moravam com uma família de Testemunhas, de modo que, quando chegaram os novos missionários, continuaram a tomar suas refeições todos juntos na casa desta família, mas ficaram alojados em diferentes lugares da cidade. Dois dos irmãos encontraram alojamentos num hotel residencial que possuía um mínimo de conforto em tudo, menos em ambiente higiênico. Dentro de cinco meses, porém, foram feitos arranjos para um lar missionário, onde todos vivessem juntos confortavelmente, e de onde o pessoal da filial pudesse trabalhar.
Por volta desse tempo, todos ficaram tristes com a perda de um deles — Lesley, a esposa do irmão G. K. Young. Não tendo saúde forte, e debilitado sem dúvida pela moléstia agravada por viver em condições difíceis, ela faleceu. Mais tarde, no mesmo ano, o irmão Joe Oakley, devido à doença que não podia minorar com o calor e a umidade de Karachi, foi transferido para o clima mais salutar de Quetta. Pouco depois disso se tornaria o primeiro servo de circuito a trabalhar sob a direção da filial do Paquistão. Foi acompanhado a Quetta por Allan Young, e, mais tarde, G. K. Young juntou-se a eles e um lar missionário foi estabelecido ali pela primeira vez.
Em Karachi, em princípios de janeiro de 1952, todos os publicadores das “boas-novas” obtiveram grande encorajamento da visita dos irmãos Knorr e Henschel. Uma assistência de 364 pessoas ouviu o discurso “Enfrentará a Religião a Crise Mundial?”, proferido pelo irmão Knorr no maior auditório da cidade daquele tempo. Muitos outros vieram, mas, em intervalos, deixavam o auditório ao serem mencionados o resgate e a filiação de Cristo, sendo que os muçulmanos rejeitam firmemente tais ensinos. Todavia, houve pelo menos um muçulmano que ficou encorajado por esta visita do presidente da Sociedade a tomar uma posição mais franca. O irmão Shah, como se tornou mais tarde conhecido, embora fosse exteriormente muçulmano, desde sua infância rejeitara os ensinos do Islão em seu coração. Quando recebeu o livro “Seja Deus Verdadeiro” de uma Testemunha, cerca de três ou quatro anos antes disso, seu interesse foi suscitado. Mas, a Testemunha nunca o revisitou e não foi senão depois de algum tempo, antes da visita de presidente da Sociedade a Karachi, que ele teve a oportunidade de desenvolver seu interesse. Isto se deu quando ele observou uma Testemunha que distribuía convites perto de sua loja. Logo se iniciou um estudo com ele, e, em 1952 simbolizou sua dedicação a Deus pelo batismo.
Havia oposição, naturalmente. Ele relata como certo dia, seu vizinho o visitou e disse: “Tive um sonho a noite passada em que Deus me mandou matá-lo, visto que está ficando infiel.” A isto, o irmão Shah respondeu: “Se acha que é a vontade de Deus que me mate, faça isso. Não estou com medo. Mas, o que fará será um assassinato, puro e simples, pelo que terá que responder à polícia. E não pense que irá para o paraíso por fazer isso, como ensina o Islão, pois Jeová Deus não recompensa os assassinos, antes, os destrói.” Até o dia de hoje, o “infiel” ainda vive e, com efeito, por muitos era o único da fé islâmica que permanecia associado com o povo de Jeová aqui. Outros vieram por certo tempo e então se foram, mesmo depois do batismo. Tem sido uma grande alegria para este irmão, portanto, ver outros, inclusive seu próprio filho, com a mesma formação que ele, mostrarem genuína determinação de aderir a Jeová e servi-lo.
Assim, muita semente estava sendo semeado nessa época, parte da qual deveria dar fruto mais tarde. Para ilustrar isto, podemos falar de uma cristã nominal com quem uma das missionárias entrou em contato em Karachi. Foi feito um estudo bíblico com ela durante uns dezoito meses, mas, por causa da indiferença do marido dela, e a oposição da mãe e dos irmãos dela, ela cancelou o estudo por algum tempo. As missionárias mantiveram contato com ela, contudo, e então, em 1955, a morte súbita de sua filha mais velha a moveu mais uma vez a buscar o conforto das Escrituras. Assim, uma grande entusiasta pelo bingo tornou-se dedicada e zelosa publicadora das “boas-novas”, e esta irmã Davis tem tido a alegria, com o passar dos anos, de ver todos exceto uma pessoa de sua família mais próxima dedicarem suas vidas a Jeová. O filho dela, Geoffrey, tem servido por muitos anos como pioneiro especial. Em 1971, tornou-se o primeiro irmão paquistanense a se habilitar para o trabalho de servir seus irmãos como servo de circuito.
AS “BOAS-NOVAS” NO PAQUISTÃO ORIENTAL (BANGLADESH)
Até aqui muito pouco se disse sobre a pregação do Reino no Paquistão Oriental (Bangladesh). Apesar da densidade da população — quase sete vezes mais do que na parte Ocidental — a maior parte da atividade das testemunhas de Jeová tem sido feita na parte Ocidental. Além de uma breve visita em 1932, conforme mencionado acima, nenhum missionário foi designado para o Paquistão Oriental senão em 1953, quando o irmão e a irmã Howard Benesch foram enviados para Dacca, e um lar missionário foi aberto ali. Devido à falta de acolhida, contudo, foram transferidos para Lahore, depois de dois anos e meio, e deveriam passar-se outros treze anos antes de se tentar fazer de novo a obra em Dacca. Mostrando que havia pessoas semelhantes a ovelhas que podiam ser encontradas nessa arca, contudo, uma missionária conseguiu dirigir um estudo por correspondência com uma senhora do maior porto do Paquistão Oriental, Chittagong. Aqui há alguns cristãos nominais, e esta senhora era um deles, sendo católica-romana. Por causa da extrema pobreza, ela fora dada às freiras quando criancinha. Ela fazia serviços domésticos para elas no convento até que, com onze anos, as freiras a casaram com um senhor muito mais velho do que ela. Isto a deixou com muito pouca instrução e ainda com menos amor pela Igreja Católica. Quando a própria família dela crescera a treze membros, uma semente da verdade foi semeado no coração dela por uma irmã idosa, recém-batizada, com quem se havia entrado em contato e estudado por correspondência. Esta pessoa colocou a senhora criada no convento em contato com a mesma missionária a qual sugeriu que ela também estudasse por correspondência. No ínterim, também, um irmão numa viagem de negócios, do Paquistão Ocidental, deixou com ela um livro Paraíso.
Durante três anos depois deste contato inicial, nada se soube dela. Daí, certo dia, a missionária recebeu uma carta dela que dizia, em parte: “Acho que sabe que não havia testemunhas de Jeová em Chittagong, exceto eu, assim, queira por favor ajudar-me por me enviar uma Bíblia e revistas para orientação.” Parece que, devido a graves enchentes cansadas por ciclones — um acontecimento anual nesta região costeira — ela foi obrigada a abandonar sua casa e perdeu o endereço da filial nesse processo. Em resposta à carta dela, foi iniciado um estudo regular por correspondência, seu filho mais velho escrevendo para ela as respostas às perguntas. Apesar da retirada de toda ajuda material da Igreja Católica Romana e de seu marido estar desempregado, ela estudou com os filhos e fez seus próprios esforços de pregar as “boas-novas”, até mesmo ficando em pé atrás da igreja católica e se dirigindo às pessoas à medida que saíam. Daí, quase na ocasião em que uma família de Testemunhas e dois pioneiros especiais chegaram em Dacca para ajudá-la, ela ficou muito doente e morreu de câncer. Isto se deu em 1968.
O pai daquela família de recém-chegados, o irmão Mass Jivanandham, servira nas forças armadas quando obteve conhecimento dos propósitos de Deus vários anos antes. Depois de estudar um ano em Karachi, tomou sua posição, e foi sentenciado a seis meses de prisão e expulso do serviço. Ao ser liberto, simbolizou sua dedicação pelo batismo e, junto com a esposa e três filhos, tornou-se ativo na congregação de Karachi. Em 1968, ofereceu-se-lhe a oportunidade de trabalhar em Dacca por dezoito meses. Aceitou a oferta com a condição de que os pioneiros especiais, o irmão e a irmã Porter, que tinham vindo em 1961 servir onde havia mais necessidade, o acompanhassem. Ele achava que tal arranjo era necessário a fim de manter sua família espiritualmente forte. Assim, o grupo foi trabalhar em Dacca. Colocaram-se muitas publicações e foram obtidas muitas assinaturas de A Sentinela. Foram também iniciados estudos bíblicos e um resultado foi que um rapaz simbolizou sua dedicação pelo batismo na assembléia de distrito de Karachi em 1970, ao passo que outros dois começaram a publicar. Embora o irmão Jivanandham e sua família por fim tivessem que deixar Dacca, quando terminou seu contrato de trabalho, os dois pioneiros especiais permaneceram ali até 1971, quando partiram no meio de uma caótica situação política.
A EXPANSÃO RECOMPENSA OS ESFORÇOS MISSIONÁRIOS
Os registros da filial mostram que, por volta do fim do ano de serviço de 1953, havia quatorze graduados da Escola de Gileade no país e um auge de cinqüenta e sete publicadores. Os graduados estavam distribuídos entre quatro lares missionários em quatro cidades diferentes. Um dos novos lares se achava em Lahore, a segunda maior cidade do Paquistão, onde, com o decorrer dos anos, muitos participaram em pregar o Reino. Por fim, no início de 1954, foi formada a primeira congregação de cinco novos publicadores (apenas um finalmente permaneceu leal a Jeová) e quatro missionários. Em fins de julho, do mesmo ano, seu número aumentava com a chegada dos irmãos Goodman e Forrest, quando, devido a problemas de alojamento em Karachi, Lahore se tornou o novo local para a filial da Sociedade. Viram-se obrigados a deixar o lar de Karachi a curto prazo, e visto que Karachi ainda lutava com o vasto problema de refugiados, não havia outra coisa a fazer senão mudar-se para Lahore. Haviam sido encontradas ali instalações adequadas, recém-construídas.
Lahore não possui a população cosmopolita de Karachi, e as pessoas, portanto, inclinam-se a ter uma mentalidade um tanto estreita. É conhecida como a cidade das universidades e faculdades, e muitos de seus monumentos antigos atraem os visitantes. Como na maioria das cidades da Ásia, é notável o contraste entre ricos e pobres, os abastados vivendo em palácios e os pobres, que constituem a maioria, em casebres sórdidos e imundos de barro, ou nas ruas escuras, igualmente insalubres e estreitas. Daí, há outro setor crescente da população que constitui a classe média, e é entre eles que se da mais testemunho. Isto não ocorre devido à distinção de classes, mas, antes, por causa dos problemas criados ao se visitar as seções assoladas pela pobreza da comunidade.
O simples aparecimento de um estrangeiro ou de um estranho bem vestido é sinal para que a rua estreita se encha de crianças sujas e desleixadas de todas as idades. Literalmente chovem das casas não deixando dúvidas de que a superpopulação é o problema N.º 1 desta parte do mundo. Gritando e empurrando uns aos outros, seguem o publicador de casa em casa, amiúde entrando pesadamente nas casas no rastro do publicador, sem considerarem qualquer protesto. Os mais velhos logo identificam o visitante e dentro em pouco a rua inteira ouve que se pode comprar uma revista por vinte e cinco paisas ou que o estranho está fazendo cristãos. Isto amiúde resulta em portas fechadas, mas, de qualquer modo, o publicados já então decide que é melhor tentar outra rua onde possa ouvir a sua própria voz.
Um tal ocasião uma bicicleta — o meio mais comum de transporte em Lahore — é de vantagem para uma sumida rápida. Quando a Testemunha parte mesmo, é no meio de gritos e palmas e, em alguns casos, de chuvas de pedras. Assim, a melhor maneira de trabalhar em tais áreas é imitar o exemplo dos irmãos nos países comunistas, fazendo uma casa de cada vez em cada rua.
Quando a filial se mudou para Lahore, o testemunho estava principalmente limitado aos que sabiam inglês. Naquele tempo não havia um curso especial de idioma, por dois meses, para os recém-chegados. Os novos missionários aprendiam urdu da melhor forma que podiam, às vezes contratando um professor particular local. Mesmo assim, se o professor estava mais interessado no pagamento do que em ensinar, o progresso era vagaroso. Houve um missionário, contudo, que tentou fazer uso do conhecimento do idioma que ele obteve por todos os povoados espalhados do Punjab, viajando numa bicicleta.
Este era Harry Forrest. Depois de sua transferência de Karachi para o norte, tornou-se figura bem conhecida nos três anos em que cobriu centenas de quilômetros da zona rural de Punjab. Carregava tudo com ele — publicações, roupas, a Bíblia e roupa de cama. Carregado na frente, atrás e em ambos os lados, parecia mais ser um turista mundial O povo comum apreciava grandemente seus esforços e o ouvia alegremente ao falar algumas palavras em urdu e então liam os textos de suas Bíblias em punjabi. Costumavam chamá-lo de “Selva sahib” (Sr. da Selva) pois esse é o significado literal de seu nome em urdu. Apesar de ter mais de cinqüenta anos de idade e, naquele tempo, ser um pouco surdo, continuou seu trabalho sob extremo calor, dormindo onde quer que pudesse, quer numa casa, estábulo, choupana, num mercado oriental ou até mesmo no campo sob as estrelas. Como são freqüentes as vezes em que as Testemunhas hoje ouvem perguntas sobre como ele vai passando, ao encontrarem pessoas que receberam pela primeira vez a mensagem do Reino por meio de sua zelosa atividade!
Pregava-se então mais entre a vasta população muçulmana do país, e quando foi lançado em 1951 O livro Que Tem Leito a Religião Pela Humanidade?, com seu capítulo sobre o Islamismo, esperava-se que muitos dos de coração honesto abrissem os olhos. Muitos exemplares foram colocados nas mãos das pessoas, mas, em 1955, alguns dos mais fanáticos começaram a objetar contra aquele capítulo específico, e cartas expressando tal objeção começaram a aparecer na imprensa. Os muçulmanos são tão sensíveis sobre o assunto que qualquer coisa que se diga sobre Maomé que possa ser torcida para parecer ligeiramente prejudicial, e o bastante para provocar um motim. De qualquer forma, o governo decidiu, em agosto de 1955, proscrever totalmente esta publicação, o motivo dado sendo que feria as suscetibilidades religiosas da população local. No entanto, havia outras publicações disponíveis, de modo que a obra de pregação continuou sem esmorecer.
No fim daquele ano de 1955, foi estabelecido novo lar missionário em Rawalpindi, a uns 270 quilômetros a noroeste de Lahore, situada ao sopé de grandes cadeias montanhosas. Isto elevou o número de tais lares para quatro, visto que o irmão e a irmã Benesch haviam então deixado Dacca e vindo para Lahore, onde se juntaram a eles as primeiras duas missionárias solteiras a chegar ao país. Os irmãos Muscat e Miller, originalmente da Austrália, foram nesta ocasião transferidos de Lahore para Rawalpindi, para ajudar a iniciar a obra ali.
Enquanto estava em Lahore, o irmão Miller iniciou um estudo bíblico com o Sr. Lamuel, que mais tarde revelou ser ouvinte ansioso da Palavra de Deus e logo progrediu ao ponto do batismo. Embora, de início, seu conhecimento do inglês fosse muito limitado, com o passar dos anos desenvolveu a habilidade neste sentido e está sendo usado agora na promoção dos interesses do Reino por traduzir regularmente o Ministério do Reino para o urdu e servir como intérprete na congregação de Lahore.
BÊNÇÃOS DE 1956
Em janeiro de 1956, o Paquistão recebeu um novo servo de filial, R. T. Pope, da Nova Zelândia, que havia vindo há dois anos antes para o Paquistão, depois de formar-se da Escola Bíblica de Gileade da Torre de Vigia. Isto se deu devido à partida de Claude Goodman, que logo se casaria com uma das filhas do irmão Harding, já mencionado antes. O irmão Goodman mencionou seus vinte e seis anos de serviço diligente nestas regiões como o capítulo mais emocionante e apreciado de sua vida. Embora com saúde fraca, ainda serve como pioneiro e superintendente na Austrália ocidental.
No início deste ano, foi formada em Karachi a primeira congregação de língua urdu. Muitos dos irmãos aqui haviam pertencido à mesma denominação cristã nominal, e o irmão Sadiq Masih foi quem levou primeiro a mensagem a estas pessoas humildes. Ele mesmo aprendera pela primeira vez algo sobre os propósitos de Deus em 1947, na Índia, quando comprou o livro Libertação de segunda mão, sem capa, meio roto e sem o frontispício. Sendo filho de um clérigo, Sadiq desde sua juventude se interessava vividamente pela Palavra de Deus. Em 1948, trouxe sua família para Quetta e arranjou uma casa em frente à igreja. A única oração oferecida por este clérigo que ele achou admirável tinha sido lida de um livro de orações, conforme ele descobriu depois. E quem lhe contou isso? Ora, o próprio filho do clérigo que, quinze anos depois, iria tornar-se um dedicado servo de Jeová Deus. Sadiq continuou num estado espiritualmente muito insatisfatório até uma fria e nevada manhã de domingo quando ele e sua família estavam se mantendo aquecidos por ficar na cama na ocasião em que um pioneiro chegou à sua porta. Aceitou o livro “Seja Deus Verdadeiro”, e concordou em receber um estudo bíblico imediatamente em seu lar.
Logo depois ele participava na obra de pregação, e então, certo dia, obteve outro privilégio. O servo de circuito deveria proferir um discurso amplamente anunciado no Teatro Municipal — mas o tradutor não havia aparecido. Pediu-se a Sadiq Masih que o substituísse, e essa não foi senão a primeira de tais oportunidades de aprimorar sua utilidade. Não muito depois disso, ele foi para o Pujanb, onde, em seu tempo livre, pede semear muita semente, parte da qual mais tarde deu fruto em forma de outros servos dedicados de Jeová. Gradualmente, veio a compreender que seu serviço secular estava impedindo e limitando seus esforços, de modo que, com grande perda para si mesmo em sentido financeiro, decidiu mudar sua vocação.
Crendo firmemente na promessa de Mateus 6:33, voltou a seu distrito natal no Punjab, Sialkot. Apesar dos tempos difíceis e da oposição, inclusive dois motins, encontrou um senhor disposto a dedicar sua vida a Jeová e que ainda serve fielmente. Em 1952 quando o irmão Knorr visitou Karachi, Sadiq vendeu sua única possessão móvel, uma bicicleta, a fim de pagar sua viagem à assembléia em Karachi, a uns 400 quilômetros de distância. Em Karachi conseguiu achar um emprego adequado e decidiu permanecer e participar na obra do Reino ali.
Mais tarde, nesta mesma congregação em Karachi, havia dois irmãos carnais, Sattar e Sadiq, que progrediram em conhecimento e então voltaram a seu Punjab nativo com suas famílias e serviram ali como pioneiros especiais. Isto se deu em 1959, depois que o irmão Forrest voltou ao Canadá. Por motivo do treinamento que estes irmãos receberam na congregação de Karachi, puderam organizar logo o primeiro grupo isolado no Punjab rural. Iletrados aos olhos do mundo (um dos irmãos só aprendeu a ler depois de se tornar Testemunha), estes irmãos continuaram a pregar tanto aos bem instruído como aos analfabetos em todas as cidades e povoados em volta de Daska, a uns noventa e seis quilômetros de Lahore. Em 1970, o pequeno grupo se transformou numa congregação e os dois irmãos construíram um Salão do Reino num pequeno terreno onde está sua casa. Este prédio tem a distinção de ser o único Salão do Reino no país construído e possuído pelos irmãos.
Perto do fim de 1956, os setenta e nove publicadores em todo o país regozijaram-se com a perspectiva de mais uma vez se reunirem com o presidente da Sociedade, o irmão Knorr. No Teatro Municipal de Lahore, 160 pessoas ouviram o discurso público proferido pelo presidente, e nessa ocasião, cinco pessoas foram batizadas. Durante sua visita, o irmão Knorr gravou breve entrevista que foi mais tarde transmitida pela estação de rádio de Lahore, sendo esta a primeira e única vez que alguém do povo de Jeová tem tido a oportunidade de falar as “boas-novas” pelo rádio paquistanense.
O vice-presidente da Sociedade, o irmão Franz, deveria também supostamente estar na assembléia de Lahore junto com o irmão Knorr, mas, devido a uma dificuldade inesperada quanto à vacina contra a febre amarela, o irmão Franz ficou em quarentena em Karachi, junto com os passageiros de um avião inteiro. Quando foi liberado, naturalmente, a assembléia de Lahore já havia terminado. Os irmãos ficaram muito desapontados, mas tiveram algum consolo no fato de que os irmãos na Índia e Birmânia usufruiriam sua visita. Pouco depois dessa assembléia, em fevereiro de 1957, os três publicadores e dois missionários em Rawalpindi se tornaram uma congregação, isto elevando o número das congregações no país para cinco.
AS “BOAS-NOVAS” CHEGAM AO AFEGANISTÃO
Em setembro de 1957, o território da filial do Paquistão aumentou em uns cerca de 400.000 quilômetros quadrados e em mais de doze milhões de habitantes. Como? Isto se deu porque as primeiras testemunhas de Jeová chegaram no país vizinho e acidentado do Afeganistão. Philip Zimmerman, empregado duma linha aérea internacional, mudara-se dos Estados Unidos para Kabul, a capital. Junto com sua esposa, sua mãe e seu filho pequeno, tinha vindo para essa cidade de 350.000 pessoas.
Assim como se dá com seus países vizinhos orientais e ocidentais, o Afeganistão é quase que totalmente islâmico quanto à religião, e a pregação do Cristianismo aos afeganes jamais foi tolerado. Não se pode dizer nada oficialmente contra o Alcorão ou a religião muçulmana porque o rei é muçulmano, e, assim, qualquer coisa derrogatória para ele é considerada como lesa majestade — dando suficiente base para expulsar o estrangeiro do país. Até os dias atuais as Testemunhas precisam limitar sua obra à comunidade estrangeira transiente, enquanto dependem de sua imaginação para alcançar a população local com a mensagem do Reino. A maioria da população se compõe de camponeses analfabetos que só falam pushto (também falado na região fronteiriça do noroeste do Paquistão) ou dari, a forma afegane da língua persa. Os afeganes bem instruídos usualmente falam pelo menos uma língua européia.
Devido ao tipo de trabalho do irmão Zimmerman e sua necessidade de voltar aos Estados Unidos em intervalos regulares, não era possível nessa ocasião pregar de forma muito constante; era bastante, contudo, para que bom número de pessoas soubessem da partida da família para a assembléia internacional em Nova Iorque, em 1958, pessoas interessadas em saber o que se passou ali quando a família voltou a Kabul. Os noventa e sete publicadores do Paquistão também estavam representados neste grande congresso. Cinco missionários e o irmão Sadiq Masih, de Karachi, ficaram gratos pela ajuda financeira que receberam dos irmãos de todo o mundo, de modo a poderem assistir a essa assembléia e voltar espiritualmente fortalecidos e cheios de experiências para compartilhar com seus irmãos.
Visto que, no início, o inteiro país do Paquistão formava um só circuito, era necessário que alguns viajassem de 800 a 1.450 quilômetros em cada direção, pelo menos duas vezes por ano, para comparecer às assembléias de circuito e de distrito. Foi em uma de tais assembléias de circuito em Rawalpindi, realizada em abril de 1959, que os irmãos ficaram surpresos com a chegada de um delegado pouco antes do início do programa da sexta-feira à noite. Tratava-se do irmão Werner Schwarze. Viajara mais de 480 quilômetros de além de Kabul, Afeganistão, de motocicleta. Viera do extremo frio das montanhas, passando pelo histórico Passo Khyber, e chegando às quentes planícies poeirentos em seguida. Ainda que não pudesse expressar-se com facilidade em inglês, sua felicidade por estar presente era irradiada aos outros congressistas. Fazia apenas dois meses que o irmão Schwarze viera da Alemanha para o Afeganistão, servir onde havia mais necessidade.
Sua viagem de volta ao Afeganistão não se realizou sem problemas. Ele transportava em sua motocicleta uma mala cheia de publicações e estava um tanto preocupado sobre como as autoridades da fronteira reagiriam. No entanto, a alguns quilômetros da alfândega, um carro que passava parou e o motorista disse: “essa mala em sua motocicleta é difícil demais para o senhor. Pode dá-la a mim e eu a entregarei à sua embaixada em Kabul.”
Por todo o caminho ele tentou, apesar de seu conhecimento limitado da língua, partilhar as “boas-novas” com os habitantes locais. Este mesmo testemunho jeitoso e incidental sobre os propósitos de Jeová em tais lugares é dado por ele até os dias atuais quando ele viaja. Na assembléia seguinte, o irmão Schwarze foi em companhia de sua esposa e duas filhas, que recentemente haviam chegado em Kabul. Isto aumentara os proclamadores do Reino no Afeganistão para sete pessoas. Logo depois chegariam mais três publicadores da Alemanha, para servir onde há tão grande necessidade.
Um verdadeiro marco no progresso da obra no Afeganistão foi alcançado em 1962, quando Milton Henschel, do escritório do presidente, visitou Kabul. Naquela ocasião, os irmãos ali tiveram sua própria pequena assembléia, com certeza indicando um pouco de abrandamento das restrições. Quão encorajados ficaram todos! Em 1964, depois de sete anos de serviço ali, os Zimmermans tiveram que deixar o Afeganistão. Durante os seguintes cinco anos, só havia cinco publicadores para servir aos milhões daquele país — o irmão Schwarze, sua esposa, suas filhas e o irmão Muecke, o marido de uma das suas filhas.
Os irmãos têm publicações em cerca de trinta línguas, e, na casa do irmão Schwarze, há um mostruário do livro Paraíso em diversos idiomas, que serve como motivo de palestra sempre que alguém o visita. O irmão Schwarze lembra-se de que, em 1959, tinham até sete guardas vigiando seu local de reuniões, e, se uma pessoa local desejava estudar, era preciso encontrar-se com ela em alguma esquina e levá-la de carro para um piquenique nas montanhas. Agora a polícia não fica mais vigiando.
No trabalho de casa em casa, é preciso que a pessoa se torne perita em reconhecer os nomes que não são afeganes nas portas. Quanto às casas em Kabul, usualmente têm muros altos ao redor e quando se bate à porta, um empregado afegane atende. Primeiramente lhe pergunta em persa se um estrangeiro mora ali. Se a resposta for negativa, pede desculpas e tenta outra casa.
OS DISPOSTOS CONTRIBUEM PARA A EXPANSÃO
Voltando ao Paquistão, houve outra mudança no início de 1959. O irmão Pope partiu para casar-se e continuar sua obra missionária na Índia, de modo que G. K. Young foi designado ao lugar dele. Por volta de abril de 1960, quando houve um auge de 112 publicadores, havia apenas seis graduados de Gileade restantes, e dois deles se aprontavam para partir devido à doença. No entanto, quatro mais chegaram do Canadá naquele mês.
O Paquistão teve um bom quinhão de irmãos e irmãs que vieram servir onde havia mais necessidade, e estes sempre constituíram uma fonte de estímulo para os publicadores locais, tais como o irmão e a irmã Pinchbeck, da Inglaterra, que permaneceram alguns anos. Este casal deixou de comparecer à assembléia internacional de 1958 em Nova Iorque a fim de vir para Karachi, e permaneceram quatro anos, o irmão por fim se tornando um superintendente da congregação de língua inglesa de Karachi, au passo que sua esposa era pioneira. Encontraram e estudaram com uma família que mais tarde se mudou para o Paquistão Oriental (Bangladesh) a fim de servir onde havia mais necessidade.
Uma irmã zelosa, de meia-idade, dos Estados Unidos, também teve excelente parte em disseminar A Sentinela em urdu nos mercados orientais e em outras áreas não alcançadas com freqüência. Ela viera com o marido, que era empregado de uma firma exploradora de petróleo. Mas, como foi que venceu o problema do idiomas? Visto que ela dispunha de um carro com chofer provido para sua conveniência, ela usou seu chofer muçulmano como seu intérprete, fazendo por meio dele breves apresentações das revistas. Assim, com a ajuda dos irmãos de várias nações, alcançamos um auge de 129 publicadores em maio de 1961 — 22 por cento de aumento. Havia então apenas três congregações, uma em Lahore, e duas em Karachi.
A assembléia paquistanense em 1962, quando o irmão Henschel foi nosso prezado convidado, resultou ser muitíssimo encorajadora para os irmãos. Mais tarde no ano, oito outros irmãos e irmãs, treinados nas Escolas do Ministério do Reino nos Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, vieram juntar suas forças aos oito graduados de Gileade que já trabalhavam neste país. Alguns foram designados a iniciar a obra de novo em Rawalpindi, mas o progresso foi vagaroso muito embora a população da cidade tivesse aumentado amplamente devido a se tornar a capital interina, enquanto a nova capital, Islamabad, apenas a uns treze quilômetros de distância, estava sendo construída. Apesar dos muitos anos de trabalho árduo e paciente nesta área, os quatro missionários que ainda se acham ali têm menos de dez publicadores que trabalham com eles em ambas estas cidades.
Outro ponto alto em nossa história foi a assembléia internacional em Déli, Índia, em 1963. Foi necessário muito trabalho árduo e cuidadosa preparação por parte dos irmãos paquistanenses para obter passaportes e vistos, sendo que as relações entre o Paquistão e a Índia jamais foram muito cordiais. Alguns do Afeganistão também conseguiram comparecer a esta maravilhosa assembléia.
A fim de tornar mais fácil o comparecimento de todos às três assembléias de cada ano, o Paquistão Ocidental foi dividido em dois circuitos em 1965, os dois servos de circuito trabalhando parte do tempo. Durante esse mesmo ano, as relações entre a Índia e o Paquistão se deterioraram, até mesmo resultando em guerra. No entanto, isto não afetou a atividade do Reino.
Nos anos de serviço de 1964-1968 houve quarenta e quatro pessoas que simbolizaram sua dedicação a Jeová, indício de que há um número crescente de pessoas que acatam a mensagem do Reino neste país. Na verdade, nosso total de publicadores não revela grande aumento cada ano, mas isto se deve à partida de alguns para outros países e à decaída de alguns que não tinham verdadeiro amor a Jeová em seus corações.
Em fins de 1967, e no início de 1968, mais sete graduados de Gileade chegaram aqui. Cinco destes foram originalmente designados à Índia e ao Ceilão, mas visto que não conseguiram obter vistos para tais países, o Paquistão é que lucrou. Na assembléia de distrito de Karachi, em 1968, a primeira pessoa da comunidade parse no Paquistão simbolizou sua dedicação. Estes seguidores de Zoroastro constituem uma comunidade bem unida e próspera que só se casam entre eles e que não fazem conversos à sua religião. Por esta razão, foi necessário grande coragem e determinação da parte de nossa irmã.
Graças à generosidade de nossos irmãos em outros países, foi possível que todos os missionários e cinco pioneiros especiais comparecessem a uma das assembléias internacionais de 1969. Outros irmãos paquistanenses conseguiram organizar seus afazeres de modo a comparecer à assembléia em Londres, Inglaterra. O relatório para o ano de serviço de 1969 indicava um aumento de 5 por cento em comparação com o ano prévio. Daí, em fevereiro de 1971, tivemos um novo auge de 173 publicadores, ao passo que nossa assistência à Comemoração da morte de Cristo subiu para 517. Durante o ano de serviço de 1971 foram colocados 6.610 Bíblias e livros, bem como 8.043 folhetos, 41.392 revistas e 1.511 assinaturas novas foram obtidas para as revistas A Sentinela e Despertai!
O Afeganistão também teve um aumento devido à chegada de mais dois casais da Alemanha. Deveras, todos os publicadores no Afeganistão e uma pessoa interessada se achavam entre as 196 pessoas reunidas em Lahore em fevereiro, para a assembléia de circuito. Cinco das pessoas recém-interessadas em Lahore são anteriores muçulmanos. Uma delas foi encontrada em seu escritório, alguns meses antes da assembléia, e progrediu tão rápido que simbolizou sua dedicação na seguinte assembléia de circuito, em junho de 1971.
Fazem-se agora arranjos de imprimir A Sentinela em urdu no Paquistão. Durante anos, tem sido traduzida e impressa na Índia mas, devido à situação agravante entre os dois paires, o governo paquistanense baniu toda matéria impressa proveniente da Índia. Agora, os publicadores aguardam ansiosamente a edição em urdu de A Verdade Que Conduz à Vida Eterna, atualmente sendo preparada.
Apesar das condições políticas e econômicas cada vez mais agravadas, e o obscuro horizonte internacional, o pequeno grupo de publicadores aqui, mais uma vez limitado a trabalhar apenas na área ocidental do Paquistão, continua a proclamar a mensagem do Reino zelosamente, olhando para Jeová, para que continue a abençoar seus esforços, confiante de que Ele executará seu amoroso propósito de proteger e conceder a vida a todos os que demonstrarem seu amor a Ele.