A água que bebe
‘ÁGUA POTÁVEL’, escreveu certa vez Leonardo da Vinci, ‘pode ser saudável, insalubre, laxativa, sulfurosa, lamuriosa, irada, vermelha, amarela, verde, preta, azul, oleosa, gorda e magra’.
A água que bebe hoje provavelmente tem poucas destas qualidades. Mas, mesmo em nossos dias, cerca de meio milhão de pessoas, segundo se diz, ficam constantemente doentes por causa da água que bebem. Dez milhões delas podem morrer cada ano.
Surpreendentemente, até mesmo as nações desenvolvidas, que se orgulham de sua água “segura”, têm problemas agora. A lavoura e a indústria modernas introduzem crescente lista de substâncias químicas difíceis de remover e potencialmente perigosas nas fontes de água potável. “Parece que tudo que torna a vida mais fácil torna a água mais suja”, comentou um perito dos EUA, em audiências do Senado sobre esse problema.
A Vida Depende Dela
Apesar desses problemas, a água permanece sendo uma das substâncias mais maravilhosas e absolutamente essencial que se conhece. A própria existência da vida mesma na terra se baseia nela. Com efeito, a água constitui o ingrediente principal da maioria das coisas vivas. O corpo humano tem sido descrito como “virtual saco ambulante de fluidos precariamente contidos”. Cerca de dois terços de seu peso total é constituído de água, ao passo que até três quartos de seu cérebro e músculos o são.
Disto torna-se óbvio que a vida funciona melhor dentro do estreito âmbito de temperatura em que a água existe como líquido. Diz-se que tal ambiente, onde a vida poderia existir, praticamente não existe em nenhuma outra parte do universo. Embora os cientistas especulem sobre possíveis milhões de planetas no universo, o livro Water: The Web of Life (Água: A Tela da Vida) exclama:
“Ao aprendermos mais sobre quão incomuns realmente são as condições na terra . . . ficamos admirados se até mesmo entre milhões de planetas poderíamos achar uma réplica da terra. . . . Pelo que parece, há uma série bem particular de eventos que resultam num planeta com água líquida em sua superfície.’’
O que a água faz para sustentar a vida em seu corpo ilustra a notável substância que verdadeiramente é.
A Água Funcionando no Leitor
O sangue é amiúde igualado à própria vida das criaturas, como na expressão sangue vital. Apropriadamente, o sangue se compõe de quatro quintos de água. As ímpares qualidades da água a tornam idealmente apropriada como a base deste fluido vitalizador. Por exemplo, mais substâncias se dissolvem na água do que em qualquer outro líquido. Também goza da capacidade ímpar de mover-se livremente de um lado para o outro nas paredes das células de seu corpo, levando consigo as substâncias químicas da vida. Ao mesmo tempo, serve de veículo em que ocorrem, dentro das células, complexas reações químicas.
Tais reações “queimam”, como combustível, o alimento que ingere, gerando calor, como um motor de automóvel faz quando queima combustível. Daí, então, como é que seu corpo consegue manter sua temperatura constante de 37° centígrados? Pela água! Se, em vez de água, seu corpo contivesse outro líquido — o mercúrio, por exemplo — o calor que emana de suas células tenderia a elevar sua temperatura mais de trinta vezes mais rápido do que o faz! Isto se dá porque a água exige muito mais calor para mudar sua temperatura do que a maioria das outras substâncias.
Mas, a água serve de outros modos, também, para controlar a temperatura de seu corpo. A circulação rápida, por meio da corrente sangüínea, mantém o calor relativamente distribuído por todo ele, e movimenta rápido o calor em excesso para sua pele, por irradiá-lo no ar. Por outro lado, o calor estocado na água de seu corpo leva o calorzinho desejado para as extremidades, quando sente frio.
Até mesmo com este sistema notável, seu corpo usualmente não se livra com suficiente rapidez do calor que gera. Assim, entra em função outra propriedade surpreendente da água — a evaporação. Como é que isto ajuda?
Bem, quando cerca de meio litro de água evapora, embebe cerca de 1.100 vezes mais calor do que quando sua temperatura se eleva apenas cerca de meio grau! Sente este efeito refrescante quando uma brisa seca a umidade de sua pele. Visto que cerca de um litro de água do corpo normalmente se evapora cada dia, sem se aperceber, através de sua pele e dos pulmões, por meio de seu fôlego, muito calor em excesso é regularmente liberado dessa forma.
Mas, num dia quente, ou à medida que sua atividade se acelera além dos níveis normais, suas glândulas sudoríparas exsudam mais água, possivelmente alguns litros por dia. Qualquer transpiração que evapore da superfície, antes de gotejar, leva imensas quantidades de calor — por certo é um maravilhoso sistema de refrigeração!
Suas Necessidades de Água
Visto que a água desempenha tamanha parte em nossa própria existência, precisamos manter nossos corpos bem supridos. Embora uma pessoa possa sobreviver até por oitenta dias sem comer, poucos podem durar mais de cerca de dez dias sem água. Até com pequeníssima queda da quantidade normal de água, rapidamente sente sede. Até mesmo uma deficiência de 1 ou 2 por cento de água pode ser angustiante ou dolorosa. Bastam 5 por cento para causar encolhimento da pele, boca e língua secas, e começam as alucinações. Uma perda de 15 por cento em geral é mortífera.
Seu corpo perde constantemente água. Além da perda de cerca de um litro normalmente pela pele e respiração, cerca de outro litro e meio ou mais podem ser eliminados pelos rins e intestinos. A perda de água pelo suor, e até mesmo pelas lágrimas, tem de ser adicionada ao total normal de uns 2,5 ou 3 litros que precisam ser substituídos cada dia, a fim de manter o equilíbrio de fluidos de seu corpo.
Significa isso que tem de beber cerca de um litro e meio de líquido cada dia? Não, a menos que sue profusamente. Em realidade, cerca de um terço da água de que precisa vem da ingestão de alimentos “sólidos”, que são constituídos, na maioria, de água. Até mesmo o pão contém um terço de água. É interessante que as células de seu próprio corpo fabricam cerca de meio litro de água (H2O) de modo químico, ao utilizarem o oxigênio (O) para queimar o hidrogênio (H) em seu alimento, como combustível.
Assim, talvez precise beber diretamente apenas cinco ou seis copos de líquidos, tais como leite, café, sucos ou água, por dia. Mas, muito embora a água se ache entre as substâncias mais abundantes da terra, suprir suficiente água potável é um grande empreendimento. Visto que pode dissolver tantas substâncias diferentes, nem sempre é seguro beber água sem ser purificada.
Tornar Potável a Água
A água potável raramente pode ser chamada de “pura” ou “limpa” em sentido químico, porque quase sempre possui alguns gases e minerais dissolvidos nela. Tornar a água “potável” ou segura para se beber, e agradável ao paladar, não exige a remoção de todas as impurezas. Com efeito, alguns dos elementos necessários à boa saúde e bom paladar amiúde se encontram em estado natural na boa água potável.
A água fresca do subsolo, obtida de fontes e poços é amiúde — mas nem sempre — segura de se beber, por causa da filtragem e purificação ocorridas à medida que penetra em camadas de solo e rocha porosa. Até mesmo as águas frescas da superfície possuem qualidades de autopurificação. Ao se movimentar, a água corrente tende a desintegrar os resíduos que penetram nela, dissolvendo os e diluindo-os ao ponto de se tornarem inofensivos, permitindo que as partículas mais pesadas se depositem. O vento e a turbulência ajudam a aeração da água corrente, fazendo com que libere resíduos gasosos indesejáveis e absorva oxigênio.
O oxigênio dissolvido é vital para um processo de “digestão” surpreendente, de passo a passo, que ocorre tanto em águas correntes como nas paradas. O oxigênio pode diretamente oxidar ou “queimar” os resíduos, neutralizando-os, ou, mais amiúde, sustenta bactérias que desintegram os resíduos até se tornarem inofensivos.
À medida que o processo continua, diminutas formas de vida consomem as bactérias, limpando ainda mais a água. A luz solar penetra mais facilmente, promovendo o crescimento das algas verdes que, por sua vez, consomem certos compostos contaminantes e exalam muito oxigênio nesse processo. Pequenas criaturas aquáticas se alimentam das algas, completando o ciclo digestivo. Desta forma, as águas frescas tendem a purificar-se com o tempo.
Mas, até mesmo este sistema maravilhoso pode sofrer indigestão, como acontece quando o leitor come demais as coisas erradas. A água da chuva que escorre das terras agrícolas amiúde contém resíduos de fertilizantes químicos e de pesticidas. Nova gama de resíduos industriais se juntam a elas em nossos recursos aquosos, lotando-os de uma variedade e volume de substâncias químicas que, não raro, estão bem além da capacidade do sistema purificador da natureza. Em resultado, a autopurificação, afirma Preventive Medicine and Public Health (Medicina Preventiva e Saúde Pública) tornou-se “no máximo, uma meia-verdade e, no passado, foi com freqüência usada para justificar a aceitação de águas inseguras”. Agora, quase todas as comunidades nos países desenvolvidos tratam a água de alguma forma, antes de usá-la.
Ao fazê-lo, seus métodos amiúde seguem a orientação da natureza. Assim, a aeração é usualmente o primeiro passo dum sistema típico de tratamento. Submete-se a água à pulverização, ao cascateamento ou a bolhas de ar, de modo a absorver o máximo possível de oxigênio purificador. Daí, adicionam-se-lhe certas substâncias químicas que provocam a “floculação” das impurezas e bactérias. Este processo de coagulação acelera o depósito natural, que é completado durante a sedimentação. Daí vem a filtração, usualmente através de filtros de areia, para se remover os flocos remanescentes e a maioria das outras impurezas. Por fim, a desinfecção mata a maioria dos organismos vivos restantes, usualmente por meio do cloro.
Problemas de Tratamento da Água
Imaginaria que o processo precedente fosse suficiente para remover tudo que houvesse de perigoso da água que bebe. Mas, recentes testes feitos pela Agência de Proteção ao Meio Ambiente (sigla EPA) dos EUA indicam que pequenas doses de numerosos compostos químicos chegam às torneiras, em algumas cidades. Alguns destes compostos provocam o câncer, segundo se sabe. A ironia disto é que se diz que vários deles são compostos do próprio cloro que é acrescentado às águas para torná-las seguras!
Alguns médicos até apresentam evidência de que o cloro pode ajudar a provocar o aumento do colesterol nos vasos sanguíneos humanos que, segundo afirmado, provoca ataques cardíacos e apoplexia. Joseph N. Price, doutor em medicina, assevera em seu livro Coronaries/Cholesterol/Chlorine (Coronárias/ Colesterol/Cloro) que é “um dos maiores paradoxos da história registrada” que certa medida de saúde pública, responsável pela salvação de tantas vidas, “deva ser também insuspeitamente responsável por muitos dos distúrbios crônicos na vida posterior”.
Embora tais conclusões sejam questionadas, centenas de cidades na Europa, Rússia, Canadá e Japão preferem métodos alternativos para tratar sua água. Nice, em França, por exemplo, tem usado o ozônio, ao invés do cloro, por mais de sessenta anos; Paris, desde 1968. O ozônio é uma forma instável de oxigênio que reage com a água num frenesi químico, oxidando as impurezas rapidamente e não deixando nenhum resíduo de ozônio.
Outros advogam os grânulos ativados de carvão em lugar, ou em adição, aos convencionais filtros de areia. O carvão ativado possui ímpar “aderência” química que “absorve” as impurezas. Diz-se que apenas 450 gramas expõem mais de trezentos e setenta mil metros quadrados de superfície de carvão ativado para remover as impurezas. Agora, muitos ambientalistas dos EUA exercem crescentes pressões para impor a adoção de tais alternativas.
Água Como Remédio
Devem os cidadãos ficar sujeitos a tratamento médico em massa devido à sua água potável? Essa questão ainda inflama os oponentes da fluoração, muito embora quase a metade da população dos EUA agora beba água fluorada. Alegadamente, as crianças que bebem água tratada só apresentam a metade ou um terço do número comum de cáries dentárias.
Os oponentes, porém, citam que a maioria das pessoas não tiram proveito, visto que, admitidamente, isso só ajuda os jovens. Ademais, argumentam, visto que alguns bebem mais água do que outros, tendem a sofrer maior exposição a quaisquer perigos potenciais, que alegadamente incluem o mongolismo, o câncer e uma vida encurtada. Embora a maioria das autoridades médicas não levem em conta tais acusações, os que se opõem à fluoração afirmam que devem ser livres para decidir.
Alguns recorrem à água “mineral” para obter segurança. No entanto, estudos recentes indicam que até mesmo algumas águas engarrafadas não podem ser tidas como seguras. Certo médico, escrevendo no anual Cardiovascular Review (Panorama Cardiovascular) do Medical World News (Notícias Médicas Mundiais), sugere que se ferva sua água potável para eliminar qualquer cloro livre. Mas, até mesmo a fervura não eliminará, necessariamente, outros compostos prejudiciais.
Conceito Equilibrado
Assim, é sábio nutrirmos um conceito equilibrado da água que bebemos. É limitado o que podemos fazer para assegurar sua pureza. O ar que respiramos é bastante poluído para encurtar a vida, em algumas localidades, mas as máscaras contra-gases são impraticáveis.
Assim, ao invés de permitirmos que tais situações distorçam nossa perspectiva na vida, devemos ver nelas a prova de que os sistemas humanos falham quando não operam em harmonia com os maravilhosos sistemas naturais da terra. Ao mesmo tempo, porém, podemos ter confiança de que o Arquiteto destes sistemas naturais em breve se certificará de que operem de acordo com seu propósito, quando “arruinar os que arruínam a terra” e suas águas. — Rev. 11:18.
Daí, as águas da terra sustentarão a vida sem jamais provocarem dor, doença ou morte. Apropriadamente, a provisão de vida eterna na terra, da parte de Deus, naquele tempo, é representada como um “rio de água da vida, límpido como cristal”. “Quem tem sede, venha; quem quiser, tome de graça a água da vida.” — Rev. 21:1-5; 22:1, 17.