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Tira proveito da história religiosa?A Sentinela — 1987 | 15 de setembro
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Tira proveito da história religiosa?
“NA ESCOLA, eu definitivamente não gostava de História” admite Bárbara francamente. Mas hoje ela aprecia o conhecimento sobre a Primeira Guerra Mundial, por exemplo. Junto com a Bíblia, essa informação ajuda-a a explicar melhor por que o mundo desde 1914 não tem tido paz. (Revelação 6:4) Similarmente, a história religiosa pode ajudar-nos a entender o mundo em que vivemos.
Por que é que as nações, as comunidades e até mesmo as famílias têm sido divididas entre as fés católica e protestante, desde o século 16? “Na luta pelo ensino puro do Evangelho, então iniciado principalmente por instrutores de igreja alemães, suíços e franceses, Roma não estava disposta a ceder”, diz o historiador Friedrich Oehninger. Isto levou à formação de igrejas denominacionais.
Mas, será que o “ensino puro do Evangelho” foi realmente restabelecido? Uma olhada na história religiosa nos ajudará a descobrir o que realmente aconteceu.
O Que a Venda de Indulgências Revelava
“A Reforma começou com a luta de Lutero contra o abuso na venda de indulgências, aparentemente um assunto de significado prático apenas para a igreja”, diz o historiador Gottfried Fitzer. “Mas na realidade isto revelou que os assuntos eclesiásticos haviam ficado intimamente interligados com finanças, economia e política.” Examinemos isto mais de perto.
O Príncipe Alberto, de Brandemburgo, adquiriu vários postos influentes na igreja. Ele tinha de pagar ao Vaticano o equivalente a uns 13 milhões de cruzados, financiado por um empréstimo bancário. O papa designou o arcebispo Alberto como seu representante na Alemanha central, no ramo de indulgências, e concedeu-lhe metade dos lucros para pagar as suas dívidas.
Os pregadores de indulgência, de Alberto, foram eficientes no aliciamento de fregueses, assegurando-lhes “plena remissão de todos os pecados” e imediato livramento do purgatório. Estritamente falando, a igreja oferecia apenas remissão das penalidades da igreja, mas o povo cria que as indulgências os libertaria de todo o pecado. Martinho Lutero ficou indignado e, em 1517, publicou as suas famosas 95 teses, “por amor à verdade”, como escreveu na introdução.a
Visto que Lutero meramente procurou que o assunto fosse discutido entre eruditos, ao que ele como professor tinha o direito, as teses foram escritas em latim. Mas, elas provocaram “uma surpreendente sensação”, segundo Friedrich Oehninger. “Dentro de 14 dias as [traduções para o alemão impressas] eram conhecidas em toda a Alemanha, dentro de 4 semanas em toda a cristandade. Alguns se regozijaram de que finalmente um homem tomara uma posição contra a opressão romana; para outros, Lutero tornou-se objeto de ódio.” O efeito de suas teses surpreendeu ao próprio Lutero. O que revelavam?
O que as 95 Teses de Lutero Revelavam
Segundo a sua primeira tese, “toda a vida dos crentes devia ser uma penitência”. O pecador poderia conseguir a paz com Deus, não por meio de indulgências, mas sim através de arrependimento genuíno e conduta cristã. Uma das últimas teses dizia: “Fora, portanto, com todos esses profetas que pregam a cristãos: ‘Paz, paz’, quando não há paz.” — 92.ª.
Não a tradição mas sim o evangelho deve ser “o mais elevado” e o “real tesouro”, escreveu Lutero. (55.ª, 62.ª, 65.a) Certo. Jesus estabeleceu o padrão por ensinar à base das Escrituras inspiradas, dizendo sobre a Palavra de Deus: “A tua palavra é a verdade.” (João 17:17; Lucas 24:44) Por desviar-se desse padrão, o clero rejeitou a Bíblia qual autoridade suprema e caiu na armadilha dos ensinos humanos. Lutero o repreendeu, dizendo: “Ensinos de homens são pregados por aqueles que dizem que a alma sai voando (do purgatório) assim que o dinheiro tilinta na caixa.” — 27.ª.
Lutero alertou que “o lucro e a ganância aumentam” através de tal pregação. (28.a) A história religiosa prova que o clero negligenciou os avisos bíblicos e tornou-se vítima do amor ao dinheiro. (Hebreus 13:5) Um livro de história católico admite: “A causa básica da decadência da igreja daquele período foi a política fiscal da Cúria, que estava totalmente manchada pela simonia.”
Quando Lutero levantou a sua voz contra “a ‘santificada’ tradição da igreja” e “denunciou sem meias palavras o declínio da igreja para os domínios do dinheiro e do poder”, como se expressou certo historiador protestante, ele tocou no âmago do problema: o generalizado abandono dos primitivos ensinos cristãos.
Como Começou a Deserção da Verdadeira Fé
A 11.ª tese descreveu certa doutrina não bíblica como “joio que obviamente foi semeado enquanto os bispos dormiam”. Isto nos faz lembrar da parábola de Jesus do trigo e do joio, na qual ele profetizou o plantio de cristãos de imitação. (Mateus 13:36-43) Após a morte dos apóstolos, esses falsos cristãos, junto com instrutores apóstatas, misturaram puros ensinos bíblicos com filosofia grega e introduziram doutrinas não bíblicas, tais como a imortalidade da alma, o inferno e a Trindade.b — Atos 20:29, 30.
Por exemplo, os primitivos cristãos não usavam arte pictorial, e os chamados Pais da Igreja encaravam a veneração de uma imagem como “aberração e ofensa”. Em fins do quarto século, contudo, as igrejas já estavam repletas de imagens representativas de Jesus, de Maria, dos apóstolos, de anjos e de profetas. Segundo Epifânio de Salamina, os representados recebiam veneração imprópria quando as pessoas faziam mesura diante delas. Gradualmente, o aviso “guardai-vos dos ídolos” passou a ser ignorado. — 1 João 5:21; Atos 10:25, 26.
Os cristãos professos rejeitaram o mandamento de Jesus quando começaram a “dominar” sobre seus irmãos por organizarem uma hierarquia clerical. (Mateus 20:25-27; 23:8-11) Mais tarde, os bispos de Roma reclamaram preeminência. Ao passo que a “decadência da vida eclesiástica sob o reinado do papado secularizado continuava sem ser restringida”, a igreja fez tentativas para “reformar a si mesma mas foi incapaz de fazer isso”, comenta o historiador Oehninger.
No século 16 houve mais mudanças. “A tendência da época estava a seu favor [de Lutero]”, diz Oehninger, acrescentando que “os oponentes o atacaram, ameaçaram-no de morte como herege, mas eles apenas o induziram a fazer mais e novas investigações à base das Sagradas Escrituras, até que o inteiro sistema romano, qual mera criação humana, começou a se desmoronar diante de seus olhos”. Mas, estavam as recém-nascidas igrejas realmente livres, como afirmavam estar, de “terríveis abusos e falsas doutrinas”?
A Reforma — Nada Restaurou
O clamor por reforma no século 16 não levou a uma restauração, quer da igreja “universal”, quer dos primitivos ensinos cristãos, mas causou apenas uma divisão da apóstata cristandade em partes apóstatas que tornaram a se separar. Os bispos de hoje, incluindo os herdeiros de Lutero, ainda parecem estar ‘dormindo’, como disse a 11.ª tese.
Os protestantes rejeitaram a doutrina das indulgências, mas adotaram muitos outros falsos ensinos. “Da filosofia grega a teologia cristã aceitou também a doutrina da imortalidade da alma”, diz Evangelischer Erwachsenenkatechismus (Catecismo Protestante Para Adultos). Foi “combinada . . . com o testemunho bíblico a respeito da ressurreição do corpo”.
Por usarem doutrinas de homens e misturarem seu ministério com coisas seculares, incluindo política, os líderes da cristandade, como nos dias de Lutero, minam a autoridade da Bíblia. Por conseguinte, a sua mera “forma de devoção piedosa” revela não ter poder, e é incapaz de reverter o decrescente comparecimento aos ofícios religiosos, a indiferença dos membros de igreja, a politização das discussões da igreja e a crescente debandada de membros. — 2 Timóteo 3:5.
Assim como a informação sobre o passado do paciente pode ajudar o médico a diagnosticar a doença da pessoa, assim também a história religiosa pode ajudar-nos a entender por que a cristandade hoje continua com uma doença terminal. Não existe, então, nenhuma esperança para o cristianismo puro? Pelo contrário! A parábola de Jesus indicou que os seus seguidores comparáveis a trigo, os verdadeiros “filhos do reino”, seriam identificados na colheita no “tempo do fim”. (Mateus 13:38, 39; Daniel 12:4) Como isso se daria?
Uma Lição da Moderna História Religiosa
Em 1891, um grupo de Estudantes da Bíblia visitou a casa onde morou Lutero, em Wittenberg. “Quão vividamente isso trouxe à mente aqueles tempos tempestuosos”, relatou um desses viajantes. Entre os que entraram no “gabinete [de Lutero] e se sentaram na sua velha cadeira” estava Charles Taze Russell. O relatório continua: “Temos hoje grande motivo de regozijo de que, embora os iniciadores da grande reforma interrompessem cedo o trabalho e passassem a organizar outros sistemas de erro, não obstante, sob divina providência, a purificação do santuário continuou até ser terminada, e os vasos de ouro da verdade divina estão agora sendo colocados em ordem.” O que Lutero deixou de conseguir, este visitante ajudou a realizar.
Foi um acontecimento de dimensões históricas quando Russell — junto com outros homens e mulheres amantes da verdade — iniciou um estudo independente da Bíblia, na década de 1870. Entre 1870 e 1875, contudo, eles “meramente começaram a compreender os contornos do Plano de Deus e desaprenderam muitos erros acalentados, não tendo ainda chegado o tempo para o claro discernimento das minúcias”, como Russell mais tarde escreveu. Mas, os anos seguintes se tornaram marcos na restauração das normas do cristianismo original.
Por meio da revista Zion’s Watch Tower (Torre de Vigia de Sião), os Estudantes da Bíblia anunciaram que o nome do Altíssimo é Jeová, que a alma é mortal (1881), que a Trindade não é bíblica (1882), e que o inferno bíblico é a sepultura (1883). Assim como as doutrinas falsas introduziram-se gradativamente, agora a luz da verdade gradativamente ficava mais clara. (Provérbios 4:18, 19) Desde o início, esses cristãos entenderam a verdade básica a respeito de Jesus, que deu a sua vida como resgate, e fizeram da sua volta invisível e do Reino de Deus o ponto focal de sua atividade. — 1 Timóteo 2:6.
Para melhor organizar a “disseminação das verdades bíblicas em vários idiomas”, por meio de publicações, em 1884 os Estudantes da Bíblia instituíram legalmente nos Estados Unidos a já formada Sociedade de Tratados da Torre de Vigia de Sião. No ano anterior já haviam sido impressas publicações em sueco, e daí, em 1885, saiu a primeira publicação em alemão. Em 1892 cogitou-se a obra missionária em países estrangeiros. Hoje, os Estudantes da Bíblia — bem conhecidos como Testemunhas de Jeová — pregam “estas boas novas do Reino” em 208 países e territórios e em cerca de 200 línguas. — Mateus 24:14.
A maioria das Testemunhas eram membros das igrejas da cristandade, ou de outras religiões, e criam em doutrinas que desonram a Deus. Depois de assimilarem conhecimento exato sobre Deus e exercerem fé, arrependeram-se de seu proceder errado, deram meia-volta, e tornaram-se servos dedicados e batizados de Jeová. Fazerem “obras próprias de arrependimento” resultou numa consciência limpa e em paz com Deus. — Atos 26:20; João 17:3.
É de Proveito a História Religiosa?
Certamente que sim. Grandes porções da Bíblia contêm proveitosa história religiosa. (Romanos 15:4) Os Evangelhos mostram como Jesus ensinou a verdade a respeito de Deus e de Seus propósitos para com a terra. Os seguidores de Jesus deviam esperar pelo Reino celestial que resolverá os problemas terrestres. “Portanto, mantende-vos vigilantes, porque não sabeis nem o dia nem a hora”, disse Jesus. — Mateus 6:9, 10; 25:1-13.
A história religiosa confirma o surgimento dos preditos cristãos de imitação, que estabeleceram o seu próprio reino terrestre. A Reforma mudou a face do mundo, mas não restaurou os puros ensinos bíblicos. A história também aponta para a existência de modernos cristãos que ‘mantêm-se vigilantes’, que “não fazem parte do mundo” e que dão prioridade ao Reino de Deus. (João 17:16) Estas informações têm ajudado a muitas pessoas a identificar os verdadeiros seguidores de Jesus hoje.
Bárbara, mencionada no início do artigo, é uma dos mais de 3.000.000 de ativas Testemunhas de Jeová no mundo inteiro, que tentam alcançar pessoas honestas com o “puro ensino do Evangelho”. Um certo conhecimento a respeito da história religiosa tem sido proveitoso para esses proclamadores do Reino também.
[Nota(s) de rodapé]
a Nos tempos modernos, historiadores da Igreja Católica Romana têm afirmado que Lutero ter afixado as teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, é “uma lenda da história inventada pelas igrejas protestantes”. Incontestável, porém, é o fato de que ele escreveu uma carta respeitosa ao arcebispo Alberto naquele dia, e juntou uma cópia daquelas teses. Lutero pediu-lhe que repreendesse seus pregadores de indulgência, e que cancelasse as instruções. A carta original ainda existe nos Arquivos de Estado da Suécia, em Estocolmo.
b Veja “Um Campo Que Produz Trigo e Joio” em A Sentinela de 15 de maio de 1982, 8-12, e “Introduzirão Quietamente Seitas Destrutivas” em A Sentinela de 15 de junho de 1984, páginas 10-15.
[Quadro na página 28]
A indulgência é a remissão de punição (temporal) para os pecados . . . A remissão é eficaz aqui ou no purgatório. — Erudito católico Josef Lortz.
Mesmo hoje, os eruditos discordam quanto ao que a indulgência é e o que significa para a vida do católico. — Historiador protestante Heinrich Bornkamm.
As Indulgências — Uma Doutrina Católica Especial
O confessor impõe ao católico arrependimento uma penitência (tal como oração, jejum, caridade, ou peregrinação). O papa pode anular essas penalidades, porque, segundo a teoria católica romana, ele é senhor de todas as punições temporais (incluindo o purgatório) e concede indulgências a partir do chamado tesouro dos méritos de Cristo e dos santos. Na Idade Média, este privilégio prestou-se a sérios abusos, e foi descrito como “negócio comercial de grandes dimensões, executado à custa de normas morais e em contradição dos ensinos das Sagradas Escrituras”.
A igreja não equipara a penitência com o perdão de pecados. Contudo, mesmo nos tempos medievais, as pessoas alimentavam “a crença ingênua de que, através do pagamento o débito do [pecado] era cancelado”, e os pregadores de indulgências fomentavam tal noção. As teses de Lutero foram dirigidas contra tais “fábulas” e foram assim resumidas: “As indulgências são obra de homens e nada têm em comum com o evangelho puro.”
O papa Clemente Vl estabeleceu a doutrina em 1343, mas não a definiu claramente. Assim, Lutero podia apontar o caráter comprometedor desta. A igreja prontamente reparou isto por emitir uma definição oficial da indulgência, em 1518. Mas, a bula papal de Leão X não ofereceu nenhuma “prova bíblica para tornar o mérito de Cristo e dos santos iguais ao tesouro das indulgências”. Isto levou o católico Lutero a uma momentosa decisão. A sua rejeição do sistema não bíblico de indulgências desencadeou a Reforma, e o repúdio à sua crítica levou à grande divisão religiosa.
Em tempos modernos, graves críticas de dentro das fileiras da Igreja Católica Romana “não levaram a uma mudança no sistema, mas levaram apenas à reforma da prática”. Em 1967, o papa Paulo Vl decidiu em favor da velha teoria da indulgência. Para os católicos, a pergunta decisiva ainda é: Sigo a Palavra de Deus, ou creio em doutrinas de homens?
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Os perigos da riqueza e da pobrezaA Sentinela — 1987 | 15 de setembro
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Os perigos da riqueza e da pobreza
SERÁ que a Bíblia rebaixa a riqueza e incentiva a pobreza? Muitos pensam assim. Mas, dois provérbios relacionados ajudam a esclarecer isso.
Provérbios 10:15 diz: “As coisas valiosas dum rico são a sua vila fortificada. A ruína dos de condição humilde é a sua pobreza.” Daí o versículo 16 de Pr 10 acrescenta: “A atividade do justo resulta em vida; o produto do iníquo resulta em pecado.” Note como esses dois provérbios complementam um ao outro.
O Pr 10 versículo 15 atesta que a riqueza tem as suas vantagens e a pobreza as suas desvantagens. As riquezas podem proteger a pessoa de algumas das incertezas da vida. A pessoa pobre, porém, talvez tenha problemas adicionais por ser financeiramente incapaz de enfrentar situações inesperadas. A Bíblia é realística quanto a isto. — Eclesiastes 7:12. Contudo, o Pr 10 versículo 15 pode também ser entendido como se referindo a um perigo que envolve a riqueza ou a pobreza. Muitos ricos depositam sua completa confiança no seu dinheiro; acham que ele representa toda a proteção de que necessitam. (Provérbios 18:11) Todavia, as riquezas não os podem ajudar a granjear um bom nome junto a Deus, ou assegurar-lhes a felicidade duradoura. De fato, as riquezas podem tornar isso mais difícil. A ilustração de Jesus a respeito do homem rico que construiu celeiros maiores, mas que não era rico para com Deus, traz este ponto à tona. (Lucas 12:16-21; 18:24, 25) Por outro lado, muitos pobres erroneamente
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