Anuário das Testemunhas de Jeová
Zimbabwe (continuação)
[Seriado com base no Yearbook de 1985.]
Remoção da Barreira do Desenvolvimento em Separado
Enquanto isto estava em progresso, surgiu em cena mais alguém que contribuiria muito para estabelecer mais firmemente a obra, especialmente na região de Bulavaio. Tratava-se de Willie McGregor, que, aos 80 anos, serve como ancião numa das congregações de Bulavaio. O irmão McGregor, que foi batizado na Escócia em 1924, veio para Zimbabwe em 1929, como jovem bancário. Em 1933 fixou-se em Bulavaio. Ali mostrou-se muito útil aos irmãos durante uns anos bastante difíceis.
Tenha em mente que durante todos esses anos o governo estorvava muito as Testemunhas, em especial com respeito aos irmãos africanos. Conforme Robert Nisbet o descreve: “A oposição, tanto por parte do governo como de muitos rodesianos brancos, era, humanamente falando, esmagadora.” Os opositores faziam constante esforço para impedir que a mensagem do Reino fosse divulgada no campo nativo.
Em vista disso, é interessante saber acerca do primeiro Estudo da Sentinela organizado, inter-racial, no país. Foi dirigido por meio de dois tradutores. Mas, deixemos que Willie McGregor o relate:
“Quando o estudo já estava em andamento por cerca de meia hora, vimos de 12 a 15 policiais montados aproximar-se de nós. Isto causou certo nervosismo. Pedi aos irmãos para continuarmos nosso estudo, assim como vínhamos fazendo. Ao chegar, a polícia cercou o grupo de estudo (realizado ao ar livre sob uma árvore) a uma curta distância, mas ao alcance da voz e com as cabeças dos cavalos em direção a nós. Os policiais permaneceram até a oração de encerramento quando, a um sinal, deram volta com seus cavalos e afastaram-se.” Não houve prisões, e nenhuma interferência. Era isso uma brecha na barreira do desenvolvimento em separado? Pequena, de fato. Mas era um começo.
Batalhas Legais Para Estabelecer as Boas Novas
Não podendo impedir que a verdade ficasse bem enraizada em Zimbabwe, as autoridades deram uma nova guinada em sua oposição. Com efeito, o ano de 1936 deu início a uma década do que resultou ser a mais intensa perseguição oficial na história da obra neste país.
Naquele ano o governo sancionou a Lei Contra a Sedição e declarou 14 publicações da Sociedade como sediciosas. Em 1937, isto resultou num caso que serviu de precedente, ouvido nas cortes. Eis como Willie McGregor descreve o que aconteceu:
“Interpôs-se recurso da decisão do Magistrado de Bulavaio de que as publicações eram sediciosas, e a Alta Corte de Bulavaio decidiu que as publicações não eram sediciosas de acordo com a Lei Contra a Sedição.” Indicando quão determinado o governo daquela época estava a parar a distribuição de nossa literatura bíblica, “o governo então recorreu desta decisão à Divisão de Recursos, em Bloemfontein, África do Sul. Em março de 1938, essa corte sustentou a sentença da Alta Corte, Bulavaio, de que a literatura não era sediciosa e negou provimento à apelação com custas.”
Este caso resultou num excelente testemunho. O Bulawayo Chronicle relatou o parecer da corte na íntegra. George Phillips, do escritório da Sociedade na Cidade do Cabo, ficou ao lado do advogado da Sociedade no tribunal e ajudou-o a encontrar textos apropriados e a explicar trechos das publicações que foram declaradas sediciosas. Incidentalmente, o advogado da Sociedade era o Sr. Hugh Beadle, que mais tarde tornou-se ministro-presidente do Supremo Tribunal da Rodésia (Zimbabwe).
Intensifica-se a Oposição
Em 1939, os opositores desencadearam uma campanha mais intensificada para reprimir as atividades do então crescente, porém ainda pequeno, grupo de zelosas Testemunhas. Já havia então 477 publicadores no país, dos quais cerca de 16 eram brancos. Foi contra estes últimos que a oposição foi dirigida em especial.
Nesse mesmo ano, uma família mudou-se para Zimbabwe, mudança esta que haveria de ter profundo efeito sobre a obra do Reino durante os próximos poucos anos. Era o irmão de Jack McLuckie, Bert, a esposa deste, Carmen, e os filhos. Mesmo hoje, aos 85 anos, Bert McLuckie é conhecido por seus proferimentos ardorosos e por seu zelo incansável a favor de Jeová. Este zelo o conduziu, bem como a sua família, a muitas experiências interessantes e excitantes, conforme veremos.
Em 1940, as atividades do povo de Jeová tornaram-se objeto de muita preocupação e discussão, em especial entre os líderes religiosos. Os jornais publicaram cartas que se destinavam a desacreditar a obra de Jeová. Para neutralizar isso, o escritório da Sociedade na Cidade do Cabo imprimiu um tratado intitulado Intolerância Religiosa na Rodésia do Sul. Dirigia-se “A Todos os Rodesianos Amantes da Ordem”. Este tratado foi distribuído em cada casa, escritório e local de trabalho em Bulavaio e seu distrito.
Daí, em novembro de 1940, o governo aproveitou-se da histeria da guerra e proscreveu a importação e distribuição de toda a literatura da Sociedade. O punhado de irmãos, junto com zelosos tais como Jack e Bert McLuckie, e Willie McGregor, decidiram testar a validade desta restrição. Portanto, trabalharam com a literatura. Foi então que romperam as baterias. A polícia fez detenções! Seguiram-se processos jurídicos! No começo, a maioria destes foram arquivados no tribunal. Mas isso logo mudou.
Certo incidente interessante ocorreu quando tanto Bert como Jack McLuckie foram julgados. Jack era um dos que não gostavam de ser inocentados por falhas processuais. Preferia antes ir para a prisão. Gostará de que Bert lhe conte o que aconteceu:
“Recebi permissão de interrogar as testemunhas contra Jack. Visto haver forte semelhança familiar, perguntei às testemunhas se podiam jurar que era Jack quem falou com elas e não eu. Ao admitirem que não podiam estar seguras, o caso foi encerrado, para desgosto de Jack.”
Um bom número de irmãos foram presos naqueles dias, alguns por distribuírem literatura proscrita e alguns por causa da questão da neutralidade cristã. Entre estes estava Willie McGregor. O irmão McGregor, que nessa época era alto funcionário de banco, foi demitido do banco. Ele fala de sua prisão: “Eu era o único prisioneiro na prisão européia sujeito a trabalhos forçados. Embora outros fossem sentenciados por homicídio, roubo e violência de diferentes tipos, eles jogavam xadrez e dominó e liam livros para passar o tempo enquanto eu tinha de trabalhar pintando os canos e o madeiramento do lado de fora do prédio.”
Ventos de Mudança na Década de 40
A primeira parte desta década presenciou pouca mudança na atitude oficial para com a obra do Reino. Em 1942 (ano em que Bert McLuckie passou outros quatro meses e meio na prisão), os irmãos extraíram trechos do Anuário e imprimiram um folheto intitulado Testemunhas de Jeová: Quem São? Qual É Sua Obra? Seguiram-se mais prisões! O fato de não haver nome de editor no folheto não fez nenhuma diferença. Entre os presos estavam Willie McGregor e Gerry Arsenis, um irmão grego recém-batizado em Salisbury (atual Harare).
Aos poucos, porém, a situação começou a mudar. Evidência dum abrandamento começou a surgir. Numa carta longa ao Bulawayo Chronicle, escreveu certa senhora: “O próprio McLuckie veio à nossa casa. Ele veio bem calmamente, segurando a Bíblia na mão, e quando atendi à porta, falou cortesmente: ‘Tenho uma mensagem para a senhora, gostaria de ouvi-la?’ Respondi acaloradamente: ‘Vocês ainda não aprenderam a lição?’ A isso ele respondeu: ‘O que quer dizer? Refere-se a termos estado na prisão?’ Eu disse: ‘Sim’, e chamei meu marido para lidar com ele. O que poderia alguém fazer; ele era tão educado, segurando uma Bíblia, o dono da casa não podia dar-lhe pontapés, expulsando-o da porta, nem sequer chamar a polícia; não havia nada em seu comportamento de que pudéssemos nos queixar. Ele nos desnorteou, e seguiu adiante calmamente assim como viera.”
Durante todos os anos da Segunda Guerra Mundial, o número de publicadores continuou a aumentar, atingindo 1.090 em 1943. No ano seguinte, apesar das restrições impostas à obra, foram organizadas duas assembléias para os irmãos que falavam o idioma local e uma pequena para a congregação de língua inglesa. A assistência total de 1.101 para estas três assembléias ajuda-nos a ver que durante todo este tempo em que os irmãos brancos enfrentavam tais dificuldades, as Testemunhas africanas estavam muito ativas.
Removidas as Restrições
Em 1946, o governo decidiu remover as restrições à importação e distribuição das publicações da Sociedade. Isto causou grande regozijo entre os irmãos. Não obstante, era preciso muito treinamento no serviço de casa em casa. Nesta época, também, o campo precisava de mais liderança. Deu-se um grande passo adiante para suprir esta necessidade em 1.º de julho de 1947, quando Bert McLuckie foi designado a abrir um depósito para a Sociedade em Bulavaio, sob a direção da filial da África do Sul.
Dá-se Início ao Serviço de Pioneiro
Até agora muito pouco se disse sobre o serviço de pioneiro. Esta modalidade realmente teve início em 1947. Antes, havia apenas dois ou três pioneiros no campo, e em alguns anos não houve nenhum. Daí, em 1947 tínhamos três pioneiros, dois dos quais eram Nason Mukaronda e Robin Manyochi.
A partir daí, o serviço de pioneiro começou a crescer rapidamente. Em 1949 tivemos a média de 114 pioneiros, mas em 1950 o número saltou 156 por cento, para 292. O ano de 1949 também presenciou nosso primeiro pioneiro especial, Zachariah Noah. Portanto, as coisas estavam começando a engrenar.
[Continua na próxima edição].