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‘Nós já os amávamos antes de vocês nascerem’Despertai! — 1985 | 8 de janeiro
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‘Nós já os amávamos antes de vocês nascerem’
O direito de viver/o direito de morrer. A escolha pessoal do tratamento médico. O amor e o cuidado dos pais com seus filhos. Está a par de que tais questões ganham as manchetes. Alguns relatos jornalísticos dizem respeito às Testemunhas de Jeová, que rejeitam as transfusões de sangue por motivos religiosos. Muitas outras pessoas, porém, estão envolvidas, porque as decisões médicas influem na vida e na saúde de todos nós. Para ajudar-nos a pôr tais questões na perspectiva correta, observemos a experiência duma família que modificou grandemente seu estilo de vida, de modo a dar a seus filhos o devido cuidado. Em seguida, há o caso intensamente interessante dum casal na Itália que foi acusado de homicídio quando sua filhinha morreu devido a uma doença incurável. Estes e os dois artigos que seguem o ajudarão a avaliar algumas das questões supracitadas, em especial a questão de quem deve fazer as decisões sobre questões médicas que dizem respeito à nossa saúde e à nossa vida.
QUANDO Luigi, de 9 anos, e Antonella, de 11 anos, chegam em casa para o almoço, Fiorella, a mãe deles, saúda-os com um abraço e lhes pergunta: “Como foram as coisas hoje na escola?” A conversa então continua enquanto eles se lavam, trocam de roupa e sentam-se à mesa. Depois de Fiorella fazer uma breve oração, comem com muito apetite. O pai deles, Carlo, não volta para casa senão à noitinha, mas com freqüência o mencionam com afeto e têm muita coisa para lhe contar.
Considera esta cordial cena familiar como sendo algo duma outra era? Talvez pareça sê-lo, pois sabe que a vida familiar hodierna é usualmente bem diferente. (Observe o encaixe.) É evidente que o ambiente familiar — no qual os filhos passam a maior parte do tempo — está em degeneração.
Com a disseminação do divórcio e da separação, cresce o fenômeno dos “filhos sem paradeiro fixo”. Os filhos passam de mão em mão entre os pais como uma espécie de pacote. Outros filhos que moram com ambos os genitores tornam-se espectadores obrigatórios das brigas familiares, se não se tornarem as vítimas das surras deles. O deteriorado ambiente familiar não raro leva à toxicomania e à delinqüência juvenil.
As Nações Unidas proclamaram 1979 como o Ano Internacional da Criança. Mas “para remediar a situação é preciso algo mais do que o Ano da Criança”, escreveu Fabrizio Dentice em L’Espresso, de 28 de janeiro de 1979. “O estilo de vida atual faz com que sejamos assim, e é isso o que precisa mudar”, disse a revista.
Todavia, sabemos que mudar o estilo de vida e melhorar o ambiente doméstico dos filhos não é fácil. Foi isso, porém, o que Carlo e Fiorella fizeram há alguns anos, depois de estudarem a Bíblia com as Testemunhas de Jeová. Decidiram aplicar os princípios da Bíblia à sua família. Assim, atualmente, sua vida doméstica se destaca pelo amor, para a bênção de seus filhos.
Como Se Pode Mudar um Estilo de Vida?
Sem dúvida conhece outras famílias que poderiam beneficiar-se de uma mudança do estilo de vida e do ambiente familiar. Como isto pode ser feito? Envolve a modificação do padrão de vida. A maioria das pessoas vivem duma forma egotista, satisfazendo seus próprios caprichos e ambições. Muitos despendem suas melhores energias em fazer carreira ou na busca do prazer. Se se cansam de seu cônjuge, simplesmente o trocam.
Para que as coisas sejam diferentes em nosso caso, temos de dar prioridade em nossa vida aos valores básicos e curáveis. Isto significa dar lugar para Deus e os princípios da Bíblia Sagrada. Isto pode satisfazer nossa ânsia espiritual, como fez no caso de Carlo e Fiorella. Podemos também ficar alertas para ajudar outros, pois a Bíblia ensina: “Tens de amar o teu próximo como a ti mesmo”, e: “Há mais felicidade em dar do que há em receber.” — Mateus 22:39; Atos 20:35.
Que efeito exerce isto sobre nosso relacionamento com os filhos? Em vez de serem objetos que se interpõem no nosso caminho, são pessoas. Quer eles tenham sido ou não planejados, nós os apreciaremos quais pessoas pelas quais nós, pais, somos responsáveis. Podem provar-se uma bênção se lhes transmitirmos um legado de amor e de valores espirituais. Tais valores se tornam um elemento estabilizador em qualquer família.
Ter tal perspectiva pode até influenciar o modo como os pais encaram seus filhos antes de estes nascerem. Podemos avaliar melhor isto por examinarmos mais de perto a experiência de Carlo e Fiorella.
Antes de Eles Nascerem, e Depois Disso
“Os filhos são uma herança da parte de Jeová.” Ao afirmar isso, o Salmo 127:3 mostra que os filhos são preciosos, devendo ser grandemente apreciados. Alguém que espera herdar algo geralmente faz planos para recebê-lo e cuidar disso.
Foi o que aconteceu com Carlo e Fiorella. Antes de estudarem a Bíblia com as Testemunhas de Jeová, jamais entendiam que seguir os princípios dela podia exercer influência positiva até mesmo sobre um bebê por nascer. À guisa de exemplo, a Bíblia sublinha que devemos purificar-nos de toda impureza da carne. (2 Coríntios 7:1) Assim, as Testemunhas de Jeová não prejudicam seu corpo por fumar ou tomar tóxicos em busca de emoções. Entretanto, existe evidência de que isto é importante salvaguarda para o nascituro. Assim, quando Fiorella ficou novamente grávida, seu conhecimento bíblico lhe forneceu motivos adicionais para evitar qualquer coisa que prejudicasse a criancinha em seu útero. Por seguir uma dieta alimentar apropriada e equilibrada, ser cautelosa quanto ao uso de remédios, mostrou consideração para com seu bebê nascituro como preciosa “herança”.
Sabe, contudo, que isso é apenas o começo para qualquer genitor! Após o bebê nascer, precisará de alimento nutritivo, de roupinhas apropriadas e de cuidados médicos. Pense no que isto poderá significar para a família. Por exemplo, embora alguns pais talvez se satisfaçam amiúde com uma refeição rápida, a fim de ficarem livres para ir dançar ou ver um filme, precisam agora considerar as necessidades de seus filhos. Refeições equilibradas e saudáveis são de importância primária para crianças em fase de crescimento. Assim, ao passo que, ocasionalmente, talvez seja necessário passar com refeições menos substanciais, os pais amorosos normalmente ajustam suas atividades de modo que seus filhos possam ter uma dieta alimentar correta e equilibrada. As Testemunhas de Jeová se empenham neste sentido.
Não obstante, como bem pode avaliar, cuidar de nossos filhos envolve mais do que fatores materiais. Os filhos precisam do amor, do tempo e da amizade dos pais. Suas necessidades emocionais precisam ser satisfeitas por nosso ‘acalentar’. — 1 Tessalonicenses 2:7.
Carlo e Fiorella aprenderam que Jesus disse: “O homem tem de viver, não somente de pão.” (Mateus 4:4) Pais cristãos amorosos que reconhecem esta verdade suprem adestramento espiritual a seus filhos. Fiorella e Carlo tinham observado isto em ação quando começaram a freqüentar as reuniões cristãs das Testemunhas de Jeová. Estas não eram reuniões sem vida, apenas de pessoas mais velhas, mas havia muitas crianças presentes, crianças que, por sua felicidade descontraída, refletiam o equilibrado amor e cuidado parentais que os pais que são Testemunhas lhes provêem.
Talvez não soubesse que as Testemunhas atribuem tanta importância assim à vida familiar. Realmente atribuem. Muitas de suas publicações tratam dos deveres dos pais cristãos. Não raro, suas reuniões sublinham que os verdadeiros cristãos refletem os atributos de Jeová Deus, “o Pai de ternas misericórdias e o Deus de todo consolo”. Assim, insta-se com todos os presentes para que cuidem bem de seus filhos. — 2 Coríntios 1:3.
Algumas pessoas de fora observaram as excelentes qualidades demonstradas pelos pais que são Testemunhas. Comentou certo jornal italiano: “Verificamos que dispõem de estrito senso moral e de rigoroso apego a este, o que tende a salvaguardar os verdadeiros valores, tais como os da vida familiar. A respeito do modo de os cônjuges se tratarem, bem como a seus filhos, as Testemunhas de Jeová não toleram o recurso irresponsável à separação e ao divórcio.” — La Nazione, 31 de julho de 1979.
Cuidados Amorosos, Cuidados Médicos
Todavia, há alguns que afirmam: “Se as Testemunhas de Jeová desejam ser bons pais, por que se recusam a permitir que seus filhos recebam transfusões de sangue? Isso não é homicídio?” Já ouviu tais comentários ou até mesmo isto lhe passou pela mente?
Tais comentários relacionam-se com uma questão que envolve outros, além das Testemunhas de Jeová, e isto tem aparecido em manchetes dos jornais. Trata-se do seguinte: Conforme observado, espera-se que pais amorosos cuidem do bem-estar de seus filhos, o que, obviamente, inclui dar-lhes atendimento médico. Mas, qual é a voz ativa dos pais nas decisões de saúde relacionadas com seus filhos?
Esta é uma questão que envolve todos os pais, e não apenas as Testemunhas de Jeová. Mas, tendo presente as Testemunhas, pense ademais nos pais devotados, tais como Carlo e Fiorella, que amam seus filhos de tal modo que estão dispostos a morrer por eles. (João 15:13) Os jornais noticiam que tais pais se recusam a permitir que sejam ministradas a seus filhos transfusões de sangue, prescritas por médicos. Por quê? Evidentemente não é por insensibilidade, pois trata-se de pais amorosos.
Em diversos casos, recorreram-se aos tribunais para resolver tais situações — situações estas que envolvem os direitos dos pais. Isto talvez tenha que ver com o modo como cuida de seus filhos — filhos que deve ter amado antes mesmo de eles nascerem. Tendo presente estes pontos, achará ser de grande interesse o artigo que segue.
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São tais pais amorosos ou insensíveis?Despertai! — 1985 | 8 de janeiro
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São tais pais amorosos ou insensíveis?
AO PASSO que a questão dos direitos parentais, no que tange aos cuidados médicos, tem surgido em vários países, há um caso específico que merece sua atenção. É o de Giuseppe e Consiglia Oneda, um casal do pequeno povoado de Sarroch, perto de Cagliari, que é uma das principais cidades da ilha italiana da Sardenha.
É bem possível que esteja um tanto a par da triste experiência deles, pois foi noticiada em todo o mundo. Esta revistaa e os veículos noticiosos em vários países lhe deram extensiva cobertura.
Doença Fatal
Isabella, filhinha do casal Oneda, sofria da temível doença chamada talassemia “major”, ou maior, falha genética herdada, do sangue, da qual não existe cura conhecida. Trata-se duma doença fatal. Em alguns casos, pode-se adiar a morte por vários anos mediante transfusões de sangue, porém as autoridades médicas admitem que estas não resultam em cura. A obra Principles of Internal Medicine (Princípios de Medicina Interna; ed. 1980), de Harrison, observa: “Os pacientes com a talassemia maior [Beta] tem curta expectativa de vida. É incomum que um paciente com a forma mais grave dessa doença sobreviva até a vida adulta.” Nos casos graves, tais como o de Isabella, a morte amiúde ocorre nos dois ou três primeiros anos. Que faria se sua filhinha fosse afligida por esse mal, assim como o era Isabella?
Embora Giuseppe e Consiglia soubessem ser inevitável a morte de Isabella, levavam-na com regularidade a uma clínica em Cagliari. Ali, ela recebia transfusões de sangue periódicas, que podiam dar-lhe alívio temporário, mas que também apresentavam problemas. Por quê? Porque as transfusões provocam sobrecarga de ferro. A obra Clinical Hematology (Hematologia Clínica; 1981), de Wintrobe, afirma que ‘a maioria dos pacientes com talassemia maior’ que são regularmente transfundidos ‘morrem devido à sobrecarga de ferro (hemossiderose)’. Este compêndio médico admite que “muitos dos esquemas terapêuticos descritos são impráticos para uma aplicação em larga escala. O custo atual do [mais eficaz] para um único paciente é de aproximadamente US$ 5.000 [uns Cr$ 12.500.000] por ano”.
Há médicos que pintam um quadro róseo sobre a possibilidade de se estender a vida normal para crianças portadoras de talassemia. Isto não é surpreendente, pois quem é que aprecia admitir que o problema não tem jeito, especialmente um médico a quem os doentes procuram em busca de esperança. Todavia, todos sabemos que algumas doenças são incuráveis. A anemia do Mediterrâneo (talassemia “major”) tem de ser colocada entre estas. Assim, talvez haja opiniões conflitantes quanto a qual é a melhor terapia e até quanto aos resultados de diferentes tratamentos; todavia, ninguém apresenta verdadeira cura.
Nem pode a ciência médica garantir que uma criança tão gravemente afligida como estava a pequena Isabella sobreviverá muitos anos, mesmo recebendo a terapia transfusional. As estatísticas da talassemia “major” revelam a dura realidade, não se pode negar as estatísticas. Minerva Medica (72, 1981, páginas 662-70) apresentou dados compilados pelo ISTAT (Instituto Central Italiano de Estatísticas) mostrando que, dentre 147 crianças que morreram dessa doença, em 1976, 23,8 por cento morreram nos seus primeiros quatro anos de vida.
Por que Chamar Pais Amorosos de “Assassinos“?
No artigo anterior, observamos que um casal italiano granjeou uma vida familiar mais feliz por estudar a Bíblia com as Testemunhas de Jeová. Giuseppe e Consiglia Oneda tiveram similar experiência, tornada ainda mais significativa por saberem da garantia dada por Jesus, de que a pessoa que tenha a aprovação de Deus, “ainda que morra, viverá outra vez”. (João 11:25) Sim, os médicos não podiam garantir que Isabella teria razoável saúde e vida, mas o Filho de Deus podia.
Quando, no verão setentrional de 1979, o casal Oneda decidiu tornar-se Testemunhas de Jeová, avisaram os médicos, na Segunda Clínica Pediátrica de Cagliari, de que não mais permitiriam que Isabella recebesse transfusões de sangue. Tinham aprendido nas Escrituras que Deus ordenou aos apóstolos e a todos os cristãos leais que ‘se abstivessem de sangue’. (Atos 15:28, 29; compare com Gênesis 9:3, 4) Por conseguinte, tais médicos solicitaram a intervenção do Tribunal de Menores. O tribunal ordenou que os pais deviam permitir que sua filha recebesse transfusões, e concedeu aos médicos envolvidos no caso a responsabilidade de tomarem a iniciativa de ministrar a ela transfusões de sangue regulares.
Durante esse período, ao passo que o casal Oneda consultava outros médicos em busca de tratamentos alternativos, a filha deles foi removida à força da presença deles e lhe deram sangue. Ainda assim, a doença seguiu seu destrutivo curso; as condições dos órgãos vitais de Isabella se agravaram progressivamente. Em março de 1980, os médicos não mais seguiam a terapia transfusional; por alguns meses, não exigiram que se trouxesse Isabella para receber transfusões. Por que deixaram de cumprir sua obrigação imposta pelo tribunal? Trata-se dum mistério que as autoridades, até o dia de hoje, ainda não tentaram solucionar.
Nos meses subseqüentes, o casal Oneda fez tudo que pôde a favor de sua querida filhinha, procurando remédios que pudessem ser-lhe ministrados em casa, e, apesar de suas finanças limitadas, deram-lhe os melhores alimentos que puderam encontrar. Jamais perdendo a esperança, chegaram até mesmo a escrever a especialistas na Alemanha, na França e na Suíça.
No fim de junho de 80, o quadro clínico de Isabella se agravou de repente, possivelmente devido a uma infecção brônquica que pode ser fatal no caso de crianças com talassemia “major”. Neste ponto, já tarde demais, a polícia novamente veio e levou Isabella à clínica, onde ela morreu ao lhe ser forçada uma transfusão de sangue.
Pode imaginar a tristeza e o senso de perda que o casal Oneda sentiu nesse dia 2 de julho, mesmo já sabendo que sua filhinha de 2 anos e meio estava mortalmente doente? Mas, a tristeza deles deveria receber ainda outro golpe. Por volta das 5 horas de 5 de julho de 1980, enquanto o casal Oneda se achava na casa dum amigo, dois carabineri os prenderam. Só tiveram tempo de deixar sua outra filhinha, Ester, de 3 meses, com amigos.
Foram conduzidos à cadeia local de Cagliari, chamada de Vereda Reta (que ironia!), uma das mais vis da Itália. Foram metidos em celas em diferentes partes da cadeia.
Como Poderiam Ser Acusados de Assassínio?
Por 20 meses, este humilde casal ficou trancafiado. Por fim, realizou-se seu julgamento, e, em 10 de março de 1982, o Tribunal Assizes de Cagliari declarou seu chocante veredicto: Decidiu que Giuseppe e Consiglia Oneda eram culpados de homicídio deliberado. Qual a sentença? Quatorze anos de prisão, mais do que é dado a muitos terroristas!
Pode compreender a razão de tal veredicto ter causado uma comoção por toda a Itália, e ser criticado por muitos juristas. Apresentou-se um recurso, mas em 13 de dezembro de 1982, o Tribunal de recursos de Assizes, de Cagliari, confirmou o anterior veredicto. Tudo que fez foi reduzir a sentença para nove anos, afirmando que o casal Oneda beneficiava-se de circunstâncias atenuantes uma vez que ‘agiram por motivos de particular valor moral’.
A única chance que restava diante dos tribunais da justiça humana era recorrer ao Supremo Tribunal de Cassação. Em 8 de julho de 1983, Giuseppe Oneda foi liberto da prisão, sob livramento condicional, porque os três anos em que estivera preso tinham minado perigosamente sua saúde. Mas Consiglia continuava presa.
O Supremo Tribunal de Cassação
Este tribunal em Roma é o órgão supremo da justiça italiana. Julga questões da aplicação e da interpretação corretas da Lei, reexaminando sentenças dadas por tribunais de menor instância, quando se apresentam recursos. Se determinar que a lei não foi observada ou foi mal-aplicada, o Supremo Tribunal tem o poder de anular o anterior veredicto e ordenar que outro tribunal reexamine o processo. Julgou o caso Oneda em 13 de dezembro de 1983.
O Supremo Tribunal não anula com freqüência um veredicto que examina, e os dois veredictos anteriores, adversos, teriam considerável peso. Assim, existia qualquer esperança de que os Onedas seriam vistos com justiça como os pais amorosos e cuidadosos que são?
Dramática Inversão dos Eventos!
Vamos descrever-lhe o que se passou naquele dia no tribunal:
Depois da leitura dos autos, apresentando os pontos destacados do caso, feita por um dos cinco ministros, que atuava como relator, iniciou-se o libelo acusatório.
O promotor que fazia a acusação é especialmente temido pelos advogados de defesa porque é muito difícil anular seus pedidos. E, neste caso, o promotor era um jurista perito que já havia atuado em vários casos famosos. Que teria a dizer?
Surpreendentemente, perguntou: “Será que a mãe ou o pai mostraram que desejavam a morte de sua filhinha em qualquer ocasião, de acordo com os fatos elucidados no processo? Será que o tribunal de Cagliari obteve cabal resposta para esta pergunta?” Ele acrescentou: “O Tribunal de Menores deixou a criança com seu pai e sua mãe por julgar que eram pais amorosos e que o ambiente familiar era o melhor para ela.” Daí, observou que ‘os juízes, os peritos e os sociólogos envolvidos estavam em melhor situação de julgar se os pais mereciam a custódia de sua filha’.
Que dizer da afirmação de que o casal Oneda causou dolosamente a morte de sua filha? O promotor prosseguiu: “Não existe evidência de comportamento ou de outros elementos comprobatórios suficientemente fortes para nos permitir falar tranqüilamente de dolo premeditado. . . . Por esta razão, portanto, mantemos que os juízes [de Cagliari] não deram resposta satisfatória para tais perguntas.”
O promotor apresentou então esta surpreendente solicitação: “Por conseguinte, recomendo ao Tribunal que anule o veredicto sobre a questão de dolo premeditado.”
Nenhuma evidência que provasse haver dolo premeditado! Isso significava que os Onedas não eram assassinos deliberados! Ademais, o promotor solicitava a anulação do anterior julgamento!
Em seguida, o Tribunal ouviu os advogados de defesa, causídicos conhecidos por todo o país. Apontaram as incoerências processuais do anterior julgamento e a absurdez das decisões que tinham sido feitas.
Daí, o Tribunal teve um recesso. Por fim, o ministro-presidente leu a decisão do Tribunal: O veredicto anterior fora anulado e o processo retornaria ao Tribunal de Recursos de Assizes, em Roma, para ser julgado de novo.
Ao declarar os motivos de sua decisão, o Supremo Tribunal, entre outras coisas, expôs as graves falhas de clínica pediátrica e de outras instituições do serviço público; ‘sem dúvida . . . as instituições do serviço público revelaram graves falhas; depois de suas medidas iniciais . . . demonstraram total falta de interesse, apesar da solicitação explícita para que houvesse alguma medida para equacionar de forma definitiva e permanente o problema das crenças ideológicas dos acusados’. Esta foi a decisão do Supremo Tribunal de Cassação, página 30.
Finalmente Reunidos!
Consiglia Oneda já foi solta, por ter-se expirado o termo de prisão preventiva. Após três anos e meio de dificuldades, a família Oneda finalmente está reunida. Giuseppe e Consiglia tiveram a alegria de estar juntos e de poder dar amorosa atenção à sua pequenina Ester. Deixemos que nos contem, em primeira mão, as suas experiências:
Giuseppe: “Casamo-nos em 1976, e, um ano depois, nasceu Isabella. Aguardávamos o nascimento dela, porém, logo compreendemos que havia algo errado. Ela era muito pálida e doentia. Quando tinha 6 meses, os médicos diagnosticaram a terrível doença que provocaria a sua morte. Podem imaginar quão tristes ficamos de ouvir falar nesse diagnóstico fatal.”
Consiglia: “Naturalmente, ficamos ainda mais apegados ao nosso bebê. Acho que qualquer genitor reagiria do mesmo modo para com um filho sofredor e indefeso, atacado por uma doença mortífera. Imediatamente colocamos Isabella sob tratamento na clínica pediátrica, onde foram-lhe ministradas transfusões de sangue. Todavia, ela continuou a piorar. Lembro-me de que, depois de um ano de terapia transfusional, ela ficou com a barriga incomumente inchada; seu fígado e seu baço tinham aumentado de volume. Como ela sofria quando lhe davam transfusões! Certa feita, os médicos demoraram uma hora para encontrar uma veia; durante todo esse tempo minha menininha berrava de dor.”
Giuseppe: “Nesse triste período, derivamos verdadeiro conforto de nosso estudo da Bíblia. Ficamos especialmente impressionados com a promessa contida em Revelação 21:4, de que Deus, em breve, enxugará as lágrimas dos olhos dos que sofrem, e de que a morte não mais existirá.”
Consiglia: “Para nós isso significava que, através duma ressurreição, poderíamos ver Isabella saudável, mesmo que ela morresse, o que infelizmente parecia inevitável. Daí, quando aprendemos na Bíblia a respeito da ordem de Deus de ‘abster-se de sangue’ [Atos 15:20; 21:25], fizemos nossa decisão . . .”
Giuseppe: “. . . de nos apegar aos princípios bíblicos. Para nós, este era o único meio de podermos esperar ter Isabella de novo com saúde, no dia em que Deus a ressuscitar de entre os mortos. Podíamos ver que as transfusões não acabavam com a doença, e sabíamos que muitas crianças na Sardenha morrem com tenra idade devido a esta mesma doença, apesar de receberem transfusões. Ouvíramos também dizer que muitos pais, depois de meses de serem dadas transfusões a seus filhos, sem qualquer melhora, tinham preferido cuidar de seus filhos em casa, por meios muito menos dolorosos e atemorizantes.”
Consiglia: “Como poderíamos recusar a única perspectiva de ter de novo Isabella saudável, perspectiva esta baseada na promessa de Deus? Do que tínhamos lido a respeito dos resultados deste tratamento, compreendíamos que as transfusões de sangue não eram algo bom. Ficamos sabendo que, com freqüência, provocam danos fatais aos órgãos vitais.”
Giuseppe: “Informamos aos médicos sobre nossa decisão, e isso foi o início desta história bem-conhecida.”
Consiglia: “Isabella era muito sensível, carinhosa e inteligente.”
Giuseppe: “Ela tinha pouco mais de 2 anos, mesmo assim, já sabia muitas coisas da publicação Meu Livro de Histórias Bíblicas. Sabia o nome de Deus, Jeová. Podia reconhecer as gravuras e nos falar delas nas histórias sobre os personagens bíblicos.”
Consiglia: “É algo terrível para uma mãe ficar sabendo que não pôde fornecer à sua filha um corpo suficientemente saudável para esta continuar viva. Minha filha, Ester, faz-me lembrar muito Isabella. Desejo agora dar a esta criança saudável o amor que gostaria de ter continuado a dar a Isabella. Sinto-me feliz de poder estar de novo junto com minha família e os irmãos cristãos que nos querem tanto bem. Ainda assim, jamais esquecerei aqueles três anos e meio passados na cadeia, inclusive o dia em que minha companheira de cela tentou suicidar-se por simples desespero. Embora conseguisse salvá-la, foi uma experiência terrível. Todavia, ajudou-me a confiar ainda mais em Jeová Deus.”
Giuseppe: “Meus companheiros de cela fizeram tudo que puderam para que eu violasse minha integridade cristã — violência, práticas homossexuais e outras corrupções. Meu maior receio era violar minha integridade e perder a possibilidade de viver no novo sistema de coisas feliz de Deus. Às vezes, ficava desesperado como na ocasião em que o tribunal confirmou a sentença; outras vezes desejava jamais ter nascido. Apesar de tudo, Jeová me confortava em minhas orações fervorosas. Sou grato, também, por Ele ter colocado o livro de Jó na Bíblia, porque acho haver similaridades entre a experiência de Jó e a minha. Por certo, Deus respondeu a Jó dando-lhe a força para suportar a prova, e encontrar a ‘saída’.” — 1 Coríntios 10:13.
“Mesmo nos momentos mais tristes do pesadelo carcerário, Jeová era meu ponto constante de referência. [1 João 1:5] Fui também grandemente incentivado pelos meus companheiros cristãos, que me enviaram incontáveis cartas, de vários países. Seu amoroso interesse era uma confirmação de que Deus não nos abandona. Textos tais como Romanos 1:12 e Marcos 13:13 ajudaram-me a suportar as coisas. Saí da prisão ‘derrubado’, como diz o apóstolo Paulo, ‘mas não destruído’.” — 2 Coríntios 4:9.
Consiglia: “Não sei se eu e Giuseppe seremos totalmente inocentados quando o processo finalmente chegar ao fim. Todavia, sentimo-nos gratos aos que nos ajudaram, e que ainda trabalham, para sermos exonerados dessa falsa acusação de que matamos nossa filhinha. Essa é a coisa mais terrível de que um genitor poderia ser acusado.”
Giuseppe: “Sentimo-nos felizes de que conseguimos passar por tudo isso sem vir a odiar a ninguém pelo que aconteceu. O amor a Deus e ao próximo certamente nos ajuda a contar nossas muitas bênçãos. Temos nossa família, nossos irmãos espirituais, nossa fé e nossa esperança.”
É provável que concorde que tais pais humildes de Sarroch foram injustamente acusados e se condoa do sofrimento que enfrentaram. Talvez fique imaginando, porém, sobre alguns aspectos deste assunto do envolvimento parental nos cuidados de saúde dos filhos. Sim, trata-se duma questão que talvez diga respeito a qualquer um de nós ou a nossos parentes e amigos.
[Nota(s) de rodapé]
a Despertai! de 22 de janeiro de 1983, e a edição em italiano de 22 de maio de 1983.
[Foto na página 9]
Consiglia Oneda saindo da prisão, e reunindo-se com sua filha, Ester.
[Quadro na página 10]
Baby Jane Doe — O Que Farão os Pais?
Pais amorosos às vezes enfrentam decisões espinhosas. Suponhamos que fossem os pais de Baby Jane Doe, por exemplo, o que fariam? O jornal The New York Times (1.º de novembro de 1983) veiculou:
“Há três semanas, um casal de Long Island teve uma menina, e ela não era saudável. Baby Jane Doe sofria de espinha bífida, crânio anormalmente pequeno, hidrocefalia ou fluido excessivo no cérebro, e outras deformações. Mesmo que fosse operada, ela continuaria gravemente retardada e acamada pelo resto da vida — no seu caso, por cerca de 20 anos. Depois de consultarem seus médicos, assistentes sociais e clérigos, os pais de Baby Jane fizeram sua dolorosa escolha: não fazer a operação e deixar que a natureza seguisse seu curso normal.”
Algumas pessoas estranhas discordaram, levando o assunto aos tribunais. Mas, quando chegou ao Supremo Tribunal dos EUA, o Tribunal recusou-se a dar provimento ao recurso. Baby Jane Doe ilustra os problemas agonizantes que são enfrentados mesmo por pais amorosos.
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Será que recusar um tratamento médico significa rejeitar a vida?Despertai! — 1985 | 8 de janeiro
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Será que recusar um tratamento médico significa rejeitar a vida?
PERGUNTE a si mesmo: “Tenho eu o direito de decidir que tratamento médico, se é que algum, devo aceitar?” Trata-se duma questão importante a considerar, porque há alguns que afirmam que se alguém recusar uma terapia recomendada pelos médicos, está demonstrando falta de apreço pela vida. Ademais, pode-se perguntar se será amoroso que os genitores — que pesaram os riscos envolvidos — rejeitem certo tratamento recomendado para um filho doente.
Alguns que são dogmáticos neste assunto amiúde reduzem a questão à asserção: “Rejeitar a terapia significa negar a vida para um filho.” Mas pode logo concluir que se trata de uma simplificação excessiva dos assuntos, de uma visão superficial dos mesmos. Apela para a emoção, ao passo que despercebe (1) a consciência e a ética fundamental, (2) seus direitos pessoais e familiares, e (3) aspectos médicos e legais de uma questão que, atualmente, detém a atenção mundial.
A consciência é parte íntima e inviolável de sua pessoa, e de todo humano são e dotado de moral. O bem-conhecido cardeal católico John Henry Newman sustentava ‘que a vereda da luz se encontra através da obediência à consciência’. Assim, quando os criminosos de guerra nazistas afirmaram que só estavam obedecendo ordens, pessoas dotadas de moral, em toda a terra, responderam que, apesar das ordens, tais pessoas deveriam ter seguido sua consciência. Similarmente, em janeiro de 1982, o papa João Paulo II ‘ergueu a voz para Deus para que as consciências não fossem sufocadas’. Disse que forçar alguém a violar sua consciência “é o golpe mais doloroso infligido à dignidade humana. Em certo sentido, é pior do que infligir a morte física, que matar”.
As observações dele talvez se harmonizem com seus próprios sentimentos de que a consciência deve desempenhar papel vital nas decisões médicas.
A Consciência e as Questões Médicas
Eis um exemplo: Seja qual for sua fé, é provável que saiba que a doutrina católica condena que uma mulher procure fazer um aborto, mesmo quando a gravidez apresenta riscos para a mãe ou a criança. Imagine só que problema isto representa para um médico católico-romano num país em que o aborto acha-se legalizado, como acontece na Itália, desde a Lei N.º 194, de 22 de maio de 1978. Esta lei permite que médicos demonstrem objeção de consciência ao aborto. Entretanto, o Artigo 9 especifica que o médico “não pode invocar a objeção de consciência” quando a vida duma mulher talvez corra perigo. Que deve fazer, então, um médico sincero que é católico praticante?
Se não houvesse outro médico por perto e ele tivesse feito todo o possível, apenas não violando sua consciência, será que o acusaríamos de assassínio? Pelo contrário, ‘seria pior do que matar’ obrigar tal médico a violar sua consciência, mesmo se tal mulher ou as autoridades insistissem. Isto ilustra como as exigências da consciência podem influir em decisões médicas a respeito da saúde e da vida.
Pais, Filhos e Vida
Podemos deduzir claramente isto, também, do que fizeram os cristãos primitivos. É provável que saiba que recusaram-se a queimar incenso diante da estátua do imperador, considerando isto como ato de idolatria. Mas, seu conceito religioso e consciencioso teve diretamente que ver com sua saúde e sua vida, bem como a de seus filhos. Por quê? Quando obrigados a escolher — ou ‘oferecem incenso ao imperador ou a sua família morre numa arena romana!’ — os cristãos não negavam suas convicções. Eram leais à sua fé, mesmo quando tal proceder era arriscado ou fatal para eles e seus filhos.
Os cristãos também foram provados quanto ao sangue, uma vez que a ordem da Bíblia para eles era de ‘absterem-se de sangue’. (Atos 15:20) Tertuliano, teólogo latino do terceiro século, relata que, como suposta forma de cura, os epilépticos bebiam sangue fresco de gladiadores mortos. Tomariam sangue os cristãos por tais razões “médicas”? Jamais. Tertuliano acrescentou que ‘os cristãos nem sequer comem sangue de animais’. Efetivamente, quando as autoridades romanas desejavam comprovar se alguém era realmente cristão, pressionavam-no a comer chouriço com sangue, sabendo que o cristão genuíno não o comeria, mesmo que ameaçado de morte. Vale a pena observar isto, uma vez que as cristãs Testemunhas de Jeová atualmente também se recusam a ingerir sangue.
Perguntaríamos, então: Tinham tais cristãos primitivos pouco respeito pela vida, ou desejavam tornar-se mártires? Não, eram as autoridades romanas que impunham a eles, bem como a seus filhos, a morte. E não respeitamos nós a memória daqueles cristãos devotados que sabiam que, como disse recentemente o papa, violar sua consciência teria sido pior do que a morte?
Se alguém julga que se trata dum campo diferente do campo das decisões médicas, observe o que escreveu o Dr. D. N. Goldstein:
“Os médicos que assumem esta posição [de impor um tratamento médico a pessoas que o recusam] negaram os sacrifícios de todos os mártires que glorificaram a história com sua suprema devoção aos princípios, mesmo ao custo de sua própria vida. Pois os pacientes que preferem a morte certa a violar um escrúpulo religioso são da mesma massa que os que pagaram com sua vida . . . em vez de aceitar o batismo [forçado]. . . . Nenhum médico deve procurar obter assistência legal para salvar um corpo por destruir uma alma. A vida do paciente pertence a ele mesmo.” — The Wisconsin Medical Journal (Revista Médica de Wisconsin, EUA).
Escolher a Verdadeira Vida
A maioria de nós concordaria que a “vida” significa mais do que uma simples existência biológica. A vida é uma existência centrada em ideais ou valores (políticos, religiosos, científicos, artísticos, etc.); sem tais, a existência pode ser inútil. Assim, na Segunda Guerra Mundial, homens e mulheres patriotas arriscaram a vida para defender ideais políticos, valores tais como a democracia e a liberdade de palavra, de adoração e de consciência. Como resultado desta defesa dos ideais, muitas crianças morreram. Incontáveis outras ficaram órfãs.
Evidência disto é o caso dramático do estadista italiano Aldo Moro. Foi barbaramente assassinado em 1978, quando as autoridades se recusaram a ceder às exigências de terroristas. É claro, então, que há vezes em que vidas são sacrificadas em nome de interesses mais elevados.
Pode assim avaliar que uma pessoa de moral poderia decidir arriscar sua existência biológica em vez de transigir no que tange a seus ideais. Ao fazê-lo, escolhe a verdadeira vida, a vida em seu sentido mais pleno. Isto certamente se aplica aos ideais cristãos.
Os cristãos encaram a vida humana como sagrada, como preciosa dádiva de Deus. Considere o apóstolo Paulo, que era uma pessoa inteligente e culta. Sofreu espancamentos e passou por situações que lhe ameaçaram a vida, mas disse: “Tenho aceito a perda de todas as coisas e as considero como uma porção de refugo, para que possa ganhar a Cristo . . . para ver se de algum modo consigo alcançar a ressurreição a ocorrer mais cedo dentre os mortos.” — Filipenses 3:8-11.
Podemos estar seguros de que Paulo jamais teria partilhado de algo que sabia que Deus condenava. Inquestionavelmente, Paulo não se teria arriscado a perder “a verdadeira vida”, que para ele seria a vida no céu, a troco de estender a sua vida humana ou a sua saúde por alguns poucos anos. (1 Timóteo 6:19) Mas, considere só:
Há milhões de freqüentadores de igrejas hoje em dia que aguardam a vida no céu; talvez seja um deles. Assim, se uma pessoa gravemente enferma, com esperança de vida eterna futura, recusasse uma terapia que achava que Deus proibia, certamente seria injusto acusá-la de rejeitar a vida. Antes, tal pessoa já vive na terra por muitos anos, e talvez se recupere e viva outros mais. Mas, em qualquer caso, e mesmo que seus médicos sejam descrentes, seria razoável considerar sua futura vida eterna, e fazer decisões relativas à saúde de acordo com isso.
Os médicos raramente discutem este aspecto dos assuntos, ao recomendarem alguma terapia para o leitor ou seus entes queridos. Mas, há um aspecto vital a respeito do qual devem informá-lo. Poderia ser chamado de riscos/benefícios. Deve a si mesmo e à sua família considerar este aspecto, pois talvez o ajude a tomar uma decisão sábia e a entender a sabedoria do que outros têm feito.
[Quadro na página 13]
Cuidados Médicos Para os Filhos — Conceito dum Jesuíta
John J. Paris, S.J., Professor-adjunto da Faculdade Santa Cruz (EUA), falou a uma conferência sobre Aspectos Jurídicos e Éticos dos Cuidados Médicos com os Filhos. (1.º de abril de 1982) Falou a respeito dum juiz judeu que ordenou que fosse dada uma transfusão de sangue a uma Testemunha de Jeová. Disse o professor Paris: “O juiz obedeceu à religião dele e fez o que julgava certo, mas, ao assim fazer, violou a religião do paciente.”
Acrescentou ele: “A teologia cristã não apóia que a simples respiração seja vida. No hospital ninguém morre: as pessoas sofrem uma parada. . . . [No hospital] a vida não é sagrada, é decisiva, e a morte é um fracasso. Mas, na tradição judaico-cristã, a morte faz parte da condição humana, parte da jornada da vida. Não se pode evitar o fato de que são decisões que medem a qualidade da vida. Às vezes, o melhor tratamento é não dar nenhum tratamento.”
[Quadro na página 14]
A Eternidade Muda a Análise
A dra. Ruth Macklin é uma filósofa da Faculdade de Medicina Albert Einstein (Nova Iorque, EUA). Numa palestra sobre ética, um estudante de medicina mencionou um paciente que era Testemunha [de Jeová] e que era “vítima de anemia falciforme [e] que corria o risco de sangrar até morrer se não tomasse uma transfusão”. O estudante disse: “Ele agia com lógica. Seus processos mentais estavam intatos. Que fazer quando as crenças religiosas são contrárias a única fonte de tratamento?”
Em resposta, a dra. Macklin disse: “Talvez creiamos de modo muito forte que tal homem está cometendo um erro. As Testemunhas de Jeová, porém, crêem que receber transfusão é ‘comer sangue’, e que ingerir sangue [talvez] resulte em condenação eterna. Nosso treinamento é para analisar os riscos/benefícios na medicina, mas se pesar a condenação eterna em contraste com a vida restante na terra, a análise assume diferente figura.” — Jornal The New York Times, 23 de janeiro de 1984.
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Seu direito de pesar os riscos e os benefíciosDespertai! — 1985 | 8 de janeiro
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Seu direito de pesar os riscos e os benefícios
SEU corpo lhe pertence. Sua vida lhe pertence. Estas declarações parecem óbvias, mas indicam um direito básico que tem que ver com o tratamento médico. Trata-se de seu direito de decidir o que lhe será feito. Muitos exercem tal direito por obterem um segundo parecer médico e então decidirem; outros recusam determinada terapia. Um estudo feito em 1983 pelo Dr. Loren H. Roth revelava que ‘20 por cento dos pacientes hospitalizados recusam tratamento’.
Mas, se estivesse doente ou ferido, como decidiria isso? Não sendo médico, como poderia saber qual é a melhor terapia? Geralmente nos voltamos para os especialistas, médicos que têm instrução especializada, experiência e se dedicam a ajudar pessoas. O médico e o paciente devem considerar os “riscos/benefícios médios”. De que se trata?
Digamos que esteja com o joelho machucado. Certo médico lhe recomenda uma operação. Todavia, quais são os riscos da anestesia e da operação, ou os riscos posteriores da função da perna? Por outro lado, quais são os benefícios potenciais e as chances de que, no seu caso, tais benefícios sejam alcançados? Uma vez se tenha explicado o quadro dos riscos/benefícios, tem o direito de decidir: de dar seu consentimento esclarecido ou de recusar tal tratamento.
Pesar os Riscos e os Benefícios
Considere os riscos/benefícios médios numa situação real, a de Giuseppe e Consiglia Oneda, mencionados previamente.
A filha deles, Isabella, estava muito doente, e os médicos recomendaram (até mesmo exigiram) que lhe fossem dadas transfusões de sangue periódicas. Os pais amorosos objetaram a isso primariamente por causa de seu conhecimento da lei da Bíblia. Ainda assim, como poderia a questão dos riscos/benefícios ter influenciado as coisas?
Hoje em dia, a maioria das pessoas presumem que a transfusão de sangue dada a um paciente é uma terapia segura, eficaz. Não devíamos olvidar, porém, que no século 17 a sangria era prática médica comum, tanto para jovens como para idosos, não raro com conseqüências fatais. Naqueles dias, que teria acontecido se certo pai se recusasse a deixar que seu filho sofresse uma sangria?
A sangria teve sua época; agora, os médicos esposam a transfusão de sangue. Embora os médicos tenham conseguido muita coisa nos últimos anos, eles têm de reconhecer que as transfusões são arriscadas. O Dr. Joseph Bove (presidente da comissão sobre doenças transmitidas pela transfusão, da Associação Médica Americana de Bancos de Sangue) declarou em data recente que foi primeiramente em 1943 que se trouxe à baila que se pode contrair hepatite através do sangue. Acrescentou:
“Agora, cerca de 40 anos depois, a transmissão de hepatite pelo menos por quatro vírus diferentes transportados pelo sangue é um risco reconhecido da transfusão, e numerosos outros agentes infecciosos são alistados como sendo transmissíveis pelo sangue e por subprodutos do sangue.” — The New England Journal of Medicine (Jornal de Medicina da Nova Inglaterra), 12 de janeiro de 1984.
Caso pese os assuntos relativos à sua saúde e sua vida, ou a de sua família, quanto risco apresentam tais doenças? Nem mesmo os médicos podem dizer, porque a morte resultante de tais doenças pode ocorrer muito depois de ser ministrada uma transfusão. Considere, por exemplo, apenas um tipo de hepatite (B), cuja detectação é apenas parcialmente bem-sucedida. Disse certo relato noticioso (10 de janeiro de 1984):
“Em 1982, cerca de 200.000 americanos contraíram hepatite B, segundo os Centros de Controle de Doenças (CDC) em Atlanta [EUA]; 15.000 pessoas foram hospitalizadas devido ao estádio agudo da doença, e 112 morreram. Outras 4.000 vítimas morreram devido a complicações crônicas atribuídas à doença.”
Quantos outros, na Itália, Alemanha, Japão e outras partes, morreram de hepatite provocada por transfusões? Sim, a morte devido a transfusões é grave risco a ser pesado.
Também, nos riscos/benefícios médios das transfusões, o risco está aumentando. “À medida que aumenta nosso conhecimento”, declarou o prof. Giorgio Veneroni (de Milão), em maio de 1982, “encontramos um número cada vez maior de riscos relacionados com as transfusões de sangue homólogas”. Uma das descobertas que provocou alarme entre os médicos foi a AIDS (Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida), que apresenta uma taxa extremamente alta de óbitos. O Dr. Joseph Bove prosseguiu:
“Para os recebedores, os médicos precisam pesar o risco da transfusão, comparando-o com o benefício esperado. Este conceito não é novo, mas se tornou mais urgente, uma vez que ninguém pode garantir mais ao paciente ansioso que ele, ou ela, não contrairá a AIDS duma transfusão.”
Os médicos não discutiram tal risco com o casal Oneda em 1978; não era sequer reconhecido então. Mas sabemos disso agora. Não deveria tal conhecimento de riscos maiores das transfusões fazer com que a decisão do casal Oneda fosse menos criticada?
Os Pais Precisam Pesar os Riscos e os Benefícios
Como adulto, tem direito a pesar os riscos e os benefícios das transfusões de sangue, ou de qualquer terapia. “Todo adulto capaz é reputado o senhor de seu próprio corpo. Pode tratá-lo sábia ou tolamente. Pode até mesmo recusar um tratamento que lhe salve a vida, e isso não é da conta de ninguém. Certamente não é do Estado.” (Willard Gaylin, M.D., presidente do Centro de Hastings) Mas quem deve pesar os riscos e os benefícios para uma criança?
Os pais amorosos — é a resposta indicada pela experiência geral. Por exemplo, que dizer se seu filho tivesse problemas com as amígdalas e fosse sugerido extirpá-las? Não desejaria conhecer as vantagens e os riscos da tonsilectomia? Em seguida, poderia comparar isso com informações sobre os riscos benefícios da terapia com antibióticos. Daí, o leitor poderia chegar a uma conclusão bem-informada, como muitos pais têm chegado.
Examine uma situação mais grave. Os médicos lhe trazem a má notícia de que seu querido filhinho apresenta uma forma virtualmente incurável de câncer. Afirmam que a quimioterapia poderia ser empregada, mas que as substâncias químicas deixariam seu filhinho muitíssimo doente, e que as chances seriam quase nulas de frear a doença nesse estádio. Não teria o leitor o direito de fazer a decisão final?
Teria sim, é a resposta obtida dum artigo do Dr. Terrence F. Ackerman.a Ele admitiu que muitos mandados judiciais foram obtidos à base da afirmação de que o Estado deve proteger os menores de idade. Todavia, em diversos casos, o famoso Hospital e Instituto de Tumores M.D. Anderson seguiu ‘a norma de não tentar obter um mandado judicial para transfusões’. Por quê? Parcialmente porque “cada uma dessas crianças era portadora de uma doença potencialmente fatal, e não poderíamos predizer um resultado bem-sucedido”. Não acontecia isso também no caso de Isabella?
Ackerman sublinhou o valor do “respeito pela autoridade dos pais de criar seus filhos dum modo que julgam apropriado”. Arrazoou ele: “É axiomático, no exercício da pediatria, que o médico tem o dever moral de apoiar os pais e a família. O diagnóstico de uma doença potencialmente fatal no filho deles impõe enorme stress aos pais. Se os pais hão de contender, em aditamento, com o que crêem ser uma transgressão da lei de Deus, sua capacidade de atuação poderia ser adicionalmente prejudicada. Ademais, o bem-estar da família influi diretamente no bem-estar do filho doente.”
Métodos Alternativos
A fim de evitar os muitos riscos da transfusão, os pesquisadores criaram técnicas cirúrgicas que limitam a necessidade de sangue. Com efeito, a posição das Testemunhas quanto ao sangue tem incentivado tal pesquisa. Em fins de 1983, houve jornais nos Estados Unidos que trouxeram um relato sobre um congresso da Associação Americana de Cardiologia: Nenhum sangue foi utilizado em operações do coração em 48 crianças, na faixa etária de três meses a oito anos. A temperatura do corpo dos pacientes foi reduzida e o sangue foi diluído com água contendo sais minerais e nutrientes. Mas, não se ministrou nenhum sangue! Inicialmente, tal técnica só foi usada em filhos de Testemunhas de Jeová. Quando os cirurgiões observaram que os filhos de Testemunhas sobreviviam a tais cirurgias em condições muito superiores às das crianças submetidas aos métodos convencionais, decidiram estender os benefícios desta técnica a todos os seus pacientes.
Compreende-se que há casos em que os médicos julgam indispensável uma transfusão de sangue. Pode-se, contudo, sustentar objetivamente que: (1) Até mesmo muitos médicos admitem que são raríssimos os casos em que estão convictos de que as transfusões sejam realmente vitais; (2) existe um hábito prejudicial, já antigo, de ministrar sangue desnecessariamente; (3) os graves riscos das transfusões tornam impossível ser-se dogmático quanto aos riscos/ benefícios médios delas. Assim, há hospitais que relatam que mesmo muitos que não são Testemunhas de Jeová exigem que não se lhes seja dado nenhum sangue.
Esperança Para o Futuro
Felizmente, focaliza-se cada vez mais atenção nos direitos e na dignidade do indivíduo. Países esclarecidos, tais como a Itália, fazem esforços de assegurar a maior liberdade possível, inclusive a de se fazer decisões bem-informadas sobre a saúde. Um opúsculo editado pela Associação Médica Americana explica: “O paciente tem de ser o árbitro final quanto a se quer correr os riscos com o tratamento ou a cirurgia recomendada pelo médico, ou se arriscará a viver sem ele. Este é o direito natural do indivíduo, que a lei reconhece.”
Isto se aplica, também, no caso dos menores de idade. Caso seja genitor, deve tomar parte ativa em fazer decisões sobre assuntos médicos que dizem respeito a seus filhos. Um conselho de juízes nos Estados Unidos escreveu na obra “Orientações Para o Juiz em Caso de Mandados Judiciais Que Atinjam Crianças”:
“Se existir a opção de processos — se, por exemplo, o médico recomenda certo processo que tenha 80 por cento de possibilidades de êxito, mas que os genitores desaprovam, e os genitores não tenham objeção a certo processo que só tenha 40 por cento de possibilidades de êxito — o médico precisa seguir o proceder mais arriscado, do ponto de vista médico, mas que não inclui objeções por parte dos pais.”
Tal parecer pode ser muitíssimo significativo se reconhecer o seu direito — sim, seu dever — de obter informações médicas exatas. Não raro é sábio obter um segundo parecer médico. Indague a respeito dos vários métodos de se tratar um problema de saúde, e os riscos e os benefícios em potencial de cada terapia. Daí, sabendo quais são os riscos/benefícios médios, poderá fazer sua decisão bem-informada sobre assuntos de saúde. A lei lhe concede esse direito. Deus e sua consciência lhe dizem que tem tal dever.
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