Os “Witkars” de Amsterdã — surgidos da necessidade
Do correspondente de “Despertai!” nos Países-Baixos
ESTÁVAMOS no primeiro dia da primavera setentrional de 1974 e, como sempre, a primavera trouxe novos aspectos e sons. Mas, poucos moradores da vistosa Amsterdã estavam preparados para algo tão incomum. O humor holandês teve de ser afiado ao máximo ao tentar descrever o que apareceu naquele dia: “Um ninho de amor móvel”, “Cartola sobre rodas”, “Uma tampa de queijo móvel.”
O que era mesmo que viam?
Um “witkar”!
Basta dar uma olhada para o veículo incomum, movido a bateria, e facilmente compreenderá a razão da surpresa. Este carrinho — com seu aconchegante banco duplo interior, seu chassi redondo, erguendo-se, como parecia, alto demais em suas pequenas rodas, e com vidro por toda a volta — certamente se enquadrou no quadro pintado pelos piadistas de Amsterdã. De onde surgiu essa idéia peculiar?
Surgiu mormente da necessidade. Como vê, a atraente zona central de Amsterdã é diariamente desfigurada por 35.000 carros, estacionados em todo canto e escaninho disponível. Isto, junto com o perigo de se dirigir por ruas estreitas e o ruído e a poluição, incomodam os pedestres. Todavia, em realidade, apenas 1.500, dos 35.000 carros são usados a um só tempo. Este fato gerou a idéia de um sistema de trânsito que visasse manter mais veículos ocupados e não simplesmente estacionados de modo ocioso.
Em 1966, jovens radicais em Amsterdã organizaram-se num grupo chamado Provos. Seu alvo não era a violência, mas a provocação contra situações que irritavam o público. Uma delas era o congestionamento e a poluição do trânsito na zona central. O volume de passageiros-carros no país aumentara de 100.000 em 1949 para os atuais 2.500.000. Esta é uma carga e tanto para um país que só mede cerca de 39.000 quilômetros quadrados. Os Provos surgiram com alguns planos muito incomuns e radicais para solucionar este complicado problema de trânsito.
Primeiro, Luud Schimmelpennink, uma das figuras destacadas da organização, propôs o uso especial de bicicletas na área central; mas Amsterdã não acatou essa sugestão. Então surgiu sua idéia do “witkar”, a ser usado exclusivamente nos percursos do centro da cidade. Em 1967, Schimmelpennink considerou os “witkars” com um grupo de interessados. A maioria das pessoas na assistência, muitos dos quais eram cidadãos de destaque, disseram que jamais andariam em tal “troço”. Mas, estavam dispostos a contribuir dinheiro para que Schimmelpennink construísse um modelo de testes do carro. Em 1968, o modelo estava pronto.
Cresce a Idéia
Com este modelo de fundo, Schimmelpennink então passou a desvendar o plano do “witkar” em pormenores. Primeiro, a velocidade seria aumentada para cerca de 30 quilômetros horários. Quando completado, o plano do “witkar” incluiria 105 estações espalhadas equilibradamente por toda a zona central e totalizando cerca de 1.200 “witkars”. Isto significaria que nenhuma estação distaria mais de uns 500 metros da outra.
O princípio seria que os “witkars” só percorreriam o trajeto entre as estações que a pessoa escolhesse, tais estações tendo áreas de parqueamento para os carros e manutenção, inclusive a recarga das baterias. O uso do “witkar” se limitaria aos membros duma fundação estabelecida para cuidar do projeto. A pessoa se afiliaria à fundação por dez dólares; outros dez dólares comprariam a chave necessária para se guiar um carro.
Um membro no centro tem primeiro de determinar que estação está mais próxima dele. Chegando à estação, onde há um carro disponível, introduz sua chave numa fenda no painel de seleção. Cada estação deve ter sete ou mais “witkars”. O painel de seleção em cada estação está ligado por um fio a um computador na sala principal de controle. O computador registra o número da chave, que corresponde ao número da conta no Banco Municipal de Liberação. Quando o passageiro disca o número da estação que deseja, o computador verifica se há espaço para parquear nessa estação e, se não, seleciona outra estação próxima daquela originalmente preferida.
Ao chegar do outro lado de seu percurso, o motorista estaciona o “witkar” atrás do último carro na fila de outros ‘witkars”. Um aparelho no teto do carro automaticamente é ligado com um cabo para recarregar a bateria. Em questão de minutos, a energia usada no percurso entre as estações já foi renovada.
Período Experimental
Desde a hora em que o “witkar” surgiu em Amsterdã, em 1968, as negociações com as autoridades municipais começaram. Havia certa relutância da parte das autoridades; a polícia era muito cética, argumentando que um veículo que corre a uns 30 quilômetros reteria o tráfego mais rápido. No entanto, os promotores do “witkar” apresentaram cômputos que mostravam que o trânsito médio no centro da cidade era mais lento que 30 quilômetros horários.
Centenas de pessoas tornaram-se membros pagantes da fundação, inclusive vereadores. Grandes companhias prometeram ajuda. Por fim, foi concedida a permissão pela cidade para se ter apenas uma estação experimental com três “witkars”. O dia 21 de março de 1974 foi o grande dia; a experiência começou. Durou três meses.
Este trimestre foi valioso para os iniciadores do projeto. Muitas pessoas, inclusive cidadãos de destaque, fizeram curtas viagens no “witkar”, destarte promovendo o projeto. No término do período experimental, dois “witkars” correram numa maratona que durou vinte e quatro horas. Esses carros percorreram um total de mais de 440 quilômetros ao custo de menos de cinco dólares de energia elétrica. O automóvel médio teria consumido cerca de 68 litros de gasolina ao cobrir esta distância ao andar pela cidade.
O “witkar” reduz a poluição sonora a um mínimo quando comparado aos automóveis movidos a gasolina. Todavia, o “witkar” não é inteiramente desprovido de poluição. A quantidade de óleo combustível necessária para produzir a corrente elétrica para a maratona de 440 quilômetros do “witkar” foi (em volume) cerca da metade da gasolina necessária para um carro médio. No geral parece que a poluição total dos “witkars” é inferior à causada pelos carros movidos à gasolina.
A experiência impressionou tanto as autoridades que a cidade de Amsterdã concedeu permissão para duas outras estações a serem terminadas em outubro, e outras duas em dezembro, perfazendo um total de cinco. No ínterim, o Ministério da Saúde e de Higiene Ambiental concedeu um subsídio de US$ 130.000, e outras consideráveis doações vieram de fontes privadas. Desta forma, o financiamento da primeira fase do projeto, cinco estações e trinta e cinco “witkars”, está completa.
O projeto incomum de Amsterdã para combater o congestionamento e a poluição dos carros está agora em operação.