Anuário das Testemunhas de Jeová
Zimbabwe (continuação)
[Seriado com base no Yearbook de 1985.]
“Como Abrigo Contra o Vento”
O profeta Isaías profetizou a respeito dos que serviriam como pastores e superintendentes na organização visível de Jeová. Comparou-os a um “abrigo contra o vento e como esconderijo contra o temporal”. (Isaías 32:2) Nossos leais superintendentes viajantes mostraram ser exatamente isso, por todos os anos de guerra.
Suportaram corajosamente toda sorte de dificuldades a favor dos irmãos. Alguns caminhavam dias a fio por áreas agrestes, subindo e descendo montanhas, cruzando rios perigosos, dormindo a noite inteira ao relento — tudo a fim de alcançar congregações isoladas e publicadores isolados, para encorajá-los a permanecer firmes na fé.
Para ilustrar isso, gostaríamos de relatar a experiência de um dos superintendentes de circuito, Isaiah Makore. Ele, junto com outro irmão, Obet Sose, viajou cerca de 130 quilômetros de bicicleta a uma parte remota e perigosa do país para visitar três pequeninas congregações nessa área. Na volta foram abordados pelos “lutadores pela liberdade”. Mas, deixemos que o superintendente de circuito o relate:
“Quando tínhamos viajado cerca de 14 quilômetros, repentinamente vimos homens com armas chamando-nos de dentro do matagal. Paramos e fomos com as nossas bicicletas para onde eles estavam. Sem demora tomaram nossos novos relógios de pulso, dinheiro, etc. Junto com meu dinheiro, estava o das congregações que acabara de visitar, que me foi dado para enviar à Sociedade a fim de ser creditado nas suas respectivas contas.
“Enquanto isto se dava, também indagaram quem éramos e o que fazíamos ali. Parece que aqueles homens suspeitavam que éramos agentes ou empregados do Governo. Não sabendo o que iria suceder-nos, orei silenciosamente a Jeová por ajuda, especialmente para não transigir. Depois, o irmão Sose disse-me que tinha feito a mesma coisa.
“Por fim, pudemos convencer a tais homens que éramos Testemunhas de Jeová e ministros religiosos. Fiquei bastante surpreso quando devolveram todo o dinheiro que haviam tomado de nós, embora retivessem nossos relógios e um ou dois outros itens.
“Então disseram-nos que podíamos seguir viagem, e estávamos prestes a ir quando ouvimos o ruído dum veículo do exército. Começara a batalha! Logo estávamos deitados no chão com as balas passando por todos os lados. Felizmente, saímos desta ilesos, e prosseguimos pedalando os 127 quilômetros para voltar à nossa sede.”
Volta a Questão da Neutralidade
Enquanto nossos irmãos africanos, em especial nas áreas rurais, tinham sua fé grandemente provada, diversos de nossos irmãos brancos ainda precisavam defender sua fé perante os tribunais. Com efeito, agora muitos mais ficaram envolvidos, visto que a idade de convocação fora ampliada para 50 anos.
Relacionado com isso houve deveras um bom aspecto, no sentido de que estes irmãos mais idosos, muitos sendo anciãos, estavam em melhor posição de falar destemidamente a respeito de sua lealdade ao Reino messiânico. Deram muitas vezes um testemunho excelente. Por exemplo, Gordon Hein disse bondosa, mas firmemente, ao Conselho de Isenção: “Os senhores poderão colocar-me contra aquela parede e atirar em mim, mas não transigirei em minha posição a favor de Jeová e seu Reino.”
Outro que teve a oportunidade de dar excelente testemunho perante o Conselho de Isenção foi Koos deWet. Apesar de este irmão ter apresentado a base bíblica de sua posição de modo bastante claro e vigoroso, o Conselho indeferiu seu pedido de isenção. O irmão deWet relata o que aconteceu então:
“Após terem decidido não me isentar, o Chefe da Segurança veio informar-me em particular da decisão deles. Na palestra trouxe-se à atenção dele que nem uma testemunha de Jeová sequer estava entre os que lutavam contra o país. Ele respondeu que estava a par disso. ‘E por que o senhor está a par disso?’ perguntei, e acrescentei: ‘Porque as Testemunhas de Jeová nos países ao redor assumem exatamente a mesma posição que tomei perante o senhor hoje.’
“Então ele admitiu que, embora encarasse as Testemunhas de Jeová como inconvenientes, com o passar dos anos veio a perceber que elas tinham a religião mais desejável.”
Posição Neutra É Amplamente Conhecida
Agora estava ficando claro no país inteiro que as Testemunhas de Jeová não estavam nem de um lado nem de outro. Nossos irmãos nas áreas comunitárias podem atestar bem este fato.
A seguinte experiência ocorreu em 1978. Fez-se um anúncio concernente à Assembléia de Distrito “Fé Vitoriosa”. Os irmãos na área de Hurungwe queriam ir à assembléia. Para isso, precisavam alugar um ônibus. Mas, agora, deixemos que David Mupfururirwa o relate. Era superintendente de distrito na ocasião e serve atualmente como pioneiro especial, juntamente com a esposa, Betty.
“Os ‘lutadores pela liberdade’ controlavam esta área específica, o que incluía o uso dos ônibus que entravam e saíam da área. Ninguém podia alugar um ônibus, nem mesmo sair da localidade, sem a permissão dos ‘lutadores pela liberdade’. Mas, mesmo que a permissão fosse concedida, ainda haveria problemas. Por quê? Porque ao longo do caminho haveria barricadas das forças de segurança do Governo. Estas sabiam que um ônibus só podia trafegar se tivesse permissão dos guerrilheiros. Portanto, tais ônibus tornavam-se suspeitos e eram revistados cabalmente, inclusive a bagagem e os embrulhos, em busca de bombas ou outras armas letais.
“Nessas circunstâncias, chegou ao conhecimento do comandante dos ‘lutadores pela Liberdade’ que as Testemunhas tentavam alugar um ônibus. Certos indivíduos foram então enviados ao proprietário do ônibus para perguntar se isso era verdade. Ele lhes disse que eram as Testemunhas de Jeová que queriam alugar o ônibus, mas que não tomara qualquer decisão. Estas notícias voltaram para o comandante. Conforme relatado aos irmãos, a conversa foi mais ou menos assim:
“‘Comandante, o senhor sabia que as pessoas que tentavam alugar o ônibus são Testemunhas de Jeová?’ ‘Sim’, foi a resposta. ‘Ora, por que o senhor não disse isso antes?! Nós não teríamos perdido tempo investigando. O senhor sabe que elas são neutras em assuntos políticos. Não são uma ameaça para nós. De fato, sinto-me muito melhor entre elas do que entre nós mesmos. Nós deixaremos que aluguem o ônibus.’
“Mais tarde, ao dirigir-se aos irmãos, o motorista do ônibus disse: ‘Vocês são apoiados por Jeová! Outras igrejas têm tentado alugar ônibus, mas isto lhes têm sido recusado, tanto da parte dos “lutadores pela liberdade” como das forças de segurança.’”
Outra Barreira a Ser Vencida
Os irmãos partiram, dirigindo-se para Chinhoyi e para a assembléia de distrito. Então chegaram a uma barricada. Desta vez tratava-se das forças de segurança. Ordenou-se que todos saíssem do ônibus e se mandou que abrissem a bagagem e os embrulhos. Assim que os irmãos começaram a fazer isso, um soldado perguntou de onde eles vinham e para onde iam. Um irmão disse: “Somos Testemunhas de Jeová, e estamos indo para Chinhoyi para nosso congresso religioso.”
“Todos são Testemunhas de Jeová?”, perguntou o soldado.
“Sim, senhor”, foi a resposta.
“Então recoloquem a bagagem no lugar e sigam viagem para o seu congresso.”
À medida que entravam no ônibus, ouviu-se por acaso a seguinte conversa entre dois dos soldados:
“Ei, por que está deixando esse ônibus partir?”
“São Testemunhas de Jeová, os cidadãos mais pacíficos que poderia encontrar. Não podemos perder tempo com eles.”
Incidentalmente, a respeito desta assembléia, os “lutadores pela liberdade” na área avisaram os irmãos de que não deviam preocupar-se. Não haveria nenhuma interferência na assembléia. E isto mostrou-se verdade.
Os dias Mais Negros da Guerra
Estávamos entrando então na época mais crucial da guerra. Não havia nenhum lugar de segurança. À medida que se exercia mais pressão sobre as forças do Governo, a linha de frente podia ser em qualquer parte do país — na cidade ou na área rural. Na parte inicial de 1978, bombas e granadas de mão explodiam nas cidades e povoados. Na capital, uma bomba levou aos ares o lado de um dos edifícios Woolworth, matando e aleijando diversas pessoas. Em Mutare, uma senhora entrou numa loja de departamentos com uma granada presa à perna. A granada explodiu, matando-a, bem como a outros.
Por causa disso, foram instauradas rígidas medidas de segurança. Não se podia entrar numa loja sem ser revistado. Estradas rurais de cascalho estavam cheias de minas terrestres, e viajar na maior parte das auto-estradas só era permitido em comboio, sob a proteção do exército e durante a luz do dia.
As Congregações Atingidas
Tudo isso, naturalmente, afetou muito as atividades congregacionais, que, em muitos lugares, foram interrompidas. Os superintendentes de circuito verificaram que não podiam chegar a algumas congregações nos seus circuitos. Num esforço de superar isso, irmãos locais fidedignos foram designados para fazer o melhor que pudessem em contatar essas congregações. Sendo da localidade, tinham uma vantagem sobre os superintendentes viajantes, que amiúde eram estranhos à área.
Apesar deste arranjo, algumas congregações ficaram tão completamente desligadas que não se teve notícias delas por dois ou três anos. Chegaram à filial relatos de congregações inteiras terem de fugir de suas casas, morando em cavernas nos montes até poderem retornar em segurança.
Tais condições, naturalmente, repercutiram de forma significativa nos relatórios recebidos pela Sociedade. Com efeito, houve queda constante na média de publicadores que relatavam, de 12.127, em 1976, para 10.087, em 1981. Grande parte disso se deveu às condições existentes naquela época.
Tão logo isto foi possível, os superintendentes de circuito começaram a contatar estas congregações “perdidas”. Um relatório bastante encorajador procedeu do irmão John Hunguka. Ele escreveu:
“Estes irmãos e irmãs não receberam visita dum superintendente de circuito por dois anos, devido às condições de guerra. É encorajador ouvir como eles enfrentaram os problemas. Os pais permaneceram firmes em proteger seus filhos da intimidação, da violência e de estupradores armados. Defenderam as altas normas de moral da Bíblia. Ainda se portam como Testemunhas de Jeová, não obstante ficarem separados dos outros irmãos por pelo menos dois anos.”
O irmão Hunguka prossegue por dizer que alguns se tornaram inativos nesse período, e alguns, por medo, transigiram quanto à posição neutra. Quão emocionante foi saber, porém, que a grande maioria de nossos irmãos suportou todas estas provações sem violar sua relação dedicada com Jeová!
Confiaram em Jeová
Ao rememorarmos esses anos bastante críticos, uma coisa se destaca mui claramente. Os leais de Jeová ‘confiaram nele de todo o seu coração’, e ele, por sua vez, deu-lhes Sua proteção e ajuda para perseverar. (Provérbios 3:5) Refletirmos em algumas experiências pode ajudar a incutir-nos isto.
Considere a situação de Eric e Jane Hitz, que, na maior parte desse tempo, serviam no circuito das congregações de língua inglesa. Queira ter em mente que, em especial durante os últimos anos da guerra, a maioria das principais estradas podiam ser trafegadas apenas em comboio, e muitas das estradas de cascalho estavam minadas. Ademais, em qualquer ocasião podiam surgir quadrilhas.
Bem, o irmão e a irmã Hitz tinham de viajar em muitas dessas estradas. Apesar das pressões em contrário, estavam determinados a não portar armas para proteção; antes, confiavam em Jeová. O irmão Hitz disse: “Não raro nos diziam que éramos loucos de viajar em certas estradas e que jamais chegaríamos ao destino com vida. Mas Jeová nos protegia. A preocupação amorosa dos irmãos que visitávamos nessas ocasiões era bastante notável e fez-nos sentir que valia a pena.”
A irmã Hitz relata que em certa ocasião eles, por alguma razão, partiram duma congregação um dia depois do previsto. No dia seguinte, à medida que seguiam viagem, viram os veículos queimados dum comboio que fora atacado. Tivessem eles viajado no dia anterior, conforme tencionado, teriam estado naquele comboio. “Esta foi apenas uma das muitas experiências similares”, acrescenta ela.
Este casal fiel mais tarde cursou a Escola de Gileade e desfruta atualmente seu serviço missionário na Suíça.
Outro exemplo de total confiança em Jeová foi o de Stephen Gumpo. Ele e a esposa, Gladys, servem atualmente em Betel. Quando estavam no serviço de pioneiro especial, o irmão Gumpo teve a mesma experiência com a máquina elétrica de tortura que John Hunguka. “Quando se está ligado àquela máquina”, observou, “é a coisa mais fácil do mundo fazer qualquer coisa, mentir, transigir, qualquer coisa para se livrar da dor excruciante. Foi só na força de Jeová que pude suportar e permanecer fiel a ele.” O irmão Gumpo mencionou que outros morreram do mesmo tratamento.
[Continua na próxima edição.]
[Foto na página 25]
Os superintendentes viajantes John Hunguka (que foi torturado com uma máquina elétrica) e Michael Chikara.