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Um pai e seus filhos rebeldesProfecia de Isaías — Uma Luz para Toda a Humanidade I
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Capítulo Dois
Um pai e seus filhos rebeldes
1, 2. Explique como foi que Jeová veio a ter filhos rebeldes.
COMO todo pai amoroso, ele era um bom provisor para seus filhos. Por muitos anos, nunca os privou de comida, roupa e abrigo. Quando necessário, ele os disciplinava. Mas as punições nunca eram excessivas; sempre eram aplicadas “no grau correto”. (Jeremias 30:11) Pode-se imaginar, portanto, a dor desse pai amoroso ao ter de dizer: “Criei e eduquei filhos, mas eles mesmos se revoltaram contra mim.” — Isaías 1:2b.
2 Esses filhos rebeldes eram o povo de Judá e o pai pesaroso era o Deus Jeová. Que trágico! Jeová havia sustentado os judeus e os elevado a uma posição enaltecida entre as nações. “Fui vestir-te com uma veste bordada, e calçar-te com pele de foca, e envolver-te em linho fino, e cobrir-te com tecido suntuoso”, lembrou-lhes mais tarde por meio do profeta Ezequiel. (Ezequiel 16:10) No entanto, no geral, o povo de Judá não valorizava o que Jeová fazia por eles. Em vez disso, eles se rebelavam, ou se revoltavam.
3. Por que Jeová convocou os céus e a Terra como testemunhas da revolta de Judá?
3 Com boa razão, Jeová prefacia tais palavras a respeito de seus filhos rebeldes com a declaração: “Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, ó terra, porque o próprio Jeová falou.” (Isaías 1:2a) Séculos antes, os céus e a Terra ouviram, por assim dizer, os israelitas receberem alertas explícitos sobre as consequências da desobediência. Moisés lhes dissera: “Deveras tomo hoje os céus e a terra por testemunhas contra vós de que positivamente perecereis depressa da terra à qual estais passando o Jordão para tomar posse dela.” (Deuteronômio 4:26) Então, nos dias de Isaías, Jeová convocou os invisíveis céus e a visível Terra como testemunhas da revolta de Judá.
4. Como Jeová preferiu se apresentar a Judá?
4 A gravidade da situação exigia uma abordagem franca e direta. Mas, mesmo nessas circunstâncias desesperadoras, é digno de nota — e animador — que Jeová se apresentasse a Judá como pai amoroso, em vez de como mero dono que os comprara. Assim, Jeová rogava a seu povo que encarasse o assunto do ponto de vista de um pai angustiado com a obstinação de seus filhos. Talvez alguns pais em Judá se identificassem com essa situação aflitiva e se sensibilizassem com essa analogia. Seja como for, Jeová estava em vias de apresentar a sua queixa contra Judá.
Os animais conhecem melhor o seu dono
5. Em contraste com Israel, em que sentido o touro e o jumento demonstravam um senso de fidelidade?
5 Por meio de Isaías, Jeová diz: “O touro conhece bem o seu comprador, e o jumento, a manjedoura de seu dono; o próprio Israel não conheceu, meu próprio povo não se comportou com entendimento.” (Isaías 1:3)a O touro e o jumento são animais de tração bem conhecidos pelos que vivem no Oriente Médio. De fato, os judeus não negariam que mesmo esses animais inferiores demonstram um senso de fidelidade, uma percepção profunda de que têm um dono. Nesse respeito, veja o que um pesquisador bíblico presenciou ao fim de um dia numa cidade do Oriente Médio: “Assim que a manada passou para o lado de dentro dos muros, começou a se dispersar. Cada boi conhecia perfeitamente seu dono e o caminho de casa, e em nenhum momento um deles se perdeu nos labirintos das estreitas e sinuosas vielas. Quanto ao jumento, ele foi direto para o portão e daí para o ‘estábulo de seu dono’.”
6. Como foi que o povo de Judá deixou de agir com entendimento?
6 Visto que cenas assim com certeza eram comuns nos dias de Isaías, o significado da mensagem de Jeová é claro: se até mesmo um animal reconhece seu dono e sua própria manjedoura, que desculpa poderia o povo de Judá apresentar de ter abandonado a Jeová? Realmente, o povo ‘não se comportava com entendimento’. É como se não tivesse consciência de que a sua prosperidade e a sua própria existência dependiam de Jeová. Na verdade, era uma evidência de misericórdia que Jeová ainda se referisse aos judeus como “meu próprio povo”!
7. Cite algumas maneiras de mostrarmos apreço pelas provisões de Jeová.
7 Jamais desejaríamos agir sem entendimento por deixarmos de mostrar apreço por tudo o que Jeová tem feito por nós! Em vez disso, devemos imitar o salmista Davi, que disse: “Vou elogiar-te de todo o meu coração, ó Jeová; vou declarar todas as tuas obras maravilhosas.” (Salmo 9:1) Assimilar continuamente conhecimento sobre Jeová nos incentivará nesse sentido, pois a Bíblia diz que “o conhecimento do Santíssimo é o que é entendimento”. (Provérbios 9:10) Meditar diariamente nas bênçãos de Jeová nos ajudará a ser gratos e a não tratar nosso Pai celestial com descaso. (Colossenses 3:15) “Quem oferece agradecimento como seu sacrifício é quem me glorifica”, diz Jeová, “e quanto àquele que mantém um caminho fixo, eu o vou fazer ver a salvação por Deus”. — Salmo 50:23.
Chocante afronta ao “Santo de Israel”
8. Por que o povo de Judá podia ser chamado de “nação pecadora”?
8 Isaías continua sua mensagem com palavras fortes à nação de Judá: “Ai da nação pecadora, povo carregado de erro, descendência malfeitora, filhos ruinosos! Abandonaram a Jeová, trataram o Santo de Israel com desrespeito, deram para trás.” (Isaías 1:4) Ações perversas podem acumular-se até se tornarem um peso esmagador. Nos dias de Abraão, Jeová classificou os pecados de Sodoma e Gomorra de ‘muito graves’. (Gênesis 18:20) Algo similar era evidente em Judá, pois Isaías diz que o povo estava “carregado de erro”. Além disso, ele o chama de “descendência malfeitora, filhos ruinosos”. Sim, os judeus eram como filhos delinquentes. Eles “deram para trás”, ou, como diz a New Revised Standard Version, “afastaram-se totalmente” de seu Pai.
9. O que significa a expressão “o Santo de Israel”?
9 Pela sua obstinação, o povo de Judá mostrava crasso desrespeito ao “Santo de Israel”. O que significa essa expressão, que ocorre 25 vezes no livro de Isaías? Ser santo significa ser limpo e puro. Jeová é santo em grau superlativo. (Revelação [Apocalipse] 4:8) Os israelitas se lembravam disso sempre que viam as seguintes palavras inscritas na lustrosa lâmina de ouro, no turbante do sumo sacerdote: “A santidade pertence a Jeová.” (Êxodo 39:30) Assim, por referir-se a Jeová como “Santo de Israel”, Isaías sublinha a gravidade do pecado de Judá. Ora, esses rebeldes violavam diretamente o mandamento dado aos seus antepassados: “Tendes de santificar-vos e tendes de mostrar ser santos, porque eu sou santo.” — Levítico 11:44.
10. Como podemos evitar mostrar desrespeito pelo “Santo de Israel”?
10 Os cristãos hoje precisam a todo custo evitar seguir o exemplo de Judá, que desrespeitava “o Santo de Israel”. Precisam imitar a santidade de Jeová. (1 Pedro 1:15, 16) E devem ‘odiar o que é mau’. (Salmo 97:10) Práticas impuras como a imoralidade sexual, a idolatria, o roubo e a bebedeira podem corromper a congregação cristã. É por isso que aqueles que persistem em praticar tais coisas são desassociados da congregação. Por fim, aqueles que sem arrependimento levarem uma vida impura serão excluídos das bênçãos do governo do Reino de Deus. Realmente, todas essas práticas perversas constituem uma chocante afronta ao “Santo de Israel”. — Romanos 1:26, 27; 1 Coríntios 5:6-11; 6:9, 10.
Doentes da cabeça aos pés
11, 12. (a) Descreva as péssimas condições de Judá. (b) Por que não devemos nos penalizar com a sorte de Judá?
11 A seguir, Isaías tenta raciocinar com os habitantes de Judá apontando-lhes a condição doentia deles. Ele diz: “Onde é que seríeis golpeados ainda mais, visto que acrescentais ainda mais revolta?” Em outras palavras, Isaías lhes perguntava: ‘Já não basta o que sofrestes? Por que vos prejudicais ainda mais continuando rebeldes?’ Isaías continua: “A cabeça inteira está numa condição doentia e o coração inteiro está débil. Desde a sola do pé até a cabeça não há nele nenhum ponto são.” (Isaías 1:5, 6a) A condição de Judá era repulsiva, doentia — espiritualmente doente da cabeça aos pés. Um diagnóstico realmente sombrio!
12 Devemos penalizar-nos com a sorte de Judá? Não! Séculos antes, toda a nação de Israel fora devidamente alertada a respeito da penalidade pela desobediência. Em parte, foi-lhe dito: “Jeová te golpeará com um furúnculo maligno em ambos os joelhos e em ambas as pernas, de que não poderás ser curado, desde a sola do teu pé até o alto da tua cabeça.” (Deuteronômio 28:35) Em sentido figurado, Judá sofria exatamente essas consequências de sua obstinação. E tudo isso poderia ter sido evitado se o povo de Judá tão somente tivesse obedecido a Jeová.
13, 14. (a) Que ferimentos foram infligidos a Judá? (b) Será que seus sofrimentos levaram Judá a reconsiderar sua rebeldia?
13 Isaías continua a descrever a situação lastimável de Judá: “Ferimentos e contusões, e vergões novos — não foram espremidos nem pensados, nem houve qualquer amolecimento com óleo.” (Isaías 1:6b) O profeta refere-se aqui a três tipos de lesões: ferimentos (cortes, como os causados por espada ou faca), contusões (marcas de espancamento) e vergões novos (chagas recentes, aparentemente incuráveis). A ideia que se apresenta é a de uma pessoa punida severamente, de toda maneira imaginável, literalmente coberta de ferimentos. A situação de Judá era realmente desesperadora.
14 Será que a condição lastimável de Judá a induziu a retornar a Jeová? Não! Judá era como o rebelde descrito em Provérbios 29:1: “O homem repetidas vezes repreendido, mas que endurece a cerviz, será repentinamente quebrado, e isto sem cura.” O estado da nação parecia crônico. Como diz Isaías, seus ferimentos “não foram espremidos nem pensados, nem houve qualquer amolecimento com óleo”.b Em certo sentido, Judá parecia uma ferida aberta, sem ataduras, que cobria o corpo inteiro.
15. De que maneiras podemos proteger-nos da doença espiritual?
15 Tirando uma lição de Judá, temos de estar alertas contra a doença espiritual. Como a doença física, ela pode acometer a qualquer um de nós. Afinal, quem de nós não é suscetível a desejos carnais? A ganância e o desejo excessivo de prazeres podem enraizar-se no coração. Assim, temos de nos treinar a ‘abominar o que é iníquo’ e a ‘nos agarrar ao que é bom’. (Romanos 12:9) Precisamos também cultivar os frutos do espírito de Deus na nossa vida diária. (Gálatas 5:22, 23) Fazendo isso, evitaremos a situação que afligiu Judá — estar espiritualmente doente da cabeça aos pés.
Uma terra desolada
16. (a) Como descreve Isaías a condição do solo de Judá? (b) Por que alguns dizem que essas palavras provavelmente foram proferidas durante o reinado de Acaz, mas como podemos entendê-las?
16 A seguir, Isaías deixa a sua analogia médica e volta-se para a condição do solo de Judá. Como se estivesse contemplando uma planície cheia de cicatrizes de batalha, ele diz: “Vossa terra é uma desolação, vossas cidades estão queimadas com fogo; vosso solo — estranhos o consomem bem na vossa frente, e a desolação é como um derrubamento por estranhos.” (Isaías 1:7) Alguns eruditos dizem que, embora tais palavras se achem no início do livro de Isaías, provavelmente foram proferidas mais tarde na carreira do profeta, talvez no reinado do perverso Rei Acaz. Eles afirmam que a grande prosperidade do reinado de Uzias não justificaria tal descrição sombria. Admitidamente, não se pode dizer com certeza se o livro de Isaías foi, ou não, compilado em ordem cronológica. É provável, no entanto, que as palavras de Isaías a respeito da desolação sejam proféticas. Na declaração acima, é quase certo que ele tenha empregado um recurso de expressão usado em outras partes da Bíblia — descrever um evento futuro como se já tivesse acontecido, acentuando assim a certeza do cumprimento da profecia. — Note Revelação 11:15.
17. Por que a descrição profética de desolação não devia surpreender o povo de Judá?
17 Seja como for, a descrição profética da desolação de Judá não devia surpreender aquele povo obstinado e desobediente. Séculos antes, Jeová os alertara sobre o que lhes aconteceria caso se rebelassem. Ele disse: “Eu, da minha parte, vou desolar o país, e vossos inimigos que moram nele olharão simplesmente espantados. E a vós é que espalharei entre as nações e vou desembainhar a espada atrás de vós; e vossa terra terá de tornar-se uma desolação e vossas cidades se tornarão ruínas desoladas.” — Levítico 26:32, 33; 1 Reis 9:6-8.
18-20. Quando se cumpriram as palavras de Isaías 1:7, 8, e de que maneira Jeová ‘deixou sobrar uns poucos’ nessa ocasião?
18 As palavras em Isaías 1:7, 8 pelo visto se cumpriram durante as invasões assírias, que resultaram na destruição de Israel e em ampla destruição e sofrimento em Judá. (2 Reis 17:5, 18; 18:11, 13; 2 Crônicas 29:8, 9) Mas Judá não foi totalmente aniquilada. Isaías diz: “A filha de Sião ficou sobrando como uma barraca no vinhedo, como um rancho de vigia no pepinal, como uma cidade bloqueada.” — Isaías 1:8.
19 Em meio a toda a devastação, “a filha de Sião”, Jerusalém, seria poupada. Mas pareceria bem vulnerável — como uma cabana num vinhedo ou uma barraquinha de vigia num pepinal. Numa viagem descendo o rio Nilo, certo erudito do século 19 lembrou-se das palavras de Isaías ao ver barraquinhas semelhantes, que descreveu como “pouco mais do que um tapume contra o vento do norte”. Em Judá, no fim da colheita, essas barracas eram abandonadas e acabavam se desmanchando. Ainda assim, por mais frágil que Jerusalém parecesse ao imbatível exército assírio, ela sobreviveria.
20 Isaías conclui assim essa declaração profética: “Se o próprio Jeová dos exércitos não nos tivesse deixado sobrar uns poucos sobreviventes, nós nos teríamos tornado como Sodoma, teríamos sido semelhantes à própria Gomorra.” (Isaías 1:9)c Jeová por fim socorreria Judá contra o poder da Assíria. Judá não seria varrida do mapa, como Sodoma e Gomorra. Ela sobreviveria.
21. Depois de Babilônia ter destruído Jerusalém, por que Jeová ‘deixou sobrar uns poucos’?
21 Mais de 100 anos mais tarde, Judá estava de novo sob ameaça. O povo não havia tirado uma lição da disciplina infligida por meio da Assíria. ‘Caçoavam continuamente dos mensageiros do Deus verdadeiro, desprezavam as Suas palavras e zombavam de Seus profetas.’ Em resultado disso, “subiu o furor de Jeová contra o seu povo, até que não havia mais cura”. (2 Crônicas 36:16) O monarca babilônio Nabucodonosor conquistou Judá e, dessa vez, nada sobrou, “como uma barraca no vinhedo”. Até mesmo Jerusalém foi destruída. (2 Crônicas 36:17-21) Ainda assim, Jeová ‘deixou sobrar uns poucos’. Embora Judá passasse 70 anos no exílio, Jeová garantiu a continuidade da nação e especialmente da linhagem davídica, que produziria o prometido Messias.
22, 23. No primeiro século, por que Jeová ‘deixou sobrar uns poucos’?
22 No primeiro século, Israel enfrentou sua última crise como povo pactuado de Deus. Quando Jesus se apresentou como o Messias prometido, a nação o rejeitou e, em resultado disso, Jeová a rejeitou. (Mateus 21:43; 23:37-39; João 1:11) Será que com isso Jeová deixou de ter uma nação especial na Terra? Não. O apóstolo Paulo mostrou que Isaías 1:9 teria ainda outro cumprimento. Citando da versão Septuaginta, ele escreveu: “Assim como Isaías dissera outrora: ‘Se Jeová dos exércitos não nos tivesse deixado descendente, teríamos ficado assim como Sodoma, e teríamos sido feitos iguais a Gomorra.’” — Romanos 9:29.
23 Os sobreviventes agora eram os cristãos ungidos, que depositaram fé em Jesus Cristo. Os primeiros desses eram judeus crentes. Mais tarde, juntaram-se a eles gentios crentes. Juntos, constituíram um novo Israel, “o Israel de Deus”. (Gálatas 6:16; Romanos 2:29) Esse “descendente” sobreviveu à destruição do sistema judaico, em 70 EC. De fato, “o Israel de Deus” ainda está entre nós hoje. A ele se juntaram agora milhões de pessoas de fé das nações, que formam ‘uma grande multidão, que nenhum homem pode contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas’. — Revelação 7:9.
24. Ao que todos devem prestar atenção caso desejem sobreviver à maior das crises da humanidade?
24 Em breve, esse mundo enfrentará a batalha do Armagedom. (Revelação 16:14, 16) Essa será uma crise maior do que foi a invasão de Judá pelos assírios ou pelos babilônios, e maior ainda do que a devastação da Judeia pelos romanos (em 70 EC), mas haverá sobreviventes. (Revelação 7:14) Portanto, como é vital que todos prestem bastante atenção às palavras de Isaías a Judá! Elas significaram sobrevivência para os fiéis naquele tempo. E poderão significar sobrevivência para os que hoje creem.
[Nota(s) de rodapé]
a Neste contexto, “Israel” refere-se ao reino de Judá, de duas tribos.
b As palavras de Isaías refletem as práticas médicas de seus dias. O pesquisador bíblico Edward H. Plumptre observa: “‘Fechar’ ou ‘pressionar’ a ferida supurada era o primeiro processo na tentativa de se livrar da secreção purulenta; daí, como no caso de Ezequias (cap. xxxviii. de Is 38:21), ela era ‘atada’ com uma cataplasma, e então se usava um óleo ou unguento estimulantes para limpar a úlcera, provavelmente azeite e vinho, como em Lucas x. 34.”
c A obra Commentary on the Old Testament (Comentário sobre o Velho Testamento), de C. F. Keil e F. Delitzsch, diz: “A mensagem do profeta chegou aqui ao fim de uma seção. Que nesse ponto ela é dividida em duas seções é indicado no texto pelo espaço deixado entre os Is 1 versos 9 e 10. Esse método de dividir seções maiores ou menores, seja por deixar espaços, seja por quebrar a linha, é mais antigo do que os sinais vocálicos e acentos e baseia-se numa tradição da mais remota antiguidade.”
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“Resolvamos as questões”Profecia de Isaías — Uma Luz para Toda a Humanidade I
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Capítulo Três
“Resolvamos as questões”
1, 2. A quem Jeová comparou os governantes e o povo de Jerusalém e de Judá, e por que isso era válido?
OS MORADORES de Jerusalém talvez se sentissem inclinados a se justificar, depois de terem ouvido a denúncia registrada em Isaías 1:1-9. Eles sem dúvida apontariam orgulhosamente para os muitos sacrifícios que ofereciam a Jeová. Contudo, os versículos 10 ao 15 de Is 1 fornecem a fulminante resposta de Jeová a tais atitudes. Começa assim: “Ouvi a palavra de Jeová, ditadores de Sodoma. Dai ouvidos à lei de nosso Deus, povo de Gomorra.” — Isaías 1:10.
2 Sodoma e Gomorra foram destruídas não só por causa de suas práticas sexuais pervertidas, mas também devido à sua atitude empedernida e altiva. (Gênesis 18:20, 21; 19:4, 5, 23-25; Ezequiel 16:49, 50) Os ouvintes de Isaías certamente ficaram chocados ao ouvir que estavam sendo comparados ao povo dessas cidades amaldiçoadas.a Mas Jeová via seu povo exatamente como era, e Isaías não abrandou a mensagem de Deus para lhes fazer “cócegas nos ouvidos”. — 2 Timóteo 4:3.
3. O que Jeová quis dizer com a expressão “estou farto” dos sacrifícios do povo, e por que ele se sentia assim?
3 Observe o que Jeová achava da adoração formalista de seu povo. “‘De que me serve a multidão de vossos sacrifícios?’, diz Jeová. ‘Já estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais bem cevados; e não me agrado do sangue de novilhos, e de cordeiros, e de cabritos.’” (Isaías 1:11) O povo se esquecera de que Jeová não depende desses sacrifícios. (Salmo 50:8-13) Ele não necessita de nada que os humanos lhe possam oferecer. Assim, o povo estaria enganado se pensasse que por meio de suas ofertas feitas por mera formalidade estaria prestando um favor a Jeová. Jeová usou uma forte figura de linguagem. A expressão “já estou farto” pode também ser traduzida por “estou saciado”, ou “estou empanturrado”. Você conhece a sensação de comer tanto a ponto de sentir repulsa só de ver mais comida? É isso o que Jeová sentia a respeito daquelas ofertas — repulsa total!
4. Como Isaías 1:12 expôs a futilidade do comparecimento do povo ao templo em Jerusalém?
4 Jeová continua: “Quando estais entrando para ver a minha face, quem é que requereu isso da vossa mão, pisar meus pátios?” (Isaías 1:12) Não era a própria lei de Jeová que exigia que o povo ‘entrasse para ver a Sua face’, isto é, que comparecesse ao Seu templo em Jerusalém? (Êxodo 34:23, 24) Sim, mas eles compareciam por mero formalismo, apenas simulando praticar a adoração pura, sem motivações sinceras. Para Jeová, as numerosas visitas deles aos Seus pátios eram um mero “pisar”, que só servia para desgastar o piso.
5. Quais eram alguns dos atos de adoração praticados pelos judeus, e por que haviam se tornado “um fardo” para Jeová?
5 Não é de admirar que Jeová adotasse a seguir uma linguagem ainda mais forte! “Parai de trazer mais ofertas de cereais sem valor algum. Incenso — é algo detestável para mim. Lua nova e sábado, a convocação de um congresso — não posso tolerar o uso de poder mágico junto com a assembleia solene. Minha alma tem odiado as vossas luas novas e as vossas épocas festivas. Tornaram-se para mim um fardo; fiquei cansado de suportá-las.” (Isaías 1:13, 14) Ofertas de cereais, incensos, sábados e assembleias solenes faziam parte da Lei que Deus dera a Israel. Quanto a “luas novas”, a Lei simplesmente mandava celebrá-las, mas, gradativamente, foram estabelecidas tradições salutares em torno dessas celebrações. (Números 10:10; 28:11) A lua nova era considerada um sábado mensal, em que o povo não trabalhava e podia até mesmo reunir-se para receber instruções dos profetas e dos sacerdotes. (2 Reis 4:23; Ezequiel 46:3; Amós 8:5) Tais celebrações não eram erradas. O problema era realizá-las por mero exibicionismo. Ademais, os judeus recorriam ao “poder mágico”, ou práticas espíritas, junto com a sua obediência formalista à Lei de Deus.b Assim, seus atos de adoração a Jeová eram “um fardo” para ele.
6. Em que sentido Jeová ficou “cansado”?
6 Mas como Jeová poderia sentir-se “cansado”? Afinal, ele tem “abundância de energia dinâmica . . . Ele não se cansa nem se fatiga”. (Isaías 40:26, 28) Jeová usou uma vívida figura de linguagem para que pudéssemos entender seus sentimentos. Você alguma vez já carregou um peso por tanto tempo que, totalmente esgotado, desejava simplesmente livrar-se dele? Era assim que Jeová se sentia a respeito da adoração hipócrita de seu povo.
7. Por que Jeová deixou de ouvir as orações de seu povo?
7 A seguir, Jeová aborda o mais íntimo e pessoal dos atos de adoração. “Quando estendeis as palmas das vossas mãos, oculto de vós os meus olhos. Embora façais muitas orações, não escuto; as vossas próprias mãos se encheram de derramamento de sangue.” (Isaías 1:15) Estender os braços com as palmas das mãos viradas para cima é um gesto de súplica. Para Jeová esse gesto nada mais significava, pois as mãos daquele povo estavam cheias de derramamento de sangue. A violência grassava no país. A opressão contra os fracos era comum. Era repulsivo que esse povo injurioso e egoísta orasse a Jeová e pedisse bênçãos. Não é para menos que Jeová dissesse “não escuto”!
8. Que erro a cristandade comete hoje, e como alguns cristãos caem numa armadilha similar?
8 Hoje, a cristandade também tem falhado em ganhar o favor de Deus com as suas incessantes repetições de orações vãs e suas outras “obras” religiosas. (Mateus 7:21-23) É de importância vital não cairmos na mesma armadilha. Um cristão talvez passe a praticar um pecado grave. Daí, ele arrazoa que por simplesmente ocultar seus atos e aumentar suas atividades na congregação cristã suas obras de algum modo contrabalançarão o seu pecado. Tais obras formalistas não agradam a Jeová. Existe uma só cura para a doença espiritual, como mostram os versículos seguintes de Isaías.
Cura para a doença espiritual
9, 10. Que importância tem a limpeza na nossa adoração a Jeová?
9 Jeová, o Deus compassivo, muda agora para um tom mais caloroso, mais cativante. “Lavai-vos; limpai-vos; removei a ruindade das vossas ações de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; buscai a justiça; endireitai o opressor; fazei julgamento para o menino órfão de pai; pleiteai a causa da viúva.” (Isaías 1:16, 17) Temos aqui uma série de nove imperativos, ou ordens. Os primeiros quatro são negativos, no sentido de que envolvem a remoção de pecados; os últimos cinco são ações positivas, que resultam em bênçãos de Jeová.
10 Lavar e limpar sempre foram uma parte importante da adoração pura. (Êxodo 19:10, 11; 30:20; 2 Coríntios 7:1) Mas Jeová deseja que a limpeza seja mais profunda, que atinja o próprio coração de seus adoradores. O mais importante é a limpeza moral e espiritual, e é a isso que Jeová se refere. As duas primeiras ordens no versículo 16 de Is 1 não são mera repetição. Um gramático hebraico sugere que a primeira, “lavai-vos”, refere-se a um ato inicial do processo de limpeza, ao passo que a segunda, “limpai-vos”, refere-se a esforços constantes para manter tal limpeza.
11. Para combater o pecado, o que devemos fazer, e o que jamais devemos fazer?
11 Não podemos esconder nada de Jeová. (Jó 34:22; Provérbios 15:3; Hebreus 4:13) Assim, a sua ordem “removei a ruindade das vossas ações de diante dos meus olhos” só pode significar uma coisa — cessar de fazer o mal. Isso significa não tentar ocultar pecados graves, pois fazer isso é um pecado em si mesmo. Provérbios 28:13 alerta: “Quem encobre as suas transgressões não será bem-sucedido, mas, ter-se-á misericórdia com aquele que as confessa e abandona.”
12. (a) Por que é importante ‘aprender a fazer o bem’? (b) Como podem em especial os anciãos aplicar as diretrizes de ‘buscar a justiça’ e ‘endireitar o opressor’?
12 Há muito o que aprender das ações positivas que Jeová ordena no versículo 17 de Isaías, capítulo 1. Note que ele não diz meramente “fazei o bem”, mas sim “aprendei a fazer o bem”. É preciso estudo pessoal da Palavra de Deus para entender o que é bom aos olhos de Deus e querer fazer isso. Ademais, Jeová não diz meramente “fazei justiça”, mas sim “buscai a justiça”. Até mesmo anciãos experientes precisam pesquisar cabalmente a Palavra de Deus para descobrir qual é o proceder correto em certos assuntos complexos. É deles também o dever de ‘endireitar o opressor’, como Jeová ordenou a seguir. Essas diretrizes são importantes para os pastores cristãos atuais, pois eles desejam proteger o rebanho contra os “lobos opressivos”. — Atos 20:28-30.
13. Como podemos hoje aplicar as ordens a respeito dos órfãos e das viúvas?
13 As últimas duas ordens envolvem um segmento mais vulnerável do povo de Deus — os órfãos e as viúvas. O mundo não hesita em tirar proveito dessas pessoas, mas não deve ser assim entre o povo de Deus. Anciãos amorosos providenciam “julgamento” para os pequenos órfãos na congregação, cuidando de que recebam tratamento justo e proteção num mundo que deseja explorá-los e corrompê-los. Os anciãos ‘pleiteiam a causa’ da viúva ou, segundo outro sentido da palavra hebraica, “lutam” em favor dela. Realmente, todos os cristãos desejam ser uma fonte de refúgio, de consolo e de justiça para os necessitados no nosso meio, pois são preciosos para Jeová. — Miqueias 6:8; Tiago 1:27.
14. Que mensagem positiva é transmitida em Isaías 1:16, 17?
14 Que mensagem firme e positiva Jeová transmite por meio dessas nove ordens! Há casos em que os envolvidos em pecado convencem a si mesmos de que está simplesmente fora de seu alcance fazer o que é direito. É desanimador pensar assim. Além do mais, eles estão errados. Jeová sabe — e deseja que saibamos — que com a Sua ajuda, qualquer pecador pode abandonar o pecado, dar meia-volta e passar a agir direito.
Apelo compassivo e justo
15. Que mal-entendido ocorre às vezes com a frase “resolvamos as questões entre nós”, e o que ela realmente significa?
15 A seguir, Jeová usa um tom ainda mais caloroso e compassivo. “‘Vinde, pois, e resolvamos as questões entre nós’, diz Jeová. ‘Embora os vossos pecados se mostrem como escarlate, serão tornados brancos como a neve; embora sejam vermelhos como pano carmesim, tornar-se-ão como a lã.’” (Isaías 1:18) O convite que abre esse belo versículo muitas vezes é mal entendido. Por exemplo, a Bíblia Vozes diz: “Vinde, debatamos”, — como se as duas partes talvez tivessem de fazer concessões para chegarem a um acordo. Não é assim! Jeová não tinha culpa nenhuma, muito menos nos seus tratos com aquele povo rebelde e hipócrita. (Deuteronômio 32:4, 5) O versículo não fala de uma troca de concessões entre iguais, mas sim de um fórum para fazer justiça. É como se Jeová desafiasse Israel a um julgamento num tribunal.
16, 17. Como sabemos que Jeová se dispõe a perdoar até mesmo pecados graves?
16 Essa pode parecer uma ideia assustadora, mas Jeová é o mais misericordioso e compassivo Juiz que existe. A sua capacidade de perdoar não tem igual. (Salmo 86:5) Somente ele pode purgar os pecados “como escarlate” de Israel e deixá-los “brancos como a neve”. Nenhum esforço humano, nenhuma combinação de obras, de sacrifícios ou de orações podem remover a mancha do pecado. Apenas o perdão de Jeová pode lavar o pecado. Deus concede tal perdão sob termos que ele estabelece, que inclui arrependimento genuíno, de coração.
17 Essa verdade é tão importante que Jeová a repete numa variação poética — pecados de cor “carmesim” se tornarão como lã branca, nova, não tingida. Jeová quer que saibamos que ele é realmente o Perdoador de pecados, até mesmo de pecados gravíssimos, contanto que nos considere genuinamente arrependidos. Quem acha difícil crer que isso seja assim no seu caso, fará bem em considerar exemplos como o de Manassés. Ele pecou terrivelmente — por anos. No entanto, arrependeu-se e foi perdoado. (2 Crônicas 33:9-16) Jeová deseja que todos nós, incluindo quem cometeu pecados graves, saibamos que ainda não é tarde demais para ‘resolver as questões’ com ele.
18. Que escolha Jeová apresentou a seu povo rebelde?
18 Jeová lembra aos do seu povo que eles têm uma escolha a fazer. “Se quiserdes e deveras escutardes, comereis o bom da terra. Mas, se vos negardes e realmente fordes rebeldes, sereis consumidos pela espada; pois a própria boca de Jeová falou isto.” (Isaías 1:19, 20) Aqui Jeová destaca atitudes, e usa mais uma vívida figura de linguagem para realçar o ponto. Judá podia escolher: consumir ou ser consumido. Se tivessem boa vontade para ouvir e obedecer a Jeová, comeriam o produto bom da terra. Mas, se persistissem em sua rebeldia, seriam consumidos — pela espada de seus inimigos! É quase inimaginável que um povo preferisse a espada de seus inimigos à misericórdia e à fartura oferecidas por um Deus perdoador. Mas foi assim com Jerusalém, como mostram os versículos seguintes de Isaías.
Endecha sobre a cidade amada
19, 20. (a) Como Jeová expressou seu sentimento de ser traído? (b) Em que sentido ‘a justiça pousava em Jerusalém’?
19 Em Isaías 1:21-23 vemos a real dimensão da perversidade de Jerusalém naquela época. Isaías passa a apresentar um poema inspirado em estilo de endecha, ou lamento: “Como a vila fiel se tornou prostituta! Ela estava cheia de juízo [retidão]; a própria justiça costumava pousar nela, mas agora, assassinos.” — Isaías 1:21.
20 Como a cidade, Jerusalém, havia decaído! Outrora uma ‘esposa’ fiel, tornara-se prostituta. Que maneira mais veemente haveria para expressar o sentimento de ser traído e de desapontamento de Jeová? “A própria justiça costumava pousar” nessa cidade. Quando? Bem, mesmo antes de Israel existir, lá nos dias de Abraão, essa cidade se chamava Salém. Era governada por um homem que era tanto rei como sacerdote. Seu nome, Melquisedeque, significa “Rei da Justiça”, o que evidentemente lhe caía bem. (Hebreus 7:2; Gênesis 14:18-20) Uns mil anos depois de Melquisedeque Jerusalém atingiu o apogeu, nos reinados de Davi e de Salomão. “A própria justiça costumava pousar nela”, especialmente quando os reis davam exemplo para o povo, por andarem nos caminhos de Jeová. Nos dias de Isaías, porém, esses tempos já eram uma recordação distante.
21, 22. Que significam a escória e a cerveja diluída, e por que os líderes de Judá mereciam tal comparação?
21 Parece que grande parte do problema eram os líderes do povo. Isaías prossegue com seu lamento: “A própria prata tua tornou-se escória. Tua cerveja de trigo está diluída com água. Teus príncipes são obstinados e parceiros de ladrões. Cada um deles ama o suborno e corre atrás de presentes. Não fazem julgamento para o menino órfão de pai; e nem mesmo a causa da viúva chega perante eles.” (Isaías 1:22, 23) Duas vívidas figuras de linguagem em rápida sucessão definem o tom do que tem de vir a seguir. Na forja, o artífice escuma a escória da prata derretida e a joga fora. Os príncipes e os juízes de Israel eram como a escória, não como a prata. Tinham de ser descartados. Não valiam mais do que cerveja diluída com água, que perdeu o sabor. Tal bebida só serve para ser jogada no ralo!
22 O versículo 23 de Is 1 mostra por que os líderes mereciam essa comparação. A Lei mosaica havia enobrecido o povo de Deus, colocando-o à parte de outras nações. Fez isso, por exemplo, exigindo proteção para os órfãos e as viúvas. (Êxodo 22:22-24) Mas, nos dias de Isaías, o órfão de pai tinha pouca esperança de receber um julgamento favorável. Quanto à viúva, ela não conseguia nem mesmo que alguém ouvisse a sua causa, muito menos que a pleiteasse. Sim, aqueles juízes e líderes estavam ocupados demais na busca de seus próprios interesses — recebendo subornos, correndo atrás de presentes e servindo como parceiros de ladrões, evidentemente protegendo os criminosos e deixando suas vítimas sofrer. Pior ainda, eles eram “obstinados”, ou endurecidos, nas suas transgressões. Que situação lamentável!
Jeová refinaria seu povo
23. Que sentimentos para com seus adversários expressou Jeová?
23 Jeová não toleraria para sempre esse abuso de poder. Isaías continua: “Portanto, a pronunciação do verdadeiro Senhor, Jeová dos exércitos, o Potentado de Israel, é: ‘Ah! Aliviar-me-ei dos meus adversários e vou vingar-me dos meus inimigos.’” (Isaías 1:24) São dadas aqui três qualificações a Jeová, que acentuam a sua legítima autoridade e seu vasto poder. A exclamação “Ah!” provavelmente significa que a piedade de Jeová estava agora mesclada com a determinação de manifestar a sua ira. Certamente, havia razões para isso.
24. A que processo de refinamento Jeová decidiu submeter seu povo?
24 Os do próprio povo de Jeová haviam se transformado em inimigos de Jeová. Mereciam plenamente a vingança divina. Jeová ‘se aliviaria’, ou se livraria, deles. Significaria isso a completa e permanente extinção do povo que levava Seu nome? Não, pois Jeová prossegue: “E vou fazer minha mão retornar sobre ti e depurar-te-ei da tua escória como que com barrela, e vou remover todo o teu refugo.” (Isaías 1:25) Aqui Jeová usa como ilustração o processo de refinamento. Nos tempos antigos, o refinador adicionava barrela para ajudar a separar a escória do metal precioso. De modo similar, Jeová, que não considerava seu povo totalmente perverso, ‘o castigaria no devido grau’. Removeria dele apenas o “refugo” — os obstinados, os indesejáveis, que se recusavam a aprender e a obedecer.c (Jeremias 46:28) Com essas palavras, Isaías teve o privilégio de escrever história com antecedência.
25. (a) Como Jeová refinou seu povo em 607 AEC? (b) Quando Jeová refinou seu povo nos tempos modernos?
25 Jeová realmente refinou seu povo, removendo a escória — os líderes corruptos e outros rebeldes. Em 607 AEC, muito tempo depois dos dias de Isaías, Jerusalém foi destruída e seus moradores foram levados ao exílio de 70 anos, em Babilônia. Em certos sentidos, isso traça um paralelo com uma ação posterior de Deus. A profecia de Malaquias 3:1-5, escrita bem depois do exílio em Babilônia, mostrou que Deus faria de novo um refinamento. Apontou para o tempo em que Jeová Deus viria ao seu templo espiritual junto com seu “mensageiro do pacto”, Jesus Cristo. Isso, evidentemente, ocorreu no fim da Primeira Guerra Mundial. Jeová inspecionou todos os que diziam ser cristãos, separando os genuínos dos falsos. Com que resultado?
26-28. (a) Que cumprimento inicial teve Isaías 1:26? (b) Como essa profecia se cumpriu em nossos tempos? (c) Como pode essa profecia beneficiar os anciãos hoje?
26 Jeová responde: “Vou novamente trazer de volta juízes para ti, como no princípio, e conselheiros para ti, como no início. Depois serás chamada Cidade de Justiça, [Vila] Fiel. A própria Sião será remida com juízo [retidão], e os seus que retornam, com justiça.” (Isaías 1:26, 27) Na Jerusalém antiga houve um cumprimento inicial dessa profecia. Com a volta dos exilados para a sua cidade amada, em 537 AEC, havia de novo juízes e conselheiros fiéis, como no passado. Os profetas Ageu e Zacarias, o sacerdote Josué, o escriba Esdras e o governador Zorobabel, por exemplo, guiaram e orientaram nos caminhos de Deus o fiel restante que retornara do exílio. Contudo, um cumprimento ainda mais importante ocorreu no século 20.
27 Em 1919, o povo de Jeová dos tempos modernos emergiu do período de testes. Foi libertado da servidão espiritual à Babilônia, a Grande, o império mundial da religião falsa. A distinção entre aquele fiel restante ungido e o clero apóstata da cristandade ficou clara. Deus abençoou de novo o seu povo, ‘trazendo-lhes de volta juízes e conselheiros’ — homens fiéis que aconselham o povo de Deus à base de Sua Palavra e não à base de tradições humanas. Hoje, entre o decrescente “pequeno rebanho” e o crescente número de milhões de companheiros das “outras ovelhas”, existem milhares de homens assim. — Lucas 12:32; João 10:16; Isaías 32:1, 2; 60:17; 61:3, 4.
28 Os anciãos têm em mente que, às vezes, agem como “juízes” na congregação, para mantê-la moral e espiritualmente limpa e corrigir transgressores. Eles se preocupam profundamente em fazer as coisas à maneira de Deus, imitando seu misericordioso e equilibrado senso de justiça. Na maioria dos casos, porém, eles servem como “conselheiros”. Isso, naturalmente, é bem diferente de serem príncipes ou tiranos, e eles se esforçam ao máximo para jamais nem mesmo dar a impressão de ‘dominar sobre os que são a herança de Deus’. — 1 Pedro 5:3.
29, 30. (a) Qual era o recado de Jeová para quem não quisesse se beneficiar do refinamento? (b) Em que sentido as pessoas ‘se envergonhariam’ de suas árvores e de seus jardins?
29 Que dizer da “escória” mencionada na profecia de Isaías? O que aconteceria com quem não quisesse se beneficiar do processo de refinamento de Deus? Isaías continua: “E a derrocada dos revoltosos e a dos pecaminosos se dará ao mesmo tempo, e os que abandonam a Jeová chegarão ao seu fim. Pois, envergonhar-se-ão das árvores possantes que desejastes, e vós ficareis encabulados por causa dos jardins que escolhestes.” (Isaías 1:28, 29) Os que se revoltassem e pecassem contra Jeová, desprezando as mensagens alertadoras de Seus profetas até ser tarde demais, sem dúvida seriam ‘derrocados’ e ‘chegariam ao seu fim’. Isso aconteceu em 607 AEC. Mas o que significa essa alusão a árvores e a jardins?
30 Os judeus tinham um contumaz problema com a idolatria. Árvores, jardins e arvoredos muitas vezes figuravam nas suas práticas degradantes. Por exemplo, os adoradores de Baal e de sua consorte, Astorete, acreditavam que, na estação seca, essas duas divindades morriam e eram enterradas. Para induzi-las a despertar e a coabitar, trazendo fertilidade à terra, os idólatras se reuniam para praticar atos sexuais pervertidos debaixo de árvores “sagradas”, em arvoredos ou em jardins. Com a chegada das chuvas e da fertilidade, o crédito ia para os deuses falsos; para os idólatras, isso confirmava as suas superstições. Mas, quando Jeová causasse a derrocada desses idólatras rebeldes, nenhum deus-ídolo os protegeria. Os rebeldes ‘se envergonhariam’ dessas impotentes árvores e jardins.
31. O que, pior do que a vergonha, enfrentariam os idólatras?
31 Os idólatras judeus enfrentariam algo pior do que a vergonha, porém. Mudando a ilustração, Jeová a seguir compara o próprio idólatra a uma árvore. “[Vós] vos tornareis iguais a uma árvore grande cuja folhagem está murchando e iguais a um jardim sem água.” (Isaías 1:30) Essa ilustração se ajusta bem ao clima quente e seco do Oriente Médio. Nenhuma árvore ou jardim dura muito tempo sem um suprimento constante de água. Ressequida, essa vegetação é especialmente vulnerável ao fogo. Assim, a ilustração no versículo 31 de Is 1 é uma sequência natural.
32. (a) Quem é “o homem vigoroso” mencionado no versículo 31 de Is 1? (b) Em que sentido ele viraria “estopa”, que “faísca” o inflamaria, e com que resultado?
32 “O homem vigoroso há de tornar-se estopa, e o produto da sua atividade, uma faísca; e ambos hão de acender-se ao mesmo tempo, sem haver quem os apague.” (Isaías 1:31) Quem é esse “homem vigoroso”? No hebraico, essa expressão transmite a ideia de força e de riqueza. Provavelmente se refere ao próspero e autoconfiante adorador de deuses falsos. Nos dias de Isaías, como nos nossos, não faltam homens que rejeitam a Jeová e a sua adoração pura. Alguns até mesmo parecem ser bem-sucedidos. No entanto, Jeová alerta que tais homens serão como “estopa”, ou toscas fibras de linho, tão frágeis e secas que se desmancham, por assim dizer, ao simples cheiro de fogo. (Juízes 16:8, 9) O produto da atividade do idólatra — seus deuses-ídolos, sua riqueza, ou o que quer que ele adore em vez de a Jeová — será como a “faísca” de ignição. Tanto a faísca como a estopa serão consumidas, extintas, num fogo que ninguém poderá apagar. Nenhum poder no Universo pode anular os perfeitos julgamentos de Jeová.
33. (a) De que maneira os avisos de Deus sobre a vindoura execução também revelam a sua misericórdia? (b) Que oportunidade Jeová dá agora à humanidade, e como isso afeta a cada um de nós?
33 É essa mensagem final compatível com a mensagem de misericórdia e de perdão no versículo 18 de Is 1? Certamente que sim! Jeová fez com que tais avisos fossem escritos e transmitidos por seus servos justamente porque ele é misericordioso. Afinal, ele “não deseja que [ninguém] seja destruído, mas deseja que todos alcancem o arrependimento”. (2 Pedro 3:9) Todo cristão verdadeiro hoje tem o privilégio de proclamar as advertências de Deus à humanidade, para que os arrependidos possam se beneficiar de Seu generoso perdão e viver para sempre. Quão bondoso é da parte de Jeová dar à humanidade uma chance de ‘resolver as questões’ com ele, antes que seja tarde demais!
[Nota(s) de rodapé]
a Segundo a antiga tradição judaica, Isaías foi executado (serrado em pedaços) por ordem do perverso Rei Manassés. (Note Hebreus 11:37.) Segundo certa fonte, para justificar essa sentença de morte, um falso profeta fez esta acusação contra Isaías: “Ele chamou Jerusalém de Sodoma, e os príncipes de Judá e de Jerusalém ele declarou (ser) o povo de Gomorra.”
b A palavra hebraica para “poder mágico” é também traduzida por “aquilo que é prejudicial”, “aquilo que é misterioso” e “errôneo”. Segundo o Theological Dictionary of the Old Testament (Dicionário Teológico do Velho Testamento), os profetas hebreus usavam essa palavra para denunciar “o mal causado pelo mau uso do poder”.
c A expressão “vou fazer minha mão retornar sobre ti” significa que Jeová deixaria de apoiar o seu povo e passaria a puni-lo.
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