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Por que interessar-se em outras religiões?O Homem em Busca de Deus
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Capítulo 1
Por que interessar-se em outras religiões?
1-7. Quais são algumas manifestações das várias religiões do mundo?
INDEPENDENTE de onde você vive, sem dúvida tem visto por si mesmo como a religião influi na vida de milhões de pessoas, talvez também na sua. Em países em que se professa o hinduísmo, não raro vêem-se pessoas praticando puja — um ritual que pode incluir fazer oferendas a seus deuses, em forma de cocos, flores, e maçãs. Um sacerdote aplica na testa dos devotos uma pinta de pigmento vermelho ou amarelo, o tilaque. Além disso, milhões de pessoas afluem anualmente ao rio Ganges, para serem purificadas pelas suas águas.
2 Em países católicos, vêem-se pessoas orando em igrejas e catedrais com um crucifixo ou um rosário na mão. As contas do rosário são usadas para contar as orações feitas em devoção a Maria. E não é difícil identificar freiras e sacerdotes, com suas distintivas vestes pretas.
3 Em países protestantes há muitas capelas e igrejas e, aos domingos, os paroquianos geralmente vestem as suas melhores roupas e se reúnem para entoar hinos e ouvir sermões. Não raro os do clero usam terno preto e colarinho típico.
4 Em países islâmicos, pode-se ouvir a voz dos muezins, os anunciadores muçulmanos que, cinco vezes por dia, fazem a convocação do alto das almádenas, chamando os fiéis para a ṣalāt, ou oração ritual. Eles encaram o Santo Qur’ān (Alcorão) como livro islâmico de escritos sagrados. Segundo a crença islâmica, ele foi revelado por Deus e dado ao profeta Maomé pelo anjo Gabriel, no sétimo século EC.
5 Nas ruas de muitos países budistas, os monges do budismo, usualmente trajando túnicas de cor açafrão, preta, ou vermelha, são vistos como símbolo de vida devota. Templos antigos, com o sereno Buda à mostra, são evidência da antiguidade da fé budista.
6 Praticado especialmente no Japão, o xintoísmo entra no cotidiano com pequenos santuários familiares e oferendas a antepassados. Os japoneses se sentem à vontade para orar em prol dos mais temporais assuntos, até mesmo pelo êxito em exames escolares.
7 Outra atividade religiosa conhecida em todo o mundo é pessoas irem de casa em casa e se postarem nas ruas com Bíblias e publicações bíblicas. Com as revistas A Sentinela e Despertai! em destaque, quase todos reconhecem tais pessoas como Testemunhas de Jeová.
8. O que indica a história da devoção religiosa?
8 O que indica essa grande variedade mundial de devoção religiosa? Indica que, por milhares de anos, a humanidade tem sentido necessidade e anseio espiritual. O homem tem convivido com as suas provações e cargas, suas dúvidas e indagações, incluindo o enigma da morte. Os sentimentos religiosos têm sido expressos de muitas maneiras, à medida que as pessoas se têm voltado para Deus ou para seus deuses, em busca de bênçãos e refrigério. A religião tenta também resolver as grandes questões: Por que existimos? Como devemos viver? O que o futuro reserva para a humanidade?
9. Em que sentido a maioria das pessoas pratica na sua vida algum tipo de devoção religiosa?
9 Por outro lado, há milhões de pessoas que não professam religião alguma, tampouco qualquer crença num deus. São ateus. Outros, agnósticos, crêem que Deus é desconhecido e, provavelmente, desconhecível. Contudo, isso obviamente não significa que sejam pessoas sem princípios ou sem ética, assim como o professar alguém uma religião não significa necessariamente que os tenha. Contudo, se se aceita a religião como sendo “devoção a um princípio; estrita fidelidade ou lealdade; conscientização; pia afeição ou apego”, então, neste caso, a maioria das pessoas, incluindo ateus e agnósticos, pratica deveras algum tipo de devoção religiosa na sua vida. — The Shorter Oxford English Dictionary.
10. Tem a religião causado impacto no mundo moderno? Ilustre.
10 Havendo tantas religiões num mundo que fica cada vez menor por causa dos cada vez mais rápidos meios de locomoção e de comunicação, o impacto das diversificadas crenças é sentido mundialmente, quer gostemos disso, quer não. A ira que se acendeu em 1989 por causa do livro The Satanic Verses (Versos Satânicos), escrito por alguém que alguns chamam de ‘muçulmano apóstata’, é evidência clara de como o sentimento religioso pode manifestar-se em escala global. Houve apelos da parte de líderes islâmicos para que esse livro fosse banido, e até mesmo que seu autor fosse morto. O que leva as pessoas a reagirem tão veementemente sobre assuntos religiosos?
11. Por que não é errado examinar outras crenças?
11 Para responder a isso, temos de conhecer algo a respeito dos antecedentes das religiões do mundo. Como Geoffrey Parrinder declara em World Religions—From Ancient History to the Present (Religiões do Mundo — Da História Antiga ao Presente): “Estudar diferentes religiões não necessariamente implica infidelidade para com a própria fé da pessoa, mas, antes, esta pode ser ampliada por se observar como outras pessoas têm ido em busca da realidade e têm sido enriquecidas por sua busca.” O conhecimento leva ao entendimento, e o entendimento à tolerância para com pessoas que tenham um ponto de vista diferente.
Por Que Investigar?
12. Que fatores em geral determinam a religião da pessoa?
12 Já pensou ou disse alguma vez: ‘Tenho minha própria religião. É um assunto muito pessoal. Não discuto isso com outros’? É verdade, religião é um assunto muito pessoal — virtualmente desde o nascimento conceitos religiosos ou éticos são implantados na nossa mente por nossos pais e parentes. Conseqüentemente, em geral seguimos os ideais religiosos de nossos pais e avós. A religião se tem tornado quase um assunto de tradição familiar. Qual é o resultado desse processo? É que, em muitos casos, outros escolheram por nós a nossa religião. Tem sido simplesmente uma questão de onde nascemos e quando. Ou, como disse o historiador Arnold Toynbee, ser o indivíduo adepto de certa crença é muitas vezes determinado pela “localização geográfica do lugar em que ele nasceu”.
13, 14. Por que não é razoável presumir que a religião de nascimento da pessoa seja automaticamente aprovada por Deus?
13 É razoável supor que a religião a nós imposta por ocasião do nosso nascimento seja necessariamente a inteira verdade? Se você nasceu na Itália ou na América do Sul, por exemplo, é provável que, sem escolha própria, tenha sido criado como católico. Se tivesse nascido na Índia, é provável que automaticamente se teria tornado hindu, ou, se no Punjab, talvez sique. Se seus pais fossem do Paquistão, então você obviamente seria muçulmano. E, caso tivesse nascido num país socialista nas últimas décadas, você talvez não teria opção senão ser criado como ateu. — Gálatas 1:13, 14; Atos 23:6.
14 Por conseguinte, é a religião de nascimento da pessoa automaticamente a verdadeira, aprovada por Deus? Se este tivesse sido o conceito seguido ao longo dos milênios, muitos da humanidade ainda estariam praticando o primitivo xamanismo e os antigos cultos da fertilidade, à base da premissa de que ‘o que foi bom para meus antepassados é bom para mim’.
15, 16. Que benefícios resultam de examinar outras religiões?
15 Com a ampla diversidade de expressão religiosa que se desenvolveu ao redor do mundo nos últimos 6.000 anos, entender o que outros crêem e como as suas crenças se originaram é, no mínimo, instrutivo e amplia os horizontes mentais. E pode também abrir perspectivas de uma esperança mais concreta para o seu futuro.
16 Atualmente, em muitos países, devido à imigração e ao deslocamento de populações, pessoas de diferentes religiões moram na mesma comunidade. Assim, entender o ponto de vista uns dos outros pode levar a uma comunicação e a um diálogo mais significativo entre pessoas de diferentes crenças. É possível, também, que isto dissipe parte do ódio no mundo, fundado em diferenças religiosas. É verdade que as pessoas talvez discordem veementemente entre si nas suas crenças religiosas, mas não existe base para odiar uma pessoa só porque ela tem um ponto de vista diferente. — 1 Pedro 3:15; 1 João 4:20, 21; Revelação (Apocalipse) 2:6.
17. Por que não devemos odiar aqueles cujo conceito religioso difere do nosso?
17 A antiga lei judaica declarava: “Não deves odiar teus familiares em teu coração. Censura teu parente, mas não incorra em culpa por causa dele. Não deves vingar-te nem abrigar rancor contra teu compatriota. Ama a teu próximo como a ti mesmo: Eu sou o SENHOR [Jeová].” (Levítico 19:17, 18, Ta) O Fundador do cristianismo declarou: “Mas, eu digo a vós, os que estais escutando: Continuai a amar os vossos inimigos, a fazer o bem aos que vos odeiam, . . . e a vossa recompensa será grande, e sereis filhos do Altíssimo, porque ele é benigno para com os ingratos e os iníquos.” (Lucas 6:27, 35) Sob o cabeçalho “Ela Que Há de Ser Examinada”, o Alcorão declara um princípio similar (surata 60:7, MMP): “É possível que Alá faça surgir amizade entre ti e aqueles dentre eles que tu consideras como inimigos. E Alá é Poderoso; e Alá é Perdoador, Misericordioso.”
18. Em que sentido faz diferença o que a pessoa crê?
18 Contudo, ao passo que a tolerância e o entendimento sejam necessários, isto não significa que não faz diferença em que a pessoa crê. Como declarou o historiador Geoffrey Parrinder: “Diz-se às vezes que todas as religiões têm o mesmo alvo, ou que são caminhos que igualmente levam à verdade, ou até mesmo que todas elas ensinam as mesmas doutrinas . . . No entanto, os antigos astecas, que erguiam para o sol o coração pulsante de suas vítimas, certamente não tinham uma religião tão boa como a do pacífico Buda.” Além do mais, quando se trata de adoração, não é o próprio Deus que deve determinar o que é e o que não é aceitável? — Miquéias 6:8.
Como Se Deve Avaliar a Religião?
19. Como deve a religião influir na conduta da pessoa?
19 Ao passo que a maioria das religiões têm um conjunto de crenças ou doutrinas, estas podem não raro constituir uma teologia muito complicada, além do entendimento do leigo mediano. Todavia, o princípio de causa e efeito se aplica em todos os casos. Os ensinamentos de uma religião devem influir na personalidade e na conduta diária do crente. Assim, a conduta de cada pessoa normalmente será um reflexo, num maior ou menor grau, da formação religiosa dessa pessoa. Que efeito tem a sua religião sobre você? Produz ela uma pessoa mais bondosa? Mais generosa, honesta, humilde, tolerante e compassiva? Estas são perguntas razoáveis, pois, como declarou certo grande instrutor religioso, Jesus Cristo: “Toda árvore boa produz fruto excelente, mas toda árvore podre produz fruto imprestável; a árvore boa não pode dar fruto imprestável, nem pode a árvore podre produzir fruto excelente. Toda árvore que não produz fruto excelente é cortada e lançada no fogo. Realmente, pois, pelos seus frutos reconhecereis estes homens.” — Mateus 7:17-20.
20. Que perguntas surgem quanto à religião e à história?
20 Certamente, a história universal deve fazer-nos parar para pensar e nos perguntar que papel a religião tem desempenhado nas muitas guerras que têm devastado a humanidade e causado indizíveis sofrimentos. Por que tantas pessoas matam e são mortas em nome da religião? As Cruzadas, a Inquisição, os conflitos no Oriente Médio e na Irlanda do Norte, a matança entre o Iraque e o Irã (1980-88), os conflitos entre hindus e siques na Índia — todos estes acontecimentos certamente fazem com que pessoas refletidas suscitem perguntas sobre crenças e ética religiosas. — Veja quadro abaixo.
21. Quais são alguns dos frutos da cristandade?
21 O domínio da cristandade tem sido notável por sua hipocrisia neste campo. Em duas guerras mundiais, católico matou católico e protestante matou protestante às instâncias de seus líderes políticos “cristãos”. Não obstante, a Bíblia contrasta claramente as obras da carne com os frutos do espírito. A respeito das obras da carne, ela diz: “[Estas] são fornicação, impureza, conduta desenfreada, idolatria, prática de espiritismo, inimizades, rixa, ciúme, acessos de ira, contendas, divisões, seitas, invejas, bebedeiras, festanças e coisas semelhantes a estas. Quanto a tais coisas, aviso-vos de antemão, do mesmo modo como já vos avisei de antemão, de que os que praticam tais coisas não herdarão o reino de Deus.” Todavia, os chamados cristãos há séculos praticam tais coisas, e a sua conduta não raro tem sido tolerada pelo seu clero. — Gálatas 5:19-21.
22, 23. Em contraste, que frutos devia produzir a religião verdadeira?
22 Em contraste, os positivos frutos do espírito são assim descritos: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, brandura, autodomínio. Contra tais coisas não há lei.” Todas as religiões deviam produzir este tipo de frutos pacíficos. Será que produzem? Que dizer de sua religião? — Gálatas 5:22, 23.
23 Portanto, o exame que este livro faz da busca de Deus, por parte da humanidade, através das religiões do mundo, deve servir para responder a algumas de nossas perguntas. Mas, por que critérios deve uma religião ser julgada? À base dos padrões de quem?
‘Minha Religião É Boa Para Mim’
24, 25. Que desafio se apresenta a cada pessoa a respeito de sua religião?
24 Muitos evitam falar sobre religião, dizendo: ‘Minha religião é boa para mim. Não faço mal a ninguém, e ajudo outros quando posso.’ Mas, será que isso é tudo? Basta nosso critério pessoal a respeito de religião?
25 Se a religião é “a expressão da crença e da reverência do homem para com um poder sobre-humano reconhecido como criador e regente do universo”, como diz certo dicionário, então, com certeza, a pergunta deve ser: É a minha religião suficientemente boa para o criador e regente do universo? Também, neste caso, o Criador teria o direito de estabelecer o que é conduta, adoração e doutrina aceitáveis e o que não é. Para fazer isso, ele tem de revelar a sua vontade para a humanidade, e essa revelação tem de estar facilmente disponível e acessível a todos. Ademais, as suas revelações, mesmo que providas com séculos de intervalo, devem ser sempre harmoniosas e coerentes. Isto representa um desafio para cada pessoa — examinar as evidências e provar para si mesmo qual é a aceitável vontade de Deus.
26. Que livro sagrado deve servir como padrão de avaliação para a adoração verdadeira? E por quê?
26 Um dos mais antigos livros que afirma ser inspirado por Deus é a Bíblia. É também o livro de maior circulação, e traduzido para o maior número de idiomas, em toda a história. Cerca de dois mil anos atrás, um de seus escritores declarou: “Cessai de ser modelados segundo este sistema de coisas, mas sede transformados por reformardes a vossa mente, a fim de provardes a vós mesmos a boa, e aceitável, e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:2) Qual seria a fonte de tal prova? O mesmo escritor disse: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e proveitosa para ensinar, para repreender, para endireitar as coisas, para disciplinar em justiça, a fim de que o homem de Deus seja plenamente competente, completamente equipado para toda boa obra.” Portanto, a Bíblia inspirada deve servir como confiável padrão de avaliação para a adoração verdadeira e aceitável. — 2 Timóteo 3:16, 17.
27. (a) Quais são os escritos sagrados de algumas religiões do mundo? (b) Como devemos avaliar os ensinos destes em comparação com os da Bíblia?
27 A parte mais antiga da Bíblia é de data anterior à de todos os outros escritos religiosos do mundo. A Tora, ou os primeiros cinco livros da Bíblia, a Lei que Moisés escreveu sob inspiração, remonta aos séculos 15 e 16 AEC. Em comparação, os escritos hindus do Rig Veda (coleção de hinos) foram terminados por volta de 900 AEC e não reivindicam inspiração divina. O budista “Cânon dos Três Cestos” data do quinto século AEC. O Qur’ān (Alcorão), que se afirma ter sido transmitido por Deus através do anjo Gabriel, é um produto do sétimo século da EC. O Livro de Mórmon, alegadamente dado a Joseph Smith nos Estados Unidos por um anjo chamado Moroni, é um produto do século 19. Se algumas dessas obras são divinamente inspiradas, como alguns afirmam, então, o que elas oferecem em termos de orientação religiosa não deve contradizer os ensinamentos da Bíblia, que é a fonte inspirada original. Devem também responder a algumas das perguntas mais intrigantes da humanidade.
Perguntas Que Exigem Uma Resposta
28. Quais são algumas das perguntas que exigem uma resposta?
28 (1) Será que a Bíblia ensina o que a maioria das religiões ensina, e o que muitos crêem, isto é, que os humanos têm uma alma imortal e que, na morte esta se transfere para outro domínio, o “além”, o céu, o inferno ou o purgatório, ou que retorna numa reencarnação?
(2) Ensina a Bíblia que o Soberano Senhor do universo é anônimo? Ensina ela que ele é um só Deus? ou três pessoas num só Deus? ou muitos deuses?
(3) Qual, segundo a Bíblia, era o propósito original de Deus ao criar a humanidade para a vida na terra?
(4) Ensina a Bíblia que a terra será destruída? Ou será que ela apenas indica um fim, ou conclusão, para o corrupto sistema mundial?
(5) Como se pode realmente conseguir a paz interior e a salvação?
29. (a) Qual é o princípio básico que deve guiar a nossa busca da verdade? (b) Que respostas supre a Bíblia às nossas perguntas?
29 Cada religião tem diferentes respostas, mas, em nossa busca da “religião pura”, devemos por fim chegar às conclusões a que Deus deseja que cheguemos. (Tiago 1:27; Al; So) Por que podemos dizer isso? Porque o nosso princípio básico será: “Seja Deus achado verdadeiro, embora todo homem seja achado mentiroso, assim como está escrito: ‘Que sejas mostrado justo nas tuas palavras e venças quando estiveres sendo julgado.’” — Romanos 3:4.a
30. Quais são algumas das perguntas que serão consideradas no próximo capítulo?
30 Agora que temos uma base para examinar as religiões do mundo, voltemos aos primórdios dessa procura de espiritualidade, por parte da humanidade. O que sabemos sobre como a religião começou? Que padrões de adoração foram estabelecidos entre os antigos e talvez primitivos povos?
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Religião — como começou?O Homem em Busca de Deus
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Capítulo 2
Religião — como começou?
1, 2. O que se tem observado a respeito de antiguidade e variedade na religião?
A HISTÓRIA da religião é tão antiga como a história do próprio homem. É isto o que nos dizem os arqueólogos e os antropólogos. Mesmo entre as civilizações mais “primitivas”, querendo-se com isso dizer as civilizações não desenvolvidas, há evidências de algum tipo de adoração. De fato, The New Encyclopœdia Britannica (Nova Enciclopédia Britânica) diz que “até onde os peritos conseguiram descobrir, jamais existiu um povo, em qualquer parte, em qualquer tempo, que não fosse de algum modo religioso”.
2 Além de sua antiguidade, há também grande variedade na religião. Os caçadores de cabeças nas selvas do Bornéu, os esquimós no gelado Ártico, os nômades no deserto do Saara, os habitantes das grandes metrópoles do mundo — todo povo e toda nação na terra têm seu deus ou deuses e seu modo próprio de adoração. A diversidade de religião é realmente atordoante.
3. Que perguntas sobre as religiões do mundo têm de ser consideradas?
3 Logicamente, surgem perguntas. De onde se originaram todas essas religiões? Visto que existem notáveis diferenças entre elas, bem como similaridades, será que elas começaram independentemente, ou poderiam ter-se desenvolvido de uma única fonte? Deveras, podemos perguntar: Por que surgiu a religião? E como? As respostas a estas perguntas são de importância vital para todos os que se interessam em encontrar a verdade a respeito de religião e crenças religiosas.
A Questão da Origem
4. O que sabemos a respeito dos fundadores de muitas religiões?
4 Quando se trata da questão da origem, pessoas de diferentes religiões pensam em nomes tais como Maomé, o Buda, Confúcio, e Jesus. Em quase toda religião existe uma figura central a quem se dá o crédito de ter estabelecido a ‘verdadeira fé’. Alguns destes eram reformadores iconoclastas. Outros eram filósofos moralísticos. Ainda outros eram altruístas heróis populares. Muitos deles deixaram escritos e dizeres que formaram a base de uma nova religião. Com o tempo, aquilo que disseram e fizeram foi ampliado, floreado, e se lhe conferiu uma aura mística. Alguns destes líderes foram até mesmo deificados.
5, 6. Qual foi a origem de muitas das religiões?
5 Embora estes indivíduos sejam tidos como fundadores das principais religiões conhecidas, deve-se dizer que eles realmente não deram origem à religião. Na maioria dos casos, seus ensinos nasceram de conceitos religiosos já existentes, ainda que a maioria destes fundadores afirmasse que tiveram como fonte a inspiração divina. Ou, então, eles mudaram e alteraram sistemas religiosos existentes que, de uma ou de outra maneira, se haviam tornado insatisfatórios.
6 Por exemplo, segundo o que diz a história, o Buda havia sido um príncipe que se estarrecia diante do sofrimento e das condições deploráveis que via ao seu redor, numa sociedade dominada pelo hinduísmo. O budismo foi o resultado de sua busca de uma solução para os aflitivos problemas da vida. Similarmente, Maomé sentia-se muito consternado diante da idolatria e da imoralidade que observava nas práticas religiosas ao seu redor. Mais tarde afirmou ter recebido revelações especiais de Deus, que formaram o Qur’ān (Alcorão) e se tornaram a base de um novo movimento religioso, o Islã. O protestantismo nasceu do catolicismo, em resultado da Reforma que começou no início do século 16, quando Martinho Lutero protestou contra a venda de indulgências pela Igreja Católica naquele tempo.
7. Que pergunta a respeito de religião ainda precisa ser respondida?
7 Assim, no que tange às religiões hoje existentes, não há falta de informações sobre sua origem e desenvolvimento, seus fundadores, seus escritos sagrados, e assim por diante. Mas, que dizer das religiões que existiram antes delas? E daquelas até mesmo anteriores a essas? Se recuarmos o suficiente na história, mais cedo ou mais tarde nos confrontaremos com a pergunta: Como começou a religião? Obviamente, para encontrarmos a resposta a esta pergunta, temos de olhar além dos limites de cada religião individualmente.
Muitas Teorias
8. Por séculos, qual era a atitude do povo com respeito à religião?
8 O estudo da origem e do desenvolvimento da religião é um campo relativamente novo. Por séculos, as pessoas de modo geral aceitavam as tradições religiosas que herdaram, e segundo as quais foram criadas. A maioria se sentia satisfeita com as explicações que lhes eram legadas por seus antepassados, achando que a sua religião era a verdade. Raramente havia razão para questionar algo, tampouco a necessidade de investigar como, quando ou por que as coisas começaram. De fato, por séculos, com limitados meios de locomoção e comunicação, poucas pessoas sequer sabiam da existência de outros sistemas religiosos.
9. Desde o século 19, que tentativas se têm feito para descobrir como e por que a religião começou?
9 Durante o século 19, porém, o quadro começou a mudar. A teoria da evolução empolgava os círculos intelectuais. Isto, junto com o advento da inquirição científica, levou muitos a questionar os sistemas estabelecidos, incluindo a religião. Reconhecendo as limitações quanto a procurar pistas dentro da religião existente, alguns estudiosos voltaram-se para os vestígios de primitivas civilizações, ou para cantos remotos do mundo onde as pessoas ainda viviam em sociedades primitivas. Tentaram aplicar a tais os métodos da psicologia, sociologia, antropologia, e assim por diante, esperando descobrir uma pista quanto a como a religião começou, e por quê.
10. Qual foi o resultado das investigações quanto à origem da religião?
10 Com que resultado? Subitamente, irromperam em cena muitas teorias — aparentemente tantas quanto o número de investigadores — cada investigador contrariando o outro, e cada qual se empenhando em sobrepujar o outro em ousadia e originalidade. Alguns destes pesquisadores chegaram a conclusões importantes; o trabalho de outros simplesmente caiu no esquecimento. É tanto instrutivo como esclarecedor obtermos uma breve visão dos resultados dessas pesquisas. Isto nos ajudará a entendermos melhor as atitudes religiosas das pessoas com as quais entramos em contato.
11. Explique a teoria do animismo.
11 Uma teoria, em geral chamada de animismo, foi proposta pelo antropólogo inglês Edward Tylor (1832-1917). Ele sugeriu que experiências tais como sonhos, visões, alucinações e o estado inerte de cadáveres levaram os povos primitivos a concluir que o corpo é habitado por uma alma (latim: anima). Segundo esta teoria, visto que eram freqüentes os sonhos com entes queridos falecidos, presumia-se que uma alma continuava a viver após a morte, que deixava o corpo e morava em árvores, rochas, rios, e assim por diante. Por fim, os mortos e os objetos nos quais se dizia que as almas habitavam vieram a ser adorados como deuses. E assim, disse Tylor, nasceu a religião.
12. Explique a teoria do animatismo.
12 Outro antropólogo inglês, R. R. Marett (1866-1943), propôs um aprimoramento do animismo, que chamou de animatismo. Depois de estudar as crenças dos melanésios das ilhas do Pacífico, e dos nativos da África e da América, Marett concluiu que, em vez de terem a noção de uma alma pessoal, os povos primitivos criam que existia uma força impessoal ou poder sobrenatural que dava vida a todas as coisas; tal crença provocou sentimentos de reverência e temor no homem, o que se tornou a base para sua primitiva religião. Para Marett, a religião era principalmente a reação emocional do homem diante do desconhecido. Sua declaração preferida era a de que religião “é menos uma questão de razão do que de danças ritualísticas”.
13. Que teoria sobre religião propôs James Frazer?
13 Em 1890, um especialista escocês em folclore antigo, James Frazer (1854-1941), publicou o influente livro The Golden Bough (O Ramo Dourado), no qual argumenta que a religião surgiu da magia. Segundo Frazer, o homem tentou primeiro controlar a sua própria vida e o seu meio por imitar o que via acontecer na natureza. Por exemplo, ele pensava que poderia provocar chuva por borrifar água no solo junto com trovejantes batidas de tambor, ou que poderia causar dano a seu inimigo por espetar alfinetes numa efígie. Isto levou ao uso de ritos, feitiços e objetos mágicos em muitos aspectos da vida. Quando estes não funcionaram como se esperava, o homem passou então a tentar aplacar os poderes sobrenaturais e a suplicar a ajuda deles, em vez de tentar controlá-los. Os rituais e magias viraram sacrifícios e orações e, assim, começou a religião. Segundo Frazer, religião é “a propiciação ou conciliação de poderes superiores ao homem”.
14. Como explicou Sigmund Freud a origem da religião?
14 Até mesmo o famoso psicanalista austríaco Sigmund Freud (1856-1939), em seu livro Totem and Taboo (Totem e Tabu), tentou explicar a origem da religião. Fiel à sua profissão, Freud explicou que a mais primitiva religião surgiu do que chamou de neurose ligada à figura do pai. Teorizou que, como se dava no caso de cavalos e gado selvagens, na sociedade primitiva o pai dominava o clã. Os filhos homens, que tanto odiavam como admiravam o pai, rebelavam-se e matavam o pai. Para adquirir o poder do pai, afirmava Freud, ‘estes selvagens canibalistas comiam a sua vítima’. Mais tarde, por causa do remorso, eles inventaram ritos e cerimônias para reparar a sua ação. Segundo a teoria de Freud, a figura do pai virou Deus, os ritos e as cerimônias passaram a ser a mais primitiva religião, e comer o pai assassinado passou a ser a comunhão, tradição praticada em muitas religiões.
15. O que tem acontecido à maioria das teorias apresentadas a respeito da origem da religião?
15 Poderiam ser citadas numerosas outras teorias que são tentativas de explicar a origem da religião. A maioria delas, porém, foi esquecida, e nenhuma realmente se destacou como sendo mais crível e aceitável do que as outras. Por quê? Simplesmente porque nunca existiu uma evidência histórica ou prova de que tais teorias fossem verídicas. Eram puramente produtos da imaginação ou conjectura de algum investigador, que logo eram substituídos pela conjectura seguinte.
Um Fundamento Falho
16. Por que anos de investigação fracassaram em prover a explicação sobre como surgiu a religião?
16 Depois de anos se debatendo com o assunto, muitos agora chegaram à conclusão de que é muito improvável que se encontre uma solução definitiva para a pergunta sobre como a religião começou. Em primeiro lugar, isto se dá porque os ossos e outros vestígios de povos antigos não nos dizem o que essas pessoas pensavam, o que temiam, ou por que adoravam. Quaisquer conclusões tiradas à base dessas relíquias são, quando muito, especulações eruditas. Ademais, as práticas religiosas dos atuais chamados povos primitivos, tais como os aborígenes australianos, não são necessariamente um confiável padrão para avaliar o que as pessoas dos tempos antigos faziam ou pensavam. Ninguém sabe ao certo se ou como a cultura deles mudou ao longo dos séculos.
17. (a) O que sabem modernos historiadores de religião? (b) Qual parece ser a principal preocupação ao se analisar religião?
17 Por causa de todas as incertezas, o livro Religiões do Mundo — da História Antiga ao Presente (em inglês) conclui que “os modernos historiadores de religião sabem que é impossível chegar às origens da religião”. A respeito dos empenhos de historiadores, porém, o livro faz a seguinte observação: “No passado, a preocupação de demasiado número de teóricos não era simplesmente descrever ou explicar a religião, mas sim, invalidá-la, achando que, se ficasse demonstrado que as primitivas formas se baseavam em ilusões, então, as religiões posteriores e mais desenvolvidas poderiam ser minadas.”
18. (a) Por que os muitos investigadores têm fracassado em explicar a origem da religião? (b) Quais, aparentemente, eram as reais intenções de investigadores “científicos” de religião?
18 Neste último comentário encontra-se a chave quanto a por que vários investigadores “científicos” da origem da religião não apareceram com alguma explicação sustentável. Diz-nos a lógica que uma conclusão correta só se pode deduzir de uma premissa correta. Caso se inicie com uma premissa falha, é improvável que se chegue a uma conclusão sólida. O repetido fracasso dos investigadores “científicos” de chegar a uma explicação razoável lança sérias dúvidas sobre a premissa na qual eles baseiam os seus conceitos. Por seguirem seu conceito preconcebido, em seus empenhos de ‘invalidar a religião’, eles têm tentado invalidar a Deus.
19. Qual é um princípio básico por trás de bem-sucedidas investigações científicas? Ilustre.
19 A situação é comparável às muitas maneiras pelas quais os astrônomos antes do século 16 tentavam explicar o movimento dos planetas. Havia muitas teorias, mas nenhuma delas era realmente satisfatória. Por quê? Porque se baseavam na suposição de que a terra era o centro do universo, ao redor do qual as estrelas e os planetas giravam. Não se fez real progresso até que os cientistas — e a Igreja Católica — estivessem dispostos a aceitar o fato de que a terra não é o centro do universo, mas sim que gira em volta do sol, o centro do sistema solar. O fracasso das muitas teorias em explicar os fatos levou pessoas de mentalidade aberta, não a tentarem aventar novas teorias, mas sim a reexaminar a premissa de suas investigações. E isto levou ao êxito.
20. (a) Qual era a premissa errônea sobre a qual se fundava a investigação “científica” da origem da religião? (b) A que necessidade fundamental referiu-se Voltaire?
20 Pode-se aplicar o mesmo princípio à investigação da origem da religião. Por causa do aumento do ateísmo e da ampla aceitação da teoria da evolução, muitos pressupõem que Deus não existe. Baseados nessa suposição, eles acham que a explicação para a existência da religião deve ser encontrada no próprio homem — em seus processos de raciocínio, suas necessidades, seus temores, suas “neuroses”. Voltaire declarou: “Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo.” Assim, eles argumentam que o homem inventou a Deus. — Veja quadro, página 28.
21. Que conclusão lógica podemos tirar do fracasso das muitas teorias a respeito da origem da religião?
21 Visto que as muitas teorias fracassaram em prover uma resposta realmente satisfatória, não é agora tempo de reexaminar a premissa sobre a qual estas investigações se basearam? Em vez de infrutiferamente insistir no mesmo procedimento, não seria lógico recorrer a outra parte em busca da resposta? Se nos dispusermos a ter uma mentalidade aberta, concordaremos que fazer isso é tanto razoável como científico. E temos um exemplo bem ilustrativo, que nos ajuda a ver a lógica por trás deste proceder.
Uma Inquirição Antiga
22. Como foi que as muitas teorias dos atenienses a respeito de seus deuses influíram na sua maneira de adorar?
22 No primeiro século de nossa Era Comum, Atenas, na Grécia, era um proeminente centro de aprendizado. Entre os atenienses, porém, havia diversas escolas de pensamento, tais como os epicureus e os estóicos, cada qual com seus próprios conceitos a respeito dos deuses. Com base nestes vários conceitos, veneravam-se muitas deidades, e desenvolveram-se diferentes maneiras de adoração. Em resultado, a cidade estava repleta de ídolos e de templos de fabricação humana. — Atos 17:16.
23. Que conceito totalmente diferente sobre Deus apresentou o apóstolo Paulo aos atenienses?
23 Por volta do ano 50 EC, o apóstolo cristão Paulo visitou Atenas e apresentou aos atenienses um ponto de vista totalmente diferente. Ele lhes disse: “O Deus que fez o mundo e todas as coisas nele, sendo, como Este é, Senhor do céu e da terra, não mora em templos feitos por mãos, nem é assistido por mãos humanas, como se necessitasse de alguma coisa, porque ele mesmo dá a todos vida, e fôlego, e todas as coisas.” — Atos 17:24, 25.
24. Na realidade, o que estava Paulo dizendo aos atenienses a respeito da adoração verdadeira?
24 Em outras palavras, Paulo dizia aos atenienses que o verdadeiro Deus, que “fez o mundo e todas as coisas nele”, não é produto da imaginação do homem, tampouco é ele servido através de meios que o homem possa conceber. A religião verdadeira não é mero esforço unilateral da parte do homem no sentido de tentar suprir uma determinada necessidade psicológica ou debelar um certo temor. Em vez disso, visto que o verdadeiro Deus é o Criador, que deu ao homem a capacidade de raciocínio e a faculdade da razão, é somente lógico que Ele provesse um meio de o homem vir a entrar numa relação satisfatória com ele. Isto, segundo Paulo, foi exatamente o que Deus fez. “Ele fez de um só homem toda nação dos homens, para morarem sobre a superfície inteira da terra, . . . para buscarem a Deus, se tateassem por ele e realmente o achassem, embora, de fato, não esteja longe de cada um de nós.” — Atos 17:26, 27.
25. Explique o ponto-chave do argumento de Paulo a respeito da origem da humanidade.
25 Note o ponto-chave de Paulo: Deus “fez de um só homem toda nação dos homens”. Embora existam hoje muitas ‘nações de homens’ em todos os cantos da terra, os cientistas sabem que, deveras, toda a humanidade descende de um mesmo tronco. Este conceito é de grande importância, pois, quando falamos de todos os seres humanos serem de um mesmo tronco, isso significa muito mais do que serem eles apenas biológica e geneticamente aparentados. Estão aparentados também em outros aspectos.
26. Que conhecimento a respeito de línguas apóia o ponto-chave de Paulo?
26 Note, por exemplo, o que o livro Story of the World’s Worship (História da Adoração do Mundo) diz a respeito dos idiomas da humanidade. “Aqueles que estudaram os idiomas do mundo e os compararam entre si, têm algo a dizer, que é o seguinte: Todos os idiomas podem ser agrupados em famílias ou classes de linguagem, e vê-se que todas estas famílias iniciaram de uma fonte única.” Em outras palavras, os idiomas do mundo não se originaram separada e independentemente, como os evolucionistas nos fariam crer. Eles teorizam que os homens que habitavam cavernas na África, na Europa e na Ásia começaram com grunhidos e rosnados e, assim, acabaram desenvolvendo as suas próprias linguagens. Mas, não foi assim. A evidência é que estas “iniciaram de uma fonte única”.
27. Por que é lógico pensar que os conceitos do homem sobre Deus e religião começaram de uma fonte única?
27 Se isto é assim em algo tão pessoal e tão singularmente humano como a linguagem, então, não seria razoável pensar que os conceitos do homem a respeito de Deus e de religião também devem ter-se iniciado de uma única fonte? Afinal, religião se relaciona com raciocínio, e o raciocínio se relaciona com a habilidade do homem de usar a linguagem. O caso não é que todas as religiões realmente tenham surgido de uma única religião, mas sim que as idéias e os conceitos devem ser atribuíveis a alguma fonte ou reservatório único de idéias religiosas. Existe evidência para apoiar isso? E se, realmente, as religiões da humanidade de fato se originaram de uma mesma fonte, qual seria esta? Como podemos saber?
Diferentes, Porém Similares
28. Como podemos descobrir se realmente existe uma fonte única para as religiões do mundo?
28 Podemos chegar à resposta usando o mesmo método que os peritos em lingüística usaram na obtenção de suas respostas sobre a origem da linguagem. Por comparar e notar as suas similaridades, o etimólogo pode rastrear as várias línguas até a sua origem. Similarmente, por comparar as religiões, podemos examinar as suas doutrinas, lendas, rituais, cerimônias, instituições, e assim por diante, e verificar se existe algum veio básico de identidade comum e, se existir, ao que este veio nos conduz.
29. Ao que se pode atribuir as muitas diferenças entre as religiões?
29 Superficialmente, as muitas religiões atuais parecem muito diferentes umas das outras. Contudo, se as despojarmos das coisas que são meros floreios e adições posteriores, ou se removermos aquelas distinções que são o resultado de clima, língua, condições peculiares de sua terra nativa, e outros fatores, é surpreendente quão similares a maioria delas revela ser.
30. Que similaridades vê você entre o catolicismo romano e o budismo?
30 Por exemplo, a maioria das pessoas acharia que dificilmente poderia haver duas religiões mais diferentes uma da outra do que a Igreja Católica Romana, do Ocidente, e o budismo, do Oriente. Contudo, o que constatamos quando colocamos de lado as diferenças que poderiam ser atribuídas à linguagem e à cultura? Se formos objetivos, teremos de admitir que as duas têm muita coisa em comum. Tanto o catolicismo como o budismo estão impregnados de rituais e cerimônias. Estes incluem o uso de velas, incenso, água benta, rosário, imagens de santos, cantos e livros de oração, até mesmo o sinal da cruz. Ambas as religiões mantêm instituições de monges e freiras e se destacam pelo celibato de sacerdotes, indumentárias especiais, dias santos, comidas especiais. Esta lista de modo algum é exaustiva, mas serve para ilustrar o ponto. A pergunta é: Por que duas religiões que parecem ser tão diferentes têm tantas coisas em comum?
31. Que similaridades vê você entre outras religiões?
31 O mesmo resultado esclarecedor que se obteve da comparação dessas duas religiões poderá ser obtido duma comparação entre outras religiões. Ao fazermos isso, descobrimos que certos ensinamentos e crenças são quase universais entre elas. A maioria de nós conhece doutrinas tais como a imortalidade da alma humana, a recompensa celestial para todos os bons, o tormento eterno para os perversos num mundo subterrâneo, o purgatório, um deus trino ou uma divindade de muitos deuses, e uma deusa mãe-de-deus ou rainha do céu. Além destas, porém, há muitas lendas e mitos igualmente comuns. Por exemplo, há lendas a respeito da perda da graça divina que o homem sofreu por causa de sua tentativa ilícita de conseguir a imortalidade, a necessidade de oferecer sacrifícios para expiar pecados, a busca de uma árvore da vida ou fonte da juventude, deuses e semideuses que viveram entre os homens e produziram uma prole sobre-humana, e um dilúvio catastrófico que devastou praticamente toda a humanidade.a
32, 33. (a) O que podemos concluir das notáveis similaridades entre as religiões do mundo? (b) Que pergunta exige uma resposta?
32 O que podemos concluir de tudo isso? Notamos que aqueles que criam nesses mitos e lendas viviam geograficamente longe uns dos outros. A sua cultura e suas tradições eram diferentes e distintas. Os seus costumes sociais não tinham relação entre si. Não obstante, no que concerne às suas religiões, eles criam em idéias tão similares. Embora nem todos esses povos cressem em todas as coisas mencionadas, todos criam em algumas delas. A questão óbvia é: Por quê? É como se existisse um reservatório comum do qual toda religião retirou as suas crenças básicas, algumas mais, outras menos. Com o passar do tempo, esses conceitos básicos foram floreados e modificados, e outros ensinamentos se desenvolveram deles. Mas, o contorno básico é inconfundível.
33 Logicamente, a similaridade nos conceitos básicos das muitas religiões do mundo é uma forte evidência de que elas não começaram cada qual a seu próprio modo separado e independente. Ao contrário, se recuarmos o suficiente, veremos que seus conceitos devem ter tido uma origem comum. Que origem foi esta?
Uma Primitiva Era de Ouro
34. Que lenda a respeito do começo do homem é comum a muitas religiões?
34 Curiosamente, entre as lendas comuns a muitas religiões há uma que diz que a humanidade começou numa era de ouro na qual o homem era inculpe, vivia feliz e pacificamente em íntima comunhão com Deus, e estava isento da doença e da morte. Embora os detalhes talvez difiram, a mesma idéia de um paraíso perfeito que outrora existia se encontra nos escritos e nas lendas de muitas religiões.
35. Descreva a antiga crença zoroastriana a respeito de uma primitiva era de ouro.
35 O Avesta, o livro sagrado da antiga religião persa zoroastriana, fala do “belo Yima, o bom pastor”, que foi o primeiro mortal com quem Auramazda (o criador) conversou. Ele recebeu instruções de Auramazda “para nutrir, governar e vigiar meu mundo”. Para isso, devia construir “uma Vara”, uma morada subterrânea, para todas as criaturas viventes. Nela não havia “nem despotismo nem ruindade de espírito, nem estupidez nem violência, nem pobreza nem engano, nem mesquinhez nem deformidade, nem dentes enormes nem corpos além do tamanho normal. Os habitantes não sofriam aviltação da parte do espírito mau. Moravam entre árvores odoríficas e pilares dourados; eram os maiores, os melhores e os mais belos da terra; eram uma raça alta e bela.”
36. Como foi que o poeta grego Hesíodo descreveu uma “Era de Ouro”?
36 Entre os antigos gregos, o poema de Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias, fala das Cinco Eras do Homem, a primeira das quais sendo a “Era de Ouro”, quando a felicidade dos homens era completa. Ele escreveu:
“Os deuses imortais, que andam pelas cortes do céu,
Primeiro fizeram uma raça humana de ouro.
Como deuses viviam, com almas felizes, despreocupadas,
Livres de labuta e de dor; a desditosa velhice
Tampouco os acercava, mas toda a sua vida festejando passavam,
E os membros de seu corpo não conheciam mudanças.”
Essa lendária era de ouro foi perdida, segundo a mitologia grega, quando Epimeteu aceitou como esposa a bela Pandora, uma dádiva do deus olimpiano Zeus. Certo dia Pandora abriu a tampa de sua grande caixa e, instantaneamente, escaparam de dentro desta aflições, misérias e doenças, das quais a humanidade jamais se recuperaria.
37. Descreva o antigo relato lendário chinês a respeito de um “paraíso” no começo da história.
37 Antigas lendas chinesas falam também de uma era de ouro nos dias de Huang-Ti (Imperador Amarelo), que alegadamente governou por cem anos, no século 26 AEC. Deu-se-lhe o crédito pela invenção de tudo que tem a ver com civilização — roupas e moradia, veículos de transporte, armas e guerra, trato da terra, manufaturação, cultura da seda, música, linguagem, matemática, o calendário, e assim por diante. Durante o seu reinado, alega-se, “não havia ladrões nem lutas na China, e o povo vivia em humildade e paz. Chuvas e condições climáticas apropriadas resultavam anualmente em abundantes safras. Mais surpreendente era que até mesmo os animais selvagens não matavam, e as aves de rapina não causavam dano. Em suma, a história da China começou com um paraíso.” Até hoje, os chineses ainda afirmam ser os descendentes do Imperador Amarelo.
38. Que conclusão podemos tirar de todos os similares contos lendários a respeito do começo do homem?
38 Similares contos lendários sobre uma época de felicidade e perfeição no início da história do homem podem também ser encontrados nas religiões de muitos outros povos — egípcios, tibetanos, peruanos, mexicanos, e outros. Será que seria por mero acaso que todos estes povos, que viviam distantes uns dos outros, e que tinham culturas, línguas e costumes inteiramente diferentes, tivessem as mesmas idéias a respeito de sua origem? Foi por mero acaso ou coincidência que todos eles escolheram explicar seu começo da mesma maneira? A lógica e a experiência nos dizem que isso dificilmente poderia ter sido assim. Ao contrário, entrelaçados em todas essas lendas, deve haver alguns elementos comuns de verdade a respeito do começo do homem e sua religião.
39. Que quadro múltiplo se pode formar à base dos elementos comuns nas muitas lendas a respeito do começo do homem?
39 Deveras, há muitos elementos comuns discerníveis entre todas as diferentes lendas a respeito do começo do homem. Quando os ajuntamos, começa a emergir um quadro mais completo. Mostra como Deus criou o primeiro homem e a primeira mulher e os colocou num paraíso. Eles se sentiam muito contentes e muito felizes de início, mas logo se tornaram rebeldes. Esta rebelião levou à perda do paraíso perfeito, o que em nada resultou senão labor e labuta, dor e sofrimento. Por fim a humanidade se tornou tão má que Deus a puniu por enviar um grande dilúvio que destruiu a todas as famílias, exceto uma. À medida que esta família se multiplicava, alguns dos descendentes se juntaram e passaram a construir uma torre imensa em desafio a Deus. Deus frustrou os planos deles por confundir-lhes a língua e dispersá-los a remotos cantos da terra.
40. Explique a relação da Bíblia com as lendas a respeito das religiões do homem.
40 Será este quadro múltiplo meramente o resultado do exercício da imaginação de alguma pessoa? Não. Basicamente, este é o quadro apresentado na Bíblia, nos primeiros 11 capítulos do livro de Gênesis 1-11. Ao passo que não consideraremos aqui a autenticidade da Bíblia, convém mencionar que o relato da Bíblia a respeito da primitiva história do homem se reflete nos elementos-chaves encontrados em muitas lendas.b O registro revela que, à medida que a raça humana começava a se dispersar, a partir da Mesopotâmia, ela levava consigo as suas recordações, experiências e conceitos a toda parte a que ia. Com o tempo, estes sofreram acréscimos e passaram por mudanças, tornando-se o ingrediente básico da religião em todas as partes do mundo. Em outras palavras, retornando à analogia usada antes, o relato de Gênesis constitui o reservatório original, cristalino, do qual se originaram os conceitos básicos a respeito do começo do homem e da adoração, encontrados nas várias religiões do mundo. A estes elas acrescentaram suas doutrinas e práticas próprias, mas o vínculo é inconfundível.
41. O que se deve ter em mente ao estudar os capítulos seguintes deste livro?
41 Nos capítulos seguintes deste livro, consideraremos mais detalhadamente como determinadas religiões começaram e se desenvolveram. Achará esclarecedor notar não apenas como cada religião é diferente das outras, mas também como é similar a elas. Notará também como cada religião se encaixa no cronograma da história humana e da história da religião, como seus respectivos livros ou escritos sagrados se relacionam com outros, como seu fundador ou líder foi influenciado por outros conceitos religiosos, e como tem influenciado a conduta e a história da humanidade. Estudar a longa caminhada da humanidade em busca de Deus com estes pontos em mente o ajudará a ver mais claramente a verdade a respeito de religião e de ensinos religiosos.
[Nota(s) de rodapé]
a Para uma comparação das várias lendas de um dilúvio encontradas entre diferentes povos, queira ver a publicação Ajuda ao Entendimento da Bíblia, editada pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1982, Volume 2, páginas 451-2.
b Para informações detalhadas sobre este assunto, queira consultar o livro A Bíblia — Palavra de Deus ou de Homem?, distribuído pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1989.
[Destaque na página 23]
O advento da inquirição científica e da teoria da evolução levou muitos a questionar a religião.
[Destaque na página 34]
É como se existisse um reservatório único do qual cada religião tirou as suas crenças básicas.
[Fotos na página 21]
Homens como o Buda, Confúcio e Lutero mudaram sistemas religiosos existentes; eles não deram origem à religião.
[Foto na página 25]
O psicanalista austríaco Sigmund Freud atribuía a religião ao temor da figura do pai.
[Foto na página 27]
A premissa de que a terra era o centro do universo levou a conclusões errôneas a respeito dos movimentos planetários.
[Fotos na página 33]
Deusa budista chinesa da misericórdia, com criança.
Nossa Senhora católica com o menino Jesus.
Budista tibetano usando tambor de oração e rosário.
Católica usando rosário.
Budismo e catolicismo romano — por que parecem ter tantas coisas em comum?
[Foto na página 36]
Lendas chinesas falam de uma era de ouro durante o reinado de Huang-Ti (Imperador Amarelo), em épocas míticas.
[Mapa na página 39]
(Para o texto formatado, veja a publicação)
LÍDIA
SÍRIA
EGITO
BABILÔNIA
ASSÍRIA
MÉDIA
ELÃO
PÉRSIA
À medida que a raça humana se dispersava da Mesopotâmia, seus conceitos e recordações religiosos os acompanhavam.
[Quadro na página 28]
Por Que o Homem É Religioso?
▪ John B. Noss diz em seu livro Man’s Religions (As Religiões do Homem): “Todas as religiões dizem, de uma ou de outra maneira, que o homem não vive, e não pode viver, por si só. Ele se relaciona vitalmente com os poderes na Natureza e na Sociedade exterior a ele e até depende deles. Vaga ou claramente, ele sabe que não é um centro independente de força capaz de se apartar do mundo.”
Similarmente, o livro Religiões do Mundo — Da História Antiga ao Presente diz: “O estudo da religião revela que um de seus importantes aspectos é o anseio de encontrar valor na vida, uma crença que a vida não é acidental e sem significado. A busca de significado leva à fé num poder superior ao humano, e, por fim, a uma mente universal ou super-humana que tem a intenção e a vontade de preservar os mais elevados valores para a vida humana.”
Portanto, a religião satisfaz uma necessidade humana básica, assim como o alimento satisfaz a nossa fome. Sabemos que comer indiscriminadamente quando estamos famintos pode aliviar a agonia da fome; a longo prazo, porém, prejudicará a nossa saúde. Para termos uma vida sadia, necessitamos de alimentos que sejam sadios e nutritivos. Igualmente, precisamos de alimento espiritual sadio para manter a nossa saúde espiritual. Por isso diz a Bíblia: ‘O homem não vive somente de pão, mas de toda expressão da boca de Jeová.’ — Deuteronômio 8:3.
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Traços comuns na mitologiaO Homem em Busca de Deus
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Capítulo 3
Traços comuns na mitologia
1-3. (a) Por que devem os mitos nos interessar? (b) O que abrangeremos neste capítulo?
POR QUE examinar os mitos? Não são eles meras ficções do passado distante? Embora seja verdade que muitos se baseiam em ficção, outros se baseiam em fatos. Tome como exemplo os universalmente comuns mitos e lendas em torno do fato do Dilúvio mundial, relatado na Bíblia.
2 Uma razão para se examinar os mitos é que eles são a base de crenças e rituais ainda hoje encontrados nas religiões. Por exemplo, a crença numa alma imortal remonta aos antigos mitos assírio-babilônicos, passa pela mitologia egípcia, grega e romana e chega até a cristandade, onde se tornou um dogma básico de sua teologia. Os mitos evidenciam que o homem antigo vivia em busca de deuses, bem como de um sentido na vida. Neste capítulo, analisaremos brevemente alguns dos temas comuns nos mitos das principais culturas do mundo. Ao examinarmos tais mitologias, veremos que a criação, o Dilúvio, os falsos deuses e semideuses, a alma imortal e a adoração do sol despontam regularmente como peças comuns no mosaico da mitologia. Mas, por quê?
3 Mui freqüentemente, existe um fato histórico central, ou um personagem, ou ainda um evento, que mais tarde foi exagerado ou distorcido, formando o mito. Um desses fatos históricos é o registro bíblico da criação.a
Fato e Ficção a Respeito da Criação
4, 5. Quais eram algumas das crenças da mitologia grega?
4 Mitos sobre a criação há muitos, mas nenhum deles têm a lógica simples do registro da criação apresentado na Bíblia. (Gênesis, capítulos 1, 2) Por exemplo, os relatos na mitologia grega têm requintes de barbarismo. O primeiro grego a assentar mitos por escrito sistematicamente foi Hesíodo, que escreveu sua Teogonia no oitavo século AEC. Ele explica como é que os deuses e o mundo começaram. Ele começa com Géia, ou Gaia (Terra), que dá à luz Urano (Céu). O que se segue é explicado pelo erudito Jasper Griffin em The Oxford History of the Classical World (História do Mundo Clássico, de Oxford):
5 “Hesíodo narra a história, que Homero conhece, da sucessão de deuses celestes. De início, Urano era supremo, mas ele suprimia seus filhos, e Gaia incentivou seu filho Cronos a castrá-lo. Cronos, por sua vez, devorou seus próprios filhos, até que sua esposa Réia deu-lhe de comer uma pedra, em lugar de Zeus; o filho Zeus foi criado em Creta, obrigou seu pai a vomitar seus irmãos, e, junto com estes e com ajuda adicional derrotou Cronos e seus Titãs, lançando-os no Tártaro.”
6. Segundo Jasper Griffin, qual é a provável fonte de boa parte da mitologia grega?
6 De que fonte obtiveram os gregos essa estranha mitologia? O mesmo autor responde: “A sua derradeira origem parece ter sido sumeriana. Nessas histórias orientais encontramos uma sucessão de deuses, e os temas da castração, da engulição e o de uma pedra se repetem de tal modo que, embora variem, mostram que a semelhança com Hesíodo não é coincidência.” Temos de recorrer às antigas Mesopotâmia e Babilônia como a origem de muitos mitos que permeavam outras culturas.
7. (a) Por que não é fácil obter dados sobre antigos mitos chineses? (b) Como explica certo mito chinês a criação da terra e do homem? (Veja Gênesis 1:27; 2:7.)
7 A antiga mitologia da religião popular chinesa nem sempre é fácil de definir, pois muitos registros foram destruídos no período de 213-191 AEC.b No entanto, alguns mitos sobreviveram, como aquele que descreve como a terra foi formada. Um professor de Arte Oriental, Anthony Christie, escreveu: “Somos informados de que Caos era como um ovo de galinha. Nem o Céu nem a Terra existiam. Do ovo nasceu Pam-Ku, ao passo que de seus elementos pesados se fez a Terra, e de seus elementos leves, o Céu. Pam-Ku é retratado como anão, trajando pele de urso ou um manto de folhas. Por 18.000 anos a distância entre a Terra e o Céu aumentou diariamente 3 metros, e Pam-Ku cresceu no mesmo ritmo, de modo que seu corpo preencheu a lacuna. Ao morrer, diferentes partes de seu corpo se transformaram nos vários elementos naturais. . . . As pulgas de seu corpo se transformaram na raça humana.”
8. Segundo a mitologia inca, como surgiram as línguas?
8 Da América do Sul, certa lenda inca explica como foi que um criador mitológico deu a linguagem a cada nação. “Ele deu a cada nação a língua que esta havia de falar . . . Deu existência e alma a cada qual, bem como os homens e as mulheres, e ordenou que cada nação mergulhasse debaixo da terra. Daí, todas as nações passaram pelo subterrâneo e vieram à tona nos lugares que ele lhes designara.” (Fábulas e Rituais dos Incas, de Cristóbal de Molina, de Cuzco, citado em Mitologia Sul-Americana, em inglês) Neste caso, parece que o relato bíblico da confusão de línguas em Babel é o fato histórico central desse mito inca. (Gênesis 11:1-9) Mas, voltemos agora a nossa atenção para o Dilúvio narrado na Bíblia, em Gênesis 7:17-24.
O Dilúvio — Fato ou Mito?
9. (a) O que nos diz a Bíblia sobre condições pré-diluvianas na terra? (b) O que Noé e sua família tiveram de fazer para serem salvos do Dilúvio?
9 Transportando-nos para uns 4.500 anos no passado, para cerca de 2.500 AEC, a Bíblia nos diz que rebeldes filhos espirituais de Deus se materializaram em forma humana e “foram tomar para si esposas”. Este cruzamento desnatural produziu os violentos nefilins, “os poderosos da antiguidade, os homens de fama”. A sua conduta anárquica afetou o mundo pré-diluviano a ponto de Jeová dizer: “‘Vou obliterar da superfície do solo os homens que criei . . . porque deveras deploro tê-los feito.’ Mas Noé achou favor aos olhos de Jeová.” O relato apresenta em seguida as medidas específicas e práticas que Noé tinha de tomar para salvar do Dilúvio a si mesmo, bem como a sua família e uma variedade de espécies animais. — Gênesis 6:1-8, Gên. 6:13-8:22; 1 Pedro 3:19, 20; 2 Pedro 2:4; Judas 6.
10. Por que o relato bíblico do Dilúvio não deve ser encarado como mito?
10 O registro de eventos pré-diluvianos em Gênesis é tachado de mito por críticos modernos. Todavia, a história de Noé foi aceita e crida por homens fiéis, como Isaías, Ezequiel, Jesus Cristo, e os apóstolos Pedro e Paulo. É também corroborada pelo fato de ser refletida mundialmente em tantas mitologias, incluindo a antiga Epopéia de Gilgamés, bem como os mitos da China e dos astecas, dos incas e dos maias. Com o registro bíblico em mente, consideremos a seguir a mitologia assírio-babilônica e suas referências a um dilúvio.c — Isaías 54:9; Ezequiel 14:20; Mateus 24:37; Hebreus 11:7.
O Dilúvio e o Deus-Homem Gilgamés
11. Em que se baseia o que sabemos a respeito da Epopéia de Gilgamés?
11 Recuando possivelmente uns 4.000 anos na história, encontramos o famoso mito acadiano chamado de Epopéia de Gilgamés. O que sabemos dele se baseia principalmente num texto cuneiforme originário da biblioteca de Assurbanipal, que reinou de 668-627 AEC, na antiga Nínive.
12. Quem era Gilgamés, e por que não era benquisto? (Veja Gênesis 6:1, 2.)
12 Trata-se de uma história das proezas de Gilgamés, descrito como sendo dois terços deus e um terço homem, ou, um semideus. Uma das versões da epopéia diz: “Em Uruque ele construiu muralhas, uma grande fortificação, e o templo do abençoado Eana para o deus do firmamento, Anu, e para Istar, a deusa do amor . . . , nossa senhora do amor e da guerra.” (Veja a listagem de deuses e deusas assírio-babilônicos no quadro à página 45.) Contudo, Gilgamés não era uma figura exatamente agradável com quem conviver. Os habitantes de Uruque se queixaram aos deuses: “A sua lascívia não poupa nenhuma virgem para seu amado, nem a filha do guerreiro e tampouco a esposa do nobre.”
13. (a) Que medida tomaram os deuses, e o que fez Gilgamés? (b) Quem era Utnapichtim?
13 Que medida tomaram os deuses atendendo ao protesto das pessoas? A deusa Aruru criou Enquidu para ser o humano rival de Gilgamés. Contudo, em vez de serem inimigos, eles se tornaram amigos íntimos. No decorrer da epopéia, Enquidu morre. Abalado, Gilgamés brada: “Quando eu morrer, não serei como Enquidu? A aflição invadiu meu ventre. Temendo a morte, perambulo pela estepe.” Ele queria conhecer o segredo da imortalidade e pôs-se a procurar Utnapichtim, o sobrevivente do dilúvio a quem se dera imortalidade junto aos deuses.
14. (a) O que se ordenou que Utnapichtim fizesse? (Veja Gênesis 6:13-16.) (b) Que desfecho teve a jornada épica de Gilgamés?
14 Gilgamés por fim encontra Utnapichtim, que lhe conta a história do dilúvio. Conforme se encontra na Epopéia, tabuinha XI, conhecida como Tabuinha do Dilúvio, Utnapichtim narra as instruções que recebera concernentes ao dilúvio: “Derruba (esta) casa, constrói um navio! Desiste de teus bens, busca [salvar] a tua vida. . . . A bordo do navio leva a semente de todas as coisas vivas.” Não soa isso um tanto similar à referência bíblica a Noé e ao Dilúvio? Mas, Utnapichtim não consegue conceder imortalidade a Gilgamés. Este, desapontado, volta para casa, em Uruque. O relato termina com a sua morte. A mensagem geral da epopéia é a tristeza e a frustração diante da morte e do além. Aqueles povos antigos não encontraram o Deus da verdade e da esperança. Contudo, a ligação dessa epopéia com o relato simples da Bíblia a respeito da era pré-diluviana é bem evidente. Examinemos agora o relato do Dilúvio segundo apresentado em outras lendas.
Lenda do Dilúvio em Outras Culturas
15. Por que nos interessa a lenda sumeriana de um dilúvio?
15 Mais antigo ainda do que o relato na Epopéia de Gilgamés é o mito sumeriano que apresenta “Ziusudra, o correlativo do Noé bíblico, descrito como rei piedoso e temente a Deus, sempre à espreita de revelações divinas em sonhos ou em feitiços”. (Antigos Textos do Oriente Próximo Relacionados com o Velho Testamento, em inglês) Segundo esta mesma fonte, esse mito “apresenta o mais próximo e notável paralelo com a matéria bíblica já descoberto na literatura sumeriana”. As civilizações babilônica e assíria, que vieram mais tarde, foram influenciadas pela sumeriana.
16. Qual poderia ter sido a fonte das lendas chinesas sobre um dilúvio?
16 O livro China—A History in Art (China — Uma História em Arte) informa-nos de que um dos antigos governantes da China foi Yü, “o triunfador sobre o Grande Dilúvio. Yü canalizou as águas do dilúvio em rios e mares para reassentar o seu povo”. O especialista em mitologia Joseph Campbell escreveu a respeito do “Período [chinês] dos Dez Grandes”, dizendo: “Para esta era importante, que termina num Dilúvio, foram especificados dez imperadores na primitiva mitologia da época de Chou. Assim, parece que o que vemos aqui pode ser uma transformação local da série da antiga lista de reis sumeriana.” Campbell cita a seguir outros elementos de lendas chinesas que aparentemente “reforçam o argumento em favor de uma fonte mesopotâmica”. Isto novamente nos leva à mesma fonte básica de muitos mitos. No entanto, a história do Dilúvio também aparece nas Américas; no México, por exemplo, durante o período dos astecas, nos séculos 15 e 16 da EC.
17. Que lendas sobre um dilúvio tinham os astecas?
17 A mitologia asteca falava de quatro eras anteriores, na primeira das quais a terra era habitada por gigantes. (Mais um caso que lembra os nefilins, os gigantes mencionados na Bíblia, em Gênesis 6:4.) Incluía uma primitiva lenda dum dilúvio em que “as águas de cima se misturaram com as de baixo, apagando os horizontes e transformando tudo num interminável oceano cósmico”. O deus que controlava a chuva e a água era Tlaloc. Contudo, a sua chuva não era concedida a um baixo custo, mas sim “em troca do sangue de vítimas sacrificadas, cujo fluxo de lágrimas simularia, e, por conseguinte, estimularia o fluxo da chuva”. (Mythology—An Illustrated Encyclopedia) Outra lenda diz que a quarta era foi governada por Chalchihuitlicue, a deusa da água, cujo universo pereceu numa inundação. Os homens se salvaram por virarem peixes!
18. Que relatos predominam na mitologia sul-americana? (Veja Gênesis 6:7, 8; 2 Pedro 2:5.)
18 Similarmente, os incas tinham as suas lendas do Dilúvio. Diz o escritor britânico Harold Osborne: “Talvez os aspectos mais ubíquos dos mitos sul-americanos sejam as histórias de um dilúvio . . . Mitos de um dilúvio são muito difundidos, tanto entre os povos do planalto como entre as tribos das baixadas tropicais. O dilúvio é geralmente ligado com a criação e com um epifânio [manifestação] do deus-criador. . . . É às vezes considerado como punição divina, exterminando a humanidade existente em preparação para o surgimento de uma nova raça.”
19. Descreva a lenda maia a respeito de um dilúvio.
19 Também os maias no México e na América Central tinham a sua lenda de uma inundação que envolveu um dilúvio universal, ou haiyococab, que significa “água sobre a terra”. O bispo católico Las Casas escreveu que os índios guatemaltecos “chamavam-no de Butic, palavra que quer dizer inundação de muitas águas e significa o julgamento final, de modo que eles crêem que outro Butic está para vir, que será mais uma inundação e julgamento, não de água, mas de fogo”. Existem muitas outras lendas de um dilúvio em todo o mundo, mas as poucas já mencionadas servem para confirmar a existência de um ponto central nessas lendas, ou seja, o evento histórico relatado no livro de Gênesis.
A Generalizada Crença na Alma Imortal
20. Qual era a crença assírio-babilônica sobre o além?
20 Contudo, nem todos os mitos se baseiam num fato ou na Bíblia. Na sua busca de Deus, o homem tem-se agarrado a qualquer coisa, enganado pela ilusão da imortalidade. Como veremos de ponta a ponta neste livro, a crença numa alma imortal, ou variações no seu conteúdo, é um legado que nos chegou através dos milênios. Os povos da antiga cultura assírio-babilônica criam num além. A Nova Enciclopédia Larousse de Mitologia (em inglês) explica: “Debaixo da terra, além do abismo do Apsu [cheio de água fresca e circundando a terra], jaz a infernal morada à qual os homens desceram após a morte. Era a ‘Terra sem retorno’ . . . Nessas regiões de eterna escuridão as almas dos mortos — edimmu — ‘trajadas como aves, com roupa de asas’, são todas misturadas.” Segundo o mito, este mundo subterrâneo era governado pela deusa Eres-Quigal, “Princesa da grande terra”.
21. Segundo a crença egípcia, o que acontecia com os mortos?
21 Os egípcios também tinham o seu conceito de alma imortal. Antes que a alma pudesse atingir um refúgio feliz, tinha de ser examinada por Maat, a deusa da verdade e da justiça, que era simbolizada pela pena da verdade. Quer Anúbis, o deus com cabeça de chacal, quer Hórus, o falcão, ajudavam no processo. Se fosse aprovada por Osíris, tal alma seguiria em frente para partilhar a felicidade com os deuses. (Veja a ilustração na página 50.) Como tantas vezes acontece, vemos aqui o traço comum do conceito babilônico de uma alma imortal moldando a religião, a vida e as ações das pessoas.
22. Qual era o conceito chinês a respeito dos mortos, e o que se fazia para ajudá-los?
22 A velha mitologia chinesa incluía a crença na sobrevivência após a morte e a necessidade de manter contentes os ancestrais. Os ancestrais eram “imaginados como sendo espíritos vivos e poderosos, todos vitalmente preocupados com o bem-estar de seus descendentes vivos, mas capazes de expressar ira punitiva, se desagradados”. Devia-se dar aos mortos toda a ajuda, incluindo companhias na morte. Assim, “alguns reis Xang . . . eram sepultados junto com algo em torno de cem a trezentas vítimas humanas, que seriam seus assistentes no mundo seguinte. (Tal prática liga a antiga China ao Egito, à África, ao Japão e a outros lugares em que se faziam sacrifícios similares.)” (Man’s Religions [As Religiões do Homem], de John B. Noss) Nestes casos, a crença numa alma imortal levou a sacrifícios humanos. — Contraste com Eclesiastes 9:5, 10; Isaías 38:18, 19.
23. (a) Na mitologia grega, quem e o que era o Hades? (b) O que é o Hades segundo a Bíblia?
23 Os gregos, tendo formulado muitos deuses na sua mitologia, também se preocupavam com os mortos e seu destino. Segundo os mitos, o encarregado desse domínio de densa escuridão era o filho de Cronos e irmão dos deuses Zeus e Posseidon. Seu nome era Hades, e seu domínio era também assim chamado. Como é que as almas dos mortos chegavam ao Hades?d
24. (a) Segundo a mitologia grega, o que acontecia no mundo subterrâneo? (b) Que similaridade com a Epopéia de Gilgamés havia na mitologia grega?
24 A escritora Ellen Switzer explica: “Havia . . . criaturas atemorizantes no mundo subterrâneo. Como Caronte, que remava o barco que transportava os recém-falecidos da terra dos vivos para o mundo subterrâneo. Caronte cobrava pela travessia [do rio Estige], e os gregos não raro enterravam seus mortos com uma moeda debaixo da língua para garantir-lhes a viagem. As almas mortas que não podiam pagar ficavam retidas no lado inconveniente do rio, numa espécie de terra-de-ninguém, e poderiam voltar para assombrar os vivos.”e
25. Quem foi influenciado pelo pensamento grego a respeito da alma?
25 A mitologia grega da alma passou a influenciar o conceito romano, e os filósofos gregos, como Platão (cerca de 427-347 AEC), influenciaram fortemente os primitivos pensadores cristãos apóstatas, que acolheram o ensino da alma imortal na sua doutrina, embora não tivesse base bíblica.
26, 27. Que conceito sobre a morte tinham os astecas, os incas e os maias?
26 Os astecas, os incas e os maias também criam numa alma imortal. Como para outras civilizações, a morte lhes era um mistério. Tinham suas cerimônias e crenças para ajudá-los a se resignar com ela. Como explica o historiador arqueológico Victor W. von Hagen em seu livro Os Antigos Reinos do Sol, das Américas (em inglês): “Os mortos na realidade viviam: haviam meramente passado de uma fase para outra; eram invisíveis, impalpáveis, invulneráveis. Os mortos . . . se haviam tornado os membros invisíveis do clã.” — Contraste com Juízes 16:30; Ezequiel 18:4, 20.
27 A mesma fonte nos informa que “o índio [inca] cria na imortalidade; de fato, ele cria que a pessoa jamais morria, . . . o corpo morto meramente se transformava em não-morto e assumia as influências dos poderes invisíveis”. Os maias também criam numa alma e em 13 céus e 9 infernos. Assim, para onde quer que olhemos, vemos que as pessoas têm desejado negar a realidade da morte, e a alma imortal tem sido a escora. — Isaías 38:18; Atos 3:23.
28. Quais são algumas das crenças que têm predominado na África?
28 As mitologias da África também contêm alusões a uma alma que sobrevive. Muitos africanos vivem apavorados de medo das almas dos mortos. A Nova Enciclopédia Larousse de Mitologia diz: “Esta crença tem ligação com outra — a existência contínua da alma após a morte. Os mágicos podem invocar almas para coadjuvar seus poderes. As almas dos mortos não raro transmigram para o corpo de animais, ou podem até mesmo reencarnar em plantas.” Assim, os zulus não matam certos tipos de cobra que eles crêem ser espíritos de parentes.
29. Explique as lendas de algumas tribos do sudeste africano. (Veja Gênesis 2:15-17; 3:1-5.)
29 Os massais do sudeste africano crêem num criador chamado ’Ng ai, que nomeia um anjo-da-guarda para cada massai como proteção. Por ocasião da morte, o anjo leva a alma do guerreiro para o além. A anteriormente citada Larousse fornece uma lenda zulu sobre a morte envolvendo o primeiro homem, Unkulunkulu, que, neste mito, se tornara o ser supremo. Ele enviou o camaleão para dizer à humanidade: “Os homens não irão morrer!” O camaleão era lento e se distraiu no caminho. Assim, Unkulunkulu enviou uma mensagem diferente por meio de uma lagartixa, dizendo: “Os homens irão morrer!” A lagartixa chegou primeiro “e, desde então, nenhum homem escapou da morte”. Com variações, esta mesma lenda existe entre as tribos bechuana, basuto e baronga.
30. Neste livro, o que mais veremos a respeito da alma?
30 Ao prosseguirmos o estudo da busca de Deus por parte da humanidade, veremos ainda mais extensivamente quão importante para a humanidade era, e ainda é, o mito da alma imortal.
Adoração do Sol e Sacrifícios Humanos
31. (a) O que criam os egípcios a respeito do deus-sol Rá? (b) Como se contrasta isso com o que diz a Bíblia? (Salmo 19:4-6)
31 A mitologia do Egito engloba um amplo panteão de deuses e deusas. Como em tantas outras sociedades antigas, ao passo que os egípcios buscavam a Deus, a sua tendência era adorar o que sustentava a vida cotidiana — o sol. Assim, sob o nome de Rá (Amon-Rá), eles veneravam o soberano senhor do céu, que diariamente fazia uma viagem de barco do leste para o oeste. Ao anoitecer, ele seguia um perigoso curso através do mundo subterrâneo.
32. Descreva uma das festividades do deus-fogo Xiuhtecuhtli (Huehueteotl).
32 Sacrifícios humanos eram uma constante na adoração do sol praticada pelas religiões asteca, inca e maia. Os astecas celebravam um ciclo contínuo de festividades religiosas, com sacrifícios humanos a seus vários deuses, especialmente na adoração do deus-sol Tezcatlipoca. Também, na festividade do deus-fogo Xiuhtecuhtli (Huehueteotl), “os prisioneiros de guerra dançavam junto com seus captores e . . . faziam-nos rodopiar em volta de um fogo chamejante, sendo daí lançados às brasas e pescados ainda vivos para que seus corações ainda pulsantes pudessem ser extirpados e oferecidos aos deuses”. — Os Antigos Reinos do Sol, das Américas.
33. (a) O que fazia parte da adoração inca? (b) O que diz a Bíblia a respeito de sacrifícios humanos? (Veja 2 Reis 23:5, 11; Jeremias 32:35; Ezequiel 8:16.)
33 Mais para o sul, a religião inca tinha seus próprios sacrifícios e mitos. Na antiga adoração inca, crianças e animais eram oferecidos ao deus-sol Inti e a Viracocha, o criador.
Deuses e Deusas Míticos
34. De quem se compunha a mais destacada tríade egípcia, e que papéis desempenhavam?
34 A mais destacada das tríades egípcias é a composta por Ísis, símbolo de maternidade divina; Osíris, seu irmão e consorte; e Hórus, seu filho, em geral representado por um falcão. Ísis às vezes é retratada em estátuas egípcias dando de mamar ao filho, numa pose que muito faz lembrar as estátuas e os quadros da virgem Maria e do filho, da cristandade, que surgiram mais de dois mil anos depois. Com o tempo, o marido de Ísis, Osíris, ganhou popularidade como deus dos mortos porque ofereceu esperança de vida eternamente feliz para as almas dos mortos, no além.
35. Quem era Hator, e qual era sua principal festividade anual?
35 Hator, do Egito, era a deusa do amor e da alegria, da música e da dança. Tornou-se a rainha dos mortos, ajudando-os a alcançar o céu com uma escada. Como explica a Nova Enciclopédia Larousse de Mitologia, ela era homenageada com grandes festividades, “notadamente no Dia de Ano Novo, que era o aniversário de seu nascimento. Antes do amanhecer as sacerdotisas conduziam a imagem de Hator ao terraço, a fim de expô-la aos raios do sol nascente. A alegria que se seguia era um pretexto para um verdadeiro carnaval, e o dia findava com cantos e embriaguez”. Será que as coisas mudaram muito nas comemorações de Ano Novo milhares de anos mais tarde?
36. (a) Em meio a que cenário religioso se encontrava Israel no século 16 AEC? (b) Que significado especial tinham as Dez Pragas?
36 Os egípcios também tinham muitos deuses e deusas animais no seu panteão, tais como Ápis, o touro, Banaded, o carneiro, Heqt, a rã, Hator, a vaca, e Sebek, o crocodilo. (Romanos 1:21-23) Foi neste cenário religioso que os israelitas viviam como escravos, no século 16 AEC. Para libertá-los das garras obstinadas de Faraó, Jeová, o Deus de Israel, teve de enviar dez diferentes pragas contra o Egito. (Êxodo 7:14-12:36) Tais pragas equivaliam a uma calculada humilhação dos deuses mitológicos do Egito. — Veja quadro, página 62.
37. (a) Que tipo de figuras eram alguns dos deuses romanos? (b) Como é que a conduta dos deuses afetou seus seguidores? (c) Que experiência tiveram Paulo e Barnabé em Listra?
37 Passemos agora para os deuses das antigas Grécia e Roma. Roma adotou muitos deuses da antiga Grécia, junto com suas virtudes e vícios. (Veja quadros, páginas 43 e 66.) Por exemplo, Vênus e Flora eram descaradas prostitutas; Baco, beberrão e farrista; Mercúrio, salteador; e Apolo, sedutor de mulheres. Diz-se que Júpiter, o pai dos deuses, cometeu adultério ou incesto com cerca de 59 mulheres! (Quanto isso faz lembrar os anjos rebeldes que coabitavam com mulheres antes do Dilúvio!) Visto que os adoradores tendem a refletir a conduta de seus deuses, é de admirar que imperadores romanos, tais como Tibério, Nero e Calígula, levassem uma vida depravada como adúlteros, fornicadores e assassinos?
38. (a) Descreva o tipo de adoração praticada em Roma. (b) Que influência tinha a religião sobre o soldado romano?
38 Na sua religião, os romanos incorporaram deuses originários de muitas tradições. Por exemplo, adotaram entusiasticamente a adoração de Mitra, o deus persa da luz, que se tornou seu deus-sol (veja quadro, páginas 60-1), e a deusa síria Atárgatis (Istar). Converteram a grega Ártemis, a caçadora, em Diana, e tinham as suas próprias variações da egípcia Ísis. Adotaram também a celta deusa tripla da fertilidade. — Atos 19:23-28.
39. (a) Quem governava o sacerdócio romano? (b) Descreva uma das cerimônias religiosas romanas.
39 Para a prática de seus cultos públicos em centenas de santuários e templos, eles tinham uma variedade de sacerdotes, todos os quais “vieram a estar sob a autoridade do Pontifex Maximus [Sumo Pontífice], que era o cabeça da religião estatal”. (Atlas do Mundo Romano, em inglês) O mesmo atlas diz que uma das cerimônias romanas era o taurobóleo, no qual “o adorador se punha numa cova e era banhado no sangue de um touro sacrificado sobre ele. Ele emergia desse ritual num estado de inocência purificada”.
Mitos e Lendas Cristãos?
40. Como encaram muitos eruditos os eventos do primitivo cristianismo?
40 Segundo alguns críticos modernos, o cristianismo também adotou mitos e lendas. Será que isso realmente se deu? Muitos eruditos rejeitam como mitos o nascimento virginal de Jesus, seus milagres, e sua ressurreição. Alguns até mesmo dizem que ele nunca existiu, mas que o mito a seu respeito é um remanescente de mitologia mais antiga e da adoração do sol. Como escreveu o especialista em mitologia Joseph Campbell: “Vários eruditos têm sugerido, portanto, que nem João [o Batizador] e tampouco Jesus jamais existiram, mas apenas um deus-água e um deus-sol.” Mas, temos de nos lembrar de que muitos destes mesmos eruditos são ateus e, assim, rejeitam totalmente qualquer crença em Deus.
41, 42. Que evidência apóia a historicidade do primitivo cristianismo?
41 Entretanto, este ponto de vista céptico choca-se com a evidência histórica. Por exemplo, o historiador judeu Josefo (c. 37-c. 100 EC) escreveu: “Para alguns judeus a destruição do exército de Herodes parecia ser uma vingança divina, e, por certo, uma vingança justa, devido ao tratamento que dera a João, cognominado Batista. Pois Herodes mandara matá-lo, embora fosse um bom homem.” — Marcos 1:14; 6:14-29.
42 Este mesmo historiador também atesta a existência histórica de Jesus Cristo, ao escrever que surgiu “um certo Jesus, um homem extremamente habilidoso, se é que pode ser chamado de homem . . . a quem seus discípulos chamavam de filho de Deus”. Ele prossegue dizendo que “Pilatos o sentenciou . . . E mesmo hoje a raça daqueles que por causa dele se chamam ‘messianistas’ ainda não se extinguiu”.f — Marcos 15:1-5, 22-26; Atos 11:26.
43. Que base tinha o apóstolo Pedro para crer em Cristo?
43 Portanto, o apóstolo cristão Pedro podia escrever com total convicção como testemunha ocular da transfiguração de Jesus, dizendo: “Não, não foi por seguirmos histórias falsas, engenhosamente inventadas [grego: mý·thos] que vos familiarizamos com o poder e a presença de nosso Senhor Jesus Cristo, mas foi por nos termos tornado testemunhas oculares da sua magnificência. Pois ele recebeu de Deus, o Pai, honra e glória, quando pela glória magnificente lhe foram dirigidas palavras tais como estas: ‘Este é meu Filho, meu amado, a quem eu mesmo tenho aprovado.’ Sim, estas palavras nós ouvimos dirigidas desde o céu, enquanto estávamos com ele no monte santo.” — 2 Pedro 1:16-18.g
44. Que princípio bíblico deve prevalecer em qualquer conflito entre as opiniões do homem e da Palavra de Deus?
44 Neste conflito entre a opinião “perita” do homem e a Palavra de Deus, temos de aplicar o princípio já declarado: “Qual é o caso, então? Se alguns não expressaram fé, porventura fará a sua falta de fé que a fidelidade de Deus seja sem efeito? Que isso nunca aconteça! Mas, seja Deus achado verdadeiro, embora todo homem seja achado mentiroso, assim como está escrito: ‘Que sejas mostrado justo nas tuas palavras e venças quando estiveres sendo julgado.’” — Romanos 3:3, 4.
Traços Comuns
45. Quais são alguns dos traços comuns encontrados na mitologia universal?
45 Esta breve análise de algumas das mitologias universais serviu para apontar algumas características comuns, muitas das quais remontam à Babilônia, o berço mesopotâmico da maioria das religiões. Há traços comuns, seja nos fatos da criação, seja nos relatos sobre um período em que semideuses e gigantes ocupavam a terra e um dilúvio destruiu os iníquos, ou ainda nos conceitos religiosos básicos da adoração do sol e de uma alma imortal.
46, 47. (a) Que explicação bíblica temos para a origem e os traços comuns da mitologia? (b) Que outros aspectos da adoração antiga abrangeremos?
46 Do ponto de vista bíblico, podemos explicar esses traços comuns quando nos lembramos de que, após o Dilúvio, às ordens de Deus, a humanidade se espalhou a partir de Babel, na Mesopotâmia, há mais de 4.200 anos. Embora se tenham dispersado, formando famílias e tribos com diferentes línguas, estas iniciaram com o mesmo entendimento básico a respeito de história e conceitos religiosos anteriores. (Gênesis 11:1-9) Ao longo dos séculos, este entendimento foi distorcido e enfeitado em cada cultura, resultando nas muitas ficções, lendas e mitos que sobreviveram até os nossos dias. Estes mitos, apartados da verdade bíblica, deixaram de levar a humanidade mais para perto do Deus verdadeiro.
47 Contudo, a humanidade tem também expressado seus sentimentos religiosos de várias outras maneiras — espiritismo, xamanismo, magia, adoração de ancestrais, e assim por diante. Será que estas nos dizem algo a respeito da busca de Deus por parte da humanidade?
[Nota(s) de rodapé]
a Para um exame detalhado da criação, veja o livro A Vida — Qual a Sua Origem? A Evolução ou a Criação?, distribuído pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados.
b A mitologia mais recente da China, resultante da influência do budismo, taoísmo e confucionismo, será considerada nos capítulos 6 e 7.
c Para um estudo mais detalhado da autenticidade histórica do Dilúvio, veja Ajuda ao Entendimento da Bíblia, páginas 450-2, distribuído pela Sociedade Torre de Vigia.
d “Hades” ocorre dez vezes nas Escrituras Gregas Cristãs, não como pessoa mitológica, mas como a sepultura comum da humanidade. É o equivalente em grego do hebraico she’óhl. (Compare Salmo 16:10 com Atos 2:27, Int.) — Veja Ajuda ao Entendimento da Bíblia, páginas 707-8, publicado pela Sociedade Torre de Vigia.
e Curiosamente, Utnapichtim, o herói da Epopéia de Gilgamés, também tinha seu barqueiro, Urchanabi, que levou Gilgamés através das águas da morte ao encontro do sobrevivente do dilúvio.
f Segundo o texto tradicional de Josefo, nota de rodapé, página 48 da edição da Harvard University Press, Volume IX.
g Para informações adicionais sobre cristianismo, veja o capítulo 10.
[Foto na página 42]
Monte Olimpo, Grécia, suposto lar dos deuses.
[Foto na página 47]
Tabuinha de argila, em escrita cuneiforme, que apresenta parte da Epopéia de Gilgamés.
[Foto na página 50]
Anúbis, o deus de cabeça de chacal, julga um coração-alma, na balança esquerda, contra Maat, a deusa da verdade e da justiça, simbolizada por uma pena; Tot anota o resultado numa tabuinha antes de anunciá-lo a Osíris.
[Fotos na página 55]
Chalchihuitlicue, deusa asteca da água fresca; vaso em forma de coruja com uma cavidade na qual, segundo se crê, eram depositados os corações sacrificados.
[Foto na página 57]
A tríade egípcia: a partir da esquerda, Hórus, Osíris e Ísis.
[Fotos na página 58]
A adoração inca do sol era praticada em Machupicchu, Peru.
O Intihuatana, na foto menor, o “poste de amarrar” do sol, talvez usado em conexão com a adoração do sol em Machupicchu.
[Fotos na página 63]
Representação de Hórus, o falcão; Ápis, o touro e Heqt, a rã. Os deuses egípcios não conseguiram evitar as pragas que Jeová enviou, incluindo a transformação do Nilo em sangue.
[Fotos na página 64]
Deidades gregas, a partir da esquerda, Afrodite; Zeus carregando Ganimedes, copeiro dos deuses; e Ártemis.
[Fotos/Quadro nas páginas 60,61]
Deuses do Soldado Romano
Roma era famosa por seu exército disciplinado. A coesão de seu império dependia do moral e da eficiência das legiões militares. Era a religião um fator preponderante? Sim, e felizmente para nós, os romanos deixaram clara evidência de sua ocupação em forma de estradas, fortalezas, aquedutos, coliseus e templos. Por exemplo, em Northumbria, no norte da Inglaterra, existe a famosa Muralha de Adriano, construída por volta de 122 EC. O que revelaram as escavações sobre as atividades militares romanas e o papel da religião?
No Museu de Housesteads, perto das ruínas escavadas de uma guarnição romana na Muralha de Adriano, um painel declara: “A vida religiosa do soldado romano dividia-se em três partes. Primeiramente . . . o culto dos Imperadores Deificados e a adoração dos deuses protetores de Roma, tais como Júpiter, Vitória e Marte. Dedicava-se anualmente um altar a Júpiter, na praça de paradas de cada forte. Esperava-se que todo soldado participasse nas festividades comemorativas de aniversários de nascimento, de coroação e de vitórias dos Imperadores Deificados.” Quão similar aos costumes de exércitos modernos, em que capelães, altares e bandeiras são componentes regulares de adoração no exército!
Mas, qual era o segundo principal aspecto da vida religiosa do soldado romano? Era a adoração dos deuses protetores e do espírito guardião de sua unidade específica “bem como os deuses trazidos de sua terra natal”.
“Por fim, havia os cultos praticados pelos indivíduos em si. Contanto que o soldado cumprisse seus deveres para com os cultos oficiais, estava livre para adorar o deus que desejasse.” Isto soa como se houvesse uma bem liberal liberdade de adoração, mas “exceções eram aquelas religiões, uma das quais o druidismo, cujas práticas eram tidas como desumanas, e aquelas cuja lealdade ao Estado era suspeita, o cristianismo, por exemplo”. — Compare com Lucas 20:21-25; 23:1, 2; Atos 10:1, 2, 22.
Curiosamente, em 1949, foi descoberto um templo de Mitra num pântano em Carrawburgh, bem perto da Muralha de Adriano. (Veja a foto.) Os arqueólogos calculam que foi construído por volta de 205 EC. Contém uma imagem do deus-sol, altares, e uma inscrição em latim que diz, em parte: “Ao invencível deus Mitra.”
[Quadro na página 43]
Divindades Gregas e Romanas
Muitos deuses e deusas da mitologia grega têm funções semelhantes na mitologia romana. A tabela abaixo alista alguns deles.
Gregos Romanos Função
Afrodite Vênus Deusa do amor
Apolo Apolo Deus da luz, medicina e poesia
Ares Marte Deus da guerra
Ártemis Diana Deusa da caça e do parto
Asclépio Esculápio Deus da medicina
Atenas Minerva Deusa dos ofícios manuais, da guerra e da sabedoria
Cronos Saturno Para os gregos, chefe dos Titãs e pai de Zeus. Na mitologia romana, também deus da agricultura
Deméter Ceres Deusa da germinação e da colheita
Dionísio Baco Deus do vinho, da fertilidade e do comportamento selvagem.
Eros Cupido Deus do amor
Géia Terra Símbolo da terra, e mãe e esposa de Urano
Hefesto Vulcano Ferreiro dos deuses e deus do fogo e dos trabalhos em metal
Hera Juno Protetora dos casamentos e das mulheres. Para os gregos, irmã e esposa de Zeus; para os romanos, esposa de Júpiter
Hermes Mercúrio Mensageiro dos deuses; deus do comércio e da ciência; e protetor dos viajantes, ladrões e vagabundos
Héstia Vesta Deusa da lareira
Hipnos Sono Deus do sono
Plutão, Hades Plutão Deus do mundo subterrâneo
Posseidon Netuno Deus do mar. Na mitologia grega, também deus dos terremotos e dos cavalos
Réia Ops Mulher e irmã de Cronos
Urano Urano Filho e marido de Géia e pai dos Titãs
Zeus Júpiter Rei dos deuses
Baseado na Enciclopédia Delta Universal, Edição de 1987, Volume 10, página 5394.
[Quadro na página 45]
Deuses e Deusas Assírio-Babilônicos
Anu — o deus supremo, reinava sobre os céus; pai de Istar
Assur — deus-guerreiro nacional dos assírios; também deus da fertilidade
Ea — deus da água. Pai de Marduque. Alertou Utnapichtim a respeito do dilúvio
Enlil (Bel) — senhor do ar; mais tarde correspondeu a Zeus, na mitologia grega. Os babilônios o assimilaram como Marduque (Bel)
Istar — personificação divina do planeta Vênus; prostituição sagrada fazia parte de seu culto. Era Astartéia na Fenícia, Atárgatis na Síria, Astorete na Bíblia (1 Reis 11:5, 33), Afrodite na Grécia, Vênus em Roma
Marduque — principal deus babilônio; “absorveu todos os outros deuses e assumiu todas as suas várias funções”. Chamado de Merodaque pelos israelitas
Sin — deus-lua, membro da tríade que incluía Xamaxe (o sol) e Istar (o planeta Vênus)
Tamuz (Dumúzi) — deus da colheita. Amante de Istar
Xamaxe — deus-sol da luz e da justiça. Precursor do grego Apolo
(Baseado na Nova Enciclopédia Larousse de Mitologia, em inglês.)
[Quadro na página 62]
Deuses do Egito e as Dez Pragas
Jeová executou julgamento contra os deuses impotentes do Egito por meio das Dez Pragas. — Êxodo 7:14-12:32.
Praga Descrição
1 Águas do Nilo e outras se transformaram em sangue. O
deus do Nilo, Hápi, foi desmoralizado.
2 Rãs. A deusa-rã Heqt foi incapaz de impedi-la.
3 Pó se transformou em borrachudos. Tot, senhor da
magia, não pôde ajudar os mágicos egípcios.
4 Moscões por todo o Egito, exceto em Gósen, onde
vivia Israel. Deus algum pôde impedi-la, — nem mesmo
Ptah, criador do universo, ou Tot, senhor da magia.
5 Peste no gado. Nem a sagrada deusa-vaca Hator,
tampouco Ápis, o touro, pôde evitar esta praga.
6 Furúnculos. Deidades da medicina, Tot, Ísis e Ptah,
foram incapazes de ajudar.
7 Trovões e saraiva. Exposta a impotência de Reshpu,
controlador dos relâmpagos, e Tot, deus da chuva e
do trovão.
8 Gafanhotos. Foi um golpe no deus da fertilidade,
Min, protetor das colheitas.
9 Três dias de escuridão. Rá, o destacado deus-sol, e
Hórus, um deus solar, foram desmoralizados.
10 Morte dos primogênitos, incluindo o de Faraó, que
era tido como deus encarnado.
Rá (Amon-Rá), deus-sol e às vezes representado
como carneiro, foi incapaz de impedi-la.
[Quadro na página 66]
Mitologia e Cristianismo
A adoração de deuses míticos das antigas Grécia e Roma era muito influente quando o cristianismo entrou em cena, uns dois mil anos atrás. Na Ásia Menor, os nomes gregos ainda prevaleciam, o que explica por que as pessoas em Listra (atual Turquia) chamavam de “deuses” a Paulo e a Barnabé, que faziam curas, referindo-se a eles como Hermes e Zeus, respectivamente, em vez de como os romanos Mercúrio e Júpiter. O relato diz que “o sacerdote de Zeus, cujo templo estava diante da cidade, trouxe touros e grinaldas até os portões, e estava desejando oferecer sacrifícios com as multidões”. (Atos 14:8-18) A muito custo Paulo e Barnabé convenceram a multidão a não lhes oferecer sacrifícios. Isto ilustra quão a sério as pessoas daquele tempo encaravam a sua mitologia.
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Em busca do desconhecido através da magia e do espiritismoO Homem em Busca de Deus
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Capítulo 4
Em busca do desconhecido através da magia e do espiritismo
1. Que disse Paulo aos atenienses no Areópago? Por quê?
“HOMENS de Atenas, eu observei que em todas as coisas pareceis mais dados ao temor das deidades do que os outros.” (Atos 17:22) Foi isso que o apóstolo cristão Paulo disse a uma multidão reunida no Areópago, ou Colina de Marte, na antiga cidade de Atenas, Grécia. Paulo disse isso porque havia percebido que “a cidade estava cheia de ídolos”. (Atos 17:16) O que havia visto ele?
2. Que indicativo havia do temor dos atenienses a deidades?
2 Sem dúvida, Paulo havia visto uma diversidade de deuses gregos e romanos naquela cidade cosmopolita, e era óbvio que a vida do povo girava em torno da adoração das deidades. Temendo que involuntariamente deixassem de venerar alguma deidade importante ou poderosa, que por isso poderia enfurecer-se, os atenienses incluíam na sua adoração até mesmo “um Deus Desconhecido”. (Atos 17:23) Isso era um claro indicativo do temor que eles tinham às deidades.
3. Limitava-se aos atenienses o temor a deidades?
3 Naturalmente, o temor às deidades, em especial às desconhecidas, não se limitava aos atenienses do primeiro século. Por milhares de anos, tal temor tem dominado praticamente toda a humanidade. Em muitas partes do mundo, quase todo aspecto da vida das pessoas é direta ou indiretamente envolvido com alguma deidade ou com espíritos. Como vimos no capítulo anterior, a mitologia dos antigos egípcios, gregos, romanos, chineses e outros, arraigava-se profundamente em conceitos a respeito de deuses e espíritos, que desempenhavam um papel importante nos assuntos pessoais e nacionais. Na Idade Média, histórias sobre alquimistas, feiticeiros e bruxas grassavam no domínio da cristandade. E a situação é um tanto similar hoje.
Modernos Rituais e Superstições
4. Quais são alguns costumes populares que evidentemente têm ligação com deidades ou espíritos?
4 Quer se dêem conta disso, quer não, muitas das coisas que as pessoas fazem têm ligação com práticas ou crenças supersticiosas, algumas delas tendo relação com deidades ou espíritos. Por exemplo, sabia que a celebração de aniversários de nascimento origina-se na astrologia, que dá grande importância à data exata do nascimento da pessoa? Que dizer do bolo de aniversário? Parece estar relacionado com a deusa grega Ártemis, cujo natalício era celebrado com bolos de mel em forma de lua, com velas sobre eles. Ou, sabia que vestir-se de preto nos funerais era originalmente um ardil para burlar a atenção de espíritos maus que alegadamente estariam de tocaia em tais ocasiões? Alguns negros africanos pintam-se de branco, e pessoas de luto em outros países usam roupas de cores incomuns para que os espíritos não as reconheçam.
5. Quais são algumas das superstições comuns que você conhece?
5 Além desses costumes populares, pessoas em toda a parte têm suas superstições e temores. No Ocidente, quebrar um espelho, avistar um gato preto, passar por baixo de uma escada e, dependendo de onde você vive, a terça ou a sexta-feira 13, são encarados como mau agouro. No Oriente, os japoneses usam o quimono com a parte esquerda sobreposta à direita, pois o contrário é reservado para cadáveres. As casas não têm janelas nem portas no lado nordeste, para que os demônios, que alegadamente vêm dessa direção, não encontrem a entrada. Nas Filipinas, as pessoas tiram o sapato dos mortos e o colocam ao lado das pernas antes do sepultamento, para que “São” Pedro os receba bem. Pessoas idosas dizem aos jovens que se comportem, alegando que a figura na lua é “São” Miguel, observando e anotando as suas ações.
6. Até que ponto estão as pessoas envolvidas com o espiritismo hoje?
6 A crença em espíritos e deidades, contudo, não se limita a costumes e superstições aparentemente inofensivos. Tanto nas primitivas como nas modernas sociedades, as pessoas têm lançado mão de vários métodos para controlar ou apaziguar os espíritos temíveis e ganhar o favor dos benevolentes. Naturalmente, a primeira imagem que talvez nos venha à mente seja a de pessoas em selvas e montanhas remotas, que consultam médiuns espíritas, curandeiros e xamãs (sacerdotes-magos) quando estão doentes ou em sérias dificuldades. Mas, pessoas que vivem em cidades, grandes e pequenas, também recorrem a astrólogos, médiuns, cartomantes e adivinhos para saber o futuro ou receber ajuda em tomar decisões importantes. Alguns, mesmo pertencendo nominalmente a uma ou outra religião, dedicam-se com entusiasmo a tais práticas. Muitos outros têm feito do espiritismo, da magia negra e do ocultismo a sua religião.
7. Que perguntas temos de considerar?
7 Qual é a fonte ou origem de todas essas práticas e superstições? São apenas maneiras diferentes de chegar-se a Deus? E, o mais importante, que fazem elas em benefício dos que as seguem? Para achar a resposta a tais perguntas, temos de remontar ao passado na história do homem e obter um relance de suas primitivas formas de adoração.
Em Busca do Desconhecido
8. Que qualidade ímpar diferencia os seres humanos das criaturas inferiores?
8 Contrário ao que talvez afirmem os evolucionistas, o ser humano tem uma dimensão espiritual que o torna diferente e superior em relação às criaturas inferiores. Ele nasce com a ânsia de desvendar o desconhecido. Está sempre às voltas com perguntas tais como: Qual é o sentido da vida? O que acontece após a morte? Qual é a relação do homem com o mundo material e, na realidade, com o universo? Ele é impelido também pelo desejo de alcançar algo mais elevado ou mais poderoso do que ele próprio, para que de algum modo possa controlar o seu meio ambiente e a sua vida. — Salmo 8:3, 4; Eclesiastes 3:11; Atos 17:26-28.
9. Como é que certo perito descreve “espiritualidade”?
9 Ivar Lissner, em seu livro Man, God and Magic (O Homem, Deus e a Magia) colocou isso da seguinte maneira: “Não deixa de causar admiração a perseverança com que o homem se tem esforçado, no decorrer de sua história, de ir além dos limites de si mesmo. Suas energias jamais foram orientadas unicamente na direção das necessidades da vida. Sempre procurando, tateando adiante em seu caminho, aspirando o inatingível. Este anseio estranho e inerente no ser humano é sua espiritualidade.”
10. O que mostra que o homem tem uma ânsia natural de chegar a Deus?
10 Naturalmente, os que não crêem em Deus não encaram o assunto dessa maneira. Em geral atribuem essa tendência humana às necessidades do homem, psicológicas ou outras, como vimos no Capítulo 2. Contudo, não sabemos todos nós que, diante do perigo ou de uma situação desesperadora, a primeira reação da maioria das pessoas é recorrer a Deus ou a algum poder superior em busca de ajuda? Tem sido assim tanto hoje como em tempos idos. Portanto, Lissner prosseguiu: “Ninguém que pesquisou entre os mais antigos povos primitivos pode deixar de ver que todos eles concebiam a existência de Deus, que tinham uma vívida percepção da existência de um ser supremo.”
11. Qual é o resultado do empenho do homem em chegar ao desconhecido? (Veja Romanos 1:19-23.)
11 De que modo tentavam satisfazer esse desejo inato de chegar ao desconhecido era um caso bem diferente. Caçadores e criadores de gado nômades estremeciam diante da força dos animais selvagens. Agricultores atentavam especialmente às mudanças do tempo e das estações. Os habitantes das selvas reagiam de maneira muito diferente daqueles que viviam nos desertos ou nas montanhas. Em face desses variados temores e necessidades, as pessoas criaram uma estonteante variedade de práticas religiosas através das quais esperavam apelar aos deuses benevolentes e apaziguar os temíveis.
12. Que aspectos comuns podem ser observados nas práticas religiosas das pessoas em toda a parte?
12 Apesar da grande diversidade, porém, é possível reconhecer certos aspectos comuns nessas práticas religiosas. Entre estes, a reverência e o temor para com espíritos sagrados e poderes sobrenaturais, o uso da magia, a adivinhação do futuro através de sinais e agouros, a astrologia e variados métodos de ler a sorte. Examinando tais aspectos, veremos que eles têm desempenhado um papel importante em moldar o pensamento religioso das pessoas em todo o mundo e em todas as eras, incluindo até mesmo pessoas hoje em dia.
Espíritos Sagrados e Poderes Sobrenaturais
13. O que talvez intrigasse as pessoas em tempos idos?
13 A vida das pessoas nos tempos primitivos parecia envolta em mistérios. Viviam cercadas de eventos inexplicáveis e desconcertantes. Por exemplo, não podiam entender por que uma pessoa perfeitamente robusta devesse subitamente adoecer, ou por que o céu deixaria de dar chuva na época costumeira, ou por que uma árvore desfolhada, aparentemente sem vida, devesse ficar verde e cheia de vida numa determinada época do ano. Até mesmo a sombra, os batimentos do coração e a respiração da pessoa eram mistérios.
14, 15. Devido à falta de entendimento e orientação, ao que mais provavelmente o homem atribuía o inexplicável? (Veja 1 Samuel 28:3-7.)
14 Considerando a inclinação espiritual inata do homem, seria natural que ele atribuísse tais coisas e acontecimentos misteriosos a algum poder sobrenatural. Contudo, faltando-lhe a correta orientação e entendimento, seu mundo logo passou a ficar repleto de almas, espíritos, fantasmas e demônios. Por exemplo, os índios algonquianos, da América do Norte, chamam a alma da pessoa de otahchuk, que significa “sua sombra”, e os malaios do sudeste da Ásia crêem que, quando um homem morre, a sua alma escapa através das narinas. Hoje, a crença em espíritos e almas que partiram — e tentativas de se comunicar com eles de alguma maneira — são praticamente universais.
15 Da mesma maneira, outras coisas no ambiente natural — sol, lua, estrelas, oceanos, rios, montanhas — pareciam estar vivas e exercer uma influência direta sobre as atividades humanas. Visto que tais coisas pareciam ocupar um mundo à parte, foram personificadas como espíritos e deidades, alguns benevolentes e prestimosos, outros iníquos e danosos. A adoração de coisas criadas veio a ocupar um lugar de destaque em quase todas as religiões.
16. Como se manifestou a adoração de espíritos, deidades e objetos sagrados?
16 Encontramos crenças desse tipo nas religiões de praticamente toda civilização antiga. Os babilônios e os egípcios adoravam seus deuses do sol, da lua e das constelações. Animais domésticos e selvagens também figuravam entre seus objetos de veneração. Os hindus se notabilizam por seu panteão de deuses, que chegam a milhões. Os chineses sempre tiveram suas montanhas sagradas e seus deuses-rio, e eles expressam a sua devoção filial na adoração de antepassados. Os antigos druidas das Ilhas Britânicas consideravam sagrados os carvalhos, e reverenciavam em especial o visco que crescia no carvalho. Mais tarde, os gregos e os romanos deram a sua contribuição; e a crença em espíritos, deidades, almas, demônios e objetos sagrados de todo tipo ficou solidamente entrincheirada.
17. Em que sentido a adoração de coisas criadas ainda está em voga hoje?
17 Embora alguns hoje possam encarar essas crenças como superstições, tais conceitos ainda estão presentes nas práticas religiosas de muitas pessoas em todo o mundo. Algumas ainda crêem que certas montanhas, rios, rochas de configuração estranha, árvores velhas e numerosas outras coisas sejam sagradas, e elas as adoram como objetos de devoção. Constroem altares, santuários e templos nesses lugares. Por exemplo, o rio Ganges é sagrado para os hindus, cujo mais acalentado desejo é banhar-se nele quando em vida e terem suas cinzas espalhadas sobre ele quando morrem. Os budistas consideram uma extraordinária experiência adorar no santuário em Buda Gaia, Índia, onde se diz que o Buda foi iluminado debaixo de uma figueira-dos-pagodes. Católicos vão de joelhos à Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, no México, ou banham-se nas águas “sagradas” do santuário de Lourdes, na França, em busca de curas milagrosas. Venerar coisas criadas, em vez de o Criador, ainda é muito comum hoje. — Romanos 1:25.
A Ascensão da Magia
18. A que levou a crença em espíritos e deidades?
18 Uma vez estabelecida a crença de que o mundo inanimado estava cheio de espíritos, bons e maus, isso facilmente levou ao passo seguinte — tentativas de comunicar-se com os bons em busca de orientação e bênçãos, e de apaziguar os maus. O resultado foi a prática da magia, que tem florescido a bem dizer em toda nação, passada e presente. — Gênesis 41:8; Êxodo 7:11, 12; Deuteronômio 18:9-11, 14; Isaías 47:12-15; Atos 8:5, 9-13; 13:6-11; 19:18, 19.
19. (a) O que é magia? (b) Por que a magia parece crível a muitos?
19 No sentido mais básico, magia é uma tentativa de controlar ou coagir as forças naturais ou sobrenaturais para cumprir os mandos do homem. Desconhecendo a causa real de muitos acontecimentos cotidianos, as pessoas nas primitivas sociedades criam que a repetição de certas palavras mágicas ou encantamentos, ou a realização de algum ritual, poderiam produzir certos efeitos desejados. O que dava credibilidade a esse tipo de magia era que alguns dos rituais realmente davam certo. Por exemplo, os curandeiros — basicamente mágicos ou feiticeiros — das ilhas Mentavai, a oeste de Sumatra, eram tidos como surpreendentemente eficazes em curar pessoas que sofriam de diarréia. A sua fórmula mágica era fazer com que os doentes se deitassem com o rosto em terra perto da beirada de um penhasco, lambendo o solo de vez em quando. Por que dava certo? O solo nos penhascos continha caulim, a argila branca comumente usada em alguns dos modernos remédios contra a diarréia.
20. Como foi que a magia veio a dominar a vida das pessoas?
20 Uns poucos êxitos desse tipo rapidamente anulavam todos os fracassos e estabeleciam a reputação dos curandeiros. Estes logo se transformavam em personagens que gozavam de admiração e alta estima — sacerdotes, chefes, xamãs, pajés, feiticeiros, médiuns. As pessoas levavam a eles os seus problemas, buscando a cura e a prevenção de doenças, encontrar itens perdidos, identificar ladrões, afastar más influências e executar vingança. Por fim, veio a existir um grande conjunto de práticas e rituais supersticiosos que tinham a ver com estes assuntos bem como com outras ocorrências na vida, como nascimento, atingir a maioridade, noivado, casamento, morte e sepultamento. O poder e o mistério da magia logo dominavam todo aspecto da vida das pessoas.
Danças da Chuva e Encantamentos
21, 22. O que significa “magia imitativa”? Ilustre.
21 Apesar da enorme variedade de práticas de magia dos diferentes povos, os conceitos básicos por trás delas são notavelmente similares. Primeiro, existe a crença de que o semelhante produz o semelhante, ou seja, que um desejado efeito pode ser produzido por imitá-lo. Isto é às vezes chamado de magia imitativa. Por exemplo, quando a falta de chuva ameaçava as suas plantações, os índios omaha, da América do Norte, dançavam em volta de uma vasilha de água. Daí, um deles punha na boca um pouco da água e cuspia no ar, imitando um borrifo ou chuvisco. Ou, talvez um homem rolasse no chão, como um urso ferido, para garantir uma bem-sucedida caça ao urso.
22 Outros povos tinham rituais mais complexos, incluindo cantos e oferendas. Os chineses faziam um grande dragão de papel ou de madeira, seu deus da chuva, e carregavam-no em procissão, ou, então, tiravam a imagem de sua deidade do templo e colocavam-na ao sol, para que sentisse o calor e talvez enviasse chuva. O ritual do povo ngoni, da África Oriental, inclui despejar cerveja numa vasilha enterrada no solo num templo da chuva e daí orar: “Senhor Chauta, endureceste o coração contra nós, que queres que façamos? Certamente teremos de perecer. Dá chuvas a teus filhos; eis a cerveja que te demos.” Daí eles bebem o restante da cerveja. Seguem-se cantos e danças e o agitamento de galhos mergulhados em água.
23. Como se desenvolveram a bruxaria e o jogar feitiços? (Veja Levítico 19:31; 20:6, 27; Deuteronômio 18:10-13.)
23 Outro conceito por trás das práticas de magia é que os objetos que pertenceram a uma pessoa continuam a influenciá-la, mesmo depois de separados dela. Isto levou à prática de jogar um feitiço na pessoa, fazendo um trabalho em algo que outrora pertencia a ela. Mesmo na Europa e na Inglaterra dos séculos 16 e 17, as pessoas ainda criam em bruxas e feiticeiros, que poderiam prejudicar as pessoas com esse tipo de poder. As técnicas incluíam coisas como fazer um boneco de cera duma pessoa e espetar alfinetes nele, escrever o nome da pessoa num pedaço de papel e daí queimá-lo, enterrar uma peça de seu vestuário, ou fazer outros trabalhos com seus cabelos, pedacinhos de unha, suor ou até mesmo excremento. Pode-se ver o alcance destas e de outras práticas do fato de que, na Inglaterra, promulgaram-se Atos do Parlamento em 1542, 1563 e 1604, declarando a bruxaria um crime passível de pena de morte. De uma forma ou de outra, esse tipo de magia tem sido praticado pelas pessoas a bem dizer em todas as nações, ao longo das eras.
O Futuro Por Meio de Sinais e Presságios
24. (a) O que é adivinhação? (b) Como é que os babilônios praticavam a adivinhação?
24 A magia não raro é empregada para descobrir informações ocultas ou para divisar o futuro por meio de sinais e presságios. Isto é conhecido como adivinhação, e os babilônios destacavam-se nisso. Segundo o livro Magia, Supernaturalismo e Religião (em inglês), “eles eram mestres nas artes da presciência, predizendo o futuro à base do fígado e dos intestinos de animais abatidos, do fogo e da fumaça e do brilho de pedras preciosas; prediziam eventos à base do burburinho de fontes e do formato de plantas. . . . Sinais atmosféricos, chuva, nuvens, vento e relâmpagos eram interpretados como presságios; o estalo de móveis e painéis de madeira prediziam eventos futuros. . . . Moscas e outros insetos, bem como cachorros, eram portadores de mensagens ocultas”.
25. De que modo Ezequiel e Daniel se referiram à prática da adivinhação na antiga Babilônia?
25 O livro bíblico de Ezequiel relata que numa certa campanha militar, “o rei de Babilônia parou na encruzilhada, na cabeceira dos dois caminhos, para recorrer à adivinhação. Sacudiu as flechas. Indagou por meio dos terafins; examinou o fígado”. (Ezequiel 21:21) Conjuradores, feiticeiros e sacerdotes-magos eram também uma constante na corte babilônica. — Daniel 2:1-3, 27, 28.
26. Que forma de adivinhação era comum entre os gregos?
26 Os povos de outras nações, tanto orientais como ocidentais, também recorriam a muitas formas de adivinhação. Os gregos consultavam seus oráculos com relação a grandes eventos políticos bem como assuntos temporais pessoais, como casamento, viagens e filhos. O mais famoso desses era o oráculo de Delfos. As respostas, supostamente do deus Apolo, eram dadas através da sacerdotisa, ou Pítia, em sons ininteligíveis, sendo interpretados pelos sacerdotes como criando versos ambíguos. Um exemplo clássico foi a resposta dada a Creso, rei da Lídia, que dizia: “Se Creso cruzar o Hális, ele destruirá um poderoso império.” Aconteceu que o poderoso império destruído foi o dele mesmo. Creso foi derrotado por Ciro, o persa, quando cruzou o rio Hális para invadir a Capadócia.
27. Até que ponto os romanos praticavam a adivinhação?
27 No Ocidente, a arte da adivinhação atingiu o apogeu com os romanos, que se preocupavam com presságios e portentos em praticamente tudo o que faziam. Pessoas de todas as camadas sociais criam na astrologia, na feitiçaria, em talismãs, na leitura da sorte e em muitas outras formas de adivinhação. E, segundo um especialista em história romana, Edward Gibbon, “as várias modalidades de adoração que prevaleciam no mundo romano eram consideradas igualmente verdadeiras pelo povo”. O famoso estadista e orador Cícero era perito em procurar presságios no vôo das aves. O historiador romano Petrônio observou que, a julgar pela profusão de religiões e cultos em algumas cidades romanas, deve ter havido mais deuses do que pessoas nelas.
28. Que tipo de adivinhação praticavam os chineses nos tempos antigos?
28 Na China, foram escavados mais de 100.000 pedaços de ossos e conchas de oráculo datados do segundo milênio AEC (dinastia Xang). Eram usados pelos sacerdotes xang na busca de orientação divina para tudo, das condições do tempo ao movimento de tropas. Os sacerdotes escreviam perguntas nesses ossos, numa escrita antiga. Daí, esquentavam os ossos, examinavam as rachaduras que surgiam e anotavam as respostas nos mesmos ossos. Alguns estudiosos crêem que desses antigos caracteres desenvolveu-se a escrita chinesa.
29. Que princípio quanto à adivinhação é apresentado em I Ching?
29 O mais bem-conhecido tratado chinês sobre adivinhação é o I Ching (Cânone de Mudanças), alegadamente escrito pelos dois primeiros imperadores Chou, Wen Wang e Chou Kung, no século 12 AEC. Ele contém detalhadas explicações sobre a interação das duas forças opostas, yin e yang, (escuro-claro, negativo-positivo, feminino-masculino, lua-sol, terra-céu, e assim por diante), que muitos chineses ainda crêem que sejam os princípios controladores por trás de todos os assuntos da vida. Apresenta o conceito de que tudo está sempre mudando e que nada é permanente. Para ter êxito em qualquer empreendimento, a pessoa tem de aperceber-se de todas as mudanças do momento e agir concordemente. Assim, as pessoas fazem perguntas, lançam sortes, e daí recorrem ao I Ching em busca de respostas. No decorrer dos séculos, o I Ching tem sido a base para todo tipo de leitura da sorte, geomancia e outras formas de adivinhação na China.
Da Astronomia à Astrologia
30. Explique como se desenvolveu a primitiva astronomia.
30 O funcionamento ordeiro do sol, da lua, das estrelas e dos planetas há muito tem sido uma fonte de fascínio para as pessoas na terra. Descobriram-se na Mesopotâmia catálogos de estrelas que remontam a 1800 AEC. Baseados em tais informações, os babilônios conseguiam prever muitos eventos astronômicos, como eclipses lunares, o nascimento e o ocaso de constelações e certos movimentos dos planetas. Egípcios, assírios, chineses, indianos, gregos, romanos e outros povos antigos, também observavam o céu e mantinham detalhados registros de eventos astronômicos. À base desses registros eles elaboravam seus calendários e programavam as suas atividades anuais.
31. Como foi que a astronomia deu origem à astrologia?
31 À base de observações astronômicas, percebeu-se que certos eventos na terra pareciam sincronizar-se com certos eventos celestes. Por exemplo, a mudança de estações seguia de perto o movimento do sol, o fluxo e refluxo das marés acontecia segundo as fases da lua e a inundação anual do Nilo sempre se seguia ao aparecimento de Sírius, a estrela mais brilhante. A dedução lógica foi que os corpos celestes desempenhavam um papel significativo na causa destes e de outros eventos na terra. De fato, os egípcios chamavam Sírius de Formadora do Nilo. A idéia de que as estrelas influenciavam os eventos na terra rapidamente levou ao conceito de que os corpos celestes poderiam ser usados para predizer o futuro. Assim, a astronomia fez surgir a astrologia. Logo, reis e imperadores mantinham astrólogos oficiais nas cortes para consultar as estrelas concernente a importantes assuntos nacionais. Mas, o povo comum também recorria às estrelas com respeito à sua sorte pessoal.
32. De que maneiras os babilônios praticavam a astrologia?
32 Os babilônios, mais uma vez, entram em cena. Eles encaravam as estrelas como morada celestial dos deuses, assim como os templos eram suas moradas terrestres. Isto fez surgir o conceito de agrupar as estrelas em constelações, bem como a crença de que os distúrbios nos céus, tais como os eclipses ou a aparição de certas estrelas ou cometas brilhantes, pressagiavam tristeza e guerra na terra. Centenas de relatórios de astrólogos a reis foram encontrados entre os artefatos escavados na Mesopotâmia. Alguns destes diziam, por exemplo, que um iminente eclipse lunar era sinal de que certo inimigo sofreria derrota, ou que o aparecimento de certo planeta numa determinada constelação seria prenúncio de “grande ira” na terra.
33. O que disse Isaías a respeito dos babilônios “contempladores das estrelas”?
33 Até que ponto os babilônios fiavam-se nessa forma de adivinhação vê-se também nas palavras censuradoras do profeta Isaías contra eles, ao predizer a destruição de Babilônia: “Fica, pois, com os teus encantamentos e com a abundância das tuas feitiçarias em que labutaste desde a tua mocidade . . . Que se ponham de pé, pois, e que te salvem, os adoradores dos céus, os contempladores das estrelas, os que divulgam conhecimento nas luas novas a respeito das coisas que virão sobre ti.” — Isaías 47:12, 13.
34. Quem eram os “magos” que foram ver o menino Jesus?
34 De Babilônia a astrologia foi exportada para o Egito, Assíria, Pérsia, Grécia, Roma e Arábia. No Oriente, os hindus e os chineses também tinham seus apurados sistemas de astrologia. Os “magos” que segundo o evangelista Mateus foram ver o menino Jesus eram “astrólogos das regiões orientais”. (Mateus 2:1, 2) Alguns estudiosos crêem que estes astrólogos talvez fossem da escola caldaica e medo-persa de astrologia, de Pártia, que havia sido província da Pérsia, transformando-se mais tarde no independente Império Parto.
35. O que se desenvolveu na astrologia a partir do tempo dos gregos?
35 Foram os gregos, porém, que deram à astrologia a sua forma atual. No segundo século EC, Cláudio Ptolomeu, astrônomo grego de Alexandria, Egito, reuniu todas as existentes informações astrológicas em quatro livros, chamados Tetrabiblos, que têm servido como texto básico de astrologia até hoje. Disso desenvolveu-se o que é comumente chamado de astrologia natal, isto é, um sistema para predizer o futuro duma pessoa estudando a sua carta de nascimento, ou horóscopo — um mapa que mostra a posição do sol, da lua e de vários planetas entre as constelações, conforme visto da localidade em que a pessoa nasceu e no momento de seu nascimento.
36. Qual é a evidência de que a astrologia tornara-se respeitável?
36 Por volta dos séculos 14 e 15, a astrologia já ganhara ampla aceitação no Ocidente. Universidades ensinavam-na como disciplina, o que exigia conhecimento prático de línguas e matemática. Os astrólogos eram considerados eruditos. Os escritos de Shakespeare fazem muitas alusões às influências astrológicas nos assuntos humanos. Todas as cortes reais e muitos nobres mantinham astrólogos particulares para pronta consulta. Dificilmente empreendia-se um projeto — guerra, construção, negócios, ou viagem — sem primeiro consultar as estrelas. A astrologia tornara-se respeitável.
37. De que modo o avanço da ciência afetou a astrologia?
37 Ainda que o trabalho de astrônomos como Copérnico e Galileu, junto com o progresso da inquirição científica, tenham grandemente desacreditado a astrologia como ciência legítima, ela sobreviveu até hoje. (Veja quadro, página 85.) De chefes de Estado ao homem comum, seja de nações tecnologicamente avançadas, seja de remotos vilarejos em países em desenvolvimento, esta misteriosa arte, iniciada pelos babilônios, desenvolvida pelos gregos e adicionalmente expandida pelos árabes, ainda exerce hoje uma ampla influência.
O Destino Escrito na Face e na Palma da Mão
38. O que levou a adicionais formas de adivinhação relacionadas com a mão e a face humanas?
38 Se olhar para o céu em busca de sinais e presságios sobre o futuro parecer intangível, há outros métodos mais pronta e facilmente acessíveis aos que se aventuram na arte de adivinhação. O Zohar, ou Sefer ha-zohar (em hebraico: Livro do Esplendor), um texto do século 13 sobre misticismo judaico, dizia: “No firmamento que envolve o universo, vemos muitas configurações formadas pelas estrelas e planetas. Elas revelam coisas ocultas e profundos mistérios. Similarmente, na pele que cobre o ser humano existem formas e traços que são as estrelas do nosso corpo.” Esta filosofia levou a outras formas de adivinhação, ou predição do futuro, ou seja, examinar a face e a palma da mão em busca de sinais proféticos. Tanto no Oriente como no Ocidente, tais práticas ainda são bem difundidas. Mas, é óbvio que têm suas raízes na astrologia e na magia.
39. O que é fisiognomonia, e como tem sido aplicada?
39 Fisiognomonia é ler a sorte examinando as feições da face, como o formato dos olhos, do nariz, dos dentes e das orelhas. Em Estrasburgo, em 1531, certo João de Indagine publicou um livro sobre o assunto, em que proveu vívidas gravuras de faces com variados formatos de olhos, nariz, orelhas, e assim por diante, junto com suas interpretações. Curiosamente, ele citou as palavras de Jesus Cristo em Mateus 6:22, “se, pois, o teu olho for singelo, todo o teu corpo será luminoso”, como base para dizer que olhos grandes, luminosos e redondos significavam integridade e boa saúde, ao passo que olhos fundos e pequenos eram sinais de inveja, malícia e desconfiança. Contudo, num livro similar, Compendium of Physiognomy (Compêndio de Fisiognomonia), publicado em 1533, o escritor Bartolomeu Cocle afirmava que olhos grandes e redondos indicavam uma pessoa instável e preguiçosa.
40. (a) O que é quiromancia? (b) De que modo recorreu-se à Bíblia em busca de apoio para a quiromancia?
40 Segundo os adivinhos, depois da cabeça, o que melhor do que qualquer outra parte do corpo reflete as forças do alto é a mão. Assim, ler as linhas da palma da mão para determinar o caráter e o destino da pessoa é outra forma comum de adivinhação — quiromancia, ou simplesmente leitura da mão. Quiromantes da Idade Média procuravam na Bíblia apoio para a sua arte. Apresentaram versículos tais como: “Ele sela as mãos de todo o homem, para que conheçam todos os homens a sua obra”, e: “Aumento de dias há na sua mão direita: na sua esquerda riquezas e honra.” (Jó 37:7; Provérbios 3:16, Al) As protuberâncias, ou montes, da mão foram também levadas em conta, pois pensava-se que representavam os planetas e, portanto, revelavam algo a respeito do indivíduo e seu futuro.
41. Como é que pessoas no Oriente praticam a adivinhação?
41 Ler a sorte analisando as feições da face e das mãos é extremamente comum no Oriente. Além dos adivinhos e consultores profissionais que oferecem seus serviços, os amadores e curiosos proliferam, pois há ampla disponibilidade de livros e publicações de todos os níveis. As pessoas não raro procuram a leitura da palma da mão como diversão, mas muitos levam tais coisas a sério. Contudo, em geral, as pessoas raramente se contentam em empregar apenas um único meio de adivinhação. Diante de problemas sérios ou decisões importantes, elas vão a seu templo, quer budista, taoísta, xintoísta, quer outro, para inquirir dos deuses, daí ao astrólogo para consultar as estrelas, ao adivinhador para ler a palma da mão e examinar a face, e, depois de tudo isso, voltam para casa e consultam seus ancestrais falecidos. Elas esperam, em alguma parte, encontrar uma resposta que as satisfaça.
Simples Diversão Inocente?
42. O desejo natural das pessoas de saber o futuro levou-as a quê?
42 É natural que cada um queira saber o que o futuro reserva. O desejo de ter sucesso e evitar o que é prejudicial é também universal. É por isso que as pessoas através das eras têm recorrido a espíritos e deidades em busca de orientação. Ao assim fazerem, envolveram-se em espiritismo, magia, astrologia e outras práticas supersticiosas. As pessoas no passado usavam amuletos e talismãs para se protegerem, ou recorriam a curandeiros e xamãs em busca de cura. As pessoas hoje ainda usam medalhas de “São” Cristóvão, portam amuletos de “boa sorte”, têm suas sessões espíritas, pranchetas Ouija, bolas de cristal, horóscopos e cartas de tarô. No que tange a espiritismo e superstição, parece que a humanidade pouco mudou.
43. (a) O que acham muitos a respeito do espiritismo, magia e adivinhação? (b) Que perguntas sobre práticas supersticiosas requerem resposta?
43 Muitos, naturalmente, sabem que tudo isso não passa de superstição, e que não existe fundamento para essas coisas. E talvez acrescentem que as praticam apenas por diversão. Outros até mesmo argumentam que a magia e a adivinhação são realmente benéficas, pois dão segurança psicológica a pessoas que de outra forma talvez se acovardassem diante dos obstáculos que enfrentam na vida. Mas, será tudo isso uma simples diversão inocente ou apoio psicológico? Qual realmente é a fonte das práticas espíritas e da magia que consideramos neste capítulo, bem como das muitas outras que não mencionamos?
44. Fundamentalmente, o que se pode dizer a respeito da base para todas essas práticas?
44 Examinando os vários aspectos do espiritismo, da magia e da adivinhação, notamos que estão intimamente ligados a crenças em almas que partiram e à existência de espíritos, bons e maus. Assim, fundamentalmente, a crença em espíritos, magia e adivinhação baseia-se numa forma de politeísmo arraigada na doutrina da imortalidade da alma humana. É esta uma base sólida sobre a qual construir a sua religião? Consideraria aceitável a adoração baseada em tal fundamento?
45. Com que pergunta a respeito de alimentos oferecidos a ídolos confrontavam-se os cristãos do primeiro século?
45 Os cristãos do primeiro século viram-se confrontados com essas mesmas perguntas. Viviam rodeados pelos gregos e romanos, com seus muitos deuses e deidades, bem como seus rituais supersticiosos. Um de tais rituais consistia em oferecer alimentos a ídolos e daí participar em comer de tais alimentos. Deveria participar em tais rituais aquele que amasse o Deus verdadeiro e desejasse agradá-lo? Note como o apóstolo Paulo respondeu a esta pergunta.
46. O que criam Paulo e os primitivos cristãos a respeito de Deus?
46 “Ora, acerca de comer alimentos oferecidos a ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há Deus senão um só. Pois, embora haja os que se chamem ‘deuses’, quer no céu, quer na terra, assim como há muitos ‘deuses’ e muitos ‘senhores’, para nós há realmente um só Deus, o Pai, de quem procedem todas as coisas, e nós para ele.” (1 Coríntios 8:4-6) Para Paulo e os cristãos do primeiro século, a verdadeira religião não significava a adoração de muitos deuses, não o politeísmo, mas sim a devoção a apenas “um só Deus, o Pai”, cujo nome a Bíblia revela, dizendo: “Para que as pessoas saibam que tu, cujo nome é Jeová, somente tu és o Altíssimo sobre toda a terra.” — Salmo 83:18.
47. Como revelou Paulo a verdadeira identidade dos ‘deuses e senhores no céu ou na terra’?
47 Mas, deve-se notar que, embora o apóstolo Paulo dissesse que “o ídolo nada é”, ele não disse que os “deuses” e “senhores”, aos quais as pessoas recorriam com a sua magia, adivinhação e sacrifícios, não existiam. Qual, então, é o ponto? Paulo esclareceu isso mais adiante na mesma carta, quando escreveu: “Mas digo que as coisas sacrificadas pelas nações, elas sacrificam a demônios, e não a Deus.” (1 Coríntios 10:20) Sim, através de seus deuses e senhores, as nações adoravam realmente os demônios — criaturas angélicas, ou espirituais, que rebelaram-se contra o Deus verdadeiro e uniram-se a seu líder, Satanás, o Diabo. — 2 Pedro 2:4; Judas 6; Revelação (Apocalipse) 12:7-9.
48. Que perigo ligado ao ocultismo ainda existe hoje, e como pode ser evitado?
48 Não raro as pessoas compadecem-se dos chamados povos primitivos que eram escravizados por suas superstições e temores. Dizem que sentem repulsa aos sacrifícios sangrentos e rituais selvagens. E de direito. Todavia, ainda hoje se ouve falar de macumba, candomblé, vudu, cultos satânicos e até mesmo de sacrifícios humanos. Embora talvez sejam casos extremos, tais práticas não obstante demonstram que o interesse pelo ocultismo continua muito vivo. Pode começar como ‘diversão inocente’ e curiosidade, mas o resultado não raro é tragédia e morte. Quão sábio é acatar o aviso da Bíblia: “Mantende os vossos sentidos, sede vigilantes. Vosso adversário, o Diabo, anda em volta como leão que ruge, procurando a quem devorar.” — 1 Pedro 5:8; Isaías 8:19, 20.
49. Qual será o assunto de investigação nos capítulos seguintes deste livro?
49 Tendo considerado como a religião começou, a diversidade nas antigas mitologias e as várias formas de espiritismo, magia e superstições, voltaremos agora a nossa atenção para as mais formais e principais religiões do mundo — hinduísmo, budismo, taoísmo, confucionismo, xintoísmo, judaísmo, as igrejas da cristandade e o islamismo. Como começaram? O que ensinam? Que influência têm sobre seus fiéis? Estas e outras perguntas serão consideradas nos próximos capítulos.
[Destaque na página 76]
Algumas magias pareciam dar certo.
[Fotos na página 71]
Espelhos quebrados, gatos pretos e alguns números são motivos de superstições. O caráter chinês para “quatro” soa como “morte” em chinês e em japonês.
[Fotos na página 74]
À esquerda, a Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, México, onde católicos oram por curas milagrosas. À direita, Stonehenge, Inglaterra, onde, segundo se diz, os antigos druidas adoravam o sol.
[Foto na página 80]
Algumas pessoas consultam xamãs, feiticeiros, ou pais-de-santo.
[Fotos na página 81]
Outras têm suas sessões espíritas, pranchetas Ouija, bolas de cristal, cartas de tarô e adivinhadores.
[Fotos na página 82]
A adivinhação no Oriente, usando inscrições em carapaça de tartaruga e o símbolo yin-yang, tem uma longa história.
[Fotos na página 87]
Muitas pessoas consultam horóscopos, crendo que a posição do sol, da lua, dos planetas e das estrelas por ocasião do nascimento afeta a sua vida.
[Fotos na página 90]
Por sacudir o recipiente e tirar uma vareta de sorte, o devoto obtém uma mensagem e uma interpretação.
[Quadro na página 85]
É Científica a Astrologia?
A astrologia afirma que o sol, a lua, as estrelas e os planetas podem influenciar as coisas na terra, e que a configuração desses corpos celestes no momento do nascimento desempenha um papel na vida da pessoa. Contudo, descobertas científicas apresentam formidáveis desafios:
▪ O trabalho de astrônomos como Copérnico, Galileu e Kepler demonstrou claramente que a terra não é o centro do universo. Sabe-se também agora que não raro as estrelas que parecem pertencer a uma constelação não estão realmente agrupadas. Algumas delas talvez se encontrem fundo no espaço, ao passo que outras talvez se encontrem relativamente perto. Assim, as propriedades zodiacais das várias constelações são puramente imaginárias.
▪ Os planetas Urano, Netuno e Plutão eram desconhecidos a primitivos astrólogos, pois só foram descobertos após a invenção do telescópio. Como, então, se explicavam as suas “influências” nos mapas astrológicos traçados séculos antes? Ademais, por que deveria a “influência” de um planeta ser “boa” e a de outro “má”, quando a ciência sabe agora que basicamente todos eles são massas de rochas e gases sem vida, projetando-se no espaço?
▪ A ciência da genética nos diz que a base para os traços de nossa personalidade se forma, não no nascimento, mas sim na concepção, quando um dos milhões de espermatozóides do pai se une a um óvulo da mãe. Não obstante, a astrologia fixa o horóscopo à base do momento do nascimento. Esta diferença de cerca de nove meses deveria dar à pessoa um perfil de personalidade completamente diferente, em termos astrológicos.
▪ A cronometragem da jornada do sol entre as constelações, conforme vista por um observador restrito à terra, está hoje cerca de um mês atrasada em relação a 2.000 anos atrás, quando os mapas e as tabelas da astrologia foram traçados. Assim, a astrologia classificaria uma pessoa nascida em fins de junho ou em princípios de julho como sendo de Câncer (altamente sensível, temperamental, reservada). Na verdade, porém, o sol nessa época está na constelação de Gêmeos, que devia tornar a pessoa comunicativa, espirituosa, conversadora.
Obviamente, a astrologia não tem base racional ou científica na qual se apoiar.
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Hinduísmo — uma busca de libertaçãoO Homem em Busca de Deus
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Capítulo 5
Hinduísmo — uma busca de libertação
“Na sociedade hindu, é costume religioso, como primeira coisa a fazer de manhã, banhar-se num rio vizinho, ou em casa, se não houver rio ou riacho nas imediações. As pessoas crêem que isso as santifique. Daí, sem ainda se terem alimentado, vão ao templo local e fazem oferendas de flores e alimentos ao deus local. Alguns lavam o ídolo e decoram-no com pó vermelho e amarelo.
“Quase toda casa tem um canto, ou mesmo um cômodo, para a adoração do deus preferido da família. Um deus popular em algumas localidades é Ganesa, o deus-elefante. As pessoas oram a ele em especial por boa sorte, pois ele é conhecido como removedor de obstáculos. Em outros lugares, Críxena, Rama, Xiva, Durga, ou alguma outra deidade talvez tenha prioridade na devoção.” — Tara C., Katmandu, Nepal.
1. (a) Descreva alguns costumes hindus. (b) Quais são algumas diferenças entre o conceito ocidental e o conceito hindu?
O QUE é hinduísmo? Trata-se apenas da noção ocidental simplista de venerar animais, banhar-se no Ganges e estar dividido em castas? Ou há algo mais envolvido? A resposta: Há muito mais envolvido. O hinduísmo é uma maneira diferente de entender a vida, para a qual os valores ocidentais são totalmente estranhos. Os ocidentais tendem a ver a vida como linha cronológica de eventos na história. Os hindus vêem a vida como ciclo auto-repetitivo no qual a história humana pouco importa.
2, 3. (a) Por que é difícil definir o hinduísmo? (b) De que modo certo escritor indiano explica hinduísmo e politeísmo?
2 Não é fácil definir o hinduísmo, pois não tem credo definido, hierarquia sacerdotal nem órgão governante. Mas não deixa de ter suamis (mestres) e gurus (guias espirituais). Numa definição ampla do hinduísmo, certo livro de história diz que é “o inteiro complexo de crenças e instituições que surgiram desde o tempo em que seus antigos (e mais sagrados) escritos, os Vedas, foram compostos, até agora”. Outro diz: “Pode-se dizer que o hinduísmo é a devoção ou a adoração dos deuses Vixenu, ou Xiva [Siva], ou da deusa Sacti, ou das encarnações, dos aspectos, dos consortes ou da progênie deles.” Isto vale para incluir os cultos de Rama e Críxena (encarnações de Vixenu), Durga, Escanda e Ganesa (respectivamente esposa e filhos de Xiva). Afirma-se que o hinduísmo tem 330 milhões de deuses, não obstante, diz-se que o hinduísmo não é politeísta. Como é isso possível?
3 O escritor indiano A. Parthasarathy explica: “Os hindus não são politeístas. O hinduísmo fala de um Deus uno . . . Os diferentes deuses e deusas do panteão hindu são mera representação dos poderes e das funções do único Deus supremo no mundo manifestado.”
4. O que abrange o termo “hinduísmo”?
4 Os hindus não raro referem-se à sua fé como sanatana darma, que significa lei ou ordem eternas. Hinduísmoa é realmente um termo vago que descreve uma hoste de religiões e seitas (sampradaias) que se desenvolveram e floresceram no decorrer dos milênios sob a sombra da complexa mitologia hindu antiga. Essa mitologia é tão intricada que a Nova Enciclopédia Larousse de Mitologia (em inglês) diz: “A mitologia indiana é uma inextricável selva de luxuriante vegetação. Entrando nela, perde-se a luz do dia e todo senso claro de direção.” Não obstante, este capítulo abordará alguns dos aspectos e ensinos dessa fé.
Antigas Raízes do Hinduísmo
5. Quão difundido é o hinduísmo?
5 Embora o hinduísmo talvez não seja tão difundido como algumas outras religiões principais, não obstante, por volta de 1990, gozava da lealdade de uns 700 milhões de seguidores, ou cerca de 1 em 8 (13%) da população do mundo. Contudo, a maioria destes encontra-se na Índia. Assim, é lógico perguntar: Como e por que o hinduísmo ficou concentrado na Índia?
6, 7. (a) Segundo alguns historiadores, como foi que o hinduísmo chegou à Índia? (b) De que modo o hinduísmo apresenta sua lenda do dilúvio? (c) Segundo o arqueólogo Marshall, que tipo de religião era praticada no vale do Indo antes da chegada dos arianos?
6 Alguns historiadores dizem que as raízes do hinduísmo remontam a mais de 3.500 anos, quando uma onda de migração trouxe do noroeste para o vale do Indo um povo ariano de pele clara, agora localizado principalmente no Paquistão e na Índia. De lá eles se espalharam até as planícies do rio Ganges e por toda a Índia. Alguns estudiosos dizem que os conceitos religiosos desses migrantes baseavam-se em antigos ensinos iranianos e babilônicos. Um traço comum a muitas culturas, e também encontrado no hinduísmo, é a lenda sobre um dilúvio. — Veja quadro, página 120.
7 Mas, que tipo de religião se praticava no vale do Indo antes da chegada dos arianos? Um arqueólogo, Sir John Marshall, fala da “‘Grande Deusa-Mãe’, sendo às vezes representada por estatuetas de figuras femininas grávidas, a maioria nuas, com gargantilha alta e ornato na cabeça. . . . Há também o ‘Deus Macho’, ‘logo identificável como protótipo do histórico Xiva’, sentado com as plantas dos pés tocando uma na outra (uma postura ioga), itifálico (lembrando o culto linga [do falo]), cercado de animais (retratando o epíteto de Xiva, ‘Senhor dos Animais’). Há muitas figuras de pedra do falo e da vulva, . . . que apontam para o culto do linga e da ioni de Xiva e sua consorte”. (Religiões do Mundo — Da História Antiga ao Presente, em inglês) Até hoje Xiva é reverenciado como deus da fertilidade, o deus do falo, ou linga. O touro Nandi o carrega.
8, 9. (a) De que modo certo hinduísta discorda da teoria de Marshall? (b) Que contra-afirmações se fazem a respeito de objetos venerados do hinduísmo e do “cristianismo”? (c) Qual é a base para os escritos sagrados do hinduísmo?
8 O hinduísta Swami Sankarananda discorda da interpretação de Marshall, dizendo que originalmente as pedras veneradas, algumas conhecidas como Xivalinga, eram símbolos “do fogo do céu ou do sol e o fogo do sol, os raios”. (A Cultura Rigvédica do Indo Pré-histórico, em inglês) Ele arrazoa que “o culto do sexo . . . não se originou como culto religioso. É um subproduto. Uma degeneração do original. São as pessoas que rebaixam o ideal, elevado demais para sua compreensão, a seus próprios níveis”. Como contra-argumento à crítica ocidental ao hinduísmo, ele diz que, à base da veneração cristã da cruz, um símbolo fálico pagão, “os cristãos . . . são os devotos de um culto do sexo”.
9 Com o tempo, as crenças, os mitos e as lendas da Índia foram assentados por escrito, e formam hoje os escritos sagrados do hinduísmo. Embora tais obras sacras sejam bem abrangentes, elas não tentam propor uma unificada doutrina hindu.
Escritos Sagrados do Hinduísmo
10. Quais são alguns dos escritos mais antigos do hinduísmo?
10 Os escritos mais antigos são os Vedas, uma coletânea de orações e hinos conhecidos como Rig-Veda, Sama-Veda, Iajur-Veda e Atarva-Veda. Foram compostos durante vários séculos e completados por volta de 900 AEC. Os Vedas foram mais tarde suplementados por outros escritos, incluindo os Brâmanas e os Upanichades.
11. (a) Qual é a diferença entre os Brâmanas e os Upanichades? (b) Que doutrinas são esboçadas nos Upanichades?
11 Os Brâmanas especificam como realizar os ritos e sacrifícios, tanto domésticos como públicos, e dão muitos detalhes sobre seus profundos significados. Foram escritos a partir de cerca de 300 AEC ou mais tarde. Os Upanichades (literalmente: “assentos perto dum mestre”), também conhecidos como Vedanta e escritos por volta de 600-300 AEC, são tratados que delineiam a razão de todo o pensamento e ação, segundo a filosofia hindu. As doutrinas da samsara (transmigração da alma) e do carma (a crença de que as ações de uma existência anterior são a causa do atual estado da pessoa na vida) foram esboçadas nesses escritos.
12. Quem era Rama, e onde se encontra sua história?
12 Outro conjunto de escritos são os Puranas, ou longas histórias alegóricas contendo muitos mitos hindus sobre deuses e deusas, bem como sobre heróis hindus. Essa extensa biblioteca hindu inclui também as epopéias de Ramaiana e Maa-barata. A primeira é a história do “Senhor Rama . . . o mais glorioso de todos os personagens encontrados em literatura escritural”, segundo A. Parthasarathy. O Ramaiana é um dos mais populares escritos para os hindus, datado de aproximadamente o quarto século AEC. É a história do herói Rama, ou Ramachandra, tido pelos hindus como filho, irmão e marido exemplar. É considerado o sétimo avatar (encarnação) de Vixenu, e seu nome não raro é invocado como saudação.
13, 14. (a) Segundo certa fonte hindu, o que é o Bagavat Gita? (b) O que significam Sruti e Smriti, e o que é o Manu Smriti?
13 Segundo Bhaktivedanta Swami Prabhupāda, fundador da Sociedade Internacional para Conscientização Críxena, “Bagavad-gītā [parte do Maa-barata] é a suprema instrução de moralidade. As instruções do Bagavad-gītā constituem o supremo processo de religião e o supremo processo de moralidade. . . . A última instrução do Gītā é a última palavra de toda a moralidade e religião: renda-se a Kṛṣṇa [Críxena].” — BG.
14 O Bagavat Gita (Cântico Celestial), tido por alguns como “jóia da sabedoria espiritual da Índia”, é uma conversação em campo de batalha “entre o Senhor Śrī Kṛṣṇa [Críxena], a Suprema Personalidade da Divindade, e Arjuna, Seu amigo íntimo e devoto, a quem Ele instrui na ciência da auto-realização”. Contudo, o Bagavat Gita é apenas parte da extensa biblioteca sagrada hindu. Alguns desses escritos (Vedas, Brâmanas e os Upanichades) são encarados como Sruti, ou “foram ouvidos”, e são, portanto, considerados escritos sagrados diretamente revelados. Outros, como as epopéias e os Puranas, são Smriti, ou “lembrados”, e, assim, compostos por autores humanos, embora derivados de revelação. Um exemplo é o Manu Smriti, que esboça as leis religiosas e sociais hindus, além de explicar a base para o sistema de castas. Quais são algumas das crenças que surgiram desses escritos hindus?
Ensinos e Conduta — Ainsa e Varna
15. (a) Defina ainsa, e explique como é que os jainistas o aplicam. (b) Como encarou Gandhi o ainsa? (c) Em que sentido os siques diferem dos hindus e dos jainistas?
15 No hinduísmo, como também em outras religiões, há certos conceitos básicos que influenciam o pensamento e a conduta cotidiana. Um notável exemplo é o ainsa (sânscrito: ahinsa), ou não-violência, pela qual Mohandas Gandhi (1869-1948), conhecido como o Mahatma, tanto se celebrizou. (Veja quadro, página 113.) À base dessa filosofia, os hindus não devem matar outras criaturas, nem praticar violência contra elas, que é uma das razões pelas quais eles veneram certos animais, como vacas, cobras e macacos. Os mais estritos expoentes desse ensino do ainsa e respeito à vida são os seguidores do jainismo (fundado no sexto século AEC), que andam descalços e usam até mesmo uma máscara para não engolir acidentalmente algum inseto. (Veja quadro, página 104, e foto, página 108.) Em contraste, os siques são conhecidos por sua tradição guerreira, e Singh, um sobrenome comum entre eles, significa leão. — Veja quadro, páginas 100-101.
16. (a) De que modo a maioria dos hindus encara o sistema de castas? (b) O que disse Gandhi sobre o sistema de castas?
16 Um aspecto universalmente conhecido do hinduísmo é o varna, ou sistema de castas, que divide a sociedade em rígidas classes. (Veja quadro, página 113.) É impossível não perceber que a sociedade hindu ainda está estratificada por esse sistema, ainda que seja rejeitado pelos budistas e jainistas. Contudo, assim como a discriminação racial persiste nos Estados Unidos e em outras partes, da mesma forma o sistema de castas está profundamente arraigado no espírito indiano. De certo modo é uma forma de conscientização de classe que, de maneira paralela, ainda se encontra hoje em menor grau na sociedade britânica e em outros países. (Tiago 2:1-9) Assim, na Índia, a pessoa nasce dentro de um rígido sistema de castas e praticamente não existe uma saída. Ademais, o hindu mediano não procura uma saída. Ele considera isso como sua predeterminada e inescapável sorte na vida, o resultado de suas ações numa existência anterior, ou carma. Mas, como se originou o sistema de castas? Mais uma vez temos de recorrer à mitologia hindu.
17, 18. Segundo a mitologia hindu, como é que o sistema de castas começou?
17 Segundo a mitologia hindu, havia originalmente quatro principais castas baseadas nas partes do corpo do Puruxa, figura do pai original da humanidade. Os hinos do Rig-Veda dizem:
“Quando dividiram o Puruxa, quantas partes fizeram?
Como eles chamam sua boca, seus braços? Como chamam suas coxas e pés?
A brâmane [a casta mais elevada] era sua boca, de ambos os seus braços se fez a rajânia.
Suas coxas se tornaram a vaixiá, de seus pés se produziu a sudra.” — The Bible of the World (A Bíblia do Mundo).
18 Assim, os brâmanes sacerdotais, a mais elevada casta, supostamente se originaram da boca do Puruxa, sua parte mais elevada. A classe governante, ou guerreira, (xátria ou rajânia) veio de seus braços. A classe mercadora e lavradora, chamada vaixá, ou vaixiá, originou-se de suas coxas. Uma casta inferior, a sudra, ou xudra, ou classe trabalhadora, resultou da parte mais inferior do corpo, os pés.
19. Que outras castas vieram à existência?
19 No decorrer dos séculos vieram a existir até mesmo castas inferiores, os párias e os intocáveis, ou como Mahatma Gandhi os chamava mais bondosamente, os harijãs, ou “pessoas pertencentes ao deus Vixenu”. Embora a intocabilidade seja ilegal na Índia desde 1948, os intocáveis ainda levam uma existência muito dura.
20. Quais são outros aspectos do sistema de castas?
20 Com o tempo as castas se multiplicaram, passando a corresponder a quase toda profissão e artesanato na sociedade hindu. Este antigo sistema de castas, que mantém cada qual no seu respectivo lugar social, é na realidade também racial e “inclui distintos tipos raciais que variam desde o que é conhecido como tronco ariano [de pele clara] ao pré-dravidiano [de pele mais escura]”. Varna, ou casta, significa “cor”. “As primeiras três castas eram arianas, as pessoas mais claras; a quarta casta, que incluía os aborígenes de pele escura, era não-ariana.” (Série Mitos e Lendas — Índia, de Donald A. Mackenzie, em inglês) É um fato da vida na Índia que o sistema de castas, fortalecido pelo ensino religioso do carma, mantém milhões de pessoas presas a eterna pobreza e injustiça.
O Frustrador Ciclo da Existência
21. Segundo o Garuda Purana, de que modo o carma afeta o destino da pessoa?
21 Outra crença básica que afeta a ética e a conduta hindu, e uma das mais vitais, é o ensino do carma. Trata-se do princípio de que toda ação tem suas conseqüências, positivas ou negativas; determina cada existência da alma transmigrada ou reencarnada. Como explica o Garuda Purana:
“O homem é o criador de seu próprio destino, e mesmo na vida fetal, ele é afetado pela dinâmica das obras praticadas na sua existência anterior. Quer confinado num reduto de montanha, quer tranqüilo na superfície de um mar, quer seguro no colo de sua mãe quer erguido sobre a cabeça dela, o homem não pode fugir dos efeitos de suas próprias ações passadas. . . . O que quer que tenha de acontecer a um homem, em qualquer idade ou época específicas, certamente lhe sobrevirá então e naquela data.”
O Garuda Purana continua:
“O conhecimento adquirido por um homem na sua vida anterior, a riqueza dada como caridade na sua existência anterior e as obras feitas por ele numa encarnação prévia, vão à frente de sua alma na sua permanência temporária.”
22. (a) Que diferença há entre as opções hindus para a alma após a morte e as da cristandade? (b) O que ensina a Bíblia sobre a alma?
22 De que depende essa crença? A alma imortal é essencial para o ensino do carma, e é o carma que faz o conceito hindu da alma diferir do da cristandade. Os hindus crêem que cada alma pessoal, jiva ou pran,b passa por muitas reencarnações e possivelmente pelo “inferno”. Ela tem de lutar para unir-se à “Suprema Realidade”, também chamada Brâmane, ou Brâmine (não confundir com o deus hindu Brama). Por outro lado, as doutrinas da cristandade oferecem à alma as opções do céu, inferno, purgatório ou limbo, dependendo da crença religiosa. — Eclesiastes 9:5, 6, 10; Salmo 146:4.
23. De que modo o carma afeta o conceito hindu da vida? (Veja Gálatas 6:7-10.)
23 Como conseqüência do carma, os hindus tendem a ser fatalistas. Crêem que o atual status ou condição da pessoa resulta duma existência prévia, sendo, portanto, merecida, seja boa ou má. O hindu pode tentar estabelecer um registro melhor, de modo que a próxima existência seja mais suportável. Assim, ele aceita mais prontamente a sua sorte na vida do que o ocidental. O hindu vê tudo como o resultado da lei de causa e efeito em relação à sua existência anterior. É o princípio de colher o que se semeou numa suposta existência anterior. Tudo isso, naturalmente, baseia-se na premissa de que o homem tem uma alma imortal que passa para uma outra vida, seja esta como humano, animal ou vegetal.
24. O que é mocsa, e de que modo os hindus crêem que ela é alcançada?
24 Assim, qual é o derradeiro objetivo da fé hindu? É alcançar a mocsa, que significa libertação, ou liberação, do círculo vicioso de renascimentos e diferentes existências. Por conseguinte, é um escape da existência incorporada, não para o corpo, mas sim para a “alma”. “Visto que a mocsa, ou libertação duma longa série de encarnações, é o alvo de todo hindu, o maior evento de sua vida é realmente a morte”, diz certo comentarista. Pode-se conseguir a mocsa seguindo os diferentes margas, ou caminhos. (Veja quadro, página 110.) É espantoso ver quanto desse ensino religioso depende do antigo conceito babilônico da alma imortal!
25. De que modo o conceito hindu a respeito da vida difere do ponto de vista da Bíblia?
25 Todavia, segundo a Bíblia, esse desprezo e desdém para com a vida material é diametralmente contrário ao propósito original de Jeová Deus para com a humanidade. Ao criar o primeiro casal humano, ele lhes atribuiu uma existência terrestre feliz e jubilosa. O relato bíblico nos diz:
“E Deus passou a criar o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou. Ademais, Deus os abençoou e Deus lhes disse: ‘Sede fecundos e tornai-vos muitos, e enchei a terra, e sujeitai-a, e tende em sujeição os peixes do mar, e as criaturas voadoras dos céus, e toda criatura vivente que se move na terra.’ . . . Depois, Deus viu tudo o que tinha feito, e eis que era muito bom.” (Gênesis 1:27-31)
A Bíblia profetiza uma iminente era de paz e justiça para a terra, uma era em que cada família terá a sua própria moradia adequada, e a saúde e vida perfeitas serão o quinhão eterno da humanidade. — Isaías 65:17-25; 2 Pedro 3:13; Revelação (Apocalipse) 21:1-4.
26. Que pergunta exige agora uma resposta?
26 A próxima pergunta a responder é: Que deuses o hindu tem de agradar a fim de alcançar um bom carma?
O Panteão de Deuses Hindus
27, 28. (a) Que deuses formam a Trimúrti hindu? (b) Quem são suas esposas ou consortes? (c) Cite alguns outros deuses e deusas hindus.
27 Embora o hinduísmo afirme existir milhões de deuses, na prática real há certos deuses favoritos que se têm tornado o ponto focal de várias seitas dentro do hinduísmo. Três dos deuses mais destacados estão incluídos no que os hindus chamam de Trimúrti, uma trindade, ou tríade, de deuses. — Quanto a outros deuses hindus, veja quadro nas páginas 116-17.
28 A tríade consiste em Brama, o Criador, Vixenu, o Preservador e Xiva, o Destruidor, e cada qual tem pelo menos uma esposa ou consorte. Brama é casado com Sarasváti, a deusa do conhecimento. A esposa de Vixenu é Lacximi e a primeira esposa de Xiva era Sati, que se suicidou. Foi a primeira mulher a passar pelo fogo sacrificial, tornando-se assim a primeira sati. Seguindo seu exemplo mitológico, milhares de viúvas hindus ao longo dos séculos se sacrificaram na pira funerária de seu marido, embora tal prática seja agora ilegal. Xiva tem também outra esposa, conhecida por vários nomes e títulos. Na sua forma benigna, ela é Parvati e Uma, bem como Gauri, a Dourada. Como Durga ou Cali, ela é uma deusa terrificante.
29. De que modo os hindus encaram Brama? (Veja Atos 17:22-31.)
29 Brama, embora seja central na mitologia hindu, não ocupa um lugar de destaque na adoração do hindu mediano. De fato, bem poucos templos são dedicados a ele, embora seja chamado de Brama, o Criador. Contudo, a mitologia hindu atribui a tarefa de criar o universo material a um ser, fonte ou essência suprema — Brâmane ou Brâmine, identificado pelas sílabas sagradas OM ou AUM. Todos os três membros da tríade são considerados parte desse “Ser”, e todos os outros deuses são tidos como diferentes manifestações. Qualquer que seja o deus que então é adorado como supremo, pensa-se que essa deidade seja todo-abrangente. Assim, ao passo que os hindus veneram abertamente milhões de deuses, a maioria reconhece a existência de apenas um único Deus verdadeiro, que pode assumir muitas formas: varão, mulher, ou até mesmo animal. Por conseguinte, os peritos hindus frisam prontamente que o hinduísmo é realmente monoteísta, não politeísta. O pensamento védico posterior, contudo, descarta o conceito de um ser supremo, substituindo-o por um impessoal princípio ou realidade divina.
30. Quais são alguns dos avatares de Vixenu?
30 Vixenu, uma benevolente deidade solar e cósmica, é o centro da adoração para os seguidores do vaixnavismo. Ele aparece sob dez avatares, ou encarnações, incluindo Rama, Críxena e o Buda.c Outro avatar é Vixenu Naraiana, “representado em forma humana adormecido sobre a serpente enrolada Xexa ou Ananta, flutuando nas águas cósmicas com sua esposa, a deusa Lacximi, sentada a seus pés ao passo que o deus Brama surge de um loto que cresce do umbigo de Vixenu”. — Enciclopédia de Crenças do Mundo (em inglês).
31. Que tipo de deus é Xiva?
31 Xiva, também comumente chamado de Mahexa (Supremo Senhor) e Maadeva (Grande Deus), é o segundo maior deus do hinduísmo, e a adoração que lhe é prestada chama-se xivaísmo. Ele é descrito como “o grande asceta, o mestre iogue sentado, mergulhado na meditação nas encostas do Himalaia, com o corpo besuntado de cinzas e a cabeça coberta de cabelo emaranhado”. É também conhecido “por seu erotismo, como originador da fertilidade e supremo senhor da criação, Maadeva”. (Enciclopédia de Crenças do Mundo) Adora-se a Xiva por meio do linga, ou representação fálica. — Veja fotos, página 99.
32. (a) Que formas assume a deusa Cali? (b) De que modo uma palavra portuguesa se derivou da adoração de Cali?
32 Como muitas outras religiões do mundo, o hinduísmo tem a sua deusa suprema, que pode tanto ser atraente como aterradora. Em sua forma mais agradável ela é conhecida como Parvati e Uma. Seu gênio temível é mostrado como Durga ou Cali, uma deusa sanguinária que se deleita em sacrifícios de sangue. Como Deusa-Mãe, Cali Ma (Negra Mãe-Terra), ela é a deidade principal da seita Sacti. É retratada nua até os quadris e usando como adornos cadáveres, cobras e caveiras. No passado, vítimas humanas estranguladas eram oferecidas a ela por crentes conhecidos como tug, de onde vem a palavra portuguesa “tugue”.
O Hinduísmo e o Rio Ganges
33. Por que o Ganges é sagrado para os hindus?
33 Não podemos falar do panteão de deuses do hinduísmo sem mencionar seu rio mais sagrado — o Ganges. Grande parte da mitologia hindu relaciona-se diretamente com o rio Ganges, ou Gangá Ma (Mãe Gangá), como os devotos hindus o chamam. (Veja mapa, página 123.) Eles recitam uma oração que inclui 108 diferentes nomes para o rio. Por que é o Ganges tão reverenciado pelos hindus sinceros? Por ser tão intimamente ligado à sua sobrevivência diária e à sua antiga mitologia. Eles crêem que o rio existia antes no céu qual Via-Láctea. Mas como é que se transformou num rio?
34. Segundo a mitologia hindu, qual é uma das explicações sobre como o rio Ganges veio a existir?
34 Com algumas variações, a maioria dos hindus explicaria isso da seguinte maneira: O Marajá Sagara tinha 60.000 filhos que foram mortos pelo fogo de Capila, uma manifestação de Vixenu. Suas almas estavam condenadas ao inferno, a menos que a deusa Gangá descesse do céu para purificá-los e livrá-los da maldição. Bagirati, bisneto de Sagara, intercedeu junto a Brama para que este permitisse que a sagrada Gangá descesse à terra. Certo relato continua: “Gangá respondeu: ‘Sou uma torrente tão poderosa que abalaria as fundações da terra.’ De modo que [Bagirati], depois de fazer penitência por mil anos, recorreu ao deus Xiva, o maior de todos os ascetas, e persuadiu-o a se posicionar alto acima da terra em meio às rochas e o gelo do Himalaia. Xiva tinha cabelos emaranhados alto na sua cabeça, e ele permitiu a Gangá que se arremessasse do céu para dentro de seus cachos, que brandamente absorveram o choque ameaçador à terra. Daí Gangá escoou suavemente para a terra e fluiu das montanhas e através das planícies, trazendo água e, por conseguinte, vida para a terra seca.” — Do Oceano Para o Céu (em inglês), de Sir Edmund Hillary.
35. Como é que os seguidores de Vixenu explicam a existência do rio?
35 Os seguidores de Vixenu têm uma versão um pouco diferente sobre a origem do Ganges. Segundo um texto antigo, o Vixenu Purana, a sua versão é:
“Dessa região [o assento sagrado de Vixenu] procede o rio Ganges, que remove todos os pecados . . . Emana da unha do dedão do pé esquerdo de Vixenu.”
Ou, como dizem os seguidores de Vixenu, em sânscrito: “Visnu-padabja-sambhuta”, que significa “Nascido do pé, semelhante ao loto, de Vixenu”.
36. O que crêem os hindus a respeito do poder das águas do Ganges?
36 Os hindus crêem que o Ganges tem o poder de libertar, purificar, limpar e curar os crentes. O Vixenu Purana declara:
“Os santos, que são purificados por se banharem nas águas deste rio, e cujas mentes estejam devotadas a Quesava [Vixenu], obtêm a libertação final. O rio sagrado, ouvindo-se dele falar, ao ser desejado, visto, tocado, ao se banhar nele, ou ao se cantar hinos por ele, dia a dia purifica todos os seres. E aqueles que mesmo vivendo à distância . . . exclamarem ‘Gangá e Gangá’ serão libertados dos pecados cometidos durante as três existências prévias.”
O Bramadapurana diz:
“Quanto aos que se banham devotamente uma vez nas puras correntes do Gangá, suas tribos são protegidas por Ela contra centenas de milhares de perigos. Males acumulados durante gerações são destruídos. Simplesmente por banhar-se no Gangá a pessoa é imediatamente purificada.”
37, 38. Por que milhões de hindus acorrem ao Ganges?
37 Os indianos acorrem ao rio para realizar a puja, ou adoração, oferecendo flores, salmodiando orações e recebendo dum sacerdote o tilaque, a manchinha de pasta vermelha ou amarela na testa. Daí eles entram na água para se banhar. Muitos também bebem a água, embora seja altamente poluída por esgotos, substâncias químicas e cadáveres. Mas, tão grande é a atração espiritual do Ganges que milhões de indianos almejam banhar-se pelo menos uma vez no seu ‘rio santo’, poluído ou não.
38 Outros trazem os corpos de seus entes queridos para serem cremados em piras na margem do rio, e daí talvez as cinzas sejam lançadas no rio. Eles crêem que isso garante a felicidade eterna para a alma que partiu. Os muito pobres para pagar uma pira funerária simplesmente lançam no rio o corpo coberto, onde é atacado por aves necrófagas, ou simplesmente se decompõe. Isto nos leva à pergunta: Além do que já consideramos, o que ensina o hinduísmo sobre a vida após a morte?
Hinduísmo e a Alma
39, 40. O que disse certo comentarista hindu a respeito da alma?
39 A Bagavat Gita nos dá uma resposta, dizendo:
“Assim como a alma incorporada continuamente passa, neste corpo, da meninice à juventude, e daí à velhice, a alma similarmente passa para outro corpo, na morte.” — Capítulo 2, texto 13, em inglês.
40 Certo comentário hindu sobre esse texto diz: “Visto que toda entidade viva é uma alma individual, todas elas estão mudando seu corpo a todo o momento, manifestando-se às vezes como criança, às vezes como jovem e às vezes como homem idoso — embora a mesma alma espiritual esteja presente e não passe por nenhuma mudança. Esta alma individual por fim muda o próprio corpo, ao transmigrar de um para outro, e visto ser certo que terá outro corpo no próximo nascimento — quer material, quer espiritual — não havia razão para lamentação da parte de Arjuna por causa da morte.”
41. Segundo a Bíblia, que distinção a respeito da alma tem de ser feita?
41 Note que o comentário diz que “toda entidade vivente é uma alma individual”. Essa declaração concorda com o que a Bíblia diz em Gênesis 2:7:
“E Jeová Deus passou a formar o homem do pó do solo e a soprar em suas narinas o fôlego de vida, e o homem veio a ser uma alma vivente.”
Mas, deve-se fazer uma importante distinção: Constitui-se o homem de uma alma vivente com todas as suas funções e faculdades, ou será que ele tem uma alma à parte de suas funções corporais? É o homem uma alma, ou tem ele uma alma? A seguinte citação clarifica o conceito hindu.
42. De que modo o hinduísmo e a Bíblia diferem quanto ao entendimento do que é a alma?
42 O capítulo 2, texto 17, do Bagavat Gita diz:
“O que permeia o inteiro corpo é indestrutível. Ninguém é capaz de destruir a imperecível alma.”
Esse texto é então explicado:
“Todo e qualquer corpo contém uma alma individual, e o sintoma da presença da alma é percebido na forma de estado de consciência individual.”
Portanto, ao passo que a Bíblia diz que o homem é uma alma, o ensino hindu declara que ele tem uma alma. E há uma colossal diferença aqui, que afeta profundamente os ensinos que são uma conseqüência desses pontos de vista. — Levítico 24:17, 18.
43. (a) Qual é a origem do ensino da alma imortal? (b) Quais são as suas conseqüências?
43 O ensino da alma imortal é, em última análise, tirado do antigo reservatório estagnado de conhecimento religioso de Babilônia. Tal ensino logicamente leva às conseqüências da ‘vida após a morte’, apresentadas nos ensinos de tantas religiões — reencarnação, céu, inferno, purgatório, limbo, e assim por diante. Para os hindus, céu e inferno são lugares de espera intermediários antes que a alma obtenha a reencarnação seguinte. De interesse especial é o conceito hindu do inferno.
Ensino Hindu do Inferno
44. Como sabemos que o hinduísmo ensina que existe um inferno de tormento consciente?
44 Um texto do Bagavat Gita diz:
“Quando as leis da família são destruídas, Janardana, então o que certamente para os homens resulta é morar no inferno.” — I. 44, Harvard Oriental Series, Vol. 38, 1952.
Um comentário diz: “Os que são muito pecaminosos na sua vida terrestre têm de sofrer diferentes tipos de punição em planetas infernais.” No entanto, difere um pouco do tormento eterno no fogo do inferno da cristandade: “Essa punição . . . não é eterna.” Então, o que é exatamente o inferno hindu?
45. De que modo são descritos os tormentos do inferno hindu?
45 O seguinte é uma descrição do destino de um pecador, extraída do Marcandeia Purana:
“Daí os emissários de Iama [deus dos mortos] rapidamente amarram-no com laços horríveis e arrastam-no para o sul, trêmulo por causa do golpe de vara. Daí ele é arrastado pelos emissários de Iama, emitindo gritos medonhos e nefastos, através de terrenos escabrosos com Cusa [uma planta], espinhos, formigueiros, alfinetes e pedras, com chamas acesas em alguns pontos, cheios de buracos, escaldantes com o calor do sol e queimando com seus raios. Arrastado pelos pavorosos emissários e devorado por centenas de chacais, o pecador vai à casa de Iama através de uma temível passagem. . . .
“Quando seu corpo é queimado ele sente uma grande sensação abrasadora; e quando seu corpo é espancado ou cortado ele sente grande dor.
“Seu corpo sendo assim destruído, a criatura, embora entre num outro corpo, sofre aflição eterna por causa de suas próprias ações adversas. . . .
“Daí, para ter seus pecados lavados, ele é levado para outro de tal inferno. Depois de percorrer todos os infernos, o pecador assume uma vida animalesca. Daí, passando pela vida de vermes, insetos e moscas, animais de rapina, mosquitos, elefantes, árvores, cavalos, vacas, e através de diversas outras vidas pecaminosas e miseráveis, ele, chegando à raça de homens, nasce corcunda, feio, anão ou Chandala Pucasa.”
46, 47. O que diz a Bíblia sobre a condição dos mortos, e que conclusões podemos tirar?
46 Compare isso com o que a Bíblia diz a respeito dos mortos:
“Pois os viventes estão cônscios de que morrerão; os mortos, porém, não estão cônscios de absolutamente nada, nem têm mais salário, porque a recordação deles foi esquecida. Também seu amor, e seu ódio, e seu ciúme já pereceram, e por tempo indefinido eles não têm mais parte em nada do que se tem de fazer debaixo do sol. Tudo o que a tua mão achar para fazer, faze-o com o próprio poder que tens, pois não há trabalho, nem planejamento, nem conhecimento, nem sabedoria no Seol, o lugar para onde vais.” — Eclesiastes 9:5, 6, 10.
47 Naturalmente, se, como diz a Bíblia, o homem não tem uma alma mas é uma alma, então não há existência consciente após a morte. Não há bem-aventurança e não há sofrimento. Todas as complicações ilógicas do “além” desaparecem.d
O Rival do Hinduísmo
48, 49. (a) Em suma, quais são alguns dos ensinos hindus? (b) Por que alguns têm questionado a validade do hinduísmo? (c) Quem surgiu como desafiante do pensamento hindu?
48 Esta forçosamente breve consideração do hinduísmo mostrou que se trata de uma religião de politeísmo baseada no monoteísmo — a crença em Brâmane, o Ser, a fonte ou a essência suprema, simbolizado pelas sílabas OM ou AUM, e de muitas facetas ou manifestações. É também uma religião que ensina a tolerância e incentiva a bondade para com os animais.
49 Por outro lado, alguns elementos do ensino hindu, tais como o carma e as injustiças do sistema de castas, junto com a idolatria e as contradições nos mitos, têm levado algumas pessoas refletidas a questionar a validade dessa fé. Um dos questionadores surgiu no noroeste da Índia por volta do ano 560 AEC. Era Sidarta Gautama. Ele fundou uma nova fé que não prosperou na Índia, não obstante, floresceu em outras partes, como explicará o nosso próximo capítulo. Essa nova fé era o budismo.
[Nota(s) de rodapé]
a O nome hinduísmo é de invenção européia.
b Em sânscrito, “alma” muitas vezes é a tradução de atma, ou atman, mas “espírito” é uma tradução mais exata. — Veja Dicionário de Hinduísmo — Sua Mitologia, Folclore e Desenvolvimento 1500 AC-1500 AD, página 31, e o folheto Vitória Sobre a Morte — É Possível Para Você?, publicado pela Sociedade Torre de Vigia em 1986 (ambos em inglês).
c Um décimo e futuro avatar é o de Calqui Avatara “retratado como jovem magnífico cavalgando num grande cavalo branco com uma espada semelhante a um meteoro fazendo chover morte e destruição por todos os lados”. “A sua vinda restabelecerá a justiça na terra, e a volta de uma era de pureza e inocência.” — Religiões da Índia; Dicionário do Hinduísmo (ambos em inglês). — Veja Revelação 19:11-16.
d O ensino bíblico da ressurreição dos mortos nada tem a ver com a doutrina da alma imortal. Veja o capítulo 10.
[Foto na página 96]
Ganesa, o deus hindu da boa sorte, de cabeça de elefante, filho de Xiva e Parvati.
[Fotos na página 99]
Lingas (símbolos fálicos) venerados pelos hindus.
Xiva (deus da fertilidade) está dentro de um linga e em volta de outro tem quatro cabeças.
[Foto na página 108]
Monjas jainistas usando o mukha-vastrica, ou bocal, que impede que insetos entrem e sejam mortos.
[Foto na página 115]
Adoração da cobra, praticada principal- mente em Bengala.
Manasa é a deusa das cobras.
[Foto na página 118]
Vixenu, com sua esposa Lacximi, sobre uma serpente enrolada, de nome Ananta, com Brama, de quatro cabeças, sobre um loto que cresce do umbigo de Vixenu.
[Fotos/Mapa na página 123]
(Para o texto formatado, veja a publicação)
O Ganges percorre mais de 2.400 quilômetros, dos Himalaias até Calcutá e seu delta, em Bangladesh.
ÍNDIA
Calcutá
Rio Ganges
[Fotos]
Gangá Ma, no alto da cabeça de Xiva, desce através de seu cabelo.
Hindus devotos numa gat (escada), banhando-se no Ganges em Varanasi, ou Benares.
[Fotos/Quadro nas páginas 100 e 101]
Siquismo — Uma Religião de Reforma
O siquismo, simbolizado por três espadas e um círculo, é a religião de mais de 17 milhões de pessoas. A maioria delas vive no Punjab. O Templo Dourado Sique, que fica no meio de um lago artificial, localiza-se em Amritsar, a cidade santa sique. Os homens siques são facilmente reconhecidos por seus turbantes azuis, brancos ou pretos, o uso dos quais é parte essencial de sua prática religiosa, como também o é usar cabelos longos.
A palavra hindi sique significa “discípulo”. Os siques são discípulos de seu fundador, o guru Nanaque, e seguidores dos ensinos dos dez gurus (Nanaque e nove sucessores) cujos escritos estão no livro sagrado sique, o Guru Granth Sahib. Essa religião começou no início do século 16, quando o guru Nanaque quis extrair o melhor do hinduísmo e do islamismo e formar uma religião unificada.
A missão de Nanaque pode ser declarada numa única sentença: “Existe um único Deus, e Ele é nosso Pai; portanto, todos temos de ser irmãos.” Como os muçulmanos, os siques crêem num único Deus e proíbem o uso de ídolos. (Salmo 115:4-9; Mateus 23:8, 9) Eles seguem a tradição hindu de crer numa alma imortal, na reencarnação e no carma. O local de adoração sique chama-se gurdwara. — Compare com Salmo 103:12, 13; Atos 24:15.
Um dos grandes mandamentos do guru Nanaque era: “Lembre-se sempre de Deus, repita Seu nome.” Fala-se de Deus como o “Verdadeiro”, mas não se lhe dá nome. (Salmo 83:16-18) Outro mandamento era: “Partilha o que ganhas com os menos afortunados.” Concordemente, existe uma langar, ou cozinha livre, em todos os templos siques, onde qualquer pessoa pode comer gratuitamente. Há até mesmo acomodações grátis para viajantes pernoitarem. — Tiago 2:14-17.
O último guru, Gobind Singh (1666-1708), estabeleceu uma fraternidade de siques chamada Khalsa, que segue o que são conhecidos como os cinco “K”s, que são: kesh, cabelo não cortado, simbolizando espiritualidade; kangha, pente no cabelo, simbolizando ordem e disciplina; kirpan, espada, significando dignidade, coragem e abnegação; kara, bracelete de aço, simbolizando união com Deus; kachh, uma espécie de calção como roupa de baixo, implicando modéstia e usada para simbolizar refreamento moral. — Veja Enciclopédia de Crenças do Mundo, página 269, em inglês.
[Foto]
Templo Dourado dos siques, Amritsar, Punjab, Índia.
[Fotos]
O turbante azul significa uma mente tão ampla como o céu, sem lugar para preconceito.
O turbante branco significa uma pessoa santa levando uma vida exemplar.
O turbante preto é uma lembrança da perseguição britânica contra os siques em 1919.
Outras cores são uma questão de gosto.
[Foto]
Em cerimonial, um sacerdote sique relata a história de armas sagradas.
[Fotos/Quadro na página 104]
Jainismo — Abnegação e Não-Violência
Esta religião, com seu antigo símbolo suástico indiano, foi fundada no sexto século AEC pelo rico príncipe indiano Nataputa Vardamana, mais conhecido como Vardamana Maavira (título que significa “Grande Homem” ou “Grande Herói”). Ele voltou-se para uma vida de abnegação e ascetismo. Saiu nu em busca de conhecimento “pelas aldeias e planícies da Índia central à procura da libertação do ciclo do nascimento, morte e renascimento”. (Man’s Religions [As Religiões do Homem], de John B. Noss) Ele cria que a salvação da alma somente poderia ser conseguida através de extrema abnegação e autodisciplina e uma rígida aplicação do ainsa, a não-violência para com todas as criaturas. Levou o ainsa ao extremo, portando uma vassoura macia com a qual poderia brandamente afastar quaisquer insetos que cruzassem o seu caminho. Seu respeito à vida visava também proteger a pureza e a integridade de sua própria alma.
Seus seguidores atuais, no empenho de melhorar seu carma, levam uma vida similar de abnegação e respeito para com todas as outras criaturas. Vê-se mais uma vez quão poderoso é o efeito que a crença na imortalidade da alma humana tem sobre a vida humana.
Hoje há menos de quatro milhões de crentes dessa fé, e a maioria se encontra nas regiões de Bombaim e Gujarate, na Índia.
[Foto]
Jainista adorando aos pés da imagem de 17 metros do santo Gomatesvara, em Carnataca, Índia.
[Fotos/Quadro nas páginas 106, 107]
Guia Básico de Termos Hindus
ainsa (sânscrito, ahinsa) — não violência; não ferir nem matar nada. Base para o vegetarianismo hindu e o respeito aos animais.
asram — santuário ou lugar em que um guru (guia espiritual) ensina.
atmã — espírito; associado com o que é imortal. Muitas vezes traduzido erroneamente por alma. Veja jiva.
avatar — manifestação ou encarnação de uma deidade hindu.
bacti — devoção a uma deidade que leva à salvação.
bindi — manchinha vermelha que as mulheres casadas usam na testa.
Brâmane — o nível sacerdotal e mais elevado do sistema de castas; também a Derradeira Realidade. Veja a página 116.
carma — o princípio de que toda ação tem suas conseqüências positivas ou negativas para a vida seguinte da alma transmigrada.
darma — a derradeira lei de todas as coisas; o que determina a correção e o desacerto dos atos.
gat — escada ou plataforma junto a um rio.
guru — mestre ou guia espiritual.
harijã — membro da casta dos intocáveis; significa “povo de Deus”, nome compassivo que lhes foi dado por Mahatma Gandhi.
ioga — da raiz yuj, que significa juntar-se ou jungir; envolve a junção da pessoa ao ser divino universal. Popularmente conhecida como disciplina de meditação envolvendo a postura e o controle da respiração. O hinduísmo reconhece pelo menos quatro Iogas principais, ou caminhos. Veja página 110.
japa — adoração de Deus pela repetição de um de seus nomes; usa-se um mala, ou rosário, de 108 contas, para controlar a contagem.
jiva (ou pran, prani) — a alma ou o ser pessoal.
maant — homem ou mestre santo.
maatma — santo hindu, de maa, elevado ou grande, e atmã, espírito.
maia — o mundo como ilusão.
mantra — fórmula sagrada, que se crê ter poder mágico, usada na iniciação a uma seita e repetida em orações e encantamentos.
mocsa, ou mucti — libertação do ciclo de renascimentos; o fim da jornada da alma. Também conhecido como Nirvana, a união do indivíduo com a Entidade Suprema, Brâmane.
OM, AUM — palavra-símbolo representando Brâmane, usada para meditação; som considerado como sendo a vibração mística; usada como mantra sagrada.
paramatmã — O Espírito-Mundo, o universal atmã, ou Brâmane.
puja — adoração.
Sacti — o poder feminino ou a esposa de um deus, especialmente a consorte de Xiva.
sadu — homem santo; asceta ou iogue.
samsara — transmigração de uma alma eterna, imperecível.
srada — importantes rituais conduzidos para honrar ancestrais e ajudar almas que partiram a atingir a mocsa.
suami — mestre ou nível mais elevado de guia espiritual.
sudra — trabalhador, a mais baixa das quatro principais castas.
tilaque — uma marca na testa que simboliza a retenção da memória do Senhor em todas as suas atividades.
Trimúrti — tríade hindu composta de Brama, Vixenu e Xiva.
Upanichades — primitivos escritos sagrados poéticos do hinduísmo. Também conhecidos como Vedanta, o fim dos Vedas.
vaixá — classe dos mercadores e fazendeiros; terceiro grupo no sistema de castas.
Vedas — primitivos escritos poéticos sagrados do hinduísmo.
xátria — a classe profissional, governante e guerreira, e o segundo nível no sistema de castas.
[Fotos]
A partir da esquerda: maant hindu; sadu, em postura de meditação; guru do Nepal.
[Foto/Quadro na página 113]
Mahatma Gandhi e o Sistema de Castas
“A não-violência é o primeiro artigo da minha fé. É também o último artigo do meu credo.” — Mahatma Gandhi, 23 de março de 1922.
Mahatma Gandhi, famoso por sua liderança não violenta em ajudar a conseguir a independência da Índia da Grã-Bretanha (concedida em 1947), também fez campanha para melhorar a sorte de milhões de co-hindus. Como explica o professor indiano M. P. Rege: “Ele proclamou o ainsa (não-violência) como valor moral fundamental, que interpretava como preocupação pela dignidade e bem-estar de toda pessoa. Ele negava a autoridade das escrituras hindus quando o ensino destas era contrário ao ainsa, lutou bravamente pela erradicação da intocabilidade e o hierárquico sistema de castas, e promoveu a igualdade das mulheres em todas as esferas da vida.”
Qual era o conceito de Gandhi a respeito da sorte dos intocáveis? Numa carta a Jawaharlal Nehru, de 2 de maio de 1933, ele escreveu: “O movimento harijã é grande demais para mero empenho intelectual. Não existe nada tão mau no mundo. E, no entanto, eu não posso deixar a religião e, por conseguinte, o hinduísmo. Minha vida seria uma carga para mim se o hinduísmo me traísse. Amo o cristianismo, o islamismo e muitas outras fés através do hinduísmo. . . . Mas não posso tolerá-lo com intocabilidade.” — The Essential Gandhi (Fundamentos de Gandhi).
[Foto]
Mahatma Gandhi (1869-1948), reverenciado líder hindu e mestre do ainsa.
[Fotos/Quadro nas páginas 116, 117]
Hinduísmo — Alguns Deuses e Deusas
Aditi — mãe dos deuses; deusa-céu; o Infinito.
Agni — deus do fogo.
Brama — O Deus Criador, o princípio da criação no universo. Um dos deuses da Trimúrti (trindade).
Brâmane, ou Brâmine — o Supremo, entidade todo-presente no universo, representada pelo som OM ou AUM. (Veja símbolo acima.) Também conhecido como Atmã. Alguns hindus consideram Brâmane como um Princípio Divino impessoal, ou Derradeira Realidade.
Buda — Gautama, fundador do budismo; os hindus o consideram como uma encarnação (avatar) de Vixenu.
Cali — Consorte negra de Xiva (Sacti) e sanguinária deusa da destruição. Muitas vezes representada com grande língua vermelha de fora.
Críxena — a brincalhona oitava encarnação de Vixenu e a deidade da Bagavat Gita. Suas amantes eram as gopis, ou ordenhadoras.
Durga — esposa ou Sacti de Xiva e identificada com Cali.
Ganesa (Ganexa) — Filho-deus de cabeça de elefante, de Xiva, e Senhor dos Obstáculos, deus da boa sorte. Também chamado Ganapati e Gajanana.
Gangá — deusa, uma das esposas de Xiva, e personificação do rio Ganges.
Hanumã — deus-macaco e devoto seguidor de Rama.
Himalaia — morada da neve, pai de Parvati.
Lacximi — deusa da beleza e da boa sorte; consorte de Vixenu.
Manasa — deusa das cobras.
Manu — ancestral da raça humana; salvo da destruição no dilúvio por um grande peixe.
Mitra — deus da luz. Conhecido como Mitras pelos romanos.
Nandi — o touro, veículo ou meio de transporte de Xiva.
Nataraja — Xiva em posição de dança, rodeado de um anel de chamas.
Parvati ou Uma — deusa consorte de Xiva. Assume também a forma da deusa Durga ou Cali.
Prajapati — Criador do universo, Senhor das Criaturas, pai dos deuses, demônios e todas as outras criaturas. Mais tarde conhecido como Brama.
Puruxa — homem cósmico. As quatro principais castas foram feitas de seu corpo.
Rada — consorte de Críxena.
Rama, Ramachandra — a sétima encarnação do deus Vixenu. A narrativa épica Ramaiana conta a história de Rama e sua esposa Sitá.
Sarasváti — deusa do conhecimento e consorte de Brama, o Criador.
Soma — tanto deus como remédio; o elixir da vida.
Vixenu — deus preservador da vida; terceiro membro da Trimúrti.
Xaxti — deusa que protege mulheres e crianças no parto.
Xiva — deus da fertilidade, morte e destruição; membro da Trimúrti. Simbolizado pelo tridente e pelo falo.
(Baseado na listagem em Mythology—An Illustrated Encyclopedia.)
[Fotos]
A partir da esquerda no alto, no sentido horário, Nataraja (dançante Xiva), Sarasváti, Críxena, Durga (Cali).
[Quadro na página 110]
Quatro Caminhos à Mocsa
A fé hindu oferece pelo menos quatro caminhos para se alcançar a mocsa, ou libertação da alma. Estes são conhecidos como iogas ou margas, caminhos à mocsa.
1. Carma Ioga — “O caminho da ação, ou carma ioga, a disciplina da ação. Basicamente, carma marga significa realizar o darma da pessoa segundo seu lugar na vida. Certos deveres são exigidos de todas as pessoas, tais como o ainsa e a abstenção do álcool e da carne, mas o darma específico de cada indivíduo depende da casta e do estágio de vida dessa pessoa.” — Great Asian Religions (Grandes Religiões Asiáticas).
Este carma se realiza estritamente dentro das limitações da casta. A pureza da casta é mantida por não se casar e nem comer fora da casta da pessoa, que foi determinada pelo carma da pessoa numa existência prévia. Por conseguinte, a casta da pessoa não é encarada como injustiça, mas sim como legado duma encarnação prévia. Na filosofia hindu os homens e as mulheres não são todos iguais. São divididos por casta e por sexo e, efetivamente, por cor. Usualmente, quanto mais clara a pele, tanto mais elevada a casta.
2. Janana Ioga — “O caminho do conhecimento, ou janana ioga, a disciplina do conhecimento. Em contraste com o caminho da ação, o carma marga, com seus deveres prescritos para toda a ocasião na vida, o janana marga provê um caminho filosófico e psicológico para conhecer o eu e o universo. Ser, não fazer, é a chave para o janana marga. [O grifo é nosso.] O que é mais importante, este caminho possibilita a seus praticantes conseguirem a mocsa nesta vida.” (Grandes Religiões Asiáticas) Envolve ioga introspectiva, isolar-se do mundo e a prática da austeridade. É a expressão do autocontrole e da abnegação.
3. Bacti Ioga — “A mais popular forma de tradição hindu hoje. É o caminho da devoção, o bacti marga. Em contraste com o carma marga . . . este caminho é mais fácil, mais espontâneo, e pode ser seguido por pessoas de qualquer casta, sexo ou idade. . . . Permite que as emoções e os desejos humanos fluam livremente, em vez de serem sobrepujados pelo ascetismo iogue . . . Consiste exclusivamente da devoção a seres divinos.” E tradicionalmente há 330 milhões deles a venerar. Segundo essa tradição, conhecer é amar. De fato, bacti significa “apego emocional ao deus escolhido”. — Grandes Religiões Asiáticas.
4. Raja Ioga — Um método de “posturas especiais, métodos de respiração e repetição rítmica das adequadas fórmulas de pensamento”. (Man’s Religions [As Religiões do Homem]) Tem oito passos.
[Quadro na página 120]
Lenda Hindu do Dilúvio
“De manhã eles trouxeram a Manu [ancestral da humanidade e primeiro legislador] água para lavar-se . . . Quando ele se lavava, um peixe [Vixenu em sua encarnação como Matsia] veio parar nas suas mãos.
“O peixe falou-lhe: ‘Cria-me, eu te salvarei!’ ‘Do que me salvarás?’ ‘Um dilúvio eliminará todas essas criaturas: disto eu te salvarei!’ ‘Como devo criar-te?’”
O peixe instruiu Manu sobre como cuidar dele. “Daí, ele disse: ‘Em tal ano virá esse dilúvio. Deverás então acatar (meu conselho) por preparar um navio; e quando o dilúvio subir, deverás entrar no navio, e eu te salvarei dele.’”
Manu seguiu as instruções do peixe e, no dilúvio, o peixe arrastou o navio para “uma montanha ao norte. Daí disse: ‘Eu te salvei. Amarra o navio a uma árvore; mas não permita que a água te elimine, enquanto estiveres na montanha. Quando a água baixar, podes gradativamente descer!’” — Satapata- Bramana; compare com Gênesis 6:9-8:22.
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Budismo — uma busca de iluminação sem DeusO Homem em Busca de Deus
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Capítulo 6
Budismo — uma busca de iluminação sem Deus
1. (a) De que modo o budismo se manifestou na sociedade ocidental? (b) Quais são as causas desse desenvolvimento ocidental?
POUCO conhecido fora da Ásia na virada do século 20, o budismo hoje assumiu o papel de religião universal. De fato, muitos no Ocidente admiram-se de ver o budismo vicejar ali mesmo em sua própria comunidade. Grande parte disso resulta do movimento internacional de refugiados. Comunidades asiáticas consideravelmente grandes se estabeleceram na Europa Ocidental, na América do Norte, na Austrália e em outros lugares. À medida que cada vez mais imigrantes fincam raízes em um novo país, eles também trazem consigo a sua religião. Ao mesmo tempo, mais pessoas no Ocidente se deparam com o budismo pela primeira vez. Isto, somado à permissividade e ao declínio espiritual nas igrejas tradicionais, têm feito com que alguns se convertessem à “nova” religião. — 2 Timóteo 3:1, 5.
2. Onde se encontram hoje seguidores do budismo?
2 De acordo com um estudo realizado em 2010 pelo Pew Research Center, há quase 500 milhões de budistas em todo o mundo, e a grande maioria deles vive em países asiáticos, como China, Coreia do Sul, Japão, Mianmar (Burma), Sri Lanka e Tailândia . Apenas na China, cerca de 250 milhões de pessoas afirmam ser budistas. Como se iniciou essa religião? Quais são os ensinos e as práticas do budismo?
Uma Questão de Fonte Confiável
3. Que fonte de matéria se dispõe a respeito da vida do Buda?
3 “O que se conhece da vida de Buda baseia-se principalmente na evidência dos textos canônicos, sendo que os mais extensos e abrangentes são os escritos em páli, uma língua da antiga Índia”, diz o livro World Religions—From Ancient History to the Present (Religiões do Mundo — Da História Antiga ao Presente). O que isso significa é que não existe fonte de matéria de seu tempo que nos diga algo sobre Sidarta Gautama, o fundador dessa religião, que viveu no norte da Índia no sexto século AEC. Isto, naturalmente, representa um problema. Mas, ainda mais importante é a pergunta: Quando e como foram produzidos os “textos canônicos”?
4. Como foi o autêntico ensino do Buda preservado de início?
4 A tradição budista afirma que logo após a morte de Gautama, convocou-se um concílio de 500 monges para decidir qual era o autêntico ensino do Mestre. Se tal concílio realmente aconteceu é tema de muito debate entre peritos e historiadores budistas. O ponto importante que devemos notar, porém, é que mesmo textos budistas reconhecem que aquilo que se decidiu ser o ensino autêntico não foi assentado por escrito, mas sim memorizado pelos discípulos. A escrita efetiva dos textos sagrados teve de esperar um bom tempo.
5. Quando é que os textos em páli foram assentados por escrito?
5 Segundo certas crônicas cingalesas do quarto e sexto séculos EC, os mais antigos desses “textos canônicos” em páli foram assentados por escrito durante o reinado do rei Vatagamani Abhaia, do primeiro século AEC. Outros relatos da vida de Buda não apareceram por escrito antes talvez do primeiro ou mesmo quinto século EC, cerca de mil anos depois de seu tempo.
6. Que críticas há contra os “textos canônicos”? (Veja 2 Timóteo 3:16, 17.)
6 Assim, diz o Abingdon Dictionary of Living Religions (Dicionário Abingdon de Religiões Vivas): “As ‘biografias’ são tanto tardias em origem como repletas de matéria lendária e mítica, e os mais antigos textos canônicos são produtos de um longo processo de transmissão oral que evidentemente incluiu revisões e muita adição.” Certo perito até mesmo “sustentou que nem uma única palavra do ensino registrado pode ser atribuída com insofismável certeza ao próprio Gautama”. Justificam-se tais críticas?
A Concepção e o Nascimento do Buda
7. Segundo os textos budistas, como foi que a mãe do Buda o concebeu?
7 Considere os seguintes excertos de Jataca, parte do cânon em páli, e Buda-charita, um texto em sânscrito do segundo século EC sobre a vida do Buda. Primeiro, o relato de como a mãe do Buda, rainha Maha-Maia, veio a concebê-lo num sonho.
“Os quatro anjos-da-guarda vieram e ergueram-na, junto com o seu leito, e levaram-na aos contrafortes do Himalaia. . . . Daí vieram as esposas desses anjos-da-guarda, e conduziram-na ao lago Anotata, e banharam-na, para remover toda impureza humana. . . . Não longe dali ficava a Montanha de Prata, e nela uma mansão dourada. Colocaram ali um leito divino com a cabeceira voltada para o oriente, e deitaram-na nele. Neste ponto o futuro Buda se havia tornado um esplêndido elefante branco . . . Ele subiu a Montanha de Prata e . . . rodeou três vezes o leito de sua mãe, com seu lado direito virado para o leito, e golpeando-a em seu lado direito, parecia entrar no ventre dela. Assim ocorreu a concepção na festividade do solstício de verão.”
8. O que foi predito com respeito ao futuro do Buda?
8 Quando a rainha contou o sonho a seu marido, o rei, ele convocou 64 eminentes sacerdotes hindus, alimentou-os e vestiu-os, e pediu uma interpretação. Esta foi a resposta deles:
“Não te aflijas, grande rei! . . . Terás um filho. E ele, se continuar a levar a vida caseira, tornar-se-á um monarca universal; mas, se ele abandonar a vida caseira e se retirar do mundo, se tornará um Buda, e afastará as nuvens do pecado e da tolice deste mundo.”
9. Que extraordinários eventos alegadamente aconteceram após o pronunciamento a respeito do futuro do Buda?
9 Depois disso, ocorreram alegadamente 32 milagres:
“Todos os dez mil mundos subitamente tremeram, estremeceram e se sacudiram. . . . Os fogos se extinguiram em todos os infernos; . . . acabaram-se as doenças entre os homens; . . . todos os instrumentos musicais emitiram seus tons sem serem tocados; . . . no poderoso oceano a água tornou-se doce; . . . os inteiros dez mil mundos viraram uma só massa de grinaldas da mais alta magnificência possível.”
10. De que modo os textos budistas sagrados descrevem o nascimento do Buda?
10 Daí ocorreu o incomum nascimento do Buda num jardim de árvores-sal chamado Bosque Lumbini. Quando a rainha desejou deitar mão num ramo da mais alta árvore-sal do bosque, a árvore anuiu por inclinar-se ao seu alcance. Segurando o ramo e em pé, ela deu à luz.
“Ele saiu do ventre de sua mãe como um pregador que desce do púlpito, ou como um homem que desce uma escadaria, estirando as mãos e os pés, livre de qualquer impureza do ventre de sua mãe. . . . ”
“Assim que nasce, o [futuro Buda] planta firmemente os pés rente ao chão, dá sete passos para o norte, com uma capota branca acima da cabeça, e inspeciona todos os quadrantes do mundo, exclamando em tom inigualável: No mundo todo eu sou chefe, o melhor e o mais destacado; este é meu último nascimento; jamais nascerei de novo.”
11. A que conclusão chegaram alguns peritos sobre os relatos da vida do Buda conforme encontrados nos textos sagrados?
11 Há também histórias igualmente minuciosas sobre sua infância, seus encontros com jovens admiradoras, suas peregrinações e praticamente todos os eventos de sua vida. Talvez não seja de admirar que a maioria dos peritos rejeite todos esses relatos como lendas e mitos. Um destacado funcionário do Museu Britânico até mesmo sugere que devido à “grande quantidade de lenda e milagre, . . . uma vida histórica do Buda está além de restauração”.
12, 13. (a) Qual é o relato tradicional sobre a vida do Buda? (b) O que é comumente aceito quanto a quando o Buda nasceu? (Veja Lucas 1:1-4.)
12 Apesar desses mitos, existe um relato tradicional da vida do Buda amplamente difundido. Um texto moderno, A Manual of Buddhism (Manual do Budismo), publicado em Colombo, Sri Lanka, fornece o seguinte relato simplificado:
“No dia de lua cheia de maio do ano 623 AC nasceu no distrito de Nepal um príncipe indiano saquiano, de nome Sidata Gotama.a O rei Sudodana era seu pai, e a rainha Maha Maia era sua mãe. Ela morreu alguns dias depois do nascimento da criança e Maha Pajapati Gotami tornou-se sua mãe adotiva.
“Aos dezesseis anos de idade ele casou-se com sua prima, a bela princesa Iasodara.
“Por uns treze anos após seu feliz casamento ele levou uma vida de esplendor, bem-aventuradamente desconhecedor das vicissitudes da vida fora dos portões do palácio.
“Com a marcha do tempo, começou gradativamente a compreender a verdade. Em seu 29.º ano, que marcou o ponto de virada em sua carreira, nasceu seu filho Rahula. Ele considerou sua prole como impedimento, pois entendeu que todos, sem exceção, estavam sujeitos ao nascimento, à doença e à morte. Compreendendo assim a universalidade da tristeza, ele decidiu descobrir uma panacéia para essa doença universal da humanidade.
“Assim, renunciando a seus prazeres palacianos, ele deixou a casa certa noite . . . cortou o cabelo, vestiu a roupa simples de um asceta, e saiu a peregrinar como Buscador da Verdade.”
13 Claramente, estes poucos detalhes biográficos contrastam-se nitidamente com os relatos fantásticos encontrados nos “textos canônicos”. E, à exceção do ano de seu nascimento, eles são comumente aceitos.
A Iluminação — Como Aconteceu
14. Qual foi o ponto de virada na vida de Gautama?
14 Qual foi o supramencionado “ponto de virada em sua carreira”? Foi quando, pela primeira vez na vida, ele viu um enfermo, um ancião e um cadáver. Esta experiência deixou-o aflito com relação ao significado da vida — Por que os homens nascem, apenas para sofrer, envelhecer e morrer? Daí, informa-se que ele viu um homem santo, que renunciara o mundo em busca da verdade. Isto impeliu Gautama a renunciar sua família, seus bens e seu nome principesco e passar os seguintes seis anos buscando a resposta de mestres e gurus hindus, mas sem êxito. Os relatos nos dizem que ele dedicou-se a um proceder de meditação, jejum, ioga e extremo desprendimento, não obstante, não encontrou nenhuma paz ou iluminação espiritual.
15. Como se deu que Gautama finalmente conseguiu a sua suposta iluminação?
15 Por fim, ele veio a perceber que seu proceder de desprendimento extremo era tão inútil como a vida regalada que levara antes. Adotou então o que chamou de Caminho Médio, evitando os extremos dos estilos de vida que seguira antes. Decidindo que a resposta devia ser encontrada na sua própria percepção, ele sentou-se para meditar debaixo de um pipal, ou figueira-dos-pagodes indiana. Resistindo a ataques e tentações do diabo Mara, ele continuou firme em sua meditação por quatro semanas (alguns dizem sete semanas) até que supostamente transcendeu todo conhecimento e entendimento e atingiu a iluminação.
16. (a) O que Gautama se tornou? (b) Que diferentes conceitos existem a respeito do Buda?
16 Por esse processo, na terminologia budista, Gautama tornou-se o Buda — o Despertado, ou Iluminado. Ele atingira o derradeiro alvo, Nirvana, o estado de paz e iluminação perfeita, libertado do desejo e do sofrimento. Tornou-se também conhecido como Saquiamuni (sábio da tribo sáquia), e não raro dirigia-se a si mesmo como Tatagata (um que assim veio [para ensinar]). Diferentes seitas budistas, contudo, têm diferentes conceitos sobre este assunto. Alguns encaram-no estritamente como ser humano que encontrou o caminho da iluminação para si mesmo e ensinou-o a seus seguidores. Outros encaram-no como o último duma série de Budas que vieram ao mundo para pregar ou reavivar o darma (páli, Dama), o ensino ou caminho do Buda. Ainda outros encaram-no como bodisatva, alguém que alcançou a iluminação mas postergou a entrada no Nirvana a fim de ajudar outros em sua busca de iluminação. O que quer que seja, este evento, a Iluminação, é de importância central para todas as escolas do budismo.
A Iluminação — O Que É?
17. (a) Onde e a quem o Buda pregou seu primeiro sermão? (b) Explique brevemente as Quatro Nobres Verdades.
17 Tendo conseguido a iluminação, e depois de vencer certa hesitação inicial, o Buda pôs-se a ensinar a outros a sua recém-encontrada verdade, seu darma. Seu primeiro e provavelmente mais importante sermão foi proferido na cidade de Benares, num parque de veados, a cinco bicus — discípulos ou monges. Nele, ensinou que, para se ser salvo, deve-se evitar tanto o proceder de indulgência sensual como o do ascetismo, e seguir o Caminho Médio. Daí, deve-se entender e seguir as Quatro Nobres Verdades (veja o quadro, na página ao lado), que podem brevemente ser assim resumidas:
(1) Toda existência é sofrimento.
(2) O sofrimento vem do desejo ou anseio.
(3) A cessação do desejo significa o fim do sofrimento.
(4) Consegue-se a cessação do desejo seguindo-se o Caminho Óctuplo, controlando a conduta, o pensamento e a crença da pessoa.
18. O que disse o Buda a respeito da fonte de sua iluminação? (Veja Jó 28:20, 21, 28; Salmo 111:10.)
18 Este sermão sobre o Caminho Médio e as Quatro Nobres Verdades engloba a essência da Iluminação e é considerado o epítome de todo o ensino de Buda. (Em contraste, compare com Mateus 6:25-34; 1 Timóteo 6:17-19; Tiago 4:1-3; 1 João 2:15-17.) Gautama não reivindicou inspiração divina para seu sermão, mas deu mérito a si próprio com as palavras “descoberto pelo Tatagata”. Alega-se que em seu leito de morte o Buda disse a seus discípulos: “Buscai a salvação apenas na verdade; não procureis ajuda de ninguém, exceto de vós mesmos.” Assim, segundo o Buda, a iluminação vem, não de Deus, mas sim de empenho pessoal em desenvolver raciocínio correto e boas ações.
19. Por que foi bem recebida na época a mensagem do Buda?
19 Não é difícil perceber por que esse ensino foi bem recebido na sociedade indiana da época. Ele condenava as gananciosas e corruptas práticas religiosas promovidas pelos brâmanes hindus, ou casta sacerdotal, por um lado, e, por outro, o rígido ascetismo dos jainistas e outros cultos místicos. Acabou também com os sacrifícios e rituais, as miríades de deuses e deusas, e o fatigante sistema de castas que dominava e escravizava todo aspecto da vida das pessoas. Em suma, prometia libertação a todos os que se dispusessem a seguir o caminho do Buda.
O Budismo Amplia a Sua Influência
20. (a) Quais são as “Três Jóias” do budismo? (b) Quão extensa foi a campanha de pregação do Buda?
20 Quando os cinco bicus aceitaram o ensino do Buda, tornaram-se os primeiros sanga, ou ordem de monges. Assim, as “Três Jóias” (Triratna) do budismo estavam completas, a saber, o Buda, o darma e o sanga, que supostamente ajudariam as pessoas a entrar no caminho da iluminação. Assim preparado, Gautama, o Buda, saiu a pregar em toda a extensão do vale do Ganges. Pessoas de todo o nível e condição sociais vinham ouvi-lo, e tornavam-se discípulos seus. Por ocasião de sua morte, aos 80 anos, ele já era bem conhecido e bem respeitado. Consta que as últimas palavras a seus discípulos foram: “A decadência é inerente a todas as coisas. Produzi a vossa própria salvação com diligência.”
21. (a) Quem cooperou para a expansão do budismo? (b) Qual foi o resultado de seus empenhos?
21 No terceiro século AEC, cerca de 200 anos depois da morte do Buda, apareceu o maior paladino do budismo, o imperador Asoca, que pôs sob seu controle a maior parte da Índia. Entristecido pelas matanças e convulsões causadas por suas conquistas, ele adotou o budismo e deu-lhe apoio estatal. Erigiu monumentos religiosos, convocou concílios e exortou o povo a viver segundo os preceitos do Buda. Asoca enviou também missionários budistas a todas as partes da Índia e ao Sri Lanka, Síria, Egito e Grécia. Principalmente devido aos empenhos de Asoca, o budismo passou de seita indiana a religião universal. Justificadamente, alguns o consideram o segundo fundador do budismo.
22. De que modo o budismo veio a ficar estabelecido em toda a Ásia?
22 Do Sri Lanka o budismo se propagou para o leste, a Myanmar (Birmânia), à Tailândia e a outras partes da Indochina. Para o norte, o budismo se espalhou à Cachemira e à Ásia central. A partir dessas regiões, e já no primeiro século EC, monges budistas viajaram através das agrestes montanhas e desertos e levaram sua religião para a China. Da China, foi um passo curto para o budismo chegar à Coréia e ao Japão. O budismo foi também introduzido no Tibete, vizinho da Índia ao norte. Mesclado com crenças locais, emergiu como lamaísmo, que dominou, ali, tanto a vida religiosa como política. Por volta do sexto ou sétimo século EC, o budismo já estava bem estabelecido em todo o sudeste asiático e Extremo Oriente. Mas, o que acontecia na Índia?
23. O que aconteceu com o budismo na Índia?
23 Ao passo que o budismo espalhava sua influência a outros países, declinava gradativamente na Índia. Profundamente envolvidos em interesses filosóficos e metafísicos, os monges passaram a perder a ligação com seus seguidores leigos. Além disso, a perda de patrocínio palaciano e a adoção de conceitos e práticas hindus apressaram a extinção do budismo na Índia. Até mesmo lugares santos budistas, como Lumbini, onde Gautama nasceu, e Buda Gaia, onde ele teve a “iluminação”, viraram ruínas. Por volta do século 13, o budismo virtualmente desaparecera da Índia, seu país de origem.
24, 25. Que desenvolvimentos adicionais ocorreram no budismo no século 20?
24 Durante o século 20, o budismo passou por outra mudança de feição. Levantes políticos na China, Mongólia, Tibete e países do sudeste asiático aplicaram-lhe um golpe devastador. Milhares de mosteiros e templos foram destruídos e centenas de milhares de monges e monjas foram afastados, aprisionados ou mesmo mortos. Não obstante, ainda se percebe fortemente a influência do budismo no modo de pensar e nos hábitos do povo desses países.
25 Na Europa e na América do Norte, o conceito budista de buscar a “verdade” dentro da própria pessoa parece exercer um amplo atrativo, e sua prática de meditação provê uma fuga do corre-corre do estilo de vida ocidental. É interessante que, no prefácio do livro Living Buddhism (Budismo Vivo), Tenzin Gyatso, o exilado Dalai Lama do Tibete, escreveu: “Talvez hoje o budismo tenha uma parte a desempenhar em lembrar os povos ocidentais da dimensão espiritual de suas vidas.”
Os Diversificados Caminhos do Budismo
26. De que modos está dividido o budismo?
26 Embora seja costumeiro falar-se do budismo como religião única, na realidade ele está dividido em várias escolas de pensamento. Baseadas em diferentes interpretações da natureza do Buda e de seus ensinos, cada qual tem suas próprias doutrinas, práticas e escrituras. Estas escolas estão adicionalmente divididas em numerosos grupos e seitas, muitos dos quais fortemente influenciados por culturas e tradições locais.
27, 28. Como descreveria o budismo Teravada? (Veja Filipenses 2:12; João 17:15, 16.)
27 O Teravada (Caminho dos Mais Velhos), ou Hinaiana (Pequeno Veículo) é uma escola do budismo que floresce no Sri Lanka, Myanmar (Birmânia), Tailândia, Kampuchea (Cambodja) e Laos. Alguns consideram-na a escola conservadora. Ela enfatiza ganhar sabedoria e a pessoa produzir a sua própria salvação por renunciar ao mundo e levar uma vida de monge, devotando-se à meditação e ao estudo num mosteiro.
28 É comum ver em alguns desses países grupos de rapazes com cabeça rapada, em longos trajes cor de açafrão e descalços, segurando tigelas de esmolas para receberem sua provisão diária dos crentes leigos, cujo papel é sustentá-los. É costumeiro os homens passarem pelo menos parte de sua vida num mosteiro. O derradeiro objetivo da vida monástica é tornar-se arat, isto é, alguém que atingiu a perfeição espiritual e a libertação da dor e do sofrimento nos ciclos do renascimento. O Buda indicou o caminho; compete a cada um segui-lo.
29. Quais são as características do budismo Mahaiana? (Veja 1 Timóteo 2:3, 4; João 3:16.)
29 A escola Mahaiana (Grande Veículo) do budismo encontra-se comumente na China, Coréia, Japão e Vietnã. Tem este nome porque destaca o ensino do Buda de que “a verdade e o caminho da salvação é para todos, quer se viva numa caverna, num mosteiro, quer numa casa . . . Não é apenas para os que renunciam ao mundo”. O conceito básico mahaiano é que o amor e a compaixão do Buda são tão grandes que ele não privaria ninguém da salvação. Ensina que, estando a natureza do Buda presente em todos nós, todos somos capazes de tornar-nos um buda, um iluminado, ou bodisatva. A iluminação vem, não através de estrênua autodisciplina, mas sim pela fé no Buda e compaixão para com todas as coisas vivas. Isto obviamente exerce maior atrativo sobre as massas de mentalidade prática. Por causa dessa atitude mais liberal, contudo, desenvolveram-se numerosos grupos e cultos.
30. Que objetivo buscam os devotos do budismo “Terra Pura”? (Veja Mateus 6:7, 8; 1 Reis 18:26, 29.)
30 Entre as muitas seitas mahaianas que se desenvolveram na China e no Japão figuram as escolas Terra Pura e Zen do budismo. A primeira centraliza sua crença na fé no poder salvador do Buda Amida, que prometeu a seus seguidores um renascimento na Terra Pura, ou Paraíso Ocidental, uma terra de alegria e deleite habitada por deuses e seres humanos. De lá, é fácil alcançar o Nirvana. Repetindo a oração: “Tenho fé em Buda Amida”, às vezes milhares de vezes por dia, os devotos se purificam a fim de chegar à iluminação ou ganhar o renascimento no Paraíso Ocidental.
31. Quais são as características do budismo Zen? (Veja Filipenses 4:8.)
31 O budismo Zen (escola Ch’an, na China) derivou seu nome da prática da meditação. As palavras ch’an (chinês) e zen (japonês) são variações da palavra sânscrita diana, que significa “meditação”. Esta disciplina ensina que o estudo, as boas obras e os rituais têm pouco mérito. Pode-se conseguir a iluminação simplesmente por meditar em enigmas imponderáveis, tais como: ‘Qual é o ruído de se bater palmas com uma só mão?’, e: ‘O que encontramos onde nada existe?’ A natureza mística do budismo zen tem encontrado expressão nas finas artes de arranjos florais, caligrafia, pinturas a nanquim, poesia, jardinagem, e assim por diante, e estas têm sido bem recebidas no Ocidente. Hoje, existem centros de meditação Zen em muitos países ocidentais.
32. Em que consiste a prática do budismo tibetano?
32 Por fim, há o budismo Tibetano, ou Lamaísmo. Esta forma de budismo é às vezes chamada de Mantraiana (Veículo Mantra) por causa do largo uso de mantras, uma série de sílabas com ou sem significado, em longos recitais. Em vez de enfatizar a sabedoria ou a compaixão, esta forma de budismo enfatiza o uso de rituais, orações, magia, e espiritismo na adoração. As orações são repetidas milhares de vezes por dia com a ajuda de contas de oração e tambores de oração. É possível aprender os complicados rituais apenas sob instrução oral dos lamas, ou líderes monásticos, dentre os quais os mais conhecidos são o Dalai Lama e o Panchen Lama. Depois da morte de um lama, faz-se a busca de uma criança na qual alegadamente o lama teria sido reencarnado para ser o próximo líder espiritual. Esse termo, contudo, é também aplicado genericamente a todos os monges, que, segundo certa estimativa, certa vez somavam cerca de um quinto de toda a população do Tibete. Os lamas eram também mestres, médicos, proprietários de terra ou figuras políticas.
33. Em que sentido são as divisões do budismo similares às da cristandade? (Veja 1 Coríntios 1:10.)
33 Estas principais divisões do budismo estão, por sua vez, subdivididas em muitos grupos, ou seitas. Alguns são devotados a um líder específico, como Nichiren, no Japão, que ensinou que apenas o Sutra de Loto mahaiano contém os ensinos definitivos do Buda, e Nun Ch’in-Hai, em Taiwan (Formosa), que tem numerosos seguidores. Neste respeito, o budismo não difere muito da cristandade com suas muitas denominações e seitas. De fato, é comum ver pessoas que afirmam ser budistas envolvidas em práticas do taoísmo, do xintoísmo, da adoração de ancestrais e até mesmo da cristandade.b Todas estas seitas budistas afirmam basear suas crenças e práticas nos ensinos do Buda.
Os Três Cestos e Outras Escrituras Budistas
34. O que temos de ter em mente ao considerarmos os ensinos do budismo?
34 Os ensinos atribuídos ao Buda foram transmitidos pela palavra oral, e começaram a ser assentados por escrito apenas séculos depois de sua morte. Assim, quando muito, eles representam o que seus seguidores em gerações posteriores pensavam que ele disse e fez. Isto se complica ainda mais pelo fato de que, naquela época, o budismo já se havia ramificado em muitas escolas. Assim, diferentes textos apresentam versões bem diferentes do budismo.
35. Quais são os mais antigos dos textos sagrados budistas?
35 Os mais antigos dos textos budistas foram escritos em páli, alegadamente relacionada com a língua nativa do Buda, por volta do primeiro século AEC. São aceitos pela escola Teravada como sendo os textos autênticos. Consistem em 31 livros organizados em três coleções chamadas de Tipitaca (sânscrito, Tripitaca), significando “Três Cestos”, ou “Três Coleções”. O Vinaia Pitaca (Cesto da Disciplina) trata especialmente de regras e regulamentos para monges e monjas. O Suta Pitaca (Cesto de Discursos) contém os sermões, as parábolas e os provérbios enunciados pelo Buda e seus principais discípulos. Por último, o Abidama Pitaca (Cesto da Derradeira Doutrina) consiste em comentários sobre doutrinas budistas.
36. O que caracteriza as escrituras budistas mahaianas?
36 Por outro lado, os escritos da escola Mahaiana são na maioria em sânscrito, chinês e tibetano, e são volumosos. Apenas os textos em chinês consistem em mais de 5.000 volumes. Contêm muitos conceitos não constantes nos escritos anteriores, tais como relatos de budas tão numerosos como os grãos de areia do Ganges, que alegadamente viveram por incontáveis milhões de anos, cada qual presidindo sobre seu próprio mundo buda. Não há exagero quando certo escritor observa que esses textos são “caracterizados pela diversidade, imaginação extravagante, personalidades pitorescas e repetições desordenadas”.
37. Que problemas resultaram dos escritos mahaianos? (Veja Filipenses 2:2, 3.)
37 É desnecessário dizer que poucas pessoas conseguem compreender esses tratados altamente abstratos. Conseqüentemente, esses desenvolvimentos posteriores têm levado o budismo para muito longe do que o Buda originalmente intencionara. Segundo o Vinaia Pitaca, o Buda queria que seus ensinos fossem entendidos não apenas pela classe culta, mas por todo tipo de pessoa. Para isso, ele insistia que seus conceitos fossem ensinados na língua do povo comum, e não na sagrada língua morta do hinduísmo. Assim, à objeção dos budistas teravadas de que esses livros não são canônicos, a resposta dos seguidores mahaianos é que Gautama, o Buda, primeiro ensinou aos simples e ignorantes, mas, para os instruídos e sábios, ele revelou os ensinos escritos mais tarde nos livros mahaianos.
O Ciclo do Carma e do Samsara
38. (a) Como se comparam os ensinos budista e hindu? (b) Qual é o conceito budista da alma na teoria e na prática?
38 Embora o budismo até certo ponto libertasse as pessoas das amarras do hinduísmo, seus conceitos fundamentais ainda são um legado dos ensinos hindus do carma e do samsara. O budismo, conforme originalmente ensinado pelo Buda, difere do hinduísmo no sentido de que nega a existência de uma alma imortal, mas fala do indivíduo como sendo “uma combinação de forças ou energias físicas e mentais”.c Não obstante, seus ensinos ainda se centralizam nos conceitos de que toda a humanidade passa de vida em vida através de incontáveis renascimentos (samsara) e sofre as conseqüências de ações passadas e presentes (carma). Ainda que a sua mensagem de iluminação e libertação desse ciclo possa parecer atraente, alguns se perguntam: Quão sólida é a base? Que prova existe de que todos os sofrimentos são o resultado das ações da pessoa numa vida anterior? E, de fato, que evidência existe de que realmente há alguma vida anterior?
39. De que modo certo texto budista explica a lei do carma?
39 Certa explicação da lei do carma diz:
“O cama [equivalente de carma em páli] é uma lei em si mesmo. Mas isso não significa que deva existir um legislador. Leis comuns da natureza, como a gravidade, não necessitam de legislador. A lei do cama também não exige legislador. Ela opera em seu próprio campo sem a intervenção dum agente diretivo externo, independente.” — Manual do Budismo.
40. (a) A existência de leis naturais indica o quê? (b) O que diz a Bíblia a respeito de causa e efeito?
40 É esse um raciocínio sólido? Será que as leis da natureza realmente não necessitam de legislador? O perito em foguetes Dr. Wernher von Braun disse certa vez: “As leis naturais do universo são tão precisas que não temos dificuldade alguma em construir uma espaçonave para voar à lua, e podemos cronometrar o vôo com a precisão de uma fração de segundo. Estas leis devem ter sido estabelecidas por alguém.” A Bíblia também fala sobre a lei da causa e efeito. Ela nos diz: “De Deus não se mofa. Pois, o que o homem semear, isso também ceifará.” (Gálatas 6:7) Em vez de dizer que essa lei não requer legislador, ela destaca que “de Deus não se mofa”, indicando que essa lei foi posta em operação pelo seu Criador, Jeová.
41. (a) Que comparação pode-se fazer entre a lei do carma e a lei de tribunais? (b) Contraste o carma com a promessa da Bíblia.
41 Além disso, a Bíblia diz-nos que “o salário pago pelo pecado é a morte”, e que “aquele que morreu foi absolvido do seu pecado”. Até mesmo os tribunais de justiça reconhecem que ninguém deve sofrer dupla condenação por qualquer crime que cometa. Por que, então, deveria a pessoa que já pagou por seus pecados, por morrer, renascer apenas para sofrer novamente as conseqüências de seus atos passados? Ademais, sem ter conhecimento dos atos passados pelas quais está sendo punida, como pode a pessoa arrepender-se e melhorar? Poderia isso ser considerado justiça? É coerente com a misericórdia, que, segundo se diz, é a mais notável qualidade do Buda? Em contraste, a Bíblia, depois de declarar que “o salário pago pelo pecado é a morte”, diz mais: “Mas o dom dado por Deus é a vida eterna por Cristo Jesus, nosso Senhor.” Sim, ela promete que Deus acabará com toda corrupção, pecado e morte e trará liberdade e perfeição para toda a humanidade. — Romanos 6:7, 23; 8:21; Isaías 25:8.
42. Como um perito budista explica o renascimento?
42 Quanto ao renascimento, segue-se uma explanação do perito budista Dr. Walpola Rahula:
“Um ser nada é senão uma combinação de forças ou energias físicas e mentais. O que chamamos de morte é o total não-funcionamento do corpo físico. Será que todas essas forças e energias cessam completamente com o não-funcionamento do corpo? O budismo diz: ‘Não.’ Vontade, volição, desejo, ânsia de existir, de continuar, de tornar-se sempre mais importante, é uma tremenda força que move inteiras vidas, inteiras existências, que move até mesmo o mundo inteiro. Esta é a maior força, a maior energia do mundo. Segundo o budismo, essa força não cessa com o não-funcionamento do corpo, que é a morte; mas continua a manifestar-se em outra forma, produzindo a reexistência, chamada de renascimento.”
43. (a) Biologicamente, como é que se determina o componente genético da pessoa? (b) Que “prova” é às vezes apresentada para apoiar o renascimento? (c) Harmoniza-se tal “prova” do renascimento com a experiência comum?
43 No momento da concepção, a pessoa herda 50 por cento de seus genes de cada um dos genitores. De modo que não existe maneira de ela poder ser cem por cento igual a alguém de uma existência anterior. De fato, não é possível sustentar o processo de renascimento através de algum conhecido princípio de ciência. Não raro, os que crêem na doutrina do renascimento citam como prova as experiências de pessoas que afirmam lembrar-se de rostos, eventos e lugares que não conheciam antes. É isso lógico? Dizer que a pessoa que pode lembrar-se de coisas de tempos passados deve ter vivido naquela era, implica também dizer que a pessoa que pode predizer o futuro — e são muitas as que afirmam fazê-lo — devem ter vivido no futuro. O que, obviamente, não é o caso.
44. Compare os ensinos da Bíblia a respeito do “espírito” com a doutrina budista do renascimento.
44 Mais de 400 anos antes do Buda, a Bíblia falou de uma força de vida. Descrevendo o que acontece por ocasião da morte da pessoa, ela diz: “Então o pó retorna à terra, assim como veio a ser, e o próprio espírito retorna ao verdadeiro Deus que o deu.” (Eclesiastes 12:7) A palavra “espírito” é traduzida da palavra hebraica rú·ahh, que significa a força de vida que anima todas as criaturas viventes, humanas e animais. (Eclesiastes 3:18-22) Contudo, a importante diferença é que rú·ahh é uma força impessoal, não tem vontade própria, tampouco retém a personalidade ou quaisquer das características do indivíduo falecido. Não passa de uma pessoa para outra na morte, mas sim “retorna ao verdadeiro Deus que o deu”. Em outras palavras, as perspectivas de vida futura da pessoa — a esperança da ressurreição — estão inteiramente nas mãos de Deus. — João 5:28, 29; Atos 17:31.
Nirvana — Atingindo o Inatingível?
45. Em que consiste o conceito budista do Nirvana?
45 Isto nos leva ao ensino do Buda a respeito de iluminação e salvação. Em termos budistas, o conceito básico da salvação é a libertação das leis do carma e samsara, bem como chegar ao Nirvana. E o que é o Nirvana? Os textos budistas dizem que é impossível descrever ou explicar, podendo apenas ser vivenciado. Não é um céu, para onde a pessoa vai após a morte, mas sim uma consecução que está ao alcance de todos, aqui e agora. Afirma-se que a própria palavra significa “apagar, extinguir”. Assim, alguns definem o Nirvana como a cessação de toda paixão e desejo; uma existência isenta de todo sentimento sensorial, como a dor, o medo, a ânsia, o amor ou o ódio; um estado de eterna paz, descanso e imutabilidade. Essencialmente, diz-se ser a cessação da existência individual.
46, 47. (a) Segundo os ensinos budistas, qual é a fonte da salvação? (b) Por que o conceito budista da fonte da salvação é contrário à experiência comum?
46 O Buda ensinou que a iluminação e a salvação — a perfeição do Nirvana — vem, não de algum Deus ou força exterior, mas sim de dentro da pessoa através de seus próprios empenhos em boas ações e pensamentos corretos. Isto suscita a pergunta: Pode algo perfeito vir de algo imperfeito? Não nos ensina a experiência comum que, como disse o profeta hebreu Jeremias, ‘não é do homem terreno o seu caminho, não é do homem que anda o dirigir o seu passo’? (Jeremias 10:23) Se ninguém é capaz de exercer controle total de suas ações mesmo nos simples assuntos do dia-a-dia, é lógico pensar que alguém poderia produzir sua salvação eterna inteiramente sozinho? — Salmo 146:3, 4.
47 Assim como uma pessoa afundada na areia movediça provavelmente não sairá sozinha dali, toda a humanidade está presa na armadilha do pecado e da morte, e ninguém é capaz de se desembaraçar sozinho dessa dificuldade. (Romanos 5:12) Todavia, o Buda ensinou que a salvação depende unicamente dos empenhos da própria pessoa. Sua exortação de despedida a seus discípulos foi: “Confiai em vós mesmos e não confiai em ajuda externa; apegai-vos à verdade como uma lâmpada; buscai a salvação apenas na verdade; não procureis a ajuda de ninguém, exceto de vós mesmos.”
Iluminação ou Desilusão?
48. (a) De que modo certo livro descreve o efeito dos complicados conceitos budistas tais como o Nirvana? (b) Qual tem sido o resultado do recente interesse pelos ensinos budistas em algumas regiões?
48 Qual é o efeito de tal doutrina? Inspira em seus crentes a verdadeira fé e devoção? O livro Budismo Vivo diz que, em alguns países budistas, até mesmo os “monges pouco se importam com as sublimidades de sua religião. Chegar ao Nirvana é amplamente considerado como sendo uma ambição irremediavelmente irrealista, e a meditação é raramente praticada. Além do dessultório estudo da Tipitaca, eles devotam-se a ser uma benevolente e harmoniosa influência na sociedade.” Similarmente, a Enciclopédia Mundial (japonesa), comentando sobre o recente ressurgimento de interesse pelos ensinamentos budistas, observa: “Quanto mais o estudo do budismo se torna especializado, tanto mais se aparta de seu objetivo original — guiar as pessoas. Deste ponto de vista, a recente tendência de rigoroso estudo do budismo não significa necessariamente o reavivamento de uma fé viva. Ao contrário, deve-se dizer que quando uma religião passa a ser objeto de complicada erudição metafísica, a sua vida real como fé está perdendo seu poder.”
49. Para muitos, o que se tornou o budismo?
49 O conceito fundamental do budismo é que o conhecimento e o entendimento levam à iluminação e à salvação. No entanto, as complicadas doutrinas das várias escolas do budismo têm apenas produzido a acima mencionada situação “irremediavelmente irrealista”, que está além da compreensão da maioria dos crentes. Para eles, o budismo tem sido reduzido a fazer o bem e seguir uns poucos rituais e preceitos simples. Não vem de encontro às desconcertantes perguntas a respeito da vida, tais como: De onde viemos? Por que existimos? E qual é o futuro do homem e da terra?
50. Que pergunta vem à mente em vista do que tem acontecido com alguns budistas sinceros? (Veja Colossenses 2:8.)
50 Alguns budistas sinceros têm reconhecido a confusão e a desilusão que surgem das complicadas doutrinas e fatigantes rituais do budismo, conforme praticado hoje. Os empenhos humanitários de grupos e associações budistas em alguns países talvez tenham trazido algum alívio da dor e do sofrimento a muitos. Mas, como fonte de verdadeira iluminação e libertação para todos, correspondeu o budismo à sua promessa?
Iluminação Sem Deus?
51. (a) O que diz certa historieta a respeito dos ensinos do Buda? (b) Que importante omissão é evidente nos ensinos do Buda? (Veja 2 Crônicas 16:9; Salmo 46:1; 145:18.)
51 Relatos da vida do Buda dizem que certa vez ele e seus discípulos estavam numa floresta. O Buda apanhou um punhado de folhas e disse a seus discípulos: “O que eu vos ensinei é comparável às folhas em minha mão, o que eu não vos ensinei é comparável à quantidade de folhas na floresta.” A implicação, naturalmente, era que o Buda ensinara apenas uma fração do que sabia. Contudo, existe uma importante omissão — Gautama, o Buda, praticamente nada tinha a dizer a respeito de Deus; tampouco alguma vez afirmou ser Deus. De fato, consta que ele disse a seus discípulos: “Se existe um Deus, é inconcebível que Ele esteja interessado em meus assuntos do dia-a-dia”, e “não existem deuses que podem ou que irão ajudar o homem”.
52. (a) Qual é o conceito do budismo sobre Deus? (b) O que tem desconsiderado o budismo?
52 Neste sentido, o papel do budismo na busca do verdadeiro Deus por parte da humanidade é mínimo. A Enciclopédia de Crenças do Mundo (em inglês) observa que “o primitivo budismo aparentemente não levou em conta a questão de Deus, e certamente não ensinou nem exigiu a crença em Deus”. Em sua ênfase em cada pessoa procurar a salvação por si mesma, voltando-se para sua própria mente ou percepção em busca de iluminação, o budismo é realmente agnóstico, se não ateísta. (Veja quadro, página 145.) Na tentativa de livrar-se dos grilhões de superstições do hinduísmo e seu atordoante rol de deuses míticos, o budismo pendeu para o outro extremo. Ignorou o conceito fundamental de um Ser Supremo, por cuja vontade tudo existe e opera. — Atos 17:24, 25.
53. O que se pode dizer a respeito de buscar iluminação sem Deus? (Veja Provérbios 9:10; Jeremias 8:9.)
53 Por causa desse modo de pensar voltado para si mesmo e independente, o resultado é um verdadeiro labirinto de lendas, tradições, doutrinas complexas e interpretações geradas pelas muitas escolas e seitas ao longo dos séculos. O que visava trazer uma solução simples para os complicados problemas da vida resultou num sistema religioso e filosófico além da compreensão para a maioria das pessoas. Em vez disso, o seguidor mediano do budismo simplesmente se preocupa com a adoração de ídolos e relíquias, deuses e demônios, espíritos e ancestrais, e em realizar muitos outros rituais e práticas que pouco têm a ver com o que Gautama, o Buda, ensinou. Obviamente, buscar a iluminação sem Deus não funciona.
54. Os ensinos de que outros pensadores religiosos orientais serão considerados a seguir?
54 Mais ou menos na mesma época em que Gautama, o Buda, procurava o caminho à iluminação, em outra parte do continente asiático viviam dois filósofos cujos conceitos vieram a influenciar milhões de pessoas. Eram Lao-tzu e Confúcio, os dois sábios venerados por gerações de chineses e outros. O que ensinaram eles, e como influenciaram a busca de Deus por parte da humanidade? É isto o que consideraremos no próximo capítulo.
[Nota(s) de rodapé]
a Esta é a transliteração em português de seu nome em páli. Do sânscrito, a transliteração é Sidarta Gautama. Sua data de nascimento, porém, tem sido variadamente fornecida como 560, 563 ou 567 AEC. A maioria dos estudiosos aceita a data de 560 ou, pelo menos, enquadra seu nascimento no sexto século AEC.
b Muitos budistas no Japão celebram um ostentoso “Natal”.
c Doutrinas budistas, como a anata (não existe eu), negam a existência de uma alma imutável ou eterna. Contudo, a maioria dos budistas hoje, particularmente os do Extremo Oriente, crêem na transmigração de uma alma imortal. A sua prática de adoração de ancestrais e a crença no tormento num inferno após a morte claramente demonstram isso.
[Fotos na página 131]
Chengteh, norte da China
Kofu, Japão
Nova Iorque, EUA
Chiang Mai, Tailândia
Os templos budistas variam mundialmente em estilo.
[Foto na página 133]
Relevo em pedra, Sonho de Maia, de Gandara, Paquistão, retrata o futuro Buda como elefante branco rodeado de um halo entrando no lado direito da rainha Maia para engravidá-la.
[Fotos na página 134]
Monges e devotos budistas num templo em Nova Iorque.
[Fotos na página 141]
Imagens do Buda com gestos estilizados.
entrando no Nirvana
ensinando
meditando
resistindo a tentações.
[Foto na página 147]
Procissão em homenagem ao nascimento do Buda, em Tóquio, Japão. O elefante branco no fundo simboliza o Buda.
[Fotos na página 150]
Páginas do Sutra de Loto (século 10), em chinês, descrevem o poder do bodisatva Kuan-yin de salvar do fogo e da inundação. O bodisatva Ksitigarba, à direita, era popular na Coréia no século 14.
[Foto na página 155]
Rolo budista de Quioto, Japão, retrata os tormentos do “inferno”.
[Fotos na página 157]
Budistas atuais prestam adoração perante (sentido horário a partir da esquerda no alto) um linga em Bancoque, Tailândia; a relíquia do Dente do Buda em Kandy, Sri Lanka; imagens do Buda em Cingapura e Nova Iorque.
[Fotos na página 158]
Uma senhora budista orando diante do altar da família, e crianças participando de serviços no templo.
[Mapa na página 142]
(Para o texto formatado, veja a publicação)
Por volta do sétimo século EC, o budismo espalhara-se da Índia para toda a Ásia oriental.
ÍNDIA
Benares
Buda Gaia
3.º SÉCULO AEC • SRI LANKA
1.º SÉCULO AEC • ÁSIA CENTRAL
• CACHEMIRRA
1.º SÉCULO EC • CHINA
• JAVA
• TAILÂNDIA
• KAMPUCHEA
• MYANMAR
4.º SÉCULO EC • CORÉIA
6.º SÉCULO EC • JAPÃO
7.º SÉCULO EC • TIBETE
[Quadro na página 139]
As Quatro Nobres Verdades do Buda
O Buda expôs seus ensinamentos fundamentais no que se conhece como as Quatro Nobres Verdades. Citamos a seguir trechos de Damacakapavatana Suta (O Fundamento do Reino da Justiça), numa tradução (para o inglês) de T. W. Rhys Davids:
▪ “Esta, ó Bicus, é a nobre verdade a respeito do sofrimento. O nascimento é acompanhado de dor, a decadência é dolorosa, a doença é dolorosa, a morte é dolorosa. A união com o que é desagradável é dolorosa, e doloroso é separar-se do que é agradável; e todo anseio não satisfeito, isto também é doloroso. . . .
▪ “Esta, ó Bicus, é a nobre verdade a respeito da origem do sofrimento. Na verdade, é esse desejo ardente, que causa a renovação da existência, acompanhada de deleite sensual, buscando satisfação ora aqui, ora ali — isto é, a ânsia de gratificação das paixões, ou a ânsia de viver, ou a ânsia de sucesso. . . .
▪ “Esta, ó Bicus, é a nobre verdade a respeito da eliminação do sofrimento. Na verdade, é a eliminação, sem deixar sobrar paixão alguma, justamente desse desejo ardente; deixá-lo de lado, livrar-se dele, libertar-se dele, não mais alimentar tal desejo ardente. . . .
▪ “Esta, ó Bicus, é a nobre verdade a respeito da senda que leva à eliminação da tristeza. Na verdade, é esta nobre senda óctupla; isto é: conceitos corretos; aspirações corretas; linguagem correta; conduta correta; vida correta; empenhos corretos; vigilância correta; e contemplação correta.”
[Quadro na página 145]
O Budismo e Deus
“O budismo ensina o caminho à bondade e à sabedoria perfeitas sem um Deus pessoal; o mais elevado conhecimento sem uma ‘revelação’; . . . a possibilidade de redenção sem um redentor vicário, uma salvação na qual cada um é seu próprio salvador.” — A Mensagem do Budismo, do bicu Subhadra, conforme citado em O Que
É o Budismo? (em inglês).
São, portanto, ateus os budistas? O livro O Que É o Budismo?, publicado pela Casa Budista, de Londres, responde: “Se por ateu se quer dizer alguém que rejeita o conceito de um Deus pessoal, nós somos.” Daí prossegue: “A mente em formação pode assimilar a idéia de um Universo guiado por uma Lei imutável com a mesma facilidade com que assimila o conceito de um Personagem distante que talvez nunca veja, que mora onde ela não sabe, e que em algum tempo criou do nada um Universo permeado de inimizade, injustiça, desigualdade de oportunidades e infindáveis sofrimentos e lutas.”
Assim, teoricamente, o budismo não advoga a crença em Deus ou num Criador. Contudo, há hoje templos e estupas budistas em praticamente todo país em que o budismo é praticado, e imagens e relíquias de budas e de bodisatvas transformaram-se em objetos de orações, oferendas e devoção da parte de budistas devotos. O Buda, que jamais afirmou ser Deus, tornou-se um deus no verdadeiro sentido da palavra.
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Taoísmo e Confucionismo — uma busca do caminho do céuO Homem em Busca de Deus
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Capítulo 7
Taoísmo e Confucionismo — uma busca do caminho do céu
O taoísmo, o confucionismo e o budismo constituem as três principais religiões da China e do Extremo Oriente. Diferente do budismo, porém, o taoísmo e o confucionismo não se tornaram religiões universais, mas têm permanecido basicamente na China e onde quer que a cultura chinesa firmasse sua influência. Embora não existam dados oficiais do número atual de seus seguidores na China, o taoísmo e o confucionismo juntos têm dominado a vida religiosa de cerca de um quarto da população do mundo nos últimos 2.000 anos.
1. (Inclui a introdução.) (a) Onde se praticam o taoísmo e o confucionismo, e quão difundidos se acham? (b) A que período recorreremos agora para examinar esses ensinos?
‘QUE cem flores desabrochem; que cem escolas contendam.’ Este ditado, tornado famoso por Mao Tse-tung da República Popular da China num discurso em 1956, era realmente uma paráfrase da expressão que os eruditos chineses têm usado para descrever a era chinesa do quinto ao terceiro séculos AEC, chamada de período dos Estados Combatentes. Nessa época, a poderosa dinastia Chou (c. 1122-256 AEC) se deteriorara num sistema de estados feudais vagamente ligados entre si, que se empenhavam em contínuas guerras, com resultante aflição para o povo.
2. (a) O que deu origem às “cem escolas” de pensamento? (b) O que permanece do desenvolvimento das “cem escolas”?
2 O tumulto e o sofrimento causados pelas guerras enfraqueceram seriamente a autoridade da classe dominante tradicional. O povo não mais se dispunha a submeter-se aos caprichos e artimanhas da aristocracia e a sofrer silenciosamente as conseqüências. Em resultado, conceitos e aspirações há muito sufocados irromperam como “cem flores”. Diferentes escolas de pensamento promoveram seus conceitos sobre governo, lei, ordem social, conduta e ética, bem como sobre assuntos tais como agricultura, música e literatura, quais meios de restaurar uma medida de normalidade na vida. Vieram a ser conhecidas como as “cem escolas”. A maioria delas não produziu um efeito duradouro. Duas escolas, porém, se destacaram de tal maneira que têm influenciado a vida na China por mais de 2.000 anos. Eram as que por fim vieram a ser conhecidas como taoísmo e confucionismo.
Tao — O Que É?
3. (a) Qual é o conceito chinês do Tao? (b) Em vez de um Criador, o que criam os chineses ser a causa de todas as coisas? (Compare com Hebreus 3:4.)
3 Para entender por que o taoísmo e o confucionismo vieram a exercer tão profunda e duradoura influência sobre o povo chinês, bem como sobre o do Japão, da Coréia e de outras nações circunvizinhas, é necessário entender algo do conceito fundamental chinês do Tao. A palavra em si significa “caminho, estrada, ou vereda”. Por extensão, pode também significar “método, princípio, ou doutrina”. Para os chineses, a harmonia e o funcionamento ordeiro que perceberam no universo eram manifestações do Tao, uma espécie de vontade ou legislação divina que existe no universo e o regula. Em outras palavras, em vez de crerem num Deus Criador, que controla o universo, eles criam numa providência, uma vontade do céu, ou simplesmente o próprio céu como a causa de tudo.
4. De que modo os chineses aplicavam o conceito do Tao a assuntos humanos? (Compare com Provérbios 3:5, 6.)
4 Aplicando o conceito do Tao a assuntos humanos, os chineses criam que existe um modo natural e correto para realizar todas as coisas, e que tudo e todos têm seu devido lugar e sua devida função. Por exemplo, eles criam que, se o governante cumprisse seus deveres tratando o povo com justiça e cuidando dos rituais sacrificiais pertinentes ao céu, haveria paz e prosperidade para a nação. Similarmente, se as pessoas se dispusessem a buscar o caminho, ou Tao, e o seguissem, tudo seria harmonioso, pacífico e eficiente. Mas, se elas o contrariassem, ou lhe resistissem, o resultado seria o caos e o desastre.
5. (a) Que abordagem o taoísmo faz do Tao? (b) Que abordagem o confucionismo faz do Tao? (c) Que perguntas precisam de resposta?
5 Este conceito de seguir o Tao e não interferir em seu fluxo é um componente central do pensamento filosófico e religioso chinês. Pode-se dizer que o taoísmo e o confucionismo são duas expressões diferentes do mesmo conceito. O taoísmo faz uma abordagem mística, e, em sua forma original, defende a inação, a quietude e a passividade, evitando a sociedade e retornando à natureza. Seu conceito básico é que tudo sairá bem se as pessoas se acomodarem, nada fizerem, e permitirem que a natureza siga seu curso. O confucionismo, por outro lado, faz uma abordagem pragmática. Ensina que a ordem social será mantida se toda pessoa desempenhar o papel que lhe cabe e cumprir com o seu dever. Para isso, codifica todos os relacionamentos humanos e sociais — governante-súdito, pai-filho, marido-esposa e assim por diante — e fornece diretrizes para todos eles. Naturalmente, isto suscita as seguintes perguntas: Como é que vieram à existência esses dois sistemas? Quem foram seus fundadores? Como são praticados hoje? E o que fizeram para ajudar o homem na sua busca de Deus?
Taoísmo — Um Início Filosófico
6. (a) O que se sabe sobre o fundador do taoísmo? (b) Como é que o fundador do taoísmo veio a ser conhecido como Lao-tzu?
6 Nos seus estágios primitivos, o taoísmo era mais uma filosofia do que uma religião. Seu fundador, Lao-tzu, estava descontente com o caos e o tumulto da época e buscou alívio evitando a sociedade e voltando-se para a natureza. Pouco se sabe sobre esse homem, que teria vivido no sexto século AEC, embora até mesmo isso seja incerto. Era comumente chamado de Lao-tzu, que significa “Velho Mestre”, ou “Velho”, porque, como diz a lenda, sua mãe grávida teve-o por tanto tempo no ventre que, quando nasceu, o cabelo dele já estava branco.
7. O que aprendemos sobre Lao-tzu em “Registros Históricos”?
7 O único registro oficial sobre Lao-tzu aparece em Shih Chi (Registros Históricos), de Ssu-ma Ch’ien, um respeitado historiador palaciano do segundo e primeiro séculos AEC. Segundo essa fonte, o nome verdadeiro de Lao-tzu era Li Ur. Ele servia como escriturário nos arquivos imperiais em Loiang, China central. Contudo, mais significativamente, fornece o seguinte relato a respeito de Lao-tzu:
“Lao Tzu residiu em Chou a maior parte de sua vida. Quando previu a decadência de Chou, ele partiu dali para a fronteira. O funcionário da alfândega Yin Hsi disse: ‘Senhor, visto que te agrada aposentar-te, peço-te, por minha causa, que escrevas um livro.’ Diante disso, Lao Tzu escreveu um livro de duas partes, consistindo de cinco mil e tantas palavras, no qual considerou os conceitos do Caminho [Tao] e do Poder [Te]. Daí, partiu. Ninguém sabe onde ele morreu.”
8. (a) Que livro Lao-tzu alegadamente produziu? (b) Por que esse livro está sujeito a muitas interpretações?
8 Muitos eruditos duvidam da autenticidade desse relato. De qualquer modo, o livro produzido é conhecido como Tao Te Ching (geralmente traduzido por “O Clássico do Caminho e do Poder”), sendo considerado o principal texto do taoísmo. É escrito em versos tersos e crípticos, alguns deles com apenas três ou quatro palavras. Por isso, e também porque o significado de alguns caracteres mudou muito desde os dias de Lao-tzu, o livro está sujeito a muitas interpretações.
Breve Visão do “Tao Te Ching”
9. Como Lao-tzu descreveu o Tao em Tao Te Ching?
9 Em Tao Te Ching, Lao-tzu explica o Tao, o derradeiro caminho da natureza, e aplica-o a todos os níveis de atividade humana. Citamos a seguir de uma moderna tradução, para o inglês, de Gia-fu Feng e Jane English, para termos um relance de Tao Te Ching. Sobre o Tao, diz o seguinte:
“[Existia] algo formado misteriosamente,
Nascido antes do céu e da terra. . . .
Talvez seja a mãe de dez mil coisas.
Não sei o seu nome.
Chame-o de Tao.” — Capítulo 25.
“Todas as coisas surgem do Tao.
São produzidas pela Virtude [Te].
São formadas da matéria.
São moldadas pelo ambiente.
Assim, todas as dez mil coisas respeitam o Tao
e dão honra à Virtude [Te].” — Capítulo 51.
10. (a) Qual é o objetivo do taoísmo? (b) De que modo se aplica esse conceito taoísta à conduta humana?
10 O que podemos deduzir dessas enigmáticas passagens? Que, para os taoístas, o Tao é uma misteriosa força cósmica responsável pelo universo material. O objetivo do taoísmo é procurar o Tao, deixar para trás o mundo, e tornar-se harmonioso com a natureza. Tal idéia se reflete também no conceito dos taoístas a respeito da conduta humana. Eis uma expressão desse ideal em Tao Te Ching:
“Melhor é parar pouco antes do que encher até o limite.
Afie demais a lâmina, e o corte logo ficará cego.
Ajunte uma grande quantidade de ouro e de jade, e ninguém
poderá
protegê-la.
Pretenda riquezas e títulos, e o desastre se seguirá.
Recolha-se quando o trabalho está terminado.
Este é o caminho do céu.” — Capítulo 9.
11. Como pode ser descrito o ideal taoísta?
11 Estes poucos exemplos mostram que, pelo menos de início, o taoísmo era basicamente uma escola de filosofia. Reagindo contra as injustiças, os sofrimentos, a devastação e a futilidade resultantes do cruel domínio do sistema feudal da época, os taoístas criam que o caminho para encontrar a paz e a harmonia era retornar à tradição dos antigos, antes de existirem reis e ministros que dominavam o povo. Seu ideal era levar a tranqüila vida rural, em união com a natureza. — Provérbios 28:15; 29:2.
O Segundo Sábio do Taoísmo
12. (a) Quem era Chuang Chou? (b) O que acrescentou ele aos ensinos originais de Lao-tzu?
12 A filosofia de Lao-tzu foi levada um passo adiante por Chuang Chou, ou Chuang-tzu, que significa “Mestre Chuang” (369-286 AEC), que era tido como o mais eminente sucessor de Lao-tzu. Em seu livro, Chuang Tzu, ele não apenas acrescentou detalhes ao Tao como também explicou os conceitos de yin e yang, originalmente desenvolvidos em I Ching. (Veja página 83.) Em seu conceito, nada é realmente permanente ou absoluto, mas tudo se acha num estado de fluxo entre dois opostos. No capítulo “Dilúvio de Outono”, ele escreveu:
“Nada no universo é permanente, pois tudo vive apenas o tempo suficiente para morrer. Apenas Tao, que não tem começo nem fim, dura para sempre. . . . A vida pode ser comparada a um cavalo veloz cavalgando a plena velocidade — ele muda constante e continuamente, a cada fração de segundo. O que você deve fazer? O que você não deve fazer? Realmente não importa.”
13. (a) Com o acréscimo feito por Chuang-tzu, qual é o conceito taoísta da vida? (b) Qual é o mais lembrado sonho de Chuang-tzu?
13 Devido a essa filosofia de inércia, o conceito taoísta diz ser inútil alguém fazer algo para interferir naquilo que a natureza pôs em movimento. Mais cedo ou mais tarde, tudo retornará ao seu oposto. Não importa quão insuportável seja uma situação, ela logo melhorará. Não importa quão agradável seja uma situação, ela logo desaparecerá. (Em contraste, veja Eclesiastes 5:18, 19.) Este conceito filosófico da vida é exemplificado num dos sonhos de Chuang-tzu, pelo qual o povo mais se lembra dele:
“Certa vez Chuang Chou sonhou ser uma borboleta, uma borboleta que esvoaçava e adejava, feliz consigo mesma e vivendo a seu bel-prazer. Ela não sabia que era Chuang Chou. Subitamente acordou e ali estava ele, concreto e inconfundível Chuang Chou. Mas, ele não sabia se ele era Chuang Chou que sonhara ser uma borboleta ou se era uma borboleta sonhando ser Chuang Chou.”
14. Em que campos se reflete a influência taoísta?
14 Vê-se a influência dessa filosofia no estilo de poesia e de pintura desenvolvido por artistas chineses de gerações posteriores. (Veja página 171.) No entanto, o taoísmo não permaneceria por muito tempo como filosofia passiva.
De Filosofia a Religião
15. (a) A fascinação pela natureza levou os taoístas a que conceito? (b) Que declarações em Tao Te Ching contribuíram para tal conceito?
15 Na sua tentativa de estar em comunhão com a natureza, os taoístas tornaram-se obsedados com a perenidade e a resiliência da natureza. Especulavam que, se a pessoa vivesse em harmonia com o Tao, ou o caminho da natureza, ela talvez pudesse de algum modo penetrar nos segredos da natureza e tornar-se imune ao dano físico, a doenças e até mesmo à morte. Embora Lao-tzu não insistisse nisso, certos trechos em Tao Te Ching parecem sugerir tal idéia. Por exemplo, o capítulo 16 diz: “Estar em comunhão com o Tao é eterno. E, embora o corpo morra, o Tao jamais perecerá.”a
16. De que modo os escritos de Chuang-tzu contribuíram para as crenças de magia do taoísmo?
16 Chuang-tzu também contribuiu para tais especulações. Por exemplo, num diálogo em Chuang Tzu, um personagem mitológico perguntou a outro: “És de idade avançada, no entanto, tens a pele de criança. Como pode?” Este último respondeu: “Eu aprendi o Tao.” Sobre outro filósofo taoísta, Chuang-tzu escreveu: “Ora, Liehtse podia cavalgar no vento. Deslizava feliz na fresca brisa, continuaria por quinze dias antes de retornar. Entre os mortais que conseguem a felicidade, tal homem é uma raridade.”
17. Que práticas taoístas resultaram de anteriores especulações, e qual foi o resultado? (Compare com Romanos 6:23; 8:6, 13.)
17 Histórias assim acenderam a imaginação dos taoístas, e eles passaram a fazer experiências com meditação, dietas e exercícios respiratórios que supostamente podiam retardar a degeneração e a morte física. Logo começaram a circular lendas a respeito de seres imortais que podiam voar sobre as nuvens e aparecer e desaparecer a seu bel-prazer, vivendo em montanhas sagradas ou em ilhas remotas por incontáveis anos, sustentados pelo orvalho ou por frutas mágicas. A história chinesa conta que em 219 AEC, o imperador Ch’in, Shih Huang-Ti enviou uma frota de navios com 3.000 meninos e meninas para encontrar a lendária ilha de P’eng-lai, a morada dos imortais, para trazer de volta a erva da imortalidade. Desnecessário é dizer, eles não retornaram com o elixir, mas, diz a tradição, povoaram as ilhas que vieram a ser conhecidas como Japão.
18. (a) Qual é o conceito taoísta por trás das ‘pílulas da imortalidade’? (b) Que outras práticas de magia foram desenvolvidas pelo taoísmo?
18 Durante a dinastia Hã (206 AEC-220 EC), as práticas mágicas do taoísmo atingiram um novo apogeu. Consta que o imperador Wu Ti, embora promovesse o confucionismo como ensino oficial do Estado, sentia-se muito atraído ao conceito taoísta da imortalidade física. Entusiasmou-se especialmente com as engendradas ‘pílulas da imortalidade’ da alquimia. No conceito taoísta, a vida surge quando as forças opostas yin e yang (feminina e masculina) se unem. Assim, fundindo chumbo (escuro, ou yin) com mercúrio (claro, ou yang), os alquimistas estariam imitando os processos da natureza, e o produto, pensavam eles, seria uma pílula da imortalidade. Os taoístas também desenvolveram exercícios tipo ioga, técnicas de controle da respiração, restrições dietéticas e práticas sexuais que alegadamente fortaleciam a energia vital da pessoa e prolongavam a vida. Sua parafernália incluía talismãs mágicos que, segundo se dizia, tornavam a pessoa invisível e invulnerável a armas, ou a capacitavam a andar sobre água ou a voar no espaço. Tinham também selos mágicos, usualmente contendo o símbolo yin-yang, que eram afixados em prédios e sobre o vão de portas para repelir maus espíritos e feras.
19. De que modo o taoísmo se tornara organizado?
19 Por volta do segundo século EC, o taoísmo tornara-se organizado. Um certo Chang Ling, ou Chang Tao-ling, fundou uma sociedade taoísta secreta na China ocidental e praticava curas mágicas e alquimia. Visto que de cada membro se cobrava uma taxa de cinco celamins de arroz, seu movimento ficou conhecido como Taoísmo dos Cinco-Celamins-de-Arroz (wu-tou-mi tao).b Afirmando ter recebido uma revelação pessoal de Lao-tzu, Chang tornou-se o primeiro “mestre celestial”. Por fim, afirmou-se que ele conseguiu fazer o elixir da vida e que ascendeu vivo ao céu, montado num tigre, a partir do monte Lung-hu (Monte do Tigre-Dragão), na província de Kiangsi. Com a presença de Chang Tao-ling ali teve início uma sucessão, de séculos de duração, de “mestres celestiais” taoístas, cada qual sendo alegadamente uma reencarnação de Chang.
Enfrentando o Desafio do Budismo
20. De que modo o taoísmo tentou contra-atacar a influência do budismo?
20 Por volta do sétimo século, durante a dinastia T’ang (618-907 EC), o budismo fazia incursões na vida religiosa chinesa. Em contramedida, o taoísmo promovia a si mesmo como religião com raízes chinesas. Lao-tzu foi deificado, e os escritos taoístas foram canonizados. Construíram-se templos, mosteiros e conventos, e fundaram-se ordens de monges e monjas, mais ou menos no estilo budista. Além disso, o taoísmo adotou também em seu próprio panteão muitos dos deuses, deusas, fadas e imortais do folclore chinês, tais como os Oito Imortais (Pa Hsien), o deus do lar (Tsao Shen), deuses da cidade (Ch’eng Huang), e guardiães da porta (Men Shen). O resultado foi uma fusão de elementos do budismo, superstições tradicionais, espiritismo e adoração de ancestrais. — 1 Coríntios 8:5.
21. Por fim, no que o taoísmo se transformou, e como?
21 Com o tempo, o taoísmo lentamente se degenerou num sistema de idolatria e superstição. Cada pessoa simplesmente adorava seus deuses e deusas preferidos nos templos locais, pedindo-lhes proteção contra o mal e ajuda para ganhar fortuna terrena. Os sacerdotes eram contratados para realizar funerais, selecionar locais propícios para sepulturas, casas e negócios, comunicar-se com os mortos, afastar maus espíritos e fantasmas, celebrar festividades e realizar vários outros rituais. Assim, o que começara como escola de filosofia mística se transformou numa religião profundamente atolada na crença em espíritos imortais, inferno de fogo e semideuses — conceitos tirados do estagnado reservatório de crenças falsas da antiga Babilônia.
Outro Eminente Sábio da China
22. Que escola de pensamento veio a predominar na China, e que perguntas temos de considerar?
22 Ao passo que traçamos a ascensão, o desenvolvimento e a decadência do taoísmo, devemos lembrar-nos de que se tratava de apenas uma das “cem escolas” que floresceram na China durante o período dos Estados Combatentes. Outra escola que por fim alcançou destaque, de fato, predomínio, foi o confucionismo. Mas, por que o confucionismo alcançou tal destaque? De todos os sábios chineses, Confúcio é, sem dúvida, o mais conhecido fora da China, mas, quem realmente era ele? E o que ensinava?
23. Que detalhes pessoais a respeito de Confúcio se fornecem em “Registros Históricos”?
23 A respeito de Confúcio, recorreremos novamente aos Shih Chi (Registros Históricos) de Ssu-ma Ch’ien. Em contraste com o breve sumário sobre Lao-tzu, encontramos uma extensa biografia de Confúcio. Apresentamos a seguir alguns detalhes pessoais citados de uma tradução (para o inglês) do erudito chinês Lin Yutang:
“Confúcio nasceu na cidade de Tsou, no condado de Ch’angping, no ducado de Lu. . . . [Sua mãe] orou na colina Nich’iu e gerou Confúcio em resposta à sua oração, no vigésimo segundo ano do duque Hsiang, de Lu (551 AC). Houve uma percebível convolução na sua cabeça por ocasião de seu nascimento, e foi por isso que ele foi chamado de ‘Ch’iu’ (que significa “colina”). Seu nome literário era Chungni, e seu sobrenome era K’ung.”c
24. O que aconteceu nos primórdios da vida de Confúcio?
24 Pouco depois de seu nascimento, seu pai faleceu, mas, sua mãe, embora pobre, conseguiu dar-lhe uma educação adequada. O menino desenvolveu profundo interesse em história, poesia e música. Segundo Os Analectos, um dos Quatro Livros do confucionismo, ele devotou-se a estudos eruditos ao atingir 15 anos de idade. Aos 17, deram-lhe um pequeno cargo governamental em seu estado nativo, Lu.
25. Que efeito teve sobre Confúcio a morte de sua mãe? (Compare com Eclesiastes 9:5, 6; João 11:33, 35.)
25 Sua situação financeira evidentemente melhorou, de modo que ele se casou aos 19 anos, e teve um filho no ano seguinte. Mas, quando beirava os 25, sua mãe morreu. Isto evidentemente o afetou profundamente. Sendo meticuloso cumpridor de tradições antigas, Confúcio retirou-se da vida pública e pranteou sua mãe junto à sepultura por dois anos e três meses, dando assim aos chineses um clássico exemplo de devoção filial.
O Mestre Confúcio
26. Que ocupação assumiu Confúcio depois da morte de sua mãe?
26 Depois disso, Confúcio deixou a família e assumiu a ocupação de mestre itinerante. Ele ensinava música, poesia, literatura, educação cívica, ética, ciência, ou o que quer que disso existisse naquele tempo. Deve ter-se tornado bastante famoso, pois, segundo se diz, chegou a ter numa ocasião nada menos de 3.000 alunos.
27. O que se sabe sobre Confúcio como mestre? (Compare com Mateus 6:26, 28; 9:16, 17; Lucas 12:54-57; João 4:35-38.)
27 No Oriente, Confúcio é reverenciado principalmente como mestre por excelência. De fato, a inscrição em sua sepultura em Ch’ü-fou, na província de Xantung, chama-o simplesmente de “Antigo Santíssimo Mestre”. Certo escritor ocidental descreve assim o seu método de ensino: “Ele caminhava de ‘lugar em lugar acompanhado dos que absorviam seus conceitos de vida’. Sempre que a jornada fosse mais distante ele ia de carro de boi. O passo lento do animal permitia que seus pupilos o acompanhassem a pé, e é evidente que o assunto de suas palestras não raro se inspirava em eventos que ocorriam a caminho.” É interessante que Jesus, numa época posterior, e independentemente, usou um método similar.
28. Segundo o escritor chinês Lin Yutang, o que fez de Confúcio um prestigiado mestre?
28 O que fez de Confúcio um prestigiado mestre entre os orientais, foi, sem dúvida, o fato de que ele mesmo era bom estudante, especialmente de História e Ética. “As pessoas sentiam-se atraídas a Confúcio, não tanto por ser ele o homem mais sábio de sua época, mas porque era o mais culto erudito, o único de seus dias que podia ensiná-los a respeito dos livros antigos e da antiga erudição”, escreveu Lin Yutang. Indicando esse amor ao aprendizado como talvez a razão fundamental do triunfo do confucionismo sobre outras escolas de pensamento, Lin resumiu o assunto do seguinte modo: “Os mestres confucionistas tinham algo definido a ensinar e os discípulos confucionistas tinham algo definido a aprender, a saber, aprendizado histórico, ao passo que as outras escolas eram obrigadas a propalar as suas próprias opiniões.”
“É o Céu Que Me Conhece!”
29. (a) Qual era a verdadeira ambição na vida de Confúcio? (b) Como tentou ele realizar a sua ambição, e com que resultado?
29 Apesar de seu êxito como mestre, Confúcio não considerou o ensino como carreira vitalícia. Ele achava que seus conceitos sobre ética e moral poderiam salvar o mundo atribulado de seus dias, se tão-somente os governantes os aplicassem por contratar a ele ou a seus discípulos em seus governos. Para isso, ele e um pequeno grupo de discípulos mais íntimos deixaram seu estado natal, Lu, e passaram a viajar de estado em estado tentando encontrar o sábio governante que adotasse seus conceitos sobre governo e ordem social. Em que resultou? Shih Chi diz: “Por fim ele deixou Lu, foi abandonado em Ch’i, expulso de Sung e Wei, sofreu penúria entre Ch’en e Ts’ai.” Depois de 14 anos de jornada, ele voltou a Lu, desapontado, mas não combalido.
30. Que obras literárias formam a base do confucionismo?
30 No restante de seus dias, ele devotou-se à obra literária e ao ensino. (Veja quadro, página 177.) Embora sem dúvida lamentasse a sua obscuridade, ele disse: “Não murmuro contra o Céu. Não resmungo contra o homem. Dedico-me aos meus estudos aqui na terra, e estou em contato com o Céu acima. É o Céu que me conhece!” Por fim, no ano de 479 AEC, morreu aos 73 anos de idade.
A Essência dos Conceitos Confucionistas
31. Segundo ensinou Confúcio, qual era o caminho para se conseguir a ordem social?
31 Embora Confúcio se destacasse como erudito e mestre, sua influência de modo algum se limitava aos círculos acadêmicos. De fato, a meta de Confúcio não era apenas ensinar regras de conduta ou de moral, mas também restaurar a paz e a ordem na sociedade, que, na época, estava dilacerada pelas constantes guerras entre os senhores feudais. Para atingir tal alvo, Confúcio ensinava que todos, do imperador ao homem comum, tinham de aprender qual o papel que se esperava que cada um desempenhasse na sociedade e viver concordemente.
32, 33. (a) Qual era o conceito confuciano a respeito de li? (b) Segundo Confúcio, qual seria o resultado de praticá-lo?
32 No confucionismo, esse conceito é conhecido como li, que significa decoro, cortesia, a ordem das coisas, e, por extensão, ritual, cerimônia e reverência. Respondendo à pergunta: “O que é esse grande li?”, Confúcio explicou o seguinte:
“De todas as coisas pelas quais as pessoas vivem, li é a maior. Sem li, não sabemos como conduzir uma adequada adoração dos espíritos do universo; ou como estabelecer a correta condição do rei e dos ministros, do governante e dos governados, e dos anciãos e dos mais novos; ou como estabelecer o relacionamento moral entre os sexos, entre pais e filhos e entre irmãos; ou como distinguir os diferentes graus de relacionamento na família. É por isso que um cavalheiro tem li em tão alta estima.”
33 Ora, li é a regra de conduta pela qual um verdadeiro cavalheiro (chün-tzu, às vezes traduzido por “homem superior”) pauta todas as suas relações sociais. Quando todos se esforçam em fazer isso, “tudo se endireita na família, no estado e no mundo”, disse Confúcio, e é neste caso que se pratica o Tao, ou o caminho do céu. Mas, como é que se expressa o li? Isto nos leva a outro dos conceitos centrais do confucionismo — jen (pronuncia-se ren), humanitarismo ou amor pelos outros.
34. Qual é o conceito confuciano de jen, e como ajuda ele a lidar com os males sociais?
34 Ao passo que li enfatiza a restrição através de regras exteriores, jen lida com a natureza humana, ou a pessoa interior. O conceito confuciano, especialmente conforme expresso pelo principal discípulo de Confúcio, Mêncio, é que a natureza humana é basicamente boa. Assim, a solução para todos os males sociais jaz no auto-aperfeiçoamento, e isso começa com educação e conhecimento. O capítulo inicial de The Great Learning (O Grande Aprendizado), diz:
“Quando se alcança o conhecimento verdadeiro, a vontade se torna sincera; quando a vontade é sincera, o coração é retificado . . . ; quando o coração é retificado, aperfeiçoa-se a vida pessoal; quando se aperfeiçoa a vida pessoal, a vida familiar é ajustada; quando a vida familiar é ajustada, a vida nacional é ordeira; e quando a vida nacional é ordeira, há paz neste mundo. Do imperador aos cidadãos comuns, todos têm de considerar o aprimoramento da vida pessoal como raiz ou fundação.”
35. (a) Como podem ser resumidos os princípios de li e jen? (b) Como tudo isso se reflete no conceito chinês da vida?
35 Vemos assim que, segundo Confúcio, a observância de li habilita as pessoas a se comportarem corretamente em todas as situações, e o desenvolvimento de jen faz com que tratem bondosamente todas as pessoas. O resultado, teoricamente, é paz e harmonia na sociedade. O ideal confuciano, baseado nos princípios de li e jen, pode ser resumido da seguinte maneira:
“Bondade no pai, devoção filial no filho
Fidalguia no irmão mais velho, humildade e respeito no mais novo
Comportamento justo no marido, obediência na esposa
Consideração humana nos anciãos, deferência nos mais novos
Benevolência nos governantes, lealdade nos ministros e nos súditos.”
Tudo isso ajuda a explicar por que a maioria do povo chinês, e mesmo outros orientais, dão tanta ênfase a laços familiares, a ser diligente, à educação e a conhecer e agir segundo a posição da pessoa. Para o bem ou para o mal, tais conceitos confucianos têm sido cravados profundamente na consciência chinesa através de séculos de inculca.
O Confucionismo Vira Culto Estatal
36. Como foi que o confucionismo ganhou a condição de culto estatal?
36 Com a ascensão do confucionismo, o período das “cem escolas” chegou a um fim. Os imperadores da dinastia Han encontraram nos ensinamentos confucianos de lealdade ao governante justamente a fórmula de que necessitavam para solidificar o poder do trono. Sob o imperador Wu Ti, a quem já nos referimos em conexão com o taoísmo, o confucionismo foi elevado à condição de culto estatal. Apenas os versados nos clássicos confucianos eram selecionados para funcionários governamentais, e quem quer que almejasse entrar para o serviço governamental tinha de passar por exames a nível nacional baseados nos clássicos confucianos. Ritos e rituais confucianos tornaram-se a religião do palácio real.
37. (a) Como foi que o confucionismo se tornou uma religião? (b) Por que o confucionismo é, na realidade, mais do que mera filosofia?
37 Essa mudança de situação contribuiu muito para elevar a posição de Confúcio na sociedade chinesa. Os imperadores Han iniciaram a tradição de oferecer sacrifícios no túmulo de Confúcio. Conferiram-se-lhe títulos honoríficos. Daí, em 630 EC, o imperador T’ai Tsung, da dinastia T’ang, ordenou que em toda província e condado do império se erigisse um templo estatal a Confúcio, e que se oferecessem sacrifícios regularmente. Para todos os efeitos, Confúcio foi elevado à condição de deus, e o confucionismo tornou-se uma religião dificilmente distinguível do taoísmo ou do budismo. — Veja quadro, página 175.
O Legado da Sabedoria do Oriente
38. (a) O que tem acontecido com o taoísmo e o confucionismo desde 1911? (b) Mas o que ainda é um fato a respeito dos conceitos básicos dessas religiões?
38 Desde o fim do governo de dinastias na China, em 1911, o confucionismo e o taoísmo têm sido muito criticados, até mesmo perseguidos. O taoísmo foi desacreditado por causa de suas práticas mágicas e supersticiosas. E o confucionismo tem sido rotulado de feudalista, que promove uma mentalidade escrava, para manter as pessoas, em especial as mulheres, em sujeição. Não obstante, apesar dessas denúncias oficiais, os conceitos básicos dessas religiões estão tão profundamente arraigados na mentalidade chinesa que ainda exercem uma forte influência sobre muitas pessoas.
39. O que disse certo artigo de jornal sobre práticas religiosas supersticiosas na China?
39 Por exemplo, sob o cabeçalho “Ritos Religiosos Chineses São Raros em Beijing [Pequim] mas Florescem nas Regiões Costeiras”, o jornal canadense Globe and Mail disse, em 1987, que, depois de uns 40 anos de governo ateísta na China, os ritos fúnebres, ofícios em templos e muitas práticas supersticiosas ainda são comuns nas áreas rurais. “A maioria das aldeias tem um fengshui, em geral um residente de mais idade que sabe ler as forças do vento (feng) e da água (shui) para determinar a mais propícia localização para tudo, desde a sepultura ancestral à nova casa ou aos móveis da sala de estar”, diz o artigo.
40. Que práticas religiosas vêem-se em Formosa?
40 Em outras partes, o taoísmo e o confucionismo estão presentes onde quer que a cultura tradicional chinesa sobreviva. Em Formosa, certo homem que afirma ser descendente de Chang Tao-ling preside como “mestre celestial” com poder de ordenar sacerdotes taoístas (Tao Shih). A popular deusa Matsu, tida como “Santa Mãe no Céu”, é adorada como santa padroeira da ilha e dos navegantes e pescadores. Quanto ao povo, ele se preocupa mais em apresentar oferendas e sacrifícios aos espíritos dos rios, das montanhas e das estrelas, às deidades padroeiras de todos os ofícios e aos deuses da saúde, da boa sorte e da riqueza.d
41. De que modo é o confucionismo como religião praticado hoje?
41 Que dizer do confucionismo? Seu papel como religião tem sido reduzido à condição de monumento nacional. Em Ch’ü-fou, na China, a terra natal de Confúcio, o Estado mantém o Templo de Confúcio e locais históricos da família como atrações turísticas. Ali, segundo a revista China Reconstructs, fazem-se apresentações para “encenar um ritual de adoração de Confúcio”. E em Cingapura, Formosa, Hong Kong e outros lugares da Ásia oriental, as pessoas ainda comemoram o natalício de Confúcio.
42. De que modo o taoísmo e o confucionismo falham como guias na busca do Deus verdadeiro?
42 O confucionismo e o taoísmo são exemplos de que um sistema baseado na sabedoria e no raciocínio humano, independente de quão lógico e bem-intencionado seja, por fim falha na busca do Deus verdadeiro. Por quê? Porque deixa fora um elemento essencial, a saber, a vontade e os requisitos de um Deus pessoal. O confucionismo recorre à natureza humana como a força motivadora para realizar o bem, e o taoísmo recorre à própria natureza. Mas, trata-se de uma confiança mal direcionada, pois equivale simplesmente a adorar coisas criadas em vez de ao Criador. — Salmo 62:9; 146:3, 4; Jeremias 17:5.
43. De que modo as tradições religiosas dos chineses, como um todo, trabalharam contra eles na busca do Deus verdadeiro?
43 Por outro lado, as tradições de adorar ancestrais e ídolos, a reverência por um céu cósmico e a veneração de espíritos na natureza, bem como os ritos e rituais relacionados com eles, ficaram tão profundamente arraigados na maneira de pensar chinesa que são aceitos como sendo a incontestável verdade. Não raro é muito difícil falar com um chinês sobre um Deus ou Criador pessoal, por ser este um conceito tão alheio para ele. — Romanos 1:20-25.
44. (a) De que modo mentes refletidas reagem às maravilhas do caminho da natureza? (b) O que somos incentivados a fazer?
44 É inegável que a natureza está repleta de grandes maravilhas e sabedoria, e que os seres humanos são dotados das maravilhosas faculdades da razão e da consciência. Mas, conforme destacado no capítulo sobre o budismo, as maravilhas que vemos no mundo natural têm levado mentes refletidas a concluir que deve existir um Projetista ou Criador. (Veja páginas 151-2.) Sendo assim, então, não é lógico que o nosso empenho deve ser buscar o Criador? De fato, o Criador nos convida a fazer isso: “Levantai ao alto os vossos olhos e vede. Quem criou estas coisas? Foi Aquele que faz sair o exército delas até mesmo por número, chamando a todas elas por nome.” (Isaías 40:26) Fazendo isso, chegaremos a conhecer não só quem é o Criador, isto é, Jeová Deus, mas também o que ele tem em reserva para o nosso futuro.
45. Que outra religião oriental consideraremos a seguir?
45 Além do budismo, do confucionismo e do taoísmo, que têm desempenhado um importante papel na vida religiosa das pessoas do Oriente, existe ainda outra religião, exclusiva do povo do Japão — o xintoísmo. Em que sentido é diferente? Qual é a sua origem? Conduziu as pessoas ao Deus verdadeiro? Veremos isso no próximo capítulo.
[Nota(s) de rodapé]
a A tradução deste trecho feita por Lin Yutang reza: “Se estiver em harmonia com o Tao, ele é eterno, e toda sua vida é preservada de dano.”
b Celamim é uma medida de capacidade para secos equivalente a 8,81 litros.
c A palavra “Confúcio” [Confucius] é uma transliteração latina do chinês K’ung-fu-tzu, que significa “Mestre K’ung”. Sacerdotes jesuítas que chegaram à China no século 16 cunharam esse nome latinizado ao recomendarem ao papa de Roma que Confúcio fosse canonizado como “santo” da Igreja Católica Romana.
d Certo grupo taoísta de Formosa, chamado T’ien Tao (Caminho Celestial), afirma ser uma fusão de cinco religiões do mundo — taoísmo, confucionismo, budismo, cristianismo e islamismo.
[Foto na página 163]
Tao, ‘o caminho que a pessoa deve seguir’.
[Foto na página 165]
Lao-tzu, o filósofo do taoísmo, montado num búfalo.
[Foto na página 166]
Templo taoísta de Matsu, “Santa Mãe no Céu”, em Formosa.
[Foto na página 171]
Montanhas brumosas, águas tranqüilas, árvores balouçantes e eruditos retirados — temas comuns na pintura chinesa de paisagens — refletem o ideal taoísta de viver em harmonia com a natureza.
[Fotos na página 173]
Antiga escultura taoísta, à esquerda, do deus da Longa Vida, com os Oito Imortais.
À direita, sacerdote taoísta, vestido a rigor, oficiando num funeral.
[Foto na página 179]
Confúcio, o principal sábio da China, é reverenciado como mestre de moral e ética.
[Foto na página 181]
Celebrações com música em Sung Kyun Kwan, centro educacional confuciano do século 14, em Seul, Coréia, perpetuam os rituais confucianos.
[Fotos na página 182]
Seja budista, taoísta, ou confuciano, o chinês típico, a partir da esquerda, homenageia ancestrais em casa, adora o deus da riqueza e oferece sacrifícios em templos nos dias festivos.
[Fotos/Quadro na página 177]
Os Quatro Livros e os Cinco Clássicos de Confúcio
Os Quatro Livros
1. O Grande Aprendizado (Ta Hsüeh), a base da educação de um cavalheiro, o primeiro texto que os meninos estudavam na escola na China antiga.
2. A Doutrina do Meio (Chung Yung), um tratado sobre o desenvolvimento da natureza humana através da moderação.
3. Os Analectos (Lun Yü), uma coletânea de dizeres de Confúcio, considerada a principal fonte do pensamento confuciano.
4. O Livro de Mêncio (Meng-tzu), escritos e dizeres do maior discípulo de Confúcio, Meng-tzu, ou Mêncio.
Os Cinco Clássicos
1. O Livro de Poesia (Shih Ching), 305 poemas fornecendo um quadro do cotidiano nos primitivos tempos Chou (1000-600 AEC).
2. O Livro de História (Shu Ching), contendo quatro livros de história chinesa do período Yu até a dinastia Zhou.
3. O Livro de Mutações (I Ching), um livro de adivinhação, baseado em interpretações de 64 possíveis combinações de seis linhas inteiras ou tracejadas.
4. O Livro dos Ritos (Li Chi), uma coletânea de regras sobre cerimônias e rituais.
5. Anais da Primavera e Outono (Ch’un Ch’iu), uma história do estado natal de Confúcio, Lu, abrangendo de 722-481 AEC.
[Fotos]
Os Cinco Clássicos, acima, e um trecho, à esquerda, de O Grande Aprendizado (um dos Quatro Livros), citado na página 181.
[Quadro na página 162]
Pronúncia de Palavras Chinesas
Na transliteração de palavras chinesas, este livro adota a forma usada na Enciclopédia Mirador Internacional ou na Enciclopédia Delta Universal. A pronúncia equivalente em português é fornecida abaixo:
ch é pronunciado dj, como em Tao Te Ching (djing)
ch’ tx, como em dinastia Ch’in (txin)
hs x, como em Ta Hsüeh (xu-ê), O Grande Aprendizado
j r, como em jen (ren), coração humanitarista
k g, como na deusa budista Kuan-yin (guan-iin)
k’ c, como em K’ung-fu-tzu (Confúcio)
t d, como em Tao (dao), o Caminho
t’ t, como em dinastia T’ang (tang)
[Quadro na página 175]
Confucionismo — Filosofia ou Religião?
Visto que Confúcio pouco falou em Deus, muitos encaram o confucionismo apenas como filosofia e não como religião. Todavia, o que ele disse e fez mostrou que ele era religioso. Pode-se ver isso em dois aspectos. Primeiro, ele tinha temor reverente de um supremo poder espiritual cósmico, que os chineses chamam de T’ien, ou Céu, que ele considerava como a fonte de toda a virtude e bondade moral, e cuja vontade, achava ele, dirige todas as coisas. Segundo, ele dava grande ênfase à meticulosa observância de ritos e cerimônias relacionadas com a adoração do céu e dos espíritos dos ancestrais falecidos.
Embora Confúcio jamais sustentasse tais conceitos como forma de religião, para gerações de chineses eles se tornaram o que religião realmente significa.
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Xintoísmo — o Japão em busca de DeusO Homem em Busca de Deus
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Capítulo 8
Xintoísmo — o Japão em busca de Deus
“Sendo meu pai um sacerdote xintoísta, fomos ensinados a oferecer um copo de água e uma tigela de arroz cozido no kamidana [santuário doméstico xintoísta] todas as manhãs antes do desjejum. Depois desse ato de adoração, recolhíamos a tigela de arroz e comíamos dela. Fazendo isso, eu achava que os deuses nos protegeriam.
“Ao comprarmos uma casa, confirmamos cuidadosamente a auspiciosa localização da nova casa em relação à antiga por consultar um xamã, ou médium espírita. Ele nos alertou contra três portões de demônios e instruiu-nos a seguir o proceder de purificação que meu pai prescrevera. Assim, nós purificávamos aqueles pontos com sal uma vez por mês.” — Mayumi T.
1. (Inclui a introdução.) Onde, em especial, se pratica a religião xintoísta, e o que envolve ela para alguns de seus devotos?
O XINTOÍSMO é predominantemente uma religião japonesa. Segundo a Nihon Shukyo Jiten (Enciclopédia de Religiões Japonesas), “a formação xintoísta é quase idêntica à cultura étnica japonesa, e é uma cultura religiosa que jamais foi praticada à parte dessa sociedade étnica”. Mas, as influências dos negócios e da cultura japonesa estão agora tão difundidas que deve interessar-nos saber que fatores religiosos moldaram a história do Japão e a personalidade japonesa.
2. Até que ponto o xintoísmo influencia a vida dos japoneses?
2 Embora o xintoísmo afirme ter mais de 91.000.000 de membros no Japão, equivalente a cerca de três quartos da população, uma pesquisa revela que apenas 2.000.000 de pessoas, ou 3 por cento da população adulta, realmente professam crer no xintoísmo. Contudo, Sugata Masaaki, pesquisador do xintoísmo, diz: “O xintoísmo está tão inextricavelmente entrançado na contextura do cotidiano japonês que as pessoas mal se dão conta de sua existência. Para os japoneses, é menos uma religião do que um discreto componente ambiental, como o ar que eles respiram.” Mesmo os que afirmam ser apáticos à religião compram amuletos xintoístas visando segurança no tráfego, casam-se segundo a tradição xintoísta e gastam muito dinheiro em festividades xintoístas anuais.
Como Começou?
3, 4. Como foi que a religião japonesa veio a ser originalmente conhecida como xintoísmo?
3 O nome “xintoísmo” surgiu no sexto século EC para distinguir a religião local do budismo, que estava sendo introduzido no Japão. “Naturalmente, a ‘Religião dos Japoneses’ . . . existia antes da introdução do budismo”, explica Sachiya Hiro, pesquisador de religiões japonesas, “mas era uma religião subconsciente que consistia em costumes e ‘tradições’. Com a introdução do budismo, contudo, as pessoas aperceberam-se de que essas tradições constituíam uma religião japonesa diferente do budismo, que era uma religião estrangeira”. Como foi que se desenvolveu essa religião japonesa?
4 É difícil assinalar com precisão uma data em que o xintoísmo original, ou a “Religião dos Japoneses”, surgiu. Com o advento do cultivo do arroz em terra irrigada, “a agricultura de terra irrigada necessitava de comunidades bem organizadas e estáveis”, explica a Enciclopédia Kodansha do Japão, “e os rituais agrícolas — que mais tarde desempenharam um papel tão importante no xintoísmo — se desenvolveram”. Essas primitivas pessoas conceberam e reverenciavam muitos deuses da natureza.
5. (a) Qual é o conceito do xintoísmo a respeito dos mortos? (b) De que modo o conceito xintoísta sobre os mortos se compara com o da Bíblia?
5 Além dessa reverência, o medo de almas que partiram levou a rituais para apaziguá-las. Isto mais tarde se transformou em adoração de espíritos de ancestrais. Segundo a crença xintoísta, a alma “que partiu” ainda conserva a sua personalidade e fica manchada pela poluição da morte imediatamente após a morte. Quando a pessoa enlutada realiza ritos em memória do falecido, a alma é purificada a ponto de remover toda a malícia, assumindo uma índole pacífica e benevolente. Com o tempo, o espírito ancestral alcança a posição de ancestral, ou guardião, deidade. Notamos assim que a crença na imortalidade da alma é fundamental para ainda outra religião e condiciona as atitudes e as ações dos devotos. — Salmo 146:4; Eclesiastes 9:5, 6, 10.
6, 7. (a) Como encaravam os xintoístas os seus deuses? (b) O que é um xintai, e por que é ele significativo no xintoísmo? (Compare com Êxodo 20:4, 5; Levítico 26:1; 1 Coríntios 8:5, 6.)
6 Deuses da natureza e deuses ancestrais eram considerados como espíritos que “flutuavam” e enchiam o ar. Nas festividades, as pessoas invocavam os deuses para que descessem a determinados pontos santificados para a ocasião. Dizia-se que os deuses residiam temporariamente em xintais, objetos de adoração tais como árvores, rochas, espelhos e espadas. Xamãs, ou médiuns espíritas, presidiam rituais para convocar os deuses.
7 Gradativamente, os “pontos de pouso” dos deuses, que eram temporariamente purificados para as festividades, assumiram uma forma mais permanente. As pessoas construíam santuários para deuses benevolentes, os que pareciam abençoá-las. De início não esculpiam imagens dos deuses, mas adoravam os xintais, onde os espíritos dos deuses alegadamente residiam. Até mesmo um inteiro monte, como o Fuji, podia servir como xintai. Com o tempo, surgiram tantos deuses que os japoneses criaram a expressão yaoyorozu-no-kami, que literalmente significa “oito milhões de deuses” (“kami” significa “deus[es]” ou “deidade[s]”). Hoje se usa essa expressão para significar “incontáveis deuses”, pois o número de deidades na religião xintoísta aumenta sempre.
8. (a) Segundo o mito xintoísta, como foi formada Amaterasu Omikami e obrigada a dar luz? (b) Como foi que Amaterasu Omikami se tornou a deidade nacional, e que ligação se estabeleceu entre ela e os imperadores?
8 À medida que os rituais xintoístas passaram a concentrar-se em santuários, cada clã cultuava a sua própria deidade guardiã. Contudo, quando a família imperial unificou a nação, no sétimo século EC, a sua deusa-sol, Amaterasu Omikami, foi elevada à condição de deidade nacional e figura central dos deuses xintoístas. (Veja quadro, página 191.) Com o tempo, propôs-se o mito de que o imperador era descendente direto da deusa-sol. Para firmar essa crença, foram compilados dois principais escritos xintoístas, Kojiki e Nihon shoki, no oitavo século EC. Usando mitos que exaltavam os da família imperial como descendentes de deuses, esses livros ajudaram a estabelecer a supremacia dos imperadores.
Religião de Festividades e Rituais
9. (a) Por que certo estudioso chamou o xintoísmo de religião dos “não tem”? (b) É o xintoísmo estrito quanto aos ensinos? (Compare com João 4:22-24.)
9 Esses dois livros de mitologia xintoísta, contudo, não eram considerados escrituras inspiradas. Curiosamente, o xintoísmo não tem fundador conhecido, nem uma Bíblia. O “xintoísmo é uma religião de uma série de ‘não tem’”, explica Shouichi Saeki, estudioso do xintoísmo. “Não tem doutrinas definidas e não tem teologia detalhada. Praticamente não tem preceitos a serem observados. . . . Embora tenha sido criado numa família que tradicionalmente segue o xintoísmo, não me lembro de ter recebido uma significativa educação religiosa.” (Os grifos são nossos.) Para os xintoístas, as doutrinas, os preceitos e, às vezes, até mesmo o que eles adoram não são importantes. “Até mesmo no mesmo santuário”, diz certo pesquisador xintoísta, “o deus cultuado não raro era trocado por outro e, às vezes, pessoas que adoravam esses deuses e ofereciam orações a eles não percebiam a troca”.
10. O que é de importância vital para os xintoístas?
10 O que, então, é de importância vital para os xintoístas? “Originalmente”, diz certo livro sobre a cultura japonesa, o “xintoísmo considerava os atos que promoviam a harmonia e a subsistência duma pequena comunidade como ‘bons’, e os que impediam isso como ‘ruins’”. A harmonia com os deuses, com a natureza e com a comunidade era considerada de valor superlativo. Tudo que rompesse a pacífica harmonia da comunidade era ruim, independente de seu valor moral.
11. Que papel desempenham as festividades na adoração xintoísta e no cotidiano?
11 Visto que o xintoísmo não tem doutrinas ou ensinos formais, a sua maneira de promover a harmonia da comunidade é através de rituais e festividades. “O mais importante no xintoísmo”, explica a enciclopédia Nihon Shukyo Jiten, “é se celebramos ou não as festividades”. (Veja quadro, página 193.) Festejar juntos em festividades em torno de deuses ancestrais contribuía para um espírito de cooperação entre as pessoas na comunidade cultivadora de arroz. As principais festividades eram, e ainda são, relacionadas com o cultivo do arroz. Na primavera, os aldeões pedem ao “deus dos arrozais” que desça a seu vilarejo e oram por uma boa safra. No outono, agradecem a seus deuses pela colheita. Durante as festividades, eles carregam seus deuses num mikoshi, ou santuário portátil, e têm comunhão de vinho de arroz (saquê) e alimento com os deuses.
12. Que tipo de ritos de purificação são realizados no xintoísmo, e com que objetivo?
12 Para estar em união com os deuses, contudo, os xintoístas crêem que devem ser limpos e purificados de toda sua impureza moral e de seus pecados. É aqui que entram os rituais. Há duas maneiras de purificar uma pessoa ou um objeto. Uma é oharai e a outra misogi. Na oharai, o sacerdote xintoísta agita um ramo da sempre-verde sakaki com papel ou linho amarrado na ponta, para purificar um item ou uma pessoa, ao passo que na misogi usa-se água. Estes rituais de purificação são tão vitais para a religião xintoísta que certo versado japonês diz: “Pode-se seguramente dizer que sem esses rituais o xintoísmo não pode subsistir [como religião].”
A Adaptabilidade do Xintoísmo
13, 14. De que modo o xintoísmo se ajustou a outras religiões?
13 As festividades e os rituais subsistiram com o xintoísmo, apesar da transformação que a religião xintoísta sofreu ao longo dos anos. Que transformação? Certo pesquisador xintoísta assemelha as mudanças no xintoísmo às mudanças de roupa duma boneca. Quando o budismo foi introduzido, o xintoísmo vestiu-se do ensino budista. Quando as pessoas necessitavam de padrões morais, ele vestiu o confucionismo. O xintoísmo tem sido extremamente adaptável.
14 O sincretismo, ou a fusão de elementos duma religião em outra, ocorreu cedo na história do xintoísmo. Embora o confucionismo e o taoísmo, conhecidos no Japão como o “Caminho de yin e yang”, já se haviam infiltrado na religião xintoísta, o budismo foi o principal ingrediente a se misturar com o xintoísmo.
15, 16. (a) Como reagiram os xintoístas ao budismo? (b) Como se deu a fusão do xintoísmo com o budismo?
15 Quando o budismo entrou através da China e da Coréia, os japoneses chamaram suas práticas religiosas tradicionais de xintoísmo, ou “caminho dos deuses”. Contudo, com o advento duma nova religião, o Japão ficou dividido quanto a aceitar ou não o budismo. O partido pró-budista insistia: ‘Todos os países vizinhos adoram assim. Por que deveria o Japão ser diferente?’ A facção anti-budista rebatia: ‘Se adorarmos os deuses vizinhos, provocaremos a ira de nossos próprios deuses.’ Após décadas de discórdia, os pró-budistas venceram. Por volta do fim do sexto século EC, quando o príncipe Shotoku aceitou o budismo, a nova religião já criara raízes.
16 À medida que o budismo se espalhava a comunidades rurais, encontrou as deidades xintoístas locais, cuja existência estava fortemente entrincheirada na vida diária das pessoas. A fim de coexistirem, as duas religiões tiveram de fazer concessões. Os monges budistas que praticavam a auto disciplina nas montanhas ajudaram a fundir as duas religiões. Como as montanhas eram consideradas moradia das divindades xintoístas, as práticas ascéticas dos monges nas montanhas fizeram surgir a idéia de misturar o budismo com o xintoísmo, o que também levou à construção de jinguji, ou “templos-santuários”.a Gradativamente ocorreu uma fusão das duas religiões, à medida que o budismo tomou a iniciativa em formular teorias religiosas.
17. (a) O que significa kamikaze? (b) Como se relacionava o kamikaze com a crença de o Japão ser uma nação divina?
17 No ínterim, a crença de que o Japão era uma nação divina criava raízes. Quando os mongóis atacaram o Japão, no século 13, surgiu a crença em kamikaze, literalmente “vento divino”. Duas vezes os mongóis atacaram a ilha de Quiuxu com poderosíssimas esquadras, e ambas as vezes foram impedidos por tempestades. Os japoneses creditaram essas tempestades, ou ventos (kaze), a seus deuses (kami) xintoístas, e isso aumentou grandemente a reputação de seus deuses.
18. De que modo o xintoísmo competiu com outras religiões?
18 À medida que a confiança nas deidades xintoístas aumentava, elas eram encaradas como sendo os deuses originais, ao passo que os budas (“iluminados”) e os bodisatvas (futuros budas que ajudam outros a conseguir a iluminação; veja páginas 136-8, 145-6) eram encarados apenas como manifestações locais temporárias da divindade. Em resultado desse conflito xintoísmo versus budismo, desenvolveram-se várias escolas do xintoísmo. Algumas enfatizavam o budismo, outras enalteciam o panteão xintoísta, e ainda outras usavam uma posterior forma de confucionismo para adornar seus ensinamentos.
Adoração do Imperador e Xintoísmo Estatal
19. (a) Qual era o objetivo dos Xintoístas da Restauração? (b) A que raciocínios conduziram os ensinos de Norinaga Motoori? (c) O que Deus nos convida a fazer?
19 Após muitos anos de concessões, os teólogos xintoístas concluíram que a sua religião fora aviltada pelo pensamento religioso chinês. Portanto, insistiram num retorno ao antigo modo japonês. Surgiu assim uma nova escola do xintoísmo, conhecida como Xintoísmo da Restauração, tendo a Norinaga Motoori, erudito do século 18, como um dos seus mais notáveis teólogos. Em busca da origem da cultura japonesa, Motoori estudou os clássicos, em especial os escritos xintoístas chamados Kojiki. Ensinou a superioridade da deusa-sol Amaterasu Omikami, mas atribuiu vagamente aos deuses a razão dos fenômenos naturais. Além disso, segundo seu ensino, a providência divina é imprevisível, e é desrespeitoso da parte dos homens tentar entendê-la. Não faça perguntas e seja submisso à providência divina, era seu conceito. — Isaías 1:18.
20, 21. (a) Que tentativa fez certo teólogo xintoísta para livrar o xintoísmo da influência “chinesa”? (b) A filosofia de Hirata levou ao estabelecimento de que movimento?
20 Um de seus seguidores, Atsutane Hirata, levou avante os conceitos de Norinaga e tentou purificar o xintoísmo, livrá-lo de todas as influências “chinesas”. O que fez Hirata? Ele fundiu o xintoísmo com a apóstata teologia “cristã”! Ligou o Amenominakanushi-no-kami, um deus mencionado no Kojiki, ao Deus do “cristianismo” e descreveu esse deus que preside o universo como tendo dois deuses subordinados, “o Alto-Produtor (Takami-musubi) e o Divino-Produtor (Kami-musubi), que aparentemente representam os princípios masculino e feminino”. (Religions in Japan [Religiões no Japão]) Sim, ele adotou do catolicismo romano o ensino de um deus trino, embora este nunca se tornasse a linha mestra do ensinamento xintoísta. Ter Hirata misturado o chamado cristianismo com o xintoísmo, contudo, acabou enxertando na mentalidade xintoísta a forma do monoteísmo da cristandade. — Isaías 40:25, 26.
21 A teologia de Hirata tornou-se a base para o movimento ‘Reverencie o Imperador’, que levou à derrubada dos ditadores militares feudais, ou xoguns, e à restauração do governo imperial, em 1868. Com o estabelecimento do governo imperial, os discípulos de Hirata foram nomeados como comissários governamentais da adoração xintoísta, e estes promoveram um movimento para fazer do xintoísmo a religião estatal. Sob a então nova constituição, o imperador, encarado como descendente direto da deusa-sol Amaterasu Omikami, era considerado “sagrado e inviolável”. Tornou-se assim o deus supremo do xintoísmo estatal. — Salmo 146:3-5.
Os “Escritos Sagrados” do Xintoísmo
22, 23. (a) Que dois editos foram baixados pelo imperador? (b) Por que esses editos foram considerados sagrados?
22 Ao passo que o xintoísmo tinha seus antigos registros, rituais e orações nos escritos Kojiki, Nihongi e Yengishiki, o xintoísmo estatal necessitava de um livro sagrado. Em 1882, o imperador Meiji baixou o Rescrito Imperial para Soldados e Marujos. Visto ter-se originado do imperador, foi encarado pelos japoneses como escrito sagrado, e tornou-se a base para meditação diária para os homens das forças armadas. Enfatizava que o dever da pessoa de pagar suas dívidas e obrigações para com o deus-imperador estava acima de quaisquer outros que ela tivesse para com quem quer que fosse.
23 Outra adição aos escritos sagrados do xintoísmo ocorreu quando o imperador baixou o Rescrito Imperial Sobre Educação, em 30 de outubro de 1890. Este “não só lançou os fundamentos para a educação escolar como também tornou-se virtualmente as escrituras sagradas do xintoísmo estatal”, explica Shigeyoshi Murakami, pesquisador do xintoísmo estatal. O rescrito tornou claro que a relação “histórica” entre os míticos ancestrais imperiais e seus súditos era a base da educação. De que modo os japoneses encararam esses editos?
24. (a) Dê um exemplo de como os rescritos imperiais eram encarados pelas pessoas. (b) De que modo o xintoísmo estatal levou à adoração do imperador?
24 “Quando eu era menina, o vice-diretor [da escola] segurava uma caixa de madeira ao nível dos olhos e reverentemente a levava à tribuna”, lembra-se Asano Koshino. “O diretor recebia a caixa e tirava o rolo no qual o Rescrito Imperial Sobre Educação estava escrito. Enquanto se lia o rescrito, nós tínhamos de ficar de cabeça curvada até ouvirmos as palavras finais: ‘O Nome de Sua Majestade e Seu selo.’ Ouvimos isso tantas vezes que decoramos o texto.” Até 1945, e por meio de um sistema educacional baseado na mitologia, a inteira nação foi condicionada a dedicar-se ao imperador. O xintoísmo estatal era encarado como a super-religião, ao passo que as outras 13 seitas xintoístas que ensinavam doutrinas diferentes eram relegadas à classificação de seitas do xintoísmo.
Missão Religiosa do Japão — A Conquista do Mundo
25. Como é que as pessoas encaravam o imperador japonês?
25 O xintoísmo estatal tinha também seu ídolo. “Todas as manhãs, eu batia palmas na direção do sol, o símbolo da deusa Amaterasu Omikami, e daí virava-me para o oriente na direção do Palácio Imperial e adorava o imperador”, lembra-se Masato, um japonês mais velho. O imperador era adorado como deus pelos seus súditos. Era encarado como supremo, política e religiosamente, por descender da deusa-sol. Certo professor universitário japonês declarou: “O Imperador é deus revelado nos homens. Ele é a Deidade manifesta.”
26. Que ensinamento resultou da veneração do imperador?
26 Em resultado, desenvolveu-se o ensinamento de que “o centro deste fenomenal mundo é a terra do Mikado [Imperador]. Deste centro temos de expandir este Grande Espírito em todo o mundo. . . . A expansão do Grande Japão em todo o mundo, e a elevação do inteiro mundo à terra dos Deuses, é o assunto urgente do presente e, ademais, é nosso objetivo eterno e imutável”. (A Filosofia Política do Moderno Xintoísmo, de D. C. Holtom, em inglês) Nada havia ali de separação entre Igreja e Estado!
27. De que modo os militaristas utilizaram a adoração do imperador japonês?
27 Em seu livro Man’s Religions (As Religiões do Homem) John B. Noss comenta: “Os militares japoneses não tardaram em valer-se desse conceito. Incluíram na sua propaganda de guerra que a conquista era a sagrada missão do Japão. Por certo, de tais palavras podemos ver o resultado lógico de um nacionalismo infundido de todos os valores de religião.” Que tragédia foi semeada para os japoneses e para outros povos, com base principalmente no mito xintoísta da divindade do imperador e na mistura de religião com nacionalismo!
28. Que papel desempenhou o xintoísmo no esforço de guerra japonês?
28 Os japoneses em geral não tinham outra alternativa senão adorar o imperador sob o xintoísmo estatal e seu sistema imperial. O ensino de Norinaga Motoori de ‘nada perguntar, mas submeter-se à providência divina’, permeava e controlava o pensamento japonês. Por volta de 1941, a inteira nação foi mobilizada no esforço de guerra da Segunda Guerra Mundial sob o estandarte do xintoísmo estatal e em dedicação ao “deus-homem vivo”. ‘O Japão é uma nação divina’, pensavam as pessoas, ‘e o kamikaze, o vento divino, soprará quando houver uma crise’. Soldados e suas famílias pediam a seus deuses guardiães pelo sucesso na guerra.
29. O que levou muitos a perderem a fé depois da Segunda Guerra Mundial?
29 Quando a nação “divina” foi derrotada em 1945, sob o duplo golpe da explosão de aniquilação atômica de Hiroxima e grande parte de Nagasáqui, o xintoísmo enfrentou uma grave crise. Da noite para o dia, o supostamente invencível governante divino Hiroíto tornou-se simplesmente o derrotado imperador humano. A fé japonesa foi abalada. O kamikaze havia falhado à nação. Diz a enciclopédia Nihon Shukyo Jiten: “Uma das razões foi o desapontamento da nação por ser traída. . . . Pior ainda, o mundo xintoísta não forneceu uma explanação, oriunda da religião e apropriada, das dúvidas que resultaram da [derrota]. Assim, em matéria de religião, a imatura reação: ‘não existe deus nem buda’ passou a ser a tendência geral.”
O Caminho à Verdadeira Harmonia
30. (a) Que lição podemos aprender da experiência xintoísta na Segunda Guerra Mundial? (b) Por que é vital usarmos a nossa faculdade de raciocínio com respeito à nossa adoração?
30 O curso que o xintoísmo estatal trilhou sublinha a necessidade de cada pessoa investigar as crenças tradicionais que adota. Por apoiarem o militarismo, os xintoístas talvez tivessem procurado um caminho de harmonia com o próximo, os próprios japoneses. Isto, naturalmente, não contribuiu para a harmonia mundial, e com seus arrimos de família e jovens mortos em batalha, tampouco trouxe harmonia interna. Antes de dedicarmos a nossa vida a alguém, temos de certificar-nos de a quem e a que causa nos oferecemos. “Eu vos suplico”, disse um instrutor cristão a romanos que outrora prestavam adoração ao imperador, “que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e aceitável a Deus, um serviço sagrado com a vossa faculdade de raciocínio”. Assim como os cristãos romanos deviam usar sua faculdade de raciocínio para escolher a quem deviam dedicar-se, é vital usar nossa faculdade de raciocínio para determinar a quem devemos adorar. — Romanos 12:1, 2.
31. (a) O que tem sido suficiente para a maioria dos devotos xintoístas? (b) Que pergunta exige resposta?
31 Para os xintoístas em geral, o fator importante em sua religião não era a identificação específica de um único deus. “Para as pessoas comuns”, diz Hidenori Tsuji, professor de história religiosa japonesa, “deuses ou budas não faziam diferença alguma. Fossem eles deuses ou budas, se dessem ouvidos a súplicas por uma boa colheita, pela erradicação de doenças e pela segurança da família, isso bastava para tais pessoas”. Mas, será que isso as levou ao verdadeiro Deus e Suas bênçãos? A resposta da história é clara.
32. O que considerará o nosso próximo capítulo?
32 Na sua busca de um deus, os xintoístas, baseando suas crenças na mitologia, transformaram um mero homem, seu imperador, num deus, o chamado descendente da deusa-sol Amaterasu Omikami. Todavia, milhares de anos antes de o xintoísmo começar, o Deus verdadeiro havia revelado a si mesmo a um semita de fé, na Mesopotâmia. O nosso próximo capítulo considerará esse momentoso evento e seu resultado.
[Nota(s) de rodapé]
a No Japão, os edifícios religiosos para xintoístas são considerados santuários, e os para budistas, templos.
[Foto na página 188]
Devota xintoísta pedindo favores aos deuses.
[Foto na página 189]
Xintoísmo, ‘Caminho dos Deuses’.
[Foto na página 190]
Um inteiro monte, como o Fuji, pode ser encarado como xintai, ou objeto de adoração.
[Fotos na página 195]
Xintoístas carregando um mikoshi, ou santuário portátil, e acima, enfeitados de folhas de malva-rosa (aoi) durante a Festividade Aoi, em Quioto.
[Foto na página 196]
Pensa-se que o agitar papel ou linho amarrado a um ramo de sempre-verde purifica o homem e os objetos, garantindo-lhes segurança.
[Fotos na página 197]
O japonês não acha ser contraditório orar tanto diante de um santuário xintoísta, à esquerda, como de um altar budista.
[Foto na página 198]
O Imperador Hiroíto (no tablado) era adorado como descendente da deusa-sol.
[Foto na página 203]
Uma jovem afixa no santuário uma ema, ou placa de oração, de madeira, que ela comprou.
[Quadro na página 191]
A Deusa-Sol no Mito Xintoísta
Diz o mito xintoísta que, em tempos bem remotos, o deus Izanagui “lavou seu olho esquerdo, e assim deu à luz a grande deusa Amaterasu, a deusa do Sol”. Mais tarde, Susano, o deus das planícies costeiras, amedrontou tanto a Amaterasu que ela “se escondeu numa caverna rochosa no Céu, bloqueando a entrada com uma grande pedra. O mundo mergulhou na escuridão”. Assim, os deuses conceberam um plano para fazer Amaterasu sair da caverna. Juntaram galos cantantes que anunciam o amanhecer e fizeram um grande espelho. Em arbustos sakaki penduraram jóias e tiras de pano. Daí a deusa Ama no Uzume passou a dançar e tamborilar numa tina com os pés. Dançando alucinadamente, tirou as roupas, provocando o riso dos deuses. Toda essa atividade despertou a curiosidade de Amaterasu, que espiou para fora e viu-se no espelho. O reflexo atraiu-a para fora da caverna, quando então o deus da Força agarrou-a pela mão e trouxe-a ao ar livre. “De novo o mundo foi iluminado pelos raios da deusa-Sol.” — New Larousse Encyclopedia of Mythology. — Compare com Gênesis 1:3-5, 14-19; Salmo 74:16, 17; 104:19-23.
[Quadro na página 193]
Xintoísmo — Uma Religião de Festividades
O calendário japonês está repleto de festividades religiosas, ou matsuri. As seguintes são algumas das principais:
▪ Sho-gatsu, ou Festividade do Ano-Novo, 1-3 de janeiro.
▪ Setsubun, lançam-se grãos de soja dentro e fora das casas, bradando: “Saiam os demônios, entre a boa sorte”; 3 de fevereiro.
▪ Hina Matsuri, ou Festividade das Bonecas, para meninas, em 3 de março. Faz-se uma exposição de bonecas, retratando uma antiga família imperial.
▪ Festividade dos Meninos, em 5 de maio; Koi-nobori (representações de carpas simbolizando a força) presas a postes tremulam ao vento.
▪ Tsukimi, admira-se a lua cheia de meados do outono, enquanto se oferece bolinhos de arroz e primícias de colheitas.
▪ Kanname-sai, ou a oferta de primícias do arroz pelo imperador, em outubro.
▪ Niiname-sai é celebrada pela família imperial em novembro, quando o imperador, que preside como sumo sacerdote do xintoísmo imperial, prova as primícias do arroz.
▪ Shichi-go-san, que significa “sete-cinco-três”, celebrada por famílias xintoístas em 15 de novembro. Sete, cinco e três são encarados como importantes anos de transição; crianças trajando coloridos quimonos visitam o santuário da família.
▪ Celebram-se também muitas festividades budistas, incluindo o natalício de Buda, em 8 de abril, e a Festividade de Obon, em 15 de julho, que termina com lanternas postas a flutuar no mar ou em rios “para guiar os espíritos ancestrais de volta ao outro mundo”.
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Judaísmo — a busca de Deus através das Escrituras e da tradiçãoO Homem em Busca de Deus
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Capítulo 9
Judaísmo — a busca de Deus através das Escrituras e da tradição
1, 2. (a) Cite exemplos de judeus eminentes que influíram na história e na cultura. (b) Que pergunta talvez façam alguns?
MOISÉS, Jesus, Mahler, Marx, Freud e Einstein — o que todos eles tinham em comum? Todos eram judeus e, de diferentes maneiras, influíram na história e na cultura da humanidade. Bem obviamente, os judeus têm estado em evidência por milhares de anos. A própria Bíblia é um testemunho disso.
2 Diferente de outras antigas religiões e culturas, o judaísmo tem suas raízes na história, não na mitologia. Mas, alguns talvez perguntem: Sendo os judeus uma minoria tão pequena, uns 18 milhões num mundo de mais de 5 bilhões de pessoas, por que nos deveríamos interessar pela sua religião, o judaísmo?
Por Que o Judaísmo Deve Interessar-nos?
3, 4. (a) Em que consistem as Escrituras Hebraicas? (b) Quais são algumas das razões pelas quais devemos considerar a religião judaica e suas raízes?
3 Uma razão é que as raízes da religião judaica remontam a cerca de 4.000 anos na história, e outras grandes religiões estão endividadas para com suas Escrituras, em maior ou menor grau. (Veja quadro, página 220.) O cristianismo, fundado por Jesus (hebraico: Ye·shú·a‛), um judeu do primeiro século, tem suas raízes nas Escrituras Hebraicas. E, como a simples leitura do Qur’ān (Alcorão) mostrará, o islamismo também deve muito a essas escrituras. (Qur’ān, surata 2:49-57; 32:23, 24) Assim, ao examinarmos a religião judaica, examinamos também as raízes de centenas de outras religiões e seitas.
4 Uma segunda e vital razão é que a religião judaica provê o homem de um elo essencial na sua busca do Deus verdadeiro. Segundo as Escrituras Hebraicas, Abrão, o antepassado dos judeus, já adorava o Deus verdadeiro aproximadamente 4.000 anos atrás.a Razoavelmente, perguntamos: Como foi que surgiram os judeus e a sua fé? — Gênesis 17:18.
Como Se Originaram os Judeus?
5, 6. Qual, resumidamente, é a história da origem dos judeus e de seu nome?
5 Falando-se de modo geral, o povo judeu descende de um antigo ramo da raça semítica, de língua hebraica. (Gênesis 10:1, 21-32; 1 Crônicas 1:17-28, 34; 2:1, 2) Uns 4.000 anos atrás, seu antepassado Abrão emigrou da próspera metrópole de Ur dos Caldeus, na Suméria, para a terra de Canaã, sobre a qual Deus declarara: “Vou aquinhoar essa terra à tua descendência.”b (Gênesis 11:31-12:7) Fala-se dele como “Abrão, o hebreu”, em Gênesis 14:13, embora seu nome tenha sido mais tarde mudado para Abraão. (Gênesis 17:4-6) A partir dele os judeus traçam uma linha de descendentes que começa com seu filho Isaque e seu neto Jacó, cujo nome foi mudado para Israel. (Gênesis 32:27-29) Israel tinha 12 filhos homens, que se tornaram os fundadores das 12 tribos. Um destes era Judá, de cujo nome posteriormente se derivou a palavra “judeu”. — 2 Reis 16:6.
6 Com o tempo, o termo “judeu” foi aplicado a todos os israelitas, não apenas a um descendente de Judá. (Ester 3:6; 9:20) Visto que os registros genealógicos judaicos foram destruídos em 70 EC, quando os romanos arrasaram Jerusalém, nenhum judeu hoje pode corretamente determinar de que tribo descende. Não obstante, no decorrer dos milênios, a antiga religião judaica se desenvolveu e mudou. Hoje, o judaísmo é praticado por milhões de judeus na República de Israel e na Diáspora (dispersão por todo o mundo). Qual é a base dessa religião?
Moisés, a Lei e a Nação
7. Que juramento fez Deus a Abraão, e por quê?
7 Em 1943 AEC,c Deus escolheu Abrão para ser seu servo especial e mais tarde fez-lhe um solene juramento devido à sua fidelidade em dispor-se a oferecer seu filho Isaque em sacrifício, ainda que esse sacrifício não se consumasse. (Gênesis 12:1-3; 22:1-14) Naquele juramento, Deus disse: “Juro por Mim Mesmo, o SENHOR [hebraico: יהוה, YHWH] declara: Por teres feito isto, e não teres negado teu filho, teu dileto, dar-te-ei Minha bênção e farei teus descendentes tão numerosos como as estrelas do céu . . . Todas as nações da terra se abençoarão a si mesmas por meio de teus descendentes [“semente”, Al, rev. e corr.], porque obedeceste a Minha ordem.” Este voto juramentado foi repetido ao filho e ao neto de Abraão, passando então à tribo de Judá e à linhagem de Davi. Este conceito estritamente monoteísta de um Deus pessoal tendo tratos diretos com humanos era ímpar naquele mundo antigo, e veio a formar a base da religião judaica. — Gênesis 22:15-18; 26:3-5; 28:13-15; Salmo 89:4, 5, 29, 30, 36, 37 (Salmo 89:3, 4, 28, 29, 35, 36, NM).
8. Quem era Moisés, e que papel desempenhou ele em Israel?
8 Para cumprir suas promessas feitas a Abraão, Deus lançou o fundamento para uma nação firmando um pacto especial com os descendentes de Abraão. Este pacto foi instituído por meio de Moisés, o grande líder hebreu e mediador entre Deus e Israel. Quem era Moisés, e por que é ele tão importante para os judeus? O relato bíblico de Êxodo nos diz que ele nasceu no Egito (1593 AEC) de pais israelitas que eram escravos no cativeiro junto com o restante de Israel. Foi ele “a quem o SENHOR escolheu” para conduzir o Seu povo à liberdade em Canaã, a Terra Prometida. (Deuteronômio 6:23; 34:10) Moisés cumpriu o papel vital de mediador do pacto da Lei dado por Deus a Israel, além de ser seu profeta, juiz, líder e historiador. — Êxodo 2:1-3:22.
9, 10. (a) O que era a Lei transmitida por meio de Moisés? (b) Que aspectos da vida abrangiam os Dez Mandamentos? (c) Que obrigação o pacto da Lei trouxe a Israel?
9 A Lei que Israel aceitou consistia em Dez Palavras, ou Mandamentos, e mais de 600 leis que formavam um extensivo código de diretrizes e orientações para a conduta diária. (Veja quadro, página 211.) Envolvia o temporal e o sagrado — os requisitos físicos e morais, bem como a adoração de Deus.
10 Este pacto da Lei, ou constituição religiosa, deu forma e substância à fé dos patriarcas. Em resultado, os descendentes de Abraão se tornaram uma nação dedicada ao serviço de Deus. Assim, a religião judaica começou a tomar contornos definidos, e os judeus se tornaram uma nação organizada para a adoração e o serviço de seu Deus. Em Êxodo 19:5, 6, Deus lhes prometeu: “Se Me obedecerdes fielmente e guardardes Meu pacto, . . . sereis para Mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.” Assim, os israelitas tornar-se-iam um ‘povo escolhido’ para servir aos propósitos de Deus. Contudo, o cumprimento das promessas do pacto estava sujeito à condição “se Me obedecerdes”. Essa nação dedicada estava então obrigada para com seu Deus. Assim, numa data posterior, (oitavo século AEC), Deus podia dizer aos judeus: “Minhas testemunhas sois vós — declara o SENHOR [hebraico: יהוה, YHWH] — Meu servo, a quem escolhi.” — Isaías 43:10, 12.
Uma Nação com Sacerdotes, Profetas e Reis
11. Como foi que vieram a existir o sacerdócio e o reinado?
11 Enquanto a nação de Israel ainda estava no deserto e rumando para a Terra Prometida, foi estabelecido um sacerdócio na linhagem do irmão de Moisés, Arão. Uma grande tenda portátil, ou tabernáculo, tornou-se o centro da adoração e dos sacrifícios israelitas. (Êxodo, capítulos 26-28) Com o tempo, a nação de Israel chegou à Terra Prometida, Canaã, e conquistou-a, como Deus ordenara. (Josué 1:2-6) Por fim foi estabelecido um reinado terrestre e, em 1077 AEC, Davi, da tribo de Judá, tornou-se rei. Com o seu governo, tanto o reinado como o sacerdócio foram firmemente estabelecidos num novo centro nacional, Jerusalém. — 1 Samuel 8:7.
12. Que promessa fizera Deus a Davi?
12 Depois da morte de Davi, seu filho Salomão construiu um magnífico templo em Jerusalém, que substituiu o tabernáculo. Visto que Deus fizera um pacto com Davi, de que o reinado permaneceria para sempre na sua linhagem, entendia-se que um Rei ungido, o Messias, viria algum dia da linhagem de descendentes de Davi. As profecias indicavam que através desse Rei messiânico, ou “semente”, Israel e todas as nações teriam um governo perfeito. (Gênesis 22:18, Al) Esta esperança criou raízes, e a natureza messiânica da religião judaica tornou-se claramente cristalizada. — 2 Samuel 7:8-16; Salmo 72:1-20; Isaías 11:1-10; Zacarias 9:9, 10.
13. A quem usou Deus para corrigir as recaídas de Israel no erro? Dê um exemplo.
13 Contudo, os judeus deixaram-se influenciar pela falsa religião dos cananeus e de outras nações ao redor. Em resultado, eles violaram sua relação pactuada com Deus. Para corrigi-los e guiá-los de volta, Jeová enviou uma série de profetas que transmitiram as Suas mensagens ao povo. Assim, as profecias se tornaram outro aspecto ímpar da religião dos judeus e constituem grande parte das Escrituras Hebraicas. De fato, 18 livros das Escrituras Hebraicas têm nome de profeta. — Isaías 1:4-17.
14. De que modo os eventos vindicaram os profetas de Israel?
14 Entre tais profetas se destacam Isaías, Jeremias e Ezequiel, que avisaram a respeito da iminente punição que Jeová traria contra a nação por causa de sua adoração idólatra. Essa punição ocorreu em 607 AEC quando, devido à apostasia de Israel, Jeová permitiu que Babilônia, a então potência mundial dominante, derrubasse Jerusalém e seu templo e levasse a nação ao cativeiro. De modo que os profetas estavam certos no que haviam predito, e o exílio de 70 anos de Israel, abrangendo a maior parte do sexto século AEC, é assunto de registro histórico. — 2 Crônicas 36:20, 21; Jeremias 25:11, 12; Daniel 9:2.
15. (a) Como foi que uma nova forma de adoração se arraigou entre os judeus? (b) Que efeito tiveram as sinagogas sobre a adoração em Jerusalém?
15 Em 539 AEC, Ciro, o persa, derrotou Babilônia e permitiu que os judeus reocupassem a sua terra e reconstruíssem o templo em Jerusalém. Embora um restante reagisse favoravelmente, a maioria dos judeus permaneceu sob a influência da sociedade babilônica. Mais tarde, os judeus foram afetados pela cultura persa. Assim, surgiram colônias judaicas no Oriente Médio e em volta do Mediterrâneo. Em cada comunidade veio a existir uma nova forma de adoração que envolvia a sinagoga, um centro congregacional para os judeus em cada cidade. Naturalmente, esse arranjo diminuiu a ênfase no templo reconstruído em Jerusalém. Os amplamente dispersos judeus eram agora realmente uma Diáspora. — Esdras 2:64, 65.
O Judaísmo Emerge com um Manto Grego
16, 17. (a) Que nova influência varria o mundo mediterrâneo no quarto século AEC? (b) Quem contribuiu para divulgar a cultura grega, e como? (c) Assim, de que modo o judaísmo emergiu no cenário mundial?
16 Por volta do quarto século AEC, a comunidade judaica estava em estado de fluxo, à mercê das ondas duma cultura não-judaica que engolfava o mundo mediterrâneo e além. As águas emanavam da Grécia, e o judaísmo emergiu delas com um manto helênico.
17 Em 332 AEC, o general grego Alexandre, o Grande, conquistou o Oriente Médio numa vitória relâmpago e foi bem-recebido pelos judeus quando chegou à Jerusalém.d Os sucessores de Alexandre continuaram seu plano de helenização, imbuindo todas as partes do império com a língua, a cultura e a filosofia gregas. Em resultado, as culturas grega e judaica passaram por um processo de fusão que viria a ter surpreendentes resultados.
18. (a) Por que era necessária a tradução Septuaginta grega das Escrituras Hebraicas? (b) Que aspecto da cultura grega em especial afetou os judeus?
18 Os judeus da Diáspora passaram a falar grego em vez de hebraico. Assim, por volta do começo do terceiro século AEC, foi iniciada a primeira tradução das Escrituras Hebraicas para o grego, chamada de Septuaginta, e, através dela, muitos gentios passaram a respeitar a religião dos judeus e a familiarizar-se com ela, alguns até mesmo se convertendo.e Os judeus, por outro lado, tornavam-se entendidos em pensamento grego e alguns até mesmo tornaram-se filósofos, algo inteiramente novo para os judeus. Um exemplo é Filo de Alexandria, do primeiro século EC, que tentou explicar o judaísmo em termos de filosofia grega, como se os dois expressassem as mesmas derradeiras verdades.
19. De que modo certo escritor judeu descreve o período da fusão das culturas grega e judaica?
19 Resumindo esse período de reciprocidade entre as culturas grega e judaica, o autor judeu Max Dimont diz: “Enriquecidos com o pensamento platônico, a lógica aristotélica e a ciência euclidiana, os peritos judeus passaram a considerar a Tora com novos instrumentos . . . Adicionaram a lógica grega à revelação judaica.” Os eventos que ocorreriam sob o domínio romano, que absorveu o Império Grego, e daí Jerusalém, no ano 63 AEC, pavimentariam o caminho para mudanças ainda mais significativas.
O Judaísmo sob o Domínio Romano
20. Qual era a situação religiosa entre os judeus no primeiro século EC?
20 O judaísmo do primeiro século da Era Comum se encontrava num estágio ímpar. Max Dimont diz que estava espremido entre “a mente da Grécia e a espada de Roma”. As expectativas judaicas eram elevadas, devido à opressão política e às interpretações de profecias messiânicas, especialmente as de Daniel. Os judeus estavam divididos em facções. Os fariseus frisavam uma lei oral (veja quadro, página 221), em vez de sacrifícios no templo. Os saduceus enfatizavam a importância do templo e do sacerdócio. E havia ainda os essênios, os zelotes e os herodianos. Havia desacordo entre todos, religiosa e filosoficamente. Líderes judeus eram chamados de rabinos (mestres, instrutores), os quais, por causa de seu conhecimento da Lei, aumentaram em prestígio e se tornaram um novo tipo de líderes espirituais.
21. Que eventos afetaram drasticamente os judeus dos dois primeiros séculos EC?
21 No entanto, as divisões internas e externas do judaísmo continuaram, especialmente na terra de Israel. Por fim, irrompeu rebelião aberta contra Roma e, em 70 EC, tropas romanas sitiaram Jerusalém, desolaram a cidade, queimaram totalmente o seu templo e dispersaram seus habitantes. Por fim, Jerusalém foi decretada uma área totalmente vedada aos judeus. Sem templo, sem terra, com seu povo disperso por todo o Império Romano, o judaísmo necessitava de uma nova expressão religiosa para sobreviver.
22. (a) Como foi o judaísmo afetado pela perda do templo em Jerusalém? (b) De que modo os judeus dividem a Bíblia? (c) Que é o Talmude, e como veio a surgir?
22 Com a destruição do templo, os saduceus desapareceram, e a lei oral que os fariseus haviam promovido tornou-se a peça central de um novo judaísmo rabínico. Estudos mais intensos, oração e obras de piedade substituíram os sacrifícios no templo e as peregrinações. Assim, o judaísmo podia ser praticado em qualquer lugar, em qualquer ocasião, em qualquer ambiência cultural. Os rabinos assentaram por escrito essa lei oral, além de lhe adicionarem comentários, e daí comentários aos comentários, tudo o que, em conjunto, tornou-se conhecido como Talmude. — Veja quadro, páginas 220-1.
23. Que mudança na ênfase ocorreu sob a influência do pensamento grego?
23 O que resultou dessas variadas influências? Max Dimont diz em seu livro Jews, God and History (Os Judeus, Deus e a História) que, embora os fariseus carregassem a tocha da ideologia e religião judaicas, “a tocha em si havia sido acesa pelos filósofos gregos”. Ao passo que grande parte do Talmude era altamente legalista, suas ilustrações e explanações refletiam a clara influência da filosofia grega. Por exemplo, conceitos religiosos gregos, como a alma imortal, foram expressos em termos judaicos. De fato, nessa nova era rabínica, a veneração do Talmude — na época já uma fusão de filosofia legalista e grega — aumentou entre os judeus até que, por volta da Idade Média, o Talmude veio a ser reverenciado pelos judeus mais do que a própria Bíblia.
O Judaísmo na Idade Média
24. (a) Que duas principais comunidades surgiram dentre os judeus na Idade Média? (b) De que modo influenciaram o judaísmo?
24 Durante a Idade Média (de cerca de 500 a 1500 EC), surgiram duas diferentes comunidades judaicas — os judeus sefárdicos, que floresceram sob o domínio muçulmano na Espanha, e os judeus asquenazes, na Europa Central e Oriental. Ambas as comunidades produziram peritos rabínicos, cujos escritos e pensamentos formam a base para a interpretação religiosa judaica até os dias de hoje. Curiosamente, muitos dos costumes e práticas religiosas comuns hoje no judaísmo realmente tiveram início na Idade Média. — Veja quadro, página 231.
25. Como, por fim, reagiu a Igreja Católica à presença dos judeus na Europa?
25 No século 12, começou uma onda de expulsões de judeus de vários países. Conforme o escritor israelense Abba Eban explica em Meu Povo — A História dos Judeus (em inglês): “Em todos os países . . . submetidos à influência unilateral da Igreja Católica, a história é a mesma: horrível degradação, tortura, matança e expulsão.” Por fim, em 1492, a Espanha, que mais uma vez viera a estar sob domínio católico, seguiu o exemplo e ordenou a expulsão de todos os judeus de seu território. Assim, por volta do fim do século 15, os judeus haviam sido expulsos de praticamente toda a Europa Ocidental, fugindo para a Europa Oriental e países em volta do Mediterrâneo.
26. (a) O que levou à desilusão entre os judeus? (b) Que principais divisões passaram a desenvolver-se entre os judeus?
26 Durante os séculos de opressão e perseguição, muitos auto-proclamados Messias surgiram entre os judeus em diferentes partes do mundo, todos eles recebendo um certo grau de aceitação, mas terminando em desilusão. Por volta do século 17, faziam-se necessárias novas iniciativas para revigorar os judeus e tirá-los desse período obscuro. Em meados do século 18, surgiu uma resposta ao desespero que o povo judeu sentia. Era o hassidismo, (veja quadro, página 226), uma mistura de misticismo e êxtase religiosa na devoção e atividades diárias. Em contraste, por volta da mesma época, o filósofo Moisés Mendelssohn, um judeu-alemão, ofereceu ainda outra solução, o caminho do Hascalá, ou esclarecimento, que havia de conduzir ao que é historicamente considerado o “Judaísmo Moderno”.
Do “Esclarecimento” ao Sionismo
27. (a) De que modo Moisés Mendelssohn influenciou as atitudes judaicas? (b) Por que muitos judeus rejeitaram a esperança de um Messias pessoal?
27 Segundo Moisés Mendelssohn (1729-86), os judeus seriam aceitos se saíssem de sob as restrições do Talmude e se ajustassem à cultura Ocidental. Em seus dias, ele se tornou um dos judeus mais respeitados pelo mundo gentio. Contudo, renovadas irrupções de violento anti-semitismo no século 19, especialmente na Rússia “cristã”, desiludiram os seguidores do movimento, e muitos então se concentraram em encontrar um refúgio político para os judeus. Rejeitaram a idéia de um Messias pessoal que conduzisse os judeus de volta a Israel e passaram a trabalhar pelo estabelecimento de um Estado judaico através de outros meios. Isto então se tornou o conceito de sionismo: “A secularização do . . . messianismo judaico”, conforme definiu certo estudioso do assunto.
28. Que eventos no século 20 têm afetado as atitudes judaicas?
28 O assassinato de cerca de seis milhões de judeus europeus no Holocausto de inspiração nazista (1935-45) deu ao sionismo seu ímpeto final e granjeou-lhe muita simpatia no mundo todo. O sonho sionista realizou-se em 1948 com o estabelecimento do Estado de Israel, o que nos traz ao judaísmo de nossos dias e à pergunta: Em que crêem os judeus atuais?
Deus É um Só
29. (a) Expresso de modo simples, o que é o judaísmo moderno? (b) Como se expressa a identidade judaica? (c) Quais são algumas das festividades e costumes judaicos?
29 Dito de maneira simples, o judaísmo é a religião de um povo. Por conseguinte, o converso torna-se parte do povo judeu bem como da religião judaica. É uma religião monoteísta no mais estrito sentido, e sustenta que Deus intervém na história humana, especialmente com relação aos judeus. A adoração judaica envolve várias festividades anuais e diversos costumes. (Veja quadro, páginas 230-1.) Embora não haja credos ou dogmas aceitos por todos os judeus, a confissão da unicidade de Deus, conforme expressa na Shema, uma oração baseada em Deuteronômio 6:4 (JP), é um componente central da adoração na sinagoga: “OUVE, Ó ISRAEL: O SENHOR NOSSO DEUS, O SENHOR É UM SÓ.”
30. (a) Qual é o entendimento judaico a respeito de Deus? (b) De que modo o conceito judaico sobre Deus se conflita com o da cristandade?
30 Essa crença num Deus único foi repassada para o cristianismo e para o islamismo. Segundo disse o Dr. J. H. Hertz, um rabino: “Este sublime pronunciamento de absoluto monoteísmo foi uma declaração de guerra contra todo politeísmo . . . Da mesma maneira, a Shema exclui a trindade do credo cristão como violação da Unidade de Deus.”f Mas, consideremos a seguir a crença judaica sobre a vida após a morte.
Morte, Alma e Ressurreição
31. (a) Como foi que a doutrina da alma imortal se introduziu no ensinamento judaico? (b) Que dilema causou o ensino da imortalidade da alma?
31 Uma das crenças básicas do moderno judaísmo é a de que o homem tem uma alma imortal que sobrevive à morte do corpo. Mas, origina-se isto da Bíblia? A Enciclopédia Judaica (em inglês) admite francamente: “Foi provavelmente sob a influência grega que a doutrina da imortalidade da alma se introduziu no judaísmo.” Mas isso criou um dilema doutrinal, conforme a mesma fonte declara: “Basicamente, as duas crenças, a ressurreição e a imortalidade da alma, são contraditórias. A primeira se refere a uma ressurreição coletiva no fim dos dias, i.e., que os mortos que dormem na terra se levantarão da sepultura, ao passo que a outra se refere ao estado da alma após a morte do corpo.” Como foi resolvido esse dilema na teologia judaica? “Sustentava-se que quando o indivíduo morria a sua alma ainda vivia em outro domínio (isto fez surgir todas as crenças a respeito de céu e inferno), ao passo que o seu corpo jazia na sepultura para esperar a ressurreição física de todos os mortos aqui na terra.”
32. O que diz a Bíblia a respeito dos mortos?
32 O professor universitário Arthur Hertzberg escreve: “Na própria Bíblia [hebraica] a arena da vida do homem é este mundo. Não existe doutrina de céu e inferno, apenas um crescente conceito de uma derradeira ressurreição dos mortos no fim dos dias.” Trata-se de uma simples e correta explicação do conceito bíblico, a saber, que “os mortos nada sabem . . . Pois não existe ação, nem raciocínio, nem aprendizagem, nem sabedoria no Seol [sepultura comum da humanidade], para onde tu vais”. — Eclesiastes 9:5, 10; Daniel 12:1, 2; Isaías 26:19.
33. De que modo a doutrina da ressurreição era originalmente encarada pelos judeus?
33 Segundo a Enciclopédia Judaica, “no período rabínico, a doutrina da ressurreição dos mortos é considerada uma das doutrinas centrais do judaísmo” e “deve ser distinguida da crença na . . . imortalidade da alma”.g Hoje, contudo, ao passo que a imortalidade da alma é aceita por todas as facções do judaísmo, a ressurreição dos mortos não é.
34. Em contraste com o ponto de vista da Bíblia, como é que o Talmude descreve a alma? O que comentam a respeito disso escritores posteriores?
34 Em contraste com a Bíblia, o Talmude, influenciado pelo helenismo, está repleto de explanações e histórias e até mesmo de descrições da alma imortal. Posterior literatura mística judaica, a Cabala, vai ao ponto de ensinar a reencarnação (transmigração de almas), que é basicamente um antigo ensinamento hindu. (Veja Capítulo 5.) Atualmente, em Israel, isto é amplamente aceito como ensinamento judaico, e desempenha também um importante papel na crença e na literatura hassídica. Por exemplo, Martin Buber inclui em seu livro Histórias dos Hassidins — Os Mestres Posteriores (em inglês) uma história a respeito da alma, da escola de Elimeleque, um rabino de Lizhensk: “No Dia de Expiação, quando o rabino Abraão Yehoshua recitava o Avodá, a oração que reproduz o serviço do sumo sacerdote no Templo de Jerusalém, e chegava ao trecho: ‘E assim ele falou’, ele jamais dizia essas palavras, mas sim: ‘E assim eu falei.’ Pois ele não se esquecera do tempo em que a sua alma estava no corpo de um sumo sacerdote em Jerusalém.”
35. (a) Que posição adotou o Judaísmo Reformista concernente ao ensino da alma imortal? (b) Qual é o claro ensinamento da Bíblia a respeito da alma?
35 O judaísmo Reformista tem ido ao ponto de rejeitar a crença na ressurreição. Tendo removido essa palavra dos livros de oração reformistas, reconhece apenas a crença na alma imortal. Quão mais claro é o conceito bíblico, conforme expresso em Gênesis 2:7: “O SENHOR Deus formou o homem do pó do solo, e soprou em suas narinas o fôlego de vida; e o homem tornou-se uma alma vivente.” (JP) A combinação do corpo e do espírito, ou força de vida, constitui “uma alma vivente”.h (Gênesis 2:7; 7:22; Salmo 146:4) Inversamente, quando o humano pecador morre, a alma morre. (Ezequiel 18:4, 20) Assim, ao morrer, o homem cessa de ter qualquer existência consciente. A sua força de vida retorna a Deus que a deu. (Eclesiastes 3:19; 9:5, 10; 12:7) A esperança realmente bíblica para os mortos é a ressurreição — hebraico: tehhi·yáth ham·me·thím, ou “revivificação dos mortos”.
36, 37. O que criam fiéis hebreus dos tempos bíblicos a respeito de vida futura?
36 Ao passo que essa conclusão talvez surpreenda até mesmo muitos judeus, a ressurreição tem sido a esperança real de adoradores do verdadeiro Deus por milhares de anos. Uns 3.500 anos atrás, o fiel e sofredor Jó falou de um tempo futuro em que Deus o levantaria do Seol, ou sepultura. (Jó 14:14, 15) O profeta Daniel também recebeu a garantia de que seria levantado “no fim dos dias”. — Daniel 12:2, 12 (13, JP; NM).
37 Não há base nas Escrituras para se dizer que aqueles fiéis hebreus criam ter uma alma imortal que sobreviveria para um outro mundo. Eles claramente tinham suficientes motivos para crer que o Soberano Senhor, que conta e controla as estrelas do universo, lembrar-se-ia também deles na época da ressurreição. Haviam sido fiéis para com Ele e Seu nome. Ele lhes seria fiel. — Salmo 18:26 (Salmo 18:25, NM); Salmo 147:4; Isaías 25:7, 8; 40:25, 26.
O Judaísmo e o Nome de Deus
38. (a) O que tem acontecido ao longo dos séculos com relação ao uso do nome de Deus? (b) Qual é a base para o nome de Deus?
38 O judaísmo ensina que, ao passo que o nome de Deus existe em forma escrita, é sagrado demais para ser pronunciado.i O resultado foi que, no decurso dos últimos 2.000 anos, perdeu-se a pronúncia correta. Todavia, esta nem sempre foi a posição judaica. Uns 3.500 anos atrás, Deus falou a Moisés, dizendo: “Assim dirás aos israelitas: O SENHOR [hebraico: יהוה, YHWH], o Deus de vossos antepassados, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, enviou-me a vós: Este será Meu nome para sempre, esta Minha designação por toda a eternidade.” (Êxodo 3:15; Salmo 135:13) Qual era esse nome e designação? A nota de rodapé na Tanakh diz: “O nome YHWH (tradicionalmente lido Adonai “o SENHOR”) tem ligação aqui com a raiz hayah, ‘ser’.” Assim, temos aqui o sagrado nome de Deus, o Tetragrama, as quatro consoantes hebraicas YHWH (Yahweh) que, na sua forma latinizada, vieram a ser conhecidas ao longo dos séculos em português como JEOVÁ (JEHOVAH).
39. (a) Por que é importante o nome divino? (b) Por que os judeus pararam de pronunciar o nome divino?
39 No decorrer da história, os judeus sempre deram grande importância ao nome pessoal de Deus, embora a ênfase no uso tenha mudado drasticamente desde os tempos antigos. Como diz o Dr. A. Cohen em Everyman’s Talmud (O Talmude de Todos): “Reverência especial [era] atribuída ao ‘Nome distintivo’ (Shem Hamephorash) da Deidade que Ele revelara ao povo de Israel, a saber, o tetragrama, JHVH.” O nome divino era reverenciado porque representava e caracterizava a própria pessoa de Deus. Afinal, foi o próprio Deus quem anunciou seu nome e disse a seus adoradores que o usassem. Isto é enfatizado pelo fato de o nome aparecer na Bíblia Hebraica 6.828 vezes. Judeus devotos, porém, acham ser desrespeitoso pronunciar o nome pessoal de Deus.j
40. O que algumas autoridades judaicas declararam a respeito do uso do nome divino?
40 A respeito da antiga injunção rabínica (não bíblica) contra pronunciar o nome, A. Marmorstein, um rabino, escreveu em seu livro The Old Rabbinic Doctrine of God (A Antiga Doutrina Rabínica Sobre Deus): “Houve tempo em que essa proibição [de usar o nome divino] era inteiramente desconhecida entre os judeus . . . Nem no Egito, tampouco em Babilônia, os judeus conheciam ou guardavam uma lei que proibisse o uso do nome de Deus, o Tetragrama, na conversação comum ou nos cumprimentos. Todavia, do terceiro século AEC até o terceiro século DEC tal proibição existia e era parcialmente observada.” Não apenas se permitia o uso do nome em tempos anteriores, mas, como diz o Dr. Cohen: “Houve um tempo em que o livre e aberto uso do Nome, mesmo pelo leigo, era defendido . . . Tem-se sugerido que a recomendação baseava-se no desejo de distinguir o israelita do [não-judeu].”
41. Segundo certo rabino, que influências levaram à proibição do uso do nome de Deus?
41 O que foi, então, que causou a proibição do uso do nome divino? O Dr. Marmorstein responde: “A oposição helenística [de influência grega] à religião dos judeus, a apostasia dos sacerdotes e dos nobres, introduziram e estabeleceram a norma de não pronunciar o Tetragrama no Santuário [templo em Jerusalém].” Em seu excessivo zelo de evitar tomar o nome divino em vão, eles suprimiram completamente o seu uso na conversação e subverteram e diluíram a identificação do Deus verdadeiro. Sob a combinada pressão de oposição e apostasia religiosas, o nome divino caiu em desuso entre os judeus.
42. O que mostra o registro bíblico a respeito do uso do nome divino?
42 Contudo, como diz o Dr. Cohen: “No período bíblico parece não ter havido escrúpulo algum contra o uso [do nome divino] na linguagem cotidiana.” O patriarca Abraão “invocou o SENHOR por nome”. (Gênesis 12:8) A maioria dos escritores da Bíblia hebraica, liberal, mas respeitosamente, usou o nome, até a escrita de Malaquias, no quinto século AEC. — Rute 1:8, 9, 17.
43. (a) O que é bastante claro concernente ao uso judaico do nome divino? (b) Qual é um dos efeitos indiretos do fato de os judeus deixarem de usar o nome divino?
43 É bastante claro que os antigos hebreus efetivamente usavam e pronunciavam o nome divino. Marmorstein admite a respeito da mudança ocorrida mais tarde: “Pois neste tempo, na primeira metade do terceiro século [AEC], nota-se uma grande mudança no uso do nome de Deus, que provocou muitas mudanças na doutrina teológica e filosófica judaica, cujas influências se fazem sentir até os dias de hoje.” Um dos efeitos da perda do nome é que o conceito de um Deus anônimo ajudou a criar um vácuo teológico no qual a doutrina da Trindade, da cristandade, se desenvolveu com mais facilidade.k — Êxodo 15:1-3.
44. Quais são alguns dos outros efeitos causados pela supressão do nome de Deus?
44 A recusa de usar o nome divino enfraquece a adoração do Deus verdadeiro. Como disse certo comentarista: “Infelizmente, quando se refere a Deus como ‘o Senhor’, a expressão, embora correta, é fria e sem graça . . . Deve-se lembrar que, ao se traduzir YHWH ou Adonai por ‘o Senhor’, está-se introduzindo em muitas passagens do Velho Testamento um toque de abstração, de formalidade e de vagueza inteiramente estranho ao texto original.” (O Conhecimento de Deus no Antigo Israel [em inglês]) Quão triste é ver o sublime e significativo nome Yahweh, ou Jeová, omitido em muitas traduções da Bíblia, considerando que ele aparece claramente milhares de vezes no texto hebraico original! — Isaías 43:10-12.
Os Judeus Ainda Aguardam o Messias?
45. Que base bíblica existe para se crer num Messias?
45 Há muitas profecias nas Escrituras Hebraicas das quais os judeus de há mais de 2.000 anos derivaram a sua esperança messiânica. Segundo2 Samuel 7:11-16 indicava que o Messias seria da linhagem de Davi. Isaías 11:1-10 profetizou que ele traria justiça e paz a toda a humanidade. Daniel 9:24-27 forneceu a cronologia para o surgimento do Messias e ser ele decepado na morte.
46, 47. (a) Que tipo de Messias era esperado pelos judeus que viviam sob a dominação romana? (b) Que mudança ocorreu nas aspirações judaicas concernente ao Messias?
46 Como explica a Enciclopédia Judaica, por volta do primeiro século, as expectativas messiânicas eram intensas. Esperava-se que o Messias fosse “um carismático descendente de Davi, que os judeus do período romano acreditavam seria suscitado por Deus para quebrar o jugo dos pagãos e reinar sobre um restaurado reino de Israel”. Mas, o militante Messias que os judeus esperavam não apareceu.
47 Não obstante, como diz a Nova Enciclopédia Britânica, a esperança messiânica era vital para manter o povo judeu unido através de suas muitas provações: “O judaísmo indubitavelmente deve a sua sobrevivência, em grande parte, à sua firme fé na promessa messiânica e no futuro.” Mas, com o surgimento do moderno judaísmo entre os séculos 18 e 19, muitos judeus deixaram de esperar passivamente por um Messias. Por fim, com o Holocausto de inspiração nazista, muitos perderam a paciência e a esperança. Passaram a encarar a mensagem messiânica como fator negativo e, portanto, reinterpretaram-na meramente como nova era de prosperidade e paz. Desde então, embora haja exceções, dificilmente se pode dizer que os judeus, como um todo, aguardem um Messias pessoal.
48. Que perguntas podem razoavelmente ser suscitadas a respeito do judaísmo?
48 Esta mudança para uma religião não-messiânica suscita graves perguntas. Estava o judaísmo errado por milhares de anos em crer que o Messias seria um indivíduo? Que forma de judaísmo ajudará a pessoa na sua busca de Deus? Seria o judaísmo antigo, com seus adornos de filosofia grega? Ou uma das formas de judaísmo não-messiânico que se desenvolveram nos últimos 200 anos? Ou existe ainda outro caminho que, fiel e corretamente, preserva a esperança messiânica?
49. Que convite se faz a judeus sinceros?
49 Com estas perguntas em mente, sugerimos que os judeus sinceros reexaminem o assunto do Messias por investigarem as afirmações a respeito de Jesus de Nazaré, não como a cristandade o tem representado, mas sim como os escritores judeus das Escrituras Gregas o apresentaram. Existe uma grande diferença. As religiões da cristandade têm contribuído para que os judeus rejeitassem a Jesus, por causa da sua não-bíblica doutrina da Trindade, claramente inaceitável para qualquer judeu que preza o ensinamento puro de que “O SENHOR NOSSO DEUS, O SENHOR É UM SÓ”. (Deuteronômio 6:4, JP) Por conseguinte, convidamo-lo a ler o capítulo seguinte com mente aberta, a fim de conhecer o Jesus das Escrituras Gregas.
[Nota(s) de rodapé]
a Veja Gênesis 5:22-24, Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas — com Referências, segunda nota sobre o Gê 5 versículo 22.
b Todas as citações neste capítulo, salvo outra indicação, são da moderna (1985) Tanakh, Uma Nova Tradução das Escrituras Sagradas (em inglês), por peritos da Sociedade Publicadora Judaica.
c A cronologia apresentada aqui se baseia no texto bíblico como autoridade. (Veja o livro “Toda a Escritura É Inspirada por Deus e Proveitosa”, publicado pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, Estudo 3, “Consideração dos Eventos na Corrente do Tempo”.)
d O historiador judeu do primeiro século, Yoseph ben Mattityahu (Flávio Josefo) conta que quando Alexandre chegou a Jerusalém, os judeus abriram-lhe os portões e mostraram-lhe a profecia do livro de Daniel, escrita mais de 200 anos antes, que claramente descrevia as conquistas de Alexandre como ‘o Rei da Grécia’. — Jewish Antiquities (Antiguidades Judaicas), Livro XI, Capítulo VIII 5; Daniel 8:5-8, 21.
e Durante o período dos Macabeus (Hasmoneanos, de 165 a 63 AEC), líderes judeus tais como João Hircano até mesmo forçaram a conversão ao judaísmo em larga escala, pela conquista militar. É de interesse que, no começo da Era Comum, 10 por cento do mundo mediterrâneo era judaico. Essa porcentagem mostra claramente o impacto do proselitismo judaico.
f Segundo a Nova Enciclopédia Britânica (em inglês): “O credo trinitarista do cristianismo . . . coloca-o à parte das duas outras clássicas religiões monoteístas [judaísmo e islamismo].” A Trindade foi desenvolvida pela igreja muito embora “a Bíblia dos cristãos não inclua afirmações a respeito de Deus que sejam especificamente trinitaristas”.
g Em adição à autoridade bíblica, foi ensinada como artigo de fé na Míxena (Sinédrio 10:1) e foi incluída como o último dos 13 princípios de fé de Maimônides. Até a chegada do século 20, negar a ressurreição era encarado como heresia.
h “A Bíblia não diz que nós temos uma alma. ‘Nefesh’ é a própria pessoa, sua necessidade de alimento, o próprio sangue nas suas veias, seu ser.” — Dr. H. M. Orlinsky, da Universidade União Hebraica (EUA).
i Veja Êxodo 6:3, onde, na versão Tanakh da Bíblia, o Tetragrama hebraico aparece no texto em inglês.
j A Enciclopédia Judaica diz: “A escusa de pronunciar o nome YHWH é . . . causada por uma má compreensão do Terceiro Mandamento (Êxo. 20:7; Deut. 5:11), como se significasse ‘Não deves tomar o nome de YHWH teu Deus em vão’, quando realmente significa ‘Não deves jurar falsamente em nome de YHWH, teu Deus.’”
k George Howard, professor-adjunto de religião e hebraico na Universidade da Geórgia (EUA), diz: “Com o tempo, essas duas figuras [Deus e Cristo] foram trazidas a uma unidade ainda mais íntima, até que não raro era impossível fazer uma distinção entre elas. Assim, pode ser que a remoção do Tetragrama contribuiu significativamente para posteriores debates cristológicos e trinitários que assolaram a igreja nos primeiros séculos. Qualquer que seja o caso, a remoção do Tetragrama provavelmente criou um clima teológico diferente do que existia durante o período do Novo Testamento, no primeiro século.” — Biblical Archaeology Review, março de 1978.
[Destaque na página 217]
Judeus sefárdicos e asquenazes formaram duas comunidades.
[Foto na página 206]
Abrão (Abraão), o antepassado dos judeus, adorou a Jeová Deus aproximadamente 4.000 anos atrás.
[Foto na página 208]
Estrela de Davi — um símbolo não-bíblico de Israel e do judaísmo.
[Foto na página 215]
Escriba judeu copiando texto hebraico.
[Foto na página 222]
Família judia hassidiana celebrando o Sabath.
[Foto na página 233]
Judeus devotos usando filactérios, ou caixinhas de rolo de orações, no braço e na testa.
[Foto/Quadro na página 211]
Dez Mandamentos Para Adoração e Conduta
Milhões de pessoas ouviram falar dos Dez Mandamentos, mas poucas realmente já os leram. Assim, reproduzimos aqui a essência de seu texto.
▪ “Não deves ter outros deuses além de Mim.
▪ “Não deves fazer para ti uma imagem esculpida, nem qualquer semelhança do que há nos céus acima, ou na terra embaixo, ou nas águas sob a terra. Não deves curvar-te perante elas nem servi-las. . . . [Nessa data remota, 1513 AEC, este mandamento era ímpar na sua rejeição da idolatria.]
▪ “Não deves jurar falsamente em nome do SENHOR [hebraico: יהוה] teu Deus . . .
▪ “Lembra-te do dia de sábado e mantém-no sagrado. . . . O SENHOR abençoou o dia de sábado e o consagrou.
▪ “Honra teu pai e tua mãe . . .
▪ “Não deves assassinar.
▪ “Não deves cometer adultério.
▪ “Não deves roubar.
▪ “Não deves dar falso testemunho contra o teu próximo.
▪ “Não deves cobiçar a casa . . . a esposa . . . o escravo ou a escrava de teu próximo, nem seu boi ou seu jumento, ou qualquer coisa que pertença a teu próximo.” — Êxodo 20:3-14.
Embora apenas os primeiros quatro mandamentos sejam diretamente ligados com a crença religiosa e a adoração, os outros mandamentos mostravam a conexão entre a conduta adequada e o correto relacionamento com o Criador.
[Foto]
Apesar da lei ímpar recebida de Deus, Israel imitou a adoração do bezerro, praticada por seus vizinhos pagãos. (Bezerro de ouro, em Biblos)
[Fotos/Quadro nas páginas 220 e 221]
Os Escritos Sagrados dos Hebreus
Os escritos sagrados hebraicos começaram com a “Tanakh”.
O nome “Tanakh” vem das três divisões da Bíblia judaica em hebraico: Torah (Lei), Nevi’im (Profetas) e Kethuvim (Escritos), usando-se a primeira letra de cada seção para formar a palavra TaNaKh. Estes livros foram escritos em hebraico e em aramaico a partir do século 16 e até o 5.º século AEC.
Os judeus crêem que foram escritos sob diferentes e decrescentes graus de inspiração. Assim, eles os colocam na seguinte ordem de importância:
Torah (Tora) — os cinco livros de Moisés, ou Pentateuco (do grego para “cinco rolos”), a Lei, consistindo de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Contudo, o termo “Torah” pode também ser usado para referir-se à Bíblia judaica como um todo, bem como à lei oral e ao Talmude (veja página seguinte).
Nevi’im — Os Profetas, abrangendo de Josué até os profetas maiores, Isaías, Jeremias e Ezequiel, e daí através dos 12 profetas “menores”, de Oséias a Malaquias.
Kethuvim — os Escritos, que abrangem as obras poéticas, os Salmos, Provérbios, Jó, O Cântico dos Cânticos e Lamentações. Inclui também Rute, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras, Neemias e Primeiro e Segundo Crônicas.
O Talmude
Do ponto de vista gentio, a “Tanakh”, ou Bíblia judaica, é o mais importante dos escritos judaicos. Contudo, o conceito judaico é diferente. Muitos judeus concordariam com o comentário de Adin Steinsaltz, um rabino: “Se a Bíblia é a pedra angular do judaísmo, o Talmude é a coluna central, erguendo-se a partir das fundações e sustentando o inteiro edifício espiritual e intelectual . . . Nenhuma outra obra teve uma influência comparável na teoria e na prática da vida judaica.” (The Essential Talmud) O que, então, é o Talmude?
Os judeus ortodoxos crêem não apenas que Deus deu a lei escrita, ou Tora, a Moisés no monte Sinai, mas também que Deus revelou-lhe explicações específicas sobre como aplicar essa Lei, e que essas deviam ser transmitidas através da palavra oral. Isso foi chamado de lei oral. Assim, o Talmude é o resumo escrito, com posteriores comentários e explicações, dessa lei oral, compilado por rabinos a partir do segundo século EC até a Idade Média.
O Talmude divide-se usualmente em duas seções principais:
Míxena: Uma coletânea de comentários suplementando a Lei escritural, baseada em explicações de rabinos chamados tanaítas (mestres). Foi escrita em fins do segundo e início do terceiro séculos EC.
Guemara (originalmente chamada de Talmude): Uma coletânea de comentários sobre a Míxena feita por rabinos de um período posterior (terceiro ao sexto séculos EC).
Além dessas duas divisões principais, o Talmude talvez inclua comentários sobre a Guemara feitos por rabinos já na Idade Média. Destacam-se os rabinos Rashi (Salomão ben Isaac, 1040-1105), que tornou bem mais compreensível a difícil linguagem do Talmude, e Rambam (Moisés ben Maimon, mais conhecido como Maimônides, 1135-1204), que reorganizou o Talmude e fez uma versão mais concisa dele (“Mishneh Torah”), tornando-o acessível a todos os judeus.
[Fotos]
Abaixo, antiga Tora do que é conhecido como Túmulo de Ester, no Irã; à direita, hino de louvor em hebraico e iídiche, baseado em versículos das Escrituras.
[Fotos/Quadro nas páginas 226 e 227]
Judaísmo — Uma Religião de Muitas Vozes
Existem importantes diferenças entre as várias facções do judaísmo. Tradicionalmente, o judaísmo enfatiza a prática religiosa. Debates sobre tais assuntos, em vez de sobre crenças, têm causado séria tensão entre os judeus e levou à formação de três principais divisões no judaísmo.
JUDAÍSMO ORTODOXO — Este ramo não apenas aceita que a “Tanakh” hebraica sejam as Escrituras inspiradas, como também crê que Moisés recebeu a lei oral de Deus no monte Sinai na mesma ocasião em que recebeu a Lei escrita. Judeus ortodoxos guardam escrupulosamente os mandamentos de ambas as leis. Crêem que o Messias ainda está para vir e levar Israel a uma era de ouro. Devido a diferenças de opinião entre o grupo ortodoxo, surgiram várias facções. Um exemplo é o hassidismo.
Hassidins (Chassidins, significando “os pios”) — São encarados como ultra-ortodoxos. Fundada por Israel ben Eliezer, conhecido como Baʽal Shem Tov (“Mestre do Bom Nome”), em meados do século 18 na Europa Oriental, seus adeptos seguem um ensino que destaca a música e a dança, resultando em alegria mística. Muitas de suas crenças, incluindo a reencarnação, baseiam-se nos livros místicos judaicos conhecidos como Cabala. Hoje são liderados por rebbes (“rabinos” em iídiche), ou tzádiks, considerados por seus seguidores como homens supremamente justos ou santos.
Os hassidins hoje são encontrados principalmente nos Estados Unidos e em Israel. Eles usam um tipo especial de vestimenta européia oriental, predominantemente preta, dos séculos 18 e 19, que os torna muito conspícuos, especialmente no cenário duma cidade moderna. Atualmente estão divididos em seitas que seguem diferentes destacados rebbes. Um grupo muito ativo são os Lubavitchers, que fazem vigoroso proselitismo entre judeus. Alguns grupos crêem que apenas o Messias tem o direito de restaurar Israel como nação dos judeus e, assim, opõem-se ao Estado secular de Israel.
JUDAÍSMO REFORMISTA (também conhecido como “Liberal” e “Progressista”) — O movimento começou na Europa Ocidental, perto do começo do século 19. Baseia-se nos conceitos de Moisés Mendelssohn, intelectual judeu do século 18, que cria que os judeus deviam assimilar a cultura ocidental, em vez de se separarem dos gentios. Os judeus reformistas negam que a Tora seja a verdade revelada por Deus. Consideram obsoletas as leis judaicas sobre dieta, pureza e vestimenta. Crêem no que chamam de “era messiânica de fraternidade universal”. Em anos recentes, têm voltado a um judaísmo mais tradicional.
JUDAÍSMO CONSERVADOR — Este começou na Alemanha, em 1845, como ramificação do Judaísmo Reformista, que, segundo se pensava, rejeitara um número excessivamente grande de práticas judaicas tradicionais. O judaísmo conservador não aceita que a lei oral tenha sido recebida por Moisés, da parte de Deus, mas sustenta que os rabinos, que tentaram adaptar o judaísmo a uma nova era, inventaram a Tora oral. Os judeus conservadores submetem-se aos preceitos bíblicos e à lei rabínica se estes “atenderem às exigências modernas da vida judaica”. (O Livro do Conhecimento Judaico [em inglês]) Eles usam o hebraico e o inglês na sua liturgia e seguem estritas leis dietéticas (kashruth). Permite-se que homens e mulheres sentem-se juntos durante a adoração, algo não permitido pelo judaísmo ortodoxo.
[Fotos]
À esquerda, judeus no Muro das Lamentações, em Jerusalém, e, acima, um judeu orando, com Jerusalém ao fundo.
[Fotos/Quadro nas páginas 230 e 231]
Algumas Importantes Festividades e Costumes
A maioria das festividades judaicas baseia-se na Bíblia e são, em geral, quer festividades sazonais, em conexão com diferentes colheitas, quer relacionadas com eventos históricos.
▪ Sabath — O sétimo dia da semana judaica (do pôr-do-sol de sexta-feira ao pôr-do-sol de sábado) é encarado como santificando a semana, e a observância especial desse dia é parte essencial da adoração. Os judeus vão à sinagoga para leituras da Tora e orações. — Êxodo 20:8-11.
▪ Iom Kipur — Dia de Expiação, festividade solene caracterizada por jejum e auto-exame. Culmina os Dez Dias de Penitência que começam com Rosh Hashanah, o Ano-Novo judaico, que cai em setembro, segundo o calendário judaico secular. — Levítico 16:29-31; 23:26-32.
▪ Sucot — Festividade das Tendas, ou Tabernáculos, ou Recolhimento. Comemora a colheita e o fim da maior parte do ano agrícola. Realizada em outubro. (Foto acima) — Levítico 23:34-43; Números 29:12-38; Deuteronômio 16:13-15.
▪ Hanucah — Festividade da Dedicação. Festividade popular realizada em dezembro, que comemora a restauração, pelos macabeus, da independência judaica da dominação siro-grega e a rededicação do templo em Jerusalém, em dezembro de 165 AEC. Em geral destaca-se por se acender velas durante oito dias.
▪ Purim — Festividade das Sortes. Celebrada em fins de fevereiro ou princípios de março, em comemoração da libertação dos judeus na Pérsia, no quinto século AEC, de Hamã e sua trama genocida. — Ester 9:20-28.
▪ Pesach — Festividade da Páscoa. Instituída para comemorar a libertação de Israel do cativeiro no Egito (1513 AEC). É a maior e mais antiga das festividades judaicas. Realizada em 14 de nisã (calendário judaico), em geral cai no fim de março ou começo de abril. Todas as famílias judaicas se reúnem para participar da refeição da Páscoa, ou Seder. Nos sete dias seguintes, não é permitido comer fermento. Este período é chamado de Festividade dos Pães Não-fermentados (Matzot). — Êxodo 12:14-20, 24-27.
Alguns Costumes Judaicos
▪ Circuncisão — Para meninos judeus, é uma importante cerimônia que acontece quando o bebê tem oito dias. Muitas vezes é chamada de Pacto de Abraão, uma vez que a circuncisão foi o sinal do pacto de Deus com ele. Os varões que se convertem ao judaísmo também têm de ser circuncidados. — Gênesis 17:9-14.
▪ Bar Mitzvah (abaixo) — Ainda outro ritual judaico essencial, que literalmente significa “filho do mandamento”, um “termo que denota tanto a obtenção de maturidade religiosa e legal como a ocasião em que esse status é formalmente assumido por meninos à idade de 13 anos mais um dia”. Tornou-se costume judaico apenas no século 15 EC. — Enciclopédia Judaica.
▪ Mezuzá (acima) — Geralmente é fácil de distinguir um lar judaico por causa do mezuzá, ou receptáculo de rolo, afixado na ombreira da porta, à direita de quem entra. Na realidade, o mezuzá é um pequeno pergaminho no qual estão escritas palavras citadas de Deuteronômio 6:4-9 e De 11:13-21. Este é enrolado dentro de um pequeno receptáculo. Daí o receptáculo é afixado a cada porta de cada cômodo em uso.
▪ Iármulque (solidéu para varões) — Segundo a Enciclopédia Judaica: “O povo judeu ortodoxo . . . considera a cobertura da cabeça, tanto fora como dentro da sinagoga, como sinal de fidelidade à tradição judaica.” Cobrir a cabeça durante a adoração não é mencionado em parte alguma da Tanakh, assim, o Talmude menciona isso como questão de costume opcional. Mulheres judias hassidianas usam sempre uma cobertura para a cabeça, ou então rapam a cabeça e usam peruca.
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Cristianismo — era Jesus o caminho a Deus?O Homem em Busca de Deus
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Capítulo 10
Cristianismo — era Jesus o caminho a Deus?
Até aqui, à exceção do capítulo sobre o judaísmo, consideramos as principais religiões que se fundam em larga escala na mitologia. Examinaremos agora mais uma religião que afirma levar a humanidade para mais perto de Deus — o cristianismo. Qual é a base do cristianismo — mitos ou fatos históricos?
1. (a) Por que a história da cristandade leva alguns a terem sérias dúvidas a respeito do cristianismo? (b) Que distinção fazemos entre cristandade e cristianismo?
A HISTÓRIA da cristandade,a com suas guerras, inquisições, cruzadas e hipocrisia religiosa, não ajudou a causa do cristianismo. Muçulmanos devotos e outros apontam para a corrupção moral e a decadência do mundo ocidental “cristão” como base para rejeitar o cristianismo. De fato, as chamadas nações cristãs perderam o leme moral e naufragaram nos rochedos da falta de fé, da ganância e da luxúria.
2, 3. (a) Que contraste existe entre a conduta dos primitivos cristãos e a de pessoas da atual cristandade? (b) Que perguntas merecem resposta?
2 Que os padrões do cristianismo original eram diferentes dos atuais costumes permissivos é atestado pela professora Elaine Pagels, em seu livro Adão, Eva e a Serpente (em inglês), em que ela diz: “Muitos cristãos dos primeiros quatro séculos orgulhavam-se de seu refreamento sexual; eles evitavam a poligamia e não raro também o divórcio, que a tradição judaica permitia; e repudiavam as práticas sexuais extramaritais comumente aceitas entre seus contemporâneos pagãos, que incluíam a prostituição e o homossexualismo.”
3 Assim, é próprio perguntar: É a história da cristandade e seu atual estado moral um reflexo fiel dos ensinos de Jesus Cristo? Que tipo de homem era Jesus? Ajudou ele a levar a humanidade mais para perto de Deus? Era ele o prometido Messias das profecias hebraicas? Estas são algumas das perguntas que abordaremos neste capítulo.
Jesus — Quais Eram as Suas Credenciais?
4. Em nosso estudo, que clara diferença temos notado entre o cristianismo e suas raízes e as principais religiões do mundo?
4 Em capítulos anteriores, vimos o papel destacado que a mitologia tem desempenhado em praticamente todas as principais religiões do mundo. Todavia, quando consideramos as origens do judaísmo, no capítulo anterior, não começamos com um mito, mas sim com a realidade histórica de Abraão, seus antepassados e seus descendentes. Com o cristianismo e seu fundador, Jesus, também começamos, não com mitologia, mas sim com um personagem histórico. — Veja quadro, página 237.
5. (a) Quais são três das credenciais de Jesus que provam que ele era a prometida “semente” de Abraão? (b) Quem escreveu as Escrituras Gregas Cristãs?
5 O primeiro versículo das Escrituras Gregas Cristãs, comumente conhecidas como Novo Testamento (veja quadro, página 241), declara: “O livro da história de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.” (Mateus 1:1) Trata-se duma afirmação infundada de Mateus, um ex-cobrador de impostos judeu, discípulo imediato e biógrafo de Jesus? Não. Os 15 versículos seguintes Mt 1:2-16apresentam a linha de descendentes de Abraão até Jacó, que “tornou-se pai de José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo”. Por conseguinte, Jesus realmente era descendente de Abraão, Judá e Davi, e, como tal, tinha três das credenciais do predito “descendente” [“semente”] de Gênesis 3:15 e de Abraão. — Gênesis 22:18; 49:10; 1 Crônicas 17:11.
6, 7. Por que era significativo o lugar de nascimento de Jesus?
6 Outra credencial para a Semente messiânica seria seu lugar de nascimento. Onde nasceu Jesus? Mateus nos diz que Jesus “[nasceu] em Belém da Judéia, nos dias de Herodes, o rei”. (Mateus 2:1) O relato do médico Lucas confirma isso, dizendo-nos sobre o futuro pai adotivo de Jesus: “José . . . subiu também da Galiléia, da cidade de Nazaré, e foi à Judéia, à cidade de Davi, que se chama Belém, por ser membro da casa e família de Davi, a fim de ser registrado com Maria, que lhe fora dada em casamento, conforme prometido, nesta ocasião já em estado avançado de gravidez.” — Lucas 2:4, 5.
7 Por que era importante que Jesus nascesse em Belém, e não em Nazaré, ou em outra cidade qualquer? Por causa duma profecia proferida no oitavo século AEC pelo profeta hebreu Miquéias: “E tu, Belém Efrata, pequena demais para chegar a estar entre os milhares de Judá, de ti me sairá aquele que há de tornar-se governante em Israel, cuja origem é desde os tempos primitivos, desde os dias do tempo indefinido.” (Miquéias 5:2) Assim, seu lugar de nascimento dá a Jesus mais uma credencial para ser a prometida Semente e o Messias. — João 7:42.
8. Quais são algumas das profecias que Jesus cumpriu?
8 De fato, Jesus cumpriu muitas outras profecias das Escrituras Hebraicas, provando assim que tinha todas as credenciais para ser o prometido Messias. Poderá verificar algumas destas na Bíblia. (Veja quadro, página 245.)b Mas, examinemos agora brevemente a mensagem de Jesus e seu ministério.
A Vida de Jesus Aponta o Caminho
9. (a) Como iniciou Jesus seu ministério público? (b) Como sabemos que Jesus tinha a aprovação de Deus?
9 O relato bíblico nos diz que Jesus foi criado como jovem judeu normal de seus dias, freqüentando a sinagoga local e o templo em Jerusalém. (Lucas 2:41-52) Ao atingir 30 anos, iniciou seu ministério público. Primeiro se dirigiu a seu primo, João, que estava batizando judeus em símbolo de arrependimento, no rio Jordão. Diz o relato de Lucas: “Então, quando todo o povo fora batizado, Jesus também foi batizado, e, enquanto orava, abriu-se o céu e desceu sobre ele o espírito santo, em forma corpórea, semelhante a uma pomba, e uma voz saiu do céu: ‘Tu és meu Filho, o amado; eu te tenho aprovado.’” — Lucas 3:21-23; João 1:32-34.
10, 11. (a) Quais eram algumas das características dos métodos de pregação e ensino de Jesus? (b) Como mostrou Jesus a importância do nome de seu Pai?
10 No devido tempo, Jesus assumiu seu ministério como o ungido Filho de Deus. Percorreu toda a Galiléia e a Judéia pregando a mensagem do Reino de Deus e realizando milagres, tais como curar os doentes. Não aceitava pagamento e não visava riqueza nem engrandecimento pessoal. De fato, ele disse que há mais felicidade em dar do que em receber. Além disso, ensinou seus discípulos a pregar. — Mateus 8:20; 10:7-13; Atos 20:35.
11 Analisando a mensagem de Jesus e os métodos que ele empregava, vemos uma nítida diferença entre seu estilo e o de muitos dos pregadores da cristandade. Ele não manipulava as massas com emocionalismo vulgar ou com táticas de amedrontar as pessoas com um inferno de fogo. Em vez disso, Jesus usava uma lógica simples e parábolas, ou ilustrações, da vida cotidiana, para apelar ao coração e à mente. Seu famoso Sermão do Monte é um notável exemplo de seus ensinos e métodos. Inclui-se nesse sermão a oração-modelo, em que Jesus dá uma clara indicação das prioridades cristãs, colocando a santificação do nome de Deus em primeiro lugar. (Veja quadro, páginas 258-9.) — Mateus 5:1-7:29; 13:3-53; Lucas 6:17-49.
12. (a) Como manifestou Jesus amor em seus ensinos e ações? (b) Quão diferente seria o mundo se o amor cristão fosse realmente praticado?
12 Nos tratos com seus seguidores e com o público em geral, Jesus manifestava amor e compaixão. (Marcos 6:30-34) Ao passo que pregava a mensagem do Reino de Deus, pessoalmente também praticava o amor e a humildade. Assim, nas horas finais de sua vida, Jesus podia dizer a seus discípulos: “Eu vos dou um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Por meio disso saberão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor entre vós.” (João 13:34, 35) Portanto, a essência do exercício do cristianismo é o amor abnegado baseado em princípios. (Mateus 22:37-40) Na prática, isso significa que o cristão deve amar até mesmo seus inimigos, embora possa odiar as más obras que estes praticam. (Lucas 6:27-31) Pense nisso por um instante. Quão diferente seria o mundo se todos realmente praticassem essa forma de amor! — Romanos 12:17-21; 13:8-10.
13. De que modo o ensino de Jesus era diferente do de Confúcio, de Lao-tzu e do Buda?
13 Não obstante, o que Jesus ensinou era muito mais do que uma ética ou filosofia, como as ensinadas por Confúcio e Lao-tzu. Além do mais, Jesus não ensinou, como o Buda, que a pessoa pode produzir a sua própria salvação pela vereda do conhecimento e da iluminação. Em vez disso, ele apontou para Deus como a fonte de salvação, quando disse: “Porque Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, a fim de que todo aquele que nele exercer fé não seja destruído, mas tenha vida eterna. Pois, Deus enviou seu Filho ao mundo, não para julgar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por intermédio dele.” — João 3:16, 17.
14. Por que podia Jesus dizer: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida”?
14 Por manifestar o amor de seu Pai em suas próprias palavras e ações, Jesus levou as pessoas mais para perto de Deus. Esta é uma das razões pelas quais ele podia dizer: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim. . . . Quem me tem visto, tem visto também o Pai. Como é que dizes: ‘Mostra-nos o Pai’? Não acreditas que eu esteja em união com o Pai e que o Pai esteja em união comigo? As coisas que vos digo não falo da minha própria iniciativa; mas o Pai, que permanece em união comigo, está fazendo as suas obras. . . . Ouvistes que eu vos disse: Vou embora e venho de volta a vós. Se me amásseis, alegrar-vos-íeis de que vou embora para o Pai, porque o Pai é maior do que eu.” (João 14:6-28) Sim, Jesus era “o caminho, e a verdade, e a vida” porque estava conduzindo aqueles judeus de volta ao seu Pai, o Deus verdadeiro deles, Jeová. Por conseguinte, com Jesus, o empenho da humanidade na busca de Deus subitamente tomou ímpeto porque Deus, em seu supremo amor, enviara Jesus à terra como farol de luz e de verdade para conduzir os homens ao Pai. — João 1:9-14; 6:44; 8:31, 32.
15. (a) O que temos de fazer para encontrar a Deus? (b) Que evidência do amor de Deus existe aqui na terra?
15 À base do ministério e do exemplo de Jesus, o missionário Paulo podia mais tarde dizer aos gregos, em Atenas: “E [Deus] fez de um só homem toda nação dos homens, para morarem sobre a superfície inteira da terra, e decretou os tempos designados e os limites fixos da morada dos homens, para buscarem a Deus, se tateassem por ele e realmente o achassem, embora, de fato, não esteja longe de cada um de nós. Pois, por meio dele temos vida, e nos movemos, e existimos.” (Atos 17:26-28) Sim, Deus pode ser encontrado, caso a pessoa se disponha a fazer o esforço para buscá-lo. (Mateus 7:7, 8) Deus tornou manifesto a si mesmo e seu amor por aprovisionar uma terra que sustenta uma aparentemente infindável variedade de vida. Ele supre o necessário a todos dentre a humanidade, sejam justos, sejam injustos. Além disso, deu à humanidade a sua Palavra escrita, a Bíblia, e enviou seu Filho qual sacrifício resgatador.c Ademais, Deus tem fornecido a ajuda de que as pessoas necessitam para encontrar o caminho que leva a Ele. — Mateus 5:43-45; Atos 14:16, 17; Romanos 3:23-26.
16, 17. Como deve ser manifesto o amor dos cristãos verdadeiros?
16 Naturalmente, o amor cristão deve ser manifestado não apenas em palavras, mas, o que é mais importante, em ações. Por isso, o apóstolo Paulo escreveu: “O amor é longânime e benigno. O amor não é ciumento, não se gaba, não se enfuna, não se comporta indecentemente, não procura os seus próprios interesses, não fica encolerizado. Não leva em conta o dano. Não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade. Suporta todas as coisas, acredita todas as coisas, espera todas as coisas, persevera em todas as coisas. O amor nunca falha.” — 1 Coríntios 13:4-8.
17 Jesus também deixou claro quão importante é proclamar o Reino dos céus — o governo de Deus sobre a humanidade submissa. — Mateus 10:7; Marcos 13:10.
Todo Cristão é um Evangelizador
18. (a) O que foi destacado no Sermão do Monte de Jesus? (b) Que responsabilidade tem todo o cristão? (c) Como preparou Jesus seus discípulos para o ministério, e que mensagem pregariam?
18 Em seu Sermão do Monte, Jesus enfatizou à multidão a responsabilidade de cada pessoa de iluminar outros por meio de suas palavras e ações. Disse ele: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte. As pessoas acendem uma lâmpada e a colocam, não debaixo do cesto de medida, mas no velador, e ela brilha sobre todos na casa. Do mesmo modo, deixai brilhar a vossa luz perante os homens, para que vejam as vossas obras excelentes e dêem glória ao vosso Pai, que está nos céus.” (Mateus 5:14-16) Jesus treinou seus discípulos, de modo que soubessem pregar e ensinar nas suas viagens como ministros itinerantes. E qual seria a mensagem deles? A mesma que o próprio Jesus pregara, o Reino de Deus, que governaria a terra em justiça. Como Jesus explicou em certa ocasião: “Tenho de declarar as boas novas do reino de Deus também a outras cidades, porque fui enviado para isso.” (Lucas 4:43; 8:1; 10:1-12) Ele declarou também que parte do sinal que identificaria os últimos dias seria que estas ‘boas novas do reino seriam pregadas em toda a terra habitada, em testemunho a todas as nações; e então viria o fim’. — Mateus 24:3-14.
19, 20. (a) Por que o cristianismo verdadeiro sempre tem sido uma religião ativa e pregadora? (b) Que perguntas básicas exigem agora uma resposta?
19 Em 33 EC, antes de por fim ascender ao céu, o ressuscitado Jesus instruiu seus discípulos: “Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Ide, portanto, e fazei discípulos de pessoas de todas as nações, batizando-as em o nome do Pai, e do Filho, e do espírito santo, ensinando-as a observar todas as coisas que vos ordenei. E eis que estou convosco todos os dias, até à terminação do sistema de coisas.” (Mateus 28:18-20) Esta é uma das razões pelas quais o cristianismo, bem desde seu início, era uma religião ativa e proselitista, que provocava a ira e o ciúme dos seguidores das predominantes religiões gregas e romanas daqueles dias, baseadas na mitologia. A perseguição de Paulo em Éfeso ilustra claramente esse fato. — Atos 19:23-41.
20 As perguntas agora são: O que a mensagem do Reino de Deus ofereceu quanto aos mortos? Que esperança para os mortos pregou Cristo? Oferecia ele às “almas imortais” de seus seguidores a salvação do “inferno de fogo”? Ou o quê? — Mateus 4:17.
Esperança de Vida Eterna
21, 22. (a) Ao que comparou Jesus a condição do falecido Lázaro, e por quê? (b) Que esperança tinha Marta com relação a seu falecido irmão?
21 Talvez o entendimento mais claro que se possa obter da esperança que Jesus pregou seja à base daquilo que ele disse e fez quando seu amigo Lázaro morreu. Como encarou Jesus essa morte? Rumando para a casa de Lázaro, ele disse a seus discípulos: “Lázaro, nosso amigo, foi descansar, mas eu viajo para lá para o despertar do sono.” (João 11:11) Jesus comparou o estado de morte de Lázaro ao sono. Quando profundamente adormecidos, não estamos cônscios de nada, o que concorda com a expressão hebraica em Eclesiastes 9:5: “Pois os viventes estão cônscios de que morrerão; os mortos, porém, não estão cônscios de absolutamente nada.”
22 Embora Lázaro estivesse morto há quatro dias, notamos que Jesus nada disse a respeito de a alma de Lázaro estar no céu, no inferno ou no purgatório! Quando Jesus chegou a Betânia, e Marta, irmã de Lázaro, foi ao seu encontro, ele disse-lhe: “Teu irmão se levantará.” Como respondeu ela? Disse ela que ele já estava no céu? Marta respondeu: “Sei que ele se levantará na ressurreição, no último dia.” Isto mostra claramente que a esperança judaica naquele tempo era a ressurreição, o retorno à vida aqui na terra. — João 11:23, 24, 38, 39.
23. Que milagre fez Jesus, e com que efeito sobre os observadores?
23 Jesus respondeu: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem exercer fé em mim, ainda que morra, viverá outra vez; e todo aquele que vive e exerce fé em mim nunca jamais morrerá. Crês isso?” (João 11:25, 26) Para provar o que dizia, Jesus dirigiu-se à gruta em que Lázaro estava sepultado e chamou-o para fora, vivo, à vista de suas irmãs, Maria e Marta, e de vizinhos. O relato continua: “Portanto, muitos dos judeus, que tinham vindo a Maria e que observaram o que ele fez, depositaram fé nele . . . A multidão, que estivera com ele quando chamou Lázaro para fora do túmulo memorial e o levantou dentre os mortos, concordemente, dava testemunho.” (João 11:45; 12:17) Eles tinham visto pessoalmente o milagre, creram e atestaram a sua realidade. Os opositores religiosos de Jesus também devem ter crido no evento, pois o registro diz que os principais sacerdotes e os fariseus tramaram matar Jesus “visto que este homem realiza muitos sinais”. — João 11:30-53.
24. (a) Onde esteve Lázaro por quatro dias? (b) O que diz a Bíblia sobre imortalidade?
24 Para onde foi Lázaro nos quatro dias em que esteve morto? Para lugar algum. Ele estava inconsciente, adormecido no túmulo, aguardando a ressurreição. Jesus abençoou-o por milagrosamente levantá-lo dentre os mortos. Mas, segundo o relato de João, Lázaro nada disse a respeito de ter estado no céu, no inferno ou no purgatório naqueles quatro dias. Por que não? Simplesmente porque ele não tinha uma alma imortal que pudesse seguir para tais lugares.d — Jó 36:14; Ezequiel 18:4.
25. (a) Quando a Bíblia fala de vida eterna, a que se refere? (b) A vinda do prometido Reino de Deus depende de quê?
25 Por conseguinte, quando Jesus falava de vida eterna, ele se referia ou a tal vida no céu, qual transformado co-regente espiritual imortal com ele em Seu Reino, ou a viver para sempre como humano numa terra paradísica sob tal governo do Reino.e (Lucas 23:43; João 17:3) Segundo a promessa de Deus, morar ele figurativamente com a humanidade obediente na terra trará abundantes bênçãos à terra. Tudo isso, naturalmente, depende de se Jesus foi mesmo enviado por Deus e realmente teve a Sua aprovação. — Lucas 22:28-30; Tito 1:1, 2; Revelação 21:1-4.
Aprovação de Deus — Realidade, Não Mito
26. Que notável evento ocorreu na presença dos discípulos Pedro, Tiago e João?
26 Como sabemos que Jesus tinha a aprovação de Deus? Em primeiro lugar, quando Jesus foi batizado, ouviu-se uma voz do céu dizer: “Este é meu Filho, o amado, a quem tenho aprovado.” (Mateus 3:17) Mais tarde, essa aprovação foi confirmada diante de outras testemunhas. Os discípulos Pedro, Tiago e João, ex-pescadores da Galiléia, acompanharam Jesus a uma alta montanha (provavelmente o monte Hermon, que se eleva a 2.814 metros). Ali, ocorreu algo de notável diante de seus olhos: “E [Jesus] foi transfigurado diante deles, e o seu rosto brilhava como o sol, e a sua roupagem exterior tornou-se brilhante como a luz. E eis que lhe apareceram Moisés e Elias, conversando com ele. . . . Eis que uma nuvem luminosa os encobriu, e eis uma voz vinda da nuvem, dizendo: ‘Este é meu Filho, o amado, a quem tenho aprovado; escutai-o.’ Ouvindo isso, os discípulos prostraram-se com os seus rostos em terra e ficaram com muito medo.” — Mateus 17:1-6; Lucas 9:28-36.
27. (a) Que efeito teve sobre os discípulos a transfiguração? (b) Como sabemos que Jesus não era mito?
27 Essa confirmação audível e visível da parte de Deus serviu para fortalecer enormemente a fé de Pedro, pois ele mais tarde escreveu: “Não, não foi por seguirmos histórias falsas [grego: mý·thois, mitos], engenhosamente inventadas, que vos familiarizamos com o poder e a presença de nosso Senhor Jesus Cristo, mas foi por nos termos tornado testemunhas oculares da sua magnificência. Pois ele recebeu de Deus, o Pai, honra e glória, quando pela glória magnificente lhe foram dirigidas palavras tais como estas: ‘Este é meu Filho, meu amado, a quem eu mesmo tenho aprovado.’ Sim, estas palavras nós ouvimos dirigidas desde o céu, enquanto estávamos com ele no monte santo.” (2 Pedro 1:16-18) Os discípulos judeus Pedro, Tiago e João realmente viram o milagre da transfiguração de Jesus e ouviram a voz de aprovação de Deus, procedente do céu. A sua fé baseava-se numa realidade que haviam visto e ouvido, não em mitologia ou em “fábulas judaicas”. (Veja quadro, página 237.) — Mateus 17:9; Tito 1:13, 14.f
A Morte de Jesus e Mais Um Milagre
28. No ano 33 EC, de que foi Jesus acusado falsamente?
28 No ano 33 EC, Jesus foi preso e levado a julgamento pelas autoridades religiosas judaicas, acusado falsamente de blasfemar por chamar a si mesmo de Filho de Deus. (Mateus 26:3, 4, 59-67) Visto que aqueles judeus não tinham autoridade legal para executá-lo, eles o encaminharam a governantes romanos e de novo o acusaram falsamente, dessa vez de proibir o pagamento de impostos a César e de dizer que era rei. — Marcos 12:14-17; Lucas 23:1-11; João 18:28-31.
29. Como morreu Jesus?
29 Depois de Jesus ter passado de um governante para outro, o governador romano Pôncio Pilatos, às instâncias da turba de inspiração religiosa, adotou a lei do menor esforço e sentenciou Jesus à morte. Conseqüentemente, Jesus morreu em desonra numa estaca, e seu corpo foi colocado num túmulo. Mas, dentro de três dias, ocorreu um evento que transformou os desconsolados discípulos de Jesus em alegres crentes e zelosos evangelizadores. — João 19:16-22; Gálatas 3:13.
30. Que providências tomaram os líderes religiosos para evitar um embuste?
30 Os líderes religiosos, suspeitando que os seguidores de Jesus recorreriam à fraude, foram a Pilatos com um pedido: “‘Senhor, lembramo-nos de que esse impostor dizia, enquanto ainda estava vivo: “Depois de três dias eu hei de ser levantado.” Portanto, ordena que o sepulcro seja feito seguro até o terceiro dia, para que não venham os seus discípulos e o furtem, e digam ao povo: “Ele foi levantado dentre os mortos!” e esta última impostura seja pior do que a primeira.’ Pilatos disse-lhes: ‘Tendes uma guarda. Ide fazê-lo tão seguro como sabeis.’ De modo que foram e fizeram o sepulcro seguro por selarem a pedra e terem a guarda.” (Mateus 27:62-66) Quão seguro mostrou ser?
31. O que aconteceu quando mulheres fiéis foram ao túmulo de Jesus?
31 No terceiro dia após a morte de Jesus, três mulheres foram ao túmulo para untar o corpo com óleo perfumado. O que encontraram? “E bem cedo, no primeiro dia da semana, chegaram ao túmulo memorial depois de se levantar o sol. E diziam uma à outra: ‘Quem nos rolará a pedra da frente da porta do túmulo memorial?’ Mas, ao olharem para cima, observaram que a pedra, embora muito grande, tinha sido rolada da frente. Quando entraram no túmulo memorial, viram um jovem sentado à direita, trajado duma comprida veste branca, e elas ficaram atônitas. Ele lhes disse: ‘Parai de ficar atônitas. Vós estais procurando Jesus, o nazareno, que foi pregado numa estaca. Ele foi levantado, não está aqui. Eis o lugar onde o deitaram. Mas ide, dizei aos discípulos dele e a Pedro: “Ele vai adiante de vós para a Galiléia; ali o vereis, assim como ele vos disse.”’” (Marcos 16:1-7; Lucas 24:1-12) Apesar da guarda especial dos líderes religiosos, Jesus fora ressuscitado por seu Pai. É isso um mito ou um fato histórico?
32. Por que razões sólidas cria Paulo que Jesus fora ressuscitado?
32 Cerca de 22 anos depois desse evento, Paulo, um ex-perseguidor de cristãos, escreveu e explicou como ele viera a crer que Cristo havia sido ressuscitado: “Pois eu vos transmiti, entre as primeiras coisas, aquilo que também recebi, que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; e que ele foi enterrado, sim, que foi ressuscitado no terceiro dia, segundo as Escrituras; e que ele apareceu a Cefas, depois aos doze. Depois disso apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a maioria dos quais permanece até o presente, mas alguns já adormeceram na morte. Depois disso apareceu a Tiago, e então a todos os apóstolos.” (1 Coríntios 15:3-7) Sim, Paulo tinha uma base concreta para arriscar a sua vida pela causa do ressuscitado Jesus, e isso incluía o testemunho de cerca de 500 testemunhas oculares que haviam visto o ressuscitado Jesus em pessoa! (Romanos 1:1-4) Paulo sabia que Jesus havia sido ressuscitado, e ele tinha uma razão ainda mais poderosa para dizer isso, como explicou adicionalmente: “Mas, por último de todos, apareceu também a mim, como a alguém nascido prematuramente.” — 1 Coríntios 15:8, 9; Atos 9:1-19.
33. Por que os cristãos primitivos se dispunham a ser mártires por sua fé?
33 Os primitivos cristãos dispunham-se a morrer quais mártires nas arenas romanas. Por quê? Porque sabiam que a sua fé se baseava em realidades históricas, não em mitos. Era uma realidade que Jesus era o Cristo, ou o Messias, prometido em profecias, e que ele fora enviado à terra por Deus, recebera a aprovação de Deus, morrera numa estaca como Filho íntegro de Deus, e fora ressuscitado dentre os mortos. — 1 Pedro 1:3, 4.
34. Segundo o apóstolo Paulo, por que é a ressurreição de Jesus tão essencial para a fé dos cristãos?
34 Sugerimos que leia na íntegra o capítulo 15 de 1 Coríntiosda primeira carta de Paulo aos coríntios para entender o que Paulo cria a respeito da ressurreição e por que ela é essencial para a fé dos cristãos. A essência de sua mensagem é expressa nestas palavras: “No entanto, agora Cristo tem sido levantado dentre os mortos, as primícias dos que adormeceram na morte. Pois, visto que a morte é por intermédio dum homem [Adão], também a ressurreição dos mortos é por intermédio dum homem. Porque, assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados.” — 1 Coríntios 15:20-22.
35. Que bênçãos promete Deus para a terra e a humanidade? (Isaías 65:17-25)
35 Portanto, a ressurreição de Cristo Jesus tinha um objetivo, que, por fim, beneficiará toda a humanidade.g Também, abriu o caminho para que Jesus por fim cumprisse o restante das profecias messiânicas. Seu governo justo, a partir dos céus invisíveis, deverá em breve se estender a uma terra purificada. Daí haverá o que a Bíblia chama de “novo céu e uma nova terra” em que Deus “enxugará dos seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem clamor, nem dor. As coisas anteriores já passaram”. — Revelação 21:1-4.
Esperava-se a Apostasia e a Perseguição
36. O que ocorreu em Pentecostes de 33 EC, e com que resultado?
36 Pouco depois da morte e da ressurreição de Jesus, ocorreu outro milagre que deu força e ímpeto à pregação daqueles primitivos cristãos. No dia de Pentecostes do ano 33 EC, Deus derramou do céu seu espírito santo, ou força ativa, sobre cerca de 120 cristãos reunidos em Jerusalém. O resultado? “E línguas, como que de fogo, tornaram-se-lhes visíveis e se distribuíram, e sobre cada um deles assentou-se uma, e todos eles ficaram cheios de espírito santo e principiaram a falar em línguas diferentes, assim como o espírito lhes concedia fazer pronunciação.” (Atos 2:3, 4) Os judeus de língua estrangeira que estavam em Jerusalém naquela ocasião ficaram abismados de ouvir aqueles supostamente ignorantes judeus galileus falar em línguas estrangeiras. O resultado foi que muitos creram. A mensagem cristã espalhou-se velozmente, à medida que esses novos crentes judeus retornavam às suas terras de origem. — Atos 2:5-21.
37. Como reagiram alguns governantes romanos diante da nova religião cristã?
37 Mas, logo se formaram nuvens tempestuosas. Os romanos ficaram apreensivos com essa nova e aparentemente ateísta religião, que não tinha ídolos. Começando com o imperador Nero, eles moveram uma terrível perseguição contra os cristãos nos primeiros três séculos de nossa Era Comum.h Muitos cristãos foram condenados a morrer nos coliseus, para satisfazer a sádica ânsia de sangue dos imperadores e das massas que afluíam para ver prisioneiros serem atirados a feras.
38. Que condição, que perturbaria a primitiva congregação cristã, foi predita?
38 Outro fator perturbador naqueles primórdios era algo que os apóstolos haviam profetizado. Por exemplo, Pedro declarou: “No entanto, houve também falsos profetas entre o povo, assim como haverá falsos instrutores entre vós. Estes mesmos introduzirão quietamente seitas destrutivas e repudiarão até mesmo o dono que os comprou, trazendo sobre si mesmos uma destruição veloz.” (2 Pedro 2:1-3) Apostasia! Um desvio da adoração verdadeira, uma transigência com as tendências religiosas correntes do mundo romano, saturado de filosofia e pensamento gregos. Como é que se deu isto? O nosso próximo capítulo responderá a esta e a outras perguntas relacionadas. — Atos 20:30; 2 Timóteo 2:16-18; 2 Tessalonicenses 2:3.
[Nota(s) de rodapé]
a Por “cristandade” referimo-nos ao âmbito de atividade sectária dominada por religiões que afirmam ser cristãs. “Cristianismo” refere-se à forma original de adoração e acesso a Deus ensinada por Jesus Cristo.
b Veja também Ajuda ao Entendimento da Bíblia, publicado pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1983, página 1105, sob “Messias”.
c O ensino bíblico do resgate e sua importância será esclarecido no Capítulo 15.
d A expressão “alma imortal” não aparece em lugar algum da Bíblia. A palavra grega traduzida “imortal” e “imortalidade” aparece apenas três vezes e se refere a um novo corpo espiritual que é assumido ou adquirido, não a algo inerente. Aplica-se a Cristo e a cristãos ungidos que se tornam co-regentes de Cristo em Seu Reino celestial. — 1 Coríntios 15:53, 54; 1 Timóteo 6:16; Romanos 8:17; Efésios 3:6; Revelação (Apocalipse) 7:4; 14:1-5.
e Para mais detalhes sobre esse governo do Reino, veja o Capítulo 15.
f “Moisés” e “Elias” na visão simbolizavam a Lei e os Profetas que se cumpriram em Jesus. Para uma explanação mais detalhada sobre a transfiguração, veja Ajuda ao Entendimento da Bíblia, 1983, páginas 1648-9.
g Para um estudo detalhado da ressurreição de Jesus, veja o livro A Bíblia — Palavra de Deus ou de Homem?, publicado pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1989, páginas 78-86.
h O biógrafo romano Suetônio (c. 69-140 EC) registrou que no reinado de Nero, “punições . . . foram infligidas aos cristãos, uma seita que professava uma nova e nociva crença religiosa”.
[Fotos na página 238]
Jesus usou muitas ilustrações no seu ensino — semeadura, colheita, pesca, achar uma pérola, rebanho misto e uma videira, entre outras. (Mateus 13:3-47; 25:32)
[Foto na página 243]
Pelo poder de Deus, Jesus realizou muitos milagres, incluindo acalmar uma tempestade.
[Foto na página 246]
יהוה
O Tetragrama, ou quatro consoantes YHWH (Jeová).
[Foto na página 251]
O relato da ressurreição de Lázaro não faz menção, nem mesmo sugere, que ele tinha uma alma imortal.
[Foto na página 253]
Pedro, Tiago e João sabiam que a aprovação de Jesus, por parte de Deus, não era mito — eles a ouviram e viram, na transfiguração.
[Foto/Quadro na página 237]
Era Jesus um Mito?
“Não será a história do fundador do cristianismo um produto da aflição, da imaginação e da esperança humana — um mito comparável às lendas de Krishna, Osíris, Átis, Adônis, [Dioniso] e Mitras?”, pergunta o historiador Will Durant. Ele responde que, no primeiro século, negar que Cristo tivesse existido “parece não ter ocorrido nem mesmo aos mais severos oponentes do novo credo, judeus ou pagãos”. — A História da Civilização: Vol. III — César e Cristo.
O historiador romano Suetônio (c. 69-140 EC), em sua história The Twelve Caesars (Os Doze Césares), disse a respeito do imperador Cláudio: “Visto que os judeus em Roma causavam contínua perturbação à instigação de Cresto [Cristo], ele os expulsou da cidade.” Isto ocorreu por volta do ano 52 EC. (Compare com Atos 18:1, 2.) Note que Suetônio não expressou dúvidas a respeito da existência de Cristo. Nessa base concreta, e apesar de perseguição que punha em risco a vida, os cristãos primitivos proclamavam mui ativamente a sua fé. É bem improvável que arriscassem a vida à base de um mito. A morte e a ressurreição de Jesus ocorreram em seus dias, e alguns deles eram testemunhas oculares desses eventos.
O historiador Durant conclui: “Seria um milagre ainda mais incrível que apenas em uma geração uns tantos homens simples e rudes (pescadores muitos deles) inventassem uma personalidade tão poderosa e atraente como a de Jesus, uma moral tão elevada e uma tão inspiradora idéia da fraternidade humana.”
[Foto]
Jesus pregou e realizou milagres nesta região galiléia da antiga Palestina.
[Foto/Quadro na página 241]
Quem Escreveu a Bíblia?
A Bíblia cristã consiste em 39 livros das Escrituras Hebraicas (veja quadro, página 220), chamados por muitos de Velho Testamento, e 27 livros das Escrituras Gregas Cristãs, comumente chamados de Novo Testamento.i Assim, a Bíblia é uma biblioteca em miniatura de 66 livros escritos por cerca de 40 homens, no período de 1.600 anos de história (de 1513 AEC a 98 EC).
As Escrituras Gregas incluem quatro Evangelhos, ou relatos da vida de Jesus e das boas novas que ele pregou. Dois destes foram escritos por seguidores imediatos de Cristo, Mateus, um cobrador de impostos, e João, um pescador. Os outros dois foram escritos por dois primitivos crentes, Marcos e Lucas, este um médico. (Colossenses 4:14) Depois dos Evangelhos vem Atos dos Apóstolos, um relato dos primórdios da atividade missionária cristã, compilado por Lucas. A seguir, 14 cartas do apóstolo Paulo a vários cristãos individuais e congregações, seguidas por cartas de Tiago, Pedro, João e Judas. O último livro é Revelação, ou Apocalipse, escrito por João.
Que tantas pessoas de formações diversas e que viveram em diferentes épocas e culturas pudessem produzir um livro tão harmonioso é forte prova de que a Bíblia não é mero produto da inteligência humana mas sim inspirada por Deus. A própria Bíblia diz: “Toda a Escritura é inspirada por Deus [literalmente: “soprada por Deus”] e proveitosa para ensinar.” Assim, as Escrituras foram escritas sob a influência do espírito santo, ou força ativa, de Deus. — 2 Timóteo 3:16, 17, Int.
[Nota(s) de rodapé]
i A Bíblia católica inclui alguns livros a mais, que formam os Apócrifos, e que não são encarados como canônicos pelos judeus e protestantes.
[Foto]
Esta inscrição romana incompleta, estampando o nome de Pôncio Pilatos (segunda linha, “IVS PILATVS”), prova que ele era uma figura influente na Palestina, como a Bíblia diz.
[Foto/Quadro na página 258, 259]
Jesus e o Nome de Deus
Ensinando seus discípulos a orar, Jesus disse: “Portanto, tendes de orar do seguinte modo: ‘Nosso Pai nos céus, santificado seja o teu nome. Venha o teu reino. Realize-se a tua vontade, como no céu, assim também na terra.’” — Mateus 6:9, 10.
Jesus sabia da vital importância do nome de seu Pai e deu ênfase a ele. Assim, a seus inimigos religiosos, ele disse: “Vim em nome de meu Pai, mas não me recebestes; se algum outro chegasse no seu próprio nome, a este receberíeis. . . . Eu vos disse, e ainda assim não acreditais. As obras que eu faço em nome de meu Pai, essas dão testemunho de mim.” — João 5:43; 10:25; Marcos 12:29, 30.
Em oração a seu Pai, Jesus disse: “‘Pai, glorifica o teu nome.’ Saiu, portanto, uma voz do céu: ‘Eu tanto o glorifiquei como o glorificarei de novo.’”
Numa ocasião posterior, Jesus orou: “Tenho feito manifesto o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus e tu mos deste, e eles têm observado a tua palavra. E eu lhes tenho dado a conhecer o teu nome e o hei de dar a conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu em união com eles.” — João 12:28; 17:6, 26.
Como judeu, Jesus por certo estava bem a par do nome de seu Pai, Jeová, ou Iavé, pois conhecia o texto que diz: “‘Vós sois as minhas testemunhas’, é a pronunciação de Jeová, ‘sim, meu servo a quem escolhi, para que saibais e tenhais fé em mim, e para que entendais que eu sou o Mesmo. Antes de mim não foi formado nenhum Deus e depois de mim continuou a não haver nenhum. . . . Portanto, vós sois as minhas testemunhas’, é a pronunciação de Jeová, ‘e eu sou Deus’.” — Isaías 43:10, 12.
Portanto, os judeus, como nação, foram escolhidos para ser testemunhas de Jeová. Como judeu, Jesus era também testemunha de Jeová. — Revelação (Apocalipse) 3:14.
Aparentemente por volta do primeiro século, a maioria dos judeus não mais usava o revelado nome de Deus. Contudo, há manuscritos que provam que os cristãos primitivos que usavam a tradução Septuaginta grega das Escrituras Hebraicas podiam ver o Tetragrama hebraico usado no texto grego. Como disse George Howard, professor de religião e de hebraico: “Quando a Septuaginta que a igreja do Novo Testamento usava e citava continha a forma hebraica do nome divino, os escritores do Novo Testamento sem dúvida incluíam o Tetragrama em suas citações. Mas, quando a forma hebraica para o nome divino foi [mais tarde] eliminada em favor de substitutos em grego na Septuaginta, foi também eliminada das citações da Septuaginta no Novo Testamento.”
Assim, o professor Howard argumenta que os cristãos do primeiro século certamente entendiam com clareza textos como Mateus 22:44, onde Jesus citou as Escrituras Hebraicas para seus inimigos. Howard diz: “A igreja do primeiro século provavelmente lia: ‘YHWH disse a meu Senhor’”, em vez de a versão posterior: “‘O Senhor disse a meu Senhor’ . . . que é tanto ambígua como imprecisa.” — Salmo 110:1.
Que Jesus usou o nome divino é atestado pela acusação judaica, feita séculos após a sua morte, de que, se ele realizou milagres, foi “apenas porque fizera de si mesmo um mestre do ‘secreto’ nome de Deus”. — O Livro do Conhecimento Judaico (em inglês).
Jesus com certeza conhecia o nome ímpar de Deus. Apesar da tradição judaica de então, Jesus certamente usava o nome. Ele não permitiu que as tradições de homens revogassem a lei de Deus. — Marcos 7:9-13; João 1:1-3, 18; Colossenses 1:15, 16.
[Foto]
Fragmento de papiro (do primeiro século AEC) mostrando o nome hebraico de Deus no texto da Septuaginta grega.
[Quadro na página 245]
O Messias nas Profecias Bíblicas.
Profecia Evento Cumprimento
Gên 49:10 Nasceu da tribo de Mt 1:2-16;
Judá Lu 3:23-33
Sal 132:11 Da família de Davi, Mt 1:1, 6-16; 9:27
Is 9:7 filho de Jessé At 13:22, 23
Is 7:14 Nasceu de uma virgem Mt 1:18-23;
Os 11:1 Chamado do Egito Mt 2:15
Is 61:1, 2 Comissionado Lu 4:18-21
Is 53:4 Carregou nossas Mt 8:16,17
doenças
Sal 69:9 Zeloso pela casa de Mt 21:12, 13;
Jeová Jo 2:13-17
Is 53:1 Não foi crido Jo 12:37, 38;
Is 28:16; Rejeitado, porém, Mt 21:42, 45, 46;
Sal 118:22, 23 tornando-se principal At 3:14; 4:11;
pedra do ângulo 1Pe 2:7
Sal 41:9; Um dos apóstolos o Mt 26:47-50;
Za 11:12 Traído por 30 moedas Mt 26:15; 27:3-10;
de prata Mr 14:10, 11
Is 53:8 Julgado e condenado Mt 26:57-68;
Is 53:7 Mudo perante Mt 27:12-14;
Sal 69:4 Odiado sem causa Lu 23:13-25;
Sal 22:18 Lançadas sortes Mt 27:35;
pelas roupas Jo 19:23, 24
Is 53:12 Contado com os Mt 26:55, 56; 27:38
pecadores Lu 22:37
Sal 22:1 Abandonado por Deus Mt 27:46; Mr 15:34
Is 53:9 Sepultado com os ricos Mt 27:57-60;
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Apostasia — bloqueado o caminho a DeusO Homem em Busca de Deus
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Capítulo 11
Apostasia — bloqueado o caminho a Deus
1, 2. (a) Por que são importantes os primeiros 400 anos da história da cristandade? (b) Que verdade a respeito de uma escolha expressou Jesus?
POR QUE são tão importantes os primeiros 400 anos da história da cristandade? Pela mesma razão que são importantes os primeiros anos da vida duma criança — são anos formativos, quando se lança a base para a futura personalidade da pessoa. O que revelam os primeiros séculos da cristandade?
2 Antes de respondermos a esta pergunta, lembremo-nos de uma verdade que Jesus Cristo expressou: “Entrai pelo portão estreito; porque larga e espaçosa é a estrada que conduz à destruição, e muitos são os que entram por ela; ao passo que estreito é o portão e apertada a estrada que conduz à vida, e poucos são os que o acham.” A estrada da conveniência é larga; a de princípios corretos é estreita. — Mateus 7:13, 14.
3. Que dois caminhos estavam à escolha no início do cristianismo?
3 No início do cristianismo, havia dois caminhos possíveis à escolha de quem abraçasse essa fé impopular — apegar-se aos não transigentes ensinos e princípios de Cristo e das Escrituras, ou tender para a ampla e cômoda trilha da transigência com o mundo de então. Como veremos, a história dos primeiros 400 anos mostra qual foi a vereda que a maioria por fim escolheu.
A Sedução da Filosofia
4. Segundo o historiador Durant, como foi que a Roma pagã afetou a igreja primitiva?
4 O historiador Will Durant explica: “A igreja não se limitou a tomar algumas formas e costumes religiosos da Roma [pagã] pré-cristã — a estola e outras vestes sacerdotais, o uso do incenso e da água benta nas purificações, os círios e a luz perpetuamente acesa nos altares, a veneração dos santos, a arquitetura da basílica, a lei romana como base da lei canônica, o título de Pontifex Maximus para o Supremo Pontífice, e no século IV o latim . . . Em breve os bispos, em vez dos prefeitos romanos, seriam a fonte da ordem e a sede do poder nas cidades, os metropolitanos, ou arcebispos, iriam sustentar, senão suplantar, os governadores provinciais; e o sínodo dos bispos sucederia à Assembléia provincial. A Igreja Romana seguiu nas pegadas do Estado Romano.” — A História da Civilização: Volume III — César e Cristo.
5. De que modo a atitude de transigência com o mundo romano pagão se contrasta com os primitivos escritos cristãos?
5 Essa atitude de transigência com o mundo romano contrasta-se nitidamente com os ensinos de Cristo e dos apóstolos. (Veja quadro, página 262.) O apóstolo Pedro aconselhou: “Amados, . . . estou acordando as vossas claras faculdades de pensar por meio dum lembrete, para que vos lembreis das declarações anteriormente feitas pelos santos profetas e do mandamento do Senhor e Salvador por intermédio dos vossos apóstolos. Vós, portanto, amados, tendo este conhecimento adiantado, guardai-vos para que não sejais desviados com eles pelo erro dos que desafiam a lei e não decaiais da vossa firmeza.” Paulo aconselhou claramente: “Não vos ponhais em jugo desigual com incrédulos. Pois, que associação tem a justiça com o que é contra a lei? Ou que parceria tem a luz com a escuridão? . . . ‘“Portanto, saí do meio deles e separai-vos”, diz Jeová, “e cessai de tocar em coisa impura”’; ‘“e eu vos acolherei.”’” — 2 Pedro 3:1, 2, 17; 2 Coríntios 6:14-17; Revelação [Apocalipse] 18:2-5.
6, 7. (a) De que modo os primitivos “pais” da igreja foram influenciados pela filosofia grega? (b) Em que ensinos a influência grega em especial se manifestou? (c) Que alerta quanto à filosofia deu Paulo?
6 Apesar dessa clara admoestação, cristãos apóstatas do segundo século lançaram mão de todos os ornatos da religião romana pagã. Desviaram-se de sua origem bíblica pura e, em seu lugar, revestiram-se de paramentos e títulos romanos pagãos e ficaram imbuídos da filosofia grega. O professor Wolfson, da Universidade de Harvard, EUA, explica em The Crucible of Christianity (O Crisol do Cristianismo) que, no segundo século, houve um grande influxo de “gentios de formação filosófica” no cristianismo. Estes admiravam a sabedoria dos gregos e julgavam ver similaridades entre a filosofia grega e os ensinos das Escrituras. Wolfson continua: “Diversificadamente, eles às vezes se expressam no sentido de que a filosofia é a dádiva especial de Deus aos gregos, através do raciocínio humano, assim como as Escrituras o são para os judeus, através de revelação direta.” Ele continua: “Os Pais da Igreja . . . deram início a seu empreendimento sistemático de mostrar como, por trás da despretensiosa linguagem que as Escrituras gostam de usar, estão ocultos os ensinamentos dos filósofos enunciados nos obscuros termos técnicos cunhados em suas Academias, Liceus e Pórticos [centros de conferências filosóficas].”
7 Tal atitude abriu o caminho para a infiltração da filosofia e da terminologia gregas nos ensinos da cristandade, especialmente nos campos da doutrina trinitarista e da crença numa alma imortal. Como diz Wolfson: “Os Pais [da igreja] passaram a buscar nas reservas da terminologia filosófica dois bons termos técnicos, um dos quais seria usado para designar a realidade da distinção de cada membro da Trindade como indivíduo, e o outro para designar a sua fundamental união comum.” Todavia, tiveram de admitir que “o conceito de um Deus trino é um mistério que não pode ser solvido por raciocínio humano”. Em contraste, Paulo reconhecera claramente o perigo de tal contaminação e ‘desvirtuamento das boas novas’ quando escreveu aos cristãos gálatas e colossenses: “Acautelai-vos: talvez haja alguém que vos leve embora como presa sua, por intermédio de filosofia [grego: fi·lo·so·fí·as] e de vão engano, segundo a tradição de homens, segundo as coisas elementares do mundo e não segundo Cristo.” — Gálatas 1:7-9; Colossenses 2:8; 1 Coríntios 1:22, 23.
Anulada a Ressurreição
8. Com que enigma se tem debatido o homem, e de que modo a maioria das religiões tem tentado resolvê-lo?
8 Como temos visto neste livro, o homem sempre se tem debatido com o enigma de sua curta e limitada existência, que finda na morte. Como disse o escritor alemão Gerhard Herm em seu livro Os Celtas — O Povo Que Saiu da Obscuridade (em inglês): “Religião é, entre outras coisas, uma maneira de fazer as pessoas se resignarem com o fato de que algum dia terão de morrer, seja com a promessa de uma vida melhor no além, seja com o renascimento, ou com ambos.” Praticamente toda religião funda-se na crença de que a alma humana é imortal e que, após a morte, ela viaja para viver no além, ou transmigra para outra criatura.
9. O que o erudito espanhol Miguel de Unamuno concluiu a respeito da crença de Jesus na ressurreição?
9 Quase todas as religiões da moderna cristandade também aderem a essa crença. Miguel de Unamuno, destacado erudito espanhol do século 20, escreveu sobre Jesus: “Ele cria na ressurreição da carne [como no caso de Lázaro (veja páginas 249-52)], à maneira judaica, não na imortalidade da alma, à maneira platônica [grega]. . . . Podem-se ver as provas disso em qualquer livro de interpretação honesto.” Ele concluiu: “A imortalidade da alma . . . é um dogma filosófico pagão.” (La Agonía Del Cristianismo) Esse “dogma filosófico pagão” infiltrou-se nos ensinos da cristandade, embora Cristo obviamente não alimentasse tal idéia. — Mateus 10:28; João 5:28, 29; 11:23, 24.
10. Quais foram algumas das conseqüências da crença numa alma imortal?
10 A sutil influência da filosofia grega foi um fator determinante na apostasia que seguiu à morte dos apóstolos. O ensino grego da alma imortal implicava a necessidade de várias destinações para a alma — céu, inferno de fogo, purgatório, paraíso, limbo.a Manipulando tais ensinos, tornou-se fácil para a classe sacerdotal manter seus rebanhos submissos e no temor do Além e extorquir deles dádivas e doações. Isto nos leva a outra pergunta: Como se originou essa separada classe sacerdotal de clérigos da cristandade? — João 8:44; 1 Timóteo 4:1, 2.
Como Surgiu a Classe Clerical
11, 12. (a) Que outro sinal de apostasia surgiu? (b) Que papel desempenhavam os apóstolos e os anciãos em Jerusalém?
11 Outro sinal de apostasia foi o abandono do ministério geral de todos os cristãos, conforme Jesus e os apóstolos haviam ensinado, em favor do sacerdócio e hierarquia exclusivos que se desenvolveram na cristandade. (Mateus 5:14-16; Romanos 10:13-15; 1 Pedro 3:15) Durante o primeiro século, após a morte de Jesus, seus apóstolos, junto com outros anciãos cristãos espiritualmente qualificados de Jerusalém, trabalhavam para aconselhar e dirigir a congregação cristã. Nenhum deles exercia superioridade sobre os outros. — Gálatas 2:9.
12 No ano 49 EC, foi preciso que eles se reunissem em Jerusalém para resolver questões que afetavam os cristãos em geral. O relato bíblico nos diz que, depois duma consideração aberta, “pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos [pre·sbý·te·roi], junto com toda a congregação, enviar a Antioquia homens escolhidos dentre eles, junto com Paulo e Barnabé, . . . e escreveram por sua mão: ‘Os apóstolos e os anciãos, irmãos, aos irmãos em Antioquia, e Síria, e Cilícia, que são das nações: Cumprimentos!’” Evidentemente, os apóstolos e os anciãos serviam como órgão governante para as amplamente espalhadas congregações cristãs. — Atos 15:22, 23.
13. (a) Que arranjo existia para a supervisão imediata de cada uma das primitivas congregações cristãs? (b) Quais eram as qualificações para anciãos congregacionais?
13 Então, visto que aquele grupo governante em Jerusalém era o primitivo arranjo cristão para a supervisão geral sobre todos os cristãos, que sistema de direção tinham eles em cada congregação, a nível local? A carta de Paulo a Timóteo torna claro que as congregações tinham superintendentes (grego: e·pí·sko·pos, origem da palavra “episcopal”) que eram anciãos espirituais (pre·sbý·te·roi), homens que, por sua conduta e sua espiritualidade, estavam qualificados para ensinar seus concristãos. (1 Timóteo 3:1-7; 5:17) No primeiro século, esses homens não constituíam uma classe clerical separada. Não usavam roupa distintiva. O que os distinguia era sua espiritualidade. De fato, cada congregação tinha um corpo de anciãos (superintendentes), não um governo monárquico de um só homem. — Atos 20:17; Filipenses 1:1.
14. (a) Como foi que por fim os superintendentes cristãos foram substituídos pelos bispos da cristandade? (b) Quem lutou pela primazia entre os bispos?
14 Foi apenas com o tempo que a palavra e·pí·sko·posb (administrador, superintendente) foi convertida em “bispo”, que significa um sacerdote com jurisdição sobre outros membros do clero em sua diocese. Como explica o jesuíta espanhol Bernardino Llorca: “De início, não havia suficiente distinção entre os bispos e os presbíteros, e dava-se atenção apenas ao significado das palavras: bispo é o equivalente de superintendente; presbítero é o equivalente de homem mais velho. . . . Mas, aos poucos, a distinção se tornou mais clara, passando o nome bispo a designar os superintendentes mais importantes, que detinham a suprema autoridade sacerdotal e o direito de ordenar sacerdotes pela imposição das mãos.” (Historia de la Iglesia Católica) De fato, os bispos passaram a atuar numa espécie de sistema monárquico, especialmente a partir do começo do quarto século. Foi estabelecida uma hierarquia, ou corpo regente de clérigos e, com o tempo, o bispo de Roma, afirmando ser o sucessor de Pedro, foi reconhecido por muitos como o supremo bispo e papa.
15. Que abismo existe entre a primitiva liderança cristã e a da cristandade?
15 Hoje, o cargo de bispo nas diferentes religiões da cristandade é um cargo de prestígio e poder, usualmente bem remunerado, e não raro identificado com a elite dominante em cada nação. Mas, entre sua posição orgulhosa e enaltecida e a simplicidade de organização sob Cristo e os anciãos, ou superintendentes, das primitivas congregações cristãs, há uma enorme diferença. E que dizer do abismo entre Pedro e seus chamados sucessores, que têm dominado no suntuoso Vaticano? — Lucas 9:58; 1 Pedro 5:1-3.
Poder e Prestígio Papal
16, 17. (a) Como sabemos que a primitiva congregação romana não era controlada por um bispo ou papa? (b) Como surgiu o uso do título “papa”?
16 Entre as primitivas congregações que aceitaram ser dirigidas pelos apóstolos e anciãos de Jerusalém estava a de Roma, onde a verdade cristã provavelmente chegou algum tempo depois de Pentecostes de 33 EC. (Atos 2:10) Como qualquer outra congregação cristã da época, tinha anciãos, que serviam como corpo de superintendentes sem nenhum deles ter a primazia. Por certo, nenhum dos primitivos superintendentes da congregação de Roma foi encarado por seus contemporâneos como bispo ou papa, visto que o episcopado monárquico em Roma ainda não viera à existência. Exatamente quando começou o episcopado monárquico, ou de um só homem, é difícil de determinar. A evidência indica que começou a se desenvolver no segundo século. — Romanos 16:3-16; Filipenses 1:1.
17 O título “papa” (do grego pá·pas, pai) não foi usado durante os dois primeiros séculos. O ex-jesuíta Michael Walsh explica: “Parece que a primeira vez que um Bispo de Roma foi chamado de ‘Papa’ foi no terceiro século, e o título foi dado ao Papa Calisto . . . Por volta do fim do quinto século, ‘Papa’ usualmente se referia ao Bispo de Roma e a ninguém mais. Foi só no século 11, porém, que um Papa podia insistir que esse título se aplicava só a ele.” — História Ilustrada dos Papas (em inglês).
18. (a) Quem foi um dos primeiros bispos de Roma a impor a sua autoridade? (b) Em que se baseia a reivindicação de primazia papal? (c) Qual é o correto entendimento de Mateus 16:18, 19?
18 Um dos primeiros bispos de Roma a impor a sua autoridade foi o Papa Leão I (papa de 440-461 EC). Michael Walsh explica adicionalmente: “Leão apropriou-se do título outrora pagão de Pontifex Maximus, ainda hoje usado pelos papas, e que era usado, até fins do quarto século, pelos imperadores romanos.” Leão I baseou suas ações na interpretação católica das palavras de Jesus em Mateus 16:18, 19. (Veja quadro, página 268.) Ele “declarou que, uma vez que São Pedro era o primeiro dentre os Apóstolos, a igreja de São Pedro devia receber primazia entre as igrejas”. (As Religiões do Homem [em inglês]). Com esse gesto, Leão I deixou claro que, ao passo que o imperador detinha poder temporal em Constantinopla, no Oriente, ele exercia poder espiritual a partir de Roma, no Ocidente. Um exemplo ilustrativo desse poder deu-se quando o Papa Leão III coroou Carlos Magno como imperador do Santo Império Romano, em 800 EC.
19, 20. (a) Como o papa é encarado nos tempos modernos? (b) Quais são alguns dos títulos oficiais do papa? (c) Que contraste pode-se ver entre a conduta de papas e a de Pedro?
19 Desde 1929, o papa de Roma é encarado por governos seculares como governante de um estado soberano independente, a Cidade do Vaticano. Assim, a Igreja Católica Romana, como prerrogativa que nenhuma outra organização religiosa tem, pode enviar representantes diplomáticos, ou núncios, aos governos do mundo. (João 18:36) O papa é honrado com muitos títulos, tais como Vigário de Jesus Cristo, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos, Supremo Pontífice da Igreja Universal, Patriarca do Ocidente, Primaz da Itália, Soberano da Cidade do Vaticano. Ele é carregado com pompa e cerimônia. Concedem-se-lhe as honras de chefe de Estado. Em contraste, note como Pedro, supostamente o primeiro papa e bispo de Roma, reagiu quando o centurião romano Cornélio prostrou-se aos seus pés a fim de prestar-lhe homenagem: “Pedro ergueu-o, dizendo: ‘Levanta-te; eu mesmo também sou homem.’” — Atos 10:25, 26; Mateus 23:8-12.
20 A pergunta agora é: Como foi possível que a igreja apóstata daqueles primeiros séculos chegasse a acumular tanto poder e prestígio? Como foi que a simplicidade e a humildade de Cristo e dos cristãos primitivos se transformaram no orgulho e na pompa da cristandade?
Os Fundamentos da Cristandade
21, 22. Que grande mudança supostamente ocorreu na vida de Constantino, e como ele a explorou?
21 O ponto decisivo dessa nova religião no Império Romano foi 313 EC, a data da chamada conversão do imperador Constantino ao “cristianismo”. Como ocorreu essa conversão? Em 306 EC, Constantino sucedeu a seu pai e, por fim, junto com Licínio, tornou-se co-regente do Império Romano. Ele foi influenciado pela devoção de sua mãe ao cristianismo e pela sua própria crença na proteção divina. Antes de ir para uma batalha perto de Roma, na Ponte Milvius, em 312 EC, ele afirmou que lhe fora dito num sonho que pintasse o monograma “cristão” — as letras gregas khi e rho, as primeiras duas letras do nome de Cristo em grego — nos escudos de seus soldados.c Com esse ‘talismã sagrado’, as forças de Constantino derrotaram seu inimigo Maxêncio.
22 Pouco depois de vencer a batalha, Constantino afirmou que se tornara crente, embora não fosse batizado senão pouco antes de sua morte, uns 24 anos mais tarde. Ele passou a obter o apoio de professos cristãos em seu império “pela adoção das [letras gregas] Chi-Rho [Artwork − caracteres gregos] como seu emblema . . . O Chi-Rho já tinha sido, contudo, usado como ligadura [junção de letras] em contextos tanto pagãos como cristãos”. — O Crisol do Cristianismo, editado por Arnold Toynbee.
23. (a) Segundo certo comentarista, quando começou a cristandade? (b) Por que se pode dizer que não foi Cristo quem fundou a cristandade?
23 Em resultado, os fundamentos da cristandade estavam lançados. Como o radialista britânico Malcolm Muggeridge escreveu em seu livro O Fim da Cristandade (em inglês): “A cristandade começou com o imperador Constantino.” Mas, fez também o seguinte comentário discernidor: “Pode-se até dizer que o próprio Cristo aboliu a cristandade antes que ela surgisse, por declarar que seu reino não era deste mundo — uma de suas declarações de maior alcance e importância.” E uma das mais amplamente desconsideradas pelos governantes religiosos e políticos da cristandade. — João 18:36.
24. Com a “conversão” de Constantino, que mudança ocorreu na igreja?
24 Com o apoio de Constantino, a religião da cristandade tornou-se a religião estatal oficial de Roma. Elaine Pagels, professora universitária de religião, explica: “Os bispos cristãos, outrora alvos de prisão, tortura e execução, recebiam agora isenção de impostos, dádivas do tesouro imperial, prestígio, e até mesmo influência nos tribunais; suas igrejas ganhavam nova riqueza, poder e destaque.” Haviam-se tornado amigos do imperador, amigos do mundo romano. — Tiago 4:4.
Constantino, Heresia e Ortodoxia
25. (a) Nos dias de Constantino, que debate teológico ocorria? (b) Antes do quarto século, que situação existia com respeito ao entendimento da relação de Cristo para com seu Pai?
25 Por que foi tão significativa a “conversão” de Constantino? Porque, como imperador, ele tinha poderosa influência nos assuntos da doutrinalmente dividida igreja “cristã”, e ele queria união no seu império. Naquele tempo ocorria um acalorado debate entre os bispos de língua grega e de língua latina sobre a “relação entre a ‘Palavra’ ou ‘Filho’ de ‘Deus’ que se encarnara em Jesus, e o próprio ‘Deus’, chamado agora de ‘o Pai’ — seu nome, Yahweh, tendo sido, em geral, esquecido”. (A História do Mundo, de Colúmbia [em inglês]) Alguns eram a favor do conceito apoiado pela Bíblia de que Cristo, o Ló·gos, foi criado e, portanto, estava subordinado ao Pai. (Mateus 24:36; João 14:28; 1 Coríntios 15:25-28) Entre estes havia Ário, um sacerdote de Alexandria, Egito. De fato, R. P. C. Hanson, professor de teologia, diz: “Não há teólogo na Igreja Oriental ou Ocidental antes da erupção [no quarto século] da Controvérsia Ariana que de algum modo não considere o Filho subordinado ao Pai.” — A Busca da Doutrina Cristã Sobre Deus (em inglês).
26. Nos primórdios do quarto século, qual era a situação com respeito ao ensino da Trindade?
26 Outros consideravam esse conceito da subordinação de Cristo como heresia, e penderam mais para a adoração de Jesus como “Deus Encarnado”. Não obstante, o professor Hanson diz que o período em questão (o quarto século) “não foi uma história da defesa de uma convencionada e estabelecida ortodoxia [trinitarista] contra os ataques de franca heresia [arianismo]. Sobre o assunto que primariamente estava em discussão, ainda não havia uma doutrina ortodoxa”. Ele continua: “Todos os lados criam que tinham a autoridade das Escrituras a seu favor. Cada qual rotulava os outros de não-ortodoxos, não-tradicionais e antibíblicos.” As fileiras religiosas estavam totalmente divididas nessa questão teológica. — João 20:17.
27. (a) O que fez Constantino para tentar resolver o debate sobre a natureza de Jesus? (b) Quão representativo da igreja foi o Concílio de Nicéia? (c) Resolveu o Credo de Nicéia a controvérsia sobre o desenvolvimento da doutrina da Trindade?
27 Constantino queria união no seu domínio e, em 325 EC, convocou um concílio de seus bispos em Nicéia, localizada na oriental região de língua grega de seu império, do outro lado do Bósforo, defronte à nova cidade de Constantinopla. Consta que compareceram uns 250 a 318 bispos, apenas uma minoria do total, e a maioria dos que compareceram era da região de língua grega. Nem mesmo o Papa Silvestre I compareceu.d Depois de ferozes debates, desse nada representativo concílio surgiu o Credo de Nicéia, com a sua forte inclinação para o pensamento trinitarista. Todavia, não resolveu a discussão doutrinal. Não esclareceu o papel do espírito santo de Deus na teologia trinitarista. Os debates duraram décadas e, para conseguir uma conformidade final, foram necessários mais concílios, a autoridade de diferentes imperadores e o recurso ao banimento. Foi uma vitória para a teologia e uma derrota para os que se apegavam às Escrituras. — Romanos 3:3, 4.
28. (a) Quais têm sido algumas das conseqüências da doutrina da Trindade? (b) Por que não há base bíblica para a veneração de Maria como “Mãe de Deus”?
28 Com o decorrer dos séculos, um dos resultados do ensino da Trindade foi que o único Deus verdadeiro, Jeová, tem sido afundado no atoleiro da teologia do Deus-Cristo da cristandade.e A próxima conseqüência lógica dessa teologia foi que, se Jesus realmente era Deus Encarnado, então, a mãe de Jesus, Maria, obviamente era a “Mãe de Deus”. Com os anos, isso tem levado à veneração de Maria de muitas diferentes maneiras, apesar da total falta de textos que falem de Maria num papel de importância, exceto como a humilde mãe biológica de Jesus.f (Lucas 1:26-38, 46-56) No decorrer dos séculos, o ensino da Mãe-de-Deus foi desenvolvido e ornado pela Igreja Católica Romana, resultando em que muitos católicos veneram Maria com muito maior fervor do que adoram a Deus.
Os Cismas da Cristandade
29. A respeito de que desenvolvimento alertou Paulo?
29 Outra característica da apostasia é que ela leva à divisão e à fragmentação. O apóstolo Paulo profetizara: “Sei que depois de eu ter ido embora entrarão no meio de vós lobos opressivos e eles não tratarão o rebanho com ternura, e dentre vós mesmos surgirão homens e falarão coisas deturpadas, para atrair a si os discípulos.” Paulo dera claro conselho aos coríntios, ao declarar: “Exorto-vos agora, irmãos, por intermédio do nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos faleis de acordo, e que não haja entre vós divisões, mas que estejais aptamente unidos na mesma mente e na mesma maneira de pensar.” Apesar da exortação de Paulo, a apostasia e as divisões logo se instalaram. — Atos 20:29, 30; 1 Coríntios 1:10.
30. Que situação logo se desenvolveu na primitiva igreja?
30 Poucas décadas após a morte dos apóstolos, os cismas já se haviam manifestado entre os cristãos. Will Durant diz: “O próprio Celso [oponente do cristianismo, do segundo século] havia sarcasticamente observado que os cristãos ‘se dividiam em muitas facções, cada um desejando ter o seu próprio partido’. Lá por 187 [EC] Irineu colecionou 20 variedades de cristianismo; em 384 [EC] Epifânio contou 80.” — A História da Civilização: Volume III — César e Cristo.
31. Como foi que ocorreu uma importante divisão na Igreja Católica?
31 Constantino prestigiou a parte Oriental, grega, de seu império, inaugurando uma capital no que é hoje a Turquia. Essa cidade foi mais tarde chamada de Constantinopla (moderna Istambul). O resultado foi que ao longo dos séculos a Igreja Católica ficou polarizada e dividida, tanto lingüística como geograficamente — Roma de língua latina no Ocidente versus Constantinopla de língua grega no Oriente.
32, 33. (a) Que outras causas de divisão havia na cristandade? (b) O que diz a Bíblia sobre o uso de imagens na adoração?
32 Debates divisórios sobre aspectos do então ainda em desenvolvimento ensino da Trindade, continuaram a causar tumulto na cristandade. Em 451 EC realizou-se outro concílio, em Calcedônia, para definir o caráter das “naturezas” de Cristo. Ao passo que o Ocidente aceitou o credo promulgado por esse concílio, as igrejas orientais discordaram, levando à formação da Igreja Cóptica, no Egito e na Abissínia, e das igrejas “jacobitas” da Síria e da Armênia. A união da Igreja Católica era constantemente ameaçada por divisões sobre abstrusos assuntos teológicos, especialmente com relação à definição da doutrina da Trindade.
33 Outra causa de divisão era a veneração de imagens. Durante o oitavo século, os bispos orientais rebelaram-se contra essa idolatria, e entraram no chamado período iconoclástico, ou de destruição de imagens. Com o tempo, voltaram ao uso de ícones. — Êxodo 20:4-6; Isaías 44:14-18.
34. (a) O que levou a uma grande cisão na Igreja Católica? (b) Qual foi o resultado final dessa cisão?
34 Outro grande teste surgiu quando a igreja ocidental acrescentou a palavra latina filioque (“e do Filho”) ao Credo de Nicéia, para indicar que o Espírito Santo procedia tanto do Pai como do Filho. O resultado dessa emenda do sexto século foi uma cisão quando “em 876 um sínodo [de bispos] em Constantinopla condenou o papa tanto por suas atividades políticas como por não ter corrigido a heresia da cláusula do filioque. Essa ação fazia parte da total rejeição, pelo Oriente, da reivindicação do papa de exercer jurisdição universal sobre a Igreja”. (As Religiões do Homem) No ano 1054, o representante do papa excomungou o patriarca de Constantinopla, que, por sua vez, amaldiçoou o papa. Essa cisão por fim levou à formação das Igrejas Ortodoxas Orientais — grega, russa, romena, polonesa, búlgara, sérvia e outras igrejas autônomas.
35. Quem eram os valdenses, e de que modo as suas crenças diferiam das da Igreja Católica?
35 Ainda outro movimento começava a causar tumulto na igreja. No século 12, Pedro Valdo, de Lião, França, “contratou alguns eruditos para traduzirem a Bíblia na langue d’oc [uma língua regional] do sul da França. Ele estudou com afinco a tradução, e chegou à conclusão de que os cristãos deviam morrer como os apóstolos — sem a posse de qualquer propriedade”. (A Idade da Fé, de Will Durant) Ele iniciou um movimento de pregação que ficou conhecido como os valdenses. Estes rejeitavam o sacerdócio católico, as indulgências, o purgatório, a transubstanciação e outras práticas e crenças católicas tradicionais. Expandiram-se também a outros países. O Concílio de Toulouse tentou refreá-los, em 1229, banindo a posse de livros das Escrituras. Permitia-se apenas livros de liturgia e, ainda por cima, na língua morta, o latim. No entanto, mais divisão e perseguição religiosa estavam por vir.
Perseguição aos Albigenses
36, 37. (a) Quem eram os albigenses, e em que criam eles? (b) Que repressão sofreram os albigenses?
36 Ainda outro movimento iniciou-se no século 12, no sul da França — os albigenses (também conhecidos como cátaros), nome derivado da cidade de Albi, onde eles tinham muitos seguidores. Tinham a sua própria classe clerical celibatária, que esperava ser saudada com reverência. Criam que Jesus falou de modo figurativo em sua última ceia, ao dizer a respeito do pão: “Isto é o meu corpo.” (Mateus 26:26, Al) Rejeitavam as doutrinas da Trindade, do nascimento virginal, do inferno de fogo e do purgatório. Assim, ativamente lançavam dúvidas sobre os ensinos de Roma. O Papa Inocêncio III ordenou que os albigenses fossem perseguidos. “Se necessário”, disse ele, “suprimi[-os] com a espada”.
37 Organizou-se uma cruzada contra os “hereges”, e os cruzados católicos massacraram 20.000 homens, mulheres e crianças em Béziers, na França. Após muito derramamento de sangue, veio a paz, em 1229, com a derrota dos albigenses. O Concílio de Narbona “proibiu que os leigos mantivessem consigo qualquer parcela da Bíblia”. A raiz do problema para a Igreja Católica evidentemente era a existência da Bíblia na língua do povo.
38. O que era a Inquisição, e como funcionava?
38 A próxima medida da igreja foi fundar a Inquisição, um tribunal instituído para suprimir a heresia. As pessoas já eram dominadas por um espírito de intolerância, e elas eram supersticiosas e de muita prontidão para linchar e assassinar os “hereges”. As condições existentes no século 13 prestavam-se ao abuso do poder pela igreja. Contudo, “os hereges condenados pela Igreja tinham de ser entregues às ‘armas seculares’ — autoridades locais — para morrerem queimados”. (A Idade da Fé) Por deixar a execução propriamente dita a cargo das autoridades seculares, a igreja ficaria ostensivamente livre de culpa de sangue. A Inquisição iniciou uma era de perseguição religiosa que resultou em abusos, denúncias falsas e anônimas, assassinato, roubo, tortura e morte lenta de milhares de pessoas que ousavam crer diferente do que cria a igreja. A liberdade de expressão religiosa estava sufocada. Havia esperança para os que buscavam o verdadeiro Deus? O Capítulo 13 responderá a essa pergunta.
39. Que movimento religioso começou no sétimo século, e como?
39 Enquanto tudo isso acontecia na cristandade, um solitário árabe no Oriente Médio tomou uma posição contra a apatia religiosa e a idolatria de seu próprio povo. Iniciou um movimento religioso no sétimo século que hoje demanda a obediência e a submissão de cerca de um milhão de pessoas. Este movimento é o islamismo. O nosso próximo capítulo considerará a história de seu profeta-fundador e explicará alguns de seus ensinos e sua origem.
[Nota(s) de rodapé]
a As expressões “alma imortal”, “fogo do inferno”, “purgatório” e “limbo” não se encontram em parte alguma da Bíblia nos originais hebraico e grego. Em contraste, a palavra grega para “ressurreição” (a·ná·sta·sis) ocorre 42 vezes.
b A palavra grega e·pí·sko·pos literalmente significa ‘aquele que zela por’. Em latim tornou-se episcopus e em português “bispo”.
c Uma lenda popular diz que Constantino teve uma visão de uma cruz com as palavras latinas “in hoc signo vinces” (com este sinal vencerás). Alguns historiadores dizem que mais provavelmente tenha sido em grego, “en toutoi nika” (com este vencerás). Alguns peritos duvidam da lenda, pois ela contém anacronismos.
d O Dicionário Oxford de Papas (em inglês) diz sobre Silvestre I: “Embora fosse papa por quase vinte e dois anos no reinado de Constantino, o Grande, (306-37), uma época de acontecimentos dramáticos para a igreja, ele parece ter desempenhado uma parte insignificante nos grandes eventos que ocorriam. . . . Com certeza havia bispos que Constantino transformou em confidentes seus, e com quem planeava suas diretrizes eclesiásticas; mas [Silvestre] não era um deles.”
e Para um estudo detalhado do debate da Trindade, veja a brochura de 32 páginas Deve-se Crer na Trindade?, publicada pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1989.
f Maria, a mãe de Jesus, é mencionada por nome, ou como mãe dele, em 24 diferentes textos nos quatro Evangelhos, e uma vez em Atos. Não é mencionada em nenhuma carta apostólica.
[Foto na página 264]
Triângulo do Mistério da Trindade, da cristandade.
[Fotos na página 269]
O Vaticano (bandeira estampada abaixo) envia diplomatas aos governos do mundo.
[Fotos na página 275]
O Concílio de Nicéia lançou a base para o que mais tarde viria a ser a doutrina da Trindade.
[Fotos na página 277]
A veneração de Maria com um filho, no centro, reflete a adoração mais antiga de deusas pagãs — à esquerda, Isis e Hórus, do Egito; à direita, Mater Matuta, de Roma.
[Fotos na página 278]
Templos da Igreja Ortodoxa Oriental — Sveti Nikolaj, Sófia, Bulgária e, abaixo, São Vladimir, Nova Jérsei, EUA.
[Foto na página 281]
Cruzados “cristãos” foram organizados não apenas para libertar Jerusalém do islamismo, mas também para massacrar “hereges”, como os valdenses e os albigenses.
[Fotos na página 283]
Tomás de Torquemada, monge dominicano, conduziu a cruel Inquisição espanhola, que usava instrumentos de tortura para extrair confissões.
[Quadro na página 262]
Os Primitivos Cristãos e a Roma Pagã
“À medida que o movimento cristão surgia no Império Romano, ele desafiava também os conversos pagãos a mudar as suas atitudes e o seu comportamento. Muitos pagãos que, por formação, encaravam o casamento essencialmente como arranjo social e econômico, as relações homossexuais como componente normal da educação masculina, a prostituição, tanto masculina como feminina, como algo comum e legal, e o divórcio, o aborto, a contracepção e o abandono [levando à morte] de bebês indesejados como medidas práticas, abraçaram, para espanto de suas famílias, a mensagem cristã, que se opunha a essas práticas.” — Adão, Eva e a Serpente, de Elaine Pagels, em inglês.
[Quadro na página 266]
Cristianismo Versus Cristandade
Porfírio, de Tiro, um filósofo do terceiro século e opositor do cristianismo, suscitou a pergunta “quanto a se foram os seguidores de Jesus, em vez de o próprio Jesus, os responsáveis pela forma distintiva da religião cristã. Porfírio (e Juliano [imperador romano do quarto século e opositor do cristianismo]) mostrou, com base no Novo Testamento, que Jesus não chamava a si mesmo de Deus e que ele pregava, não sobre si mesmo, mas sobre o único Deus, o Deus de todos. Foram Seus seguidores que abandonaram Seus ensinamentos e introduziram por conta própria um novo modo, em que Jesus (não o Deus único) era objeto de adoração e culto. . . . [Porfírio] tocou fundo numa questão perturbadora para os pensadores cristãos: baseia-se a fé cristã na pregação de Jesus ou nos conceitos forjados por seus discípulos nas gerações posteriores à sua morte?” — Os Cristãos Conforme os Romanos os Viam (em inglês).
[Quadro na página 268]
Pedro e o Papado
Em Mateus 16:18, Jesus disse ao apóstolo Pedro:
“E eu te digo, tu és Pedro [grego, Pé·tros], e sobre esta pedra [grego, pé·tra] construirei a minha igreja, e os poderes da morte não prevalecerão contra ela.” (RS) À base disto, a Igreja Católica afirma que Jesus construiu a sua igreja sobre Pedro, que, diz ela, foi o primeiro duma sucessão ininterrupta de bispos de Roma, e sucessores de Pedro.
Quem era a pedra mencionada em Mateus 16:18, Pedro ou Jesus? O contexto mostra que o assunto em pauta era a identificação de Jesus qual “Cristo, o Filho do Deus vivente”, como o próprio Pedro admitiu. (Mateus 16:16, RS) Logicamente, pois, essa sólida pedra de alicerce da igreja seria o próprio Jesus, e não Pedro, que negaria Cristo três vezes. — Mateus 26:33-35, 69-75.
Como sabemos que Cristo é a pedra de alicerce? Pelo testemunho do próprio Pedro, quando escreveu: “Chegando-vos a ele, como a uma pedra vivente, rejeitada, é verdade, pelos homens, mas escolhida e preciosa para Deus . . . Pois isso está contido na Escritura: ‘Eis que ponho em Sião uma pedra, escolhida, uma pedra angular de alicerce, preciosa; e ninguém que nela exercer fé de modo algum ficará desapontado.’” Paulo também declarou: “E fostes edificados sobre o alicerce dos apóstolos e profetas, ao passo que o próprio Cristo Jesus é a pedra angular de alicerce.” — 1 Pedro 2:4-8; Efésios 2:20.
Nem nas Escrituras nem na história há evidências de que Pedro fosse considerado como tendo primazia entre seus pares. Ele não fez menção disso em suas próprias cartas, e os outros três Evangelhos — incluindo o de Marcos (aparentemente relatado a Marcos por Pedro) — nem mesmo mencionam essa declaração de Jesus a Pedro. — Lucas 22:24-26; Atos 15:6-22; Gálatas 2:11-14.
Tampouco existe prova absoluta de que Pedro alguma vez estivesse em Roma. (1 Pedro 5:13) Quando Paulo visitou Jerusalém, “Tiago e Cefas [Pedro], e João, os que pareciam ser colunas”, deram-lhe apoio. Assim, naquela ocasião, Pedro era um de pelo menos três colunas na congregação. Não era “papa”, tampouco era conhecido como tal, ou como “bispo” primaz em Jerusalém. — Gálatas 2:7-9; Atos 28:16, 30, 31.
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Islamismo — o caminho a Deus através da submissãoO Homem em Busca de Deus
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Capítulo 12
Islamismo — o caminho a Deus através da submissão
[Artwork — Caracteres Árabicos]
1, 2. (a) Quais são as palavras de abertura do Qur’ān? (b) Por que tais palavras são significativas para os muçulmanos? (c) Em que língua foi o Qur’ān originalmente escrito, e o que significa “Qur’ān”?
“EM NOME de Deus [Alá], Clemente, Misericordioso.” Esta frase traduz o texto árabe acima, do Qur’ān (Alcorão). E continua: “Louvado seja Deus, Senhor do Universo, Clemente, Misericordioso. Soberano do Dia do Juízo. Só a Ti adoramos e só de Ti imploramos ajuda! Guia-nos à senda reta, À senda dos que agraciaste, não à dos abominados nem à dos extraviados.” — Qur’ān, surata 1:1-7.a
2 Tais palavras formam a Alfátiha (“A Abertura”), o primeiro capítulo, ou surata, do livro sagrado dos muçulmanos, o Sagrado Qur’ān, Corão, ou Alcorão. Visto que mais de uma de cada seis pessoas no mundo é muçulmana, e considerando que os muçulmanos devotos repetem esses versículos pelo menos cinco vezes em suas orações diárias, estas devem estar entre as palavras mais recitadas na terra.
3. Quão difundido está o islamismo hoje?
3 Segundo certa fonte, há mais de 900 milhões de muçulmanos no mundo, o que faz com que, numericamente, o islamismo seja menor apenas do que a Igreja Católica Romana. Dentre as religiões principais é talvez a que aumenta mais rapidamente no mundo, com movimento muçulmano em expansão na África e no mundo ocidental.
4. (a) O que significa a palavra “islã”? (b) O que significa a palavra “muçulmano”?
4 O nome islã (ou islame) é expressivo para o muçulmano, pois significa “submissão”, “rendição” ou “entrega” a Alá, e, segundo certo historiador, “expressa a mais íntima atitude dos que abraçaram a pregação de Maomé”. “Muçulmano” significa ‘aquele que faz ou pratica o islã’.
5. (a) O que crêem os muçulmanos a respeito do islamismo? (b) Que paralelos existem entre a Bíblia e o Qur’ān?
5 Os muçulmanos crêem que a sua fé é a culminação das revelações dadas aos fiéis hebreus e cristãos do passado. Contudo, seus ensinamentos divergem da Bíblia em alguns pontos, embora citem tanto das Escrituras Hebraicas como das Gregas no Qur’ān.b (Veja quadro, página 285.) Para melhor entender a fé muçulmana, temos de saber como, onde e quando essa religião começou.
A Chamada de Maomé
6. (a) Qual era o ponto focal da adoração árabe nos dias de Maomé? (b) Que tradição existia a respeito da Caaba?
6 Maomé nasceu em Meca (árabe, Makkah), Arábia Saudita, por volta de 570 EC. Seu pai, Abdalá, morreu antes de Maomé nascer. Sua mãe, Amina, morreu quando ele tinha cerca de seis anos. Naquele tempo, os árabes praticavam uma forma de adoração de Alá centralizada no vale de Meca, no local sagrado da Caaba, um edifício simples em forma de cubo, onde se reverenciava um meteorito negro. Segundo a tradição islâmica, “a Caaba foi originalmente construída por Adão segundo um protótipo celestial e depois do Dilúvio reconstruída por Abraão e Ismael”. (História dos Árabes, de Philip K. Hitti, em inglês) Tornou-se santuário de 360 ídolos, um para cada dia do ano lunar.
7. Que práticas religiosas incomodavam Maomé?
7 À medida que crescia, Maomé passou a questionar as práticas religiosas de seus dias. John Noss, em seu livro Man’s Religions (As Religiões do Homem), declara: “[Maomé] incomodava-se com as incessantes rixas por causa de confessos interesses de religião e honra entre os chefes coraixitas [Maomé era dessa tribo]. Mais forte ainda era o seu descontentamento com os grotescos remanescentes na religião árabe, o politeísmo e o animismo idólatras, a imoralidade nas assembléias e quermesses religiosas, a bebedeira, a jogatina e as danças que estavam na moda, e o sepultamento em vida de bebês do sexo feminino indesejados, praticado não apenas em Meca mas em toda a Arábia.” — Surata 6:137.
8. Sob que circunstâncias ocorreu a chamada de Maomé para ser profeta?
8 A chamada de Maomé para ser profeta ocorreu quando ele beirava os 40 anos de idade. Ele costumava ir sozinho a uma caverna próxima, chamada Gar Hira, para meditar, e afirmou que foi numa dessas ocasiões que recebeu a chamada para ser profeta. Diz a tradição muçulmana que, estando lá, um anjo, mais tarde identificado como Gabriel, ordenou-lhe que recitasse em nome de Alá. Maomé não obedeceu, de modo que o anjo ‘agarrou-o e comprimiu-o tanto que Maomé não pôde suportar’. Daí o anjo repetiu a ordem. Novamente, Maomé não reagiu, de modo que o anjo ‘sufocou-o’ novamente. Isto ocorreu três vezes, depois do que Maomé começou a recitar o que veio a ser encarado como primeira duma série de revelações que constituem o Qur’ān. Segundo outra tradição, a inspiração divina foi revelada a Maomé em forma do soar duma campainha. — O Livro de Revelação, de Sahih Al-Bukhari (em inglês).
Revelação do Qur’ān
9. Qual, supostamente, foi a primeira revelação que Maomé recebeu? (Veja Revelação (Apocalipse) 22:18, 19.)
9 Qual foi, supostamente, a primeira revelação que Maomé recebeu? Os versados no islamismo em geral concordam que foram os primeiros cinco versículos da surata 96, intitulada Al’Alac, “O Coágulo [de Sangue]”, que reza:
“Em nome de Deus [Alá], Clemente, Misericordioso.
Lê em nome de teu Senhor que (tudo) criou;
Criou o homem de um coágulo.
Lê que teu Senhor é generoso,
Que ensinou o uso do cálamo
Ensinou ao homem o que este não sabia.”
10-12. Como foi preservado o Qur’ān?
10 Segundo a fonte árabe O Livro de Revelação, Maomé respondeu: “Eu não sei ler.” Assim, ele teve de memorizar as revelações, de modo que pudesse repeti-las e recitá-las. Os árabes eram peritos no uso da memória, e Maomé não era exceção. Quanto tempo levou para ele receber a mensagem completa do Qur’ān? Crê-se geralmente que as revelações ocorreram num período de 20 a 23 anos, aproximadamente por volta de 610 EC até a sua morte, em 632 EC.
11 Fontes muçulmanas explicam que, assim que recebia cada revelação, Maomé a recitava para quem quer que estivesse por perto. Estes, por sua vez, memorizavam a revelação e, por recitação, mantinham-na viva. Visto que os árabes desconheciam a arte de fabricar papel, Maomé fez com que escribas anotassem as revelações em primitivos materiais então disponíveis, como omoplatas de camelo, folhas de palmeira, madeira e pergaminho. Mas, foi só depois da morte do profeta que o Qur’ān assumiu a sua forma atual, sob a direção dos sucessores e companheiros de Maomé. Isto foi durante o domínio dos primeiros três califas, ou líderes muçulmanos.
12 O tradutor Muhammad Pickthall escreve: “Todas as suratas do Qur’ān haviam sido registradas por escrito antes da morte do Profeta, e muitos muçulmanos haviam decorado o inteiro Qur’ān. Mas, as suratas escritas ficaram dispersas entre o povo; e quando numa batalha . . . um grande número dos que sabiam o inteiro Qur’ān de cor foram mortos, foi feita uma coletânea do inteiro Qur’ān e assentada por escrito.”
13. (a) Quais são três fontes de ensino e orientação islâmicos? (b) De que modo alguns versados no islamismo encaram a idéia de traduzir o Qur’ān?
13 A vida islâmica é governada por três autoridades — o Qur’ān, a Hadith e a Xariah. (Veja quadro, página 291.) Os muçulmanos crêem que o Qur’ān em árabe seja a mais pura forma de revelação, pois, como dizem, foi a língua usada por Deus ao falar por meio de Gabriel. A surata 43:3 diz: “Que vos temos ditado um Alcorão arábico, a fim de que o compreendais.” Assim, qualquer tradução é encarada como apenas uma diluição que envolve perda de pureza. De fato, alguns versados em islamismo recusam-se a traduzir o Qur’ān. Acham que “traduzir sempre é trair” e, por conseguinte, os “muçulmanos sempre reprovaram, e às vezes proibiram, qualquer tentativa de traduzi-lo para outra língua”, diz o Dr. J. A. Williams, preletor de história islâmica.
Expansão Islâmica
14. Que evento foi um marco importante nos primórdios da história islâmica?
14 Maomé fundou a sua nova fé enfrentando grandes dificuldades. O povo de Meca, até mesmo de sua própria tribo, rejeitou-o. Depois de 13 anos de perseguição e ódio, ele transferiu seu centro de atividades para o norte, em Iatrib, que então passou a ser conhecido como al-Madinah (Medina), a cidade do profeta. Essa emigração, ou hégira, em 622 EC, foi um marco importante na história islâmica, e essa data foi mais tarde adotada como ponto de partida do calendário islâmico.c
15. De que modo Meca se tornou o principal centro de peregrinação?
15 Por fim, Maomé obteve o domínio quando Meca capitulou diante dele, em janeiro de 630 EC (8 AH), e ele passou a governá-la. Com as rédeas do controle secular e religioso nas mãos, ele conseguiu varrer as imagens idólatras da Caaba e estabelecê-la como ponto principal de peregrinação a Meca, que persiste até hoje. — Veja páginas 289, 303.
16. Até que ponto se difundiu o islamismo?
16 Poucas décadas depois da morte de Maomé, em 632 EC, o islamismo já se havia difundido até o Afeganistão, e até mesmo à Tunísia, na África do Norte. Perto do início do oitavo século, a fé do Qur’ān penetrara na Espanha e chegara à fronteira francesa. Como disse o professor Ninian Smart em seu livro Background to the Long Search (Origem da Longa Busca): “Encarada dum ponto de vista humano, a consecução de um profeta árabe que viveu no sexto e no sétimo séculos depois de Cristo é assombrosa. Humanamente, foi dele que fluiu uma nova civilização. Mas, naturalmente, para os muçulmanos a obra era divina, e a consecução, de Alá.”
A Morte de Maomé Causa Divisão
17. Que grande problema enfrentou o islamismo com a morte de Maomé?
17 A morte do profeta provocou uma crise. Ele morreu sem deixar descendente masculino e sem sucessor claramente designado. Como diz Philip Hitti: “O califado [cargo de califa] é, pois, o mais antigo problema que o islamismo teve de enfrentar. Ainda é uma questão acesa. . . . Como disse o historiador muçulmano al-Shahrastani [1086-1153]: ‘Nunca houve uma questão islâmica que causasse mais derramamento de sangue do que o califado (imamah).’” Como se resolveu o problema lá em 632 EC? “Abu-Bekr . . . foi nomeado (8 de junho de 632) sucessor de Maomé por meio de um tipo de eleição em que participaram os líderes presentes na capital, al-Madinah.” — História dos Árabes.
18, 19. Que afirmações dividem os muçulmanos sunitas dos xiitas?
18 O sucessor do profeta seria um governante, um khalifah, ou califa. Contudo, a questão concernente a quem eram os verdadeiros sucessores de Maomé virou motivo de divisões nas fileiras do islamismo. Os muçulmanos sunitas aceitam o princípio de cargo eletivo, em vez de a descendência sangüínea do profeta. Assim, eles crêem que os três primeiros califas, Abu-Bekr (sogro de Maomé), Omar (conselheiro do profeta) e Otmã (genro do profeta), eram os sucessores legítimos de Maomé.
19 Essa afirmação é contestada pelos muçulmanos xiitas, que dizem que a verdadeira liderança vem da linhagem sangüínea do profeta e através de seu primo e genro, Ali ibn Abi Talib, o primeiro imame (líder e sucessor), que se casou com a filha predileta de Maomé, Fátima. Seu casamento produziu os netos de Maomé, Hasã e Husain. Os xiitas afirmam também “que desde o início Alá e Seu Profeta haviam claramente nomeado Ali como único legítimo sucessor, mas que os três primeiros califas usurparam seu cargo de direito”. (História dos Árabes) Naturalmente, o conceito dos muçulmanos sunitas é outro.
20. O que aconteceu com Ali, o genro de Maomé?
20 O que aconteceu com Ali? Durante seu domínio como quarto califa (656-661 EC), surgiu uma rixa a respeito de liderança entre ele e o governador da Síria, Moávia. Envolveram-se em batalha, mas, daí, para evitar mais derramamento de sangue muçulmano, eles submeteram a sua disputa ao arbítrio. Ter Ali aceitado o arbítrio enfraqueceu a sua causa e alienou muitos de seus seguidores, incluindo os Caridjitas (Dissidentes), que se tornaram seus inimigos mortais. No ano 661 EC, Ali foi assassinado por um caridjita fanático, com um sabre envenenado. Os dois grupos (sunitas e xiitas) estavam em forte desacordo. Daí, o ramo sunita do islamismo escolheu um líder dentre os omíadas, ricos chefes de Meca, que não eram da família do profeta.
21. Qual é o conceito dos xiitas a respeito dos sucessores de Maomé?
21 Para os xiitas, o primogênito de Ali, Hasã, neto do profeta, era o verdadeiro sucessor. Contudo, ele renunciou e foi assassinado. Seu irmão Husain tornou-se o novo imame, mas também foi morto, por tropas omíadas, em 10 de outubro de 680 EC. A sua morte, ou martírio, como os xiitas a encaram, teve um significativo efeito sobre o Shiat Ali, o partido de Ali, efeito que perdura até os dias de hoje. Eles crêem que Ali era o verdadeiro sucessor de Maomé e o primeiro “imame [líder] divinamente protegido contra o erro e o pecado”. Ali e seus sucessores foram considerados pelos xiitas como instrutores infalíveis, tendo “o dom divino da impecabilidade”. O maior segmento dos xiitas crê que houve apenas 12 verdadeiros imames, e que o último destes, Maomé al-Muntazar, desapareceu (em 878 EC) “na gruta da grande mesquita de Samarra, sem deixar descendência”. Assim, “ele se tornou o imame ‘oculto (mustatir)’ ou ‘esperado (muntazar)’. . . . No devido tempo ele aparecerá como o Madi (o divinamente guiado) para restaurar o verdadeiro islamismo, conquistar o mundo inteiro e introduzir um breve milênio antes do fim de todas as coisas”. — História dos Árabes.
22. Como os xiitas comemoram o martírio de Husain?
22 Anualmente, os xiitas comemoram o martírio do Imame Husain. Fazem procissões em que alguns se cortam com facas e espadas e de outras formas se autoflagelam. Em tempos mais recentes, os muçulmanos xiitas têm estado freqüentemente nas notícias devido ao seu zelo pelas causas islâmicas. Contudo, eles representam apenas uns 20 por cento dos muçulmanos do mundo, a maioria dos quais são muçulmanos sunitas. Agora, consideremos alguns dos ensinamentos do islamismo e vejamos como a fé islâmica afeta a conduta diária dos muçulmanos.
O Supremo É Deus, Não Jesus
23, 24. Como encararam Maomé e os muçulmanos o judaísmo e o cristianismo?
23 As três maiores religiões monoteístas do mundo são o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Mas, na época em que Maomé apareceu, perto do começo do sétimo século EC, as duas primeiras religiões, a seu ver, haviam-se desviado do caminho da verdade. De fato, segundo certos comentaristas islâmicos, o Qur’ān implica a rejeição de judeus e de cristãos, dizendo: “À senda dos que agraciaste, não à dos abominados nem à dos extraviados.” (Surata 1:7) Por que isso?
24 Diz certo comentário alcorânico: “O Povo do Livro desencaminhou-se: Os judeus por violarem o seu Pacto, e difamarem Maria e Jesus . . . e os cristãos por enaltecerem Jesus, o Apóstolo, à igualdade com Deus”, por meio da doutrina da Trindade. — Surata 4:153-176, Abdullah Y. Ali (em inglês).
25. Que expressões paralelas encontramos no Qur’ān e na Bíblia?
25 O principal ensinamento do islamismo, simplificando ao máximo, é o que se conhece por chahada, ou confissão de fé, que todo muçulmano conhece de cor: “La ilah illa Allah; Muhammad rasul Allah” (Não há deus senão Alá; Maomé é o mensageiro de Alá). Isto se harmoniza com a expressão alcorânica: “Vosso Deus é Um só. Não há mais deus que Ele, Clemente, Misericordiosíssimo.” (Surata 2:163) Essa idéia já fora expressa 2.000 anos antes disso, na antiga convocação a Israel: “Escuta, ó Israel: Jeová, nosso Deus, é um só Jeová.” (Deuteronômio 6:4) Jesus repetiu esse principal mandamento, registrado em Marcos 12:29, uns 600 anos antes de Maomé, e, em parte alguma, Jesus afirma ser Deus ou igual a Ele. — Marcos 13:32; João 14:28; 1 Coríntios 15:28.
26. (a) Como encaram os muçulmanos a Trindade? (b) É bíblica a Trindade?
26 A respeito da unicidade de Deus, o Qur’ān reza: “Crede, pois, em Deus e em Seus apóstolos, e não digais: Trindade! Abstende-vos disso que será melhor para vós; sabei que Deus é Uno.” (Surata 4:171) Contudo, convém notar que o cristianismo verdadeiro não ensina a Trindade. Trata-se de uma doutrina de origem pagã introduzida por apóstatas da cristandade após a morte de Cristo e dos apóstolos. — Veja Capítulo 11.d
Alma, Ressurreição, Paraíso e Inferno de Fogo
27. O que diz o Qur’ān sobre a alma e a ressurreição? (Contraste com Levítico 24:17, 18; Eclesiastes 9:5, 10; João 5:28, 29.)
27 O islamismo ensina que o homem tem uma alma que sobrevive para uma vida futura. O Qur’ān diz: “Deus [Alá] recolhe as almas no momento da morte e, os que não morrem, ainda, (recolhe) durante o sono. Ele retém aqueles cuja morte tem decretada.” (Surata 39:42) Ao mesmo tempo, a surata 75 é inteiramente devotada à “Alquiáma ou Ressurreição” ou “Levantamento dos Mortos” (Muhammad M. Pickthall [em inglês]). Ela diz, em parte: “Pelo Dia da Ressurreição . . . Porventura, crê o homem que jamais reuniremos seus ossos? . . . Perguntam: Quando acontecerá o Dia da Ressurreição? . . . Não será [Alá] capaz de ressuscitar os mortos?” — Surata 75:1, 3, 6, 40.
28. O que diz o Qur’ān sobre o inferno? (Contraste com Jó 14:13; Jeremias 19:5; 32:35; Atos 2:25-27; Romanos 6:7, 23.)
28 Segundo o Qur’ān, a alma pode ter diferentes destinos, que pode ser um jardim celestial paradísico ou a punição num inferno ardente. Como diz o Qur’ān: “Perguntam: Quando chegará o Dia do Juízo Final? Será o dia em que forem torturados no fogo! Ser-lhes-á dito: Sofrei a vossa tortura! Eis aqui o que pretendestes urgir!” (Surata 51:12-14) “Sofrerão [os pecadores] um castigo na vida terrena; porém, o do outro mundo será mais severo ainda e não terão defensor algum ante Deus [Alá].” (Surata 13:34) Pergunta-se: “E que é que te fará entender isso? É o fogo ardente!” (Surata 101:10, 11) Esse pavoroso destino é descrito em detalhes: “Quanto àqueles que negam Nossos versículos, introduzi-los-emos no fogo infernal. Cada vez que sua pele se tiver queimado, trocá-la-emos por outra, para que experimentem mais e mais o suplício. Sabei que Deus [Alá] é Poderoso, Prudentíssimo.” (Surata 4:56) Outra descrição declara: “Em verdade, o inferno será uma emboscada . . . onde permanecerão séculos, até milênios, em que não provarão do frescor nem de (qualquer) bebida, a não ser água fervente e uma paralisante beveragem.” — Surata 78:21, 23-25.
29. Contraste os ensinos islâmicos e bíblicos a respeito da alma e seu destino.
29 Os muçulmanos crêem que a alma dos falecidos vai para o Barzakh, ou “Barreira”, “o lugar ou estado em que as pessoas estarão após a morte e antes do Julgamento”. (Surata 23:99, 100, AYA, nota) A alma está cônscia ali, sofrendo o que se chama de “Punição do Túmulo” se a pessoa foi má, ou desfrutando a felicidade, se foi fiel. Mas, os fiéis também têm de sofrer algum tormento por causa de seus poucos pecados enquanto estavam vivos. No dia de juízo, cada qual encara seu destino eterno, que finda aquele estado intermediário.e
30. O que se promete aos justos, segundo o Qur’ān? (Contraste com Isaías 65:17, 21-25; Lucas 23:43; Revelação 21:1-5.)
30 Em contraste, aos justos se promete jardins celestiais paradísicos: “Quanto aos crentes que praticam o bem, introduzi-los-emos em jardins abaixo dos quais correm rios, em que morarão eternamente.” (Surata 4:57) “Naquele dia os moradores do Paraíso em nada pensarão a não ser na sua felicidade. Junto com suas esposas, reclinar-se-ão sob arvoredos sombreados em sofás macios.” (Surata 36:55, 56, NJD) “Antes disso Nós escrevemos nos Salmos, depois da Mensagem (dada a Moisés): ‘Meus servos, os justos, herdarão a terra.’” A nota sobre essa surata remete o leitor para o Salmo 25:13 e 37:11, 29 e às palavras de Jesus em Mateus 5:5. (Surata 21:105, AYA) A menção de esposas leva-nos agora à outra pergunta.
Monogamia ou Poligamia?
31. O que diz o Qur’ān sobre poligamia? (Contraste com 1 Coríntios 7:2; 1 Timóteo 3:2, 12.)
31 É a poligamia a regra entre os muçulmanos? Embora o Qur’ān permita a poligamia, muitos muçulmanos têm apenas uma esposa. Devido às numerosas viúvas resultantes de custosas batalhas, o Qur’ān fez concessão para a poligamia: “Se temerdes ser injustos para com as órfãs, podereis desposar duas, três, ou quatro das que vos aprouver entre outras mulheres. Mas, se temerdes não poder ser equitativos para com estas, casai, então, com uma só, ou conformai-vos com o que está ao alcance de vossas mãos.” (Surata 4:3) Uma biografia de Maomé, feita por Ibn-Hisham, diz que Maomé casou-se com uma viúva rica, Cadidja, 15 anos mais velha do que ele. Depois que ela morreu, Maomé casou-se com muitas mulheres. Ao morrer, deixou nove viúvas.
32. O que é mutʽah?
32 Outra forma de casamento no islamismo é chamada de mutah. É definido como “contrato especial celebrado entre um homem e uma mulher através da oferta e aceitação de casamento por um período limitado e com dote especificado, semelhante ao contrato para casamento permanente”. (Islamuna, de Mustafá al-Rafafii, em inglês) Os sunitas chamam-no de casamento por prazer, e os xiitas, um casamento a ser encerrado num período específico. Diz a mesma fonte: “Os filhos [de tais casamentos] são legítimos e têm os mesmos direitos que os filhos de um casamento permanente.” Parece que essa forma de casamento temporário era praticada nos dias de Maomé, e ele permitiu que continuasse. Os sunitas insistem que foi proibida mais tarde, ao passo que os imamis, o maior grupo xiita, crê que ainda vigora. Muitos, efetivamente, o praticam, em especial quando um homem se ausenta de sua esposa por um longo período.
O Islamismo e a Vida Diária
33. Quais são os Cinco Pilares da Observância e da Crença?
33 O islamismo envolve cinco principais obrigações e cinco crenças básicas. (Veja quadros, páginas 296, 303.) Uma das obrigações é que os muçulmanos devotos orem (salat) cinco vezes por dia, voltados para Meca. No sábado muçulmano (sexta-feira), os homens afluem à mesquita para oração ao ouvirem o chamado do muezim, do alto do minarete da mesquita. Hoje em dia, muitas mesquitas tocam uma gravação, em vez de fazerem uma chamada de viva voz.
34. O que é uma mesquita, e como é usada?
34 Mesquita (masjid, em árabe) é o local de adoração dos muçulmanos, chamado pelo Rei Fahd Bin Abdul Aziz, da Arábia Saudita, de “pedra fundamental para invocar a Deus”. Definiu a mesquita como “local de oração, estudo, atividades legais e judiciais, consultas, pregação, orientação, educação e preparação. . . . A mesquita é o coração da sociedade muçulmana”. Esses locais de adoração se encontram agora em todo o mundo. Um dos mais famosos na história é a Mezquita (Mesquita) de Córdoba, Espanha, que por séculos era a maior do mundo. A sua parte central é agora ocupada por uma catedral católica.
Conflitos com a Cristandade e no Seio Desta
35. Em tempos passados, que situação existia entre o islamismo e o catolicismo?
35 A partir do sétimo século, o islamismo expandiu-se para o oeste, à África do Norte, para o leste, ao Paquistão, à Índia, ao Bangladesh, e até a Indonésia. (Veja mapa, na guarda no início do livro.) Ao assim fazer, entrou em conflito com a militante Igreja Católica, que organizou Cruzadas para recuperar dos muçulmanos a Terra Santa. Em 1492, a rainha Isabel e o rei Fernando, da Espanha, completaram a reconquista católica da Espanha. Os muçulmanos e os judeus tinham de converter-se, sob pena de serem expulsos da Espanha. A tolerância mútua que existira sob o domínio muçulmano na Espanha mais tarde se evaporou sob a influência da Inquisição católica. Contudo, os islamismo sobreviveu e, no século 20, tem experimentado um ressurgimento e grande crescimento.
36. Que acontecimentos ocorriam na Igreja Católica enquanto o islamismo se expandia?
36 Enquanto o islamismo se expandia, a Igreja Católica enfrentava sua própria inquietação, tentando manter a união em suas fileiras. Mas, duas poderosas influências estavam para irromper em cena, e elas destroçariam ainda mais a imagem monolítica dessa igreja. Tratava-se da imprensa e da Bíblia na língua do povo. O próximo capítulo abordará a fragmentação adicional da cristandade sob estas e outras influências.
[Nota(s) de rodapé]
a “Qur’ān” (que significa “Recitação”) é a grafia preferida por escritores muçulmanos, e é a que usaremos aqui. Deve-se notar que o árabe é a língua original do Qur’ān e, em inglês, por exemplo, não existe tradução universalmente aceita. Em português, salvo outra indicação, citaremos do Alcorão Sagrado, de Samir El Hayek. Nas citações, o primeiro número refere-se ao capítulo, ou surata, e o segundo ao versículo.
b Os muçulmanos crêem que a Bíblia contém revelações de Deus, mas que algumas foram posteriormente falsificadas.
c Assim, o ano muçulmano é dado como AH (latim, Anno Hegirae, ano da fuga) em vez de AD (Anno Domini, ano do Senhor) ou EC (Era Comum).
d Para informações adicionais sobre a Trindade e a Bíblia, veja a brochura Deve-se Crer na Trindade?, publicada pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1989.
e Sobre o assunto da alma e inferno de fogo, verifique os seguintes textos bíblicos: Gênesis 2:7; Ezequiel 18:4; Atos 3:23. Veja Raciocínios à Base das Escrituras, páginas 32-6; 190-7, publicado pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1985.
[Quadro na página 285]
O Qur’ān (Alcorão) e a Bíblia
“Ele te revelou o Livro com a verdade, confirmando as escrituras que o precederam; pois Ele já revelou a Tora e o Evangelho para guiar os homens, e para a distinção entre o certo e o errado.” — Surata 3:2, NJD.
“Quase todas as narrativas históricas do Alcorão têm seus paralelos bíblicos . . . Entre os personagens do Velho Testamento, Adão, Noé, Abraão (mencionado cerca de setenta vezes em vinte e cinco diferentes suratas e tendo seu nome como título da surata 14), Ismael, Ló, José (a quem é dedicada a surata 12), Moisés (cujo nome ocorre em trinta e quatro suratas), Saul, Davi, Salomão, Elias, Jó e Jonas (nome da surata 10) figuram com destaque. A história da criação e da queda de Adão é citada cinco vezes, o dilúvio, oito e Sodoma, oito. De fato, há no Alcorão mais paralelismo com o Pentateuco do que com qualquer outra parte da Bíblia. . . .
“Dos personagens do Novo Testamento, Zacarias, João Batista, Jesus (ʽĪsa) e Maria são os únicos que recebem destaque. . . .
“Um estudo comparativo das . . . narrativas do Alcorão e da Bíblia . . . não revela dependência verbal [nenhuma citação direta].” — História dos Árabes.
[Quadro na página 291]
As Três Fontes de Ensino e Orientação
O Sagrado Qur’ān (Alcorão) que, segundo se diz, foi revelado a Maomé pelo anjo Gabriel. O sentido e o texto do Qur’ān em árabe são tidos como inspirados.
O Hadith, ou Sunna, “os atos, as declarações e a aprovação tácita (taqrir) do Profeta . . . fixados durante o segundo século [AH] na forma de hadiths escritos. Um hadith, pois, é um registro de uma ação ou de dizeres do Profeta”. Pode também ser aplicado às ações ou aos dizeres de qualquer dos “Companheiros [de Maomé] e Sucessores destes”. Num hadith apenas o sentido é encarado como inspirado. — História dos Árabes.
A Xariah, ou lei canônica, baseada em princípios do Qur’ān, regula toda a vida do muçulmano, em sentido religioso, político e social. “Todos os atos do homem são classificados em cinco categorias legais: (1) o que é considerado dever absoluto (fard) [envolvendo recompensa por agir ou punição por deixar de agir]; (2) ações elogiáveis ou meritórias (mustahabb) [envolvendo recompensa, mas não punição por omissão]; (3) ações permissíveis (jaiz, mubah), que são legalmente indiferentes; (4) ações repreensíveis (makruh), que são desaprovadas, mas não puníveis; (5) ações proibidas (haram), cuja prática exige punição.” — História dos Árabes.
[Quadro na página 296]
Os Cinco Pilares da Crença
1. Crença num Deus único, Alá. (Surata 23:116, 117)
2. Crença em anjos. (Surata 2:177)
3. Crença em muitos profetas, mas numa só mensagem. Adão foi o primeiro profeta. Outros incluem Abraão, Moisés, Jesus e “o Postremo dos Profetas”, Maomé. (Surata 4:136; 33:40)
4. Crença num dia de juízo. (Surata 15:35, 36)
5. Crença na onisciência e presciência de Deus e na Sua predeterminação de todos os eventos. Todavia, o homem tem liberdade para escolher as suas ações. [As seitas islâmicas estão divididas quanto à questão do livre-arbítrio.] (Surata 9:51)
[Quadro na página 303]
Os Cinco Pilares da Observância
1. Repetir o credo (chahada): “Não há deus senão Alá; Maomé é o mensageiro de Alá.” (Surata 33:40)
2. Oração (salat) voltado para Meca, cinco vezes por dia. (Surata 2:144)
3. Caridade (zakah), a obrigação de dar uma porcentagem do que se ganha e do valor de certos bens. (Surata 24:56)
4. Jejum (sawm), especialmente durante a celebração de Ramadã, que dura um mês. (Surata 2:183-185)
5. Peregrinação (hadji). Pelo menos uma vez na vida, todo muçulmano varão tem de fazer a jornada a Meca. Apenas a doença e a pobreza são justificativas lícitas. (Surata 3:97)
[Foto/Quadro na página 304 e 305]
A Crença Behaísta — À Procura da União Mundial
1 A crença behaísta não é uma seita do islamismo, mas uma ramificação da religião Babi, um grupo na Pérsia (atual Irã) que se separou do ramo xiita do islamismo em 1844. O líder dos babis era Mirza Ali Mohammad, de Shiraz, que se autoproclamou o Bab (“o Portão”) e o imam-mahdi (“líder corretamente guiado”) da linhagem de Maomé. Foi executado pelas autoridades persas em 1850. Em 1863, Mirza Hoseyn Ali Nuri, destacado membro do grupo Babi, “declarou a si mesmo ‘Aquele a quem Deus manifestará’, a quem o Bab predissera”. Assumiu também o nome Baha Ullah (“Glória de Deus”) e formou uma nova religião, a fé behaísta.
2 Baha Ullah foi banido da Pérsia e, por fim, foi preso em Acco (atual Acre, Israel). Ali escreveu seu principal trabalho, al-Kitab al-Aqdas (Livro Santíssimo), e transformou a doutrina da fé behaísta num amplo ensino. Quando Baha Ulla morreu, a liderança dessa noviça religião passou para seu filho Abd ol-Baha, daí a seu bisneto Shoghi Effendi Rabbani, e, em 1963, a um corpo administrativo eleito, chamado Casa Universal de Justiça.
3 Os behaístas crêem que Deus Se revelou aos humanos por meio de “Manifestações Divinas”, incluindo Abraão, Moisés, Krishna, Zoroastro, o Buda, Jesus, Maomé, o Bab e Baha Ullah. Eles crêem que estes mensageiros foram enviados para guiar a humanidade através de um processo evolucionário no qual o aparecimento do Bab iniciou uma nova era para a humanidade. Os behaístas dizem que até o presente a sua mensagem é a mais plena revelação da vontade de Deus e que é o principal instrumento providenciado por Deus, e que tornará possível a união mundial. — 1 Timóteo 2:5, 6.
4 Um dos preceitos básicos dos behaístas é “que todas as grandes religiões do mundo são de origem divina, que seus princípios básicos estão em total harmonia”. Elas “diferem apenas nos aspectos não-essenciais de suas doutrinas”. — 2 Coríntios 6:14-18; 1 João 5:19, 20.
5 As crenças dos behaístas incluem a unicidade de Deus, a imortalidade da alma e a evolução (biológica, espiritual e social) da humanidade. Por outro lado, rejeitam o conceito comum a respeito de anjos. Rejeitam também a Trindade, o ensino da reencarnação, do hinduísmo, e a perda da perfeição da parte do homem e o subseqüente resgate através do sangue de Jesus Cristo. — Romanos 5:12; Mateus 20:28.
6 A fraternidade do homem e a igualdade das mulheres são importantes aspectos da crença behaísta. Os behaístas praticam a monogamia. Pelo menos uma vez por dia eles oram uma das três orações reveladas por Baha Ulla. Praticam o jejum desde o nascer do sol até o pôr-do-sol, durante os 19 dias do mês behaísta de ala, que cai em março. (O calendário behaísta tem 19 meses, cada qual tendo 19 dias, com certos dias intercalados.)
7 A fé behaísta não tem muitos rituais estabelecidos, e também não tem clero. Quem quer que professe fé em Baha Ullah e aceite seus ensinos pode ser alistado como membro. Reúnem-se para adoração no primeiro dia de todo mês behaísta.
8 Os behaístas consideram-se encarregados da missão da conquista espiritual do planeta. Eles tentam difundir a sua fé através de conversação, exemplo, participação em projetos comunitários e campanhas de esclarecimento. Crêem na absoluta obediência às leis do país em que residem e, embora votem, abstêm-se de participar na política. Preferem deveres como não-combatentes nas forças armadas, quando possível, mas não são objetores de consciência.
9 Como religião missionária, o behaísmo teve um rápido crescimento nos últimos anos. Os behaístas calculam que há cerca de 5.000.000 de crentes em todo o mundo, embora o número real de membros adultos seja atualmente um pouco mais de 2.300.000.
[Perguntas de Estudo do Quadro]
1, 2. Como começou a crença behaísta?
3-7. (a) Quais são algumas das crenças behaístas? (b) De que modo as crenças behaístas divergem dos ensinos da Bíblia?
8, 9. Qual é a missão do behaísmo?
[Foto]
O santuário behaísta na sede mundial, em Haifa, Israel.
[Fotos na página 286]
Segundo a tradição muçulmana, Maomé ascendeu ao céu a partir desta rocha, no Zimbório da Rocha, em Jerusalém.
[Fotos na página 289]
Peregrinos muçulmanos em Meca rodeiam sete vezes a Caaba e tocam ou beijam a Pedra Negra, abaixo, à esquerda.
[Foto na página 290]
O árabe é a língua obrigatória para se ler o Qur’ān (Alcorão).
[Fotos na página 298]
Sentido horário, a partir da esquerda, no alto:
Zimbório da Rocha, em Jerusalém; mesquitas no Irã, África do Sul e Turquia.
[Fotos na página 303]
A Mezquita de Córdoba já foi a maior mesquita do mundo (uma catedral católica agora ocupa o centro).
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A reforma — a busca toma um novo rumoO Homem em Busca de Deus
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Capítulo 13
A reforma — a busca toma um novo rumo
1, 2. (a) Como certo livro sobre a Reforma descreve a Igreja Católica Romana medieval? (b) Que perguntas se fazem sobre a condição da Igreja de Roma?
“A VERDADEIRA tragédia da igreja medieval é que ela deixou de acompanhar os tempos. . . . Longe de ser progressiva, longe de prover liderança espiritual, ela foi retrógrada e decadente, corrupta em todos os seus setores.” Assim diz o livro A História da Reforma (em inglês) sobre a poderosa Igreja Católica Romana, que dominou a maior parte da Europa entre o 5.º século e o século 15 da EC.
2 Como foi que a Igreja de Roma caiu de sua posição todo-poderosa tornando-se ‘decadente e corrupta’? Como foi que o papado, que dizia ser a sucessão apostólica, fracassou em prover “liderança espiritual”? E o que resultou desse fracasso? Para acharmos as respostas, temos de examinar brevemente que tipo de igreja ela deveras se tornara, e que papel desempenhou em ajudar a humanidade na busca do Deus verdadeiro.
A Igreja em Declínio
3. (a) Qual era a condição material da Igreja Romana em fins do século 15? (b) Como tentou a Igreja manter a sua grandeza?
3 Em fins do século 15, a Igreja de Roma, com paróquias, mosteiros e conventos espalhados por todos os seus domínios, tornara-se a maior proprietária de terras de toda a Europa. Consta que ela era dona de nada menos que a metade das terras na França e na Alemanha, e dois quintos ou mais na Suécia e na Inglaterra. O resultado? O “esplendor de Roma aumentou imensuravelmente em fins dos anos 1400 e início dos 1500, e sua importância política prosperou temporariamente”, diz o livro Uma História da Civilização (em inglês). Toda essa grandeza, porém, tinha um preço, e, para mantê-la, o papado teve de encontrar novas fontes de renda. Descrevendo os vários métodos empregados, o historiador Will Durant escreveu:
“Cada delegado eclesiástico era solicitado a enviar à Cúria Papal — escritórios de administração do papado — metade da renda de seu cargo para o primeiro ano (‘anatas’), e daí em diante um décimo ou dízimo por ano. Um novo bispo tinha de pagar ao papa uma quantia importante [pelo] pálio — tira de lã branca que servia de confirmação e insígnia de sua autoridade. Na morte de um cardeal, arcebispo, bispo ou abade, suas propriedades particulares revertiam ao papado. . . . Todo julgamento ou favor conseguido da Cúria exigia um presente como confirmação, e às vezes, o julgamento era ditado pelo presente.”
4. De que modo as riquezas que afluíam para a Igreja afetavam o papado?
4 As grandes somas que ano após ano afluíam aos cofres papais acabaram levando a muitos abusos e corrupção. Tem-se dito que ‘nem mesmo um papa pode tocar em piche sem sujar os dedos’, e a história da Igreja desse período teve o que certo historiador chamou de “uma sucessão de papas bem mundanos”. Entre estes havia Sisto IV (papa de 1471-84), que gastou enormes somas para construir a Capela Sistina, que leva seu próprio nome, e para enriquecer seus muitos sobrinhos e sobrinhas; Alexandre VI (papa de 1492-1503), o infame Rodrigo Bórgia, que abertamente reconhecia a seus filhos ilegítimos e dava-lhes cargos; e Júlio II (papa de 1503-13), sobrinho de Sisto IV, que era mais propenso a guerras, política e arte do que a seus deveres eclesiásticos. Foi com plena justificação que o erudito católico holandês, Erasmo, escreveu em 1518: “A falta de vergonha da Cúria Romana atingiu o clímax.”
5. O que mostram registros contemporâneos a respeito da conduta moral do clero?
5 A corrupção e a imoralidade não se limitavam ao papado. Costumava-se dizer na época: “Se quer estragar seu filho, faça dele um sacerdote.” Registros daquele tempo confirmam isso. Segundo Durant, na Inglaterra, entre as “acusações de incontinência [sexual] registradas em 1499, . . . os faltosos clericais perfaziam uns 23 por cento do total, embora o clero fosse talvez menos de 2 por cento da população. Alguns confessores pediam favores sexuais a suas penitentes. Milhares de padres tinham concubinas; na Alemanha, quase todos.”p. 18] (Contraste com 1 Coríntios 6:9-11; Efésios 5:5.) Os deslizes morais alcançaram também outras áreas. Consta que certo espanhol da época se queixou: “Vejo que dificilmente podemos obter algo dos ministros de Cristo sem ser por dinheiro; no batismo, dinheiro . . . no casamento, dinheiro, para confissão, dinheiro — sim, nem mesmo a extrema unção se consegue sem dinheiro! Eles não tocam os sinos sem dinheiro, não realizam funerais religiosos sem dinheiro; parece que o Paraíso está vedado aos que não têm dinheiro.” — Contraste com 1 Timóteo 6:10.
6. Como descreveu Maquiavel a Igreja Romana? (Romanos 2:21-24)
6 Resumindo a situação da Igreja Romana no início do século 16, citamos as palavras de Maquiavel, famoso filósofo italiano daquela época:
“Se a religião do cristianismo tivesse sido conservada segundo os preceitos do Fundador, o Estado e a comunidade da cristandade seriam muito mais unidos e felizes do que o são. Nem pode haver maior prova de sua decadência do que o fato de que quanto mais perto estão as pessoas da Igreja Romana, cabeça de sua religião, menos religiosas são.”
Primitivos Empenhos de Reforma
7. Que fracos empenhos fez a Igreja para fazer frente a alguns dos abusos?
7 A crise na Igreja foi notada não apenas por homens como Erasmo e Maquiavel, mas também pela própria Igreja. Convocavam-se concílios da Igreja para considerar algumas das queixas e abusos, mas sem resultados duradouros. Os papas, refestelando-se em poder e glória pessoais, desestimulavam quaisquer empenhos reais de reforma.
8. Qual foi o resultado da persistente negligência da Igreja?
8 Tivesse a Igreja levado mais a sério a limpeza interna, talvez não teria havido Reforma. Mas, do jeito como era, começaram-se a ouvir clamores por reforma de dentro e de fora da igreja. No Capítulo 11 já mencionamos os valdenses e os albigenses. Embora tivessem sido condenados como hereges e impiedosamente esmagados, eles haviam despertado no povo um descontentamento com os abusos do clero católico e suscitado o desejo de um retorno à Bíblia. Tais sentimentos encontraram expressão através de vários primitivos Reformadores.
Protestos de Dentro da Igreja
9. Quem era João Wycliffe, e contra o que pregou ele?
9 Muitas vezes chamado de “estrela da manhã da Reforma”, João Wycliffe (1330?-84) era sacerdote católico e professor de teologia em Oxford, Inglaterra. Bem ciente dos abusos na Igreja, ele escreveu e pregou contra coisas tais como corrupção nas ordens monásticas, taxação papal, a doutrina da transubstanciação (a afirmação de que o pão e o vinho usados na Missa literalmente se transformam no corpo e no sangue de Jesus Cristo), a confissão, e o envolvimento da Igreja em assuntos temporais.
10. Como mostrou Wycliffe sua devoção à Bíblia?
10 Wycliffe era especialmente franco quanto à negligência da Igreja em ensinar a Bíblia. Disse ele certa vez: “Queira Deus que toda paróquia de igreja neste país tenha uma boa Bíblia e boas explicações do evangelho, e que os sacerdotes os estudem bem, e que realmente ensinem o evangelho e os mandamentos de Deus ao povo!” Com esse fim, Wycliffe, nos últimos anos de sua vida, dedicou-se à tarefa de traduzir a Bíblia Vulgata latina para o inglês. Com a ajuda de seus associados, especialmente Nicolau de Hereford, ele produziu a primeira Bíblia completa no idioma inglês. Esta foi, sem dúvida, a maior contribuição de Wycliffe à causa da busca de Deus, por parte da humanidade.
11. (a) O que puderam realizar os seguidores de Wycliffe? (b) O que aconteceu com os Lolardos?
11 Os escritos de Wycliffe e partes da Bíblia foram distribuídos por toda a Inglaterra por um grupo de pregadores muitas vezes chamados de “Sacerdotes Pobres” porque iam de vestes simples, descalços e sem bens materiais. Eram também desdenhosamente chamados de Lolardos, que provém da palavra do holandês médio Lollaerd, ou “aquele que murmura orações e hinos”. (Dicionário de Frases e Fábulas, de Brewer [em inglês]) “Em poucos anos, o seu número era considerável”, diz o livro The Lollards (Os Lolardos). “Calculou-se que pelo menos um quarto da nação estava real ou supostamente inclinado em favor desses sentimentos.” Tudo isso, naturalmente, não passou despercebido pela Igreja. Devido à sua notoriedade entre as classes dominante e erudita, permitiu-se que Wycliffe morresse em paz no último dia de 1384. Os seus seguidores foram menos afortunados. Durante o reinado de Henrique IV, da Inglaterra, eles foram tachados de hereges e muitos deles foram presos, torturados ou queimados vivos.
12. Quem era João Huss, e contra o que pregou ele?
12 Fortemente influenciado por João Wycliffe havia o boêmio (tcheco) João Huss (1369?-1415), também sacerdote católico e reitor da Universidade de Praga. Como Wycliffe, Huss pregou contra a corrupção da Igreja Romana e frisou a importância de ler a Bíblia. Isto prontamente trouxe sobre ele a ira da hierarquia. Em 1403, as autoridades ordenaram-lhe que parasse de pregar as idéias antipapais de Wycliffe, cujos livros também queimaram publicamente. Huss, porém, passou a escrever algumas das mais pungentes acusações contra as práticas da igreja, incluindo a venda de indulgências.a Ele foi condenado e excomungado em 1410.
13. (a) O que, segundo ensinava Huss, era a verdadeira igreja? (b) O que resultou da firmeza de Huss?
13 Huss não transigia no seu apoio à Bíblia. “Rebelar-se contra um papa faltoso é obedecer a Cristo”, escreveu. Ensinou também que a verdadeira igreja, longe de ser o papa e a instituição romana, “é o conjunto de todos os eleitos e o corpo místico de Cristo, cuja cabeça é Cristo; e a noiva de Cristo, a quem à base de seu grande amor ele remiu com o seu próprio sangue”. (Compare com Efésios 1:22, 23; 5:25-27.) Por tudo isso, ele foi julgado no Concílio de Constança e condenado como herege. Dizendo “ser melhor morrer bem do que viver mal”, ele recusou-se a retratar-se e foi queimado vivo na estaca, em 1415. O mesmo concílio ordenou também que os ossos de Wycliffe fossem desenterrados e queimados, embora já estivesse morto e sepultado há mais de 30 anos!
14. (a) Quem era Girolamo Savonarola? (b) O que tentou Savonarola fazer, e com que resultado?
14 Outro Reformador primordial foi o monge dominicano Girolamo Savonarola (1452-98) do mosteiro de São Marcos, em Florença, Itália. Embalado pelo espírito da Renascença italiana, Savonarola falou contra a corrupção tanto na Igreja como no Estado. Afirmando ter como base as Escrituras, bem como visões e revelações que dizia ter recebido, ele tentou fundar um estado cristão, ou ordem teocrática. Em 1497, o papa excomungou-o. No ano seguinte, ele foi preso, torturado e enforcado. Suas últimas palavras foram: “Meu Senhor morreu pelos meus pecados; não devia eu gratamente dar esta pobre vida por ele?” Seu corpo foi queimado e as cinzas lançadas no rio Arno. Apropriadamente, Savonarola autodenominou-se “precursor e sacrifício”. Poucos anos depois, a Reforma irrompeu com plena força em toda a Europa.
Uma Casa Dividida
15. Como foi a cristandade na Europa Ocidental dividida pelo movimento da Reforma?
15 Quando a tormenta da Reforma finalmente irrompeu, ela destroçou a casa religiosa da cristandade na Europa Ocidental. Tendo estado sob o domínio praticamente total da Igreja Católica Romana, ela tornou-se então uma casa dividida. O sul da Europa — Itália, Espanha, Áustria e partes da França — permaneceu na maior parte católico. O resto acomodou-se em três principais divisões: Luterana, na Alemanha e Escandinávia; Calvinista (ou Reformada) na Suíça, Países-Baixos, Escócia e partes da França; e Anglicana na Inglaterra. Entremeados entre estas havia grupos menores, porém mais radicais, primeiro os anabatistas e mais tarde os menonitas, huteritas e puritanos, que com o tempo levaram as suas crenças para a América do Norte.
16. Por fim, o que aconteceu com a casa da cristandade? (Marcos 3:25)
16 No decorrer dos anos, essas principais divisões fragmentaram-se adicionalmente em centenas de denominações atuais — Presbiteriana, Episcopal, Metodista, Batista, Congregacional, apenas para mencionar algumas. A cristandade deveras se tornou uma casa dividida. Como foi que ocorreram tais divisões?
Lutero e Suas Teses
17. O que pode ser considerado como ponto inicial oficial da Reforma protestante?
17 Se necessário fosse indicar um ponto inicial decisivo na Reforma protestante, este seria 31 de outubro de 1517, quando o monge agostiniano Martinho Lutero (1483-1546) pregou as suas 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, no estado alemão da Saxônia. Contudo, o que provocou esse dramático evento? Quem era Martinho Lutero? E contra o que protestou?
18. (a) Quem era Martinho Lutero? (b) O que levou Lutero a emitir as suas teses?
18 Como Wycliffe e Huss, antes dele, Martinho Lutero era um monge erudito. Era também doutor em teologia e professor de estudos bíblicos na Universidade de Wittenberg. Lutero ficou famoso por sua compreensão da Bíblia. Embora tivesse fortes opiniões sobre o assunto da salvação, ou justificação, por meio de fé em vez de obras ou de penitência, ele não intencionava romper com a igreja de Roma. De fato, a emissão de suas teses foi sua reação a um incidente específico e não uma revolta planejada. Ele protestava contra a venda de indulgências.
19. Nos dias de Lutero, de que modo se exploravam as indulgências?
19 Nos dias de Lutero, as indulgências papais eram publicamente vendidas não apenas em favor dos vivos mas também em favor dos mortos. “Assim que a moeda no cofre cai, a alma do Purgatório sai”, dizia um ditado popular. Para o povo, uma indulgência era quase que uma apólice de seguro contra a punição por qualquer pecado, e o arrependimento saía pela tangente. “Em toda a parte”, escreveu Erasmo, “vende-se a remissão do tormento purgatorial; não é apenas vendida, mas forçada aos que se recusam a comprá-la”.
20. (a) Por que João Tetzel foi a Jüterbog? (b) Qual foi a reação de Lutero à venda de indulgências por parte de Tetzel?
20 Em 1517, João Tetzel, um frade dominicano, foi a Jüterbog, perto de Wittenberg, para vender indulgências. O dinheiro arrecadado visava em parte financiar a reconstrução da Basílica de São Pedro, em Roma. Visava também ajudar Alberto de Brandenburgo a repor o dinheiro que tomara emprestado para pagar à Cúria Romana pelo cargo de arcebispo de Mainz. Tetzel usava toda a sua perícia de vendedor, e o povo afluía a ele. Lutero indignou-se, e recorreu ao que lhe parecia ser a maneira mais rápida de expressar publicamente a sua opinião sobre esse espetáculo circense — pregar 95 pontos de discórdia na porta da igreja.
21. Que argumentos usou Lutero contra a venda de indulgências?
21 Lutero chamou suas 95 teses de Disputa Para Esclarecer o Poder das Indulgências. Seu objetivo não era tanto desafiar a autoridade da igreja, como apontar os excessos e abusos da venda de indulgências papais. Pode-se ver isto das seguintes teses:
“5. O papa não tem a intenção nem o poder de remir qualquer penalidade, exceto as que ele impôs por sua própria autoridade. . . .
20. Por conseguinte, quando o papa fala da plena remissão de todas as penalidades, isso não significa realmente de todas, mas apenas daquelas impostas por ele mesmo. . . .
36. Todo cristão que sente verdadeira compunção tem direito à plena remissão da punição e da culpa, mesmo sem cartas de indulto.”
22. (a) O que aconteceu à medida que a mensagem de Lutero se espalhava? (b) O que aconteceu em 1520 envolvendo Lutero, e qual foi o resultado?
22 Ajudado pela então recém-inventada imprensa, essas explosivas idéias não demoraram a atingir outras partes da Alemanha — e Roma. O que começou como debate acadêmico sobre a venda de indulgências logo se transformou numa controvérsia sobre assuntos de fé e autoridade papal. De início, a Igreja de Roma envolveu Lutero em debate e ordenou-lhe que se retratasse. Quando Lutero se recusou, tanto o poder eclesiástico como o político foram acionados contra ele. Em 1520 o papa emitiu uma bula, ou edito, que proibia Lutero de pregar e ordenou que seus livros fossem queimados. Em desafio, Lutero queimou a bula papal em público. O papa excomungou-o em 1521.
23. (a) O que era a Dieta de Worms? (b) Como declarou Lutero a sua posição em Worms, e com que resultado?
23 Mais tarde naquele ano, Lutero foi convocado à dieta, ou assembléia, em Worms. Foi julgado pelo imperador do Santo Império Romano, Carlos V, um católico fanático, bem como pelos seis eleitores de colegiado dos estados alemães, e por outros líderes e dignitários, religiosos e seculares. Ao ser novamente pressionado a retratar-se, Lutero fez a sua famosa declaração: “A menos que eu me convença pelas Escrituras e pela razão evidente . . . não posso e não vou retratar-me de coisa alguma, pois ir contra a consciência não é direito nem seguro. Que Deus me ajude. Amém.” Conseqüentemente, o imperador declarou-o fora-da-lei. Contudo, o governante de seu próprio estado alemão, o eleitor Frederico de Saxônia, veio em seu auxílio e ofereceu-lhe abrigo no castelo de Wartburg.
24. O que fez Lutero enquanto esteve no castelo de Wartburg?
24 Essas medidas, porém, não impediram a disseminação das idéias de Lutero. Por dez meses no refúgio de Wartburg, Lutero dedicou-se a produzir escritos e à tradução da Bíblia. Traduziu as Escrituras Gregas para o alemão, do texto grego de Erasmo. As Escrituras Hebraicas vieram mais tarde. A Bíblia de Lutero revelou ser justamente o que o povo necessitava. Consta que “foram vendidos cinco mil exemplares em dois meses, duzentos mil em doze anos”. Sua influência sobre o idioma e a cultura alemã é muitas vezes comparada à da Versão Rei Jaime sobre o inglês.
25. (a) Como veio a ser cunhado o nome protestante? (b) O que era a Confissão de Augsburgo?
25 Nos anos que se seguiram à Dieta de Worms, o movimento da Reforma ganhou tanto apoio popular que em 1526 o imperador concedeu a cada estado alemão o direito de escolher sua forma de religião, luterana ou católica romana. Contudo, em 1529, quando o imperador reverteu a decisão, alguns dos príncipes alemães protestaram; assim, cunhou-se o nome protestante para o movimento da Reforma. No ano seguinte, 1530, na Dieta de Augsburgo, o imperador empenhou-se em sanar as diferenças entre as duas partes. Os luteranos apresentaram suas crenças num documento, a Confissão de Augsburgo, produzido por Philipp Melanchthon, mas à base dos ensinos de Lutero. Embora o documento tivesse um tom mui conciliatório, a Igreja Romana rejeitou-o, e a brecha entre o protestantismo e o catolicismo tornou-se intransponível. Muitos estados alemães aliaram-se a Lutero e os estados escandinavos logo seguiram o seu exemplo.
Reforma ou Revolta?
26. Segundo Lutero, quais eram os pontos fundamentais que dividiam o protestantismo e o catolicismo?
26 Quais eram os pontos fundamentais que dividiam os protestantes dos católicos romanos? Segundo Lutero, havia três. Primeiro, Lutero cria que a salvação resulta da “justificação apenas através da fé” (latim, sola fide)b e não da absolvição sacerdotal ou de obras de penitência. Segundo, ele ensinava que o perdão é concedido apenas devido à graça de Deus (sola gratia) e não pela autoridade de sacerdotes ou papas. Por fim, Lutero sustentava que todos os assuntos doutrinais deviam ser confirmados pelas Escrituras apenas (sola scriptura) e não por papas ou concílios de igreja.
27. (a) Que ensinos e práticas católicos antibíblicos foram retidos pelos protestantes? (b) Que mudanças exigiram os protestantes?
27 Apesar disso, diz The Catholic Encyclopedia, Lutero “reteve das antigas crenças e liturgia tudo aquilo que era possível ajustar a seus conceitos peculiares sobre o pecado e a justificação”. Sobre a fé luterana, a Confissão de Augsburgo diz que “nada existe que seja discordante das Escrituras, ou da Igreja Católica, ou mesmo da Igreja Romana, conforme essa Igreja é conhecida à base de escritores”. De fato, a fé luterana, conforme delineada na Confissão de Augsburgo, incluía doutrinas antibíblicas como a Trindade, a alma imortal e o tormento eterno, bem como práticas tais como o batismo de bebês e feriados e festas religiosas. Por outro lado, os luteranos exigiram certas mudanças, tais como que se permitisse ao povo receber tanto o vinho como o pão na Comunhão e que fossem abolidos o celibato, os votos monásticos e a confissão compulsória.c
28. Em que a Reforma teve êxito, e em que falhou?
28 Como um todo, a Reforma, conforme defendida por Lutero e seus seguidores, teve êxito em livrar-se do jugo papal. Mas, como Jesus declarou em João 4:24, “Deus é Espírito, e os que o adoram têm de adorá-lo com espírito e verdade”. Pode-se dizer que, com Martinho Lutero, a luta da humanidade em busca do verdadeiro Deus tomou apenas um novo rumo; o caminho estreito da verdade ainda estava distante. — Mateus 7:13, 14; João 8:31, 32.
A Reforma de Zwingli na Suíça
29. (a) Quem era Ulrich Zwingli, e contra o que pregou ele? (b) Em que sentido a reforma de Zwingli era diferente da de Lutero?
29 Enquanto Lutero se mantinha ocupado batalhando contra os emissários papais e as autoridades civis na Alemanha, o sacerdote católico Ulrich Zwingli (1484-1531) iniciou seu movimento de reforma em Zurique, Suíça. Sendo esta uma região de língua alemã, o povo já estava influenciado pela maré de reformas vinda do norte. Por volta de 1519, Zwingli começou a pregar contra as indulgências, a mariolatria, o celibato clerical e outras doutrinas da Igreja Católica. Embora Zwingli afirmasse ser independente de Lutero, ele concordava com Lutero em muitos aspectos e distribuía os panfletos de Lutero por todo o país. Em contraste com o mais conservador Lutero, porém, Zwingli defendia a remoção de todos os vestígios da Igreja Romana — imagens, crucifixos, batina, e até mesmo música litúrgica.
30. Que questão-chave dividia Zwingli e Lutero?
30 No entanto, uma controvérsia mais séria entre os dois Reformadores dizia respeito à Eucaristia, ou Missa (Comunhão). Lutero, insistindo numa interpretação literal das palavras de Jesus: ‘Este é meu corpo’, cria que o corpo e o sangue de Cristo estavam milagrosamente presentes no pão e no vinho servidos na Comunhão. Zwingli, por outro lado, argumentava, em seu tratado On the Lord’s Supper (Sobre a Ceia do Senhor) que a declaração de Jesus “deve ser tomada ilustrativa ou metaforicamente; ‘isto é meu corpo’, quer dizer ‘o pão significa meu corpo’, ou ‘é uma representação do meu corpo’”. Por causa dessa diferença, os dois Reformadores se apartaram.
31. Qual foi o resultado da obra de Zwingli na Suíça?
31 Zwingli continuou a pregar as suas doutrinas de reforma em Zurique e fez muitas mudanças ali. Outras cidades logo seguiram seu exemplo, mas a maioria das pessoas nas áreas rurais, mais conservadoras, apegaram-se ao catolicismo. O conflito entre as duas facções tornou-se tão grande que irrompeu uma guerra civil entre suíços protestantes e católicos romanos. Zwingli, servindo como capelão de exército, foi morto na batalha de Kappel, perto do lago Zug, em 1531. Quando finalmente veio a paz, concedeu-se a cada distrito o direito de decidir sua própria forma de religião, protestante ou católica.
Anabatistas, Menonitas e Huteritas
32. Quem eram os anabatistas, e qual a origem desse nome?
32 Alguns protestantes, porém, achavam que os Reformadores não foram suficientemente longe em renunciar às falhas da igreja católica papista. Criam que a igreja cristã devia compor-se apenas dos fiéis praticantes que se tornavam batizados, em vez de todo o povo numa comunidade ou nação. Assim, eles rejeitavam o batismo de bebês e insistiam na separação entre Igreja e Estado. Secretamente rebatizavam seus concrentes e, por isso, ganharam o nome de anabatistas (ana significa “de novo” em grego). Visto que se recusavam a portar armas, fazer juramentos ou aceitar cargos públicos, eles eram encarados como ameaça à sociedade e eram perseguidos tanto por católicos como por protestantes.
33. (a) O que suscitou violenta ação contra os anabatistas? (b) Como se difundiu a influência anabatista?
33 De início, os anabatistas viviam em pequenos grupos espalhados por partes da Suíça, Alemanha e Países-Baixos. Sendo que pregavam suas crenças onde quer que fossem, suas fileiras aumentavam rapidamente. Um grupo de anabatistas, levados por seu fervor religioso, abandonou seu pacifismo e capturou a cidade de Münster, em 1534, e tentou estabelecê-la como comunal e polígama Nova Jerusalém. O movimento foi logo derrubado, com grande violência. Isto estragou a reputação dos anabatistas e eles foram praticamente eliminados. Na verdade, a maioria dos anabatistas eram pessoas religiosas simples que tentavam levar uma vida separada e tranqüila. Entre os mais bem organizados originários dos anabatistas havia os menonitas, seguidores do Reformador holandês Menno Simons, e os huteritas, liderados pelo tirolês Jacob Hutter. Para fugir da perseguição, alguns deles migraram para a Europa Oriental — Polônia, Hungria e até mesmo Rússia — outros para a América do Norte, onde por fim surgiram como comunidades huterita e amish.
Surge o Calvinismo
34. (a) Quem era João Calvino? (b) Que importante livro escreveu ele?
34 A obra de reforma na Suíça prosseguiu sob a liderança de um francês chamado Jean Chauvin, ou João Calvino (1509-64), que entrou em contato com ensinamentos protestantes durante seus dias de estudo na França. Em 1534, Calvino deixou Paris por causa de perseguição religiosa e fixou-se em Basiléia, na Suíça. Em defesa dos protestantes, publicou Institutes of the Christian Religion (Preceitos da Religião Cristã), em que resumiu os conceitos dos primitivos pais da igreja e de teólogos medievais, bem como os de Lutero e Zwingli. Esse trabalho veio a ser considerado como fundamento doutrinal para todas as igrejas Reformadas fundadas mais tarde na Europa e nos Estados Unidos.
35. (a) Como explicava Calvino a sua doutrina da predestinação? (b) De que modo a austeridade dessa doutrina se refletia em outros aspectos dos ensinos de Calvino?
35 Em Preceitos, ele apresentou a sua teologia. Para Calvino, Deus é o soberano absoluto, cuja vontade determina e governa tudo. Em contraste, o homem decaído é pecaminoso e totalmente imerecedor. A salvação, portanto, não depende das boas obras do homem, mas de Deus — resultando disso a doutrina da predestinação, de Calvino, sobre a qual ele escreveu:
“Afirmamos que, por um eterno e imutável desígnio, Deus determinou de uma vez por todas, tanto a quem Ele concederá a salvação, como a quem Ele condenará à destruição. Afirmamos que este desígnio, no que tange aos eleitos, é fundado em Sua gratuita misericórdia, totalmente independente de mérito humano; mas que àqueles a quem Ele entrega à condenação, o portão da vida é fechado por um julgamento justo e irrepreensível, porém incompreensível.”
A austeridade de tal ensino reflete-se também em outras áreas. Calvino insistia que os cristãos devem levar uma vida santa e virtuosa, abstendo-se não somente do pecado, mas também do prazer e da frivolidade. Ademais, ele argumentava que a igreja, composta dos eleitos, deve ser poupada de todas as restrições civis e que apenas através da igreja é possível estabelecer uma sociedade realmente piedosa.
36. (a) O que Calvino e Farel tentaram fazer em Genebra? (b) Que estritos regulamentos foram instituídos? (c) Qual foi um resultado infame das extremas medidas de Calvino, e como justificou ele as suas ações?
36 Pouco depois de publicar Preceitos, Calvino foi persuadido por William Farel, outro Reformador francês, a radicar-se em Genebra. Trabalharam juntos para pôr o calvinismo em prática. Seu objetivo era transformar Genebra numa cidade de Deus, uma teocracia de governo divino combinando as funções de Igreja e Estado. Instituíram regulamentos estritos, com sanções, que abrangiam tudo, desde instrução religiosa e serviços eclesiásticos à moral pública e até mesmo assuntos tais como saneamento e prevenção de incêndio. Certo livro de história conta que “certa cabeleireira, por exemplo, por arrumar o cabelo de uma noiva duma maneira considerada indecorosa, foi encarcerada por dois dias; e a mãe, junto com duas amigas, que haviam ajudado no processo, sofreram a mesma penalidade. Dançar e jogar baralho também eram punidos pelo magistrado”. Dispensava-se um tratamento duro aos que divergiam de Calvino em teologia, o caso mais famoso sendo a queima do espanhol Miguel Servet. — Veja quadro, página 322.
37. De que modo a influência de Calvino se estendeu muito além das fronteiras da Suíça?
37 Calvino continuou a aplicar o seu tipo de reforma em Genebra até a sua morte, em 1564, e a igreja Reformada ficou firmemente estabelecida. Reformadores protestantes, fugindo da perseguição em outras terras, afluíram a Genebra, assimilaram os conceitos calvinistas e serviram de instrumentos em iniciar movimentos de reforma em seus respectivos países de origem. O calvinismo logo chegou à França, onde os huguenotes (como eram chamados os protestantes calvinistas franceses) sofreram severa perseguição às mãos dos católicos. Nos Países-Baixos, os calvinistas ajudaram a estabelecer a Igreja Holandesa Reformada. Na Escócia, sob a zelosa liderança do ex-sacerdote católico João Knox, a Igreja Presbiteriana da Escócia foi estabelecida segundo a linha calvinista. O calvinismo desempenhou um papel também na Reforma na Inglaterra, e de lá seguiu com os puritanos para a América do Norte. Neste sentido, embora Lutero tivesse acionado a Reforma protestante, Calvino teve em muito a maior influência no seu desenvolvimento.
Reforma na Inglaterra
38. Como foi que o trabalho de João Wycliffe gerou o espírito protestante na Inglaterra?
38 Bastante distante dos movimentos de reforma na Alemanha e na Suíça, a Reforma inglesa pode remontar suas raízes aos dias de João Wycliffe, cuja pregação anticlerical e ênfase na Bíblia gerou o espírito protestante na Inglaterra. Seu empenho em traduzir a Bíblia para o inglês foi seguido por outros. William Tyndale, que teve de fugir da Inglaterra, produziu seu Novo Testamento em 1526. Mais tarde foi traído na Antuérpia e estrangulado na estaca, e seu corpo foi queimado. Miles Coverdale terminou a obra de tradução de Tyndale, e a Bíblia completa surgiu em 1535. A publicação da Bíblia na língua do povo foi sem dúvida o mais poderoso fator que contribuiu para a Reforma na Inglaterra.
39. Que papel desempenhou Henrique VIII na Reforma na Inglaterra?
39 A ruptura formal com o catolicismo romano ocorreu quando Henrique VIII (1491-1547), chamado de Defensor da Fé pelo papa, proclamou o Ato de Supremacia, em 1534, nomeando a si mesmo chefe da Igreja da Inglaterra, ou Igreja Anglicana. Henrique também fechou os mosteiros e dividiu os bens destes entre a pequena nobreza. Além disso, ordenou que se colocasse um exemplar da Bíblia em inglês em todas as igrejas. Contudo, a ação de Henrique era mais política do que religiosa. O que ele queria era independência da autoridade papal, especialmente sobre seus assuntos conjugais.d No aspecto religioso, ele continuou católico em todos os sentidos, menos no nome.
40. (a) Que mudanças ocorreram na Igreja da Inglaterra durante o reinado de Elisabete I? (b) Que grupos dissidentes por fim se desenvolveram na Inglaterra, nos Países-Baixos e na América do Norte?
40 Foi durante o longo reinado (1558-1603) de Elisabete I que a Igreja da Inglaterra tornou-se protestante na prática, embora permanecesse largamente católica na estrutura. Aboliu o dever de obediência ao papa, o celibato clerical, a confissão e outras práticas católicas, não obstante, reteve uma forma episcopal de estrutura eclesiástica em sua hierarquia de arcebispos e bispos, bem como ordens de monges e freiras.e Este conservadorismo causou considerável descontentamento, e surgiram vários grupos dissidentes. Os puritanos exigiam uma reforma mais cabal para purificar a igreja de todas as práticas católico romanas; os separatistas e os independentes insistiam que os assuntos da igreja deviam ser cuidados por anciãos locais (presbíteros). Muitos dissidentes fugiram para os Países-Baixos ou para a América do Norte, onde fundaram adicionalmente suas igrejas Congregacional e Batista. Também surgiu na Inglaterra a Sociedade de Amigos (Quakers) sob George Fox (1624-91) e os Metodistas sob João Wesley (1703-91). — Veja gráfico abaixo.
Quais Foram os Efeitos?
41. (a) Na opinião de alguns estudiosos, que efeito teve a Reforma sobre a história humana? (b) Que perguntas são de grande importância?
41 Tendo considerado as três principais correntes da Reforma — Luterana, Calvinista e Anglicana — temos de parar para avaliar o que a Reforma realizou. Inegavelmente, ela mudou o rumo da história no mundo ocidental. “O efeito da Reforma foi aferventar no povo uma sede de liberdade e de cidadania mais elevada e mais pura. Onde quer que a causa protestante se expandisse, ela tornava as massas mais cônscias de seus direitos”, escreveu John F. Hurst em seu livro Short History of the Reformation (Breve História da Reforma). Muitos estudiosos crêem que a civilização ocidental como hoje a conhecemos teria sido impossível sem a Reforma. Seja como for, temos de perguntar: O que a Reforma realizou em sentido religioso? O que fez ela para ajudar a humanidade na busca do verdadeiro Deus?
42. (a) Qual, indubitavelmente, é o maior bem realizado pela Reforma? (b) Que pergunta sobre as verdadeiras realizações da Reforma tem de ser feita?
42 O maior bem realizado pela Reforma foi, sem dúvida, que ela colocou a Bíblia ao alcance do povo na sua própria língua. Pela primeira vez, as pessoas tinham diante de si a inteira Palavra de Deus para ler, podendo assim ser nutridas espiritualmente. Mas, naturalmente, exige-se mais do que apenas ler a Bíblia. Será que a Reforma libertou o povo, não só da autoridade papal, mas também das doutrinas e dogmas errôneos aos quais estivera sujeito por séculos? — João 8:32.
43. (a) Que credos a maioria das atuais igrejas protestantes endossam, professando que crenças? (b) De que modo o livre espírito e a diversidade resultante da Reforma afetaram a busca do Deus verdadeiro, por parte da humanidade?
43 Praticamente todas as igrejas protestantes endossam os mesmos credos — os credos de Nicéia, Atanasiano e dos Apóstolos — e esses professam algumas das mesmíssimas doutrinas que o catolicismo tem ensinado por séculos, como a Trindade, a imortalidade da alma e o inferno de fogo. Tais ensinos antibíblicos deram ao povo um quadro distorcido a respeito de Deus e Seu propósito. Em vez de ajudar as pessoas na sua busca do Deus verdadeiro, as numerosas seitas e denominações que surgiram em resultado do livre espírito da Reforma protestante apenas as dirigiram a muitas diferentes direções. De fato, a diversidade e a confusão levaram muitos a questionar a própria existência de Deus. O resultado? No século 19 surgiu uma crescente onda de ateísmo e agnosticismo. Este será o assunto de nosso próximo capítulo.
[Nota(s) de rodapé]
a Cartas de indulto pelos pecados, emitidas pelo papa.
b Lutero insistia tanto no conceito de “justificação apenas através da fé” que em sua tradução da Bíblia ele acrescentou a palavra “unicamente” em Romanos 3:28. Além disso, ele suspeitava do livro de Tiago por causa de sua declaração de que “a fé sem obras está morta”. (Tiago 2:17, 26) Ele despercebeu que em Romanos Paulo falava de obras da Lei judaica. — Romanos 3:19, 20, 28.
c Martinho Lutero casou-se em 1525 com Catarina von Bora, uma ex-freira que se evadira de um convento cisterciense. Tiveram seis filhos. Ele declarou que se casara por três razões: para agradar a seu pai, por despeito contra o papa e o Diabo e para selar seu testemunho antes do martírio.
d Henrique VIII teve seis esposas. Contra a vontade do papa, o seu primeiro casamento foi anulado, e outro acabou em divórcio. Ele fez decapitar duas esposas e duas morreram de morte natural.
e A palavra grega e·pí·sko·pos é traduzida por “bispo” em algumas Bíblias em português, como a versão Soares.
[Fotos na página 307]
Estas xilogravuras do século 16 contrastam a rejeição dos cambistas, por Cristo, com a venda de indulgências pelo papa.
[Fotos na página 311]
João Huss na estaca.
O reformador e tradutor bíblico inglês João Wycliffe.
[Fotos na página 314]
Martinho Lutero, à direita, protestou contra a venda de indulgências pelo frade João Tetzel.
[Fotos/Quadro na página 322]
“Erros da Trindade”
Aos 20 anos de idade, Miguel Servet (1511-53), um espanhol formado em advocacia e medicina, publicou De Trinitatis erroribus (Erros da Trindade), em que declarou que “não [usaria] a palavra Trindade, que não se encontra nas Escrituras, e que apenas parece perpetuar erros filosóficos”. Ele denunciou a Trindade como doutrina “que não dá para entender, impossível na ordem natural das coisas e que pode até mesmo ser considerada blasfema!”
Por sua franqueza, Servet foi condenado pela Igreja Católica. Mas, foram os calvinistas quem o prenderam, julgaram e executaram queimando-o lentamente. Calvino justificou suas ações com estas palavras: “Se os papistas são tão duros e violentos na defesa de suas superstições que cruelmente derramam sangue inocente, não devem os magistrados cristãos se envergonhar de serem menos ardentes na defesa da segura verdade?” O fanatismo religioso e o ódio pessoal de Calvino cegaram seu julgamento e sufocaram os princípios cristãos. — Compare com Mateus 5:44.
[Fotos]
João Calvino, à esquerda, fez queimar vivo Miguel Servet, à direita, como herege.
[Tabela na página 327]
(Para o texto formatado, veja a publicação)
Esquema Simplificado das Principais Religiões da Cristandade
Início da Apostasia - 2.º Século
Igreja Católica Romana
4.º Século - (Constantino)
5.º Século Cóptica
Jacobita
1054 EC Ortodoxa Russa
Oriental Grega
Romena
e outras
Século 16 Luterana Alemã
Reforma Sueca
Norte-Americana
e outras
Anglicana Metodista
Episcopal Exército da Salvação
Batista
Pentencostal
Congregacional
Calvinismo Presbiteriana
Igrejas Reformadas
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Descrença moderna — deve a busca continuar?O Homem em Busca de Deus
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Capítulo 14
Descrença moderna — deve a busca continuar?
“Deus não é mais uma preocupação costumeira dos seres humanos. Cada vez menos se lembram dele na sua rotina diária ou ao tomarem as suas decisões. . . . Deus foi substituído por outros valores: renda e produtividade. Talvez outrora Deus tenha sido considerado a fonte de significado para todas as atividades humanas, mas hoje ele foi relegado aos calabouços secretos da história. . . . Deus desapareceu da consciência dos seres humanos.” — As Origens do Moderno Ateísmo (em inglês).
1. (Inclua a introdução.) (a) Como descreve o livro As Origens do Moderno Ateísmo a crença em Deus entre as pessoas da atualidade? (b) De que modo a moderna descrença está em nítido contraste com as condições que existiam não muitos anos atrás?
NÃO FAZ muitos anos que Deus desempenhava uma parte muito importante na vida das pessoas no mundo ocidental. Para ser socialmente aceitável, a pessoa tinha de evidenciar ter fé em Deus, mesmo que nem todos praticassem o que diziam crer. Quaisquer dúvidas e incertezas eram discretamente guardadas no íntimo. Expressá-las em público seria chocante, e talvez até mesmo expusesse a pessoa à censura.
2. (a) Por que muitos pararam de buscar a Deus? (b) Que perguntas têm de ser feitas?
2 Hoje, porém, a situação se inverteu. Ter fortes convicções religiosas é tido por muitos como ser bitolado, dogmático, até mesmo fanático. Em muitos países, nota-se uma prevalecente indiferença ou falta de interesse com relação a Deus e religião. A maioria das pessoas não mais buscam a Deus, seja porque não crêem que ele existe, seja porque têm dúvidas quanto a isso. De fato, alguns usam o termo “pós-Cristã” para classificar a nossa era. Assim, é imperativo perguntar: Como foi que o conceito de Deus ficou tão alienado da vida das pessoas? Que forças ocasionaram essa mudança? Há sólidas razões para continuar na busca de Deus?
Conseqüências da Reforma
3. Qual foi um dos resultados da Reforma protestante?
3 Como vimos no Capítulo 13, a Reforma protestante do século 16 causou uma notável mudança no conceito das pessoas quanto à autoridade, quer religiosa, quer outra. A auto-afirmação e a liberdade de expressão tomaram o lugar do conformismo e da submissão. Embora a maioria das pessoas permanecesse dentro do âmbito da religião tradicional, algumas seguiram linhas mais radicais, desafiando os dogmas e os ensinos básicos das religiões tradicionais. Ainda outras, notando o papel da religião nas guerras, nos sofrimentos e nas injustiças em toda a história, tornaram-se totalmente cépticas com relação à religião.
4. (a) De que modo alguns registros contemporâneos descrevem o alcance do ateísmo na Inglaterra e na França nos séculos 16 e 17? (b) Quem veio a tona em resultado dos empenhos feitos durante a Reforma para livrar-se do jugo papal?
4 Já em 1572, um relatório intitulado Exposição Sobre a Situação Atual na Inglaterra (em inglês), dizia: “O reino está dividido em três partidos: os papistas, os ateus e os protestantes. Todos os três são igualmente favorecidos: o primeiro e o segundo porque, sendo muitos, não nos atrevemos a desagradá-los.” Outra estimativa deu 50.000 como o total de ateus em Paris, em 1623, embora o termo tivesse sido usado um tanto vagamente. Seja como for, é claro que a Reforma, no seu empenho de livrar-se do domínio da autoridade papal, trouxe à tona também os que desafiavam a posição das religiões tradicionais. Como Will e Ariel Durant escreveram em A História da Civilização: Volume VII — Começa a Idade da Razão: “Os pensadores da Europa — a vanguarda do espírito europeu — não mais discutiam a autoridade do papa; seus debates giravam em torno da existência de Deus.”
O Ataque da Ciência e da Filosofia
5. Que forças apressaram o surgimento da descrença em Deus?
5 Além da fragmentação da cristandade em si, havia outras forças em ação que enfraqueciam adicionalmente a sua posição. A ciência, a filosofia, o secularismo e o materialismo desempenharam seus papéis em levantar dúvidas e alimentar o cepticismo a respeito de Deus e religião.
6. (a) De que modo a expansão do conhecimento científico afetou muitos dos ensinos da Igreja? (b) O que fizeram alguns que se consideravam atualizados?
6 A expansão do conhecimento científico questionou muitos dos ensinos da Igreja que eram baseados em interpretações errôneas de textos bíblicos. Por exemplo, descobertas astronômicas por homens como Copérnico e Galileu representaram um desafio direto à doutrina geocêntrica da Igreja, ou seja, que a terra é o centro do universo. Ademais, a compreensão das leis naturais que governam as operações do mundo físico tornou desnecessário atribuir à mão de Deus ou à Providência os fenômenos até então misteriosos, como o trovão e o relâmpago, ou mesmo o aparecimento de certas estrelas e cometas. “Milagres” e “intervenção divina” nos assuntos humanos também caíram na suspeita. Subitamente, Deus e religião pareciam obsoletos para muitos, e alguns que se consideravam atualizados prontamente voltaram as costas para Deus e juntaram-se à adoração da vaca sagrada da ciência.
7. (a) Qual, sem dúvida, foi o mais severo golpe contra a religião? (b) Qual foi a reação das igrejas ao darwinismo?
7 O mais severo golpe contra a religião, sem dúvida, foi a teoria da evolução. Em 1859, o naturalista inglês Charles Darwin (1809-82) publicou seu livro Origem das Espécies e apresentou um desafio direto ao ensino bíblico da criação por Deus. Como reagiram as igrejas? De início, os clérigos da Inglaterra e de outras partes condenaram a teoria. Mas, a oposição logo se desvaneceu. Parecia que as especulações de Darwin eram exatamente a desculpa que procuravam muitos clérigos que secretamente entretinham dúvidas. Assim, já nos dias de Darwin, “a maioria dos clérigos refletivos e expressivos tinham chegado à conclusão de que a evolução era inteiramente compatível com o entendimento esclarecido da escritura”, diz a Enciclopédia de Religião (em inglês). Em vez de vir em defesa da Bíblia, a cristandade cedeu à pressão da opinião científica e seguiu o que era popular. Assim, ela minou a fé em Deus. — 2 Timóteo 4:3, 4.
8. (a) O que questionaram os que criticavam a religião no século 19? (b) Quais eram algumas das teorias populares propostas pelos que criticavam a religião? (c) Por que muitos prontamente abraçaram as idéias anti-religiosas?
8 À medida que prosseguia o século 19, os críticos da religião tornavam-se mais ousados nos seus ataques. Não contentes em apenas apontar as falhas das religiões, eles passaram a questionar os próprios fundamentos da religião. Suscitaram perguntas tais como: O que é Deus? Por que existe necessidade de Deus? Como é que a crença em Deus afetou a sociedade humana? Homens como Ludwig Feuerbach, Karl Marx, Sigmund Freud e Friedrich Nietzsche apresentavam seus argumentos em termos filosóficos, psicológicos e sociológicos. Teorias como ‘Deus nada mais é do que a projeção da imaginação do homem’, ‘religião é o ópio do povo’ e ‘Deus está morto’ soavam bem modernas e excitantes em comparação com os insípidos e incompreensíveis dogmas e tradições das igrejas. Parecia que finalmente muitas pessoas haviam descoberto uma forma bem articulada de expressar dúvidas e suspeitas que pairavam nas suas mentes. Pronta e animadamente abraçaram essas idéias como nova verdade evangélica.
A Grande Transigência
9. (a) O que fizeram as religiões quando atacadas pela ciência e pela filosofia? (b) O que resultou da transigência das religiões?
9 Atacadas e escrutinizadas pela ciência e pela filosofia, o que fizeram as religiões? Em vez de assumirem uma posição firme em favor dos ensinos da Bíblia, elas cederam às pressões e transigiram até mesmo em artigos de fé fundamentais, como a criação por Deus e a autenticidade da Bíblia. O resultado? As religiões da cristandade passaram a perder a credibilidade, e muitos passaram a perder a fé. O fracasso das religiões em vir em sua própria defesa deixou a porta bem aberta para as massas saírem. Para muitos, a religião se tornou nada mais do que um legado sociológico, algo para marcar os pontos altos na vida da pessoa — o nascimento, o casamento, a morte. Muitos quase desistiram de sua busca do Deus verdadeiro.
10. Que oportunas perguntas devem ser consideradas?
10 Em vista de tudo isso, é lógico perguntar: Será que a ciência e a filosofia realmente passaram o atestado de óbito da crença em Deus? Será que a falha das religiões é a falha daquilo que elas afirmam ensinar, a Bíblia? Ora, deve a busca de Deus continuar? Examinemos brevemente esses pontos.
Base Para Se Crer em Deus
11. (a) Que dois livros há muito têm sido a base para a crença em Deus? (b) De que modo esses livros têm afetado as pessoas?
11 Tem-se dito que há dois livros que nos falam a respeito da existência de Deus — o “livro” da criação, ou seja, a natureza que nos cerca, e a Bíblia. Estes têm sido a base para a crença de milhões de pessoas, no passado e no presente. Por exemplo, um rei do século 11 AEC, impressionado pelo que observava no céu estrelado, exclamou poeticamente: “Os céus declaram a glória de Deus; e a expansão está contando o trabalho das suas mãos.” (Salmo 19:1) No século 20, um astronauta, que, mirando a espetacular vista da Terra de sua espaçonave que circundava a lua, foi induzido a recitar: “No princípio criou Deus os céus e a terra.” — Gênesis 1:1, Al.
12. De que modo o livro da criação e a Bíblia têm estado sob ataque?
12 Mas, esses dois livros estão sob ataque da parte dos que afirmam não crer em Deus. Dizem que a investigação científica do mundo que nos cerca prova que a vida veio a existir, não através da criação inteligente, mas sim pelo cego acaso e pelo casual processo da evolução. Argumentam, assim, que não existia um Criador, de modo que a questão sobre Deus é supérflua. Ademais, muitos deles crêem que a Bíblia é simplesmente obsoleta e ilógica, portanto, indigna de ser crida. Conseqüentemente, para eles, não há mais base para se crer na existência de Deus. É isso verdade? O que indicam os fatos?
Por Acaso ou por Projeto?
13. O que teria de ter ocorrido para que a vida viesse a existir por acaso?
13 Não havendo Criador, a vida então teria começado espontaneamente, por acaso. Para que a vida viesse a existir, de algum modo as corretas substâncias químicas teriam de se ter combinado nas quantidades certas, sob a correta temperatura e pressão e outros fatores controladores, e tudo teria de ter sido mantido pelo correto espaço de tempo. Ademais, para que a vida começasse e fosse sustentada na terra, esses acontecimentos casuais teriam de se ter repetido milhares de vezes. Mas, qual é a probabilidade de um único evento assim ocorrer?
14. (a) Quão remota é a probabilidade de que uma única molécula simples de proteína seja formada por acaso? (b) De que modo cálculos matemáticos afetam o conceito de a vida originar-se espontaneamente?
14 Os evolucionistas admitem que a probabilidade de os átomos e as moléculas apropriados se combinarem para formar uma única molécula simples de proteína é 1 em 10113, ou, 1 seguido de 113 zeros. Esse número é maior do que o total calculado de átomos no universo! Os matemáticos descartam como impossível tudo o que tenha menos de 1 em 1050 de probabilidade de ocorrer. Mas, muito mais do que uma molécula simples de proteína é necessário para a vida. São necessárias umas 2.000 diferentes proteínas apenas para uma única célula manter a sua atividade, e a possibilidade de que todas elas ocorram a esmo é 1 em 1040.000! “Se a pessoa não for preconcebida, seja por crenças sociais, seja por determinado preparo científico, a ter convicção de que a vida se originou [espontaneamente] na Terra, esse simples cálculo torna improcedente toda esta idéia”, diz o astrônomo Fred Hoyle.
15. (a) O que descobriram os cientistas no seu estudo do mundo físico? (b) O que disse certo professor de física sobre as leis da natureza?
15 Por outro lado, estudando o mundo físico, das diminutas partículas subatômicas às vastas galáxias, os cientistas descobriram que todos os fenômenos naturais conhecidos parecem seguir certas leis básicas. Em outras palavras, constataram que existe lógica e ordem em tudo o que ocorre no universo, e eles podem expressar essa lógica e ordem em termos matemáticos simples. “Poucos são os cientistas que não se impressionam com a quase inconcebível simplicidade e elegância dessas leis”, escreveu o professor de física Paul Davies na revista New Scientist.
16. (a) Quais são algumas constantes fundamentais nas leis da natureza? (b) O que aconteceria se os valores destas constantes mudassem nem que fosse um pouquinho? (c) O que concluiu certo professor de física a respeito do universo e da nossa existência?
16 Algo muito intrigante a respeito dessas leis, contudo, é que há nelas certos fatores cujos valores têm de ser fixados com precisão para que o universo tal como o conhecemos exista. Entre estas constantes fundamentais há a unidade de carga elétrica sobre o próton, as massas de certas partículas fundamentais e a constante universal da gravitação, de Newton, comumente referida pela letra G. Sobre isso, o professor Davies prossegue: “Até mesmo mínimas variações nos valores de algumas delas alteraria drasticamente a aparência do Universo. Por exemplo, Freeman Dyson frisou que, se a força entre os núcleons (prótons e nêutrons) fosse apenas alguns por cento mais forte, o Universo ficaria sem hidrogênio. Estrelas, como o Sol, para não mencionar a água, talvez não existissem. A vida, pelo menos como a conhecemos, seria impossível. Brandon Carter mostrou que mudanças muitíssimo menores na G transformariam todas as estrelas em gigantes azuis ou anãs vermelhas, com conseqüências igualmente funestas sobre a vida.” Assim, Davies conclui: “Neste caso, é concebível a existência de apenas um único Universo. Se assim for, é um notável pensamento que a nossa existência como seres conscientes é uma inescapável conseqüência da lógica.” — O grifo é nosso.
17. (a) A existência de projeto e intenção no universo indica claramente o quê? (b) De que modo é isso confirmado na Bíblia?
17 O que se deduz de tudo isso? Primeiro, se o universo é governado por leis, deve existir um legislador inteligente que formulou ou estabeleceu essas leis. Ademais, visto que as leis que governam a operação do universo aparentemente foram feitas em antecipação à vida e às condições favoráveis para a sua sustentação, está claramente envolvida a intenção. Projeto e intenção — não são características do cego acaso; são precisamente o que um Criador inteligente manifestaria. E isso é justamente o que a Bíblia indica ao declarar: “Aquilo que se pode saber sobre Deus é manifesto entre eles, porque Deus lho manifestou. Pois as suas qualidades invisíveis são claramente vistas desde a criação do mundo em diante, porque são percebidas por meio das coisas feitas, mesmo seu sempiterno poder e Divindade.” — Romanos 1:19, 20; Isaías 45:18; Jeremias 10:12.
Abundante Evidência ao Nosso Redor
18. (a) No que mais pode-se perceber a existência de projeto e intenção? (b) Que conhecidos exemplos de projeto inteligente poderia você dar?
18 Naturalmente, percebe-se a existência de projeto e intenção não só no ordeiro funcionamento do universo, mas também na maneira em que as criaturas viventes, simples e complexas, executam as suas atividades diárias, bem como na maneira em que interagem umas com as outras e com o meio ambiente. Por exemplo, quase todos os componentes do corpo humano — o cérebro, o olho, o ouvido, a mão — indicam a existência de um projeto tão intricado que a ciência moderna não consegue explicá-lo plenamente. E existe também o mundo animal e vegetal. A migração anual de certas aves através de milhares de quilômetros de terra e mar, o processo da fotossíntese nas plantas, o desenvolvimento dum único óvulo fertilizado num organismo complexo de milhões de células diferenciadas com funções especializadas — apenas para dar alguns exemplos — tudo isso constitui uma notável evidência de projeto inteligente.a
19. (a) Será que uma explicação científica de como certas coisas funcionam prova que não existe projeto ou projetista inteligente? (b) O que podemos aprender por estudar o mundo que nos cerca?
19 Alguns argumentam, porém, que o aumentado conhecimento científico supriu explicações para muitos desses feitos. Realmente, a ciência explicou, até certo ponto, muitas coisas que antes eram um mistério. Mas, o fato de uma criança descobrir como funciona um relógio não prova que o relógio não foi projetado e feito por alguém. Similarmente, entendermos as maravilhosas maneiras em que muitas das coisas no mundo físico funcionam não prova que não existe por trás delas um projetista inteligente. Ao contrário, quanto mais sabemos a respeito do mundo ao nosso redor, tanto mais evidência temos da existência de um Criador inteligente, Deus. Assim, de mente aberta, podemos concordar com o salmista, que reconheceu: “Quantos são os teus trabalhos, ó Jeová! A todos eles fizeste em sabedoria. A terra está cheia das tuas produções.” — Salmo 104:24.
A Bíblia — Pode-se Crer Nela?
20. O que mostra que a crença em Deus não é suficiente para induzir alguém a buscá-lo?
20 Crer na existência de Deus, porém, não é suficiente para induzir as pessoas a buscá-lo. Há hoje milhões de pessoas que não rejeitaram totalmente a crença em Deus, mas isso não as induziu a buscá-Lo. O pesquisador de opinião pública americano George Gallup Jr. diz que “em termos de fraudação, sonegação de impostos e pequenos furtos, realmente não se constata muita diferença entre os afiliados a igreja e os não afiliados, em grande parte porque existe muita religião social”. Acrescenta que “muitos simplesmente montam uma religião que lhes seja conveniente, que os excite agradavelmente e que não seja necessariamente desafiadora. Alguém chamou isso de religião à la carte. Esta é a fraqueza principal do cristianismo neste país [EUA] hoje em dia: não há firmeza de crença.”
21, 22. (a) O que torna a Bíblia um livro notável? (b) Qual é a evidência básica da autenticidade da Bíblia? Explique.
21 Essa “fraqueza principal” é largamente o resultado da falta de conhecimento e fé na Bíblia. Mas, que base existe para se crer na Bíblia? Primeiro, deve-se notar que, ao longo das eras, provavelmente nenhum outro livro tem sido mais injustamente criticado, injuriado, odiado e atacado do que a Bíblia. Não obstante, ela tem sobrevivido a tudo isso e resultou ser o livro mais traduzido e de maior circulação de que há registro. Isto em si torna a Bíblia um livro notável. Mas, existe prova abundante, evidência convincente, de que a Bíblia é um livro inspirado por Deus e merecedor de nossa crença. — Veja quadro, páginas 340-1.
22 Embora muitos, em maior ou menor grau, considerem a Bíblia como anticientífica, contraditória e obsoleta, os fatos mostram o contrário. A sua autoria ímpar, a sua exatidão histórica e científica, e suas profecias infalíveis, em conjunto, apontam para uma única conclusão inevitável: a Bíblia é a inspirada Palavra de Deus. Como disse o apóstolo Paulo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e proveitosa.” — 2 Timóteo 3:16.
Enfrentando o Desafio da Descrença
23. O que podemos concluir com relação à Bíblia quando examinamos os fatos?
23 Tendo considerado a evidência à base do livro da criação e da Bíblia, o que podemos concluir? Simplesmente que esses livros são tão válidos hoje como sempre foram. Se nos dispomos a examinar o assunto objetivamente, em vez de nos deixar desviar por idéias preconcebidas, vemos que qualquer objeção pode ser vencida de maneira razoável. As respostas existem, bastando que estejamos dispostos a procurá-las. Jesus disse: “Persisti em buscar, e achareis.” — Mateus 7:7; Atos 17:11.
24. (a) Por que muitos desistiram da sua busca de Deus? (b) De que podemos derivar consolo? (c) O que será considerado no restante deste livro?
24 Em última análise, a maioria das pessoas que desistiram de buscar a Deus não o fizeram porque examinaram cuidadosamente a evidência por si mesmas e constataram que a Bíblia é inverídica. Na verdade, muitas delas têm-se afastado por causa do fracasso da cristandade em apresentar o verdadeiro Deus da Bíblia. Como declarou o escritor francês P. Valadier: “Foi a tradição cristã que produziu o ateísmo como fruto; levou à morte de Deus na consciência dos homens porque ela lhes apresentou um Deus impossível de se crer.” Seja como for, podemos consolar-nos com as palavras do apóstolo Paulo: “Qual é o caso, então? Se alguns não expressaram fé, porventura fará a sua falta de fé que a fidelidade de Deus seja sem efeito? Que isso nunca aconteça! Mas, seja Deus achado verdadeiro, embora todo homem seja achado mentiroso.” (Romanos 3:3, 4) Sim, existe todo motivo para continuar a busca do Deus verdadeiro. Nos capítulos finais deste livro, veremos como essa busca chegou a um fim bem-sucedido e o que o futuro tem em reserva para a humanidade.
[Nota(s) de rodapé]
a Para uma explicação detalhada dessas provas da existência de Deus, veja o livro A Vida — Qual a Sua Origem? A Evolução ou a Criação?, publicado pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1985, páginas 142-78.
[Diagrama/Foto na página 337]
A existência da vida e do universo seria impossível se certos fatores no projeto sofressem um mínimo desvio sequer.
[Diagrama]
(Para o texto formatado, veja a publicação)
COMPONENTES DO ÁTOMO DE HIDROGÊNIO
Invólucro do Elétron
PRÓTON + Núcleo
ELÉTRON −
[Fotos na página 333]
Darwin, Marx, Freud, Nietzsche e outros propuseram teorias que minaram a fé em Deus.
[Fotos na página 335]
O “livro” da criação e a Bíblia fornecem a base para se crer em Deus.
[Fotos na página 338]
Quanto mais sabemos a respeito do mundo que nos cerca, tanto mais evidência temos da existência de um Criador inteligente.
[Quadro nas páginas 340, 341]
Evidências da Autenticidade da Bíblia
Autoria Ímpar: De seu primeiro livro, Gênesis, ao último, Revelação (Apocalipse), a Bíblia se compõe de 66 livros escritos por cerca de 40 escritores de formação social, educacional e profissional amplamente diversificada. A escrita foi feita num período de 16 séculos, de 1513 AEC a 98 EC. Todavia, o produto final é um livro harmonioso e coerente, que delineia o desenvolvimento lógico de um destacado tema — a vindicação de Deus e de seu propósito por meio do Reino messiânico. — Veja quadro, página 241.
Exatidão Histórica: Os eventos registrados na Bíblia harmonizam-se plenamente com os fatos históricos provados. O livro Um Advogado Examina a Bíblia (em inglês) observa: “Ao passo que os romances, as lendas e o testemunho falso tomam o cuidado de colocar os eventos narrados em algum lugar distante e em algum tempo indefinido, . . . as narrativas da Bíblia nos dão a data e o lugar das coisas narradas com a máxima precisão.” (Ezequiel 1:1-3) E O Novo Dicionário da Bíblia (em inglês) diz: “[O escritor de Atos] coloca sua narrativa dentro da moldura da história contemporânea; suas páginas estão repletas de referências aos magistrados das cidades, aos governadores provinciais, aos reis vassalos e a outros semelhantes, e essas referências provam vez após vez que estão corretas quanto ao lugar e ao tempo em questão.” — Atos 4:5, 6; 18:12; 23:26.
Exatidão Científica: Leis sobre quarentena e higiene foram dadas aos israelitas no livro de Levítico, quando as nações circunvizinhas nada sabiam a respeito de tais práticas. O ciclo de chuva e evaporação do oceano, desconhecido nos tempos antigos, é descrito em Eclesiastes 1:7. Que a terra é esférica e suspensa no espaço, só confirmado pela ciência no século 16, é declarado em Isaías 40:22 e em Jó 26:7. Mais de 2.200 anos antes de William Harvey ter publicado suas descobertas a respeito da circulação sangüínea, Provérbios 4:23 apontava para o papel do coração humano. Assim, ao passo que a Bíblia não é um compêndio de ciência, quando ela toca em assuntos relacionados com a ciência, demonstra uma profundeza de entendimento muito além de seu tempo.
Profecias Infalíveis: A destruição da antiga Tiro, a queda de Babilônia, a reconstrução de Jerusalém e a ascensão e queda dos reis da Medo-Pérsia e da Grécia foram preditas tão detalhadamente que os críticos inutilmente acusam que foram escritas depois dos acontecimentos. (Isaías 13:17-19; 44:27-45:1; Ezequiel 26:3-7; Daniel 8:1-7, 20-22) Profecias sobre Jesus, feitas séculos antes de seu nascimento, cumpriram-se em detalhes. (Veja quadro, página 245.) As próprias profecias de Jesus sobre a destruição de Jerusalém cumpriram-se com exatidão. (Lucas 19:41-44; 21:20, 21) Profecias sobre os últimos dias, feitas por Jesus e pelo apóstolo Paulo, cumprem-se em nossos tempos. (Mateus 24; Marcos 13; Lucas 21; 2 Timóteo 3:1-5) Todavia, a Bíblia atribui todas as profecias a uma única Fonte, Jeová Deus. — 2 Pedro 1:20, 21.
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Retorno ao Deus verdadeiroO Homem em Busca de Deus
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Capítulo 15
Retorno ao Deus verdadeiro
“Eu vos dou um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Por meio disso saberão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor entre vós.” — João 13:34, 35.
1, 2. Quais devem ser os efeitos do amor entre os cristãos verdadeiros?
COM essas palavras, Jesus estabeleceu um critério para os que afirmam ser seus seguidores verdadeiros. O amor cristão deveria transcender todas as divisões raciais, tribais e nacionais. Exigiria que os cristãos verdadeiros ‘não fizessem parte do mundo’, assim como Jesus não fazia, nem faz, “parte do mundo”. — João 17:14, 16; Romanos 12:17-21.
2 De que modo o cristão mostra não ser “parte do mundo”? Por exemplo, como deve ele agir com relação à política turbulenta, às revoluções e às guerras de nossos dias? O apóstolo cristão João escreveu, em consonância com as palavras de Jesus acima: “Todo aquele que não está praticando a justiça não se origina de Deus, nem aquele que não ama seu irmão. Porque esta é a mensagem que ouvistes desde o princípio, que devemos ter amor uns pelos outros.” E o próprio Jesus explicou por que seus discípulos não lutaram para livrá-lo, dizendo: “Meu reino não faz parte deste mundo. Se o meu reino fizesse parte deste mundo, meus assistentes teriam lutado . . . Mas, assim como é, o meu reino não é desta fonte.” Mesmo com a vida de Jesus em risco, aqueles assistentes não se envolveram em resolver a controvérsia segundo os modos beligerantes do mundo. — 1 João 3:10-12; João 18:36.
3, 4. (a) O que profetizou Isaías a respeito da “parte final dos dias”? (b) Que perguntas exigem uma resposta?
3 Mais de 700 anos antes de Cristo, Isaías profetizara que pessoas de todas as nações seriam reunidas na adoração verdadeira de Jeová e não mais aprenderiam a guerrear. Ele disse: “E na parte final dos dias terá de acontecer que o monte da casa de Jeová ficará firmemente estabelecido acima do cume dos montes . . . e a ele terão de afluir todas as nações. E muitos povos certamente irão e dirão: ‘Vinde, e subamos ao monte de Jeová, à casa do Deus de Jacó; e ele nos instruirá sobre os seus caminhos e nós andaremos nas suas veredas.’ Pois de Sião sairá a lei e de Jerusalém a palavra de Jeová. E ele certamente fará julgamento entre as nações e resolverá as questões com respeito a muitos povos. E terão de forjar das suas espadas relhas de arado, e das suas lanças, podadeiras. Não levantará espada nação contra nação, nem aprenderão mais a guerra.”a — Isaías 2:2-4.
4 Qual, dentre todas as religiões do mundo, tem sido notável em cumprir esses requisitos? Quem se tem recusado a aprender a guerrear apesar de prisões, campos de concentração e penas de morte?
Amor Cristão e Neutralidade
5. Que registro de neutralidade cristã têm as Testemunhas de Jeová estabelecido como indivíduos, e por quê?
5 As Testemunhas de Jeová são mundialmente conhecidas, em base individual, por sua conscienciosa posição de neutralidade cristã. Têm suportado prisões, campos de concentração, tortura, deportações e perseguições por todo o século 20 por se recusarem a sacrificar seu amor e união como congregação mundial de cristãos atraídos a Deus. Na Alemanha nazista nos anos 1933-45, cerca de mil Testemunhas morreram e milhares foram encarceradas por se recusarem a cooperar com o esforço de guerra de Hitler. Igualmente, sob Franco na anteriormente Espanha fascista, centenas de jovens Testemunhas foram à prisão, e muitas passaram em média dez anos cada uma em prisões militares, por não quererem se adestrar para a guerra. Até hoje, em vários países, muitas jovens Testemunhas de Jeová sofrem em prisões por causa de sua posição de neutralidade cristã. Contudo, as Testemunhas de Jeová não interferem nos programas militares dos governos. A sua decidida neutralidade cristã em assuntos políticos tem sido uma das constantes de suas crenças no decorrer de todos os conflitos e guerras do século 20. Isto as marca como verdadeiros seguidores de Cristo e as distingue das religiões da cristandade. — João 17:16; 2 Coríntios 10:3-5.
6, 7. O que as Testemunhas de Jeová vieram a entender com respeito ao cristianismo?
6 Por apegarem-se à Bíblia e ao exemplo de Cristo, as Testemunhas de Jeová demonstram que praticam a adoração do Deus verdadeiro, Jeová. Reconhecem o amor de Deus conforme refletido na vida e no sacrifício de Jesus. Entendem que o verdadeiro amor cristão resulta numa indivisível fraternidade mundial — acima de divisões políticas, raciais e nacionais. Em outras palavras, o cristianismo é mais do que internacional; é supranacional, transcendendo fronteiras, autoridades ou interesses nacionais. Encara a raça humana como sendo uma só família, de progenitor único e Criador único, Jeová Deus. — Atos 17:24-28; Colossenses 3:9-11.
7 Ao passo que praticamente todas as outras religiões têm-se envolvido em guerras — fratricidas e homicidas — as Testemunhas de Jeová têm mostrado que tomam a peito a profecia de Isaías 2:4, anteriormente citada. ‘Mas’, talvez se pergunte, ‘de onde se originaram as Testemunhas de Jeová? Qual o seu modo de agir?’
Longa Série de Testemunhas de Deus
8, 9. Que convite tem feito Deus à humanidade?
8 Mais de 2.700 anos atrás, o profeta Isaías também proclamou o seguinte convite: “Buscai a Jeová enquanto pode ser achado. Chamai-o enquanto mostra estar perto. Deixe o iníquo o seu caminho e o homem prejudicial os seus pensamentos; e retorne ele a Jeová, que terá misericórdia com ele, e ao nosso Deus, porque perdoará amplamente.” — Isaías 55:6, 7.
9 Séculos mais tarde, o apóstolo cristão Paulo explicou a certos gregos em Atenas, que eram “dados ao temor das deidades [mitológicas]”: “[Deus] fez de um só homem toda nação dos homens, para morarem sobre a superfície inteira da terra, e decretou os tempos designados e os limites fixos da morada dos homens, para buscarem a Deus, se tateassem por ele e realmente o achassem, embora, de fato, não esteja longe de cada um de nós.” — Atos 17:22-28.
10. Como sabemos que Deus não estava distante de Adão e Eva e dos filhos destes?
10 Deus certamente não se manteve distante de suas criações humanas, Adão e Eva. Ele lhes falou, comunicando seus mandamentos e desejos. Ademais, Deus não se ocultou dos filhos deles, Caim e Abel. Ele aconselhou Caim quando este, tomado de ódio, mostrou inveja com relação ao sacrifício que seu irmão ofereceu a Deus. Mas, em vez de mudar sua forma de adoração, Caim mostrou uma ciumenta intolerância religiosa e assassinou seu irmão Abel. — Gênesis 2:15-17; 3:8-24; 4:1-16.
11. (a) O que significa a palavra “mártir”? (b) Como foi que Abel se tornou o primeiro mártir?
11 Abel, por sua fidelidade a Deus mesmo em face da morte, tornou-se o primeiro mártir.b Foi também a primeira testemunha de Jeová e precursor duma longa série de testemunhas íntegras ao longo de toda a história. Assim, Paulo podia dizer: “Pela fé Abel ofereceu a Deus um sacrifício de maior valor do que Caim, sendo por esta fé que se lhe deu testemunho de que era justo, dando Deus testemunho com respeito a suas dádivas; e por intermédio dela, embora morto, ainda fala.” — Hebreus 11:4.
12. Que outros exemplos há de fiéis testemunhas de Jeová?
12 Na mesma carta aos hebreus, Paulo alista uma longa série de homens e mulheres fiéis, tais como Noé, Abraão, Sara e Moisés, que, por seu registro de integridade, vieram a formar uma “grande nuvem de testemunhas [grego, mar·tý·ron]” que têm servido como exemplos e encorajamento para outros que desejam conhecer e servir ao Deus verdadeiro. Eram homens e mulheres que tinham uma relação com Jeová Deus. Eles o haviam procurado e encontrado. — Hebreus 11:1-12:1.
13. (a) Por que é Jesus uma notável manifestação do amor de Deus? (b) Em que sentido especial é Jesus um exemplo para seus seguidores?
13 Notável entre tais testemunhas foi aquela mencionada no livro de Revelação (ou Apocalipse): “Jesus Cristo, ‘a Testemunha Fiel.’” Jesus é ainda outra clara evidência do amor de Deus, pois, como João escreveu: “Nós mesmos temos observado e estamos dando testemunho de que o Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo. Todo aquele que faz a confissão de que Jesus Cristo é o Filho de Deus, com tal Deus permanece em união e ele em união com Deus. E nós mesmos chegamos a conhecer e temos crido o amor que Deus tem em nosso caso.” Judeu de nascimento, Jesus foi uma testemunha verdadeira e morreu como mártir em fidelidade a seu Pai, Jeová. Os autênticos seguidores de Cristo, no decorrer das eras, também seriam testemunhas tanto dele como do Deus verdadeiro, Jeová. — Revelação 1:5; 3:14; 1 João 4:14-16; Isaías 43:10-12; Mateus 28:19, 20; Atos 1:8.
14. Que pergunta exige agora uma resposta?
14 A profecia de Isaías indicava que um retorno ao Deus verdadeiro, Jeová, seria um dos aspectos da “parte final dos dias”, ou do que outras partes da Bíblia chamam de “últimos dias”.c Em vista da diversidade e confusão religiosas que analisamos neste livro, surge a pergunta: Quem, nestes últimos dias em que vivemos, têm realmente buscado o Deus verdadeiro, para servi-lo “com espírito e verdade”? Para respondermos a essa pergunta, temos de primeiro dirigir a nossa atenção a certos eventos do século 19. — Isaías 2:2-4; 2 Timóteo 3:1-5; João 4:23, 24.
Um Jovem em Busca de Deus
15. (a) Quem era Charles Taze Russell? (b) Quais eram algumas de suas dúvidas religiosas?
15 Em 1870, um zeloso jovem, Charles Taze Russell (1852-1916) passou a fazer muitas perguntas a respeito dos ensinos tradicionais da cristandade. Ainda jovem, ele trabalhava na loja de artigos para homens, de seu pai, na movimentada cidade industrial de Allegheny (agora parte de Pittsburgh), na Pensilvânia, EUA. Sua formação religiosa era presbiteriana e congregacional. Contudo, ele se sentia confuso com os ensinos como a predestinação e o tormento eterno no inferno de fogo. Quais eram as suas razões para duvidar dessas doutrinas básicas de algumas das religiões da cristandade? Ele escreveu: “Um Deus que usasse seu poder para criar seres humanos que de antemão sabia seriam atormentados eternamente, e que os predestinasse a isso, não poderia ser sábio, nem justo e tampouco amoroso. Seu padrão seria mais baixo do que o de muitos homens.” — Jeremias 7:31; 19:5; 32:35; 1 João 4:8, 9.
16, 17. (a) Que ensinos interessavam profundamente ao grupo de estudo bíblico de Russell? (b) Que grande desacordo surgiu, e como respondeu Russell?
16 Ainda com menos de 20 anos, Russell iniciou um grupo de estudo bíblico semanal com outros homens jovens. Eles passaram a analisar os ensinos da Bíblia sobre outros assuntos, tais como a imortalidade da alma, bem como o sacrifício de resgate de Cristo e a sua segunda vinda. Em 1877, aos 25 anos de idade, Russell vendeu a sua parte no próspero negócio de seu pai e começou uma carreira de pregação por tempo integral.
17 Em 1878, Russell teve um grande desacordo com um de seus colaboradores, que rejeitara o ensino de que a morte de Cristo pudesse ser uma expiação pelos pecadores. Em sua réplica, Russell escreveu: “Cristo realizou várias coisas boas por nós por meio de sua morte e ressurreição. Ele foi nosso substituto na morte; ele morreu, o justo pelos injustos — todos eram injustos. Jesus Cristo, pela graça de Deus, provou a morte por todos os homens. . . . Tornou-se o autor da salvação eterna para todos os que o obedecem.” Ele continuou: “Redimir significa adquirir de novo. O que Cristo adquiriu de novo para todos os homens? A vida. Nós a perdemos pela desobediência do primeiro Adão. O segundo Adão [Cristo] adquiriu-a de novo com a sua própria vida.” — Marcos 10:45; Romanos 5:7, 8; 1 João 2:2; 4:9, 10.
18. (a) O que se seguiu ao desacordo sobre o resgate? (b) Que padrão seguiram os Estudantes da Bíblia a respeito de donativos?
18 Sempre um firme defensor da doutrina do resgate, Russell cortou todos os vínculos com aquele ex-colaborador. Em julho de 1879, Russell começou a publicar em inglês A Torre de Vigia de Sião e Arauto da Presença de Cristo, hoje mundialmente conhecida como A Sentinela — Anunciando o Reino de Jeová. Em 1881, junto com outros cristãos dedicados, ele fundou uma sociedade bíblica sem fins lucrativos. Foi chamada de Zion’s Watch Tower Tract Society, hoje conhecida como Watch Tower Bible and Tract Society of Pennsylvania (Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados de Pensilvânia), a sociedade jurídica que cuida dos interesses das Testemunhas de Jeová. Logo de início, Russell insistiu que não se fizessem coletas nas reuniões congregacionais e que não fossem solicitadas contribuições através das publicações da Torre de Vigia. As pessoas que se juntaram a Russell nos estudos bíblicos profundos tornaram-se conhecidas simplesmente como Estudantes da Bíblia.
Retorno à Verdade Bíblica
19. Que ensinos da cristandade rejeitaram os Estudantes da Bíblia?
19 Em resultado de seu estudo bíblico, Russell e seus associados passaram a rejeitar certos ensinos da cristandade, como a misteriosa “Santíssima Trindade”, a alma humana inerentemente imortal e o tormento eterno num inferno de fogo. Rejeitaram também como desnecessária uma classe clerical separada, treinada em seminários. Desejavam voltar às origens humildes do cristianismo, com anciãos espiritualmente qualificados liderando as congregações sem pretensões de salário ou remuneração. — 1 Timóteo 3:1-7; Tito 1:5-9.
20. O que descobriram aqueles Estudantes da Bíblia a respeito da pa·rou·sí·a de Cristo e 1914?
20 Na sua investigação da Palavra de Deus, aqueles Estudantes da Bíblia estavam profundamente interessados nas profecias das Escrituras Gregas Cristãs relacionadas com o “fim do mundo” e a “vinda” de Cristo. (Mateus 24:3, Al) Recorrendo ao texto grego, descobriram que a “vinda” de Cristo era de fato uma “pa·rou·sí·a”, ou presença invisível. Portanto, Cristo dera informações a seus discípulos a respeito das evidências de sua presença invisível no tempo do fim, não de uma futura vinda visível. Em consonância com esse estudo, aqueles estudantes da Bíblia tinham um profundo desejo de entender a cronologia bíblica com relação à presença de Cristo. Sem entenderem todos os detalhes, Russell e seus associados compreenderam que 1914 seria uma data crucial na história humana. — Mateus 24:3-22; Lucas 21:7-33, Int.
21. Que responsabilidade sentiram Russell e seus concrentes?
21 Russell sabia que teria de ser feita uma grande obra de pregação. Apercebia-se das palavras de Jesus registradas por Mateus: “E estas boas novas do reino serão pregadas em toda a terra habitada, em testemunho a todas as nações; e então virá o fim.” (Mateus 24:14; Marcos 13:10) Havia um senso de urgência ligado à atividade daqueles Estudantes da Bíblia antes de 1914. Eles criam que a sua atividade de pregação culminaria naquele ano e, assim, achavam que não deviam medir esforços para ajudar outros a conhecer “estas boas novas do reino”. Por fim, os sermões bíblicos de C. T. Russell eram publicados em milhares de jornais em todo o mundo.
Testes e Mudanças
22-24. (a) Qual foi a reação da maioria dos Estudantes da Bíblia quando C. T. Russell faleceu? (b) Quem sucedeu a Russell como presidente da Sociedade Torre de Vigia?
22 Em 1916, aos 64 anos de idade, Charles Taze Russell faleceu subitamente durante uma viagem de pregação por todos os Estados Unidos. O que aconteceria então com os Estudantes da Bíblia? Deixariam de existir, como se fossem seguidores de um mero homem? Como enfrentariam os testes da Primeira Guerra Mundial (1914-18) em cuja matança os Estados Unidos logo ficariam envolvidos?
23 A reação da maioria dos Estudantes da Bíblia pode ser exemplificada pelas palavras de W. E. Van Amburgh, um dos diretores da Sociedade Torre de Vigia (EUA): “Esta grande obra mundial não é obra de uma única pessoa. É grande demais para que o seja. É a obra de Deus e não muda. Deus usou muitos servos no passado e Ele sem dúvida usará muitos no futuro. A nossa consagração não é a um homem, ou a uma obra de homem, mas sim para fazer a vontade de Deus, conforme Ele no-la revelar através de Sua Palavra e oportunas orientações. Deus ainda está no leme.” — 1 Coríntios 3:3-9.
24 Em janeiro de 1917, Joseph F. Rutherford, advogado e profundo estudioso da Bíblia, foi eleito segundo presidente da Sociedade Torre de Vigia (EUA). Ele tinha uma personalidade dinâmica, e não se deixava facilmente intimidar. Ele sabia que o Reino de Deus tinha de ser pregado. — Marcos 13:10.
Renovado Zelo e um Novo Nome
25. Como reagiram os Estudantes da Bíblia ao desafio nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial?
25 A Sociedade Torre de Vigia organizou congressos nos Estados Unidos em 1919 e em 1922. Depois da perseguição que sofreram na Primeira Guerra Mundial nos Estados Unidos, aquilo era quase como que um novo Pentecostes para os poucos milhares de Estudantes da Bíblia que então havia. (Atos 2:1-4) Em vez de cederem ao medo do homem, eles acataram com ainda maior vigor a convocação da Bíblia de ir pregar às nações. Em 1919, a Sociedade Torre de Vigia produziu uma revista associada à revista Torre de Vigia chamada A Idade de Ouro, hoje conhecida mundialmente como Despertai!. Esta tem servido como poderoso instrumento para despertar as pessoas quanto ao significado dos tempos em que vivemos e edificar confiança na promessa do Criador de criar um novo mundo pacífico.
26. (a) A que responsabilidade os Estudantes da Bíblia deram crescente ênfase? (b) Que entendimento mais claro da Bíblia receberam os Estudantes da Bíblia?
26 Nas décadas de 20 e 30, os Estudantes da Bíblia deram crescente ênfase ao primitivo método cristão de pregar — de casa em casa. (Atos 20:20) Todo crente tinha a responsabilidade de testemunhar ao maior número possível de pessoas sobre o governo de Cristo no Reino. À base da Bíblia, passaram a ver claramente que a grande questão diante da humanidade era a da soberania universal, e que esta seria resolvida por Jeová Deus esmagar Satanás e todas as suas obras ruinosas na terra. (Romanos 16:20; Revelação 11:17, 18) No contexto dessa questão, compreendeu-se que a salvação do homem era secundária em relação à vindicação de Deus qual Soberano legítimo. Assim, teria de haver na terra testemunhas fiéis dispostas a testificar em favor dos propósitos e da supremacia de Deus. Como foi satisfeita essa necessidade? — Jó 1:6-12; João 8:44; 1 João 5:19, 20.
27. (a) Que evento momentoso ocorreu em 1931? (b) Quais são algumas das crenças distintivas das Testemunhas?
27 Em julho de 1931 os Estudantes da Bíblia realizaram um congresso em Columbus, Ohio, EUA, durante o qual os milhares ali presentes adotaram uma resolução. Nela eles alegremente abraçaram “o nome que a boca do Senhor Deus designou”, e declararam: “Desejamos ser conhecidos e chamados por esse nome, a saber, ‘testemunhas de Jeová’.” Desde então, as Testemunhas de Jeová tornaram-se conhecidas no mundo inteiro não só por suas crenças distintivas mas também por seu zeloso ministério de casa em casa e nas ruas. (Veja páginas 356-7.) — Isaías 43:10-12; Mateus 28:19, 20; Atos 1:8.
28. Em 1935, que entendimento mais claro a respeito do governo do Reino obtiveram as Testemunhas de Jeová?
28 Em 1935, as Testemunhas obtiveram um entendimento mais claro a respeito da classe celestial do Reino, que reinará com Cristo, e de seus súditos na terra. Já sabiam que o número de cristãos ungidos chamados a governar com Cristo desde os céus seria de apenas 144.000. Assim, qual seria a esperança para o restante da humanidade? Um governo requer súditos para justificar a sua existência. Este governo celestial, o Reino, também teria milhões de súditos obedientes aqui na terra. Estes constituiriam a “grande multidão, que nenhum homem podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas”, que clamam: “Devemos a salvação ao nosso Deus [Jeová], que está sentado no trono, e ao Cordeiro [Cristo Jesus].” — Revelação 7:4, 9, 10; 14:1-3; Romanos 8:16, 17.
29. Que desafio discerniram e aceitaram as Testemunhas de Jeová?
29 Este entendimento a respeito da grande multidão ajudou as Testemunhas de Jeová a ver que tinham diante de si um tremendo desafio — encontrar e ensinar todos aqueles milhões que estavam à procura do Deus verdadeiro e que formariam a “grande multidão”. Envolveria uma campanha educativa internacional. Exigiria oradores e ministros habilitados. Seriam necessárias escolas. Tudo isso foi previsto pelo presidente da Sociedade Torre de Vigia que se seguiu.
Procura Mundial dos Que Buscam a Deus
30. Que eventos das décadas de 30 e 40 afetaram as Testemunhas de Jeová?
30 Em 1931 havia menos de 50.000 Testemunhas em menos de 50 países. Os eventos das décadas de 30 e 40 em nada facilitaram a sua pregação. Nesse período houve a ascensão do fascismo e do nazismo e a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Em 1942, J. F. Rutherford faleceu. A Sociedade Torre de Vigia necessitaria de vigorosa liderança para dar ímpeto adicional à pregação das Testemunhas de Jeová.
31. O que começou a funcionar em 1943 para expandir a pregação das boas novas?
31 Em 1942, aos 36 anos de idade, Nathan H. Knorr foi escolhido como terceiro presidente da Sociedade Torre de Vigia. Ele era um organizador dinâmico, com clara visão da necessidade de promover a pregação das boas novas em todo o mundo o mais rapidamente possível, embora as nações ainda estivessem envolvidas na Segunda Guerra Mundial. Em resultado, pôs imediatamente em ação um plano para uma escola de treinamento de missionários, chamada de Escola Bíblica de Gileade da Torre de Vigia.d Os primeiros cem estudantes, todos ministros de tempo integral, foram matriculados em janeiro de 1943. Fizeram um intensivo estudo da Bíblia e de assuntos ministeriais relacionados por quase seis meses, antes de serem enviados a suas designações, a maior parte para outros países. Até 1990, 89 turmas já se formaram, e milhares de ministros saíram de Gileade para servir em todo o mundo.
32. Que progresso fizeram as Testemunhas de Jeová desde 1943?
32 Em 1943, havia apenas 126.329 Testemunhas pregando em 54 países. Apesar de atroz oposição durante a Segunda Guerra Mundial, da parte do nazismo, do fascismo, do comunismo e da Ação Católica, bem como das chamadas democracias, por volta de 1946, as Testemunhas de Jeová haviam alcançado um auge de mais de 176.000 pregadores do Reino. Quarenta e quatro anos depois, havia aproximadamente quatro milhões ativos em mais de 200 países, ilhas e territórios. Sem dúvida, a sua clara identificação por nome e ação tem servido para as tornar conhecidas no mundo inteiro. Mas, tem havido também outros fatores que grandemente contribuíram para a sua eficácia. — Zacarias 4:6.
Organização de Educação Bíblica
33. Por que as Testemunhas de Jeová têm Salões do Reino?
33 As Testemunhas de Jeová realizam reuniões de estudo bíblico semanais em seus Salões do Reino que servem a mais de 60.000 congregações na terra. Essas reuniões não se baseiam em rituais ou emoções, mas sim na adquisição de conhecimento exato sobre Deus, sua Palavra e seus propósitos. Portanto, as Testemunhas de Jeová reúnem-se três vezes por semana para aumentar seu entendimento da Bíblia e aprender a pregar e ensinar sua mensagem a outros. — Romanos 12:1, 2; Filipenses 1:9-11; Hebreus 10:24, 25.
34. Qual é o objetivo da Escola do Ministério Teocrático?
34 Por exemplo, uma reunião no meio da semana inclui a Escola do Ministério Teocrático, na qual membros da congregação podem matricular-se. Esta escola, presidida por um ancião cristão habilitado, serve para treinar homens, mulheres e crianças na arte de ensinar e de expressar-se em harmonia com os princípios bíblicos. O apóstolo Paulo declarou: “Vossa pronunciação seja sempre com graça, temperada com sal, para que saibais como responder a cada um.” Nas suas reuniões cristãs, as Testemunhas aprendem também como apresentar a mensagem do Reino “com temperamento brando e profundo respeito”. — Colossenses 4:6; 1 Pedro 3:15.
35. Que outras reuniões realizam as Testemunhas de Jeová, e quais são os seus benefícios?
35 Num outro dia, as Testemunhas de Jeová também se reúnem para ouvir um discurso bíblico de 45 minutos, seguido por uma consideração, de uma hora de duração, em congregação (por meio de perguntas e respostas) de um assunto bíblico relacionado com o ensino ou com a conduta cristãos. Os membros da congregação têm a oportunidade de participar. Anualmente, as Testemunhas assistem também a três reuniões maiores, assembléias e congressos de um a quatro dias, onde em geral milhares de pessoas se reúnem para ouvir discursos bíblicos. Em resultado dessas e de outras reuniões gratuitas, cada Testemunha aprofunda seu conhecimento a respeito das promessas de Deus para com a terra e a humanidade, além de adquirir um excelente treinamento em moral cristã. Cada uma delas se achega mais ao Deus verdadeiro, Jeová, seguindo os ensinos e o exemplo de Cristo Jesus. — João 6:44, 65; 17:3; 1 Pedro 1:15, 16.
Como Estão Organizadas as Testemunhas?
36. (a) Têm as Testemunhas de Jeová uma classe clerical assalariada? (b) Quem, então, assume a liderança na congregação?
36 Logicamente, se as Testemunhas de Jeová realizam reuniões e estão organizadas para pregar, precisam ter alguém para assumir a liderança. Contudo, elas não têm uma classe clerical assalariada, tampouco algum líder carismático num pedestal. (Mateus 23:10) Jesus disse: “De graça recebestes, de graça dai.” (Mateus 10:8; Atos 8:18-21) Em cada congregação, há anciãos e servos ministeriais espiritualmente qualificados, muitos dos quais têm emprego secular e família para cuidar, que voluntariamente assumem a liderança em ensinar e dirigir a congregação. Este é exatamente o modelo estabelecido pelos cristãos do primeiro século. — Atos 20:17; Filipenses 1:1; 1 Timóteo 3:1-10, 12, 13.
37. Como são designados os anciãos e os servos ministeriais?
37 Como são designados esses anciãos e servos ministeriais? As suas designações são feitas sob a supervisão de um corpo governante composto de anciãos ungidos de vários países, cuja função é paralela à do corpo de apóstolos e anciãos em Jerusalém, que assumiram a liderança na primitiva congregação cristã. Como vimos no Capítulo 11, nenhum apóstolo tinha primazia sobre os outros. Eles tomavam decisões como corpo, e estas eram respeitadas pelas congregações espalhadas por todo o antigo mundo romano. — Atos 15:4-6, 22, 23, 30, 31.
38. Como funciona o Corpo Governante?
38 O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová hoje funciona sob o mesmo arranjo. Realiza reuniões semanais na sua sede mundial em Brooklyn, Nova Iorque, e, em seguida, enviam-se instruções às Comissões de Filial ao redor do mundo que supervisionam a atividade ministerial em cada país. Seguindo o exemplo dos cristãos primitivos, as Testemunhas de Jeová têm conseguido cobrir vastas porções da terra com a pregação das boas novas do Reino de Deus. Esta obra continua em escala global. — Mateus 10:23; 1 Coríntios 15:58.
Afluindo ao Deus Verdadeiro
39. (a) Por que as Testemunhas de Jeová assumem uma posição neutra em assuntos políticos? (b) Que prosperidade tiveram as Testemunhas de Jeová sob banimento?
39 Durante o século 20, as Testemunhas de Jeová têm prosperado em toda a terra. Tem sido assim até mesmo em países em que estiveram sob banimento ou proscrição. Estes banimentos foram impostos principalmente por regimes que deixaram de entender a posição neutra das Testemunhas de Jeová com respeito a compromissos políticos e nacionalistas deste mundo. (Veja quadro, página 347.) Todavia, em tais países, dezenas de milhares de pessoas têm-se voltado para o Reino de Deus como a única verdadeira esperança de paz e segurança para a humanidade. Na maioria das nações tem-se dado um tremendo testemunho, e existem agora milhões de Testemunhas ativas em toda a parte. — Veja tabela, página 361.
40, 41. (a) O que aguardam agora as Testemunhas de Jeová? (b) Que pergunta ainda tem de ser respondida?
40 Com seu amor cristão e sua esperança de “um novo céu e uma nova terra”, as Testemunhas de Jeová aguardam para o futuro próximo eventos de repercussão mundial que em breve terão de acabar com toda injustiça, corrupção e iniqüidade na terra. Por esta razão elas continuarão a visitar seus vizinhos num esforço sincero de conduzir os de coração honesto para mais perto do Deus verdadeiro, Jeová. — Revelação 21:1-4; Marcos 13:10; Romanos 10:11-15.
41 No ínterim, segundo as profecias bíblicas, o que reserva o futuro para a humanidade, para a religião e para esta terra poluída? O nosso último capítulo responderá a essa pergunta vital. — Isaías 65:17-25; 2 Pedro 3:11-14.
[Nota(s) de rodapé]
a Estas duas últimas sentenças se encontram no “Muro de Isaías”, em frente aos prédios da ONU, bem como numa estátua nos jardins da ONU e, de fato, seu cumprimento é um dos objetivos da ONU.
b A palavra grega már·tyr, da qual se deriva a palavra portuguesa “mártir” (“aquele que dá testemunho por meio de sua morte”, Dicionário Expositivo de Palavras do Novo Testamento, de W. E. Vine, em inglês), realmente significa “testemunha” (“aquele que assevera, ou pode asseverar, o que ele mesmo viu, ouviu ou sabe através de qualquer outro meio”, Léxico Grego-Inglês do Novo Testamento, de J. H. Thayer).
c Para um estudo pormenorizado sobre os “últimos dias”, veja Poderá Viver Para Sempre no Paraíso na Terra, publicado pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1982, capítulo 18.
d Gileade, derivado de Gal·ʽédh em hebraico, significa “Montão de Testemunho”. Veja também Ajuda ao Entendimento da Bíblia, páginas 645 e 676. — Gênesis 31:47-49.
[Fotos na página 346]
A estátua da paz, da ONU, diz: “Transformaremos as nossas espadas em relhas de arado”; o “Muro de Isaías” transcreve o texto bíblico.
[Foto na página 351]
As Testemunhas de Jeová crêem no sacrifício de resgate de Cristo pelos pecados da humanidade.
[Fotos na página 363]
Salões de Assembléias das Testemunhas de Jeová: Vista aérea do salão em East Pennines, Inglaterra.
Salão de Assembléias em Fort Lauderdale, Flórida, EUA, usado para sessões em inglês, espanhol e francês.
[Fotos na página 364]
Sede Mundial das Testemunhas de Jeová, Brooklyn, Nova Iorque.
[Fotos na página 365]
Filiais ou congêneres da Torre de Vigia (do alto, à esquerda) na África do Sul, Espanha e Nova Zelândia.
[Fotos/Quadro nas páginas 356, 357]
Em Que as Testemunhas de Jeová Crêem
Pergunta: O que é alma?
Resposta: Na Bíblia, alma (hebraico, né·fesh; grego, psy·khé) é uma pessoa ou um animal, ou a vida que uma pessoa ou animal usufrui.
“E Deus prosseguiu, dizendo: ‘Produza a terra almas viventes segundo as suas espécies, animal doméstico, e animal movente, e animal selvático da terra, segundo a sua espécie.’ E Jeová Deus passou a formar o homem do pó do solo e a soprar nas suas narinas o fôlego de vida, e o homem veio a ser uma alma vivente.” — Gênesis 1:24; 2:7.
Os animais e os homens SÃO almas viventes. A alma não é algo que tem existência separada. Pode e deveras morre. “Eis que todas as almas — a mim me pertencem. Como a alma do pai, assim também a alma do filho — a mim me pertencem. A alma que pecar — ela é que morrerá.” — Ezequiel 18:4.
Pergunta: É Deus uma Trindade?
Resposta: As Testemunhas de Jeová crêem que Jeová é o inigualável Soberano Senhor do Universo. “Escuta, ó Israel: Jeová, nosso Deus, é um só Jeová.” (Deuteronômio 6:4) Cristo Jesus, como a Palavra (ou Verbo), era uma criação espiritual e veio à terra em obediência à vontade de seu Pai. Ele está em sujeição a Jeová. “Mas, quando todas as coisas lhe tiverem sido sujeitas [a Cristo], então o próprio Filho também se sujeitará Àquele que lhe sujeitou todas as coisas, para que Deus seja todas as coisas para com todos.” — 1 Coríntios 15:28; veja também Mateus 24:36; Marcos 12:29; João 1:1-3, 14-18; Colossenses 1:15-20.
O espírito santo é a força ativa de Deus, ou energia em ação, não uma pessoa. — Atos 2:1-4, 17, 18.
Pergunta: As Testemunhas de Jeová adoram ou veneram ídolos? Resposta: As Testemunhas de Jeová não praticam forma alguma de idolatria, quer isso envolva ídolos, pessoas, quer organizações.
“Sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há Deus senão um só. Pois, embora haja os que se chamem ‘deuses’, quer no céu, quer na terra, assim como há muitos ‘deuses’ e muitos ‘senhores’, para nós há realmente um só Deus, o Pai, de quem procedem todas as coisas, e nós para ele; e há um só Senhor, Jesus Cristo, por intermédio de quem são todas as coisas, e nós por intermédio dele.” — 1 Coríntios 8:4-6; veja também Salmo 135:15-18.
Pergunta: Celebram as Testemunhas de Jeová a Missa ou Comunhão?
Resposta: As Testemunhas de Jeová não crêem na transubstanciação, um ensino católico romano. Celebram, sim, a Refeição Noturna do Senhor na data equivalente ao 14 de nisã judaico (usualmente em março ou abril) como recordação anual da morte de Cristo. Nessa reunião, elas fazem circular entre os da congregação pão não fermentado e vinho tinto em símbolo do corpo sem pecado e do sangue sacrificial de Cristo. Apenas os que têm esperança de reinar com Cristo em seu Reino celestial participam dos emblemas. — Marcos 14:22-26; Lucas 22:29; 1 Coríntios 11:23-26; Revelação (Apocalipse) 14:1-5.e
[Fotos]
As Testemunhas de Jeová reúnem-se regularmente em Salões do Reino para estudo da Bíblia.
Salões do Reino: Cidade de Ichihara, Japão (página anterior), e Boituva, Brasil.
[Nota(s) de rodapé]
e Para mais informações sobre esse assunto, veja Raciocínios à Base das Escrituras, publicado pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1985, páginas 86-90 e 238-42.
[Quadro na página 347]
A Neutralidade Cristã na Roma Pagã
Segundo os princípios de amor e de paz que Jesus ensinou, e baseados no seu estudo pessoal da Palavra de Deus, os cristãos primitivos não participavam em guerras nem no adestramento para elas. Jesus dissera: “Meu reino não faz parte deste mundo. Se o meu reino fizesse parte deste mundo, meus assistentes teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas, assim como é, o meu reino não é desta fonte.” — João 18:36.
Já na avançada data de 295 EC, Maximiliano de Teveste, filho de um veterano do exército romano, foi convocado para o serviço militar. Quando o procônsul perguntou-lhe o nome, ele respondeu: “Ora, por que desejas saber o meu nome? Eu tenho objeção de consciência contra o serviço militar: Eu sou cristão. . . . Não posso servir; não posso pecar contra a minha consciência.” O procônsul advertiu-o de que perderia a vida se não obedecesse. “Não vou servir. Podes decapitar-me, mas não servirei aos poderes deste Mundo; servirei, sim, ao meu Deus.” — A Religião Vista por um Historiador, de Arnold Toynbee, em inglês.
Nos tempos modernos, o estudo pessoal da Bíblia tem levado as Testemunhas de Jeová, individualmente, em todo o mundo, a seguir os ditames de sua consciência em assumir uma posição similar. Em alguns países, muitas pagaram o preço supremo, em especial na Alemanha nazista, onde foram fuziladas, enforcadas e decapitadas, durante a Segunda Guerra Mundial. Mas, a sua união mundial, baseada no amor cristão, jamais foi rompida. Ninguém jamais morreu na guerra às mãos de uma cristã Testemunha de Jeová. Quão diferente poderia ter sido a história do mundo se todos os professos cristãos também tivessem vivido à altura da regra de amor de Cristo! — Romanos 13:8-10; 1 Pedro 5:8, 9.
[Tabela na página 361]
Alguns Países em Que as Testemunhas de Jeová Pregam
País Testemunhas Ativas
África do Sul 46.000
Alemanha, Rep. Fed. da 129.000
Argentina 79.000
Austrália 51.000
Brasil 267.000
Canadá 98.000
Colômbia 42.000
Coréia 57.000
El Salvador 18.000
Espanha 78.000
EUA 818.000
Filipinas 102.000
Finlândia 17.000
França 109.000
Grã-Bretanha 117.000
Grécia 24.000
Hungria 10.000
Índia 9.000
Itália 172.000
Japão 138.000
Líbano 2.500
México 277.000
Nigéria 137.000
Polônia 91.000
Porto Rico 24.000
Portugal 36.000
Venezuela 47.000
Zâmbia 72.000
36 sob proscrição 220.000
Totais Mundiais de 1989 60.192 Congregações 3.787.000 Testemunhas
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O Deus verdadeiro e o nosso futuroO Homem em Busca de Deus
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Capítulo 16
O Deus verdadeiro e o nosso futuro
“Neste misterioso universo, existe uma coisa de que o Homem pode ter certeza. O Homem certamente não é a maior presença espiritual no Universo. . . . Existe uma presença no Universo que é espiritualmente maior do que o Homem. . . . O objetivo do Homem é buscar comunhão com a presença por trás dos fenômenos, e buscá-la com o anseio de harmonizar o seu próprio eu com essa realidade espiritual absoluta.” — A Religião Vista por um Historiador, de Arnold Toynbee, em inglês.
1. (Inclua a introdução.) (a) O que reconheceu o historiador Toynbee a respeito do homem e do universo? (b) Como identifica a Bíblia a “realidade espiritual absoluta”?
DURANTE a maior parte dos últimos seis mil anos, o homem tem procurado, com maior ou menor zelo, encontrar essa “realidade espiritual absoluta”. Cada uma das religiões principais deu a essa realidade um nome diferente. Dependendo de qual seja a sua religião — hindu, muçulmana, budista, xintoísta, confucionista, taoísta, judaica, cristã, ou qualquer outra — você tem um nome para a “realidade espiritual absoluta”. Mas, a Bíblia dá a essa realidade nome, gênero e personalidade — Jeová, o Deus vivente. Esse Deus ímpar disse a Ciro, o Grande, da Pérsia: “Eu sou Jeová, e não há outro. Além de mim não há Deus. . . . Eu é que fiz a terra e criei até mesmo o homem sobre ela.” — Isaías 45:5, 12, 18; Salmo 68:19, 20.
Jeová — Deus de Profecias Confiáveis
2. Se desejamos ter informações confiáveis a respeito do futuro a quem devemos recorrer, e por quê?
2 Jeová é o derradeiro fim da busca de Deus por parte do homem. Jeová revelou a si mesmo como o Deus de profecias, que pode desde o início dizer qual será o fim. Ele declarou através de Isaías, o profeta: “Lembrai-vos das primeiras coisas de há muito tempo, que eu sou o Divino e não há outro Deus, nem alguém semelhante a mim; Aquele que desde o princípio conta o final e desde outrora as coisas que não se fizeram; Aquele que diz: ‘Meu próprio conselho ficará de pé e farei tudo o que for do meu agrado’. . . . Eu até mesmo o falei; também o introduzirei. Eu o formei, também o farei.” — Isaías 46:9-11; 55:10, 11.
3. (a) Que eventos podem ser previstos por meio das profecias bíblicas? (b) O que tem feito Satanás aos incrédulos, e por quê?
3 Com tal confiável Deus de profecias, podemos saber o que acontecerá com o sistema mundial de religiões divisórias. Podemos também prever o que ocorrerá com as poderosas organizações políticas que aparentemente controlam o destino do mundo. Ainda mais, podemos prever que fim terá “o deus deste sistema de coisas”, Satanás, que “tem cegado as mentes dos incrédulos” por meio dum grande número de religiões que têm desviado a humanidade do Deus verdadeiro, Jeová. E por que Satanás tem feito essa obra de cegar? “Para que não penetre o brilho da iluminação das gloriosas boas novas a respeito do Cristo, que é a imagem de Deus.” — 2 Coríntios 4:3, 4; 1 João 5:19.
4. Que perguntas a respeito da terra e do futuro do homem precisam de resposta?
4 Podemos também saber o que acontecerá depois de tais eventos preditos. Em que condições a terra finalmente ficará? Poluída? Arruinada? Desflorestada? Ou haverá uma regeneração da terra e da raça humana? Como veremos, a Bíblia responde a todas essas perguntas. Mas, voltemos primeiro a nossa atenção a eventos do futuro imediato.
“Babilônia, a Grande”, É Identificada
5. O que viu João em visão?
5 O livro bíblico de Revelação (ou Apocalipse) foi revelado ao apóstolo João na ilha de Patmos, no ano 96 EC. O livro pinta vívidos quadros dos principais eventos a ocorrer no tempo do fim, o tempo em que, segundo a evidência bíblica, a humanidade vive desde 1914.a Um destes quadros simbólicos que João viu em visão, é o de uma pomposa e atrevida prostituta, chamada “Babilônia, a Grande, a mãe das meretrizes e das coisas repugnantes da terra”. Em que condição se encontrava? “Eu vi que a mulher estava embriagada com o sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus.” — Revelação 17:5, 6.
6. Por que Babilônia, a Grande, não representa os elementos políticos dominantes do mundo?
6 A quem representa essa mulher? Não somos obrigados a adivinhar a sua identidade. Por um processo de eliminação, ela pode ser desmascarada. Naquela mesma visão, João ouve um anjo dizer: “Vem, mostrar-te-ei o julgamento da grande meretriz que está sentada sobre muitas águas, com a qual os reis da terra cometeram fornicação, enquanto que os que habitam na terra se embriagaram com o vinho da fornicação dela.” Se os reis, ou governantes, da terra cometem fornicação com ela, isto significa que a meretriz não pode representar os elementos políticos dominantes do mundo. — Revelação 17:1, 2, 18.
7. (a) Por que Babilônia, a Grande, não representa os elementos comerciais? (b) O que representa Babilônia, a Grande?
7 O mesmo relato nos diz que “os comerciantes viajantes da terra ficaram ricos devido ao poder de sua impudente luxúria”. Portanto, Babilônia, a Grande, não pode representar os elementos mercadores ou “comerciantes” do mundo. Todavia, o texto inspirado diz: “As águas que viste, onde a meretriz está sentada, significam povos, e multidões, e nações, e línguas.” Que outro elemento básico deste sistema mundial sobra para encaixar-se na descrição de uma meretriz simbólica que comete fornicação com os governantes políticos, transaciona com interesses econômicos e se senta em glória sobre os povos, multidões, nações e línguas? É a religião falsa, em todas as suas diferentes formas! — Revelação 17:15; 18:2, 3.
8. Que fatos adicionais confirmam a identificação de Babilônia, a Grande?
8 Esta identificação de Babilônia, a Grande, é confirmada por uma condenação angélica contra ela por causa de suas ‘práticas espíritas através das quais todas as nações foram desencaminhadas’. (Revelação 18:23) Todas as formas de espiritismo são religiosas e de inspiração demoníaca. (Deuteronômio 18:10-12) Assim, Babilônia, a Grande, obrigatoriamente representa uma entidade religiosa. A evidência bíblica mostra que ela é o inteiro império mundial de religião falsa, de Satanás, promovida por ele na mente dos homens a fim de desviar a atenção deles do Deus verdadeiro, Jeová. — João 8:44-47; 2 Coríntios 11:13-15; Revelação 21:8; 22:15.
9. Que traços comuns se encontram em muitas religiões?
9 Como vimos de ponta a ponta neste livro, há traços comuns que permeiam o confuso mosaico das religiões do mundo. Muitas religiões têm suas raízes na mitologia. Quase todas elas estão interligadas por alguma forma de crença numa suposta alma humana imortal que sobrevive à morte e que vai para o além ou então transmigra para outra criatura. Muitas têm o denominador comum da crença num pavoroso lugar de tormento e tortura chamado inferno. Outras estão ligadas por antigas crenças pagãs em tríades, trindades e deusas-mães. Por conseguinte, é deveras apropriado que devam todas ser agrupadas sob um símbolo composto único, o da meretriz “Babilônia, a Grande”. — Revelação 17:5.
É Tempo de Fugir da Religião Falsa
10. Que fim está profetizado para a meretriz religiosa?
10 Qual é o destino final que a Bíblia prediz para essa meretriz global? Em linguagem simbólica, o livro de Revelação descreve a destruição dela às mãos de elementos políticos. Estes são simbolizados por “dez chifres” que apóiam as Nações Unidas, a “fera cor de escarlate”, que é a imagem do sistema político de Satanás, manchado de sangue. — Revelação 16:2; 17:3-16.b
11. (a) Por que a religião falsa é condenada por Deus? (b) O que acontecerá com Babilônia, a Grande?
11 Essa destruição do império mundial de religião falsa, de Satanás, será o resultado do julgamento adverso de Deus contra essas religiões. Elas serão declaradas culpadas de fornicação espiritual devido à sua cumplicidade com seus opressivos amantes políticos e o apoio que lhes deu. A religião falsa manchou suas vestes com sangue inocente ao patrioticamente acompanhar a classe dominante da elite de cada nação em suas guerras. Por conseguinte, Jeová põe no coração dos elementos políticos realizar Sua vontade contra Babilônia, a Grande, e devastá-la. — Revelação 17:16-18.
12. (a) O que você tem de fazer agora para ser poupado quando Babilônia for destruída? (b) Que ensinos distinguem a religião verdadeira?
12 Com tal futuro iminente para as religiões do mundo, o que deve você fazer? A resposta está no que João ouviu uma voz do céu dizer: “Saí dela, povo meu, se não quiserdes compartilhar com ela nos seus pecados e se não quiserdes receber parte das suas pragas. Pois os pecados dela acumularam-se até o céu, e Deus se lembrou dos atos injustos dela.” Por conseguinte, agora é o tempo de obedecer à injunção do anjo de sair do império de religião falsa, de Satanás, e juntar-se à adoração verdadeira de Jeová. (Veja quadro, página 377.) — Revelação 17:17; 18:4, 5; compare com Jeremias 2:34; 51:12, 13.
O Armagedom Está Próximo
13. Que eventos têm de ocorrer em breve?
13 Revelação diz que “as pragas dela virão num só dia, morte, e pranto, e fome, e ela será completamente queimada em fogo”. Segundo todas as indicações bíblicas proféticas, aquele ‘um só dia’, ou curto período de rápida execução, se aproxima. De fato, a destruição de Babilônia, a Grande, abrirá um período de “grande tribulação” que culminará na “guerra do grande dia de Deus, o Todo- poderoso . . . [o] Har-Magedon”. Esta guerra, ou batalha, do Armagedom resultará na derrota do sistema político de Satanás e em este ser lançado no abismo. Será o raiar de um novo mundo justo! — Revelação 16:14-16; 18:7, 8; 21:1-4; Mateus 24:20-22.
14, 15. Que profecia bíblica parece estar perto de se cumprir?
14 Já agora, há outra notável profecia bíblica perto de se cumprir, diante de nossos olhos. O apóstolo Paulo profetizou e advertiu: “Ora, quanto aos tempos e às épocas, irmãos, não necessitais de que se vos escreva. Pois vós mesmos sabeis muito bem que o dia de Jeová vem exatamente como ladrão, de noite. Quando estiverem dizendo: ‘Paz e segurança!’ então lhes há de sobrevir instantaneamente a repentina destruição, assim como as dores de aflição vêm sobre a mulher grávida, e de modo algum escaparão.” — 1 Tessalonicenses 5:1-3.
15 Parece que as nações que antes eram beligerantes e suspeitosas umas das outras estão agora cautelosamente se aproximando duma situação em que poderão declarar paz e segurança mundial. Portanto, de ainda outro ângulo, sabemos que o dia do julgamento de Jeová contra a religião falsa, as nações, e o governante delas, Satanás, está próximo. — Sofonias 2:3; 3:8, 9; Revelação 20:1-3.
16. Por que é o conselho de João tão oportuno hoje?
16 Milhões de pessoas hoje vivem como se apenas os valores materiais fossem duradouros e de valia. Todavia, o que este mundo corrupto oferece é superficial e transitório. É por isso que o conselho de João é tão oportuno: “Não estejais amando nem o mundo, nem as coisas do mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo o que há no mundo — o desejo da carne, e o desejo dos olhos, e a ostentação dos meios de vida da pessoa — não se origina do Pai, mas origina-se do mundo. Outrossim, o mundo está passando, e assim também o seu desejo, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.” Não prefere você permanecer para sempre? — 1 João 2:15-17.
Um Prometido Novo Mundo
17. O que reserva o futuro para os que buscam o Deus verdadeiro?
17 Visto que Deus julgará o mundo por meio de Cristo Jesus, o que se seguirá? Há muito, nas Escrituras Hebraicas, Deus profetizou que ele cumpriria seu propósito original para com a humanidade na terra, a saber, ter uma obediente família humana usufruindo vida perfeita numa terra paradísica. A tentativa de Satanás de frustrar esse propósito não anulou a promessa de Deus. Assim, o rei Davi podia escrever: “Pois os próprios malfeitores serão decepados, mas os que esperam em Jeová são os que possuirão a terra. E apenas mais um pouco, e o iníquo não mais existirá . . . Os próprios justos possuirão a terra e residirão sobre ela para todo o sempre.” — Salmo 37:9-11, 29; João 5:21-30.
18-20. Que mudanças ocorrerão na terra?
18 Em que condição ficará a terra depois disso? Totalmente poluída? Esgotada? Desflorestada? De modo algum! Jeová intencionava originalmente que a terra fosse um parque limpo, equilibrado, paradísico. O potencial para isso existe, apesar dos abusos contra a terra praticados pelo homem. Mas, Jeová prometeu “arruinar os que arruínam a terra”. Uma situação beirando a ruína global tem existido apenas neste século 20. Tanto maior razão, então, para se crer que, em breve, Jeová agirá para proteger a Sua propriedade, a Sua criação. — Revelação 11:18; Gênesis 1:27, 28.
19 Esta mudança ocorrerá em breve sob o arranjo divino de “um novo céu e uma nova terra”. Não significará um novo céu ou um novo planeta literais, mas sim um novo governo espiritual sobre uma terra renovada, habitada por uma humanidade regenerada. Nesse novo mundo não haverá lugar para a exploração de nossos semelhantes ou de animais. Não haverá violência ou derramamento de sangue. Não haverá falta de moradias, nem fome, nem opressão. — Revelação 21:1; 2 Pedro 3:13.
20 A Palavra de Deus diz: “‘E hão de construir casas e as ocuparão; e hão de plantar vinhedos e comer os seus frutos. Não construirão e outro terá morada; não plantarão e outro comerá. Porque os dias do meu povo serão como os dias da árvore; e meus escolhidos usufruirão plenamente o trabalho das suas próprias mãos. . . . O lobo e o cordeirinho é que pastarão como se fossem um, e o leão comerá palha como o touro; e quanto à serpente, seu alimento será o pó. Não farão dano nem causarão ruína em todo o meu santo monte’, disse Jeová.” — Isaías 65:17-25.
A Fundação do Novo Mundo
21. Por que é o novo mundo uma certeza?
21 ‘Como será possível tudo isso?’, talvez se pergunte. Será possível porque “Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos de longa duração” que a humanidade seria restaurada e teria a vida infindável em perfeição. E a base para essa esperança é aquela que o apóstolo Pedro indicou na sua primeira carta a concristãos ungidos: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, pois, segundo a sua grande misericórdia, ele nos deu um novo nascimento para uma esperança viva por intermédio da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, e imaculada, e imarcescível.” — Tito 1:1, 2; 1 Pedro 1:3, 4.
22. O que é fundamental para a esperança do novo mundo, e por quê?
22 A ressurreição de Jesus Cristo é fundamental para a esperança de um novo mundo justo, pois ele foi designado por Deus para governar a partir dos céus sobre uma terra purificada. Paulo também frisou quão vital é a ressurreição de Cristo, ao escrever: “No entanto, agora Cristo tem sido levantado dentre os mortos, as primícias dos que adormeceram na morte. Pois, visto que a morte é por intermédio dum homem, também a ressurreição dos mortos é por intermédio dum homem. Porque, assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados.” — 1 Coríntios 15:20-22.
23. (a) Por que é vital a ressurreição de Cristo? (b) Que ordem deu o ressuscitado Jesus a seus seguidores?
23 A morte sacrificial de Cristo qual resgate correspondente e a sua ressurreição lançaram a base para se esperar “um novo céu”, o governo do Reino, e uma transformada e regenerada raça humana, a sociedade de “uma nova terra”. A ressurreição de Jesus deu também ímpeto à pregação e ao ensino realizados por seus apóstolos fiéis. O relato diz: “No entanto, os onze discípulos foram para a Galiléia, para o monte que [o ressuscitado] Jesus lhes designara, e quando o viram, prestaram-lhe homenagem, mas alguns duvidaram. E Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: ‘Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Ide, portanto, e fazei discípulos de pessoas de todas as nações, batizando-as em o nome do Pai, e do Filho, e do espírito santo, ensinando-as a observar todas as coisas que vos ordenei. E eis que estou convosco todos os dias, até à terminação do sistema de coisas.’” — Mateus 19:28, 29; 28:16-20; 1 Timóteo 2:6.
24. Que bênção adicional garante a ressurreição de Jesus?
24 A ressurreição de Jesus garante também outra bênção para a humanidade — a ressurreição dos mortos. A ressurreição de Lázaro, feita por Jesus, foi um prenúncio duma ressurreição muito mais abrangente no futuro. (Veja páginas 249-50.) Jesus dissera: “Não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos os que estão nos túmulos memoriais ouvirão a sua voz e sairão, os que fizeram boas coisas, para uma ressurreição de vida, os que praticaram coisas ruins, para uma ressurreição de julgamento.” — João 5:28, 29; 11:39-44; Atos 17:30, 31.
25. (a) Que possibilidade de escolha haverá para todos no novo mundo? (b) Que forma de religião prevalecerá no novo mundo?
25 Que alegria será acolher de volta os nossos entes queridos, cada geração provavelmente fazendo isso sucessivamente! No novo mundo, toda pessoa poderá então decidir, sob condições perfeitas, se adorará ao Deus verdadeiro, Jeová, ou se perderá a vida como opositor. Sim, no novo mundo, haverá apenas uma só religião, uma só forma de adoração. Todo louvor será dirigido ao amoroso Criador, e todo humano obediente ecoará as palavras do salmista: “Vou exaltar-te, ó meu Deus, o Rei, e vou bendizer teu nome por tempo indefinido, para todo o sempre. . . . Jeová é grande e para ser louvado muito, e sua grandeza é inescrutável.” — Salmo 145:1-3; Revelação 20:7-10.
26. Por que deve você examinar a Palavra de Deus, a Bíblia?
26 Agora que você fez uma comparação entre as principais religiões do mundo, convidamo-lo a investigar adicionalmente a Palavra de Deus, a Bíblia, na qual se baseiam as crenças das Testemunhas de Jeová. Prove por si mesmo que o Deus verdadeiro pode ser encontrado. Quer você seja hindu, muçulmano, budista, xintoísta, confucionista, taoísta, judeu, cristão, ou de qualquer outra crença, agora é o tempo de examinar a sua relação para com o Deus verdadeiro e vivente. Provavelmente sua religião foi decidida por você à base de seu lugar de nascimento, sobre o que você não tinha controle. Certamente, nada se perde por examinar o que a Bíblia diz sobre Deus. Esta bem que pode ser a sua oportunidade na vida de realmente conhecer o propósito do Soberano Senhor Deus para com a terra e a humanidade nela. Sim, a sua sincera busca pelo Deus verdadeiro pode ser satisfeita por estudar a Bíblia com os mensageiros de Jeová, suas Testemunhas, que lhe forneceram este livro.
27. (a) Que convite lhe faz Jesus? (b) Em consonância com o tema deste livro, o que Isaías convida todos a fazer?
27 Não foi em vão que Jesus disse: “Persisti em pedir, e dar-se-vos-á; persisti em buscar, e achareis; persisti em bater, e abrir-se-vos-á.” Você poderá estar entre os que encontraram o Deus verdadeiro, se acatar a mensagem do profeta Isaías: “Buscai a Jeová enquanto pode ser achado. Chamai-o enquanto mostra estar perto. Deixe o iníquo o seu caminho e o homem prejudicial os seus pensamentos; e retorne ele a Jeová, que terá misericórdia com ele, e ao nosso Deus, porque perdoará amplamente.” — Mateus 7:7; Isaías 55:6, 7.
28. Quem pode ajudá-lo a encontrar o Deus verdadeiro?
28 Se está à procura do Deus verdadeiro, sinta-se à vontade para contatar as Testemunhas de Jeová.c Gratuitamente, elas terão prazer em ajudá-lo a conhecer intimamente o Pai e a Sua vontade, enquanto ainda há tempo. — Sofonias 2:3.
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