-
As raças são notavelmente diferentesDespertai! — 1978 | 22 de março
-
-
As raças são notavelmente diferentes
A ÉPOCA era 1955, numa reunião internacional realizada em Nurembergue, Alemanha. Um grupo de europeus cercara um casal de negros estadunidenses, visivelmente felizes de tê-los ali. Esfregaram sua pele e tocaram em seus cabelos. Aparentemente, jamais tinham visto uma pessoa de cor, e estavam intrigados pelas notáveis diferenças. As pessoas de cor gostaram de ser calorosamente aceitas. Lá em seu país, contudo, as atitudes raciais se haviam robustecido, no decorrer dos séculos, criando uma situação muito diferente.
Considere os Spencers, uma família negra que se mudou para um bom bairro de Nova Iorque. Era a véspera de 1975. Uma bomba feita de cano caiu voando sobre sua casa, com um bilhete preso a ela: NEGRADA, ESTÃO AVISADOS. “Tencionava eliminar a família”, disse o capitão de polícia que investigou o caso.
Um repórter, que mais tarde conversou com moradores brancos, explica: “Continuei pressionando: por que vocês não querem negros aqui? ‘Se quer realmente saber’, respondeu o sujeito que segurava a bandeira, ‘eles são basicamente incivilizados. Onde quer que vão, sobe a taxa de crimes, a vizinhança se degrada, os brancos têm de partir.’”
Muitos brancos pensam de modo diferente quanto a associar-se com negros, cultivando relações amigáveis com eles. No sul dos Estados Unidos, deram-se grandes passos para melhorar as relações raciais. Muitas escolas e outros lugares públicos foram racialmente integrados. Todavia, ainda há muitos que acham que as diferenças entre as raças são tão grandes que justificam a segregação racial.
Base Para Segregação?
Em 1954, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos anunciou seu acórdão contra a segregação racial nas escolas públicas. Muitos norte-americanos, porém, não concordam com tal acórdão. Nem concordam com a ordem baixada pelo Tribunal, em 1969, para que os distritos das escolas públicas promovessem a integração “de imediato”. Isto é evidenciado pelo fato de que, em fins da década de 60, maior porcentagem de crianças de cor freqüentavam escolas predominantemente negras do que em 1954!
Também, há muita gente, nos Estados Unidos, que não concorda com o acórdão do Supremo Tribunal, de 1967, de que é inconstitucional “impedir casamentos entre pessoas unicamente à base de classificações raciais”. Este acórdão anulava todas as leis, nos EUA, contra os casamentos inter-raciais. Todavia, ouve-se comumente as pessoas dizer que não acham que pretos e brancos devam casar-se.
A situação nas igrejas é evidência adicional de que muitos crêem que as diferenças raciais justificam a segregação. Kyle Haselden, como editor de The Christian Century (O Século Cristão), escreveu em 1964: “Todo o mundo sabe que 11 horas da manhã de domingo é a hora de maior segregação na vida estadunidense.” E a segregação persiste. Em 1977, o ministro da Igreja Batista de Plains, Geórgia, “disse que sua demissão era um ‘repique’ de seus esforços de integrar a igreja.” — Post de Nova Iorque, 22 de fevereiro de 1977.
Embora se tenha feito muito progresso em aprimorar as relações raciais, alguns têm visto, recentemente, causas de desânimo. Certa pessoa de cor, escrevendo em The Christian Century, de 28 de abril de 1976, disse: “Estou preocupado, realmente preocupado, com a grave deterioração nas relações entre negros e brancos. Os amigos negros partilham comigo seu senso de frustração e de impotência.”
Amiúde há uma polarização, as raças nutrindo hostilidade e apegando-se a si mesmas. Como comentou o escritor acima: “Fui dar um passeio no campus de Yale. Dois estudantes brancos juntaram-se a mim. Queixaram-se de serem forçados a segregar-se por seus colegas negros, que preferem viver e comer separados, e manter pouco ou nenhum intercâmbio social com seus colegas brancos.”
Serão Grandes as Diferenças?
Realmente, serão tão grandes as diferenças raciais? Serão de tal grau que as pessoas de raças diferentes não possam viver juntas como iguais, e derivar verdadeiro prazer da companhia umas das outras? Por exemplo, existe grande lacuna entre a inteligência das pessoas de várias raças? Ou, possuem as raças um caraterístico cheiro de corpo, tornando objetável que os negros e brancos residam em alojamentos próximos uns dos outros?
É óbvio que existem reais diferenças A cor da pele e a textura dos cabelos acham-se entre as mais notáveis. Há, também, diferenças no formato do nariz, das pálpebras e dos lábios. Lábios grossos são comuns. entre as pessoas de cor, ao passo que as pessoas de outras raças tendem a possuir lábios mais finos.
Todavia, alguns brancos estão prontos a indicar o que chamam de “diferenças mais importantes”. Conforme comentado antes, afirma-se que os negros são “basicamente incivilizados”. Diz-se que “sua moral é mais relapsa”. Mais altos índices de filhos ilegítimos entre eles são fornecidos como evidência desta afirmação. Mas, há mais asserções feitas comumente.
Algumas delas são: “Os negros preocupam-se menos com a família.” E, qual evidência disso, aponta-se a mais elevada taxa de separações entre as famílias de cor. “Os índices de crimes sobem quando os negros chegam; a vizinhança se degrada.” Para apoiar tal declaração, as pessoas apontam para bairros negros que, em geral, estão em maior decadência, e para estatísticas que mostram que, proporcionalmente, os negros cometem mais crimes. “Os negros são menos inteligentes do que os brancos.” É realidade que, em média, os negros atingem escores menores nos testes de QI do que os brancos de comparável condição sócio-econômica e, em geral, conseguem notas menores nos trabalhos escolares.
Mas, por que os negros levam desvantagem em tais comparações? Uma publicação da Comissão de Direitos Civis dos Estados Unidos focalizava a questão. Dizia que o obviamente inferior “status das pessoas não-brancas pode resultar de somente dois fatores. Ou os não-brancos são inferiores como pessoas, ou o racismo branco impediu que sua igualdade natural aos brancos se comprovasse em consecuções reais durante seus mais de 300 anos nos Estados Unidos.” — Racism in America — How to Combat It (Racismo nos EUA — Como Combatê-lo).
O Conceito Outrora Prevalecente
Houve época em que o conceito prevalecente era de que os negros são inferiores como pessoas. The Encyclopœdia Britannica, Nona Edição, 1884, dizia: “Nenhum homem de puro sangue negro jamais se distinguiu como cientista, poeta, ou artista, e a igualdade fundamental pretendida para ele por filantropos ignorantes é contradita por toda história da raça, durante todo o período histórico.” Também falava da “inerente inferioridade mental dos negros, inferioridade esta que é ainda mais assinalada do que suas diferenças físicas”.
Esta enciclopédia dizia que, quando crianças, os negros e os brancos pareciam ter igual inteligência. “Quase todos os observadores admitem”, comentava, “que a criança negra, via de regra, é tão inteligente quanto às das outras variedades humanas”. No entanto, dizia que nos negros havia uma “ossificação prematura do crânio, impedindo todo o desenvolvimento posterior do cérebro”. Assim, a Britannica asseverava: “Ao atingir a puberdade, parece ser freado todo o progresso adicional [dos negros].” Chamber’s Encyclopœdia, 1882, embora não concordando com a Britannica, mencionava o conceito “de que o negro forma um elo de ligação entre a ordem mais elevada de macacos e o restante da humanidade”.
O conceito de que os negros são inferiores como pessoas ainda é sustentado por alguns; de jeito nenhum desapareceu. Certa pessoa escreveu sobre os conceitos comuns do local onde morava: “Cresci numa comunidade rural do sul, onde se dizia que os negros são negros por causa duma maldição que Deus lhes impôs. . . . Com efeito, dizia-se que os negros realmente não eram gente, mas eram parte do reino animal.”
Até mesmo certos cientistas hodiernos sustentam que os negros são biologicamente inferiores aos brancos. Em 1974, longa obra de aparente grande peso, endossada por destacados educadores, argumentava a favor deste conceito. Sobre o autor, John R. Baker, The Guardian, de 6 de abril de 1974, disse: “Ele é perito em amontoar, ostensivamente como dados, citações e referências que, consideradas junto com a atmosfera poderosamente repulsiva gerada pelo estilo, transmitiria a qualquer leitor sem nenhuma familiaridade com quaisquer ‘negridos’, a impressão de que eles são subhumanos (por exemplo, ‘Long afirma que os negros se distinguem por seu cheiro “bestial ou fétido”’).”
Assim, que dizer das diferenças raciais? Realmente, serão grandes?
-
-
O que dizer sobre a superioridade racial?Despertai! — 1978 | 22 de março
-
-
O que dizer sobre a superioridade racial?
COMO encara as raças? Especificamente, considera que os brancos são inerentemente superiores às pessoas de cor? Sem levar em conta sua resposta verbal, o que revelam suas atitudes e ações?
As pessoas amiúde afirmam que não têm preconceito racial. Todavia, a realidade é que os conceitos racistas há muito predominam. E, assim, persiste o conceito, entre muitos, de que os negros são inatamente inferiores aos brancos, e foram feitos para ocupar permanentemente uma posição inferior.
Como se originaram tais idéias? O que as torna tão persistentes?
Papel da Religião
A idéia moderna de superioridade inerente dos brancos teve sua origem na conquista e escravização dos negros africanos. O comércio escravista precisava duma justificação, especialmente visto que os traficantes eram cristãos professos. Charles de Secondat Montesquieu, jurista e filósofo político francês, explicou como raciocinavam os traficantes: “É-nos impossível supor que tais criaturas sejam homens, porque, permitindo-lhes ser homens, seguir-se-ia uma suspeição, a de que nós mesmos não somos cristãos.”
Cristãos professos nos EUA também precisavam duma justificativa para a escravidão, pois a economia dos plantadores sulistas de algodão se baseava na escravidão negra. Assim, certo historiador norte-americano afirma:
“O Sul pesquisou as Escrituras em busca do endosso bíblico para tal prática. . . . Constantemente, o Sul argumentava que a escravidão era sancionada e, de fato, ordenada pela Bíblia, e era uma instituição divinamente designada, especialmente proveitosa para os negros.” — “A Complete History of the United States” (História Completa dos EUA), de Clement Wood, págs. 217, 337.
As igrejas lideraram em justificar a escravatura. Ensinavam que os negros são uma raça amaldiçoada, razão pela qual sua pele é preta. Em 1844, os metodistas se dividiram entre o Norte e o Sul por causa da escravidão. Os batistas, em 1845, e, por volta da mesma época, a Igreja Presbiteriana, dividiram-se bem na linha política de Mason-Dixon [popularmente considerada como linha divisória entre estados não-escravistas e escravistas]. Já em 1902, uma Casa da Bíblia, em S. Luís, Missúri, publicou o livro amplamente difundido, “The Negro a Beast” or “In the Image of God” (O Negro, um Animal ou À Imagem de Deus). Inclui um capítulo intitulado “Evidência Bíblica e Científica Convincente de que o Negro não É Parte da Família Humana”.
Assim, com aprovação das igrejas, os negros foram encarados como inerentemente inferiores aos brancos. Lamentava a Encyclopœdia Britannica: “A desgraça do africano foi ser escravizado na América pelos cristãos, que, incapazes de reconciliar suas crenças com a prática da escravidão, remodelaram sua concepção do negro, de modo à virem a reputá-lo como um objeto possuído, e não como ser humano, dotado de direitos e de liberdades.” — Vol. 16, p. 200D, 1971.
Mas, não foram apenas as igrejas que defenderam tais conceitos. Fizeram-no também filósofos e cientistas.
Outros Paladinos da Superioridade Branca
Por volta da década de 1830, os filósofos sulistas nos EUA formularam os princípios relativos à desigualdade natural do homem, conceito já então aceito pela maioria dos sulistas. E o principal antropólogo físico estadunidense daquela época, Josiah C. Nott, tentou prover o apoio biológico para tal conceito. A idéia de alguns veio a ser de que as várias raças evoluíram separadamente e que os negros são mais aparentados aos macacos. Depois de observar certas caraterísticas como evidência, pondera The Encyclopœdia Britannica: “O negro pareceria estar num plano evolucionário inferior ao do homem branco, e ser mais intimamente aparentado aos antropóides mais elevados.” — Vol. 19, 1911, p. 344.
Alguns detêm conceitos similares, hoje em dia, inclusive o Professor Carleton S. Coon, ex-presidente da Associação Americana de Antropólogos Físicos. Assevera que cinco raças de homens, isoladas umas das outras, “evoluíram de forma independente no Homo sapiens, não uma só vez, mas cinco vezes”. Num programa nacional de televisão, dos EUA, um porta-voz afirmou que Coon “apresenta evidência, e assume a posição, de que a raça negra está 200.000 anos atrás da raça branca na escada da evolução”.
Tais conceitos, há muito entretidos com respeito aos negros, ajudam-nos a compreender como é que os primitivos norte-americanos podiam falar de ‘todos os homens serem criados iguais’ e, ainda assim, sancionar uma forma de escravidão em que havia pessoas consideradas inferiores. The Sociology of Social Problems (A Sociologia dos Problemas Sociais), Terceira Edição, de Paul B. Horton e Gerald R. Leslie, explica:
“O dito ‘todos os homens foram criados iguais’ não se aplicava aos negros, visto serem ‘objetos possuídos’ e não homens. Teorias de certa maldição camítica, de evoluções incompletas ou separadas, de determinismo geográfico, e das evidências de testes de inteligência, foram sucessivamente empregadas para justificar o tratamento dos negros quais inferiores. Enquanto se criam em tais noções — e a maioria das pessoas criam nelas — não havia incoerência alguma em professar ideais democráticos, ao passo que se praticava a discriminação.”
É provável que poucas pessoas, hoje, afirmem que os negros “não são gente”. Todavia, muitos ainda crêem que eles sejam inerentemente inferiores. Suas taxas mais altas de filhos ilegítimos e de crimes, sua condição econômica e social inferior, e, especialmente, seus escores médios inferiores nos testes de QI, são considerados “prova” de sua inferioridade biológica. Mas, será que tal evidência é realmente prova de inferioridade biológica? Existem circunstâncias responsáveis pelas deficiências dos negros, em média, em comparação com os brancos?
Origem dos Negros da América
Muita gente no Brasil e EUA crêem que os antepassados africanos dos negros americanos eram selvagens, sem cultura ou civilização. Imaginam que eram mentalmente obtusos, infantis, incapazes de realizar tarefas complexas, ou de desenvolver uma civilização avançada. Mas os fatos são outros, como comenta The World Book Encyclopedia:
“Reinos negros, altamente desenvolvidos, já existiam em várias partes da África há centenas de anos. . . . Alguns dos reis negros e seus nobres viviam em grande opulência e esplendor. Suas capitais, às vezes, tornaram-se centros de cultura e comércio. Entre 1200 e 1600, floresceu uma universidade negro-árabe em Tombuctu, na África Ocidental, e tornou-se famosa por toda a Espanha, África do Norte e Oriente Médio.” — Vol. 14, 1973, págs. 106, 107.
Na verdade, a cultura africana é bem diferente da européia, assim como a cultura oriental também é diferente. E, infelizmente, alguns igualam diferença à inferioridade. Todavia, ao mesmo tempo, não se pode negar que, nos séculos recentes, o desenvolvimento da vida e cultura africanas tornou-se estanque. Houve falta de progresso, houve atraso geral. Mas por quê?
A razão se devia, em grande parte, ao comércio escravista, a respeito do qual disse The Encyclopedia Americana: “Desorganizou a cultura e a indústria negras, parou o desenvolvimento da arte, derrubou governos e foi a causa da moderna estagnação da cultura, que marcou o Continente Negro desde 1600.” — Vol. 20, 1927, p. 47.
A magnitude do comércio escravista, e seu impacto sobre a sociedade africana, é de abalar nossos sentidos. Segundo The New Encyclopœdia Britannica, 1976, “cálculos sobre os escravos enviados para o outro lado do Atlântico vão de 30.000.000 a 100.000.000”. Estimativas mais conservadoras dão um total “como de cerca de 15 milhões”. Mas, mesmo as estimativas menores são estonteantes, em especial quando se consideram as mortes envolvidas.
Deve-se reconhecer que os africanos foram capturados, tanto diretamente pelos brancos, como em guerras e batidas pelos negros, que vendiam seus concidadãos aos traficantes brancos de escravos. Não importa quem assumisse a responsabilidade inicial, os cativos eram então obrigados a marchar até à costa, e retidos em pontos de embarque. Daí, acorrentados aos pares, eram apinhados nos porões de navios, num espaço em que só podiam ficar deitados. Ali passavam a maior parte da viagem de cinqüenta dias pelo Atlântico, sem luz ou ar fresco. Cerca de um terço dos presos, calcula-se, morreram mesmo antes de embarcar no navio, e outro terço na travessia.
Foi no início dos anos 1500 que os primeiros escravos foram trazidos para as Índias Ocidentais e América do Sul, para trabalhar em minas e plantações. Em 1619, um navio negreiro holandês entregou os primeiros negros à América do Norte, não como escravos, mas como serviçais contratados. No entanto, mais tarde, nos anos 1600, a escravidão foi estabelecida plenamente e, com o tempo, havia cerca de quatro milhões de escravos negros nos EUA. Cálculos modestos dão um total de cerca de 3.500.000 escravos importados para o Brasil, total este que poderia aumentar para uns 6.350.000 ou até mesmo para o total surpreendente de 13.500.000.
O Que a Escravidão Lhes Fez
Os africanos comumente eram entregues primeiro nas Índias Ocidentais, onde eram “adaptados”, ou reduzidos a escravos, antes de serem enviados aos Estados Unidos. A diretriz era separar as pessoas da mesma origem tribal, para impedir qualquer insurreição em massa. Até mesmo as famílias eram separadas, e os traficantes ou os novos amos davam novos nomes aos escravos. O objetivo era tornar os negros subservientes e obedientes. Nesse processo, distorciam-se suas personalidades, suprimiam-se suas mentalidades, e, compreendendo a futilidade de resistir, os negros não raro começavam a comportar-se como se fossem inferiores.
Formularam-se códigos escravistas, para garantir sua completa subordinação. Afirma The Encyclopedia Americana:
“Escravos não podiam ter propriedades, possuir armas de fogo, empenhar-se no comércio, deixar a plantação sem permissão de seus donos, testemunhar num tribunal exceto contra outros negros, fazer contratos aprender a ler e escrever, ou realizar reuniões sem a presença de pessoas brancas. . . . o homicídio ou estupro dum escravo ou dum africano livre por uma pessoa branca não era considerado crime grave.” — Vol. 20 1959, p. 67.
Na maioria dos estados escravocratas, o castigo de se ensinar um negro a ler ou escrever era multa ou açoite, ou então a prisão.
Em 1808, os Estados Unidos tornaram ilegal o tráfico de escravos. No entanto, o tráfico continuou, apesar da lei, visto haver maior demanda de escravos do que nunca. Isto levou à suprema perversão — a produção de escravos para venda. Explica The Encyclopedia Americana:
“Desenvolveu-se um comércio doméstico escravista, de ampla escala e lucrativo, e alguns dos incidentes mais cruéis e de sangue frio do sistema escravista estavam ligados ao mesmo, tal como a multiplicação de escravos nos estados mais antigos para a venda mais para o sul, e o constante rompimento dos vínculos familiares pela venda, em separado, de seus membros.” — Vol. 20, 1959, p. 67.
Sim, o conceito de que os negros “não eram gente” levou a multiplicação e à venda deles, como se faz comumente com gado. Daí, abruptamente, em 1865, a escravidão foi plenamente abolida nos Estados Unidos; em 13 de maio de 1888, no Brasil. Todavia, as atitudes persistiram, e os negros eram mantidos “em seu devido lugar” — o de subordinação aos brancos — por leis de segregação e outros meios.
O linchamento por enforcamento era um importante instrumento de controle, nos EUA. Houve, em média, 166 linchamentos anuais entre 1890 e 1900. Também, como relata The Encyclopedia Americana: “A exploração sexual de mulheres negras por homens brancos continuou a ser tolerada. Os negros recebiam tratamento crassamente injusto e discriminatório às mãos da polícia e, freqüentemente, dos tribunais.” — Vol. 20, 1959, p. 70.
Estamos falando de história antiga? Não, os avós de muitos negros agora vivos eram escravos. E as pessoas que vivem hoje ouviram dos próprios lábios de ex-escravos como era a vida então. Até mesmo na década de 50, os veículos de divulgação nos Estados Unidos representavam os negros como sendo inferiores—invariavelmente seu papel era de empregados dos brancos.
Em geral, porém, não se viam negros de forma alguma, quer em revistas, na televisão, quer em jornais, exceto em histórias de crime. Sofriam discriminação de todo modo, obtendo escolarização de segunda classe, e sendo barrados em certos tipos de emprego e em muitos outros benefícios usufruídos por brancos. Praticamente em toda a parte se lhes fechavam as portas da oportunidade, privando a muitos de qualquer esperança de melhorarem sua sorte
Em vista destas circunstâncias, pode-se realmente esperar que os negros obtenham tão bons resultados, em média, quanto os brancos, em consecuções educativas e em outras? Seria justo julgá-los inferiores como raça, quando não se ajustam a determinado padrão? O que acontece quando se lhes abrem oportunidades?
Oportunidade e Motivação
Antes de 1947, as principais ligas de beisebol dos EUA barravam os negros. Nesse ano, a medida que as tensões raciais amiúde foram crescendo, permitiu-se que um negro jogasse. Logo os negros começaram a brilhar no beisebol. Em 1971, ano em que foram campeões mundiais, em certo jogo, os “Pittsburgh Pirates” (Piratas de Pittsburgo) apresentaram em campo uma equipe de nove jogadores — todos negros. A situação é similar em outros esportes, fazendo com que o Times de Nova Iorque, em 1977, dissesse que “o basquete profissional é virtualmente um esporte de negros”.
O que significa isto? Que as pessoas de cor são biologicamente superiores aos brancos? Ou significa que, quando se lhes abrem oportunidades, e se lhes fornecem instrução e motivação, os negros podem obter resultados tão bons? Obviamente, este último é o caso. As raças não nasceram com talento para serem jogadores de beisebol ou futebol, músicos, cientistas, professores universitários, etc. Essas coisas têm de ser aprendidas.
É errado estereotipar raças, afirmando que uma raça é naturalmente obtusa e lenta, enquanto que outra é agressiva e militante, ao passo que ainda outra é branda e subserviente, etc. As raças são o que são especialmente devido à instrução, à formação e à motivação que recebem. A guisa de exemplo, os chineses eram amiúde caraterizados por muitos como sendo naturalmente brandos e subservientes. Mas, considerando-se a educação e motivação diferentes que receberam-nas últimas décadas sob o comunismo, poucos os caraterizariam dessa forma hoje em dia.
Todavia, persiste o conceito de que, por natureza, biologicamente, os negros como raça são mais lentos mentalmente e menos inteligentes do que os brancos. Existe evidência fidedigna de que isto se dá?
[Foto na página 9]
Cortesia do Centro Schomburg de Pesquisa da Cultura Negra, Biblioteca Pública de Nova Iorque, Fundações Astor Lenox e Tilden.
-
-
São os brancos mais inteligentes do que os negros?Despertai! — 1978 | 22 de março
-
-
São os brancos mais inteligentes do que os negros?
SÃO, afirmam muitos. Os brancos, como raça, dispõem de mais inteligência congênita do que os negros.
William Shockley, Prêmio Nobel de física, assevera fortemente que isto se dá. Afirma: “Minha pesquisa me leva inescapavelmente à opinião de que a causa principal dos déficits intelectual e social dos negros norte-americanos é . . . de origem racialmente genética.”
O Professor Arthur R. Jensen, da Universidade da Califórnia em Berkeley, é destacado expoente do conceito de que, quanto à inteligência, os brancos são biologicamente superiores aos pretos. Declara ele: “O número de genes da inteligência da população negra parece ser inferior, no total, ao da branca.”
Qual é a causa de tais afirmações?
Base das Afirmações
A herança genética, indicam muitos, tem muito que ver com as diferenças raciais. Os negros herdaram a pele escura, lábios grossos e cabelo carapinha, e os brancos têm caraterísticas herdadas notavelmente diferentes. Assim, se inteiros grupos de pessoas herdaram tais caraterísticas físicas diferentes, é apenas razoável, argumentam alguns, que as raças herdassem diferentes graus de inteligência. Mas, herdaram mesmo? Por que se afirma que as pessoas de cor, como raça, herdaram menos inteligência do que os brancos?
A razão é principalmente devida aos resultados dos testes de Quociente de Inteligência (QI). Nestes testes, o escore dos negros, em média, é cerca de 15 pontos inferior ao dos brancos. Mesmo quando brancos e pretos de uma condição similar, social e econômica, são submetidos ao teste, os escores dos brancos, em média, são significativamente mais elevados do que os escores dos negros. Assim, Jensen conclui, de tal evidência, “que algo situado entre a metade e três quartos da diferença média do QI, entre os negros e os brancos norte-americanos, é atribuível a fatores genéticos”.
Os resultados dos testes de QI, junto com conclusões fundadas na teoria da evolução, reforçaram a opinião de muitos de que os negros são mentalmente inferiores. Alguns cientistas argumentaram que as raças evoluíram, em grande medida, de forma independente, no decurso de centenas de milhares de anos. Os pretos, afirma-se, cruzaram o limiar da categoria de Homo sapiens mais tarde do que os brancos.
Visto que os testes de QI atuais são a base principal para a afirmação de que os negros são inerentemente menos inteligentes do que os brancos, examinemos esses testes.
A Inteligência e os Testes de QI
Primeiro de tudo, o que se quer dizer com inteligência?
Essa é uma pergunta surpreendentemente difícil de se responder. Um grande número de qualidades diferentes poderiam ser chamadas de inteligência. Pessoas podem ser “inteligentes” num contexto, talvez podendo decorar nomes e datas com facilidade, mas podem ser “burras” em outro, tal como o de resolver problemas aritméticos. Assim, não existe nenhuma definição universalmente aceita do que é inteligência.
Que dizer, então, dos testes de QI? Medem deveras a inteligência? Comentando isto, Patrick Meredith, professor de psicofísica da Universidade de Leeds, Inglaterra, disse: “Poder-se-ia julgar que os franceses são mais inteligentes do que os pigmeus, mas, caso visse os pigmeus em seu ambiente natural, construindo pontes de fibras, e vivendo com êxito, poderia perguntar o que se quer dizer com inteligência. A classificação do QI não é indício de como a pessoa se comportará em determinada situação. O teste de QI é um conceito totalmente anticientífico.”
Concorda-se, em geral, que os testes de QI deixam de fornecer um quadro completo dos muitos fatores envolvidos na inteligência. As circunstâncias e a formação das pessoas são variadas demais para que os testes possam fazer isto. O que, então, avaliam os testes de QI?
Arthur Whimbey, professor de psicologia duma universidade do sul dos Estados Unidos, observa: “Os estudos levam à conclusão de que os testes de QI não medem a capacidade intelectual inata, antes, porém, um grupo de perícias aprendidas que podem ser ensinadas na sala de aula ou no lar.”
Para confirmar isto, tem-se demonstrado que pessoas podem aprender a fazer os testes de QI, com resultados surpreendentes. Um pesquisador relata que certo jovem estudante negro do Mississípi recebeu instruções quanto a fazer tais testes, e, em seis semanas, aumentou dramaticamente seu escore de QI.
Pode facilmente imaginar as conclusões erradas que uma pessoa poderia tirar dos escores de QI, e os efeitos que isto pode ter. Um negro norte-americano, que é agora professor universitário, escreve:
“Aos 15 anos, consegui um escore de 82 no teste de QI . . . Com base neste escore, meu conselheiro sugeriu que eu aprendesse a ser pedreiro, porque ‘trabalhava bem com as mãos’. . . . Cursei, de qualquer modo, a Faculdade Philander Smith, formando-me com mérito, obtive meu grau de mestrado na Universidade Estadual de Wayne e meu Doutorado em Filosofia na Universidade de Washington, em S. Luís. Outros pretos igualmente habilitados, foram eliminados.”
Todavia, resta o fato de que os brancos conseguem um escore, em média, 15 pontos superior aos negros nos testes de QI. Por quê? Se se argumentar que os negros são inatamente tão inteligentes quanto os brancos, então por que não conseguem escores melhores?
Exame da Questão em Seu Contexto
Há muitos fatores que podem ser responsáveis pelos seus escores médios mais baixos do QI. Em especial, os negros norte-americanos sofreram muitas desvantagens devido a seu tratamento pelos brancos como inferiores, e como indesejáveis. O antigo Ministro-Presidente do Supremo Tribunal dos EUA, Earl Warren, ilustrou as modernas atitudes raciais num artigo de Atlantic, de abril de 1977.
Quando pendia a decisão do Supremo Tribunal sobre a segregação escolar, em meados da década de 50, o então Presidente Dwight Eisenhower, dos EUA, convidou Warren para um jantar na Casa Branca, visando influenciá-lo a decidir-se a favor da manutenção da lei segregacionista. “O Presidente”, escreve Warren, “pegou-me pelo braço, e, ao caminharmos, falando sobre os estados do sul, nos casos de segregação, disse: ‘Esses [sulistas] não são gente má. Tudo com o que se preocupam é de certificar-se de que suas doces menininhas não tenham de sentar-se na escola junto com alguns negrões já bem crescidinhos.”
Conforme expresso pelo presidente, os brancos têm comumente tentado “manter os negros em seu devido lugar” — numa posição segregada, subordinada, longe dos benefícios gozados pelos brancos. Durante a escravidão, e, mais tarde, na segregação legalizada, era fácil fazer isto. Os pretos que saíssem da linha eram açoitados, linchados, ou, punidos de outra forma. O efeito era produzir a personalidade do “negrinho pacato” infantil, subserviente, mentalmente vagaroso. Os brancos comumente criam que tal personalidade era inerente aos negros. No entanto, o professor Thomas F. Pettigrew, de Harvard, explica:
“Não existem quaisquer dados antropológicos africanos que tenham mostrado qualquer tipo de personalidade parecida à do ‘negrinho pacato’ [em inglês, Sambo]; e os campos de concentração [da Alemanha nazista] moldaram o padrão equivalente de personalidade numa ampla gama de prisioneiros caucasianos. Nem era o ‘negrinho pacato’ simples produto da ‘escravidão’ em sentido abstrato, pois o sistema latino-americano [de escravidão], menos devastador, jamais produziu tal tipo.”
Assim, os resultados dos testes de QI, têm de ser considerados neste contexto de mais de 300 anos de opressão, durante os quais muitos pretos, para sua própria defesa e sobrevivência, adotaram uma personalidade subserviente. E, lembre-se, até a parte final do século passado, era contra a lei, em muitos lugares dos EUA, que os negros aprendessem a ler ou a escrever. Mesmo desde então, os negros, como um todo, simplesmente não dispuseram das mesmas oportunidades educacionais que os brancos
Efeito do Ambiente
A qualidade da educação pré-escolar, no lar, também tem que ver diretamente com as consecuções intelectuais. É interessante que a plena lacuna de 15 pontos do QI é manifesta, nos EUA, entre crianças negras e brancas já aos cinco anos, mesmo antes de irem para a escola. Alguns talvez afirmem que isto é prova de que os negros já nascem menos inteligentes do que os brancos, mas há evidência de que outros fatores podem ser responsáveis por isso.
A primeira infância é um período principal do crescimento intelectual. O Dr. Benjamim Bloom, da Universidade de Chicago, bem como outros educadores, sustenta que, por ocasião do tempo em que a criança atinge os cinco anos, já gozou de tanto crescimento intelectual quanto o que ocorrerá nos próximos treze anos. Em harmonia com tal conclusão, Science News Letter observa: “Nos primeiros anos, a inteligência duma criança pode ser grandemente influenciada pelo ambiente acolhedor, que conduza à aprendizagem e à exploração.”
Considere, porém, a situação doméstica de muitos negros. Suas famílias são mais freqüentemente desmanteladas do que as famílias brancas. O pai amiúde não pára em casa, sendo, talvez, obrigado a dirigir-se a outra região em busca de emprego. Não raro, nas famílias de cor, apenas a mãe tem de criar os filhos. Sob tais circunstâncias, pode-se esperar que as crianças recebam a educação inicial que as equipe a igualar as consecuções intelectuais dos brancos?
Ademais, estudos recentes mostram que, nas famílias maiores, negras ou brancas, em que os pais usualmente dão menos atenção individual aos filhos, as crianças alcançam inferiores escores de QI. Visto que as famílias de cor, em média, são maiores do que as brancas, isto também pode ser um fator contribuinte para as consecuções intelectuais inferiores dos negros.
Outro fator a considerar é que os ambientes domésticos não são os mesmos — as culturas brancas e negras são significativamente diferentes. E os testes de QI tradicionais apresentam claros preconceitos culturais que favorecem os brancos. Como exemplo, um teste de gravuras de Stanford-Binet mostrava uma mulher branca, de aparência embonecada, e uma mulher com caraterísticas negróides, de cabelos ligeiramente descuidados. A criança recebia um “certo” se apontasse a mulher branca como sendo “bonita”, e um “errado” se apontasse a negra.
Outra coisa a ter presente é que grande número de negros obtiveram escores de QI bem acima do escore médio de todos os brancos. Com efeito, durante a Primeira Guerra Mundial, os negros de certas partes do norte dos EUA obtiveram escores mais elevados nos testes de QI do que os brancos de certas partes do Sul, o que indicaria que os negros não nascem com menos inteligência. Theodosius Dobzhansky, biólogo norte-americano, teceu a seguinte observação notável: “As diferenças de raça, em média, são muito menores do que as variações que existem dentro de qualquer raça. Em outras palavras, cérebros grandes e elevados QIs de pessoas de cada raça são muito maiores e mais elevados do que as médias de sua própria raça ou de qualquer outra.”
O livro Intelligence — Genetic and Environmental Influences (Inteligência — Influências Genéticas e Ambientais), editado pelo médico e professor universitário Robert Cancro, examina extensivamente os fatores ambientais que contribuem para as inferiores consecuções intelectuais dos negros. Em vista de todas as desvantagens que os negros têm sofrido, os escritores concluem: “É realmente surpreendente verificar o QI mediano dos negros norte-americanos situar-se apenas 15 pontos abaixo do dos norte-americanos brancos. Não existe nenhuma razão para se considerar tal discrepância como sendo biologicamente inevitável.”
O renomado antropólogo, Ashley Montagu, chegou a uma conclusão similar. Escreve ele: “Se for deficiente a nutrição, deficientes os cuidados médicos, degradante a habitação, baixa a renda familiar, prevalecente a desorganização familiar, anárquica a disciplina, mais ou menos completo o favelamento, reduzido coerentemente o valor pessoal, poucas as expectativas, frustradas as aspirações, bem como houver numerosos outros obstáculos ambientais, então, pode-se esperar o tipo de fracassos no desenvolvimento intelectual que são, mui amiúde, atribuídos gratuitamente a fatores genéticos.”
Conclui Montagu: “Não existe evidência de que qualquer povo seja, quer biologicamente quer mentalmente, superior ou inferior a qualquer outro povo, em qualquer sentido que seja.”
Todavia, existe prova de que a diferença nos escores médios de QI das raças não seja devida a que os brancos herdam mais inteligência do que os negros?
Conclusões da Evidência
Não existe prova alguma de que os brancos tenham ou não herdado mais inteligência do que os negros. O que é claro, contudo, é que o ambiente produz grande efeito no desenvolvimento intelectual. Em Israel, para exemplificar, as crianças judias carentes, orientais, que foram colocadas em comunas chamadas kibutzim, e foram criadas de forma coletiva, apresentaram QIs mais elevados do que as crianças da mesma formação criadas por seus pais. Também, crianças índias americanas, criadas em lares adotivos brancos, conseguem QIs significativamente mais elevados do que seus irmãos e suas irmãs na Reserva indígena. Mas, dá-se isso também com os negros?
Recente estudo de crianças negras criadas em lares brancos revelaram que sim. O estudo, que incluía mais de cem famílias brancas que adotaram crianças negras em tenra idade, e as criaram em suas casas, mostravam que os QIs destes negros se comparavam de forma favorável com os dos brancos. “No todo”, escrevem os pesquisadores, “nosso estudo nos impressionou com a força dos fatores ambientais. . . . Se diferente ambiente pode fazer com que os escores de QI de crianças negras passem dos normais 90, ou 95, para 110, então os conceitos expendidos pelos deterministas genéticos não podem justificar a atual lacuna do QI entre negros e brancos.”
O peso da opinião científica, por conseguinte, parece ser de que a média inferior dos escores de QI dos negros pode ser explicada principalmente, se não de forma total, pelos fatores ambientais. No livro The Biological and Social Meaning of Race (O Significado Biológico e Social de Raça), Frederick Osborn, do Conselho de População de Nova Iorque, resume: “Somente uma conclusão é possível dos estudos que já foram feitos até a data. As diferenças, nos testes de inteligência, entre as principais raças, não são maiores do que as que podem ser atribuídas às diferenças conhecidas em seus ambientes. Sobre isso existe consenso científico geral.”
É de interesse que, à medida que se lhes abrem oportunidades, cada vez mais pessoas de cor obtêm êxito nos campos do comércio, da educação, da medicina, etc.
Todavia, é preciso reconhecer que a questão da inteligência relativa das raças não pode ser positivamente determinada. A evidência é agora inconclusa, estando aberta a várias interpretações, como observou certo escritor: “Cem conclusões diferentes podem ser tiradas, e têm sido tiradas, do mesmo conjunto de evidências. A conclusão a que se chega depende tanto da emoção quanto da razão.”
Assim, então, por que trazer à baila o assunto dos escores de QI no esforço de provar que os negros são menos inteligentes do que os brancos? Steven Rose, professor de biologia da Universidade Aberta, Inglaterra, explica por que alguns o fazem: “A questão da base genética das diferenças raciais ou de classe no QI . . . só tem significado numa sociedade racista ou elitista, que tenta justificar ideologicamente suas práticas discriminatórias.”
Como resultado da tempestade da controvérsia sobre a alegada inteligência inferior herdada dos negros, declarou a Academia Nacional de Ciências dos EUA: “Não existe nenhuma base científica para a declaração de que existem ou não existem diferenças hereditárias substanciais de inteligência entre as populações negras e brancas. Na ausência de algum meio, agora imprevisto, de igualar todos os aspectos do ambiente, as respostas a essa pergunta dificilmente podem ser algo mais do que palpites razoáveis.”
Uma coisa é certa, porém, e isso é que não existe base sólida para se considerar as pessoas de outra raça como inferiores. Sem fazer qualquer distinção quanto à raça, a Bíblia saudavelmente aconselha-nos a ter “humildade mental, considerando os outros superiores a vós”. — Fil. 2:3.
Mas, mesmo assim, há conceitos persistentes que impedem as pessoas de aplicar este excelente conselho bíblico. Um conceito destacado é de que as pessoas de outras raças, sem ser a sua própria, têm um objetável cheiro de corpo.
[Destaque na página 13]
“Caso visse os pigmeus em seu ambiente natural, construindo pontes de fibras, e vivendo com êxito, poderia perguntar o que se quer dizer com inteligência.”
[Destaque na página 15]
“Durante a Primeira Guerra Mundial, os negros de certas partes do norte dos EUA obtiveram escores mais elevados nos testes de QI do que os brancos de certas partes do Sul.”
[Destaque na página 16]
“As diferenças, nos testes de inteligência, entre as principais raças, não são maiores do que as que podem ser atribuídas às diferenças conhecidas em seus ambientes.”
[Foto na página 14]
O ambiente em que as crianças crescem influi em seu desenvolvimento intelectual.
-
-
O cheiro de corpo e a raçaDespertai! — 1978 | 22 de março
-
-
O cheiro de corpo e a raça
ERA um verão setentrional do início da década de 60, em Arkansas, EUA. Duas meninas negras, de cerca de oito e dez anos, logo iriam cursar a escola junto com brancas. Anteriormente, tinham freqüentado uma escola rural segregada.
Certo dia, uma senhora branca, que se tornara amiga das meninas, perguntou à mais jovem: “Pam, o que pensa de freqüentar a escola junto com crianças brancas?” Ela respondeu, um tanto hesitante: “Bem, não sei. Sabe, não quero me referir à senhorita, Miss Cruder, mas os brancos, como sabe, têm um cheiro engraçado”, e seu narizinho se torceu diante dessa perspectiva.
As pessoas de cor comumente crêem nisso. Os jovens, pelo que parece, colheram essa idéia, não tanto por experiência de primeira mão, mas do que ouviram falar. Mas, como é que começou essa idéia de que os brancos têm um cheiro diferente, desagradável? Em grande parte, pode ter sido em reação aos conceitos que os brancos há muito nutrem dos negros.
Nos séculos passados, quando os negros eram escravos e eram considerados objetos possuídos, os brancos amiúde falavam sobre o cheiro de corpo deles. Em seu livro recente, Race (Raça), John R. Baker afirma: “Os autores dos séculos anteriores comentaram este assunto com maior liberdade do que os dos dias atuais. Assim, Henry Home, em seus Sketches of the History of Man (Esboços da História do Homem), refere-se ao ‘cheiro fétido’ dos negros. Numa obra publicada no mesmo ano (1774), The History of Jamaica (A História da Jamaica), Long afirma que os negros se distinguem por seu ‘cheiro bestial ou fétido, que todos eles possuem, em grau maior ou menor’.”
Este veio a ser um conceito geralmente aceito entre os brancos. Visto crer-se que os negros eram biologicamente inferiores, tendo cruzado suposto umbral evolucionário de humanidade mais tarde que os brancos, não é surpreendente que os brancos chegassem a tal conclusão.
Crença Generalizada
No entanto, não são apenas os negros e os brancos que crêem que as outras raças possuam um cheiro de corpo diferente, objetável. Melville Jacobs e Bernhard J. Stern, em seu livro General Anthropology (Antropologia Geral), comentaram: “Poucas noções sobre diferenças raciais são cridas mais amplamente do que a idéia de que cada raça possui seu cheiro caraterístico.”
À guisa de exemplo, muita coisa foi escrita nos séculos passados sobre um específico cheiro judeu Também, o anatomista nipônico, Buntaro Adachi, escreveu que achava mui objetável o cheiro de corpo dos europeus. Esta foi sua primeira impressão ao estabelecer-se na Europa, mas, posteriormente, disse que ficara acostumado com esse cheiro e gostava dele.
Uma experiência contada sobre um médico inglês fixado em Bombaim, Índia, também é esclarecedora. Ele fazia com que seu serviçal indiano o chamasse da igreja, nos domingos de manhã, para impressionar a congregação com a importância dele como médico. Certo dia, o médico compareceu a uma grande reunião política indiana, mas saiu logo depois, explicando a seu criado: “Que alívio foi sair! Dentro de mais dez minutos eu teria desmaiado. Que cheiro horrível!” Seu criado respondeu: “Ah, Saíbe, agora o Sr. entenderá o que sofro todo domingo quando tenho de entrar até bem no meio da igreja para chamá-lo!”
O que devemos concluir? Que o cheiro das diferentes raças é apenas ficção da imaginação das pessoas? Se não é, o que faz com que certas raças tenham diferentes cheiros de corpo? Será a herança racial?
Cheiro de Corpo É Real — Por Quê?
Ninguém negará que existe o cheiro de corpo. As enormes vendas de desodorantes e antiperspirantes provam que existe. E é óbvio que algumas pessoas, negras e brancas, possuem forte cheiro de corpo que pode desagradar a outros. Por quê? O que prova tais odores?
Pelo que parece, não é a própria perspiração, como se poderia pensar. Experiências demonstram que a perspiração, à medida que o corpo a emite, é tanto estéril como inodora. O odor resulta quando as bactérias atuam sobre a perspiração.
O cabelo, especialmente nas axilas, atua como local de coleta para a perspiração, e favorece o crescimento bacterial que pode resultar num odor desagradável. A roupa, também, constitui um fator, visto que os organismos podem apegar-se a ela, junto com a transpiração, e isso resultar na decomposição bacterial que produz o cheiro de corpo.
A dieta duma pessoa também contribui para o cheiro de corpo. Jacobs e Stern observam em General Anthropology: “Entre os mais potentes odores conhecidos dos químicos acham-se o ácido valérico, o ácido butírico, e compostos orgânicos relacionados, que são emitidos como vapores através da pele, por todas as pessoas que, nas horas anteriores, ingeriram leite, manteiga, queijo, ou gorduras de várias espécies. . . . Uma população que come muito alho possui outro odor caraterístico; as cebolas engendram ainda outras conseqüências; o salmão defumado e a carne de veado, os arenques em picles, e as batatas-doces, ainda outros.”
Todavia, apesar da evidência de que tais fatores são responsáveis, muitos ainda crêem que o cheiro de corpo se deva especialmente à herança racial. Em seu livro Along This Way (Por Este Caminho), J. W. Johnson descreve interessante conversa que teve sobre esse assunto, explicando: “Certo homem se levantou e disse: ‘Desejo fazer-lhe uma pergunta franca. Será que a principal objeção ao negro não é devida a que ele tem um cheiro ruim?’”
“Em resposta”, disse o escritor, “concordei que havia muitos negros que cheiravam mal; mas, por sua vez, indaguei a meu interlocutor se ele imaginava que os custosos anúncios de revistas sobre o ‘C. C.’ visavam atrair exclusivamente compradores negros. Comentei que eu não pensava assim, visto que eles estavam, em geral, ilustrados com fotos de garotas brancas, de aparência bem bonita.”
Todavia, não poderia uma comunidade geral de negros, bem como de brancos, apresentar um odor objetável, caso seguissem um regime e um modo de vida determinados? Deveras que sim! Os negros mantidos durante semanas nos porões dos navios negreiros cheiravam muito mal. E, também, muitos escravos negros que trabalhavam nos campos e não se banhavam com regularidade. Até mesmo hoje, há algumas classes, tanto de negros como de brancos, cuja higiene é péssima, e cujo regime difere do que outros estão acostumados. Amiúde têm um cheiro diferente, objetável, para as pessoas que em geral não ficam ao seu redor. Todavia, isso não significa que todos os brancos ou todos os negros tenham tal cheiro.
Ainda assim, tem-se afirmado, até mesmo por um perito universitário, que uma das mais notáveis diferenças raciais é o cheiro de corpo. Existe prova de que tal afirmação é inverídica?
O Que Mostraram as Experiências
Algumas experiências foram feitas para suprir a resposta. O professor Otto Klineberg, destacada autoridade no campo da psicologia racial, fala sobre certo estudo não publicado. O experimentador juntou suor, em tubos de ensaio, de estudantes brancos e negros, que acabavam de exercitar-se num ginásio. Juízes brancos receberam os tubos de ensaio, e lhes foi pedido que os classificassem na ordem da agradabilidade.
“Os resultados não mostraram”, relata Klineberg, “nenhuma preferência coerente pelas amostras dos brancos; tanto o tubo de ensaio considerado o mais agradável como o reputado o mais desagradável provinham ambos dos brancos.”
The Journal of Genetic Psychology (Revista de Psicologia Genética), 1950, páginas 257-265, fala de outra experiência. Dois negros e dois brancos eram os alvos dos testes. Todos os quatro eram universitários que comiam na mesma lanchonete, moravam aproximadamente nos mesmos alojamentos, e participavam das mesmas atividades escolares. Para a experiência, os quatro tomaram banho no mesmo banheiro e usaram o mesmo tipo de sabonete.
Na primeira metade da experiência, os rapazes acabavam de sair dum chuveiro, e na segunda metade, suavam, depois de vigorosos exercícios. A experiência foi dirigida de modo a eliminar qualquer possibilidade de fatores acidentais ou do reconhecimento dos testados. Ao todo, 59 pessoas ofereceram 715 juízos, sendo-lhes permitido cheirar qualquer parte dos corpos dos testados, cobertos por lençóis.
Os resultados mostravam que, em 368 pareceres, ou mais da metade deles, os juízes assinalaram “não sei”. Reconheceram assim que eram incapazes de reconhecer o cheiro de corpo de brancos ou de pretos como sendo distintivo de qualquer forma. E, em quase a metade dos pareceres restantes, ou em 157 deles, as pessoas que imaginavam poder identificar a fonte do cheiro do corpo estavam erradas. Meros palpites ao acaso teriam produzido quase este mesmo grau de exatidão.
É interessante que apenas sete dos 59 juízes estavam certos de poderem diferençar, cada vez, a fonte do cheiro do corpo. Mostraram sua confiança por jamais marcarem “não sei”. Todavia, só estavam certos, em média, em cerca da metade de seus juízos — o que também não é melhor do que os palpites ao acaso teriam produzido
George K. Morlan, relatando em The Journal of Genetic Psychology, comentou: “Nossa experiência não prova nem refuta que haja diferenças ‘raciais’ no cheiro de corpo, mas, se tais diferenças realmente existem, e os brancos e negros se igualarem no regime, na limpeza, e coisas semelhantes, nossa evidência mui definidamente não apóia o conceito de que os brancos possam identificar tal cheiro com qualquer grau fidedigno de exatidão.”
O Papel do Preconceito
Sem dúvida muitos, com toda sinceridade, crêem que o cheiro de corpo objetável é principalmente devido à raça, ao invés de à higiene ou ao regime deficientes. É possível que, visto que se lhes ensinou a crer que outra raça possui mau cheiro, eles efetivamente imaginem que podem detectar tal odor. Discutindo o assunto, o ex-professor de psicologia da Universidade de Harvard, Gordon W. Allport, escreveu:
“O poder associativo dos odores é elevado . . . se certa vez associávamos o cheiro de alho com os italianos que conhecíamos, ou o perfume barato com os imigrantes, ou os odores fétidos com habitações apinhadas, tais odores recém-encontrados nos farão pensar nos italianos, nos imigrantes, nos moradores de cortiços. Conhecer um italiano talvez nos faça pensar no cheiro de alho e até mesmo ‘senti-lo’. Alucinações olfativas, (causadas por tais associações) são comuns. É por este motivo que as pessoas que formaram associações olfativas talvez declarem, com convicção, que todos os negros ou todos os imigrantes cheiram mal.”
Uma vez a pessoa tenha formado tal opinião, usualmente não é fácil mudá-la. O preconceito pode tornar-se arraigado, e, ainda assim, parecer ridículo quando encarado com objetividade. Considere, para exemplificar, a mulher que disse não querer que pretos morassem em sua vizinhança “porque cheiram mal”. Todavia, esta mesma mulher não tinha nenhuma objeção a que as negras trabalhassem para ela como empregadas, na casa dela. John Dollard, ex-professor de psicologia na Universidade de Yale, estava sem dúvida certo ao dizer: “Parece bem possível que, caso não existisse tal crença, os odores dos negros não subiriam acima do portal da discriminação.”
A Encyclopœdia Britannica, 1971, depois de discutir o assunto, formulou a seguinte conclusão: “É duvidoso que haja uma diferença significativa no odor do suor. Testes experimentais demonstram muito pouca habilidade de diferençar o suor dos negros e dos brancos. O assunto é complexo, e há mui generalizada tendência de atribuir as diferenças percebidas a fatores ‘raciais’, quando, em muitos casos, as diferenças podem ser atribuídas a fatores sociais e a outros não-raciais.”
É triste quando pessoas julgam outras antes de examinarem a evidência. E é ainda mais triste quando tais conceitos são sustentados mesmo depois de as pessoas terem considerado a evidência. Raças inteiras sofreram discriminação devido ao preconceito. Mas, realmente, existe base sólida para o preconceito ou a discriminação contra qualquer raça de pessoas?
-
-
Uma só raça humanaDespertai! — 1978 | 22 de março
-
-
Uma só raça humana
POR certo, existe grande variedade de pessoas na terra, dotadas de caraterísticas físicas notavelmente diferentes. Considera-as todas como pertencendo a uma só raça humana, como pessoas a serem aceitas por seus méritos individuais?
Devíamos considerá-las. E dessa forma que nosso Criador deseja que encaremos as pessoas. Como sabemos? Porque Ele inspirou um de seus servos, o apóstolo cristão, Paulo, a dizer: “O Deus que fez o mundo e todas as coisas nele . . . dá a todos vida, e fôlego, e todas as coisas. E ele fez de um só homem toda nação dos homens, para morarem sobre a superfície inteira da terra.” — Atos 17:24-26.
Mas, não são algumas raças dos homens mais preciosas aos olhos de Deus do que outras? É isto o que muitos crêem. Todavia, depois de se lhe dar uma demonstração da imparcialidade de Deus, o apóstolo cristão, Pedro, sentiu-se movido a exclamar: “Certamente percebo que Deus não é parcial, mas, em cada nação, o homem que o teme e que faz a justiça lhe é aceitável.” — Atos 10:34, 35.
Crê nisso? Nem todos crêem.
Realmente Uma só Família?
Alguns até mesmo torcem a Bíblia, e tentam mostrar que ela ensina “que o negro, os macacos inferiores e os quadrúpedes, pertencem todos a ‘uma só espécie de carne’, a ‘carne dos animais’”. O Professor Charles Carroll fez tal asserção em seu livro “The Negro a Beast” or “In the Image of God”, que obteve grande circulação no início do século vinte. Por outro lado, alguns evolucionistas afirmam que os negros são ‘uma raça inferior da espécie humana’.
Mas, alguns negros argúem de forma totalmente diferente. O livro Black Nationalism — A Search for an Identity in America (Nacionalismo Negro — A Busca Duma Identidade nos Estados Unidos) afirma: “Os caucasianos não foram os habitantes originais desta terra, mas foram ‘enxertados’ do povo negro . . . Contrastado com o Homem Original (os chamados negros), o branco é inferior, física e mentalmente. Também é fraco, pois foi enxertado do negro. É o verdadeiro homem ‘de cor’, i. é., o desviado da norma de cor negra.”
O que mostram os fatos? Somos nós, realmente, uma só família humana? Existe qualquer verdade nas afirmações de que não somos?
Diferenças São Superficiais
Considere a carne e o sangue. Alguns argumentam que diferem nos negros e nos brancos. Todavia, The World Book Encyclopedia afirma: “Os cientistas declaram que as células que compõem o corpo humano são as mesmas para todas as pessoas. . . . Do mesmo modo, um biólogo pode diferençar o sangue humano do sangue dos animais inferiores. Mas, todos os muitos tipos de sangue humano podem ser encontrados entre todas as linhagens e raças da humanidade.”
Muita coisa tem sido escrita sobre as diferenças na estrutura corpórea dos negros e brancos. Mas, quais são os fatos? O antropólogo Ashley Montagu escreve: “O estudo anatômico de perto parece mostrar que as diferenças físicas se limitam a caracteres bem superficiais. Talvez possa sublinhar melhor isto por afirmar que, se o corpo dum negro fosse privado de todas as caraterísticas superficiais, tais como a pele, os cabelos, o nariz e os lábios, acho que nenhum anatomista poderia dizer, com certeza, num caso isolado, se lidava com o corpo dum negro ou dum europeu.”
O tamanho do cérebro também é apontado qual evidência duma diferença básica entre brancos e negros. Afirma-se que, em média, os cérebros dos negros são ligeiramente menores do que os dos brancos. Sem embargo, mesmo que isso fosse verdade, as variações normais no tamanho do cérebro evidentemente não influem na inteligência. Caso influíssem, os brancos seriam menos inteligentes que os esquimós e os índios norte-americanos que, em média, possuem cérebros maiores.
Para sublinhar que as raças são fundamentalmente iguais, o Professor Bentley Glass, em seu livro Genes and the Man (Genes e o Homem), escreve: “Ao todo, é improvável que haja mais do que seis pares de genes em que a raça branca difira carateristicamente, num sentido leigo, da negra. Brancos ou pretos, contudo, inquestionavelmente diferem, não raro, entre si mesmos em maior número do que este, fato que revela nossos preconceitos raciais como sendo biologicamente absurdos. . . . O abismo entre as raças e povos humanos, onde existe, é psicológico e sociológico; não é genético!”
Digno de nota, o recente livro Heredity and Humans, (Hereditariedade e Humanos), do escritor científico Amram Scheinfeld, afirma: “A ciência corrobora agora com aquilo que a maioria das grandes religiões há muito pregam: Os seres humanos de todas as raças são . . . descendentes do mesmo primeiro homem.”
Visto que isto é verdade, então a que se pode atribuir as observáveis diferenças raciais, tais como a cor da pele e a textura dos cabelos?
Por Que Há Diferenças Raciais
O primeiro casal humano tinha, dentro de sua constituição genética, os fatores múltiplos para todas as diferenças raciais conforme as vemos hoje. Possivelmente, eles mesmos não eram nem brancos nem pretos, mas mulatos, ou uma combinação das cores agora encontradas nas várias raças. E um primitivo relato histórico sobre a humanidade afirma: “São todos um único povo, com uma única linguagem!” (Gên. 11:6, em A Bíblia de Jerusalém, em inglês) Mas, isto mudou abruptamente.
Grande segmento da família humana, naquela época inicial da história, desejou permanecer em um só local, com objetivos religiosos-políticos. Para frustrar isto, o Criador causou subitamente que tais homens falassem línguas diferentes, de modo que não pudessem compreender uns aos outros. Imagine o que deve ter acontecido.
Incapazes de se comunicarem uns com os outros, pequenos grupos, agora isolados pela barreira da língua, partiram sozinhos. Ao se espalharem mais além, a distância proveu uma barreira adicional à comunicação. Isolados pela localidade e pela língua, os descendentes de cada grupo se multiplicaram, e desenvolveram ainda mais, por um período de tempo, as caraterísticas distintivas de sua “raça”. Mas, estas caraterísticas físicas que foram transmitidas de pai para filho não fizeram, de nenhum modo, que uma raça se tornasse superior ou inferior à outra. — Gên. 11:7-10.
A realidade é que tais diferenças raciais não são realmente muito grandes, conforme Hampton L. Carson escreve em Heredity and Human Life (Hereditariedade e Vida Humana): “O paradoxo que nos confronta é que cada grupo de humanos parece ser externamente diferente, todavia, por baixo de tais diferenças existe fundamental similaridade.”
Por que, então, se os humanos são todos uma só família humana, existem terríveis problemas raciais?
O Que É Responsável
Embora Deus criasse perfeitos os nossos primeiros pais humanos, Adão e Eva, eles deram à sua descendência um mau começo. Como assim? Rebelaram-se voluntariamente contra Deus, afastando-se de sua regência. Cortados de Deus, Adão e Eva tornaram-se assim imperfeitos, defeituosos. Como resultado, transmitiram essa imperfeição — esta tendência para o mal — a seus descendentes. — Rom. 5:12.
Assim, desde seu nascimento, todos os humanos são defeituosos. Inclinam-se para o egoísmo e o orgulho. Ademais, quando os primeiros humanos afastaram-se do domínio de Deus, vieram a ficar sob a regência duma criatura espiritual iníqua que a Bíblia chama de Satanás, ou Diabo. (Rev. 12:9; 2 Cor. 4:4) São essas circunstâncias que têm estado na raiz da história, assolada de preconceito, da família humana bem até a época atual.
Expressando-o sem rodeios: Os humanos egoístas, imperfeitos, sob o controle de Satanás, disseminaram todos os falsos ensinos sobre as raças, que têm sido responsáveis pelos terríveis problemas raciais.
O Que Fará?
Pode deixar-se influenciar pela propaganda falsa deste mundo e nutrir um conceito impróprio sobre as pessoas de outras raças. Ou pode moldar seu modo de pensar de acordo com a verdade — a verdade especialmente encontrada na Palavra de Deus, a Bíblia — e ter um conceito saudável, correto, sobre as pessoas de outras raças.
Admitidamente, talvez não seja fácil corrigir preconceitos há muito alimentados, pois podem estar mui arraigados. Mas, se havemos de agradar ao nosso Criador, Jeová Deus, é essencial que nos empenhemos em obter e em manter um conceito correto sobre nossas concriaturas humanas. Precisamos ter presente o conceito de Deus, a saber, que “em cada nação, o homem que o teme e que faz a justiça lhe é aceitável”. — Atos 10:35.
Não está muito longe o tempo em que Deus cumprirá sua promessa de executar o julgamento. Ele purificará a terra de todos os elementos que a conspurcam, inclusive todos aqueles, dentre o inteiro mundo da humanidade, não importa de que raça sejam, que não se harmonizem com Sua vontade. Apenas aqueles que praticam a justiça e são aceitáveis a Ele serão preservados vivos. (1 João 2:17) A Bíblia nos assegura que estes incluirão “uma grande multidão . . . de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas”. (Rev. 7:9) Estes residirão, todos juntos, em paz e união, como uma só família humana unida, composta de irmãos e irmãs.
Mas, que dizer dos que possuem preconceitos raciais profundamente arraigados? Como podem corrigir seu modo de pensar?222
[Destaque na página 22]
“Todos os muitos tipos de sangue humano podem ser encontrados entre todas as linhagens e raças da humanidade.”
[Destaque na página 22]
“A ciência corrobora agora com aquilo que a maioria das grandes religiões há muito pregam: Os seres humanos de todas as raças são . . . descendentes do mesmo primeiro homem.”
[Destaque na página 23]
A Bíblia afirma: “Em cada nação, o homem que o teme [a Deus] e que faz a justiça lhe é aceitável.”
[Foto na página 21]
‘Se um homem fosse privado de todas as caraterísticas superficiais, tais como a pele, os cabelos, o nariz e os lábios, um anatomista não poderia dizer, com certeza, se lidava com o corpo dum negro ou dum europeu.’
-
-
Encontraram a solução para o problema racialDespertai! — 1978 | 22 de março
-
-
Encontraram a solução para o problema racial
HOJE em dia, há milhares de pessoas que conseguiram sobrepujar problemas raciais vitalícios. Acharam a solução para o problema que continua a assombrar a humanidade. Como? A chave é a educação correta, obter-se informações exatas.
Quando falta tal chave, amiúde surge o preconceito. O preconceito é um conceito formado antecipadamente, um juízo a que chegam as pessoas antes de realmente examinarem a evidência no tocante ao assunto envolvido. Daí, por causa de seu preconceito, inclinam-se a fazer discriminações contra outros.
Quando se trata do assunto de raça, amiúde as pessoas crêem que examinaram a evidência. E talvez imaginem que agem segundo informações exatas. Mas, na realidade, é comum as pessoas, desde sua juventude, serem informadas incorretamente sobre as pessoas de outras raças e nacionalidades. As conseqüências são deveras tristes.
Os seguintes relatos pessoais indicam isto. Em um deles, uma pessoa de cor descreve o que significa ser vítima do preconceito e da discriminação raciais, todavia, conta como encontrou a solução para este problema. Primeiro, contudo, volte sua atenção para a história dum branco. Ilustra como os preconceitos não raro são transmitidos de uma geração para outra, mas mostra as mudanças e benefícios saudáveis que podem ser feitos por uma pessoa ao obter informações exatas de uma fonte correta.
-
-
Sulista branco acha soluçãoDespertai! — 1978 | 22 de março
-
-
Sulista branco acha solução
Nasci como pessoa branca, e fui criado bem no coração do Sul, nas décadas de 20 e 30. A segregação estava escrita, não só na lei do país, naquela época, mas nos corações de minha família e de nossos vizinhos brancos. Desde a juventude, a inferioridade da raça negra foi instilada em nós, de modo que era somente natural crer nisto. Todo o mundo cria. Ademais, ao crescermos, vimos o que parecia ser prova disso. Por um lado, os negros são de cor. Não importa quanto se lavem, não podem livrar-se desta evidência de que são a ‘raça amaldiçoada’, segundo nossa gente mais idosa apontava.
Quando se lhes dava algum trabalho, havia sempre um capataz branco para lhes dizer o que fazer e como fazê-lo. ‘São broncos demais para fazer qualquer coisa que exija inteligência’, era a razão dada. ‘Os negros devem situar-se em algum lugar entre os macacos e os humanos, sendo realmente sub-humanos’, diziam-nos.
Ao cursar a escola, a teoria da evolução fortalecia tais idéias. Amiúde os negros eram ridicularizados como não sendo nada mais do que “animais”, apropriados apenas para fazer trabalhos simples, porém árduos, nas fazendas ou como empregados domésticos. Alguns até mesmo diziam que Deus evidentemente criara uma raça para serem criados, não sendo tão inteligentes quanto eram fortes, e capazes de trabalhar duro sob o sol inclemente. Que importava, então, se, ocasionalmente, quando ele tentava provar seu valor e sair de seu lugar, designado por Deus, tornava-se necessário colocar um negro ‘em seu devido lugar’ por meio dum carão ou até mesmo por pancada?
Sim, até mesmo as igrejas incentivavam esta atitude, visto que não permitiam que os negros se reunissem em adoração conosco. Eles possuíam suas próprias igrejas, amiúde simples barracos no meio duma trilha de algodão. Ali se nos dizia que os ofícios deles eram mais sessões de gritarias e cânticos do que sermões significativos e aulas da escola dominical.
Nos círculos de tagarelice sussurrada, o tema amiúde se voltava para ‘o modo em que vivem — apenas um pouquinho acima dos animais’. Casos de imoralidade e de filhos ilegítimos eram apontados. Ninguém se importava que o homem ou a mulher não se incomodava em obter um divórcio a fim de começar a viver junto com novo companheiro. Tudo isso fazia parte de sua mentalidade, dizia-se. Não nos contavam como, durante a escravidão, há apenas algumas gerações, as famílias de cor eram rompidas e vendidas a diferentes amos, ou como certos senhores de escravos usavam um escravo bem constituído, fisicamente, para inseminar suas escravas, a fim de produzir descendentes para o mercado escravista.
Lembro-me de certa vez manobrar uma serra de traçar junto com um negrinho da minha idade, para abater uma árvore. Quando ele começou a sentir calor, realmente fedia! Ah, imaginei, isto prova aquilo que dizem quanto aos negros terem um cheiro de corpo peculiar. Mas nem parei para pensar que, ao passo que eu tomara banho naquele dia, ele tinha um banheiro precaríssimo em sua casa humilde. Também, a falta de treinamento familiar inicial, quanto à higiene, provavelmente reduzira seu incentivo de banhar-se com freqüência.
É óbvio que as atitudes predominantes dos brancos em minha volta, quando eu cresci, exerceram seu efeito sobre mim. Quando comecei a estudar com as Testemunhas de Jeová, na minha adolescência, havia por vezes uma luta para harmonizar meu modo de pensar com o que a Bíblia ensina sobre as raças. O preconceito é difícil de se “desaprender”. Lembro-me dos sentimentos confusos que possuía, ao fazer ajustes em meu modo de pensar.
Há uma tendência natural de apegar-nos aos velhos conceitos, mas eu ficava realmente contente, no íntimo, cada vez que se abalava um velho mito. Fortalecia a fé ver como a Bíblia é verdadeira nesta questão das raças, como eu já sabia que era verídica e fidedigna em outros assuntos. Todas as raças tinham descendido de um único homem, Adão; todas são iguais à vista de Deus. Nenhuma foi amaldiçoada por Deus. E, quanto mais eu via como são tratados os negros e até mesmo outras raças ao redor do mundo, tanto mais se tornou claro, para mim, que quaisquer desigualdades quanto a aptidões, inteligência, etc., têm de ser atribuídas primariamente, se não inteiramente, às privações que sentiram, oriundas do preconceito.
Ao trabalhar com negros e brancos, recrear-me, estudar e adorar a Deus junto com eles, por mais de trinta anos, verifico não existir nenhuma razão para que uma raça se considere superior a outra. O amor a Deus e o genuíno amor, sem hipocrisia, pelo próximo, é a única solução para a questão do preconceito racial.
-
-
Sulista negro acha soluçãoDespertai! — 1978 | 22 de março
-
-
Sulista negro acha solução
Fui criado no Sul, em fins da década de 40. Minha família era paupérrima, como a maioria das famílias de cor. Papai era um trabalhador do campo. Nunca me ensinaram que os negros fossem inferiores aos brancos, embora fosse bem evidente que os brancos detinham tal conceito.
Meus pais me explicaram, e também aprendemos em nossa escola segregada, que os negros sofriam opressão desde que vieram como escravos para os Estados Unidos. Disseram que, muito embora fôssemos supostamente livres e iguais, tudo era feito para manter-nos como cidadãos de segunda classe, inferiores aos brancos. Papai me disse que, quando garoto, nem ousava olhar nos olhos de um branco, enquanto falava com ele. Disse que sua cabeça tinha de ficar curvada um pouco, e tinha de responder “Sim, Sr.” ou “Não, Sr.”, com medo de represália. Até mesmo chegou a contar-me de ter ido à cidade e um branco ter atirado junto a seus pés, bradando: “Dance, negrão!”
Assim, estava preparado para sofrer maus tratos e discriminação. Mesmo assim, isso doía. Éramos obrigados a viajar na parte de trás dos ônibus, e, não raro, ir à porta dos fundos ou a uma janela dum restaurante para ser servidos. E, nos lugares públicos, havia banheiros com letreiros de “brancos” e “pretos”, o de pretos, naturalmente, sendo de qualidade inferior. Certo dia, em meados dos anos 60, fui a uma cavalariça e me foi dito: “Há um dia certo para vocês.” Havia bastante cavalos, mas não podíamos cavalgar junto com brancos.
Especialmente frustrador para mim era o ciclo econômico vicioso em que os negros eram mantidos pelos brancos. No passado, devido à escravidão e segregação forçada, os negros sofriam limitações quanto à educação, e oportunidades de emprego, e, assim, não podiam melhorar sua condição econômica ou sua vida familiar. Até em tempos recentes, em virtude da falta de instrução ou discriminação, um pai negro amiúde não conseguia sustentar adequadamente sua família, quer materialmente quer em sentido educacional.
Na época em que comecei a freqüentar a escola, muitos negros tinham chegado à conclusão de que o único meio de se aprimorarem era obtendo uma boa educação. Lembro-me de meus mestres sublinharem isto, afirmando: ‘Estude, eduque-se bem, de modo a não ter de trabalhar nos campos depois de terminar seu curso de 2.º grau.’ Não era o trabalho árduo que era objetável. Não, mas era trabalhar de sol a sol por mísero salário, acabando sem se ter nada para mostrar por ele.
Era o sistema que desanimava a muitos negros. Alguns, que se tornaram frustrados por não conseguirem empregos, voltaram-se para o álcool, os tóxicos e o crime, para dar vazão às suas frustrações. Isto somente apoiava os argumentos dos brancos de que as pessoas de cor são indolentes e preguiçosas. Geraram em mim profundo senso de ressentimento contra a perpetuação do sistema econômico injusto e cruel.
Comecei a imaginar: Será que a boa instrução realmente me livrará dessas injustiças? Mudará as atitudes básicas dos brancos para comigo? Tais indagações me causavam muita consternação. No entanto, envolver-me num estudo da Bíblia com as Testemunhas de Jeová ajudou-me a ver a verdadeira razão das injustiças raciais, tão prevalecentes. Também aprendi que a oração que me ensinaram quando criança oferece a única esperança duradoura de alívio — o reino de Deus. — Mat. 6:9, 10.
Dos meus estudos bíblicos pude depreender que todos os homens são imperfeitos e nem sempre tratam outros do modo como deviam. Como diz a Bíblia: “Homem tem dominado homem para seu prejuízo.” (Ecl. 8:9) No entanto, a associação com as Testemunhas de Jeová ajudou-me a ver que elas têm o mesmo conceito sobre raça que a Bíblia delineia. Realmente crêem que Deus “fez de um só homem toda nação dos homens, para morarem sobre a superfície inteira da terra”. (Atos 17:26) Deveras, as Testemunhas demonstram o amor que Jesus disse seus verdadeiros seguidores teriam. — João 13:34, 35.
As Testemunhas, segundo verifiquei, praticam esse amor entre si, qualquer que seja sua raça. Na verdade, como se dá com outros criados neste sistema, talvez outros tenham inculcado nelas o ódio e o ressentimento raciais. Mas, segundo observei, tanto comigo mesmo como com outros, quando a pessoa aceita o conceito de Deus sobre as diferenças raciais e se empenha em familiarizar-se de perto com pessoas de diferentes raças, dissolvem-se os mitos, há muito existentes, baseados em preconceitos.
Sou grato por ter aprendido as verdades bíblicas, que ajudam a mim e à minha família a ficar livres de tais problemas raciais. Sentimo-nos felizes de nos manter ocupados em ajudar outros, de todas as raças, a ver que o reino de Deus é a verdadeira solução para todos os problemas do homem.
Solução Disponível a Todos
Estas histórias não são raras, ou incomuns. Milhões aprenderam a ter preconceitos desde sua juventude; outros milhões têm sido vítimas do preconceito e, em resultado, têm sofrido injusta discriminação racial. Todavia, felizmente, a Palavra de Deus tem a solução — fornece o conceito de nosso Criador sobre a humanidade, e como devemos tratar uns aos outros.
Primeiro, como vimos, a Bíblia ensina que somos todos uma só família humana. Sim, à vista de Deus, os humanos de toda raça ou nacionalidade são iguais, em todos os sentidos. (Atos 10:34, 35) Este é também o conceito que Jesus Cristo expressou.
A principal ordem de Cristo para seus seguidores foi a de ‘amarem uns aos outros’, assim como ele os amou. (João 13:34, 35) Este amor entre eles não devia ser algo exclusivo — apenas aos membros de determinada raça ou raças. De jeito nenhum! “Tende amor à associação inteira dos irmãos”, instou um dos apóstolos de Cristo. E outro disse: “Quem não ama o seu irmão, a quem tem visto, não pode estar amando a Deus, a quem não tem visto.” — 1 Ped. 2:17; 1 João 4:20.
Como é demonstrado este amor cristão? A Palavra de Deus explica como, ao instar: “Tomai a dianteira em dar honra uns aos outros.” (Rom. 12:10) Pense no que significará isto, ao praticá-lo. Tratará os outros, sem considerar sua raça ou nacionalidade, com verdadeira dignidade e respeito, considerando-os “superiores a vós”. (Fil. 2:3) Quando existe tal espírito de genuíno amor cristão, equaciona-se o problema do preconceito racial.
‘Isto é algo que jamais acontecerá’, talvez objetem alguns. Todavia, já aconteceu entre as Testemunhas de Jeová — numa organização de mais de dois milhões de pessoas! Não se quer dizer com isso que cada uma das Testemunhas de Jeová se tornou perfeitamente livre dos preconceitos cultivados por este sistema ímpio. Não, mas elas, num grau inigualado por qualquer outro povo na terra, solucionaram este problema racial. E isto se torna patente para qualquer pessoa que investigue o assunto.
À guisa de exemplo, o escritor católico, William J. Whalen, observou em U. S. Catholic, de julho de 1964: “Creio que uma das caraterísticas mais atraentes deste culto tem sido a sua diretriz tradicional sobre a igualdade racial. Os negros que se tornam Testemunhas de Jeová sabem que serão bem acolhidos como plenos seres humanos.”
Também, G. Norman Eddy, depois de um estudo intensivo das Testemunhas de Jeová, escreveu na publicação religiosa, Journal of Bible and Religion (Revista da Bíblia e da Religião): “Penetrando mais a fundo em seus valores sociais, fico impressionado com a sua genuína consideração elevada para com as pessoas de todas as raças. Dessemelhantes de alguns que adotam a doutrina da fraternidade racial apenas da boca para fora, as Testemunhas acolhem a todos na sua sociedade — até mesmo em cargos de destacada liderança — sem referência à cor ou à feição.”
É alguém que anseia a verdadeira fraternidade, ver pessoas de todas as raças vivendo juntas em paz? Animamo-lo, então, a freqüentar, na sua localidade, um Salão do Reino, onde as Testemunhas de Jeová reúnem-se regularmente para estudar a Palavra de Deus. Veja por si mesmo se elas não demonstram genuíno amor cristão — a pessoas de todas as raças.
[Destaque na página 27]
“Os negros que se tornam Testemunhas de Jeová sabem que serão bem acolhidos como plenos seres humanos.”
-
-
São os negros amaldiçoados por Deus?Despertai! — 1978 | 22 de março
-
-
Qual É o Conceito da Bíblia
São os negros amaldiçoados por Deus?
MUITOS líderes religiosos respondem que “Sim”. Os clérigos Robert Jamieson, A. R. Fausset e David Brown, em seu comentário bíblico, asseveram: “Maldito seja Canaã [Gênesis 9:25] — esta maldição se tem cumprido na . . . escravização dos africanos, os descendentes de Cão.” — Comentary, Critical and Explanatory, on the Whole Bible (Comentário, Crítico e Explicativo, de Toda a Bíblia).
Afirma-se que não só a escravização dos negros cumpria tal maldição bíblica, mas que sua cor preta também. Assim, muitos brancos foram levados a presumir que os negros são inferiores, e que Deus propôs que fossem servos dos brancos. Muitos negros ficaram amargurados pelo tratamento recebido, em resultado desta interpretação religiosa. Uma delas observa:
“Era o verão de 1951 quando eu, menina curiosa de 7 anos, sentei nos degraus da Primeira Igreja Batista em ‘Sheepshead Bay’, Brooklyn, e chorei. Tentara diligentemente esfregar a negritude de minha pele até ela sair, porque minhas coleguinhas brancas tinham comentado que era repulsiva. Esfregá-la com detergente Ajax apenas deixou uma mancha vermelha, inchada, que doía, quase tanto quanto meu coração infantil, quando comecei a ponderar por que um Deus de amor me tinha feito negra, a menos que não me amasse.
“Tinha ouvido dizer que isso era devido a uma maldição imposta por Deus à nossa raça. Mas, não conseguia entender ou compreender o que havíamos feito a Deus para merecer tal castigo. E acho, refletindo, que no fundo do coração eu sempre nutri um ressentimento particular contra Deus por me fazer negra e me colocar num mundo branco.
“Nos distúrbios esmagadores das zombarias e epítetos raciais de minhas coleguinhas, tais como: ‘Se é branca, é linda criança; se é morena, só nos dá pena; se negra é, aqui não ponha o pé’, surgiu uma condição marcada, em que comecei a ferver de raiva, especialmente diante de meninas brancas da minha idade.”
Que dizer dessa maldição bíblica? São negras as pessoas por causa duma maldição imposta por Deus a algum ancestral delas? E sofreram os negros séculos de escravidão em cumprimento desta maldição? Ensina realmente a Bíblia tais coisas? Vejamos. O relato bíblico em pauta reza:
“E [Noé] bebeu do vinho, e embebedou-se; e descobriu-se no meio de sua tenda. E viu Cão, o pai de Canaã, a nudez do seu pai, e fê-lo saber a ambos os seus irmãos fora. . . . E despertou Noé do seu vinho, e soube o que seu filho menor lhe fizera. E disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos. E disse: Bendito seja o Senhor Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo. Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo.” — Gên. 9:21-27, Tradução Almeida.
Tem-se afirmado que esta maldição bíblica marca os negros para a servidão perpétua. Com efeito, em 1838, o realizador duma cruzada anti-escravista, Theodore Weld, escreveu num tratado popular: A “profecia de Noé [supracitada] é o vade-mécum [companheiro constante] dos senhores de escravos, e eles jamais se aventuram a sair sem ele”. — The Bible Against Slavery (A Bíblia Contra a Escravidão), página 66.
Mas, primeiro de tudo, queira notar que nada se diz neste relato bíblico sobre alguém ser amaldiçoado com a negritude de pele. E, observe, também, que foi Canaã, e não seu pai Cã, que foi amaldiçoado. Canaã não tinha pele negra, nem seus descendentes, que se fixaram na terra que se tornou conhecida como Palestina. (Gên. 10:15-19) Os cananeus, com o tempo, foram subjugados pelos israelitas, descendentes de Sem, e, mais tarde, pela Medo-Pérsia, Grécia e Roma, descendentes de Jafé. Tal subjugação dos cananeus cumpriu a maldição profética sobre seu ancestral, Canaã. A maldição, assim, nada teve que ver com a raça negra.
De onde, então, proveio a raça negra? Dos outros filhos de Cã, Cus e, provavelmente, também de Pute, cujos descendentes se fixaram na África. Mas, como vimos, a Bíblia não diz absolutamente nada sobre os descendentes negros de tais homens serem amaldiçoados! Todavia, presumiu-se incorretamente que assim o foram. Quando é que os comentaristas eclesiásticos começaram a aplicar a maldição a Cã?
Um eclesiástico de uns 1.500 anos atrás, Ambrosiaster, aplicou-a assim, dizendo: “Devido à sua tolice, Cã, que tolamente zombou da nudez de seu pai, foi declarado escravo.” E John F. Maxwell observa em seu recente livro Slavery and the Catholic Church (A Escravidão e a Igreja Católica): “Este exemplo desastroso de exegese [explicação] fundamentalista continuou a ser usado por 1.400 anos e levou ao conceito amplamente expendido de que os negros africanos foram amaldiçoados por Deus.”
Até mesmo há uns cem anos atrás a Igreja Católica detinha o conceito de que os negros foram amaldiçoados por Deus. Maxwell explica que este conceito “aparentemente sobreviveu até 1873, quando o Papa Pio IX associou uma indulgência à oração em favor dos ‘desgraçados etíopes da África Central, para que o Deus Todo-poderoso remova inteiramente a maldição de Cã de seus corações’”.
Todavia, mesmo antes do começo da cristandade há mais de 1.500 anos atrás, sim, possivelmente mesmo antes de Jesus Cristo viver na terra, os rabinos judeus ensinavam uma estória sobre a origem da pele negra. Afirma a Encyclopœdia Judaica: “O descendente de Cã (Cus) tem pele negra como castigo por Cã ter tido relações sexuais na arca.”
“Estórias” similares foram inventadas nos tempos modernos. Os defensores da escravidão, tais como John Fletcher, de Luisiana, EUA, por exemplo, ensinavam que o pecado que motivou a maldição de Noé fora o casamento inter-racial. Afirmava que Caim fora assolado com a pele negra por matar seu irmão, Abel, e que Cã pecara por se casar com alguém da raça de Caim. É digno de nota, também, que Nathan Lord, presidente da Faculdade Dartmouth, no último século, atribuiu também a maldição de Noé sobre Canaã, parcialmente, ao “casamento misto proibido [de Cã] com a raça previamente iníqua e amaldiçoada de Caim”.
Mas, tais ensinos não têm nenhuma base na Bíblia. E houve gente, nos séculos passados, que mostravam que a maldição proferida por Noé estava sendo aplicada erroneamente aos negros. À guisa de exemplo, em junho de 1700, o Juiz Samuel Sewall, de Boston, EUA, explicou: “Pois Canaã é a pessoa amaldiçoada três vezes, sem se mencionar Cã. . . . Ao passo que os da raça negra [em inglês, Blackmores] não descendem de Canaã, mas de Cus.”
Também, em 1762, certo John Woolman publicou um tratado em que argumentava que a aplicação desta maldição bíblica, de forma a justificar a escravização de pessoas e privá-las de seus direitos naturais, “é uma suposição embrutecida demais para ser admitida pela mente de qualquer pessoa que sinceramente deseje ser governada por sólidos princípios”.
Imensos danos resultaram da aplicação errônea, por parte de eclesiásticos, desta
-