Ressurge velho padrão de intolerância
POR um período de três anos, de 1972 a 1975, Moçambique era um abrigo protetor para mais de trinta mil testemunhas de Jeová do país vizinho de Malaui. Obrigados, pela perseguição violenta, a fugir de sua terra natal, estes homens, mulheres e crianças malauis encontraram certa medida de paz em dez campos de refugiados em Moçambique. Relatórios recentes revelam que, ao se escrever este artigo, considerável número deles ainda encontram refúgio ali. As testemunhas de Jeová em toda a terra mostram-se gratas por tudo isso ao povo de Moçambique.
A intensidade do ataque que agora é lançado por alguns elementos contra nativos moçambicanos que são testemunhas de Jeová, contudo, ameaça converter um abrigo protetor num crisol de brutal opressão.
Em Moçambique, as rádios e os jornais derramaram um dilúvio de propaganda contra as testemunhas de Jeová. São representadas como “agentes deixados pelo colonialismo português”, “antigos ‘Pides’ [polícia secreta portuguesa]”, cujo alvo é “deturparem a Ordem Social”. (Notícias, 9 de outubro de 1975) Foi dito que elas ‘apegavam-se ardentemente a um fanatismo religioso . . . como meio de não pagar impostos, de não mostrar respeito pela Ordem Social e de aniquilar a mobilização e organização do Povo’, a fim de atingir a “anarquia”, segundo A Tribuna, de 22 de outubro de 1975.
Compare isso com outro relato de diferente fonte de informações. Refere-se a uma ocasião em que uma turba agitara uma cidade, criando um tumulto, e uma multidão de pessoas se juntara diante das autoridades da cidade, bradando: ‘Aqueles que andam revolucionando o mundo inteiro vieram também para cá e todos contrariam os decretos.’
Este último relato é dum evento que se deu há dezenove séculos atrás. E as acusações foram lançadas contra o apóstolo cristão, Paulo, e seu companheiro Silas. (Atos 17:6, 7, Com. Taizé, Edições Loyola) Tais palavras proferidas então eram mentiras, eram totalmente falsas.
Tais palavras são totalmente falsas hoje, quando ditas a respeito das testemunhas de Jeová, que são bem conhecidas como cristãos acatadores da lei em cerca de 200 terras do globo. As acusações que confrontam hoje em Moçambique são, basicamente, as mesmas acusações lançadas contra os cristãos primitivos no primeiro século. E é a mesma intolerância que faz sofrer os verdadeiros cristãos agora.
O padrão de intolerância em Moçambique não começou com a mudança de governo em 1975. E isto expõe a falsidade das afirmações de que as testemunhas de Jeová ali, de alguma forma, sirvam aos interesses do colonialismo português. As realidades mostram que nada poderia estar mais longe da verdade.
No decorrer dos últimos quarenta anos, as testemunhas de Jeová em Moçambique sentiram as chicotadas da intolerância ditatorial. Sofreram muitos tratamentos brutais às mãos da PIDE (polícia secreta portuguesa). Veja agora o que revelam os fatos históricos:
Testifica o Registro Histórico
Foi lá atrás, em 1925, que alguns moçambicanos que trabalhavam nas minas de ouro da África do Sul obtiveram algumas publicações das testemunhas de Jeová que explicavam os ensinos da Bíblia. Alguns dos homens, ao voltarem naquele ano para suas casas em Vila Luísa (ao norte de Can Phumo, antiga Lourenço Marques, a capital de Moçambique), começaram a falar a seus vizinhos sobre as coisas que haviam aprendido.
Assim, nativos moçambicanos, e não missionários estrangeiros ou agentes portugueses, introduziram no país a mensagem sobre o reino de Deus, que as testemunhas de Jeová anunciam em toda a terra.
Durante o regime do ditador português, António Salazar, em 1935, duas Testemunhas da África do Sul, Fred Ludick e David Norman, entraram no país para cooperar com as Testemunhas moçambicanas em sua atividade. O que aconteceu? Logo foram presos pela polícia portuguesa e deportados. Esforços similares em 1938 e 1939 trouxeram os mesmos resultados: deportações imediatas.
Nessa época, contudo, as autoridades portuguesas foram mais além. Começaram a prender os moçambicanos que recebiam a revista A Sentinela. Alguns passaram até dois anos na cadeia antes de serem julgados. Alguns foram deportados para a colônia penal de São Tomé por doze anos! Outros receberam uma sentença de dez anos em campos de trabalho forçado na parte norte de Moçambique.
Esta oposição severa sob o regime ditatorial de Salazar testou a coragem e a perseverança das testemunhas de Jeová em Moçambique. Quando se reuniam para estudar juntos a Bíblia, sempre corriam perigo de prisão. Com o passar dos anos, muitas foram presas, espancadas, detidas na cadeia ou enviadas a ilhas penais.
Mostraram-se baldados os esforços de conseguir alívio. Em 1955, uma das testemunhas de Jeová da Inglaterra, John Cooke, foi enviado a Moçambique para solicitar o reconhecimento oficial da obra das testemunhas de Jeová. Com o tempo, foi levado à presença dum inspetor da polícia secreta (PIDE) e submetido a longo interrogatório. Foi acusado de ser comunista e de realizar reuniões secretas. Embora a entrevista convencesse a autoridade de que as testemunhas de Jeová não são comunistas, ele disse a Cooke: “Mesmo assim, vocês são contra a Igreja Católica, e a Igreja Católica é a nossa igreja. Ela nos ajudou a construir o Império Português!” Deram a Cooke 48 horas para abandonar o país.
O diário de Moçambique, Notícias, de 9 de outubro de 1975, cita o líder da Frelimo e Presidente de Moçambique, Samora Machel, como propondo a pergunta (em Massingir, Moçambique): “Quando nós éramos amarrados e batidos pelo colonialismo português, onde estavam essas testemunhas de Jeová?” Onde estavam? A resposta de muitas testemunhas de Jeová é que estavam presas nessa época pelas mesmas autoridades portuguesas!
Francisco Zunguza, por exemplo. Foi preso em Can Phumo em 1956 por seis meses; em 1964, por três meses; em 1965, por um ano; e, em 1969, foi lançado na prisão de Machava por mais de dois anos. Sua esposa e outras dez Testemunhas também foram detidas nessa ocasião. Tudo isso simplesmente porque eram testemunhas de Jeová, e não por qualquer ato notório ou sedicioso contra o governo português.
De 1969 em diante, a polícia secreta portuguesa (PIDE) intensificou sua ação contra as testemunhas de Jeová. Vez após vez, foram detidas e interrogadas. E qual era a principal crítica que a polícia secreta apresentava contra as Testemunhas? A de que se recusavam a tomar parte na luta contra a Frelimo, o partido revolucionário que já se achava então ativo e que agora constitui o governo de Moçambique!
As testemunhas de Jeová deixavam clara sua neutralidade com respeito a toda política e guerra das nações. Sua posição se achava em plena harmonia com as palavras de Cristo Jesus, proferidas ao governador romano, Pôncio Pilatos: “Meu reino não faz parte deste mundo. Se o meu reino fizesse parte deste mundo, meus assistentes teriam lutado para que eu não fosse entregue.” — João 18:36.
Nesse mesmo ano, 1969, os anciãos das congregações das testemunhas de Jeová no sul de Moçambique foram chamados às delegacias. Foi dito a tais anciãos que as atividades e as reuniões das testemunhas de Jeová estavam proscritas. Embora passando graves dificuldades, conseguiram fazer avançar a obra, agindo em harmonia com a posição dos apóstolos de Cristo Jesus quando as autoridades em Jerusalém tentaram obrigá-los a obedecer à proscrição de sua atividade. Os apóstolos se viram confrontados com a escolha de obedecer às autoridades judaicas ou obedecer à ordem de Deus. Embora fossem pessoas acatadoras da lei, disseram com galhardia que, em tal caso de ordens conflitantes: “Temos de obedecer a Deus como governante antes que aos homens.” — Atos 5:29.
Em 1969, a queixa era de que as testemunhas de Jeová não lutavam contra a Frelimo. Mas, em 1973, a polícia secreta (PIDE) prendeu várias Testemunhas, e, desta feita, a acusação era de que apoiavam a Frelimo! Sob tal acusação, em 5 de março de 1974, uma Testemunha, pai de três filhos, foi colocado em pequena cela na prisão de Machava. Foi mantido na solitária por dois meses, sem ter nada, senão o chão, para dormir. O seu caso é apenas um dentre muitos casos similares de tratamento injusto durante os anos finais do regime português em Moçambique.
Com o Fim do Colonialismo — Haverá Maior Luz de Liberdade ou Continuarão as Trevas da Intolerância?
Veio o 25 de abril de 1974. Quase que da noite para o dia, a situação política em Portugal e seus domínios ultramarinos mudou dramaticamente. Um golpe em Lisboa pôs fim a 48 anos de regência ditatorial e abalou o império português.
As perspectivas de maior liberdade em Portugal e seus territórios ultramarinos pareciam ótimas. O povo de Moçambique se regozijou. As próprias testemunhas de Jeová ficaram imaginando se poderiam sair de um túnel longo e escuro de cerca de quarenta anos de perseguição.
Foi estabelecido um governo interino em Moçambique, em preparação para a completa transferência de poder às forças da Frelimo em junho de 1975. Nesse período de relativa liberdade, as testemunhas de Jeová puderam realizar abertamente seus estudos bíblicos. Até mesmo realizaram grandes assembléias a que o público foi convidado.
Em abril de 1975, pela primeira vez, puderam realizar uma assembléia mista de africanos e brancos em Can Phumo. Isso teria sido impossível sob a ditadura portuguesa. As Testemunhas ficaram contentes de poder gozar do companheirismo cristão livre de qualquer separação racial.
Mas, então, as forças políticas começaram a dar muita ênfase a demonstrações externas de apoio político. (Grupos ativistas andavam de uma parte para outra, concitando todos, a comparecer às reuniões políticas em que os assistentes de viam bradar “Viva a Frelimo!”, e erguer seu punho direito (como na saudação comunista).
Que posição assumiram as testemunhas de Jeová? Permaneceram apolíticas. Assumiram a mesma posição que as testemunhas de Jeová assumiram na Itália durante o regime de Mussolini, em que se esperava que o povo bradasse “Viva il Duce!” e fizesse a saudação fascista. Fizeram como haviam feito as testemunhas de Jeová na Alemanha quando se esperava que todos gritassem “Heil Hitler!” e fizessem a saudação nazista. Agiram como tinham feito seus irmãos nas terras ocupadas pelos nipônicos durante a segunda guerra mundial, quando se ordenava ao povo que se curvasse em adoração ao imperador nipônico.
Sim, a sua posição era a mesma que a assumida na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos, em Portugal, na Espanha e em todo outro país na face da terra. Mantiveram a neutralidade cristã nos assuntos políticos, não importa que dificuldades a sua recusa de bradar lemas políticos ou fazer saudações políticas lhes pudesse trazer. Milhares passaram anos nos campos de concentração nazistas ou em duros campos de trabalhos forçados na Sibéria.
Mas, como em todos os outros países ao redor do mundo, as testemunhas de Jeová em Moçambique continuaram a mostrar pleno respeito pelas autoridades do Estado, em harmonia com a ordem da Bíblia em Romanos 13:1. E mostraram isso por continuarem a pagar fielmente seus impostos, sem tentativas de sonegação, por continuarem a ser trabalhadores laboriosos e fidedignos, e por continuarem a ser cidadãos acatadores da lei. Não mostraram reservas a quaisquer leis, a menos que estas estivessem em patente oposição às próprias leis de Deus, conforme exaradas em sua Palavra, à Bíblia. Qual foi o resultado?
Na Constituição da República Popular de Moçambique, que entrou em vigor em 25 de junho de 1975, o artigo 33 reza:
“As liberdades individuais são garantidas pelo Estado a todos os cidadãos da República Popular de Moçambique. Tais liberdades incluem a inviolabilidade do lar e a privatividade da correspondência, e não podem ser limitadas, a menos em casos especiais, providos pela lei.
“Na República Popular de Moçambique, o Estado garante a seus cidadãos a liberdade de praticarem ou não praticarem sua religião.”
O Artigo 25 da Constituição declara:
“Na República Popular de Moçambique, ninguém pode ser preso e submetido a julgamento exceto nos termos da lei. O Estado garante ao acusado o direito de defesa.”
Têm essas palavras um significado real? O que aconteceu às testemunhas de Jeová em Moçambique torna essa uma grave questão.
Cerca de um mês antes da proclamação da plena independência, num lugar chamado Chonguene, há alguns quilômetros da vila de João Belo, a congregação local das testemunhas de Jeová estava reunida no domingo para seu estudo bíblico regular. Um grupo de pessoas, católicos romanos e protestantes, em caminho para uma reunião política, chegaram à reunião de estudo bíblico, interromperam-na e perguntaram aos presentes por que não compareciam à reunião política. Ameaçando as Testemunhas, partiram.
Alguns dias depois, em 23 de maio, utilitários da polícia, transportando soldados da Frelimo, chegaram e prenderam seis dos que tinham assistido à reunião bíblica das Testemunhas. O comandante mandou que seus homens surrassem e chutassem esses seis homens e os levassem para a prisão.
Na prisão, tais homens foram espancados diariamente, no esforço de obrigá-los a dizer “Viva a Frelimo!” Três deles eram apenas recém-interessados e não eram Testemunhas batizadas. Estes três cederam sob os espancamentos. Os três que eram Testemunhas batizadas recusaram-se firmemente a violar suas consciências cristãs. Foram então levados para fora e se lhes mandou que cavassem um buraco o bastante profundo para ficarem em pé dentro dele. Obrigados a ficar em pé no buraco, com apenas suas cabeças à mostra, foi-lhes dito que se ainda recusassem dizer o lema político, seriam fuzilados e enterrados ali mesmo. Elas, permaneceram firmes em sua determinação de não violar sua consciência. Por fim, foram levados de volta para a prisão.
Felizmente, quando este tratamento foi relatado ao Ministro da Defesa em Can Phumo, ele demonstrou surpresa e telefonou ao comandante da Frelimo naquela área. Não demorou muito até que as Testemunhas foram soltas. Este, contudo, era apenas um raio de luz num quadro em geral sombrio.
Daí, no Dia da Independência, 25 de junho de 1975, a nova Constituição entrou em pleno vigor. Será que se tornariam algo do passado os ataques brutais sobre a liberdade de religião, como o que acabamos de relatar? Prevaleceria a atitude progressista, esclarecida, sobre a bitolada intolerância?
Lançada Violenta Campanha
A resposta veio rápido, quase em questão de alguns dias. Uma campanha de vilipêndio contra as testemunhas de Jeová foi lançada por todo o país. Muitos dos ataques assumiram a forma de discursos radiofônicos de governadores distritais e outros políticos.
Às instigações de grupos ativistas, as testemunhas de Jeová em vários lugares foram detidas e levadas à sede da Frelimo para interrogatório. Amiúde eram surradas. Como exemplo, considere o ocorrido com a congregação das testemunhas de Jeová em Choupal, no distrito de Can Phumo, em 13 de setembro de 1975:
Um ancião visitante das testemunhas de Jeová, Elias Mahenye, proferia um discurso bíblico a cerca de 300 pessoas no Salão do Reino da congregação. Perto do fim de seu discurso, os membros do grupo ativista local entraram no salão e tentaram interromper a reunião. Firme, porém delicadamente, foram informados de que a reunião ainda não terminara, e pediu-se-lhes que esperassem.
Mal a congregação tinha dito “Amém” à oração final, quando tais ativistas subiram à tribuna e exigiram que a congregação inteira gritasse “Viva a Frelimo!” Por três vezes a exigência ficou sem resposta. Daí, ordenaram que a congregação permanecesse no salão enquanto mandaram buscar soldados da Frelimo.
Quando o comandante dos soldados chegou, perguntou quem era o padre encarregado. Foi-lhes explicado que as Testemunhas não têm nenhum padre; no entanto, Mahenye identificou-se como aquele que dava o discurso. Ele e outros quatro foram então colocados na tribuna, desnudados da cintura para cima, e mandou-se-lhes gritar “Viva a Frelimo!” Quando não gritaram, foram severamente surrados e então atados com fios elétricos. Os braços de Mahenye ainda apresentam as cicatrizes onde os fios fizeram profundos cortes em seus braços.
Os cinco foram então levados para o quartel do exército vizinho, e Mahenye foi acusado de mandar as pessoas dizer “Abaixo a Frelimo!” — mentira deliberada e maliciosa. Os soldados então o socaram e bateram nele com a coronha dos seus fuzis. Então todos os cinco foram surrados com os cinturões dos soldados. Foram trancados num sujo banheiro durante a noite. Às 4 horas da madrugada, foram retirados dali e surrados de novo. Mahenye foi mentirosamente acusado de ter treinado soldados para combater a Frelimo e recebeu mais uma surra. Mais tarde, foi admitido que esta acusação era infundada.
Quando amanheceu o dia, um sargento da Frelimo chegou e interrogou o grupo. Disse-lhes: “Se não disserem ‘Viva a Frelimo!’, a Frelimo não vai mantê-los no país. Visto que lutaram dez anos, não por Jeová, e não obtiveram nenhuma ajuda de Jeová. Todo o mundo deve dizer ‘Viva a Frelimo!’, porque a Frelimo é o deus de Moçambique, e o segundo deus de Moçambique é o revólver. Não queremos nem ouvir falar de Jeová.”
E que dizer do restante da congregação, inclusive as mulheres, pessoas idosas e crianças, que estavam no Salão do Reino? Foram obrigadas a permanecer ali a noite toda, e o dia seguinte. Muitos foram espancados e amarrados com fios. Nisso, os ‘solda
dos gritavam: “Quem é esse seu Jeová? Por que não vem e os ajuda?”
No período de 24 horas, ninguém, nem mesmo as mulheres ou as crianças, tiveram permissão de dormir, beber água, alimentar-se ou usar o banheiro. As Bíblias e publicações bíblicas usadas nas reuniões foram queimadas. Era como se Moçambique se tornasse a Europa medieval, como se a Idade do Obscurantismo e a Inquisição católica tivessem voltado. Por fim, permitiu-se que as Testemunhas fossem embora, debaixo da ameaça de que, a menos que aprendessem a dizer “Viva a Frelimo!”, piores dificuldades as aguardavam.
Entre outras barbaridades, em Magude, ao norte de Can Phumo, treze Testemunhas foram presas, surradas e obrigadas a escavar árvores com seus próprios dedos. Daí, seus braços e pernas foram amarrados, e foram rodadas de um lado para outro como se fossem barris. Como na Roma antiga, os moradores locais foram convidados a vir e ver o espetáculo de cristãos serem torturados.
Próximo de Manjacaze, vários membros de duas pequenas congregações das testemunhas de Jeová foram detidos. Daí, o governador do distrito de Gaza veio ao local e solicitou-se que as restantes Testemunhas comparecessem a uma reunião pública. Elas obedeceram ao pedido. Depois de discursar sobre as atividades agrícolas locais, o governador subitamente pediu que todas as Testemunhas chegassem à frente. Elas o fizeram. O governador então ordenou que fossem presas, tanto os homens como as mulheres. Foram severamente espancadas, algumas tanto que o sangue jorrava de um ouvido ou dum olho. Então foram levadas presas.
No mesmo distrito de Gaza, um grupo de Testemunhas foram surradas dia após dia, todo dia, por um período de dois meses, no esforço de romper sua integridade!
Mas, todos esses incidentes eram apenas o prelúdio do golpe principal a ser dado. Em questão de semanas, veio a ordem oficial: Todas as testemunhas de Jeová no país inteiro deviam ser presas.
Esta ordem foi executada sistemática e impiedosamente. Os seguidores da Frelimo iam de casa em casa, exigindo que os moradores dissessem “Viva a Frelimo!” Aqueles que não queriam dizê-lo, presumiam eles, eram testemunhas de Jeová e foram presos. Famílias inteiras, inclusive os filhos, foram sem misericórdia arrastadas para fora.
Isto significa que o número de testemunhas de Jeová agora presas em Moçambique atinge milhares. O contato direto com elas se tornou quase que impossível. Algumas Testemunhas, contudo, conseguiram escapar para os países vizinhos. Relataram que as cadeias na área da capital, Can Phumo, estão “lotadas”. Uma vez repletas as prisões, estabeleceu-se um campo especial, perto do Cemitério de S. José, para centenas de Testemunhas. O abrigo era insuficiente para tantas pessoas, grande número delas tendo de dormir ao relento, sem cobertores. Nenhuma comida lhes foi suprida. As autoridades permitem que parentes tragam comida apenas nas quintas-feiras e nos domingos. Tais visitantes compassivos correm eles mesmos o risco de prisão, se recusarem dizer “Viva a Frelimo!”
Os planos oficiais, evidentemente, são de enviar muitos dos varões Testemunhas às aldeias do norte, tais como Nampula e Quelimane. Serão usados, efetivamente, como mão-de-obra escrava na construção de projetos. As crianças serão enviadas a escolas políticas para doutrinação quanto à Frelimo. Anúncios radiofônicos declaram que as Testemunhas que tenham contas bancárias sofrerão o confisco de seus fundos. O governo se apropriará de casas e carros.
Sim, é horrorosa repetição do antigo padrão de totalitarismo. Idolatrar o Estado, através da arregimentação total, o controle total dos pensamentos, sem se permitir o livre exercício da consciência individual, a repetição das práticas nazistas de trabalho escravo, e dos campos de trabalho da Sibéria, a separação forçada de filhos dos seus pais, para doutriná-los na política do partido.
Despachos da imprensa e do rádio trazem declarações tais como “Moçambique não é país de Jeová” e “estes fanáticos ‘Jeovás’ precisam ser reeducados”. Um exemplo do tipo de ‘reeducação’ que alguns favorecem: Depois de ministrar brutal tratamento às Testemunhas, alguns seguidores do partido não só exigiram que as Testemunhas gritassem “Viva a Frelimo!”, erguendo o punho, mas até mesmo tentaram obrigá-las a amaldiçoar a Deus! Exigiram que as Testemunhas também dissessem “Abaixo Jeová!”, baixando fortemente o punho.
Antes de começarem as prisões em massa, cerca de trinta membros da congregação Xinavane das testemunhas de Jeová foram intimados a comparecer e se lhes deu um sermão por várias horas. Quando as Testemunhas explicaram, pela Bíblia, sua razão de se recusarem a envolver-se na política e bradar lemas políticos, o comandante da Frelimo zombou delas, dizendo: “Dou cinco minutos a seu Jeová para derrubar essa casa.” Deixando passar cinco minutos, disse então: “Estou disposto a enfrentar o seu Jeová com um revólver. Os soldados portugueses oraram pedindo a vitória, mas foram derrotados. A Frelimo lutou sem Jeová e ganhou. Derrotaremos Jeová. Não queremos seu nome em Moçambique.”
Quão parecido ao faraó do antigo Egito, que jactanciosamente disse: “Quem é Jeová, que eu deva obedecer à sua voz para mandar Israel embora? Não conheço Jeová, e ainda mais, não vou mandar Israel embora.” — Êxo. 5:2.
Qual, então, é a verdadeira questão em Moçambique?